Wednesday, February 29, 2012

É agora que o Acordo gerará acordos?

Disse hoje o Secretário de Estado da Cultura que no que respeita ao Acordo Ortográfico, com o qual poucos concordam, que há ainda existem formas de aperfeiçoar o mesmo. O Secretário de Estado da Cultura saiu assim em defesa de Vasco Graça Moura e, na minha opinião, a atitude só lhe fica bem. Aplaudo-o por isso!

Finalmente parece que chegamos a acordo sobre uma coisa, o actual Acordo Ortográfico no mínimo, para sermos diplomaticamente correctos, precisa de ser aperfeiçoado. Diria eu, que o Acordo precisa ser revogado, mas a mediação inteligente do Secretário de Estado da Cultura parece-me uma boa solução. Rasgar o Acordo? Não... Portugal vai apenas redesenhar algumas das suas premissas.

Esta nova tomada de posição deixa-me contudo a pensar... Se existem mecanismos para aperfeiçoar o Acordo, que tanto desacordo foi causando, porque razão apenas ouvimos falar deles agora? Foi preciso Vasco Graça Moura iniciar uma pequena rebelião, amplamente aplaudida, para que se lembrassem (aqueles que decidem) que os mecanismos estavam lá, prontos a usar?

Os protestos, os abaixo-assinados, as iniciativas civis, não chegaram aos ouvidos da governação? Ou, tremo de pensar nisso, a anterior governação era mesmo autista; cristalizada no seu mundo de certezas e de não-erros. A anterior governação, o executivo que antecedeu o de Passos (para os mais distraídos), estaria assim tão certa do brilho fosco deste Acordo com o qual não se concorda?

Será preciso perdermos o Ministério da Cultura, para que a Cultura ganhe vida? Se for, é triste, mas pelo menos vislumbram-se soluções. Se for, se houver coragem política para ser, serei o primeiro a aplaudir o Sr. Secretário de Estado. Porque se há coisa que estamos de acordo, em relação ao Acordo, é que o mesmo não funciona tal como está. De acordo?

Que o tempo que temos, até 2015, seja usado com sageza; com coragem e espírito intrépido. Com aquele querer conquistar novos mundos, que não se fazem de naus e caravelas mas de canetas e fonemas. Se soubermos usar esse tempo, esse génio, esse espírito, então talvez toda esta austeridade tenha produzido algo de valor. Talvez tudo isto tenha valido a pena...

Tuesday, February 28, 2012

O regresso de quem nunca chegou a sair...

Anda quente a vida política na Rússia e, por muitas razões, vou continuar hoje a escrever sobre o país dos czares. As eleições Presidenciais deste Domingo podem ter o duplo significado de abrir/fechar um ciclo, dizem os analistas políticos. A mim parece-me que são apenas uma transformação de um ciclo que, na realidade, se mantém.

Ora vejamos! As recém anunciadas reformas ao sistema eleitoral, anunciadas hoje, poderão significar o final de um ciclo mais autocrático de pendor neo-patrimonial, para uma era mais ocidentalizada, mais próxima do que a União Europeia enseja. As recém reformas fazem parte de um habitué político muito comum; juntando-se este novo diploma legal às anteriores reformulações de 1995/1996, 2000, 2004, 2008.

A Federação da Rússia não vai entrar num novo ciclo político apenas porque ocorreram algumas manifestações de rua nas duas maiores cidades do país; não reconhecer o imenso capital político de Putin na Rússia rural é um erro crasso. A Rússia deu aliás provas de que não vai fechar nenhum ciclo político, quando hoje se posicionou ao lado da Bielorrússia na condenação às novas sanções impostas pela União Europeia. A mesma Bielorrússia que o ano passado o candidato presidencial Vladimir Putin disse que "a prazo teria que voltar para a Rússia"!

A Federação da Rússia poderia, após as eleições, entrar num novo ciclo político; dando-se relevo ao discurso militarista de Putin. A tónica eurasianista, que sempre tem marcado a governação do Kremlin, não deu sinais de esbatimento e, quando muito, o discurso serviu para acalmar as vozes internas e conseguir o apoio dos nacionalistas, dos nacional-extremistas e de alguns saudosistas comunistas. Putin falava para dentro sem se preocupar se o olhavam de fora.

A Rússia vai manter o mesmo ciclo, com os mesmos protagonistas, com a mesma trama, com a mesma desenvoltura, redecorando-se apenas a casa e imprimindo-se uma nova dinâmica que não chega a ser inovadora. A Rússia vai manter o mesmo ciclo político, quando um mais do que conveniente atentado a Putin organizado por chechenos dá o último impulso para as presidenciais de 2012, do mesmo candidato que aparece na cena política russa com os muito suspeitos atentados dos chechenos no Daguestão...

A Rússia não vai mudar de ciclo porque isso é perigoso; os russos sabem-no; Putin sabe-o; e no Ocidente também o sabemos... Mas imbuídos pelo espírito da (fracassada) Primavera Árabe e mergulhados no nosso habitual snobismo fingimos que não sabemos... E nada mais tenho a dizer!

Friday, February 24, 2012

Putinismo, putinofobia e o "ceguinho" do Ocidente

Vladimir Putin tentou mostrar ao mundo que é popular em casa. Ontem organizou um super comício que terá contado com qualquer coisa como 100.000 apoiantes mas o mundo não quis saber. Hoje, zangado com o modo como a revista norte-americana Times o retratou, Putin terá acusado a publicação de "Putinofobia". E, quer-me parecer, que Putin tem, desta feita, alguma razão...

O dito eixo euro-americano ficou extasiado de alegria com as manifestações anti-Putin, que mereceram larga cobertura mediática e inúmeros comentários inflamados sobre uma possível mudança no Kremlin e sobre um muito forçado efeito de contágio da Primavera Árabe na região. O mesmo eixo euro-americano não mostrou, não falou, não quis saber, dos protestos pró-Putin. E depois admiram-se que o Putin fale em parcialidade?

