Monday, February 16, 2015

O Dia em que a Morte 113 Amou (5/5)

[...continuação]

O passeio com Samsara seguiu rua abaixo. Eu absorvia todas as palavras que ouvia, tentando acompanhar o ritmo alucinante da minha parceira. Mesmo movendo-se no mundo dos sons e dos cheiros, e não no das imagens, Samsara conseguia ser bastante rápida. Em alguns momentos era mesmo difícil acompanhá-la. Mais fácil foi deixar a rua apertada e respirar o ar livre da grande metrópole indiana.

Seguimos em direcção ao lago Vembanad. As águas do lago mantinham o brilho dourado matinal. Passeámos lentamente, sem preocupações com o tempo. Não tinha missão para cumprir. Os namorados que seguiam em torno do lago olhavam para a minha pequena indiana complacentes. Quem ama, sabe ver o amor nos olhos dos outros. Pelo menos, sempre ouvi isso entre os humanos.

O lago protegeu-nos. No meio das águas depositámos juras de amor e, pela primeira vez, beijámo-nos. Não sei se olharam para a estranha figura de Samsara, mas a minha alma entregou-se aos seus lábios carnudos. As nossas almas uniram-se um pouco mais. A meiose das nossas almas deu mais um passo. Em breve seríamos um só. A morte de Samsara deixaria de existir. Quando ela morresse, ela seria já uma parte de mim. Percebia agora a Senhora Morte!

Almoçámos juntos. A sopa rasam desceu pela minha garganta. Tentei identificar os ingredientes, contudo cedo percebi que não sabia os seus nomes. Samsara ajudou-me. O tamarindo[1] mistura o seu sumo com a picante pimenta e com as lentilhas. Podíamos bebê-lo simplesmente, mas preferimos comer acompanhado com arroz de iogurte, outra das maravilhas gastronómicas indianas.

A refeição, encomendada num restaurante, degustada num jardim da cidade não tinha terminado. Provei ainda o paladar do chutney de tomate. O agridoce do condimento chutney lembrou-me a relação com Samsara. Éramos opostos, ela viva e eu não-vivo, que nos completávamos; tal e qual o doce e o amargo daqueles condimentos que se tornavam uma alma única. O paladar apurado da comida indiana deixou-nos bem dispostos.

Samsara deitou-se na relva e eu acompanhei-a. As nuvens brancas pareciam desenhos curiosos, que tentávamos adivinhar. Eu juro que vi um coelho, onde Samsara viu um homem com uma foice. Beijei as suas mãos. Evitava a pressão de saber as horas, contudo os meus olhos caíram sobre os ponteiros vermelhos de um relógio. Eram duas e vinte oito da tarde. Tinha pouco mais de três horas e meia até ao ocaso solar.

Passeámos mais. Senti que caminhámos por uma vida; que demos três voltas ao planeta e que ainda bebemos um café em Marte. As cores, as sensações, os cheiros, os tactos, experimentava tudo pela primeira vez. A minha mente explodia com tantas sensações novas, acompanhando o meu coração, completamente alucinado pela simples presença de Samsara. Estaria a sofrer de dependência amorosa? Teria que ser internado numa clínica de desintoxicação para Mortes apaixonados?

Agarradinhos subimos duas ruas e descemos outras três. Por duas vezes Samsara foi assobiada, por estar a falar sozinha, mas a minha indiana não ligou. Sentia-a cada vez mais como minha. Até poderia ser egoísmo, todavia Samsara deixara de ser do mundo. Agora era minha. Até de quem olhava para a sua sombra tinha ciúmes. Se eu pudesse sair do invisível teria andado à briga com cinco ou seis homens, e com uma mulher de olhar suspeito.

Samsara comprou algodão doce. Como quem come uma nuvem, desfez o açúcar, transformado em tufo rosa, com a ponta dos seus dedos. O vento abraçou-a. Quando voltasse ao Limiar, Chu[2] teria muito que explicar. Nela tudo era delicadeza e perfeição. O meu coração acalmou-se ao mergulhar nos seus olhos de ónix, pela enésima vez. Sabia que ela não me via através deles, e, mesmo assim, lia a sua alma mergulhando bem fundo neles.

- Conheces o Taj-Mahal meu amor?
- Não. – Já tinha ouvido falar do espectacular monumento, mas não podia dizer que o conhecia.

- É uma prova de amor intemporal. Como o nosso. – Samsara pegou na minha mão para acariciar o seu rosto. Senti uma espécie de corrente eléctrica percorrer o meu corpo em segundos – Mumtaz Mahal era a mulher do [3] Jahan. Os dois viviam uma estória de amor memorável, digna de perdurar nas crónicas. Em 1631 a linda esposa morreu no parto. O ficou destruído. Para não ser vencido pela loucura, canalizou o seu sofrimento para uma grande prova de amor.

- É por isso que existe o Taj-Mahal? – A indiana de 21 anos sabia mais do mundo do que eu, com décadas e décadas de ofício. Senti o meu rosto corar. Junto de Samsara sentia-me sempre tão pequeno e, ao mesmo tempo, tão protegido pelo seu encantador sorriso e pelos seus olhos deslumbrantes.

- Durante dezassete anos os súbditos do Jahan construíram o mausoléu mais famoso do mundo. Para o poeta indiano Rabindranath Tagore, o Taj-Mahal é “uma lágrima radiante na face do tempo”. – A minha paixão humana assaltou-me os lábios – É altura de fazermos o tempo chorar de novo.

A ideia da morte de Samsara, de concluir a minha missão, para alguém arquivá-la em seguida, atormentou-me. Não queria perdê-la. Durante séculos sentira um vazio, que conseguira preencher por fim. Não queria saber do Equilíbrio, nem da Senhora Morte, eu ia salvar o segundo par de sapatos.

Olhei para ela. Alegre, encarava a morte com uma assombrosa naturalidade. A cobardia cercava-me. Aquela humana que eu amava, que eu ainda amo, ensinara-me tanta coisa. Por que não me ensinava a ser corajoso? Queria aprender com ela, a encarar os desafios com um sorriso. A ver cada dia, como uma nova oportunidade de ser feliz. A deitar com a lua as tristezas e asfixiá-las durante o sono.

- Como podes tu…

- Morte 113, sabes o que quer dizer Samsara? – A pergunta brusca apanhou-me de surpresa. Eu dominava todas as línguas e dialectos do mundo e alguns extra-mundo; todavia não sabia qual o sentido das palavras, que a minha língua proferia com tanta facilidade. – Renascimento. – O sol começara já a deitar-se. Breve, muito breve, teria que terminar a missão. Nos arquivos do Limiar a agitação, de um qualquer funcionário, já devia ter começado – Eu vou renascer, tal como o nosso amor.

