Monday, December 30, 2013

Porquê agora? Porquê em Volgogrado?

Ainda estou meio incrédulo com o que se passou nas últimas 36 horas. Num curto espaço de tempo a cidade de Volgogrado, localizada no Distrito Federal do Sul da Federação da Rússia, foi sacudida por dois atentados bombistas: no Domingo o ataque aconteceu na estação de comboios matando 17 pessoas; hoje foi na estação de autocarros vitimando, pelo menos, 14 pessoas.

O Comité Investigativo da Rússia diz que os dois atentados podem estar ligados e estou em crer que estarão mesmo. Duas questões têm que ser respondidas: porquê agora? Porquê Volgogrado? Vamos ao agora: os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi (cidade localizada no krai de Krasnodar, no mesmo Distrito Federal em que se encontra Volgogrado) estão a chegar e as forças leais a Dokka Umarov estão activas. Qualquer ligação deste atentado aos activistas Circasses é, tanto quanto consigo apurar, pura especulação.

É importante lembrar que em Julho deste ano, Dokka Umarov, auto-nomeado líder do II Emirato Caucasiano (projecto que visa unir as repúblicas do Cáucaso Norte num só estado, sujeito às leis da sharia), lançou um vídeo em que dizia que a ordem para não atacar fora do Cáucaso Norte estava suspensa. Umarov foi mais longe! No vídeo pedia a todos os mujahideen (guerrilheiros da jihad islâmica) que travassem a "dança satânica dos russos, sobre os ossos dos seus antepassados".

No final de Outubro, uma bombista-suicida (provavelmente uma Viúva Negra) deu a primeira resposta a Umarov ao explodir-se dentro de um autocarro na cidade de... Volgogrado! Seis pessoas morreram e quase 40 ficaram feridas. Na sexta-feira, 28 de Dezembro, uma bomba num carro em Pyatigorsk (a 270km de Sochi) matou três pessoas. O pedido de Umarov, que se considerava fragilizado por lutas internas contra alguns dos seus comandantes inguches, encontrava assim nova resposta.

Ontem e hoje, Volgogrado voltou a ser palco de dois atentados, muito possivelmente ambos com recurso a Viúvas Negras (nome dado à ala de viúvas de bombistas-suicidas, que se decidem sacrificar pela jihad). O timing não podia ser mais perfeito, seguindo o boicote (não assumido!) de altos dignatários da França, da Alemanha, do Reino Unido, dos Estados Unidos, da Lituânia e da Moldova. Umarov quer mostrar a Putin que perde aliados no plano externo e controlo no plano interno.

Mas se o timing está respondido, o alvo fica por explicar. Porquê Volgogrado? Duas razões: simbolismo e localização. Comecemos pela segunda: O oblast de Volgogrado fica entre as repúblicas islâmicas do Cáucaso Norte e as repúblicas islâmicas do Médio Volga o que facilita ataques coordenados. Não deixa de ser curioso que a distância, usando transportes terrestres, entre o Daguestão (Cáucaso Norte) e Volgogrado seja de menos de 960km; e a distância entre o Tataristão (Médio Volga) e o Volgogrado seja de menos de 1050km.

Simbolismo! Um ataque em Rostov-on-Don faria mais sentido. A cidade é não só a capital do Oblast de Rostov mas também é a capital do Distrito Federal do Sul, o mesmo que abarca Sochi; a tal cidade que receberá em 2014 os Jogos Olímpicos de Inverno. Mas Rostov-on-Don é um alvo tão óbvio que Umarov sabia ser mais fácil contornar e apontar armas a Volgogrado.

Mas os ataques em Volgogrado têm um segundo sentido! Em Fevereiro deste ano, o Presidente Putin decretou que a cidade de Volgogrado se chamaria durante seis dias, todos os anos a partir de 2013, de Estalinegrado. Sabendo que Putin é fã de Estaline; sabendo que o ataque em Rostov-on-Don era esperado; Umarov apontou armas a Volgogrado e, diria eu, com muito sucesso.

Dokka Umarov mostrou ser capaz de atacar fora do Cáucaso Norte. O ataque demonstra que a aparente "pacificação" do conflito na Chechénia resultou não apenas num alastrar da violência para as vizinhas repúblicas do Daguestão e da Inguchétia; mas também numa nova vaga de violência na República Pacífica de Kabardino-Balkaria (assim apelidada até 2009) e, ao que parece, num novo ciclo de violência e terror nas repúblicas islâmicas do Médio Volga.

A ameaça feita em vídeo concretizou-se e temo que não se fique por aqui. Nas últimas semanas, Umarov mostrou ser capaz de atacar (simbolicamente!) o burgo de Estaline; o mesmo Estaline das purgas e deportações dos anos 30 e 40; o mesmo Estaline que Putin idolatra. Volgogrado deu a Umarov a hipótese única de "atacar" dois líderes de uma só vez; deu a Umarov a hipótese de atacar o Presente (Putin) e vingar o Passado (Estaline).

O que se segue? É difícil saber o que se segue, mas não devemos excluir mais ataques destes. Desta feita, contudo, com o FSB de olhos postos em Volgogrado é preciso ter atenção nas cidades de Rostov-on-Don, Pyatigorsk, Stavropol, Krasnodar (capital do krai de Krasnodar, no qual se encontra englobada a cidade de Sochi) e Maykop (república-enclave do mesmo krai). Uma coisa é certa, quem dizia que o II Emirato Caucasiano implodiria após o fracassado "golpe palaciano" de Agosto de 2010 estava enganado... E muito...


Thursday, December 26, 2013

Sr. Primeiro-Ministro a Verdade é poliédrica, mas nem tanto!

O Fidalgo preparava-se para escrever sobre o último dia de aulas do semestre. Sobre os desafios que vinham no caminho. Sobre o muito feito e o muito ainda por fazer. Sobre o 2014, mas as notícias vindas de Lisboa mudaram tudo. E de repente o que ia ser um post pessoal, passa a ser um post de (digamos!) esclarecimento e, quiçá, crítica. A ver vamos como corre a escrita...

Li, com espanto, que o Sr. Primeiro-Ministro se congratula de a economia portuguesa estar numa fase melhor. Vejo com espanto que, depois de fazer implodir quase tudo, qualquer pequeno sinal menos negativo parece dar azos a uma euforia disparatada lá para os lados de S. Bento. Como uma criança num cenário pós-ciclónico que após perder tudo se anima por encontrar, no meio dos escombros, um carrito a pilhas, sem telecomando e a faltar-lhe uma roda e tudo...

Diz ainda que estamos a crescer mais do que a Europa. Pausa, para uma ligeira gargalhada. Também nos podemos rir das tragédias... A ver se nos entendemos: se o meu vizinho passou de uma produção de 10 para 15 aumentou apenas 50%; enquanto que eu aumentei 300% só que a minha produção foi de 2 para 6. Será que isto é razão para festejo? Continuo a produzir menos em termos nominais... Continuo a estar atrás do vizinho, que fará 15 vendas enquanto eu me limitarei a 6. Festeja-se o quê mesmo?

Mas a "transformação" de um cenário negro, num cenário cinzento claro ou (com esforço!) prateado continua. Diz o Sr. Primeiro-Ministro que a Economia conseguiu criar 120.000 postos de trabalho; que o desemprego desacelerou porque se criaram os tais 120.000 postos de trabalho. É, contudo, curioso que 120.000 seja o número de portugueses que, sem opção, teve que migrar em 2013, tal como acontecera já em 2012.

Não acha uma falta de respeito, para com quem migrou e para com as famílias destes, tentar vangloriar-se de resultados que não são seus? A economia lusitana não criou 120.000 postos de trabalho Sr. Primeiro-Ministro. Foram 120.000 trabalhadores, muitos dos quais jovens qualificados, muitos dos quais sem perspectivas no presente e sem vontade de regressar no médio-prazo, que abandonaram a economia lusitana.

O único mérito que o Sr. Primeiro-Ministro tem nisto tudo, se é mérito que procura, foi o de "empurrar" uma geração para fora do seu país. E a sangria, ou fuga de cérebros, ou perda de talentos, chamem-lhe o que quiserem, está longe de ter terminado. Andou o país a investir, e bem, nos seus jovens; para esses jovens, agora, irem laborar fora de portas. Agradecem os países de acolhimento, que o sucesso português é como os cogumelos: multiplica-se!

Sempre defendi a ideia de que a Verdade, enquanto conceito, é poliédrica. A expressão não é minha, mas de um colega, mas ajusta-se que nem uma luva ao que penso sobre a Verdade. A Verdade não é dogmática, nem tem apenas uma versão, nem tem apenas um sentido. Mas entre as várias facetas da Verdade e a manipulação transfiguradora vai um fosso enorme que, meu caro Primeiro-Ministro, não deveria ultrapassar.

Depois de um relatório parlamentar (e para lamentar!) ter branqueado a participação de uma Ministra (pálida sombra de um ex-Ministro!), no tal caso das SWAP; assistimos ao triste espectáculo de um Primeiro-Ministro a vangloriar-se pelo que não fez e a querer ver ouro, onde apenas existe latão, e do de má qualidade. A Verdade, repito, é poliédrica, mas os portugueses não são tontinhos. E brincar com a Verdade, por norma, dá mau resultado. Fica o aviso...


Tuesday, December 24, 2013

Natal com neve, com árvore, mas sem lista....

Sempre achei que devia ser espectacular o Natal ter neve. Ver neve cair lentamente, enquanto se abrem os presentes e se comem as filhoses. E o Pai Natal, atento, decidiu conceder-me o desejo. Curiosamente, o Pai Natal não percebeu, talvez culpa minha, que eu queria um Natal com neve, junto dos amigos e da família.

A neve seria apenas acessória... Um elemento decorativo. Mas não fui suficientemente claro naquilo que pedia. Hoje, aqui, tenho neve, tenho frio para manter a neve, mas não tenho família, nem amigos por perto. Mudanças, mudanças, mudanças...

Lembrei-me hoje da transição natalícia para a Adolescência, esse momento deliciosamente confuso em que somos crianças e adultos ao mesmo tempo. Esse momento em que somos "crescidos" demais para ser considerados crianças e "maduros" de menos para sermos vistos como adultos. Esse momento em que mais do que Ser nos construímos no Não-Ser. Não ser criança, nem adulto, sendo algo na mesma...

Lembro-me de como aos catorze anos, orgulho-me de ter sido criança por muito tempo (de que importa acelerar o Tempo? se o tempo, tem tempo para lá chegar!), o Natal foi confuso. Os habituais presentes compostos em 90% por livros e brinquedos transformaram-se num desfilar de roupa, perfumes, sapatos... E, sorte minha, dois livros. Brinquedos? ZERO! Mantive um sorriso no rosto, mas o desencanto em mim era notório.

Aguardei pelo re-começo das aulas, para perceber o que pensavam os meus amigos e colegas de escola. Estavam radiantes com os presentes, mas também eles não tinham recebido nada para brincar. Talvez a culpa fosse minha? Talvez... Mas roupa ia-se comprando ao longo do ano; Natal era para brincar, a regra tinha-me servido bem por treze Natais para quê mudar? Talvez fosse um precalço natalício! Mas aos quinze anos, o Natal não trouxe de novo brinquedos...