Vladimir Putin, obviamente, exagerou na retórica anti-Ocidental do seu discurso. Mostrou-se militarista, imperialista, eurasianista e todos os outros epítetos que lhe quiserem chamar. Na verdade mostrou apenas internamente o que a população russa queria ouvir; que é um líder forte, capaz, audacioso, corajoso. Putin não quis afronta o Ocidente, embora esteja pouco preocupado com a colateralidade das suas palavras que eram para os russkyie e ponto final.

O discurso do Primeiro Ministro que a 4 de Março irá, com muita certeza, ganhar as eleições Presidenciais não deve, nem pode, ser analisado à luz de conceitos e visões ocidentalizadas. As influências sociopolíticas russas misturam outros factores e quem não os compreende, dificilmente entenderá o que Putin disse, porque o disse e para quem o disse.

Mais ainda! Já vai sendo de alguns analistas políticos pararem de associar todos os protestos, todas as marchas, todos os movimentos sociais fora do espaço europeu como sendo influenciados pela Primavera Árabe. Sou o primeiro a defender a teoria do dominó; mas reconheço nela limitações naturais. O Nepal e o Quirguistão entraram em convulsão muito antes da Tunísia... Os eventos na Nigéria e no Chile são de natureza dissimilar aos do Egipto...

Primavera Árabe que, a julgar pelos primeiros resultados, mais parece um Inverno ao estilo siberiano. O Egipto e a Tunísia perderam os autocratas políticos; ganharam os islamitas pseudo-moderados. A Líbia e a Síria desceram ao caos da guerra civil. Em Marrocos os salafitas vão sendo afastados do poder, pelos islamitas conservadores e o mesmo vai acontecendo na Argélia... É esta a Primavera Árabe que tanto orgulha Obama e companhia?

Tentar ver o mundo sempre com os mesmos olhos, sem a capacidade de entendermos diferenças à luz de diferentes parâmetros e paradigmas de análise é a causa de muitos preconceitos, que geram conflitos que começam na força das palavras e acabam na violência dos actos. Vai sendo tempo de o mundo ocidentalizado descer do seu pedestal cristalino e perceber que à mais vida para além do eixo euro-americano. E vai sendo tempo de percebermos que homogeneizar apenas porque sim só pode dar asneira...

E com isto lá vou eu de fim-de-semana!


Thursday, February 23, 2012

É pena o bem dito, não ser (também) bem feito...

Começou a importante Cimeira Londrina sobre a Somália, na qual se irão debater os progressos (se os houve) que o país registou mas, mais importante, na qual se irão delinear os próximos passos. O primeiro dia começou com uma ideia interessante que me fez reflectir, uma vez mais, sobre o modo como a Europa olha para África. A era colonial passou, mas ninguém diz que o paradigma colonial foi com o fim da era.

Disse Yoweri Museveni, líder do Uganda, que para os problemas africanos funcionam melhor as soluções africanas. Saúdo de pé a ousadia de o dizer Sr. Museveni, mas a verdade é que as soluções africanas que defende têm tardado em surgir. África é, na sua maioria, um continente em "linha de espera". Esperam a resolução dos traumas coloniais; esperam o crescimento; esperam o desenvolvimento; esperam a pacificação; esperam, esperam, esperam...

E pouco se tem resolvido! As soluções africanas que defende, e que creio que teriam sentido se imbuídas num espírito e num contexto verdadeiramente africanista, não podem ser desenhadas por esta elite política que prova, dia após dia, a sua incapacidade e, pior, a sua apatia, para resolver problemas da população. As tais soluções africanas que preconiza deveriam já ter surgido. Mas África preferiu adiar-se a si mesma; por-se em linha de espera.

Duas coisas fazem-me alguma confusão quando penso em África. Primeiro: a sujeição dos líderes locais a todo o tipo de chantagem política ocidental, por culpa da virulenta subsidio-dependência que alimenta apenas uma pequena elite e que deixa morrer de fome centenas de milhares de almas. Segundo: a incapacidade dessas mesmas elites políticas governarem por e para o povo e, mais gritante, a incapacidade de se chegarem a consensos necessários.

Se já percebemos que o mapa geopolítico, imposto pela Europa, não funciona porque não se redesenha o mesmo? Porque insistimos em manter em funcionamento, o que sabemos que não funciona? Porque não mostram os líderes políticos africanos essas soluções africanas que, quando tomadas, irão fazer corar muitos políticos euro-americanos. Disso não tenho dúvidas. Porque se mantém o mapa de África em espera, quando a espera salda-se em corpos e em vidas terminadas demasiado cedo.

Podemos apontar o dedo à passividade do dito Ocidental perante o modo como vai sendo governada a África no século XXI. Mas não só não alinho em intervenções ocidentais, que tendem a impor modelos e a não resolver problemas; como também acho que as sociedades civis africanas têm valor suficiente para se independentizar e autonomizar. Se para África o melhor é pensarmos em soluções africanas, porque razão essas mesmas soluções são adiadas?

E o Fidalgo volta amanhã!


Wednesday, February 22, 2012

Do atentado a Ankvab ao não-tentar europeu...

E eis que quando pensava que ia "sair" do Cáucaso apenas me desloquei dentro de mesmo. A notícia que hoje correu as edições internacionais dos grandes jornais aconteceu não a norte, no Cáucaso Russificado, mas a Sul, no Cáucaso independente.

O presidente da república separatista da Abkhazia, que Portugal não reconhece por defender o princípio da integridade territorial da Geórgia (princípio esse que nos esquecemos de defender no caso da Sérvia), foi alvo de um atentado (ou para ser mais exacto, de mais um atentado) mas sobreviveu ao mesmo. O atentado não podia vir num momento mais propício, quando se preparam as eleições parlamentares de 10 de Março.

Para a Federação da Rússia, que foi aliás o primeiro estado a reconhecer a independência da Abkhazia (como contraponto à independência do Kosovo, reconhecida pelos EUA), o atentado tem a marca de Saakashvili, Presidente da Geórgia, derrotada pelos Russos (com uma facilidade perturbadora) nessa Agosto de 2008. Os Georgianos não se apressaram a desmentir, como é hábito nestas situações.

