Friday, December 26, 2014

Finda o ano e finda um ciclo...

Estou aqui há 362 dias. Cheguei 11 Setembro do ano passado. Ia começar a minha primeira experiência como Leitor a tempo integral e investigador a tempo parcial. Vinha cheio de sonhos, de planos, de expectativas e também desiludido com o meu país que me vira sair quase sem lutar para que eu ficasse.

Cheguei a 11 de Setembro de 2013 mas não estive sempre por aqui... Conferências no Qatar, na Sérvia, na França, em Portugal, no Reino Unido e na Grécia levaram-me temporariamente para outras paragens. Férias em Portugal também pararam a contagem dos dias vividos nas terras que já foram Otomanas e que hoje, a 26 de Dezembro, somam 362...

Em 362 dias aprendi muito. Mudei de estatuto (de Leitor para Professor Assistente); ganhei amigos, inimigos e conhecidos; fui desafiado a ensinar coisas que, primeiro que tudo, tive que ensinar a mim mesmo; fui testado na capacidade de ser criativo, quando existem muitas dificuldades e poucas soluções. Em 362 dias aprendi muito. É só o que consigo dizer, pelo menos, por agora.

E com 2015 a chegar seria normal que dissesse que "espero que a aventura continue a sua rota positiva", mas a aventura não continua... Ou melhor, continua mas não aqui. Aos 362 dias sei que no 365º dia estarei a aterrar em Lisboa, para depois visitar amigos em Abrantes, Lisboa, Coimbra e Porto. Sei que ao 365º dia voo para encerrar um ciclo: o ciclo turco!

E depois das visitas, de rever rostos, de contar e ouvir estórias, de partilhar sorrisos e lágrimas em redor de um bom vinho (ou de um bom gin!), sei que a aventura seguirá para Norte. Em 2015 lanço-me no ciclo finlandês! Fui desafiado a arriscar e saltar para um novo projecto e decidi aceitar o risco. E assim quando o ano finda, finda também um ciclo.

Uma conversa de táxi em Doha; uma reunião informal num bar de piscina às 3h da manhã; um anel oferecido num aeroporto; um projecto via on-line; várias conversas via skype e de súbito dei por mim, pela primeira vez, a poder escolher onde me completar enquanto profissional. A continuidade turca, que muito me aprazia, ou o desafio nórdico, que me deixou curioso.

Não é um adeus definitivo à Turquia, da qual guardo boas memórias, mas um adeus por agora... Porque, por agora, a Finlândia chama e desafia-me. E eu gosto de desafios. Não sei se mudo para melhor, mas sei que mudo para diferente. E é isso que procuro agora: o diferente. É um fim de ano, e fim de ciclo, a saber que o novo ano traz ciclo novo.


Friday, December 12, 2014

Memórias de uma Garrafa de Champanhe (3/3)

[continuação]

Uma voz forte salvou-me. O Sr. Marquês, soube-o depois, interveio a tempo. O meu corpo regressou à caminha de madeira e fui colocada, uma vez mais, ao lado do vinho do Porto. Respirei de alívio! O vinho do Porto saudou-me pela coragem, pelo modo elegante como eu me entregara ao fatal destino.

Corei, ou borbulhei, pensando que fora o medo e não a elegância a impedir qualquer reacção. Os whiskies silenciaram a cacofonia de piadas sem gosto. Os gins sussurraram baixinho algo imperceptível, mas que seria algo maledicente sobre mim… Só podia, vindo daquele grupinho de bebidas transparentes com vontades opacas!

O vinho do Porto e eu aproximámo-nos após o incidente. Aos poucos ele partilhou comigo as estórias da sua origem. De como era lindo o Douro de Portugal. Das vinhas sulcadas na terra; dos beijos do sol; dos rios que dançavam lá ao fundo; das vozes alegres das mulheres na vindima; das esperanças que punham em si.

Aos poucos entendi como o vinho do Porto espelhava a alma de um povo alegre, batalhador e sem medo de cantar perante adversidades. Tenho a dizer que o orgulho em ser francesa se esbateu.