- Mesmo que renasças, tu não te lembrarás de mim. – O egoísmo voltou a sobrepor-se à racionalidade. Eu fazia uma birra, sabia isso, mas não me importava.

- Tens razão. Não me vou lembrar.
- Vês!

- Mas tu vais lembrar-te. E quando me vieres visitar de novo, estarei à tua espera. À espera para te amar. – Samsara não conseguiu conter as lágrimas de paixão. Chorava emocionada e não amedrontada. A sombra da Morte era-lhe tão indiferente, como os risos das crianças que gozavam por vê-la falar com o vazio.

- Isso não é amor. – Refilei estupidamente.
- É o nosso amor. Um amor que renascerá das cinzas, tal como a Fénix. – O seu olhar tornou-se brilhante. Os nossos corações tocavam uma melodia harmoniosa. A respiração de Samsara beijava os jasmins brancos, comprados pela manhã.

Um amor eterno. Esperarei que renasças, minha Samsara. Acompanharei os teus passos. Irei à escola contigo. Estarei ao teu lado, quando entregares o teu corpo a um qualquer. Acompanhar-te-ia a subires ao altar. Serás mãe, comigo a vigiar-te. Terás netos e bisnetos. E quando estiveres cansada, com a vida por um fio, entrarei, de novo, no teu quarto.

O cheiro a jasmim guiará os meus passos. Trocaremos juras de amor e voltaremos a unir as nossas almas. Seremos um só por instantes e depois… Depois o processo começará de novo. Samsara, Samsara, Samsara. Amaremos eternamente.

Um grito de uma jovem histérica, com o kohl[4] dos olhos esborratado, anunciou as dezoito horas. Já não teria tempo de levar Samsara para casa. Sussurrei-lhe ao ouvido os detalhes da minha missão. Ela gargalhou bem alto. Não queria morrer em casa. Queria sentir o sol a descer. O calor da esfera de fogo celeste aqueceria o seu corpo, quando a sua alma me acompanhasse.

Beijei-a uma última vez. Entrei em contacto com o seu coração. Ele não acreditou em mim, senti o sarcasmo nas suas expressões, mas concordou comigo. Quando eu estalasse os dedos ele pararia de bater. Samsara afundou os seus cabelos negros no meu peito invisível. Beijei a sua testa. Com as lágrimas a humedecerem o meu rosto estalei os dedos.

Samsara gelou. Aos poucos o fogo da sua pele de canela extinguiu-se. Os seus olhos de ónix fitavam o horizonte. Olhos que não viam as imagens, como os outros, mas sentiam o pulsar da natureza. Abandonei o seu corpo, quando um casal de holandeses se aproximou e, aos gritos, confirmou os meus actos. Limpei o rosto antes de voltar pela fenda.

Chegado ao Limiar olhei para cima da mesa. Samsara tinha sido arquivada. Restava-me esperar. Deitei-me no meu compartimento. Com o coração aos pulos, quase que a furar o meu peito, sonhei…

Com dificuldade acordei para mais um dia de trabalho. A água gela, desceu pelo meu corpo, para me despertar. Vesti a túnica e abri o envelope. Mais uma missão banal. Desta vez iria até Portugal. Já lá estive mais de 100 vezes, mas não me canso de lá ir. Algum dia trago um vinho do Porto para o Limiar. Aposto que a Senhora Morte gostaria de provar o néctar do Douro lusitano.

A minha missão vivia em Caminha. Na fronteira com Espanha. Tal como o Limiar vive na fronteira com o mundo. Tinha 87 anos. Chamava-se Ana Renascida e trabalhara na indústria cinematográfica, antes de descobrir a paixão pela poesia. Ia morrer antes da meia-noite, com seis filhos, quinze netos e dois bisnetos. Entrei sem bater à porta. Fiquei com os sentidos alerta. Cheirava a jasmim. Sorri.

FIM



[1] O tamarindo é uma fruta oriunda da África tropical, em especial de regiões do Madagáscar. Há muito que a árvore foi introduzida na Índia, tendo a sua fruta ganho um espaço especial na gastronomia local
[2] Chu é o Deus do Vento, do ar seco e da masculinidade para os Kemeticos, seguidores da religião do Antigo Egipto. Chu foi criado por Rá, nas águas sagradas de Nun. Foi Chu quem vomitou Tefnut (Deusa da Humidade e das Nuvens), que seria sua irmã e consorte. Da união de Chu e de Tefnut nasceriam Geb (Deus da Terra) e Nut (Deusa do Céu Eterno)
[3] Título cedido aos monarcas da Pérsia e do Afeganistão. Se compararmos com a titularia real europeia, o é uma espécie de Imperador pela dimensão dos seus territórios.
[4] Cosmético indiano feito da mistura de fuligem com outros ingredientes, usado especialmente pelas mulheres. Inicialmente o kohl era usado como protecção contra o mau-olhado


Thursday, February 12, 2015

O Dia em que a Morte 113 Amou (4/5)


[...continuação]

Já vira retratos d’Ela, mas ao vivo era outra coisa. A Morte tinha o rosto de uma mulher de cinquenta anos, com cabelos cinzentos lisos a descaírem pelos ombros, como se fossem rios de prata. Os olhos negros como o carvão, brilhavam como o petróleo. Apeteceu-me nadar dentro deles. A pele branca, como um floco de neve, destacava os seus lábios vermelhos como o sangue.

Ao contrário de todos nós, vestia uma túnica roxa. Eu não sabia que no Limiar podiam ver-se mais cores. A Senhora Morte sentou-se na sua cadeira, no seu pequeno e singelo trono, e com um aceno de cabeça instigou-me a falar. A prepotência que sentia reduziu-se até à extinção. As palavras enrolaram-se na língua, antes de eu conseguir dizer o que quer que fosse.

- Sinto um frio quente… Sinto-me bem por estar assim, mas sinto-me mal por não saber o que é… Sinto-me eufórico e triste… Sinto-me dividido em dois… Sinto-me incompleto. – As lágrimas irromperam nos meus olhos. Dois riozinhos de água incolor e insalubre abriram caminho até ao meu queixo, pingando a túnica preta.

- Morte 113 a culpa é minha.

Os directores sabiam que estavam a violar o protocolo, todavia não resistiram a olhar para trás. A Senhora Morte, a líder do Limiar, a primeira de todos, assumia as culpas pelos meus actos. O seu olhar maternal aconchegou-me. O meu coração deixou de bater tresloucadamente, recuperando a sua imperceptível normalidade. Senti a fugidia lucidez abeirar-se de mim.

- Morte 113, estás apaixonado. – Os directores baixaram a cabeça. Eles já deviam ter passado por experiências similares e, cegos e ignorantes, não tinham notado os meus sintomas.

- E a paixão tem cura Senhora Morte?