Pelo contrário, as palavras de Saakashvili em visita ao Afeganistão de que "estariam a aprender muito enquanto o inimigo ocupava as suas terras", parecem confirmar as suspeitas russas. Neste jogo, meus senhores, prefiro ficar de fora... Mas não me parece de todo que os russos tivessem interesse em prejudicar a transição política da Abkhazia, já que foram estes os seus maiores promotores.

A Geórgia poderia beneficiar com a morte de Ankvab, já que a morte de Bagapash (histórico líder abkhaz e Presidente interino da Abkhazia independentizada) não surtiu o efeito que alguns analistas ocidentais e georgianos esperavam: esfriamento do devir nacionalista e independentista. Pelo contrário, com a morte de Bagapash a vontade de os abkhazes serem independentes apenas aumentou.

Querem ser independentes não apenas por direito, enquanto povo; mas também por vontade homenagear os esforços estóicos de Bagapash. A União Europeia, e mormente a França (que chamou a si a responsabilidade de liderar a resolução do conflito de 2008), vai agindo demasiado devagar; demasiado presa aos interesses norte-americanos e demasiado "cega" ao apelo de um povo que é histórica, cultural, social e políticamente distinto dos "georgianos".

Nada que me espante. Esta  é a mesma Europa que anda devagar na questão da Somalilândia; que empata na questão do Saara Ocidental; que não se decide na questão do Tibete; que parece desconhecer a Transnítria; que nunca ouviu falar da Circássia... Esta é a Europa que não consegue gerir-se a si mesma, porque razão poderia pensar que seria capaz de gerir os outros?

E o Fidalgo retira-se!

Monday, February 20, 2012

Como o meu Cáucaso Norte explica (em parte) a política de Moscovo...

Vai tenso o discurso político nas eleições Russas. Vladimir Putin terá optado por uma retórica militarista e com laivos anti-ocidentais. Nada de novo e nada de muito surpreendente. No pós-protestos pós-legislativas Putin, como eu disse num artigo publicado no Strategic Outlook, tinha como uma das opções possíveis uma aliança com os nacionalistas...

O problema é que os nacionalistas querem que Putin abandone o Cáucaso Norte, sendo aliás os responsáveis pela campanha "Parem de Alimentar/Subsidiar o Cáucaso", mas o candidato Presidencial não está disposto a ceder nesse ponto. E portanto, naturalmente, Putin socorreu-se do segundo trunfo ao seu dispor: inflamar as capacidades militares russas e mostrar-se anti-Ocidental sem o dizer directamente.

É interessante como o Cáucaso Norte desempenha um papel crucial nas eleições presidenciais da Federação da Rússia. É interessante perceber como uma pequena faixa de terra consegue monopolizar a vida política no Kremlin. Primeiro, em 2010, foi criado o Distrito Federal do Cáucaso Norte e agora é sobre essa mesma faixa de terra entre os Mares Negro e Cáspio que se constroem e destroem alianças políticas.

E o Cáucaso Norte, que durante anos foi espectador politicamente passivo (apesar de militarmente muito aguerrido), entrou na dança. Dokka Umarov, o homem mais procurado da Rússia, e Emir do auto-proclamado Emirato Caucasiano, pediu aos seus guerrilheiros para não atacarem mais os civis russos, recorrendo a um vídeo do youtube (curioso como alguém que vive nas florestas e montanhas adora comunicar via youtube; Umarov é quase um Robin dos Bosques High Tech dos guerrilheiros).

Sem violência contra os cidadãos russos, e dos demais grupos étnicos, os largos contingentes militares estacionados naquela zona e que sorvem importantes subvenções do erário público deixam de fazer tanto sentido. E para ilógico, pensará Putin, já bastam os protestos de rua e as arruadas que vão animando Moscovo e São Petersburgo.

Não estranho por isso a mais recente operação policial/militar lançada no Daguestão... A mesma que está longe de ser um sucesso, com 17 mortes (do lado das autoridades federais) em apenas 4 dias! E uma vez mais o Cáucaso Norte se torna num labirinto complicado, que exige uma navegação inteligente. Se Vladimir Putin mostrar "em casa" o fiasco da operação, mostrando a violência do contra-ataque de Umarov, consegue provar que o trabalho no Cáucaso Norte não está feito; mas levanta a questão: então o que se fez até agora?

Se Vladimir Putin tentar minimizar o impacto da operação junto da opinião pública, não coloca em causa o trabalho feito (pelo menos em teoria) na região; mas levanta-se a questão: o que resta fazer? Se Vladimir Putin não fizer nada então, muito seguramente, os grupos étnicos do Cáucaso Norte irão aumentar a pressão independentista e mais russos dirão: para que queremos mesmo a região menos desenvolvida da Rússia?

E por causa de todas estas questões, e por culpa dos já mencionados aliados nacionalistas, o que faz Putin: desvia as atenções e cria um novo foco de interesse mediático interno e também externo. Vladimir Putin apenas confirma que é um animal político altamente resiliente e que, sem grandes dúvidas, irá ganhar as Presidenciais de 2012 e ganhar acesso a perpetuar-se no poder... Assim, tal como o presidente da Síria que tem protegido.

E o Fidalgo nada mais tem a dizer... Por agora...


Friday, February 17, 2012

Cuidado Sr. Presidente... Crianças por perto!

A origem deste post já perdeu muita da sua actualidade, mas fiquei tão abespinhado com a notícia de ontem (o catalizador deste post) que preferi adiar a feitura do mesmo; não fosse escrever coisas menos próprias. E com a distância de mais uma vintena de horas, confesso, ainda nem sei bem o que dizer; aliás sei bem o que QUERIA dizer, mas não chego a consenso sobre o MODO como devo dizê-lo.

E portanto este post será uma experiência de alto risco! Li no Público que o Sr. Presidente da República cancelou uma visita a uma escola porque, espantei-me eu, estava prevista uma manifestação dos alunos. E com este murro no estômago pergunto-me: Tem medo do quê Sr. Presidente? Da espontaneidade das crianças? Ou da capacidade de estas dizerem verdades enquanto arrancam sorrisos?

Talvez o Sr. Presidente da República não se recorde, mas em democracia é importante saber lidar com protestos e não apenas com paradas ensaiadas e recepções onde tudo é coreografado, controlado, artificial e portante irreal. Um Presidente da República que literalmente foge de uma manifestação de crianças é tão útil ao país como veneno a uma Viúva Negra...