Vários séculos de História tinham-nos dado presunção, pompa, um orgulho fátuo e pouco mais; enquanto este povo, os criadores deste vinho do Porto, tinham-se realizado mundo fora, tinham-se cumprido enquanto gente e poderiam fazê-lo de novo. Era apenas uma questão de quererem! Uma questão de acordarem de novo…

No meio das palavras do vinho do Porto fui-me acomodando e, pela primeira vez, senti-me em casa. O conforto de me sentir em casa durou pouco tempo. Não tardou a que uma segunda tentativa furtiva ameaçasse a minha placidez existencial. Um sobrinho do Marquês, zangado com o tio, tentou roubar-me para me levar com ele. Fui encapuçada num grosseiro saco de serapilheira.

Tentei reagir mas o medo, e o facto de estar na mesma prisão que o vinho do Porto, silenciou-me. A passos largos fomos percorrendo as divisões e os meus planos de glória foram-se esbatendo, como as cores de uma tela esquecida no jardim e regada pelos aguaceiros da manhã.

Uma vez mais o previdente Marquês salvou-me de um desfecho impróprio. O saco foi aberto e enquanto gritos e palavras menos simpáticas (bem ao gosto dos whiskies) preenchiam a casa senhorial, eu e o vinho do Porto voltámos para o nosso armário.

Nessa mesma noite um dos gins foi levado e nunca mais voltou. Os seus “companheiros” zombaram do seu azar, ao invés de mostrarem qualquer sentimento de mágoa pela sua partida. Aprendi com o meu querido vinho do Porto, que este povo que me acolheu diz que “há terceira é de vez” e no meu caso comprovou-se.

O terceiro a rondar o armário onde as bebidas repousavam foi o Marquês em pessoa. Retirou-me, quando trazia na mão duas belíssimas floutes vindas de Flandres. Não tardou a que música enchesse o salão senhorial e vozes simpáticas enchessem aquele espaço.

Era o meu momento de glória; momento de poder brilhar. Avistei numa mesa mais ao fundo o vinho do Porto, rodeado de admiradores que lhe prestavam o devido tributo. Lembrei-me do que aprendera nas caves francesas e aprimorei o dourado da minha bebida.

Relembro que era final de tarde. As conversas simpáticas, que se formavam nos lábios daquela gente bem vestida e sempre sorridente, preencheram-me. Estava pronta para ser útil; porta para sensações requintadas e que apenas a memória gustativa e o cérebro poderiam reter.

Com delicadeza a rolha deslizou e um “pop!” anunciou-me ao mundo. De começo, apenas duas pessoas me experimentaram, mas vários clarões (semelhantes aos trovões em noite de tempestade) registaram o momento.

Escorri suave para as elegantes floutes da Flandres e depois para os delicados lábios da Marquesa e os fortes, mas suaves, lábios do Marquês. Por um segundo senti-me completa; única; inteira; existente.

E logo depois tudo se estilhaçou, com a velocidade de uma gazela em fuga na savana. Metade do meu precioso líquido foi dividido em impróprios copos de whisky por uma vintena de convidados. A festa, tal como o sol, sumiu…

Vieram empregadas de limpeza; conversas sobre as conversas; agitação no salão como se um ciclone se tivesse formado ali. O vinho do Porto foi posto num saco negro e deixei de o ver. Eu fui agarrada, sem jeito e sem graça, pelos dedos gordurosos de um mordomo.

As floutes seguiram comigo o mesmo caminho. Num instante estava no salão dos Marqueses e no momento seguinte, qual eclipse, fui fechada no sótão. Fui tornada em algo dispensável. A imperatriz virou nada; grão de pó nas memórias dos meus senhores; partícula infinitesimal das suas vidas.