Aos poucos percebi que o Natal não tinha que perder a magia, só porque eu perdera os brinquedos. O Natal ia transformar-se e eu teria que me ir adaptando. O Natal, como eu, sofreria metamorfoses. Para controlar o Natal, aos dezassete anos, comecei a fazer listas de presentes. Se o Natal iria perder a doce estabilidade do passado, iria, ao menos, tentar controlar o caos do inesperado. Iria tentar...

Curiosamente roupa não constou das listas até aos vinte e um anos. Acessórios, livros, cd's, dvd's, jogos para PC (isto é, os brinquedos dos crescidos!) chegaram a cobrir 4 páginas escritas com o cuidado de quem não quer perder o controlo. A magia do Natal passava a estar não apenas no espírito da época, mas também na capacidade controlar o incontrolável. Ser surpreendido? Sim, desde que conste da lista.

E aos vinte e sete anos não fiz lista. Aos vinte e sete anos não preciso controlar a noite de 24 de Dezembro, porque será uma noite igual a muitas outras. Aos vinte e sete anos adoraria ser surpreendido pelo Natal, mas o Natal não andará por estas paragens. Sou possivelmente o único habitante de Kirikkale a quem o dia de hoje diz alguma coisa. Sou possivelmente o único que sente uma nostalgia por não estar numa pequena cidade a mais de 3547km deste sítio.

Tenho neve. Tenho uma pequena árvore de Natal. Tenho um anel de jade que comprei para mim mesmo, em Konya. Mas não tenho o resto. Nem a lista fiz. E aos vinte e sete anos o meu Natal resume-se a um sorrir por reviver memórias; a um vaguear pelas redes sociais; a um esperar que chegue o dia em que poderei comemorar (com lista e tudo!) o Natal...

Saturday, December 21, 2013

Zangam-se as comadres... à la turca!

É talvez a primeira vez que o Fidalgo vive um escândalo de dimensões enormes a acontecer fora de Portugal, com o Fidalgo fora de Portugal... Com o Fidalgo no país do escândalo. Pela primeira vez o Fidalgo pode avaliar a importância dos contextos e, neste caso, o contexto é de suma importância.

O escândalo de corrupção que envolve o Halkbank e conta já com uma lista de suspeitos na casa das sete dezenas (e ainda a procissão nem chegou ao Adro!) é grave porque fere a credibilidade das Instituições governativas turcas, afinal até filhos de Ministros estão envolvidos.

O escândalo é grave porque revelou uma rede de corrupção numa escala anormal, porque sejamos honestos os turcos (como os portugueses) há muito que desconfiam da idoneidade de certas instituições. Mas nunca se pensou em algo com esta escala. E acreditem espanto é a palavra de ordem nas ruas. Seja em Ankara, Istambul, Çanakkale, Kırıkkale, Izmir ou Konya.

Mas o escândalo é apenas a cortina de fumo para um braço de ferro entre os dois senhores que dominam a vida politica nas terras que foram conquistadas por Mehmet II: Erdoğan (actual primeiro-ministro) e Gülen (líder de um poderoso movimento islâmico moderado). O escândalo é, antes de mais, um jogo de xadrez que ainda agora começou...

Os dois senhores, curiosamente, foram aliados até há uns dois/três anos. E não sendo possível afirmar que Gülen foi indespensável nas três vitórias de Erdoğan, a maioria dos analistas políticos turcos concordam que sem o apoio tácito de Gülen a vida do actual primeiro-ministro podia ter sido menos fácil.

A razão da cisão entre os dois ainda está por entender, mas o jogo está em curso. Nos tempos mais recentes conto duas jogadas. Erdoğan avançou com uma lei que penaliza as instituições superiores privadas, a maioria das quais controladas por Gülenistas. Gülen, que tem seguidores infiltrados na banca e na polícia, "destapou" este escândalo.

Um resultado imediato do escândalo financeiro, com claros contornos de jogo político, foi o adensar do descrédito dos chamados "partidos tradicionais", perante a juventude. Num fenómeno semelhante ao que vemos em Portugal, Espanha, Itália e Grécia também na Turquia a juventude se sente cada vez menos representada pelos partidos do poder.

Mas, curiosamente, vejo uma vontade maior dos jovens na Turquia (é perigoso o uso das expressão "dos jovens turcos"!) de reformularem o sistema, participando no mesmo. Vejo um desejo, muito curioso, de reformar o sistema por dentro; pela via participativa. E não apenas, como na Europa do Sul, de participar numa parada infinita de protestos e manifestações dos quais 4/5 são desprovidos de conteúdo, de agenda, de verdadeira vontade política.

Voltemos à Turquia! O resultado deste jogo de poder está longe de ser certo, mas para já está a causar um terramoto político, com os Ministros,  Secretários de Estado e Deputados sobre suspeita, e social, com o tema a dominar as conversas, de rua e de café, pela Turquia. Os próximos dias prometem mais novidades... O Fidalgo estará atento!


Monday, December 16, 2013

Assim se passam três meses...

16 de Dezembro! Três meses! Estou há três meses fora de Portugal. Nunca antes estivera tanto tempo fora e com tanto tempo ainda pela frente. Três meses, um terço apenas do tempo que leva a formar uma nova vida, e parece-me contudo que tenho toda uma nova existência. Como se tivesse renascido, sem precisar de morrer...

Há dias pus-me a pensar como tudo mudou. Lembro-me quando em 2005 e 2006 rumei ao Brasil. Na primeira aventura Manaus, na segunda Belo Horizonte. Um mês longe de tudo! Não senti sequer um décimo do que agora corre nas minhas veias. Porque não sou apenas feito de sangue e de lágrimas. Porque algo mais percorre este corpo, talvez seja saudade. Talvez...

Nas aventuras em terras de Vera Cruz eu sabia que, durasse o tempo que durasse, era tudo temporário e voltaria a Portugal. Eu sabia que aquilo era passageiro; momentâneo; fugaz. Agora é diferente! Agora, Portugal tornou-se o momentâneo; o passageiro; o fugaz. Quando chegar a Portugal (ainda faltam 32 dias) sei (lembrar-me-ei a cada segundo) que voltarei para a Turquia. Sei que é aqui que está o definitivo, se é que isso existe.

Definitivo! Nada é definitivo. Eu já quis ser definitivamente tanta coisa, todas tão longe daquilo que sou hoje. Sei, contudo, que estes três meses se multiplicarão; que com eles se multiplicarão as memórias; que com eles se multiplicarão as estórias. E as perdas. Que viverei muita coisa, é certo. Mas que não viverei tantas outras. Que conhecerei um novo mundo, porque deixei para trás o meu reino. E já se passaram três meses.

Há três meses atrás protestava em viva voz se estivessem menos de 10ºC. Agora fico feliz com 0ºC, já que passo dois-três dias sempre com temperaturas negativas. Há três meses atrás aproveitava cada momento para praticar as outras línguas, que não a nativa... Agora vibro só de ouvir palavras que se parecem com o português. Há três meses atrás um bom café era um facilidade. Agora um café, já não peço que seja bom, é um luxo!

Há três meses atrás tinha uma caixinha com amostras de perfumes. 18! Tenho a caixinha desde 2005. Viajou comigo para imenso lado. E, há dois dias atrás, a caixinha ficou vazia. Até a caixinha dos perfumes quer recomeçar; quer uma nova função, agora que não tem perfumes para guardar. São três meses no calendário, mas muito mais na minha vida. Porquê? Não sei, nem sei se quero saber, a resposta... São três meses que valem por três Eras e ponto!

Viverei mais de quatro meses em Kirikkale (os tais 32 dias que restam!) antes de embarcar em Ankara, rumo a Lisboa e depois até Abrantes. Quatro meses e dois dias e pausa! 21 dias de Portugal. De tudo o que é ilusório, mas que sendo ilusório sabe tão bem. Verei os rostos dos meus amigos, da minha família, dos meus conhecidos. E no entanto nada é meu, porque são rostos que não me pertencem. Mas não sendo meus, sabe bem pensar que são.

E assim se passam três meses...


Friday, December 13, 2013

Desculpas a mais, resultados a menos...

O Fidalgo ainda está meio que pasmado, surpreso, incrédulo com as últimas declarações de Christine Lagarde, Directora-Geral do FMI. Descobriu sua Excelência que os programas de ajustamento implementados em Portugal e na Grécia contiveram excesso de austeridade e falta de tempo. Ou seja, descobriu aquilo que venho escrevendo... Austeridade sim, mas de outra forma!

A mesma diz que "é uma questão de honra assumir os erros", o que até não parece mal ao Fidalgo, mas logo em seguida partiu em defesa no que toca à substância dos programas. Ou seja, errou-se mas se pudessemos voltar atrás errar-se-ia outra vez, mas desta feita com mais tempo. Menos mal, se é para errar que se cometam erros novos e não se ateimem nos mesmos.

O curioso "mea culpa" não é, de resto, o primeiro. O Fidalgo ainda se lembra que em Abril de 2012, o FMI avisava que demasiada austeridade podia ameaçar a retoma das economias intervencionadas: Portugal, Grécia e Irlanda. Na altura, e agora, o FMI aponta o dedo à Comissão Europeia por insistir no mesmo caminho de austeridade-a-todo-o-gás. Ou seja assumem-se as culpas pela destruição (desnecessário, lá está!) causada mas, qual criancinha embaraçada, aponta-se logo o dedo: "mas ele errou mais do que eu, mãezinha!"

O discurso revela uma completa hipocrisia institucional, da parte de quem tem demonstrado um total autismo no que toca a ouvir falar em alternativas. Porque existem alternativas! Um discurso meio-pateta, pela parte de quem representa uma instituição enredada numa interpretação errada da lógica dos consensos, definida por Habermas.

O discurso de Lagarde coloca ainda o Fidalgo numa posição nova, a de reconhecer o papel ingrato do Primeiro-Ministro. Podemos discordar de Pedro Passos Coelho em imensas coisas, faço-o quase todos os dias, mas a verdade é que tem defendido o programa, que sabia ser duro e impopular, com um vigor notável. Programas impopulares precisam ser defendidos com pujança, sob o risco de se esborarem na primeira dificuldade!

Ficava-lhe bem, ao mesmo tempo, por vezes, saber ceder aqui e ali; ficava-lhe bem mostrar menos seguidismo, ao que Berlim vai impondo (ou ainda achamos que o BCE e a CE, os outros troikeiros, são independentes?); ficava-lhe bem escolher outros caminhos, mas também aqui dou a mão à palmatória... Para ceder e adoptar novas ideias é preciso uma Oposição à altura, menos demagógica e muito menos eleitoralista, coisa que em Portugal escasseia por estes dias...

Ou seja, anda o Primeiro-Ministro a tentar explicar e defender medidas que lhe são apresentadas, que é deselegante dizer impostas, pelos troikeiros e depois os troikeiros dizem que o programa, que fundamenta as tais medidas, tem erros no desenho? Já todos perceberam que a austeridade-turbo-excel não funciona e todos querem salvar a face, num espectáculo deplorável de meas culpas e de dedos em riste.

Sempre defendi uma austeridade diferente, menos agressiva, a pensar menos em cortes, cortes, cortes, cortes e a fazer reformas com um fôlego diferente; com um envolvimento diferente. O ajustamento deveria ser para prugar os erros e apresentar soluções e não para abrir caminho a um neoliberalismo selvagem, que na sua voracidade destrói mais do que constrói.