É mais do que conhecido que sou Monárquico e uma das coisas que mais gozo me dá é o debate ideológico com os republicanos e a capacidade de um grupo de pessoas com um ideal (nós Monárquicos) puder mudar um status quo onde impera um outro ideal (suportado pelos Republicanos). Ora quando a figura de proa dos Republicanos tem medo de criancinhas em protesto esse duelo afrouxa... E assim, com um oponente que se acobarda, não dá nem para animar a alma!

D. Carlos foi assassinado no Terreiro do Paço para, entre outras coisas, mostrar à população que apesar do clima social tenso e da situação económica débil estava do lado das pessoas; era o representante de uma Nação, mas fazia parte dela. Pouco mais de 100 anos depois, o Presidente da República (de um país socialmente tenso e economicamente combalido) foge de uma ida a uma escola onde supostamente iriam ocorrer protestos. Digam-me então: valeu a pena o golpe?

Bom fim-de-semana...


Thursday, February 16, 2012

A novidade não mora ali...

Sabe quem me conhece que sou um optimista congénito. Adoro pensar de modo positivo; dando sempre uma oportunidade ao que é novo de mostrar que irá cumprir-se pelo melhor... E por isso achei que o fim do longo khanato de 25 anos (sim, um quarto de século!) de Carvalho da Silva na CGTP e a chegada de Arménio Carlos poderia trazer algo de novo.

Aliás, esperei isso não apenas por optimismo onírico mas também porque o novo Líder Supremo da CGTP prometia formas de luta novas... Mas de novas cores é que não se pinta o cenário do sindicalismo português, aliás nem sequer se mudou o tom da cor que ficou... Carvalho da Silva, na verdade, não saiu; foi apenas trocar de nome, de corpo, de rosto, mas não de ideias, ideais e outras coisas que tais...

Arménio Carlos anunciou hoje uma nova greve para 22 de Março. Sim, mais uma greve... Que irá somar-se à greve da CP de 21 de Fevereiro; irá somar-se à manifestação do último fim-de-semana. É, como já disse e repeti, esvaziar a greve do seu poder atómico, por tanto se usar a mesma. Os sindicatos continuam a não conseguir dialogar, porque estão entrincheirados numa visão da sociedade utópica, que não se consegue impor com a legitimidade do voto popular e que tenta sobreviver pela via da actividade sindical!

Arménio Carlos, repito, prometia novidade; mas não vi ainda nada de genuinamente novo. É verdade, e dou a mão à palmatória, que o alguns membros do governo provaram ser pouco hábeis na arte da negociação; mas é igualmente verdade que os sindicatos têm provado ser pouco imaginativos para contornar esse bloqueio.

Pior, não só não são imaginativos como são demagogos. Apresentando, não raras vezes, propostas irreais que sabem que serão recusadas. A UGT, entretanto, tem mostrado uma tentativa de modernizar-se; tem tentado provar que sabe ceder quando necessário e tem sido, por isso, atacada pelas estruturas sindicais que Arménio Carlos encabeça.

Parece-me, por tudo isto, que vai amorfo, enfadonho e desinteressante o sindicalismo nacional. Os líderes sindicais, muitos dos quais verdadeiros apparatchik que não trabalham desde as calendas, estão presos a uma retórica beligerante e a um modo de agir que fazia sentido no século XIX; que era descontextualizado no século XX e que quase não merece comentário no século XXI.

Não gosto de avançar prognósticos, mas quer-me parecer que a greve geral tenderá a ser tão impactante quanto fogo fátuo. Isto claro se excluirmos os autocarros com reformados (um clássico da CGTP) e as pessoas que vêem em passeio e não em protesto à capital. Cheira-me que a Greve Geral poderá ser um geral falhanço. Mas isso é esperar para ver...

E assim o Fidalgo termina a sua predica de hoje...

Tuesday, February 14, 2012

Do jogo do rating à "osteridade"

Ontem à noite, preparava-me para uma noite de sono reparador, até já tinha escolhido a roupinha quentinha para me ir deitar, quando li no Diário Económico que a Moody's, essa grande amiga da Europa, voltou a baixar o rating a seis países europeus entre os quais, sem espanto e sem novidade, Portugal e nuestros hermanos de Espanha.

A argumentação, uma vez mais, anda no reino do achismo. Acham os especialistas do rating, que ainda não sei se são raitingistas ou raitingólogos, que Portugal não vai conseguir cumprir as metas; isto apesar de estar a seguir com a prescrição médica que o Dr. Troika receitou. Ora se o doutor se enganou vai-se punir o paciente que se tem portado bem??? Ou chamar à responsabilidade o doutor??? Ou está a Moody's a assumir a sua irresponsabilidade quando faz estas patetices...

Diziam-me hoje que nas agências de rating trabalham grandes especialistas em Economia e que, por isso, deveríamos confiar mais no que elas dizem... Ora um grupo de especialistas numa sala não garante duas coisas: 1.) certezas, que em em Ciência só estamos certo do erro (ou já nos esquecemos que a Terra era plana? E o centro do Universo?); 2.) imparcialidade. Não assumo que sejam parciais, mas não posso dizer que não o são. E os actos dos últimos meses vão parcialmente confirmando a parcialidade... Parece-me a mim, claro!

As agências de rating, pensou eu, têm uma predilecção por achar muito coisa e falhar em muitos dos achanços. Ora se quem falha os programas de austeridade é punido, quem falha previsões não deveria ser chamado à responsabilidade. Parece-me que o jogo é todo ele muito unilateral. Uns podem dizer e agir como querem, os outros só podem acenar a cabeça e dizer Sim Mestres?

Não admira que a Osteridade (como ouvi dizer hoje no 729 para Algés) incomode as pessoas, mais do que tudo, por não a compreenderem... E também não compreendo, sou sincero, como é que o líder do Eurogrupo (ainda lhe podemos chamar grupo?) embarcou na cantilena germânica de que "A Grécia ainda não nos convenceu!" Senhores, mas o que é preciso mais? Um jantar formal de apresentação da Osteridade Grega? Ou um Porto de Honra?