E aqui estou… No meio de outros tantos objectos, envolta numa camada de pó, na companhia pouco excitante das floutes da Flandres… Aqui estou sozinha com as minhas memórias, enquanto me apago de cada vez que o relógio de pêndulo soa… Aqui estou…

FIM

Wednesday, December 10, 2014

Memórias de uma Garrafa de Champanhe (2/3)

[continuação]

Fomos todas encaminhadas para os nossos destinos exóticos. A primeira de nós a deixar a loja foi encaminhada para casa dos Duques de Milão. Embora os automóveis fizessem furor entre os nobres da Europa, lembro-me que foi uma pequena carruagem que balançava desajeitadamente a vir reclamar o prémio dourado.

O som das rodas de madeira a embaterem nos ladrilhos é a última memória que tenho. E dois dias depois chegou a vez dos Marqueses de Lille receberem o glamouroso néctar nascido na escuridão de uma adega francesa.

Três das imperatrizes remanescentes partiram umas semanas depois para a corte austríaca, mas só uma chegou ao destino. Ouvi rumores de que no caminho uma das borboletas de ouro líquido borbulhante seguira para o Império Alemão, para casa de um príncipe qualquer da Saxónia.

A outra imperatriz partilhou a sua magia pelas ruas de Budapeste, desviada pelas mãos de um serviçal ganancioso ávido de sentir a textura refinada do melhor champanhe. A rudeza das suas pupilas, porém, levou a que cuspisse a primeira golada e oferecesse cada gota de luxo aos seus cães acossados por um surto de carraças.

A terceira chegou em pompa à corte austríaca e deleitou-se com os prazeres da corte, até ser aberta num banquete de embaixadores. A sua existência provada pelos bigodes farfalhudos de dois austríacos, um russo, um alemão, um romeno e um turco que em amena cavaqueira falaram do mundo como se fosse um recreio.

A sexta garrafa não chegou a sair de Paris. Acompanhou duas aventuras do seu senhor e morreu na terceira, por entre o suor de braços entrelaçados e gemidos que prometiam um amor eterno que durou seis dias e algumas horas.

A sétima das irmãs viajou durante meses até chegar à corte russa, como presente de um nobre georgiano para o czar Nicolau II. Eu fui a oitava a ser adoptada. Só espero que as restantes tenham tido tanta ou mais sorte do que eu, pois perdi-lhes o rasto. Tive como destino Portugal.

A casa senhorial dos Marqueses de Abrantes, com moradia em Lisboa (vá-se lá perceber estes humanos!), esperava por mim. Uma soirée qualquer seria o meu destino, mas por culpa do destino e da incompetência de um dos serviçais cheguei atrasada. Fui arrumada com cuidado ao lado da cristaleira, junto a uma série de whiskies, gins e uma meia garrafa de brandy.

Não fui retirada da minha cama de madeira, mas abriram-me o vidro. Melhor seria que o tivessem deixado ficar. As conversas dos gins até que eram interessantes de se ouvir, sempre com um toque de urbanidade que me aprazia. O problema, o inconveniente diria eu, eram as tiradas nada cavalheirescas dos whiskies, com comentários mais próprios de uma taberna quinhentista, do que de uma casa nobre em pleno século XX.

Confesso ao leitor que fiquei espantada. Nunca imaginara que uma bebida bela, de tez dourada, armazenada num elegante vestido de vidro muito trabalhado, pudesse ser tão rude. Se entrava uma donzela no salão onde estávamos choviam piropos e impropérios que eu era obrigada a ignorar. 

Interroguei-me demoradamente se eles (os animalescos whiskies) estariam embriagados na sua própria essência, mas logo descobri que assim não era. Fazia parte da sua genética aquele palavreado grosseiro, rude, quase pré-histórico. Não eram mais do que homenzinhos das cavernas envoltos numa capelina de ouro e com sapatos de Milão.

Os gins mostraram-se corteses no trato. Todas as suas frases um puzzle bem construído de sentidos, que a tempo descobri ser um labirinto. Não era civilidade o que neles via, mas apenas um logro de mentiras e enganos. Procuravam mostrar o outro como ilógico, inferior, incapaz.