- Morte 113 a paixão não é uma doença. É o mais nobre dos sentimentos humanos. É aquilo que os aproxima dos Deuses. É pelo Amor e pela Paixão que Nós tentamos manter o Equilíbrio. – A Senhora Morte fez um sinal com os dedos, pedindo para que eu me pusesse de pé. Obedeci prontamente – A única coisa que cura a paixão é o tempo e a dor.

- Compreendo. – Baixei a cabeça. Para bom entendedor meia palavra basta e a Senhora Morte usara mais de dez palavras. Era claríssimo onde a conversa iria chegar.

- Morte 113 imagina que um sapateiro faz dois pares de sapatos, em momentos diferentes e com sentimentos diferentes. O primeiro par, pensa o sapateiro, servirá para o dia-a-dia, para trabalhar e correr as ruas. O segundo par servirá para as noites de festa, para o prazer e para a alegria. – A Senhora Morte tinha uma voz melódica, encantadora. Os humanos temiam-na por que não a conheciam. Deviam conhecê-la, nem que fosse por dois segundos apenas – Um grande incêndio pega fogo e o pobre sapateiro só tem tempo de salvar um par de sapatos. Qual deveria salvar?

- O primeiro par obviamente. – Respondi de imediato. A solução justa era por demais evidente.

- Porquê Morte 113?

- Por que com o segundo par de sapatos ele só conseguiria viver pequenos momentos de prazer. Salvar o segundo par seria egoísmo. O primeiro par é mais útil, logo é esse que ele tem que salvar.

- Utilidade. – A Senhora Morte continuava a olhar para mim. Os seus olhos feitos de petróleo e de noite penetravam nos meus – Sabes por que razão existimos?

- Para renovar a Vida. Existimos com a função de alimentar o ciclo da Vida. Se nada morresse, nada poderia nascer. É a Lei do Universo.

- Existimos com uma utilidade?

- Sim, com uma utilidade. É por isso que Samsara não poderá viver.

- Samsara é o segundo par de sapatos. – Conclui com tristeza. As forças do meu corpo desapareceram. Se não estivesse sentado teria caído.

A clareza da missão. Eu estava a ser egoísta, como acusara o sapateiro se ele salvasse o segundo par de sapatos. Eu era o sapateiro. Por egoísmo, por causa da paixão, eu queria salvar Samsara e condenar alguém, que era mais útil ao Equilíbrio. Percebi a estupidez do que tinha feito. A Senhora Morte ajeitou a sua túnica roxa, esperando que eu percebesse as suas palavras. O cobarde, o idiota, o burro era eu e não eles. Senti o meu rosto enrubescer.

Relembrei a passividade de Samsara. Ela conhecia o seu papel, o seu valor. Sabia que a Morte era inevitável e tinha aceitado esse facto. E eu, que só tinha que estalar os dedos, não conseguira perceber isso. Apeteceu-me fugir da Sala de Reuniões do Limiar, para me esconder em qualquer sítio. Não adiantava, fizesse o que fizesse Samsara morreria!

- Chama-se Helen Kinh, é norueguesa com ascendência britânica, tem 28 anos e vai ser mãe dentro de seis dias. É ela o primeiro par de sapatos Morte 113. – Chorei alto, mais alto do que desejara – A paixão que sentes por Samsara não pode evitar que cumpras a tua missão.

- Eu? – Regra geral quando falhamos uma missão ela é automaticamente passada a outro operacional, por uma questão de timings.

- Morte 113 terás até ao pôr-do-sol, do dia 9 de Janeiro, para concluir a missão que te demos. – Eu ia perguntar qualquer coisa sobre o Equilíbrio, mas a Senhora Morte antecipou-se e respondeu – O Equilíbrio não será afectado até ao pôr-do-sol. Vai Morte 113. Vai e ama!

A fenda que ligava o Limiar a Kochi, a cidade indiana, abriu-se atrás de mim. Os primeiros raios de sol iluminavam a cidade indiana. As matizes douradas da lagoa Vembanad foram a minha primeira visão. Os peixes não eram visíveis, debaixo da água esverdeada coberta por uma espuma branca, culpa da poluição industrial citadina. O céu azul sem nuvens saudou-me.

Acelerei o passo. Os humanos não me podiam ver, mas eu corria com a cabeça baixa, evitando o contacto ocular. As palavras de ordem da Senhora Morte martelavam na minha cabeça. Tentei descobrir que horas seriam. O ocaso solar ia ser às dezoito horas vinte e cinco minutos, disso tinha a certeza. Passei por um casal de namorados japoneses e espreitei para o relógio dele: eram oito horas e quarenta e seis minutos. Tinha menos de dez horas para estar com Samsara.

As ruas de Kochi pareciam maiores do que de noite. Não, as ruas de Kochi não tinham aumentado de tamanho. A minha ansiedade é que tornava os meus sentidos mais lentos. As redes de pesca saudaram-me, carregadas de peixes a debaterem-se pela vida. Poderia eu considerá-las minhas colegas? Elas também trabalhavam no negócio da Morte, para fortalecer a Vida.

A rua de Samsara apareceu por fim. Como uma amante barata abriu-se para mim e eu, sem cuidados e licenças, avancei por ela a dentro. Explorei as suas entranhas, até chegar à porta de madeira coberta com humidade.

Entrei! A sala iluminada parecia mais viva, do que de noite. Descobri uma carpete de Istambul no chão, comprada por algum antepassado muito antigo. A família de Samsara preservava a memória dentro das quatro paredes, onde todos habitavam.

A casa estava vazia. Podia sentir o cheiro a café fresco, feito pelo pai, ou pela mãe de Samsara. Em cima da mesa da cozinha dormitavam os restos mortais de um pão, esventrado por uma faca e coberto com uma pasta gordurosa, que devia ser manteiga contrafeita. Engelhei o rosto. A minha Samsara não comia estas porcarias. Ela era superior a tudo isto.

Cheguei ao quarto de Samsara, passavam já cinco minutos da nove da manhã. Ela tinha saído do banho há pouco. O cabelo molhado, colado ao pescoço, tornava-a ainda mais bela; como se isso fosse possível. Vestira um sari vermelho, decorado com medalhas prateadas. Por cima do sari caía um pedaço de tecido preto. Calçara umas sandálias castanhas. Sorriu ao sentir-me entrar no seu quarto.

- Ia comprar mais flores de jasmim. – Samsara sentou-se sobre a sua cama. Era óbvio que não dormira toda a noite – Mas já que chegaste, acho que não vou precisar. Vieste concluir a tua missão?

- Não Samsara. Quer dizer, sim Samsara, mas mais tarde. – O rosto dela esboçou dúvida. Ficava encantadora, com um ar verdadeiramente infantil. O meu coração voltou a fazer sentir-se.