Se as agências de rating se preocupassem mais em achar soluções, ao invés de se dedicarem a achar problemas; se os líderes europeus se preocupassem mais em resolver o que ainda pode ser resolvido, talvez a Osteridade fosse menos austera, mais perceptível, mais aceitável, mais humana. Mas isto claro são apenas ideias de quem pouco percebe de economia...

E o Fidalgo vai jantar antes que lhe baixem o rating..




Monday, February 13, 2012

Quem precisa mais de quem Sr. Roesler?

Foi longa a espera ontem para que os deputados gregos fizessem o que já se esperava: aprovassem o pacote de austeridade para verem ser aprovado um segundo resgate. Foi longa a espera e, para meu espanto, tive que seguir pela RAI International (Itália) o debate no parlamento grego porque nem BCC News, nem Aljazeera, nem EuroNews, nem France24, nem SIC Notícias o seguiu minuto a minuto como a RAI International.

Enquanto o debate decorria Atenas pegava fogo literalmente! 80.000 manifestantes em Atenas, mais 20.000 em Tessalónica e outros grupos noutras cidades helénicas mostravam o seu desagrado para com a austeridade da União Europeia apesar de, curiosamente, a maioria dos entrevistados pelas televisões mostrar vontade de querer ficar dentro do euro. Protestavam, diziam alguns, por uma questão de dignidade que, por estes dias, parece ser vendável...

45 edifícios pegaram fogo, enquanto se inflamavam argumentos no Parlamento grego e se adensava a espera pela votação final (ia ficando sem unhas!). Mais de 170 pessoas foram feridas, quando os actos de brutalidade substituíram as palavras e tiraram a razão a quem era seu dono...

E os deputados debatiam; oravam para convencerem os pares e, pareceu-me a mim, para se convencerem a si mesmos de que esta é a melhor solução, por muito má que pareça. Escolhiam o pior, para evitarem o péssimo; ou o abismo...

E depois de tudo isto; de a Grécia se vergar à União Europeia que devia ser parceira e não Suserana ainda tenho que ler que o Ministro da Economia Alemão continua céptico? A sério??? O desespero de milhares de pessoas e o ar abatido com que os deputados venderam a sua alma não lhe chegou? O que esperava mais Sr. Ministro? Uma saudação qualquer a um retrato de Angela Merkel? Ou ao seu retrato, por sinal?

A Grécia irá passar por um período de verdadeira regressão social; com cortes salariais de 22%; com o desmantelamento do estado social, reduzido ao seu mínimo espectral; e com a destruição de sonhos e oportunidades não para uma, mas para várias gerações. E, mesmo assim, o Sr. Ministro da Economia da Alemanha vem dizer que ainda falta convencer a Europa?

Eu, que faço parte desta Europa, lhe digo que a mim não precisam de convencer. E nem deviam precisar de o convencer a si... A Grécia, arrasada pelos tanques de guerra da Alemanha nazi, soube reerguer-se e recuperar o seu sorriso. A Grécia que depois de saqueada pela Berlim de Hitler soube perdoar a Berlim titubeante do pós-guerra. A Grécia que, relembro, não provocou duas guerras mundiais, tem sabido mostrar uma capacidade de resiliência extraordinária desde a sua formação em 1822.

A Grécia não devia precisar de convencer a Europa coisa nenhuma... E eu, que tenho defendido a manutenção do euro, começo a pensar que uma saída faseada do mesmo poderia ser uma solução a ponderar; não gosto de apontar receitas em áreas que não domino, pelo que isto é apenas um brain teaser. Começo a achar que a defesa de uma ideia, por muito nobre e interessante que seja, tem os seus limites... E parece-me, a mim claro, que a Grécia prova que os limites foram alcançados.

Se a Alemanha, que eu continuo a achar que é grande demais para o euro e não o inverso, não quer sair do euro pois que Portugal, a Grécia, a Irlanda e talvez a Espanha e a Itália saiam progressivamente deste. Quero ver se a pujança económica Alemã continua quando não puder escoar os seus produtos para a eurozona... Que ver se o poderio aguenta, quando a solidariedade comercial se esbater e outras parcerias forem procuradas. Afinal, Sr. Ministro da Economia Alemã, quem precisa convencer quem?

E fico-me por aqui...


Friday, February 10, 2012

Estudando o Norte, mas olhando para Sul...

Vai complicada a vida na república da Ossétia do Sul. A região independentista que em 2008 esteve no fulcro da Guerra Russo-Georgiana volta a viver um momento conturbado, contrastando com a, pelo menos aparente, calma que reina na república da Abkhazia.

O começo da tensão começou no decurso da marcha eleitoral que que terminou com um impasse político entre Alla Dzhioyeva e Eduard Kokoity. Dzhioyeva, antiga Ministra da Educação da república Osseta, reclama vitória no sufrágio eleitoral mas o Tribunal Eleitoral discordou e anulou o sufrágio. Uma série de rondas negociais estabeleceram uma série de reformas que levariam, gradualmente, a uma transferência de poderes de Kokoity para Dzhioyeva... Nada aconteceu!

Frustrada com o evidente "bloqueio" de Kokoity, a líder oposicionista pediu ao presidente interino Brovtsev que intervisse... Mas pouco mudou! E agora, na sequência de um raid policial a líder política foi hospitalizada, após um pico de tensão alta que colocou o quadro clínico de Dzhioyeva em risco. E assim se vai desenhando a vida política na região da Ossétia do Sul.

A Rússia, que foi o primeiro estado a reconhecer a república da Ossétia do Sul (e que curiosamente nos seus websites noticiosos coloca esta notícia na secção Internacional), tem actuado com imensa cautela diplomática; apesar de ser notório o desejo de se posicionarem personalidades políticas leais a Moscovo nas posições-chave. Habilmente, Moscovo vai aproveitando as crises políticas locais para alterar (discretamente) o posicionamento dos seus homens.

A república da Ossétia do Sul que já antes reclamara o direito à autonomia, avançou em Agosto de 2008 com a declaração unilateral de independência. O Ocidente americanizado clamou contra a "agressão na integridade territorial georgiana". Um argumento simpático, mas que não satisfaz se nos lembrar-mos que a integridade da Sérvia não foi respeitada na independentização do Kosovo.