Os gins provaram, a seu tempo, ser uma bebida sem alma; copiando o comportamento de quem os bebia. Fazendo joguetes sociais a toda a hora. Construindo armadilhas e ratoeiras entre si; zombando da inferioridade dos whiskies e do silêncio do brandy.

Queria falar com o brandy, saber como era, o que sentia, de onde viera, mas nem um só som saiu da sua garrafa. O líquido foi sendo esvaziado e um dia a garrafa não voltou. Tardou pouco a que fosse substituído pelo alegre vinho do Porto.

Os gins logo votaram o simpático vinho do Porto ao isolamento e os whiskies excluíram-no das suas conversas impróprias. Sobrávamos apenas nós e, com a naturalidade do movimento pendular dos dias, fomos fermentando uma amizade.

Poucos dias depois do vinho do Porto ter chegado, rondou junto a mim a primeira ameaça. O filho mais velho dos Marqueses abriu o armário e passou os seus dedos grossos, suados, nada próprios de um nobre (pensei eu!), pelo meu delicado vestido de vidro.

Ouvi-o murmurar planos de como seria perfeita para “colher a flor” da sobrinha do Rei. Ao perceber o propósito que teria tremi horrorizada, enquanto os whiskies gargalhavam em histriónica sinfonia. O vinho do Porto manteve a postura de cavalheiro (para um vinho, claro está!) e não esboçou uma emoção.

Senti o meu corpo sair da cama de madeira. Estava perto o apocalipse para mim; o sacrifício em tributo aos prazeres da carne; um matadouro nada honroso e longe dos planos que eu fizera. Duas gotas de suor pingaram da testa do jovem para o meu corpo.

Era aquilo o meu final. Seria envolta num mar de suor, enquanto gemidos lancinantes destruiriam a pouca dignidade que me restaria, após ser grotescamente bebida em pecado e não num pomposo convívio social.

[continua]


Monday, December 08, 2014

Memórias de uma Garrafa de Champanhe (1/3)

Fui abandonada no sótão em Outubro de 1910. Brasões caíram comigo e o azul e branco gravados na mais macia seda foram tingidos de verde e vermelho. Estou aqui, sozinha e empoeirada. Perdida no sótão desta casa de gigantes.

Relembro memórias do que fui e do que podia ter sido, abrindo-me em simplicidade ao gentil leitor, quando julgava não ter nada mais para servir. Por companhia tenho duas floutes de champanhe, mandadas vir da Flandres. Uma delas está rachada e a outra sem brilho. Não as ouço murmurar sílabas finas e harmoniosas há algum tempo; há muito tempo.

Flandres deve ser um sítio soberbo para se nascer e viver. O que não teria dado para ir para Flandres. Coisas que uma garrafa de Champanhe não pode mudar, caro leitor. Mesmo assim, gostava de saber como seria tratada em Flandres. Estaria remetida a um escuro sótão? Seria apenas memória frugal de um qualquer álbum fotográfico perdido?

Em boa verdade, não importa. Agora nada mais importa. Em tempos nós as três fomos o orgulho da Família. E agora… Restará de nós, deste trio tão frívolo quanto necessário, uma breve imagem mental e quatro ou cinco fotografias esbatidas. Eu não nasci, não me criei para estar sozinha. Não foi para isso que me venderam, por mais de dez contos de réis.

Sou chique! Importada! Champanhe francês. A Rainha das bebidas. Sim, todo o champanhe deste mundo (e quem sabe também do seguinte!) é feminino. Algum homem, algum ser ou animal masculino, poderia ter o brilho que nós temos? Eles nem se maquilham propriamente nos dias que correm! Não, não, não. Se é champanhe é feminino. Se é masculinidade, imbecil virilidade, que procurais numa bebida gentil leitor, olhai então para o borbulhoso espumante.