Os dedos de Samsara entrelaçaram-se nos meus. Um raio de sol atrevido tocou os cabelos molhados da minha indiana. Sorri. Ela não podia ver o meu sorriso, mas podia sentir a minha felicidade. Um quadro improvável de prever. A Morte, um dos seus funcionários, apaixonada e abraçada a uma indiana. Aproveitei todos os segundos, inalando aquele odor a jasmim que perfumava a casa.

Saímos de mãos dadas. Na rua olhavam com estranheza para Samsara. Ela dava mãos ao vazio, ao que ninguém via. Humanos! Não é por não se verem, que as coisas não existem!

As ondas electromagnéticas não se vêem e, no entanto, vocês acreditam que elas existem. Quando vão deixar de ser dominados por um único sentido? Explorem os outros quatro. Lá estou eu… Armado em professor. Olhei para Samsara e dei-lhe um beijo terno na testa.

A rua onde vivia era mais bela, do que eu me apercebera até então. Pequenos canteiros de flores alegravam as janelas humildes, de quem sabia viver feliz com o pouco que os Deuses tinham destinado. Grandes lençóis esvoaçavam alegres, sacudindo os problemas para fora de casa. Vozes alegres e vibrantes, cheias de vida encheram os meus ouvidos e os de Samsara.

Ela conhecia todos os seus vizinhos. É assim em todo o Mundo. Quando as ruas são pequenas, escuras, húmidas e antigas cria-se um ambiente fantástico, quase mítico. Sentia o meu sangue a trepidar, como o borbulhar de uma taça de champanhe, servida no ano novo. Os fumos e os cheiros exóticos entraram nas minhas narinas, refastelando o meu cérebro faminto de odores.

Parámos em frente de uma senhora simpática, com 78 anos, que vendia flores no meio da rua. Consegui perceber que a Morte estava próxima dela. Claro, eu estava ao lado dela; mas não era eu. A vendedora morreria antes de chegar ao próximo Festival de Ganesh[1]. Samsara pediu à vendedora um ramo com sete jasmins. Encantada com a visita de Samsara, a vendedora deu-lhe oito jasmins, pelo preço dos sete.

O perfume dos jasmins lembrou-me o quarto de Samsara. Sem medo de parecer louca, aos olhos da vendedora, explicou-me tudo o que sabia sobre os jasmins. Não se sabia qual o país de origem da flor (Samsara defendia a sua Índia); conheciam-se mais de 200 espécies diferentes. Na sua maioria os jasmins floriam alvos, mas algumas das espécies floriam amarelas.

Na Magia, especialmente na China, o jasmim podia ser usado para atrair homens e amarrar os seus corações. Samsara corou, com as explicações alegres da vendedora. Eu agitei a cabeça em negação. Mesmo que seja verdade, eu não sou um homem. Não foi o jasmim que me aprisionou, foi a tua beleza Samsara. Na Tailândia, os jasmins brancos simbolizavam a Mãe. Não a Mãe Natureza, mas a Mãe.

[continua...]




[1] Festival Hinduísta que comemora o nascimento do Deus Ganesh, filho de Xiva e Parvati. O festival, que se realiza uma vez por ano, e dura 10 dias, é marcado tendo em conta o calendário Hindu, mas costuma realizar-se entre 20 de Agosto e 15 de Setembro


Monday, February 09, 2015

O Dia em que a Morte 113 Amou (3/5)

[...continuação]

- Posso fazer-te uma pergunta? – Pediu Samsara com a voz de uma criança.
- Podes.
- Tens nome?

Os humanos e as classificações. Tudo o que conhecem tem que estar etiquetado, classificado, nomeado, ou então não existe. Os humanos com a sua Ciência tentam perceber o Mundo, mas esquecem-se de o ouvir. Se parassem por um dia, se sentassem no chão, sob um céu estrelado e ouvissem os murmúrios do vento, as lamentações dos rios, as canções das flores. Um dia apenas!

- Tenho. Morte 113. – Respondi disfarçando o nervosismo na minha voz.
- Quantos são vocês? – Samsara queria saber mais. Não fugira, nem me batera como eu previra. Tenho que deixar de prever; sempre que o faço erro.
- Não tenho a certeza, mas somos mais de 20 000. Alguns são apenas invocados em épocas especiais, como as grandes guerras ou as revoluções.
- Estou a ver…

12 minutos! O tempo seguia o seu curso. O Limiar comunicava comigo, gritando para que concluísse a missão. Nunca antes comunicara com um humano, era a hipótese de os perceber melhor. Doze minutos serviam perfeitamente, até cinco minutos serviam. Isso mesmo! Quando faltarem cinco minutos concluo a missão; por enquanto quero conhecer Samsara. Explorar o seu mundo.

- Posso fazer-te um pedido? – Questionou Samsara fitando-me com os seus deslumbrantes olhos de ónix. Não tive como recusar – Deixas-me ver-te?
- Como assim?
- Eu sinto o teu corpo pelo cheiro e pelo som. Consigo perceber quais os teus contornos, mas para te ver preciso explorar-te com os meus dedos. É o mesmo que tirar uma fotografia. Posso?

Assenti. Os dez dedos de Samsara avançaram corajosamente, rompendo com as barreiras de trevas até atingirem a pele do meu rosto. O toque de Samsara era suave. Os dedinhos da jovem indiana percorreram o meu rosto, desvendando os meus segredos a Samsara. Tocou com cuidado os olhos, desceu até ao nariz, seguiu rumo aos meus lábios, onde se demorou um pouco mais.

As suas mãos deslizaram pelo meu pescoço. Estavam tão frias as mãos de Samsara e, mesmo assim, eu sentia-me a ferver por dentro. O meu peito, a minha barriga, as minhas pernas, sentiram o toque dos curiosos dedos de Samsara. Com os olhos fechados eu tentava perceber o que veria Samsara guiando-se pelo olfacto e pela audição. Quando morresse tudo desapareceria. Os sentidos, as limitações, os pedidos, as inquietações. Tudo!

- És bonito Morte 113. – Samsara pôs-se de pé num pulo.

Movia-se com tamanha destreza, que seria fácil tomá-la por uma humana com visão. O hábito tinha moldado a sua vida. O seu pequeno quarto não tinha segredos para si. Um dos jasmins brancos viajou da jarra até ao cabelo de Samsara. Com delicadeza a indiana de 21 anos tocou-me nas mãos. Estava preparada para morrer. Eu podia concluir a minha missão e seguir.

7 minutos! Mesmo a tempo de evitar explicações, por causa do atraso. Procurei o coração de Samsara. Falei com ele e expliquei o que iria acontecer. Sem resmungar o seu coração concordou comigo. Por vezes, os corações não colaboram connosco e somos forçados a agir com violência. Por vezes, somos forçados a causar dor. Hoje não ia ser uma dessas noites.