Vai sendo tempo de os EUA pararem de se arrogar ao título de juízes do mundo livre. Porque razão os seus protectorados, mormente o Kosovo e Israel, têm mais direitos que a Ossétia do Sul ou que a Transnítria? Enquanto a política se reger por critérios ambíguos, pouco claros e injustos será complicado recuperar a credibilidade, perdida aos olhos da sociedade civil da aldeia global.

E o Fidalgo vai de fim-de-semana...


Thursday, February 09, 2012

Quando o silêncio não é de ouro, mas de diamante...

Deixei de fazer planos sobre aquilo que quero escrever, mesmo sendo este blog meu! De cada vez que começo a pensar num comentário sobre um tema A eis que, de súbito, surge um tema B que me rouba a atenção e que merece o meu mais acutilante comentário. E, pelo terceiro dia consecutivo, aquilo que a classe política diz volta a alimentar a prosa do Fidalgo.

Depois de Passos Coelho com o "drama dos piegas" e de Nora Berra com "conselhos mal aconselhados para os sem-abrigo" eis que voltamos a Passos Coelho... Desta vez a pérola que Passos Coelho disse e que, tenho a certeza, irá alimentar comentários dos especialistas e dos leigos, foi que "os políticos são mal pagos em Portugal". A sério? Acha mesmo que é tempo de pieguices???

É certo, e não devemos obliterar tal facto, que o Primeiro-Ministro diz logo em seguida que o momento não é o mais oportuno para se discutir a questão remuneratória e nisso estamos de acordo. Mas pergunto-me: se o momento não é o mais oportuno porque levanta a questão? Porque não se debruçar sobre ela apenas no reino privado da sua mente? Ou achava mesmo que uma frase dessas não iria fazer logo manchete?

Além da total ausência de timing nas declarações que fez, esta nova escorregadela discursiva preocupa-me por duas razões: 1.) O Primeiro-Ministro não é capaz de planear uma única declaração que não esteja envolta em momento que roçam o absurdo e o pateta? 2.) Não existe um Assessor de Imprensa, no meio do staff governamental, que vá editando e "concertando" os discursos do nosso Primeiro-Ministro?

Num momento de crescente tensão social, mesmo assim louvo o estoicismo dos portugueses (embora por vezes me pergunte se é estoicismo ou se é comodismo!), é preocupante que tanto o Presidente da República como o Primeiro-Ministro não tenham cuidados dobrados em tudo o que dizem, como dizem, quando dizem, para quem dizem. E pior... É preocupante, alarmante mesmo, verificar que tanto o PR como o PM vão achando que são mal remunerados.

Num país em claro retrocesso social é mesmo necessário a classe política, pintada pelas cores da avareza, mostrar que é não só avarenta mas também gananciosa? E caríssimo PM se me disser que ganha "menos bem" em comparação com outros cargos públicos tenho que lhe dizer que a culpa é da sua equipa governativa... Porque fizeram um diploma sobre tectos salariais que logo incluiu excepções? Porque não se fez um diploma sem excepções camufladas em desculpas pobrezinhas?

As palavras são muito mais do que sons... E se até agora as consequências das mesmas vão sendo frágeis, nada garante que assim seja nos meses que virão por aí... O Fidalgo aconselha, por isso, prudência caro Primeiro-Ministro! Ou então silêncio... Muito e bom silêncio...


Wednesday, February 08, 2012

Importa-se de repetir Madame?

Juro que por muito que tivesse pensado em temas para o post de hoje, nada me faria pensar em algo tão inesperado... Aliás ontem, depois de escrever sobre as palavras inglórias de Pedro Passos Coelho, pensei que hoje iria olhar para as Maldivas ou para a Somalilândia (projecto autonomista de um estado na Somália, com apoio do Quénia), mas uma vez mais a realidade obriga-me a mudar os planos...

Curiosamente, o post de hoje tem uma ligação com o de ontem: uma vez mais, aquilo que é dito (e claramente não é pensado!!!) vem para os escaparates dos jornais. E sem mais rodeios passo a apresentar a protagonista de hoje: Madame Nora Berra, Secretária de Estado da Saúde francesa. Ao que parece, avançou o Libération, a dita responsável política cometeu uma daquelas gaffes que promete fazer furor nas redes sociais e nas conversetas de café.

Pois diz Madame Berra (não, ela não estava a gritar, é o nome da senhora!) que a melhor forma dos sem-abrigo (entenda-se, gente sem casa) se proteger do frio é... Hipótese a.) Bebendo cacau; Hipótese b.) Abrigando-se no metro; Hipótese c.) Comprando um gorro e umas luvas? Nenhuma! Para Madame Berra a melhor forma dos sem-abrigo se protegerem da vaga de frio é não saindo de casa! -.-

Ora quer-me parecer que isso é uma medida que só peca por tardia; já que os mesmos, por conceito, vivem na ausência da casa, da qual não podem sair. Confusos? Também eu! É o mesmo que dizer a alguém de muletas, para ter cuidado que se cair magoa o pé! Avisos à posteriori são tão úteis como covetes de gelo na Antárctida. Madame Berra deverá esclarecer nas próximas horas, sem berrar, de que casa é que eles não devem sair!!!

As declarações inesperadas e, quer-me parecer, surreais de Madame Berra não são uma novidade para os gauleses. Afinal, foi na França pré-revolucionária que a mulher de Luís XVI, Madame Maria Antonieta, terá dito, aquando de manifestações populares por causa da fome que grassava no reino, que "se o povo não tem pão, que coma brioche". Desta vez quem não tem casa, que não saia de casa para se proteger do frio... Isto se conseguirem sair de uma coisa onde não entraram... Porque não a têm...

Uma vez mais escrevo sobre a necessidade de quem está em cargos públicos ter cuidado com o que diz e como o diz. Por vezes a forma importa, de facto, mais do que o conteúdo. E quando se erra? Quando se erra pedir desculpas é sinal de boa-vontade e só fica bem a uma classe (a dos políticos) que precisa urgentemente de melhorar a sua imagem. Mas isso são apenas umas dicas aqui do amigo Fidalgo....