E quanto ao FMI, e à sua Suserana, minha senhora só lhe posso dizer que as suas desculpas não devolvem os empregos destruídos, pela pressa e pelo erro de cálculo; as suas desculpas, não devolvem os filhos e as filhas que partiram para outras terras; as suas desculpas não devolvem esperança aos jovens; as suas desculpas não mudam nada, se no fundo assume que nada mudará. As suas desculpas não a desculpam! Ponto.


Tuesday, December 10, 2013

Ucrânia desculpa, mas não entendo...

Os protestos na Ucrânia entraram na sua terceira semana, para gáudio dos media Ocidentais. Confirma-se aquilo que venho dizendo, que o fim da Guerra Fria deu apenas lugar a uma Guerrilha Fresca, em que a Rússia passou de inimiga-letal a aliada-perigosa. Como quem troca o veneno da Viúva Negra, pelo abraço apertado da Piton...

A Rússia, ou melhor dizendo Moscovo, torna-se assim o centro do Mal, contra o qual o heróico povo ucraniano luta nas ruas de Kiev. Pausa! E aqui entra o Fidalgo. Para começar falar de revolução em toda a Ucrânia é um exagero mediático, que em nada ajuda a compreender o que de facto se passa no país.

Não sendo possível ignorar a convulsão que acontece ao longo da Ucrânia Ocidental, pró-Ocidente com uma agenda Europeísta e que promoveu a Revolução Laranja de 2004; afigura-se estranho que não se mencione a paz que reina na Ucrânia Oriental, pró-Rússia e com uma agenda mais Eslavófila, vencedora das eleições presidenciais de 2010.

A Ucrânia que está nas ruas e que canta pela União Europeia (quiçá por não saber bem o que pede!) é, quanto muito, meia-Ucrânia. E se é verdade que o povo é quem mais ordena; que a democracia se faz ouvindo o cidadão que não pode, não deve, ser menorizado ao simples papel de eleitor e pagador de impostos (algo que se assiste nas terras de Viriato); não é menos verdade que o voto tem que ser um acto de consciência.

O Presidente Yanukovych nunca escondeu a sua agenda de aproximação a Moscovo, que, não convém esquecer, fornece o precioso gás que aquece os lares ucranianos durante o rigoroso Inverno. A Ucrânia de Yanukovych queria aproximar-se de Moscovo porque é importante manter boas relações com os vizinhos poderosos.

A União Europeia foi sempre secundária na agenda do Presidente eleito em 2010 e que esmagou a Revolução Laranja; revolução essa que falhou nos seus intentos... Afinal, para quem tem memória curta, Timoshenko está presa (para além da perseguição política!) por crimes de peculato e nepotismo.

A União Europeia nunca foi prioridade e o cidadão-eleitor sabia isso. E mesmo assim Yanukovych ganhou as eleições. Ganhou e cumpriu a sua agenda de re-aproximação a Moscovo; tendo inclusive conseguido negociar melhores preços de fornecimento do gás e tudo. E o povo vem para a rua gritar "Demissão!" e afins? Desculpem meus caros, mas desta feita não entendo.

O Presidente curmpre a sua agenda, que não tem que ser do agrado de todos, mas que foi escrutinada e aprovada pelo cidadão-eleitor e o povo clama Injustiça? Desculpa lá Ucrânia, ou meia-Ucrânia, mas esta não entendo. O povo, com memória-curta por certa, vem para a rua destruir e esmagar? A ideia é mostrar força de vontade, o resultado é vandalismo gratuito e desnecessário...

A turba de Kiev, onde reina a irracionalidade e o ímpeto para o comportamento espalhafatoso-ó-animalesco, enquanto derruba estáturas, já esqueceu que no começo de 2015 irá de novo a votos? Não tenham medo, que a União Europeia não foge e mesmo que imploda (facto incerto, mas provável!), levará tempo a que isso aconteça.


Thursday, November 28, 2013

De manhã Santuário, de tarde Gulag!

O Fidalgo anda, por estes dias, confuso com imensa coisa que lê, que vê e que ouve. Torna-se por isso difícil saber sobre o que escrever. Mas no meio de tanto ruído informativo, muito do qual gera mais entropia do que verdadeira gnose, o Fidalgo privilegia as contradições; as mutações de posição; os oxímoros atitudinais...

A Presidente da Assembleia da República, após os protestos da polícia frente à escadaria do Parlamento, disse ficar contente com o "desaguar" dos protestos frente à Casa que representa. Segundo a mesma, numa visão muito criativa (para ser simpático!), os protestos terminam frente ao Parlamento, porque o Parlamento simboliza esperança. Porque o povo vê no Parlamento uma espécie de farol, quando a noite austera turva os sentidos...

 Acho estranho falarmos em Esperança, se nos lembrarmos de palavras como "Gatunos", "Demissão", "Vigaristas" impressas em tantos cartazes e dirigidas, directa e exclusivamente, a quem se passeia pelos corredores da Assembleia da República. Acho curioso entenderem-se gritos de protesto de claro antagonismo entre o populus e os parlamentariis, como sinais de Esperança... Mas enfim...

Fico contudo surpreso ao saber, segundo os media, que a mesma Presidente da Assembleia da República pondera criminalizar os protestos dentro do Parlamento; dentro da tal Casa de Esperança; nas entranhas do Farol Virtuoso, que nos alumia na tempestade. Pretende limitar o acesso às galerias e, para o fazer, anda a estudar os regimes de outros países. Sugeria-lhe que começasse pela Bielorrússia, ou pelo Azerbaijão que é capaz de encontrar o que procura.

Portanto o Parlamento é local de Esperança, logo protesta-se à sua porta; mas protestar dentro do santuário é abomínavel e tem que ser, urgentemente, punido? Ora como é que isto se explica? Será que tal pessoa não entende que o direito ao protesto (com civismo, claro!) é parte integral da democracia; que o direito a pensar e agir diferente fazem parte do tal pluralismo democrático, que transcende o boletim do voto...

Não consigo compreender como é que de manhã o Parlamento é uma espécie de novo Santuário de Fátima, ao qual acorrem os peregrinos afoitos por causa da austeridade-modelo-Excel; e de tarde o Parlamento se transforma num gulag, fazendo dos deputados reféns de um Carnaval de medidas de segurança, para impedir a populaça de entrar e dizer o que pensa.

Apenas fenómenos do tipo Jekyll-Hyde, Hulk ou Homem-Lobisomem conseguem explicar tão radical transmutação, em tão pouco tempo. Será que tal pessoa, que foi eleita pelos pares, e portanto indirectamente eleita por todos nós, não entende que o Parlamento não é Seu mas Nosso?

Protestos, minha senhora, o parlamento sempre teve. Não sabia? Talvez, antes de ler os regimes de outros países (mais uma boa sugestão, para cumprir os seus intentos, será olhar para o Cazaquistão!), devesse ler a História do Parlamento e do modo como o protesto faz parte da vida do mesmo. Fica o conselho...


Tuesday, November 26, 2013

A Austeridade falhou!

A Austeridade falhou! Podem apontar o crescimento das exportações como baluarte de que a "coisa" funciona; podem apontar a saída "técnica" da recessão como estandarte do sucesso da mesma; podem apontar imensos números que, sendo sinais positivos que não se podem ignorar, não escondem o retumbante fracasso da Austeridade.

A ideia era diminuir os gastos do Estado, as tais gorduras, mas a despesa do Estado continua a crescer. A ideia era serenar os Mercados, porque pelos vistos os Mercados são quem mais importa, mas os Mercados não serenam. Pelo que vou percebendo, e de Economia pouco entendo, os Mercados não serenam não com chá de camomila, nem com Xanax.

A Austeridade serviria, para alguns, para re-educar um povo cheio de vícios e maus hábitos, muitos dos quais são mais fruto de exageros e preconceitos do que reais "acontecimentos". A Austeridade comportaria um momento de dor que daria azo a um momento de glória. A dor já veio, todos (ou quase todos!) a sentem, a glória dourada que lhe sucederá... Essa, tal como D. Sebastião, tarda em voltar!

As metas falharam. A Austeridade, contudo, conseguiu muita coisa. Asfixiou, de modo letal, uma classe média que nunca chegou a sedimentar-se; destruiu um tecido científico-criativo que demorará (e muito) a reconstruir; empobreceu o país, não apenas nos salários, na insanidade taxativa, mas também nos sonhos e na esperança.

A austeridade levou o país a ter que dizer a muitos jovens, muitos deles qualificados, alguns altamente qualificados. O país teve que chorar amargamente, enquanto quem decide se fechou no seu mundinho. Os pais deste país tiveram que perder e, infortúnio faustiano, ainda não ganharam nada com isso. E não se pense que esta geração voltará a bem, quando saiu do país pontapeada apenas porque queria trabalhar...

Uma cúpula de gente, que tendencialmente vive em redomas de cristal, dirá que "não se pode comer bife todos os dias". Concordo, com este tipo de política sem sei se, a prazo, se conseguirá comer, em Portugal, todos os dias; quanto mais bife. A mesma cúpula acha "um horror" os protestos na Assembleia da República, porque estão lá os eleitos do povo.

Verdade, os deputados foram eleitos. Mas foram eleitos mediante um programa que, sejamos honestos, não era este. Foram eleitos para cumprir uma visão, que logo se perdeu. O voto serve como contrato, como meio de transferir poder para alguém representar outrém, porque ambos partilham uma visão comum. O voto não é, não pode ser, um mecanismo de autoritarismo eleitoralista. O voto não é (não pode ser!) dogma! Discute-se e, quando disfuncional nos efeitos, muda-se!

A mesma cúpula consegue ainda levar gente a dizer que "subir ordenados é um pesadelo para os pobres", num país com cada vez mais gente a receber o mínimo. Era para isto que a Austeridade vinha? Para um empobrecimento que levará a um embrutecimento generalizado? Mas quem tem este programa esqueceu, ou talvez não saiba, que o embrutecimento é a antecâmara da violência...

A Austeridade falhou! Poderia ter funcionado, mas a cegueira ideológica e o experimentalismo económico-social falaram mais alto. A Austeridade falhou porque foi tão austera que se tornou autista; que deixou de ser capaz de ouvir; deixou de ser capaz de perceber que o consenso nasce do confronto e não do seguidismo uniformista.

A Austeridade falhou e a Oposição também tem culpas no cartório. Com o Bloco em desagregação e sem ideias claras sobre o que é... Com o PCP entretido na mesma cantiilena de sempre (ao menos mantêm a coerência?)... Com o PS exaurido de ideias credíveis e com posturas demagógicas e eleitoralistas. Uma oposição inteligente, criativa e sagaz, poderia ter ajudado a driblar a Austeridade... Mas o cheirinho do poder falou mais alto!

A Austeridade que hoje carimbará mais um Orçamento de Estado falhou; mas a Vaidade e o Orgulho de quem não tem mais nada falam mais alto. A Austeridade falhou e, a seguir, quando chegarmos ao limiar não existirá volta a dar. Pausa! Espero estar errado! Pausa! Mas acho que não estou! Pausa! E depois? Depois não se sabe o que acontecerá... Mas temo...


Thursday, November 21, 2013

2-3? 1-5? O que importa? Perde sempre o mesmo...

Quem não cuida dos seus, não pode esperar ganhar a confiança dos outros. Foi isto que pensei ao ler as notícias de hoje, vindas de Kiev. Embalado pelo apuramento para o Mundial pensei, logo em seguida, que se isto fosse um jogo de futebol o resultado, por esta altura, seria qualquer coisa como: União Europeia 2 - 3 Rússia; mas a coisa pode ficar União Europeia 1 - 5 Rússia.