Ergui a mão e preparei-me para estalar os dedos. Samsara fechou os olhos. O seu rosto bonito perturbava-me. Nunca antes vira um ser tão belo. Nunca antes sentira o toque suave de uma humana. O meu coração (nem sabia que tinha um!) disparou. A racionalidade fugiu do meu corpo e eu, preguiçoso, não corri atrás dela. 6 minutos!

Não podia correr o risco de ter mais uma mancha na folha de serviços. Assim nunca mais subiria na carreira. Estou cansado de trabalhar no terreno; quero ficar nos gabinetes operacionais. Preparei-me para executar a missão. Combinei tudo de novo com o coração de Samsara. Chegámos facilmente a entendimento. Não havia como falhar. 5 minutos!

- Até amanhã Samsara.

Cobarde voltei para o Limiar através de uma fenda por mim criada. Arrisco-me a ser destacado para trabalho subalterno, ou então a desaparecer no vazio. Algo em mim não me deixou matar Samsara. O seu sorriso luminoso desceu sobre mim. Consegui sentir o toque dos seus dedos na minha pele, mesmo que ela tivesse ficado para trás.

Sei que sentirei as consequências dos meus actos, mais rápido do que desejaria. Todavia, uma parte de mim está feliz. Sinto-me imune a tudo. Uma parte de mim, não sei bem qual, regozija-se pela minha escolha. Fiz o que estava certo. Noutro ponto do mundo, um rosto que desconheço pagará pelo meu erro. O equilíbrio mundial exige este tipo de sacrifícios.

Queria chorar, condoído com o meu egoísmo, mas o que me apetece é gritar de felicidade. Sim fui egoísta, protegi apenas o meu interesse. E depois? Não tenho eu direito a ser feliz? Que morra alguém na Noruega, ou nas Ilhas Salomão, para preservar a minha bela Samsara.

Sentei-me na minha cama. O relógio da parede fitava-me cruelmente. Restavam ainda três minutos, até ao término do tempo. Os papéis da missão continuavam em cima da mesa, por arquivar. Pelo meu incumprimento, alguém dos arquivos tinha descansado um pouco. Tínhamos saído todos a ganhar, menos a vítima do Equilíbrio. A vítima que me desculpasse. 2 minutos!

- Morte 113 à Sala de Reuniões. Morte 113 à Sala de Reuniões.

Ainda faltavam dois minutos para o término da missão. O som do meu nome pronunciado pelos corredores do Limiar soava estranho. Uma voz electrónica, fria e impessoal exigia a minha presença na Sala de Reuniões. A direcção em peso deveria estar presente. Ajeitei a túnica negra e, sem medo, mas também sem coragem, segui em frente.

Os corredores frios e descoloridos do Limiar desagradaram-me, pela primeira vez. Preto, branco e uma infindável gama de cinzentos era tudo o que via. Não sentia qualquer cheiro, não sentia temperatura, não sentia a lua, nem mesmo o sol. No Limiar não sentimos nada. Samsara tinha-me dado a conhecer o toque da pele humana. Tinha-me dado a conhecer a tremura nervosa dos dedos humanos.

O rosto luminoso da indiana seguia a minha caminhada. À medida que me aproximava, da Sala de Reuniões, os chamamentos tornaram-se mais insistentes, mas igualmente impessoais e electrónicos. Samsara tinha-me dado a conhecer o meu corpo. Eu tinha que voltar para descobrir mais.

A direcção do Limiar sentara-se em seis das sete cadeiras colocadas num palanque. Em frente às cadeiras pretas, dois degraus abaixo, estava uma cadeira cinzenta na qual me deveria sentar. Ninguém faltara. Dois dos directores do Controlo Operacional Inferior, dois dos directores do Controlo Operacional Intermédio e os dois únicos directores do Controlo Operacional Superior fitavam-me.

Vestiam túnicas negras, iguais à minha. Distinguiam-se na hierarquia do Limiar pelos anéis de prata. Não tinham rostos cadavéricos, não eram demónios mitológicos e não eram vampiros, ou magos experientes (lamento frustrar as expectativas!). Eram, como eu, Seres da Morte. Empregados da Morte. A Senhora Morte construíra o Limiar para desempenhar as tarefas que a Dona Eternidade lhe tinha confiado.

- Porque a Morte é necessária…
- …para que a Vida exista!

O juramento que todos fazíamos, a partir do momento em que entrávamos para as fileiras do Limiar. Os candelabros iluminavam a sala, pejada de quadros pintados a carvão. A sétima cadeira, colocada num patamar superior, a todas as outras, era d’Ela. Se ela aparecesse, sentar-se-ia ali. Não que isso fosse acontecer, pela transgressão de um mero operacional Intermédio. Ela devia ter tanto em que pensar.

- Morte 113 és acusado de ter deixado viva a humana Samsara.

A acusação era lida por um dos directores do Controlo Operacional Inferior. Por uma questão de protocolo eles não me podiam colocar questões, uma vez que eu estava num nível de acção superior. Só os directores do Controlo Operacional Intermédio e do Controlo Operacional Superior poderiam fazer perguntas a um operacional de nível intermédio.

- Alguma coisa a dizer em tua defesa Morte 113? – Perguntou um director do Controlo Operacional Intermédio que eu conhecia bem: o Morte 46.
- Nada. Eu não falhei.
- Não é isso que parece Morte 113!
- Eu não quis realizar a missão. É diferente de falhar.

Não estava a ser corajoso, mas sim arrogante. A força que Samsara carregava consigo invadira as minhas células, ou o que quer que fosse que me constitui. Eu ouvira os humanos dizer, que há sempre uma primeira vez para tudo. Pois bem, pela primeira vez eu estava a ser arrogante. Também tenho direito à arrogância, ao egoísmo, e a mais alguns sentimentos para os quais não tenho classificação.

- E porque não quiseste realizar a missão Morte 113? – Inquiriu o Morte 46 intrigado com a minha resposta. Conseguia ler no seu rosto espanto e incredulidade pelo que me ouvira dizer.
- Porque não. Samsara não merece morrer.
- E quem és tu, Morte 113, para decidir tal coisa? – Inquiriu um dos dois directores do Controlo Operacional Superior.
- E você? Quem é você para perceber as minhas razões?

Falava com a minha língua, usando a minha voz, mas mesmo assim sem controlo sobre mim. Os sentimentos que experimentara com Samsara tinham-me alterado de alguma maneira. O director fitou-me com temor. Não devia estar habituado a insubordinações. Paciência! Eu não vou silenciar-me, quando querem matar a minha doce Samsara. Minha? Desde quando Samsara é minha? O que raio estou eu a pensar?

- Morte 113 diz-me o que sentes.