E agora vou beber chá e fechar-me em casa, da qual não vou sair até amanhã!


Tuesday, February 07, 2012

Quer um cházinho Sr. Primeiro-Ministro?

Nos dias que correm o stress deixou de ser uma doença das sociedades hodiernas, para ser antes uma condição dessas mesmas sociedades. Vivemos em constante stress porque criámos a ilusão de que conseguimos ser tudo, ao mesmo tempo, com a mesma proficiência e no final não nos realizamos a 100% em nada... Mas deixarei tais reflexões para outro post!

Vi com espanto as declarações de Pedro Passos Coelho, o actual Primeiro-Ministro da lusa gente, nas quais exortou o povo português a "ser menos piegas". Isto depois de ter dito, alguns dias antes, que uma Nação com orgulho não anda sempre de mão estendida. E perante isto eu, que hoje ia escrever sobre a política das Maldivas, lá tive que repensar os meus intentos!

Compreendo a frustração do Sr. Primeiro-Ministro, num país que se habitou a ser subsidiado em tudo o que fazia, chegando-se ao cúmulo do subsídio para subsidiar o subsidiado. Compreendo a frustração do Sr. Primeiro-Ministro num país que se foi encostando às "vagas" de fundos europeus e a esquemas simples, nos quais labutar era parvoíce e parasitar imperativo. Compreendo tudo isto!

Percebo que o Sr. Primeiro-Ministro queira exortar os portugueses; injectar adrenalina nos cidadãos que ainda se encontram entre a apatia política e o pânico mediático. Percebo que o Sr. Primeiro-Ministro queira transformar imobilismo e "chico-espertismo" em empreendedorismo e inovação. Percebo que o Sr. Primeiro-Ministro queira um país que seja em pleno e não que se deixe pasmar, numa placidez aborrecida e que não pode trazer nada de bom. Percebo-o!

Mas não acha que lhe fica mal dizer o que disse, da forma como disse? Não acha que é menos próprio o tom paternalista, que roça a arrogância, com que fez as ditas declarações? Não acha que é pouco correcto dar uma bofetada em quem lhe deu um voto de confiança? Não me diga, Sr. Primeiro-Ministro, que não conhecia aqueles que ia governar? Ou que acreditava numa mudança feita em três dias e duas noites? Espero que não me diga sim a esta última questão...

As mudanças de comportamentos, de hábitos, de modelos de vida, levam tempo (muito tempo) a sedimentar. Compreendo que o tempo não está para perder tempo; mas compreenderá também que o tempo não está também para rezingonices.

Percebo que o tempo é de agir, de mudar, de transformar; mas perceberá também que a mudança deve vir de cima e é de cima que ela tem tardado... Ainda ecoa nos meus ouvidos o infeliz discurso do Presidente da República e as nomeações com regalias sociais que a sociedade não pode gozar!!!

E enquanto vai bebendo chá de tília, ou de camomila, ou de lúcia-lima ainda lhe digo, Sr. Primeiro-Ministro, que o país não deve (de facto) ser piegas; mas também não deve ser a casa de Janus... Compreende?


Monday, February 06, 2012

E se estivermos a pedir que Pareçam e a reclamar que Sejam?

Quando falamos ou escrevemos sobre política estamos habituados, diria aliás que estamos mal habituados, a pensar que parecer é tudo o que mais importa aos actores políticos é parecer e não ser. Que o que Lhes importa é o "embrulho" e não o conteúdo. Que o que Lhes importa é mais o gesto pelo gesto, do que o gesto com um sentido profundo.

E, apesar de isto não ser um truísmo, a verdade é que são inúmeros os exemplos que vão alimentando esta ideia... E pior, por vezes, de modo inconsciente, nós próprios entramos em histerias efusivas que dizem aos actores políticos "sim, finja para mim que eu até gosto"! Porque o que Eles fazem é obviamente reflexo do que Nós queremos; já que o Voto (em sociedades consolidadas ou em fase de consolidação democrática) tende a ser o mecanismo de tornar uma parte de Nós em Eles. E nem vou perder tempo a escrever sobre fraquezas e debilidades do Voto...

Um único exemplo mostra como, por vezes, enviamos para os actores políticos mensagens erradas que desembocam em respostas certas aos nossos erros. Resultado: asneirada! Foi anunciado hoje que será uma mulher a concorrer às presidenciais mexicanas, em nome do actual partido governante. Obviamente que o Ocidente ficou efusivo com a notícia e as redes sociais se encheram de comentários como: Agora é que vão lá com uma mulher! Uma mulher é que é! Grande mulher! e toda uma gama de trivialidades similares.

Não tirando o mérito a ninguém (até porque quando se tem quatro irmãs passamos a valorizar as mulheres com maior intensidade), acreditamos mesmo, enquanto sociedade civil, que o facto de ser uma Ela e não um Ele é solução para os problemas de um Estado? Achamos mesmo que a brutal onda de violência em que mergulhou o México será solucionada porque poderá ser eleita uma Presidente? É mesmo necessário entronizar a candidata só por ser Mulher?

Sou pela paridade, pela igualdade e pela democraticidade dos sistemas; não gosto de entraves, de nichos, de proteccionismos bacocos. Mas a paridade tem de ser real e total. Incluir uma mulher no sistema não é garante de paridade só porque deixa de ser um Ele contra Ele para ser um Ele contra Ela... Mas, e todos já fizemos e passámos por isso, sempre que se fala em Mulheres na Política nem nos questionamos sobre os seus méritos e deméritos... Atiramos logo confetis e purpurinas ao ar e fazemos uma festarola! Haja juízo!

Acho fabuloso que uma mulher avance na sociedade política mexicana, apesar de não perceber o que terá isso de original. Ou esquecemos que Dilma Roussef (Brasil), Cristina Kirchner (Argentina), Laura Chinchilla (Costa Rica), Dalia Grybauskaité (Lituânia), Ellen Johnson-Sirleaf  (Libéria), Pratibha Patil (Índia) e muitas outras mulheres ocupam cargos de topo na hierarquia dos seus estados?