A tal da Parceria de Leste, antecâmara da União Europeia que, por agora, não tem como receber mais candidaturas para estados-membros (é claríssimo que a prioridade é a inclusão dos Balcãs!), foi desenhada para aproximar a União Europeia dos três estados transcaucasianos (Arménia, Geórgia, Azerbaijão) e ainda da Bielorrússia, da Moldova e da Ucrânia.

O primeiro golo, já se sabia, foi direitinho para a Rússia. Minsk ainda fingiu interesse na Parceria de Leste, mas poucos ficaram convencidos que Minsk e Bruxelas acertassem agulhas. Afinal Bruxelas adora, de quando em vez, relembrar que Minsk tem "o último Ditador da Europa". Minsk, por seu lado, tem interesses estratégicos, diria que vitais mesmo, com Moscovo. Este golo foi, por isso, limpinho; de grande penalidade e sem guarda-redes.

O segundo golo foi para a União Europeia, hipótese de empatar o jogo. A Geórgia, ainda sob clara dominação de Saakashvili, mostrou um ímpeto invulgar pelo Ocidente. A Geórgia só queria saber de UE e de OTAN e tudo o mais eram cantigas. Mas Saakashvili caiu, ficou sem poder e aquilo que parecia um golo pode ser, no final, um fora de jogo. Por agora fica 1-1 mas não é garantido que se mantenha.

A União Europeia passou, em seguida, para a frente do marcador. A Moldova, em paridade com a Geórgia, foi chamada de campeã, de timoneira e de bom exemplo. A Moldova, verdadeiro 2-1 que coloca a União Europeia em vantagem, irá a Vilnius assinar a parceria; Chisinau irá a Vilnius fazer figura de boa aluna (será colega de turma da menina Lisboa?), veremos é por quanto tempo...

A União Europeia estava contente. Contava ir fulgurante para o 3-1 mas estampou-se, trocou os pés, caiu no chão e viu a Rússia igualar a partida. A Arménia disse "obrigadinho, mas por agora não" e a seguir bateu à porta de Moscovo para saber se ainda tinham cadeiras, para a Comunidade Eurasiática. Moscovo sorriu, convidou a entrar e antes que a UE falasse fechou a porta. Ficou feito o 2-2.

A União Europeia falou em arbitragens injustas; em regras mal desenhadas; em pressões. A UE falou naquilo que também fez, mas é sempre mais difícil vermo-nos por inteiro ao espelho. E enquanto se queixava a Rússia foi fazendo jogo; foi passando a bola com controlo, com domínio, com tática e lá chegou ao 2-3. A Ucrânia anunciou hoje que irá a jogo, mas que prefere o equipamento branco-azul-vermelho ao azul-dourado.

E o 5-1? Não nos podemos esquecer que a Géorgia poderá ser golo em fora de jogo e, se assim for, e a jogada se repetir, tenho em crer que será ponto para a Rússia e o 2-3 passará para 1-4. Vantagem dos Visitantes, porque os da Casa nem dos da casa tomam conta... E depois o golo incerto, o Azerbaijão, que animado pelo petro-dólares vai jogando com os dois lados. É quase certo que não assinará em Vilnius a adesão à Parceria, mas também não é certo que entre na Comunidade que Moscovo oferece....

Baku é assim uma espécie de golo em tempo de descontos; que não se sabe quando irá acontecer mas que, a manter-se a situação, é bem provável que penda para os Visitantes e lá ficamos com o União Europeia 1 - 5 Rússia. É bem provável que a União Europeia veja a Parceria de Leste, fraco projecto (desenhado por quem não tem capacidade para acolher novos membros!), definhar após ganhar vida.

E assim, lá ficamos nós com (mais) uma demonstração de que a União é cada vez menos atractiva; de que a União, une cada vez menos. Tudo isto numa altura em que Ankara estuda a hipótese eurasiática; no momento em que Londres prepara um referendo sobre a aliança com Bruxelas; no instante em que Zagreb também fala em semelhantes manobras; no momento em que alianças Latinas e lobbys Escandinavos minam o que outrora foi respeito e entendimento...


Tuesday, November 19, 2013

Kiev entalada entre a "pressão" e a "diplomacia"

Tem sido interessante acompanhar os últimos dias antes da Conferência de Vilnius que irá marcar o arranque da "Parceria com o Leste". A Parceria irá funcionar como uma espécie de sala de espera, onde os parceiros aguardaram a sua vez para entrarem no Palacete Europeu, dominado pela auto-proclamada Imperatriz sedeada em Berlim.

O problema é que o Palacete Europeu não tem, por agora, mais quartos. Após as últimas vagas o número de membros como que duplicou e os residentes ainda tentam entender-se. A desorganização não sendo total é enorme e o Palacete, para além da fachada, dá mais sinais de erosão do que de renovação. A tecnocracia nunca deveria ter tomado conta de Bruxelas e agora Bruxelas ameaça não conseguir tomar conta dos seus residentes...

Nos últimos meses a União Europeia sofreu alguns reveses inesperados. A Arménia decidiu abandonar a rota Europeizante e abraçar as oferendas vindas de Moscovo. A Moldova e a Geórgia, apresentadas como campeãs da Parceria, esfriaram o entusiasmo com que olham para Bruxelas. A Moldova assinará, quase certo, o acordo da "Parceria de Leste," mas fá-lo-á com o mesmo espírito desconfiado com que a Polónia e a Croácia entraram para a UE.

A Geórgia é provável que assine o acordo, mas está longe de ser garantido. E subestimar a atractividade de Moscovo é sempre um erro que devemos evitar. A Ucrânia torna-se, por isso, indispensável ao sucesso da conferência. Nas últimas semanas o Fidalgo tem lido imensas coisas sobre o jogo que se disputa em torno de Kiev e registo a linguagem usada, resquício da Guerra Fria, que tarda em arrefecer nas cabeças de muito boa gente...

Quando a União Europeia avança com propostas, com oferendas, com ideias para unir Kiev e Bruxelas fala-se em cooperação e diplomacia; fala-se em avanços e em progresso. Quando a Rússia faz exactamente o mesmo, para atrair Kiev para a sua União Eurasiática, então já é pressão inaceitável, retrocesso, alienação diplomática; então torna-se o progresso em recuo...

De Berlim, hoje, a auto-nomeada Imperatriz falava nos benefícios do acordo EU-Ucrânia, para aligeirar Kiev do jugo muscovita. Não parece ao Fidalgo grande  mudança, a troca de um suserano por outro. E se Kiev pensa que o Urso de Berlim é mais amistoso do que o Urso de Moscovo está muito enganada. A única diferença entre os Ursos contendentes é a cor do pêlo (a tal Democracia!), porque a ferocidade essa é a mesma.

Como quer esta União Europeia ter um diálogo construtivo com a vizinha Eurasiática, se ainda olha para a mesma com as lentes redutoras da Guerra Fria. Como quer Bruxelas ser levada a sério por Moscovo se ainda se preserva a mentalidade de quem não viu, ou não quis ver, o arrear da bandeira da União Soviética no final de 1991.

Enquanto Bruxelas deixar os seus ditâmes entregues aos rugidos do Urso de Berlim, sem apelo nem agravo do que os restantes residentes do Palacete têm a dizer, não será de estranhar que iniciativas como o referendo de Cameron à permanência de Londres na UE, ou a "chamada" para a formação de uma Frente Latina por Letta se repliquem e multiquem.

Kiev está entalada entre a "pressão" e a "diplomacia", porque a UE está entalada entre a erosão e a necessidade de fazer uma reforma sem reformadores competentes para a executar. Kiev está entalada entre dois blocos, porque quer fingir-se Euro-cosmopolita e renegar ao seu legado eslavo. Mas, desta feita, talvez seja na eslavofilia que reside a melhor oferta...


Saturday, November 16, 2013

E aos dois meses... sorrio...

16 de Setembro! Acordei pela primeira vez numa cama que não era minha, num quarto que não era meu, com uma janela que não me pertencia. Acordei pela primeira vez num Universo novo. Sozinho. Ou quase. Só eu e o Silêncio. Abri os olhos mas levei uns cinco minutos a sair da cama. Tocar com os pés no chão alcatifado do quarto seria confirmar a realidade. Tinha chegado e para aqui chegar, tinha partido...

Olhei pela janela e vi um suave vislumbre do que me aguardava. Olhei pela janela e não vi o que via no cérebro; as imagens que ainda desfilavam na minha mente e que emoldurava antes que se desvanecessem. Quanto se trata de memória a velocidade de preservação é imperiosa... Ou se conserva a memória num caixilho cristalino, ou se perde a mesma no turbilhão intenso que é recordar. No turbilhão que é voltar atrás, quando o relógio insiste em andar em frente.

Não tomei pequeno-almoço. As tarefas, banais, desinteressantes, rotineiras, ganharam um curioso colorido. Acordar, tomar banho, vestir, organizar o quarto que não era (nem seria!) meu, tudo feito com uma calma e morosidade propositada.

Queria saborear os primeiros momentos, agora que aqui tinha chegado. Partira, não me esquecia, mas apenas partira porque aqui queria chegar. Agora era tempo de não esquecer a partida, mas preocupar-me com a chegada...

Vieram rostos simpáticos, e nomes em catadupa, e uma torrente de papéis, e visitas oficiais/semi-oficiais/não-oficiais, e uma sem fim de apertos de mão e sorrisos. Vieram sons que não conhecia. Vieram imagens que nunca vi. Vieram sabores novos, que exploraram os limites das minhas papilas gustativas. Vieram cheiros fascinantes, que desafiaram as categorias ocidentais impressas no meu cérebro. Vieram gestos e cores. Vieram hábitos que nunca antes tivera. Vieram rotinas novas...

16 de Outubro! Primeiro mês! A palavra Saudade começa a fazer sentido. Agora sim a começo a entender. E entendo o drama do Fado, de quem sentindo tristeza pelo que perde, está feliz com o que ganhou. De quem para voltar à partida, lamentará o abandono da chegada. Psicodrama complicado, irresolúvel, que mais vale ser sentido do que racionalizado.

Primeiro mês! Ainda agora comecei a construção de uma nova vida, como quem ergue um novo palacete, mas já me sinto parte da chegada. O meu rosto (ao que parece) meio-turco, que leva muitos a duvidaram que seja "portekiz", facilitou a integração. A simpatia de quem cá vive, na chegada, fez o resto. E aos poucos somo ao muito que deixei na partida, o muito que conquistei na chegada. E com um mês volvido, celebrado em pleno Bayram, preparo-me para descobrir mais da chegada... E sorrio!

16 de Novembro! Olho para o amontoado de exames que terminei de corrigir na noite passada, antes do jogo de futebol que vi com uma nova intensidade. Curioso, eu que nunca gostei muito de futebol, sofri durante 90 minutos e vibrei com cada momento em que ouvi sons que me lembravam a partida... Olho para o amontado de exames que terminei de corrigir, para a pilha de expectativas que passou pela minha mão e sorrio de novo. Sorrio mais agora.

Dois meses! O tempo não ajuda à Saudade, apenas ajuda a que nos habituemos a ela. A Saudade e o Silêncio, quando os sons me são desconhecidos, são companheiras de jornada. Mas a Novidade e a Amizade também residem por estes lados... Dois meses depois estou certo que partir da Partida foi o mais certo; estou certo que chegar à Chegada não sendo inevitável, era desejável. Dois meses depois já não temo pisar o chão alcatifado...