Uma voz nova entrou na sala. O meu olhar correu as seis cadeiras, porém todos os rostos mantinham-se passivos, com os lábios cerrados. Subi um andar com o olhar. A Morte estava ali. A primeira. A original. A Senhora Morte, que os humanos temiam, entrara na Sala de Reuniões e isso, por mais estranho que pareça, acalmou-me.

[continua...]


Wednesday, February 04, 2015

O Dia em que a Morte 113 Amou (2/5)

[...continuação]

Diante de mim surgiu uma pequena sala. Senti-me numa casa de bonecas, pelo tamanho reduzido de tudo. Um pequeno sofá verde, com duas manchas de bolor, abrigava duas pequenas almofadas amarelas puídas e cheias de pó. Um cadeirão de verga, com uma perna partida, jazia há já alguns anos. Em cima de uma mesa com um vidro baço, de tão coberto de pó, estavam três molduras de prata falsificada com os rostos dos moradores daquela casa.

A pequenita sorridente, com um vestido de cetim vermelho e uma fita de seda azul na cabeça, devia ser a Samsara há uns anos atrás. Na parede podia ver pendurados alguns retratos das divindades indianas. Se os adoradores do Deus Xiva o conhecessem pessoalmente nunca mais o tratariam por Deusa. Os indianos conseguiram conservar o respeito pelos Deuses e pelo místico, sem negligenciar a modernidade.

Os do Ocidente nunca tinham sido professores, mas alunos arrogantes. Mesmo durante a colonização, os do Ocidente não tinham passado de alunos… Pode ser que algum dia se apercebam disso. Olhei para mim e tive vontade de me rir. Era a segunda vez, no dia, que parava imerso em dúvidas e inquietações sem sentido. Com frieza e profissionalismo concentrei-me na minha missão e segui até ao quarto.

Um pequeno foco de luz vinha do quarto de Samsara. Conseguia perceber que a jovem adulta estava sozinha em casa. O quarto de Samsara parecia pensado para acomodar um anão. A cama tinha-se tornado pequena aos catorze anos, mas não tinha sido trocada. A mesinha de cabeceira combinava, em escala e em estilo, com a cama de madeira. Duas das gavetas abrigavam pequenas colónias de térmitas, que gulosamente desfaziam o móvel.

Um armário de duas portas, com um espelho rachado em três, protegia as roupas de Samsara. No cimo do armário empilhavam-se algumas caixas, onde se guardavam os objectos que refrescavam a memória da família. Reparei que na mesinha de cabeceira dormitavam, dentro de uma jarra de vidro, três pés de jasmim brancos como a superfície lunar, em noites de lua cheia.

A luz do quarto provinha de três velas que ardiam num castiçal feito para cinco. A pobreza rondava aquela casa. Samsara lia, dedilhando as palavras que o seu cérebro absorvia esfomeado. Devia ter dificuldades em ler, por isso usava os dedos. Olhei para ela com a nitidez que foi possível, pela primeira vez.

Tinha o rosto redondo. A pele parecia feita de canela e o cabelo uma cascata de chocolate negro ondulante. Os seus olhos eram brilhantes como o ónix e os lábios carnudos tinham o tom das rosas frescas colhidas pela manhã. O corpo de Samsara revelava a sua idade. As mãos finas e os dedos esbeltos terminavam num conjunto de dez unhas pintadas de vermelho.

O Tempo corre contra mim. O Limiar começa a lembrar-me que tenho que regressar, que tenho uma missão para cumprir, que alguém arquivará depois. Consultei mentalmente o meu relógio. Pouco mais de vinte e cinco minutos para concluir com sucesso a missão e regressar ao Limiar. Aposto que alguém se prepara já, para ir até aos arquivos cumprir a sua missão.

- Vais ficar em pé toda a noite? – Perguntou Samsara, que devia estar a ler alto algum trecho mais emocionante do livro. Por momentos, tenho que confessar, apeteceu-me responder, mesmo que ela não me visse – Não te vou convidar duas vezes. Se quiseres ficar de pé, por mim tudo bem.

Samsara não podia estar a falar comigo. Os humanos não nos vêem. A maioria dos humanos nem em nós pensa, acreditando que isso nos afasta de cumprir a missão. A rapariga já não dedilhava as palavras do seu livro. Com um pequeno sorriso talhado no seu bonito rosto fitava a escuridão do quarto.

- Será que não percebes o que digo? – Ela fala comigo. Não é possível que ela fale comigo… Senti o meu rosto esboçar uma careta. Movi-me no soalho fazendo ranger as tábuas de madeira – Afinal sempre me percebes; não queres é responder.

Avancei três passos. As minhas pernas obedeciam aos meus pensamentos, mas não à minha vontade. Samsara pousou o livro na cama, confirmando o que eu pensava ser impossível. Ela falava comigo. Lembro-me de alguns relatos de experiências iguais durante a II Guerra Mundial, mas desde Agosto de 1945 que não havia registo de qualquer tipo de ocorrência.

- És tímido. Não, não é isso. – Samsara inalou o perfume dos jasmins com uma delicadeza invulgar. Era como se o cheiro das flores brancas fosse feito de cristal e uma inspiração dada com mais violência poderia estilhaçá-lo – Tu não estás tímido. Estás é assustado.

- Sim é isso. – Disse eu, sabendo que ela não me ouviria. Todos os relatos de humanos que nos tinham visto eram precisos; os humanos limitavam-se a ver-nos. Era lhes impossível ouvir a nossa voz.

Samsara ergueu o seu corpo de sereia da cama. O ranger da madeira despertou os espíritos da casa. De pé, a indiana de 21 anos, era quase da minha altura. Uma das velas extinguiu-se antes do pavio chegar ao fim. A janela reflectia no chão a luz lunar, recortando em sombras o caixilho de madeira. O sari laranja flamejante iluminava o espaço coberto pela penumbra.

- Sempre falas.

A jovem passou por mim com um sorriso doce. Ela conseguia ouvir-me? Seria por isso que os observadores (desculpem, os fotógrafos) não a tinham retratado bem? Ela era uma Especial. Segui com os meus olhos os seus gestos. Em bicos dos pés fez por alcançar o cimo do armário, retirando uma das muitas caixas. Magicamente, nenhuma das outras caixas se mexeu. A pilha não desabou ruidosamente, como eu imaginara.

Sem dar importância à minha presença, depositou a caixa em cima da cama. A humanidade inteira pagaria tudo para me poder ver; para poder negociar comigo, um adiamento da minha missão. Todavia Samsara ignorava-me alegremente.

Das entranhas da caixa saíram três velas brancas que colocou no castiçal. Abriu com esforço a gaveta superior da mesinha de cabeceira, que abrigava uma das colónias de térmitas, para tirar uma caixa de fósforos. Com as cinco velas acesas, parte da divisão saiu das trevas.