Se queremos que eles sejam mais do que parecem, então temos que repensar as nossas reacções a pseudo-notícias. Se queremos mudanças políticas devemos agir para possibilitar essas tão almejadas mudanças. Deixo aqui o repto...


Friday, February 03, 2012

Israel-Irão e a antecâmara de um filme de terror?

A retórica em torno da muito mediatizada dicotomia Irão-Israel (é difícil dizer histórica quando Israel não tem sequer 100 anos de História) agravou-se nos últimos dias e isso, tenho a dizer, preocupa-me e muito. Os dois lados têm mostrado, com uma nitidez que perturba e envergonha, o pior lado da natureza humana: arrogância, mesquinhez e pequenez.

O discurso sobre o programa nuclear iraniano, tenho que dizer, é todo ele muito nebuloso. Quanto a mim parece-me insuficiente o facto dos EUA dizerem que existem indícios de uso militar de energia atómica. Foram os mesmos EUA, com uma Administração diferente mas uma política militarista comum, que alardearam ao mundo sobre as armas atómicas iraquianas (que venderam ao aliado Saddam!); armas essas que nunca apareceram.

É igualmente irónico, para não dizer ilógico, o facto de Israel se queixar do perigo do Irão poder vir a ter equipamento nuclear, quando Israel tem no seu arsenal esse mesmo tipo de equipamento. E pergunto-me: porque podem os israelitas ter algo e os iranianos não podem? Levar duas criancinhas a uma loja de doces e a comprar chupa-chupas apenas para uma, não pode dar bom resultado e o Tio Sam já devia saber isso (a avó Europa também podia ser mais interventiva, mas dependemos da placidez entediante de Catherine Ashton)!

O discurso belicista e prepotente iraniano também não ajuda. E já nem falo do facto de falarem em "Ocidente" como um conceito adquirido (primeiro definam-me Ocidente pode ser?)... É tão patético quanto tenebroso que se prometam compensações financeiras aos países/milícias/grupos armados que atacarem Israel. A mesma Israel que é protegida pelos EUA; os mesmos EUA que estão a sair lentamente de uma ronda de tripla derrota (Iraque-Afeganistão-Paquistão).

Não consigo apontar soluções fáceis ou viáveis para a região; até porque a minha veia de investigador refreia-me. Não tenho o background suficiente para me poder pronunciar com clareza e sem dizer grandes disparates; mas há uma coisa que eu gostaria de apontar: se Israel não consegue relações estáveis com nenhum vizinho (o Egipto pós-Mubarak ainda é um player incerto) não seria mais coerente pensar num plano B? Sei lá, numa deslocalização do estado israelita...

E nem me venham com argumentos históricos, porque esses tendem a dar mais razão aos Palestinianos e demais povos Árabes do que aos Israelitas. Se o impulso final para a criação do estado de Israel foi o Holocausto Nazi então porque não criar Israel dentro da Alemanha? Lady Merkel alguma coisa que me queira dizer sobre isto? Ou vai mandar baixar o rating do meu blog? -.- Porque é que uns fazem os erros e os outros é que pagam?

E fico-me por aqui...

Thursday, February 02, 2012

E a greve esfumou-se...

Há momentos únicos que dão um gozo especial a nós, seres sociais e socializados. Aqueles momentos em que, de sorriso no canto do lábio, e com os olhos brilhantes, dizemos com toda a clareza quatro palavrinhas, mais afiadas do que o bisturi de um cirurgião: Eu bem te disse. (Sim, estou com um sorrisinho na cara enquanto as escrevo).

Em posts anteriores disse o Fidalgo que a greve deveria ser entendida como uma bomba atómica; que deveria ser usada apenas in extremis; que deveria ser A arma e não UMA arma. E hoje, a tentativa de greve dos transportes, provou que eu tinha razão no que escrevi. A repetição excessiva, quase regular, de uma "bomba atómica" apenas a transforma em fogo-de-artifício dispendioso.

A greve de hoje, excepção feita ao Metro, não conseguiu paralisar Lisboa. E isso, por si só, deveria ser material suficiente para que o novo Líder dos Sindicatos reflicta nas próximas decisões que vai tomar. Depois de 25 anos de poderio, Carvalho da Silva entregou o seu khanato a um novo líder. Curioso como criticamos líderes democraticamente eleitos em ciclos de, no máximo, 8 anos consecutivos, mas depois nos perpetuamos mais de três vezes num cargo...

O novo líder disse aos media, com pompa e sorrisos, que o sindicalismo em Portugal iria entrar numa nova fase. E eu pensei: vão seguir a lógica da UGT e aprender a negociar? Obviamente que não... O sindicalismo em Portugal irá ter uma nova fase, não se sabe é quando... Mas a primeira greve do novo Líder não foi sequer um sucesso pálido; foi uma prova de ineficácia quando se usa vezes de mais algo que deveria ser usado de menos... Bem de menos...

A ineficácia da greve de hoje mostra ainda uma outro aspecto: a falta de convicção de muitos dos grevistas. Mostra, tal como eu escrevera antes, que os nossos grevistas estão mais para gazeteiros do que para outra coisa. É de mim, ou é mesmo curioso o facto de a greve ter-se esfumado na mesma altura em que se sabe que o fundo da CP para ressarcir os trabalhadores em greve está esgotado??? Coincidências curiosas??? Mau alinhamento planetário??? Ou qualquer coisa mais???

A titubeante greve que hoje se ensaiou mostra também que o cidadão tem, na sua maioria, esquemas alternativos para fugir aos incómodos (mensais) dos joguinhos dos sindicatos. Mesmo com a rede de transportes a funcionar em Lisboa, o cidadão tirou o carro da garagem, pediu e deu boleia e a vida na cidade praticamente não mudou em nada; para além do caos no trânsito. E o incómodo? Fica do lado dos sindicatos, que agora têm que explicar a ineficácia da mesma...

E não usem a desculpa dos serviços mínimos, que os transportes fizeram bem mais do que os 20% regulados pelo Tribunal Arbitral. E o Fidalgo sabe o que diz que andou de transportes hoje. E fico-me por aqui, aguardando pelos próximos capítulos...