Dois meses! E quando forem três? É difícil saber... Quando forem três a Chegada preparará a celebração do Natal, o mesmo Natal que na Partida não se celebra. Quando forem três, a Chegada estará a tiritar de frio e a Partida também. Quando forem três, a Chegada terá lágrimas dos Deuses a cairem a potes, na partida ouvi falar em neve... Quando forem três verei... Por agora são dois! Dois meses e a viagem continua...


Monday, November 11, 2013

Sem castanhas, sem jeropiga.. Sem S. Martinho...

O dia de S. Martinho é uma daquelas comemorações que sempre me agradou, pela genuina simplicidade da mesma. É daquelas comemorações que não precisa de feriado para acontecer; que não precisa de discursos oficiais; de paradas e maratonas de filmes. É uma comemoração simples e generosa que celebra isso mesmo... A generosidade humana no seu estado mais pueril. A simplicidade do acto de dar, sem esperar receber!

O dia de S. Martinho não tendo feriado, algo que agradará a certos governantes, tem os seus rituais dos quais as castanhas e a jeropiga (ou água-pé!) são os mais importantes. As broas também entram na festa, mas as broas, por norma, começam o seu reinado com o Dia de Todos os Santos. O tal dia que já foi feriado e que, por vicissitudes da demagogia austeritário-tecnocrática, deixou de o ser...

O dia de S. Martinho não é feriado mas tem rituais imprescindíveis que o marcam. Rituais que este ano não pude cumprir. Não tive castanhas, nem jeropiga, nem mesmo broas. Não tive roupas mais quentinhas. Não tive sorrisos em família. Não tive direito a um serão relaxado, oferta de um S. Martinho que, em anos anteriores, nunca me falhou. Não tive e tão cedo não terei...

Por culpa de uma série de coisas que não fiz fui forçado a mudar de país. Não me interpretem mal, sempre quis migrar. Sempre pensei em internacionalizar a minha carreira. Sempre tive nos meus planos experimentar outros palcos, para além do jardim lusitano. Sempre ambicionei ir até outras paragens... Mas sempre pensei que isso aconteceria por minha escolha e não por falta de escolhas. Sempre pensei que isso seria um passo meu e não um empurrão alheio...

Sabia que abdicaria do S. Martinho, que teria que passar algum tempo sem o sabor da jeropiga, o calor das castanhas assadas e o doce das broas; sabia que teria de prescindir dos abraços da família, do café com os amigos. Sabia isso tudo e mesmo assim queria, sempre quis, internacionalizar-me. Sempre soube que iria descobrir outros mundos, neste mundo. Mas, repito, sempre achei que seria EU a escolher o momento... Eu e não uma grupeta de gente fechada em gabinetes estofados, lá para os lados de S. Bento...

E por isso não sinto que abdiquei do S. Martinho. Não sinto que fiquei sem jeropiga, sem castanhas, sem broas e sem a presença da família. Sinto que me roubaram... Que assaltaram as minhas esperanças e aceleraram os meus planos; porque ou saia para fora, ou não iria a lado nenhum. E, talvez culpa minha?, não me vejo a fazer nenhum! Sinto que me assaltaram expectativas, depois de anos a fio a venderem sonhos que estou a cumprir, é verdade, mas com um custo enorme e com um guião novo...

E, porque já me tiraram muito, o Fidalgo fica-se por aqui... E a quem anda nos tais gabinetes estofados espero que a jeropiga não tenha o sabor salgado das lágrimas de quem parte; desejo que as castanhas não tenham o gosto amargo de quem abdica de muito; anseio que as broas não desiludam as bocas, de quem desiludiu não uma mas várias gerações... A vocês um bom S. Martinho...

E a todos os outros um FELIZ S. MARTINHO!


Friday, November 08, 2013

A lenta agonia da (in)Cultura!

Vamos directos ao assunto, a Cultura é o parente pobre deste governo desde o começo das suas funções. Para gáudio de alguns e espanto-horror-tristeza de muitos, a Cultura perdeu o direito a um ministério e passou a ser uma mera Secretaria de Estado sobre a alçada do Primeiro-Ministro. A manobra legal até poderia ser interessante, impulsionar a Cultura para um novo patamar, mas cedo se percebeu que era o começo da agonia...

A Cultura, sob os auspícios da Austeridade-tecnocrático-experimentalista, foi definhando a uma quase inexistência. De quando em vez a Cultura dá provas de vida, apenas porque os profissionais do sector têm uma alma e um profissionalismo que resiste a tudo...

Uma classe que resiste mesmo à patetice governativa e ao seguidismo-berlinista que dita tudo com folhinhas de Excel, sem atentar nas especificidades da realidade. Sem atentar nas necessidades da Cultura. Necessidades que gerarão potencialidades, mas já lá irei...

A Cultura foi entregue a um homem da Cultura que, cedo se percebeu, não tinha força para comandar a sua Secretaria. Trocou-se o Secretário de Estado e a Secretaria ficou como que morta. Abandonada a um mutismo sepulcral e a um vazio criativo mais fundo do que o fosso das Marianas.

A Cultura encarada como secundária, vista quase como um passatempo inútil em tempo de "Salvação nacional" (ainda me vão dizer o que se anda a salvar mesmo!?), foi espancada com a brutalidade imberbe de quem não conhece, nem parece querer conhecer, o imenso valor e a extraordinária necessidade de termos mais e mais Cultura.

Curiosamente, com este facto o Presidente da República não fica admirado, espantado, surpreso. Curiosamente com a agonia penosa da Cultura (que por norma assume-se como parte central das governações régias!) a presidência republicana opta pelo silêncio. Porque pelos finados é melhor ter refindo decoro e respeitar a vigília com pesaroso silêncio? Ou porque não se entende o valor tremendo Silêncio, perante tamanha barbárie? 

O actual governo estava certo, já o disse antes, quando criticava a cultura instalada de alguma subsídio-dependência por certos artistas. Mas a fórmula encontrada para transformar o problema não me parece a mais sana. Ora se o sistema de estímulo e apoio à Cultura estava mal desenhado (viciado, por certo!) o normal seria re-desenhar, reformar, repensar o mesmo e não fazê-lo implodir.

Perante um problema não se pensou numa solução, mas antes em dinamite-tecnocrática... Se o problema desaparecer, entre os fumos tóxicos da explosão, não terá que ser resolvido... Soluciona-se o problema, sem a maçada de pensar numa solução!

E depois espantam-se com a baixa taxa de consumo cultural em Portugal? Com a falta de leitura? Com o sucesso das Margaridas? Com o insucesso das Lídias? Com a incapacidade de tirar proveito da criatividade e da Cultura, como se faz em outros países do dito mundo civilizado? Ora quem não semeia, não pode querer colher. A Cultura anda em agonia e o problema não é apenas o Agora, mas o futuro...


Tuesday, November 05, 2013

Surpreso, Sr. Presidente? Surpreso fiquei eu...

O Presidente da República que se engalanou para mais um "corta-fita", uma das raras funções que ainda consegue realizar com competência, mostrou-se surpreso por Portugal ser a excepção à Europa, no que se referia ao acordos entre partidos políticos. Ora, ora, ora... Então Vossa Excelência, sempre tão arguto, está assim tão surpreso? E surpreso com o quê mesmo?

Denota o Fidalgo que, aos poucos, a palavra "consensos" vai sumindo do léxico político europeu... E ainda bem! O Fidalgo não é, nunca foi, contra uma política de consensos na lógica de Habermas, se o consenso for entendido na sua totalidade e não apenas como instrumento de uniformismo restrictivo, que impede o direito a pensar e a agir de modo diferente.

O consenso de Habermas não elimina o confronto na esfera do simbólico e da ideologia; o consenso é um compromisso alargado que comporta matizes diferentes; o consenso de Habermas nunca foi uma porta para um seguidismo parolo, enviesado e que proibe o discurso da alternativa e achincalha a ideia diferente (por ser diferente).

Quanto ao diálogo político reinante na Europa, o Fidalgo gostaria de saber a que Europa se refere a figura presidencial. A Europa onde a Bélgica levou mais de um ano a formar governo, batendo o record pertencente ao Iraque de estado sem governo por mair periodo de tempo? Ou a Europa das eleições na Grécia que conduziram a uma maior instabilidade? Ou a Europa da República Checa onde a possibilidade de um resgate conduziu ao "chamamento" eleitoral, por desacordos entre os partidos com maior representatividade parlamentar?

Ou a Europa da Itália onde os acordos políticos são, quando muito, pontuais e tão efémeros que chegam a dar vontade de rir, não fosse a situação dramática. Ou a Europa da Bulgária, abraços com uma série de protestos anti-governo e com uma clara incapacidade de as várias forças políticas encontrarem uma ideia comum? Ou a Europa da Hungria, ainda a recuperar do choque da constituição de Orban e a tentar entender como se joga o jogo democrático daqui em frente.

Estava surpreso com o quê mesmo? Concordo que não serve a Portugal uma Oposição incapaz de dialogar e incapaz de apresentar propostas realistas, sem o traço da demagogia populista. Concordo que não serve a Portugal uma Oposição que bate o pé, para captar votos, e que depois transforma o seu discurso por causa do "fardo governativo". Mas também não serve a Portugal a ideia de que apenas o uniformismo ideológico-intelectual nos salvará da crise.

O Sr. Presidente ficou surpreso com a falta de acordo político em Portugal? O Fidalgo fica surpreso com o que surpreende o Sr. Presidente da República. Talvez fosse mais útil surpreender-se com outras coisas... Sei lá o desemprego? A "fuga dos cérebros"? A nova pobreza? A exclusão social? A destruição dos sonhos e da realização de duas gerações?


Thursday, October 31, 2013

O Guião que não queria guiar...

E eis que o tão esperado "Guião para a Reforma do Estado" foi por fim apresentado. O resultado final, no que ao Fidalgo diz respeito, desilude um pouco, mas não surpreende. Após a "irrevogável birra" deste Verão, Portas conseguiu a tão almejada promoção política e passou de Ministro dos Negócios Estrangeiros a Vice-Primeiro-Ministro.

Estranha recompensa, para quem penalizou o país. Estranho prémio ganho por quem fez escalar os juros da dívida pública portuguesa, como consequência da "ópera bufa". O país ficou obrigado a pagar mais a quem especula, porque quem devia governar preferiu (um certo dia) o pseudo-drama-barato...

Paulo Portas já antes da "ópera-bufa" tinha responsabilidades sobre a produção tal guião, mas com a 'promoção' ficou tudo mais claro. O país aguardou, com pouca expectativa diga-se, o resultado da genialidade política de quem tem mais de actor político do que de agente da política. Preciosismos linguísticos? Talvez... Talvez não...

Chegou por fim o dia do Guião ser dado a conhecer e puf! Os poucos que esperavam com alguma curiosidade, porque é difícil ter expectativas depois das atitudes deste Verão, viram goradas quaisquer hipóteses de o Guião surpreender, de inovar, de transformar ou mesmo de guiar.

O guião para além de ser um fraco exercício de literariedade política revela um pauperismo intelectual que assusta. O documento mais não é do que um palimpsesto insonso, sem qualquer audácia e sem qualquer direcção clara sobre como se fará a tal reforma. O guião é mais um desfilar de desculpas pelo atraso e um pedido, meio-infantil / meio-parolo, de "mais um mandato porque agora é que é".