O rosto de Samsara tornava-se mais bonito quanto mais olhava para ele. Devia ser um encantamento indiano que eu desconhecia por completo. Os pensamentos tornaram-se nublados e a lucidez da missão esbateu-se serenamente. Passaram cinco minutos sem que eu me mexesse.

Quem passasse na rua, e olhasse para o quarto, veria Samsara a fitar o escuro, quiçá embrenhada nos seus sonhos. Mas na realidade Samsara fitava-me. Os seus olhos de ónix intimidaram-me. Nunca antes senti medo e prazer ao mesmo tempo. As pernas perderam vigor e, por milésimos de segundo, imaginei o impossível. Sacudi a cabeça para acordar, para fugir do seu olhar penetrante e poder concluir a missão.

- Esperava por ti mais tarde. – Samsara convidava-me a sentar com o seu sorriso.

Dominado pela beleza da indiana cedi. Vi o meu corpo deslocar-se até à beira da cama e, debaixo de um festival de rangidos, sentei-me ao lado dela. Nunca antes eu tinha interagido com quem quer que fosse. Uma paleta de sensações novas corria o meu corpo. Consultei mentalmente o Tempo que me restava: 18 minutos e a decrescer!

- Então vai ser assim. Entras silenciosamente, não te apresentas, cumpres o que tens a fazer e sais de mansinho. – Samsara colocou as mãos no quadril encenando uma irritação que não sentia.

Da Índia à Argentina, passando pela Austrália, ou mesmo pela Polónia, não há uma só mulher no mundo que não faça este gesto, pelo menos uma vez ao dia. Pode dizer-se que é o gesto feminino universal para a cólera.

Aposto que todos os homens do planeta conhecem o real sentido dos braços arqueados, com as mãos a acariciarem o quadril. Aposto que há homens que têm mais medo desse gesto, do que do bicho papão ou mesmo do Abominável Homem das Neves.

- Tu podes ouvir-me? – Questionei baixinho, entrando no jogo de Samsara.

- Até te consigo ouvir, mas tens que falar mais alto. – Samsara mantinha o dócil sorriso na face – Não te preocupes que não acordas ninguém.

Assenti com um aceno. Eu sabia que não acordaria ninguém. Aliás se entrassem pelo quarto de Samsara, neste momento, pensariam que a jovem endoidecera, pois apenas a veriam a falar sozinha. Supostamente eu seria invisível e inaudível perante os humanos, contudo Samsara parecia ver-me e ouvir-me perfeitamente. Alguém do Gabinete Operacional Superior ou mesmo do Estado-Maior devia-me uma boa explicação quando eu regressasse.

- Samsara tu estás a ver-me? – Antes de exigir explicações, tinha que confirmar que a indiana me via e ouvia como parecia fazer. Se ela era uma Especial então teria direito a tratamento especial.

- Quantas vezes terei que provar que te vejo e ouço perfeitamente. Quer dizer… – Samsara baixou a cabeça e em murmúrio concluiu a sua resposta – Eu vejo-te à minha maneira.

A minha mão procurou o queixo de Samsara, debaixo da cascata de chocolate que era o seu cabelo. Ergui o seu rosto entristecido, espantado com a descoberta que fazia. Samsara era cega. Ela não me vira através dos seus olhos. De alguma forma sentira a minha presença.

Lembro-me de termos falado disso durante a formação. Os humanos invisuais apuravam os outros sentidos como defesa. Alguns, puros de alma e coração, chegavam a desenvolver dons como a telecinésia, a telepatia ou percepções extra-sensoriais. Samsara devia fazer parte deste último grupo. Ela sabia que eu tinha vindo. Sabia qual a minha missão. E mesmo assim convidara a sentar-me ao seu lado.

Eu que vinha matá-la.

- Samsara tu sabes quem eu sou? – A jovem indiana acenou positivamente com a nuca – E sabes a missão que me trouxe? – Um novo aceno positivo – E isso não te assusta?

- Não. – Samsara sorria de novo. A tristeza que sentira desaparecia fundindo-se com o odor a jasmim que reinava no pequeno quarto – A morte é apenas mais um passo. Não encaro a morte como um fim, mas como um novo princípio. Por que haveria de ter medo? Isso não mudará nada. Morrerei na mesma.

CORAGEM! A palavra coragem ecoou na minha cabeça. Eu sempre me considerei corajoso pela missão que carregava. Percebia agora quão cobarde eu era. Corajosa era Samsara, que enfrentava a Morte com um sorriso nos lábios. Não chorava, não suplicava, não pedinchava, não fugia. Esperava sentada, sorrindo pacificamente, convidando-me a sentar junto dela.

14 minutos! Relembrei a ficha da minha missão: ela deveria morrer de ataque cardíaco fulminante, uma morte indolor. Num estalar de dedos tudo terminaria, mas eu não conseguia comandar a minha mão. Consegui sentir três casas abaixo um operacional do Limiar concluir a missão e regressar pela fenda. Por que me demorava? O que se passaria comigo?

[continua...]

Monday, February 02, 2015

O Dia em que a Morte 113 Amou (1/5)

Com dificuldade acordei para mais um dia de trabalho. Não que estivesse a dormir profundamente. Aliás, eu nem consigo dormir. Tinha fechado os olhos, enquanto flashes de imagens antigas passavam pela minha memória. Acho que posso chamar a isso de sonho. Se não puder, pois que me desculpem…

Não precisava olhar ao espelho, para saber que devia estar com um ar terrível. Consultei o relógio na parede. Ainda tinha tempo, antes de começar o expediente. Lá fora o ocaso solar devia pintar o céu com cores incrivelmente belas. A Natureza celebra com odes triunfantes a Beleza, enquanto os Homens vivem a sua vidinha enfadonha, sem pararem para ver o que realmente interessa.

Abanei a cabeça. Quem sou eu para decidir como vivem os Homens? Logo eu; ri sarcasticamente! Despi a túnica negra que envolvia o meu corpo, antes de me colocar debaixo do fio de água gelada que despertou os meus sentidos. Acho que se chamam champôs, as substâncias coloridas e perfumadas, que fazem espuma branca na cabeça dos Homens. Gostava de saber porque se sujam os Homens, em vez de deixarem a água fria descer pelo corpo, sem obstáculos.

Saí de debaixo do fio de água gelada para me secar. Tinha pouco mais de vinte minutos. Não convinha nada atrasar-me. A última vez que me atrasei quase que provoquei um golpe de Estado na Geórgia. Não me posso esquecer dessa mácula no curriculum. Só daqui a uns cinquenta anos, trinta se tiver sorte, é que será retirada essa mancha da minha folha de serviços. Enfim, coisas que não pudemos evitar.