O Guião, no fundo, não guia, nem reforma. Saldou-se num exercício de espera colectiva sem qualquer resultado. O guião tem qualquer coisa de semelhante com olhar para nuvens. O acto em si não sendo inútil tem pouco de útil, pois no final o céu continuará azul. Curiosamente este Guião não fracassará, porque não existe, porque foi escrito apenas para parecer e aparecer.

Um Guião para a Reforma do Estado precisa antes de mais de um timoneiro; de alguém que saiba guiar. É por aí que se transformará e reformará o Estado. E um timoneiro, não é alguém que joga pelo Seguro; pelo populismo fácil, pré-eleitoral. Encontre-se o timoneiro e logo se fará a reforma!


Thursday, October 17, 2013

Tentando estar, mesmo não estando...

Habituei-me a estar presente no teu aniversário. Contam-se pelos dedos de uma mão os poucos que falhei. Não estive no primeiro aniversário, porque não existia. E por isso creio que a Natureza e a Providência são mais responsáveis pela minha ausência do que eu. Ia falhando em 2009, mas cancelei o evento que tive no Porto. Não estive no do ano passado, porque estava a dar uma palestra em Lisboa, mas logo que pude rumei a Abrantes para te dar um beijinho.

Tornou-se por isso um hábito poder dar-te um beijinho de parabéns, para além das felicitações virtuais no Hi5, no Facebook e via SMS. Tornou-se um hábito poder olhar nos teus olhos cor de avelã e ver a matriz bonita de que se fazem as grandes mulheres. O mais intrigante de tudo é poder ver, o que tu não vês. É poder olhar com palavras, o que os outros vislumbram sem saberem usar os olhos.

E para quem vive de palavras, num Universo de sons mudos, és uma musa perfeita. Uma inspiração não por seres perfeita, mas pela imperfeição; pelo facto de abraçares a tua condição humana e de seguires em frente. Sabes que tens limitações, mas não deixas que elas te limitem. E essa imperfeição em constante estado de transformação torna-te mais do que perfeita: torna-te TU MESMA.

São quase 30 anos. E nos fios de cabelo, que mudaram tanto de cor, estão estórias de quem cresceu já crescida. De quem soube ser irmã e mãe ao mesmo tempo. De quem temperava carinho e traquinice, com autoridade e organização. De quem sabia dizer sim, ou impor um (necessário!) não. De quem tinha que ser criança, enquanto fazia papel de crescida.

E nas mãos de tez pálida correm memórias de coisas sentidas, que as palavras poderiam descrever, mas que pouco acrescentam se escritas. As mãos palmilharam sensações vibrantes; não se cansaram de aplaudir, de acarinhar, de afagar, de proteger, de querer amar. As mãos que não param enquanto não ajudam o Outro, mas que muitas vezes se esquecem que também precisam de ajuda. As mãos que de tanto aplaudir, já merecem ser aplaudidas. E de pé! E com ovação!

E no sorriso escondem-se segredos, que não se segredam às paredes. No sorriso estão imagens do que se foi; de como se foi; porque se foi. No sorriso está a chave da grandeza, de quem não querendo ser grande é gigante. No sorriso está a chave da enormidade, de quem só quer ser. No sorriso está a passadeira da fama, de quem sempre gostou mais dos bastidores. No sorriso estás tu; está aquilo que tu és e que muitas vezes nem percebes ser.

E são esses quase 30 anos que se celebram hoje. Por vicissitudes dos Tempos; por erros que não cometi; por gastos que não fiz; não estou contigo. Falho mais um aniversário. E este levarei algum tempo a compensar. Falho mais um aniversário, mas não falha o que sinto: o orgulho e a admiração com que olho para a primogénita. O tremor de emoção, tão profundo, que me arranca lágrimas e sorrisos. Que guia as mãos pelas palavras, quando o cérebro se tolda de saudade e o coração exulta eufórico.

Quem nos governa não vai ler isto e mesmo que leia duvido que entenda o que aqui está plasmado; o que sinto com cada grafema impresso; o que custa não estar perto de quem nunca esteve longe; o que dói saber que causarei dor, pela ausência imposta. Mas Eles não importam! Importas tu, hoje e mais do que hoje. Importas tu ontem, hoje e amanhã. Importas! PARABÉNS maninha!


Wednesday, October 16, 2013

E se for bom este esfriar da relação Portugal-Angola?

As relações diplomáticas Portugal - Angola sempre me fascinaram, pela construção de um falso artificialismo situacionista. Portugal sempre semi-cerrou os olhos a Angola em várias frentes, como que para não ver que o que deveria ser afinal não era, nunca iria ser. Por vergonha do passado colonial, daquilo que tínhamos feito em Angola, fomos ignorando que afinal a transição para a democracia não estava em curso. Fomos aplaudindo com vigor o que não acontecia, na esperança de que acontecesse.

Olhámos sempre para Angola com um misto de paternalismo de quem "já foi o pai, o chefe da casa" e com o embaraço dos actos cruéis que fizemos. Angola era independente e isso obrigou a que fizéssemos um pequeno recuo político-diplomático, que não refreou as ajudas para o desenvolvimento e o forte compromisso português com missões de ajuda humanitária a Angola. Mas até aqui tudo bem...

E depois Angola descobriu que tinha dinheiro. A sua economia começou a crescer, com tantos recursos disponíveis a tarefa não é propriamente ardilosa, e Angola achou que ter dinheiro era ter tudo. Angola, ao bom estilo do Azerbaijão e do Cazaquistão, achou que quem cresce economicamente não pode ser atacado por estagnação e fracasso nas reformas políticas. Angola, de súbito, achou que já era crescida e não tinha que prestar contas a ninguém, por ter uma Louis Vitton debaixo de braço e um Cartier no pulso...

A elite angolana, porque Angola como país não tem culpas (e preservo muitas as amizades que tenho com gente de Angola), tornou-se arrogante e prepotente. A elite angolana passou a achar que tudo se resolve com o passar de um cheque e que dinheiro compra tudo. Mas não compra... A elite angolana aproveitou um momento de debilidade económica portuguesa para tentar "brincar aos grandes". Mas é pequeno quem aproveita os "desvalidos" para se fazer de herói. Não é pequeno, é minúsculo.

E por isso não vejo mal nenhum de as relações com Angola terem gelado, ou regredido. Não vejo mal nenhum de o país, apesar de estar economicamente débil, ter batido o pé. Não vejo mal nenhum de começarmos a dizer com todas as letras: Dinheiro e Democracia são coisas diferentes. Dinheiro e Igualdade são coisas diferentes. Dinheiro e Inteligência são coisas diferentes.

Angola tem dinheiro? Tem! E depois? Outros valores devem prevalecer. José Eduardo dos Santos terá dificuldade em compreender que amizade e diplomacia não são sinónimos de servilismo. José Eduardo dos Santos terá dificuldade em compreender que ao fechar a porta de Angola, talvez esteja a ajudar-nos a procurarmos outros mercados e, meu caro Presidente, se o país quiser, o país consegue substituir o que ganharia com Angola.

O Ministro dos Negócios Estrangeiros poderia ter feito as coisas de outro modo? Talvez! Mas de que serve o "veludo", quando somos tratados com desfaçatez por causa de um momento menos bom? De que servem falas mansas, com quem olha altivamente de cima do seu pedestal incrustado de diamantes mas com pés de barro oco?

Só gostava que não se atacasse o Ministro dos Negócios Estrangeiros, por vontade de atacar o Primeiro-Ministro, quando, desta vez, o Ministro dos Negócios Estrangeiros até esteve bem. E quanto à elite angolana-eduardina se conhecessem bem a História veriam que hoje "quem canta de galo", amanhã não serve nem para galinha. É só olhar para a Mongólia, para a Bulgária ou para a Geórgia... E tenho dito...


Monday, October 14, 2013

O Urso tem as garras de fora?

Moscovo voltou a mostrar a cara feia do nacionalismo ultra-eslavófilo, de cariz exclusivista e xenófobo. É pouco correcto dizer que o nacionalismo "está de volta" à Rússia, porque esta Rússia, a do pós-sovietismo, é por definição nacionalista. Foi de resto o discurso de salvação nacional que deu a Yeltsin o poder para desafiar Gorbachev e despoletar a transformação da União em Federação.

O nacionalismo foi a base de construção da Rússia feita Federação. Yeltsin usou a nação como escudo num momento em que os russkyi questionavam "quem somos?", após o colapso da União Soviética. Foi a nação que permitiu aproximar os não-russkyi de Moscovo, com Yeltsin a dar às outras nações toda a autonomia que conseguissem engolir (com óbvias excepções no Cáucaso Norte e na região do Médio Volga).

O nacionalismo permitiu a Vladimir Putin, vindo das sombras do FSB, destronar Yeltsin; projectar a Rússia para os russos e adiar a resposta a essa questão central: "quem somos"? O nacionalismo de Yeltsin, que protegia os russkyi mas dialogava com os demais povos, foi-se estreitando... Putin percebeu cedo que o nacionalismo era uma força mobilizadora poderosa e usou-a sempre que precisou.

É o nacionalismo de cariz eslavófilo que justifica as fotografias do Verão de 2009, em que Putin exibe a sua masculinidade a nadar em águas geladas e a cavalgar semi-nú. É o nacionalismo que justifica a incapacidade de se organizarem eventos internacionais em Moscovo, em que o russo não tente reclamar o seu espaço taco-a-taco com o inglês. É nacionalismo que vai excluindo todos os "outros", que mostra agora o seu lado mais feio, mais violento, menos racional.

O nacionalismo não é necessariamente vil, como por vezes dão a entender alguns comentadores da praça. Mas este nacionalismo exclusivista, ultra-eslavófilo, pode tornar-se incendiário (se não mesmo calamitoso!) quando combinado com uma ascensão das extremas-direitas na França, na Áustria, na Hungria, na Espanha, na Grécia, na Polónia, na Bulgária, no Reino Unido e mesmo na Alemanha.

O curioso do nacionalismo ultra-eslavófilo é que o seu discurso é, quase todo, voltado para dentro. Os migrantes contra quem se cantam cânticos, contra quem se protesta e em quem se exerce violência, são quase sempre migrantes internos; quase sempre de origem Ciscaucasiana; quase sempre muçulmanos. O nacionalismo que ontem saiu à rua quer purgar Moscovo dos migrantes internos. O nacionalismo de ontem quer a Rússia para os russkyi e só para os russkyi.

A violência do protesto de ontem foi apenas um aviso, mais um, de uma espiral de eventos que poderá descarrilar sem aviso. Já antes, num passado bem recente, o futebol desencadeara um fenómeno de hooliganismo-ultra-nacionalista, com cenas de violência entre russos e tchetchenos. Não são de resto poucos os sinais e os avisos de que o nacionalismo ultra-eslavófilo vem ganhando terreno na Rússia de Vladimir Putin...

É importante lembrar a revitalização do ultra-nacionalista LPDR (Partido Liberal Democrático da Rússia) nas eleições de 2011; o registo oficial do partido neo-imperialista ROS (União de Todos os Povos da Rússia) em 2012, que usa as cores da bandeira imperial (dourado, branco e preto) e que tem mostrado fulgor em todas as projecções de intenção de voto; a declaração (simbólica!) da independência da cidade de Domodedovo em Outubro 2012, e isto apenas para mencionar alguns exemplos...