O envelope negro estava na caixa de correio, como de costume. Olhei para o relógio pendurado na parede, tinha seis minutos para conhecer a missão do dia. Ou seria a missão da noite? Os raios de sol e as sombras lunares não existem no Limiar. Aqui o Tempo só interessa para não nos atrasarmos nas missões. No Limiar não existem calendários, embora todos os operativos saibam qual o dia, dos vários calendários humanos, em que estamos.

O nome do emissor vinha em branco, como sempre. Tinha esperanças que, por uma vez, viesse assinada por Ela. Algum dia seria a minha vez. A expressão “Pouca sorte” desfilou na minha cabeça! Tenho que aprender a ter mais paciência. Afinal tenho a eternidade pela frente.

No lugar do remetente, como sempre, vinha o meu nome e a indicação do meu espaço de descanso; para facilitar vamos chamar-lhe quarto. Acho que é assim que os humanos chamam, aos grandes cubos com uma pequena entrada, nos quais dormem em cima de uns paralelepípedos. Muito bem, no envelope negro vinha o meu nome, o número do meu quarto e o número de série da missão.

“J8 – 18.36.9”

Em segundos descodifiquei mentalmente o código. Dia 8 de Janeiro (“J8”), missão número 18.36.9. Já estive mais longe das 20 000 missões. Como o Tempo parece estar congelado quando a eternidade é a nossa meta. Perdi dois minutos com estes devaneios estúpidos e restavam-me somente mais quatro, antes de abandonar as descoloridas instalações do Limiar.

Vi a fotografia com muita dificuldade, mal conseguindo perceber os contornos do rosto. É a primeira vez, em décadas, que vejo um retrato tão desfocado. Alguma coisa deve ter falhado. Os nossos observadores, acho que em humanês se diz fotógrafo, são hábeis a tirar retratos. Não me compete a mim saber o que se passou. O Controlo Operacional Intermédio, através do Gabinete de Controlo de Retratos Humanos que resolva o problema.

A missão que me calhara em sorte, pelo que pude ler no ficheiro, era simples.

Nome: Samsara Butho 
Idade: 21 anos 
País: Índia

Tinha ainda dois minutos, antes de partir. Ao longo de mais de 18 000 missões raramente tinha saído da Europa. Contava na minha folha de serviços com seis idas à Geórgia, quatro à Arménia, duas ao Turquemenistão e ao Azerbeijão, uma à Arménia e outra ao Cazaquistão. A Rússia conhecia eu bem, especialmente durante as muitas viagens que fizera em 1917 e em 1943 – 1945, do calendário gregoriano.

Índia portanto. Não me lembro de ter visitado a Índia, em nenhuma das viagens anteriores. Acho que nem a China conheço… Dentro de um minuto terei que abandonar o Limiar e defrontar-me com a palidez da lua, que iluminará o Taj-Mahal. Se tiver tempo trago uma réplica de lembrança. Gosto sempre de trazer uma lembrança dos locais que visito em missão.

Túnica preta vestida (é impressionante como o preto nunca sai de moda!), capuz colocado e luvas a cobrir as mãos. Tenho ainda tempo para guardar o ficheiro, antes que o Limiar me expulse. Sei que quando voltar da Índia, o ficheiro não será mais do que uma memória. Mais um número na minha folha de serviços. Mais uma missão concluída e arquivada. É só para isso que existo. Sirvo para concluir missões que outros arquivarão em seguida.

Uma fenda luminosa rasgou a parede do meu quarto. O vento indiano agitou a minha túnica. A cidade de Kochi, situada no Estado de Kerala, bem no sul da Índia, não adormecera com o cair da noite. Os seus 600 000 habitantes corriam como abelhas, alimentando uma grande colmeia a que chamam Economia Mundial. Há muito que os humanos se deixaram escravizar por ideias...

Quando estamos fora do Limiar, o Tempo passa a ter importância. Senti a fenda que me separava do Limiar desvanecer, sem que nenhum homem ou mulher tivesse sequer dado por isso. Ainda bem que a maioria dos humanos não nos vê… Mesmo assim somos temidos e odiados, em quase todo o mundo. Se nos vissem, de cada vez que chegamos, seríamos, no mínimo, apedrejados. É melhor assim!

Apurei os meus sentidos, como fazem os caçadores. Conseguia sentir várias fendas abrirem-se bem perto. Numa cidade com 600 000 vidas há sempre muito a fazer. No espaço de três segundos pelo menos oito operacionais do Limiar surgiram, e isto só num raio de seis quilómetros.

Caminhei sem pressas pela estrada pejada de carros. A Índia era tão diferente do que eu imaginara. As ruas pareciam ter alma, atraindo-nos para as visitarmos. Como se fossem amantes traídas expulsavam-nos dos seus corpos de pedra e alcatrão, quando não as admirávamos. Se me distraísse muito passaria a minha hora e, uma vez mais, mancharia a minha folha de serviços.

Desci uma rua em direcção ao porto de Kochi. As Cheena vala, gigantescas redes de pesca montadas, permanentemente, em estruturas de madeiras, apenas usadas no porto Fort Kochi e na China, pescavam raios lunares, enquanto pousavam para a fotografia de seis turistas alemães, que embriagados juravam estar a ver camas de rede brasileiras. Gargalhei bem alto, mas obviamente nenhum deles me ouviu.

Acelerei um pouco a passada, acompanhado pelas águas do lago Vembanad. Na Europa as cidades também não adormecem totalmente com a noite, mas em Kochi a noite parece injectar adrenalina nas pessoas. Os gritos alegres das crianças, os corações acelerados dos namorados, a pressa dos comerciantes, a felicidade dos turistas parece despertar com a chegada da lua aos céus da metrópole.

Uma pergunta estúpida voou pela minha cabeça. Tentei sacudi-la com um movimento brusco. Abrandei o passo, para perceber se a pergunta me tinha deixado. Não houve qualquer resposta... Estuguei a passada de novo. A pergunta, escorregadia, voltou a assaltar-me as ideias. Voltei a refrear a caminhada para a poder travar. Acho que mesmo nós temos momentos de dúvidas idiotas.

Respirei fundo e segui em frente.

Entrei numa pequena rua, provavelmente uma das mais antigas de Kochi. Sentia-se o cheiro a História. Por ali tinham passado muitos suores. Olhei em redor. As poucas pessoas que passeavam entre as sombras eram simples. Ao contrário da frenética metrópole, aquela rua dormitava quase completamente. Senti uma grande paz descer sobre mim. Os bairros simples sempre foram os meus favoritos.

Terceira porta, quarta porta, quinta, décima, décima segunda, décima quinta. Era esta. Entrei sem bater à porta. Aliás, entrei mesmo sem abrir a porta de madeira coberta de humidade.

[continua...]