Curioso como o recrudescimento do nacionalismo ultra-eslavófilo tem ganho energias com o fracasso progressivo da Europa da União, a tal alternativa, o tal espaço de igualdade e solidariedade transnacional. Com a União Europeia afundada numa crise que parece não ter fim, porque a União tem muito pouco de unida, a melhor alternativa é a reconstrução do esplendor de Moscovo; o único caminho é erguer-se uma terceira Roma, com pronúncia eslava.

O Urso tem as garras de fora? Tem... Sempre as teve. Só que agora está a usá-las...


Friday, October 11, 2013

Azerbaijanices, é o que é...

Os países do espaço pós-soviético insistem na parada eleitoralista, como mecanismo de "certificação" do seu grau de democraticidade. E se é inegável que as três repúblicas bálticas e algumas repúblicas balcânicas têm feito um esforço assinalável no sentido de construírem regimes de base democrática; é não menos verdade que na Europa de Leste, Cáucaso e Ásia Central a parada eleitoralista é mais um ritual, do que um verdadeiro mecanismo democratizante.

E com isto chegamos às eleições no Azerbaijão. O resultado não foi propriamente uma surpresa, com Ilham Aliyev a conquistar o seu terceiro mandato presidencial. Aliyev não validou apenas o seu terceiro mandato com o (suposto!) voto popular. O Presidente Aliyev mostrou que é o líder natural do petro-estado transcaucasiano, já que o resultado final da eleição Presidencial, que decorreu a uma quarta-feira (curioso, não?), lhe deu quase 86% dos votos!

Um resultado impressionante por si só, mas ainda mais impressionante se o Fidalgo lhe disser que o Presidente reeleito não fez campanha eleitoral. Nada de muito surpreendente, pois afinal para quê correr se já estamos na meta? A oposição lá ensaiou um protestos, umas marchas e uns comícios, mas tudo muito sem chama porque nem a oposição, deslumbrada com os petro-dólares e com a opulência que irradia de Baku, se quis opor muito a Aliyev.

A eleição presidencial no Azerbaijão, de resto, foi como se Usain Bolt corresse os 100 metros contra criancinhas de sete meses pouco ou nada capazes de se porem em pé. Foi tão veloz a vitória de Aliyev que os resultados eram já conhecidos, ainda as mesas de voto estavam abertas. Para quê esperar pela contagem (em Portugal levamos quase quarenta e oito horas de escrutínio eleitoral!?) se o vencedor já sabia que vencera?

Aliyev é o epíteto do verdadeiro autocrata pós-soviético, minado pelo neo-patrimonialismo eslavo-mongol que o impede de destingir a res publica da res privata. Aliyev venceu as eleições no Azerbaijão, porque o Azerbaijão é de Aliyev e quem pensar o contrário engana-se (e muito!). O Azerbaijão é tão de Aliyev que até já existe sucessor para o Presidente, caso este decida não concorrer a um quarto mandato: Mehriban Aliyeva, a sua esposa.

O resultado eleitoral no Azerbaijão foi denunciado por várias organizações internacionais e por vários estados do dito mundo Ocidental, mas como o dinheiro fala mais alto a denúncia foi soft. Os Estados Unidos da América condenaram a irregularidade e a falta de transparência eleitoral, mas não avançaram com quaisquer consequências diplomáticas. Algo curioso se considerarmos a velocidade com que se impõem sanções a Minsk, que apenas joga o mesmo jogo que Baku.

A OSCE, apesar de criticar o resultado eleitoral pouco claro, aplaude o facto de eleição ter sido disputada por vários candidatos. Factores como equidade, justiça, transparência e honestidade foram menorizados. Aliyev ganhou contra "outros", sabendo de antemão que os outros não eram verdadeiramente elegíveis, mas o importante para a OSCE era que os "outros" estivessem lá...

A União Europeia preferiu nem sequer enviar uma missão de observação eleitoral, não fosse o relatório final "chatear" Baku e o negócio dos oleodutos e gasodutos esfumar-se de vez... Para derrotas já bastou o colapso do ambicioso projecto Nabucco. Ao Fidalgo a parada eleitoral, porque não se deve chamar "eleição" a um acto de confirmação, não trouxe surpresas, apenas confirmações e alguns desapontamentos. Azerbaijanices, é o que é...


Tuesday, October 08, 2013

Quando chegamos ao final do túnel?

Pedro Passos Coelho anunciou hoje que o Orçamento de Estado  para 2014 pode gerar "um choque de expectativas", isto tendo em conta algum optimismo no discurso político, do seu partido, dos seus ministros e da sua lavra, nos últimos meses. Optimismo é exagerar, porque a narrativa política vai flutuando entre "estamos quase no fundo do túnel" (felicidade-frouxa?) e o "afinal era só uma curva, o túnel continua" (infelicidade-apocalíptica?).

Quem tem memória recorda-se que o começo do final das trevas troikianas seria após Setembro, com o famoso regresso aos Mercados. Veio Outubro e o discurso fala ainda em "choque de expectativas", alinhando de resto com Durão Barroso que avisa que se segue o túnel ou "está o caldo entornado". Isto dito por alguém que assim que pode abandonou a malga lusitana, pela baixela aporcelanada de Bruxelas. É preciso ter pouca (se alguma!) decência...

Ou avisos, de resto, vão sendo uma constante. Quando se encontram perante o imobilismo e ao seguidismo acrítico vai-se dizendo "mas estamos tão perto"; e quando a contestação sobe de tom, quando o bater do pé se ouve mais do que o bater das palmas a narrativa logo muda para um "mas o Apocalipse ainda pode acontecer". Esta gestão de expectativas já não causa choque, nem sequer surpresa. Já não causa nada!

Passos Coelho vai saltitando (para fazer jus ao nome, talvez?) entre a esperança de um amanhã de glória, para dar um novo alento de energia ao populus para se fazer o que falta fazer; e o amanhã sombrio que assustará o populus e o condicionará a fazer o que falta fazer. O importante é cumprir a cartilha, a mesma cartilha que tem sido alvo de críticas até por quem a desenhou.

A mesma cartilha que parece condenada ao fracasso sempre que testada; e condenada a ser sempre usada quando falta imaginação, ou quando a ideologia fala mais alto do que a lógica dos factos... Não são as expectativas que ficarão em choque com o novo Orçamento de Estado, é antes a moralidade que volta a ficar em coma. Porque afinal o que importa são os números, os credores, as dívidas todas pagas, os lucros e depois, bem no fundo do tal túnel, as pessoas.

Na Grécia, com dois+um pacotes de ajuda e algumas renegociações de metas feitas nos últimos seis anos, também se fala em "final do túnel" no final de 2014. Isto num país com o emprego quase a chegar aos 30%; num país com um tecido económico arrasado; com uma população sem esperança e com uma classe política perigosamente descredibilizada.

Vai sendo tempo de a classe política nacional (porque a Oposição também tem muitas culpas!) deixar a demagogia bacoca e o partidarismo cego, para passar à acção e ao resolver dos problemas. Vai sendo tempo de a classe política nacional pensar não apenas em resgatar a soberania económica, mas a soberania de sermos quem somos: Portugal! Só assim chegaremos, um dia, de facto, por fim, ao fim do túnel!


Saturday, October 05, 2013

E no silêncio fracciono-me...

É extraordinário o tempo que passamos connosco mesmos quando vivemos num país onde não dominamos a língua. Quando, apesar da sala estar cheia e do ruído da conversa marulhar com a delicadeza das ondas em praia-mar, estamos sós! Não é silêncio puro o que nos rodeia, mas também não chega a ser ruído. E, quando damos por isso, nem queremos saber o que é.

É extraordinário como de repente percebo que há muito que não falava comigo. Era fácil fugir ao silêncio. Era cómodo deixar que a língua de Camões, Queiroz e Pessoa embriagasse o silêncio. E a conversa adiou-se. Percebo agora que inventamos modos de fugir ao silêncio, mesmo quando caminhamos sozinhos aguardamos pelo som de uma mensagem, de uma chamada, ou usamos headphones para bloquear o silêncio. Mas o silêncio é persistente...

E agora que estou num país onde a língua dominante só aos poucos me parece familiar, num país onde nem 100 vocábulos sei ainda (ao que parece, alguns linguistas dizem que com menos de 7000 palavras não se consegue ter domínio basilar sobre a língua), num país onde as conversas trazem ruído mas deixam passar o silêncio, o silêncio, ele mesmo, começou a falar comigo. E, na verdade, fico contente que assim seja.

O silêncio mostrou-me o que eu não sabia, ou se sabia ignorava. O silêncio guiou-me por mim mesmo e desmontou-me em pedacinhos, como quem desmonta um puzzle mal montado apenas para o reconstruir. Mas antes de construirmos o puzzle, de voltarmos a dar sentido às peças, o silêncio pediu-me que olhasse para as peças. Pediu-me que antes de admirar a beleza do todo, que contemplasse a elegância da parte. E assim fiz!

E no silêncio fraccionei-me. E vi que de súbito não sou tão inteiro como julgava. Entendi, a olhar para as peças, que sou o que sou exactamente por aquilo que não sou. Sou um puzzle incompleto. Um puzzle na perenidade do inacabado. Um puzzle sempre em busca de mais peças. Um puzzle que tendo sido desmontado, pelo erro do que reflectia, nunca ficará terminado agora que se auto-entende. Sou um puzzle por terminar e isso deixa-me feliz.

Sou um puzzle de rosto e nomes. Sou criatividade em estado puro: sou Maria e não Tiago; sou urbanidade com um sorriso: sou Carolina e não Tiago; sou energia sem medo de arriscar: sou Inês e não Tiago; sou doçura com a força de um tufão: sou Catarina e não Tiago; sou organização para ter estabilidade: sou Carlos e não Tiago; sou perspicácia e amor incondicional: sou Filomena e não Tiago.

Sou feito de tudo isto e de mais, muito mais. Sou um fracção, sou um somar de peças que nunca terminará. E apenas o silêncio me ensinou isso! Era isso que ele, o silêncio, me queria dizer; era isso que eu sabia que ele diria; era isso que não desconhecendo, ignorava. E para quê? Sou feito de peças, sou um somatório do que não sou, mas é por isso mesmo que eu sou assim. É por deixar que as peças se liguem, se conectem, se completem.

Sou feitos de pedaços que não são Tiago e que não sendo Tiago fazem de mim o que sou. E isso, esse saber do que sou feito, devo-o apenas a ele: ao silêncio. É extraordinário o tempo que passamos connosco mesmos quando vivemos num país onde não dominamos a língua. Mas é mais extraordinário perceber o tempo que perdemos sem estar connosco mesmos...

(Excerto de um algo que começa a ganhar forma, escrito em Kirikkale, Turquia)


Thursday, October 03, 2013

O todo, a parte e a nomeação de Putin...

É uma das questões filosóficas centrais na Teoria do Conhecimento, podemos conhecer o todo apenas pela parte? Ou a parte é apenas uma fracção imprecisa do todo? Os Prémios Nobel, dos últimos anos, parecem inclinados a dizer que a parte é mais importante do que o todo, mesmo que o todo seja diferente da parte que se destaca.

Anda meio planeta espantado com a nomeação de Vladimir Putin para o Prémio Nobel da Paz. O Fidalgo não só não fica espantado como acha que Putin devia ganhar o prémio em causa. A que se deve esta súbita onda de Putinismo agudo? A nada, apenas deixo a lógica das coisas operar. Mas, como sempre nestas coisas do raciocínio, o melhor é irmos por partes.

Vladimir Putin, Presidente da Rússia (e Primeiro-Ministro do mesmo país, nas horas vagas!) foi nomeado para o prémio Nobel da Paz pelo seu contributo para encontrar uma solução não-armada para a guerra civil na Síria. É difícil falar em solução pacífica num conflito que já leva mais de 100.000 mortos e um número ímpar de refugiados que se vão amontoando na Jordânia, no Líbano e na Turquia.

Vladimir Putin usou a sua argúcia diplomática para neutralizar, diria mesmo vaporizar, o belicismo dos Estados Unidos da América e da França, com o Reino Unido (parceiro na guerra do Iraque) a ficar de fora, pois que as garras de Cameron foram retraídas pela tesoura parlamentar! A Rússia, que o Ocidente Euro-Americano continua a ver como o Outro, fez uso das suas "soft skills" e conseguiu serenar um conflito, que não terminou ainda mas esfriou...

A Rússia liderada por Putin agiu, portanto, em prol da Paz. Ora se o Nobel é atribuído a quem actua em nome da Paz, parece-me legítimo querer-se nomear Vladimir Putin para o mesmo. Especialmente quando em 2009 o Nobel da Paz foi atribuído a Barack Obama pelas coisas que "poderia fazer" pela paz internacional. O mesmo Barack Obama com "sede de conflito" na questão Síria, empurrado pelo lobby israelita que vê inimigos em todas as sombras...

Ora se Obama pode ganhar o Nobel pelo que "poderia fazer", porque razão choca o mundo Euro-Americano que Putin ganhe o Nobel pelo que já fez? E não esquece o Fidalgo, que até é especialista em Assuntos do Cáucaso, toda a violência e repressão brutal exercida sobre os povos do Cáucaso Norte e também do Cáucaso Sul; não esquece a Guerra Russo-Georgiana de 2008; não esquece a II Guerra Russo-Chechena...

Mas se fossemos analisar o todo então nem Obama teria ganho o Nobel da Paz (tentou com a campanha Kony 2012 mobilizar a opinião pública para uma intervenção no Uganda; depois afilou os dentes à Coreia do Norte e de seguida ameaçou invadir a Síria), nem os Prémios Nobel da Paz fariam sentido, visto que têm o nome do mesmo homem conhecido como "O Mercador da Morte". Se é a parte que vigora nas análises da Academia Sueca pois então venha de lá a nomeação e, quiçá, o prémio para Vladimir Putin!


Tuesday, October 01, 2013

Breve reflexão sobre as Autárquicas 2013

Com os resultados das autárquicas praticamente fechados, estão ainda por realizar duas votações e por apurar os resultados de duas outras mesas de voto, é tempo de balanço. Surpreendeu-me de resto a avidez com que comentadores teceram laboriosos raciocínios sem ter os resultados finais. Surpreendeu-me a velocidade com que se quis formular opiniões, que por vezes redundam em clichés com intenções "politiqueiras".

Com um mandato ainda por atribuir o PS conseguiu já igualar o número de mandatos que ganhou em 2009 em Câmaras Municipais: 921. O PSD (sozinho) perdeu 135 mandatos passando de 666 para 531. A CDU aumentou 39 mandatos passando dos 174 para os 213. O CDS-PP (sozinho) sobe também de 31 para 47 mandatos, ou seja mais 16 mandatos. O Bloco de Esquerda passa de 9 para 8 mandatos.

Os Independentes passam de 67 mandatos para 113 mandatos, naquela que foi a maior subida da noite em conquista de mandatos nas Câmaras Municipais. O MPT (sozinho) manteve o mesmo número de mandatos conquistados no último escrutínio: 2. E o PND (sozinho) perdeu o único mandato que tinha conquistado.

Há ainda a ter em conta mandatos conquistados na Assembleia Municipal e nas Juntas de Freguesia, mas o Fidalgo não olhará para isso. O Fidalgo também deixará de fora do seu comentário a confusão das coligações, curiosamente mais comuns entre os partidos de Direita do que entre a Esquerda. E há ainda a tragédia de uma abstenção perto dos 47,5%.

O que podemos retirar de tudo isto? A vitória do PS não foi tão avassaladora como algumas mentes da praça, levadas pela excitação da noite eleitoral, quiseram fazer crer. A vitória do PS é interessante, é um novo dado político que o Governo não pode ignorar, mas não é mais do que isso: interessante. Em percentagem de votos o PS até perde 1,42% de votos, passando de 37,67% (2009) para 36,25% (2013).

O PSD (sozinho), por seu lado, é um dos grandes derrotados da noite. Perde 135 mandatos e 6,26% nas intenções de voto não chegando sequer aos 17%. Um resultado fraco para um Governo que tem um Orçamento de Estado para aprovar e que tem de mostrar trabalho urgentemente, pois a capacidade dos portugueses acreditarem no valor dos sacrifícios impostos esgota-se.

Falar em vencedores nas Autárquicas 2013 é falar na CDU! Conquistam 39 mandatos novos, aumentam o domínio no Alentejo, e aumentam o número de votos em 1,31%. Passam dos 9,75% de 2009 para uns curiosos 11,06%. A CDU, goste-se ou não do estilo, representa uma oposição com consistência. Mantém uma linha de argumentação coerente, não sendo apenas anti-governo é alternativa com propostas, ideias e argumentos conhecidos. A CDU não capturou votos de protesto, tem em crer o Fidalgo, capturou votos de cansaço com o bipartidarismo laranja-rosa e votos de quem tem vontade de descobrir trilhos novos.

O CDS-PP é outro vencedor da noite passando a contar com mais 16 mandatos e perdendo apenas 0,5% de votos entre os dois escrutínios. A irrevogabilidade de Portas não fez moça, ao que parece, na mente de muitos eleitores. A crise/birra política não se traduziu em perda de votos e mandatos. O CDS-PP representa, curiosamente, uma inversão do cenário alemão: na Alemanha o partido de Merkel ganhou votos à custa do parceiro mais pequeno; por Portugal o parceiro de coligação foi buscar votos ao "irmão grande".

O PSD não esteve sozinho na sua derrota! O BE, por muito que tente disfarçar, perdeu em toda a linha. Não conseguiu, sequer, renovar os 9 mandatos conquistados em 2009, perdeu um pelo caminho; não conseguiu passar a barreira dos 3% de votos (nem sequer 2,50% obteve); não conseguiu manter a única Câmara Municipal que tinha. O BE anda à deriva, sem ideias e sem argúcia, e corre o risco de desaparecer, de se diluir entre a oposição vincada da CDU e a oposição dócil do PS.

Voltemos aos vencedores! A coroa das Autárquicas 2013 vai para os candidatos Independentes. Conseguem mais 46 mandatos, conseguem mais 2,83% votos ficando pertinho da barreira dos 7%, conseguem conquistar a segunda Câmara mais poderosa do país. Os Independentes são os grandes vencedores da noite eleitoral, mostrando uma clara resposta da sociedade civil à exaustão de ideias e ao diluir de ideais na sociedade política.

Os Independentes representam um grito de revolta democrático, com mais consistência do que os mediáticos Anonymous. São uma nova faceta da vida política nacional, que apesar de contar com quase 48% de eleitores-abstencionistas, conta também com cada vez mais gente empenhada em fazer política, num momento em que a cola agregadora dos partidos políticos mostra sinais de fraqueza. A vitória da noite é dos Independentes e ignorar isso é não perceber muito de política.

Menção muito honrosa ao Movimento Revolução Branca que marcou os meses que antecederam o escrutínio popular. A vontade férrea em acabar com os "dinossauros" políticos acabou por se traduzir na aniquilação de muitas desta figuras. O autarca-nómada não é um espécimen extinto, pois que sobreviveram alguns, mas a sua população é menos numerosa do que se previa.

E é isto! As Autárquicas 2013 deixam os partidos com sensações e posições diferentes. Temos assim um PS com uma vitoriazita engalanada pelo estrondo de Lisboaum PSD com uma derrota indigesta, mal disfarçada pelas conquistas nas várias coligações; um CDS-PP com uma vitória por clara transferência de votos; uma CDU com uma vitória relevante, com um novo domínio sobre o bastião Alentejano; um BE em estado de diluição; e os Independentes coroados pela persistência, pela criatividade e pela ousadia.



Thursday, September 26, 2013

A Europa, as Uniões da Europa e as galinhas da vizinha...

A realidade política comparada tem sempre destas coisas, por vezes olhamos para "a galinha da vizinha" e percebemos que ela é mesmo melhor do que a nossa. Na Europa, que respirou de alívio com a elevação à glória da sua Imperatriz Auto-Nomeada e (parcialmente) eleita, o tempo é de contas. O novo orçamento tem que sair e os 28 membros + Comissão + Parlamento não se entendem.

Uns querem mais dinheiro, porque o tempo é de crise e por isso é preciso proteger os mais desfavorecidos; os mais castigados com os erros que não cometeram; os mais penalizados por se trilhar um caminho que não tem como ser caminhado. E outros, como o Reino Unido (mais recentemente), acham que dinheiro a mais é manter vícios, manter maus hábitos, manter a imoralidade.

O problema é que certas vizinhas, quando olham para a galinha do lado, olham toldadas pelo preconceito; pela ideia que a vizinha do Sul é preguiçosa e mandriona; e não faz mais e melhor apenas porque não quer. Na verdade não olha para a vizinha, põe-lhe apenas a vista em cima e deixa que o preconceito tome espaço e olhe por si, numa cegueira que não pode dar bons frutos num espaço em que as 28 vizinhas deveriam ser amigas...

E depois, num "bairro" não tão distante, há planos para se usar dinheiro como mecanismo de atractividade para a criação de um espaço onde se querem mais vizinhas. Um espaço onde as vizinhas, as que estão e as que irão chegar, se querem afiladas pela lealdade e pela ausência de cobiça pois que haverá galinhas para todas! Eu descodifico...

O Primeiro-Ministro do Quirguistão propôs a criação de um Fundo de Assistência a quem se juntar à União Eurasiática, espécie de CEE 2.0 liderada por Moscovo, que começará como um projecto de mercado livre, de transacção de bens e capitais e (a seu tempo) lá caminhará para uma integração política maior...

Nos dois bairros, no da União da Europa e no da União da Euroásia, tenta-se reconstruir a grandeza de Impérios que já foram, mas cujo pó ainda (se) inspira. Lá como cá o Síndrome de Roma (a eterna tentativa de reviver a Pax Romana) ainda vai mexendo com muitos mandantes...

Só lamento que no bairro da União da Europa, supostamente humanitária, solidária e democrática, impere o autoritarismo do mercado e austeridade multidimensional que rarifica ideias e estrangula soluções não-austeras. Lamento que a União da Europa se fragmente porque nunca se quis unir; foi a cobiça pela galinha alheia que juntou tanta vizinha.

E acho curioso que na União da Euroásia, no tal bairro de ditadores despreocupados com direitos basilares, existam preocupações com os custos de se entrar para um espaço comum; com os custos de se homogeneizar o que até então era diferente. Se tudo correr bem não será preciso cobiçar a galinha da vizinha, porque as galinhas serão todas iguais.

E por aqui se fica o Fidalgo...