Espumante. Esse traidor masculino, que pelo preço baixo e por um fingimento torpe nos rouba os lábios de muitas donzelas amigas. Quantas festas se regaram de grosseiro espumante, dizendo-se beber o mais delicado dos champanhes. Não me interprete mal gentil leitor, mas os humanos tendem a deixar-se iludir com demasiada ligeireza. Confiam em demasia nos sentidos. Não duvidam, não se interrogam, não questionam, não exploram…

Não se ria assim. Pensa, com justeza, o que poderei eu, uma garrafa de champanhe vazia e empoeirada, saber sobre as coisas do pensamento humano. Muito pouco, é certo. Mas sei o que é pensar; o que é duvidar e explorar. Ou acredita mesmo que o champanhe se faz simplesmente por processos ancestrais de destilação e voilá! Une magnifique boteille de champagne!

Não! O champanhe dúvida da sua essência; da sua existência; da sua aparência. Estou a ficar dourada. Mas e se aclarasse a cor? Estou a ganhar gás. Mas e se aligeirasse na efervescência? Estou a ficar apetitosa. Mas e se eu quisesse ser melhor? Ser única e irresistível?

Envolvo-me nas sombras das adegas onde me preparam; mergulho em dúvidas e medos até terminar a minha metamorfose. Não me transformo de hedionda larva para resplandecente borboleta, mas faço uma metamorfose no meio de esplendor e do encanto das adegas sombrias.

Voltemos ao que eu dizia… Saí da loja em 1900. Fui acomodada numa caixa com o cuidado de quem repousa uma criança. No meu ano fomos poucas as que conseguimos transformar-nos em borboletas de beber. Algo estranho, segundo ouvi, uma miasma qualquer, destruíra aquelas que podiam ter sido minhas amigas, que podiam ter viajado mundo fora como eu.

E por sermos tão poucas, tão raras, fomos tratadas como imperatrizes e não como as princesas que somos. A minha cama de madeira era quente e confortável, um paralelepípedo sem imprecisões, no qual encaixava um vidro transparente e fino como papel.

Alinharam-me ao pé das outras imperatrizes, doze garrafas reluzentes, aliás treze garrafas reluzentes que logo passaram a doze por a décima terceira ter-se estilhaçado no chão.

Um descuido do lojista e um pequeno encontrão do pequeno Louis, que ficou de castigo dois meses depois de três bofetadas vigorosas, saldaram-se numa tragédia que se espalhou freneticamente pelo chão da loja. Algumas de nós borbulhámos de pavor não fosse aquele destino estender-se a todas.

Estava pronta para ir para a montra, engalanada na minha cama de madeira e vidro brilhante, mas em vez disso fui embrulhada em papel castanho. Nada que me tivesse apanhado de surpresa.

As doze imperatrizes... Desculpe-me o leitor pelo percalço... As doze garrafas de champanhe seguiram todas para os seus destinos, mas nem uma única ficou na montra. Nesse ano, em que o mundo gregoriano entrou no século XX, foi o traidor espumante quem figurou, todo lampeiro, na vitrina da loja.

[Continua...]


Friday, December 05, 2014

Revisionismos, egos e um Sultão sem Império

Recep Tayyip Erdoğan, Presidente da Turquia desde 28 de Agosto de 2014, tomou o gosto pelo revisionismo histórico e pelo mediatismo "escandaloso-ó-populista". A primeira estocada foi a declaração de que teriam sido os navegadores muçulmanos a encontrar a América primeiro, em 1178, e não Colombo em 1492.

Sendo quase certo que Colombo não foi, de facto, o primeiro a pisar a América, a maioria dos indícios apontam para para os Vikings (oriundos da Islândia), que tanto quanto sabemos passaram do paganismo politeísta ao Cristianismo monoteísta. Existem até indícios do estabelecimento de uma colónia viking, no Canadá, no começo do século XI que terá sido abandonada antes do final desse mesmo século.

A teoria do Presidente sustenta-se nos escritos do historiador Youssef Mroueh, que em 1996 publicou um artigo onde cita uma passagem do diário de Colombo como prova de que os muçulmanos teriam chegado à América primeira. A maioria dos historiados islâmicos não segue este teoria. E curiosamente, não existem vestígios de qualquer construção islâmica pré-Colombo no continente americano. Mas sobre isso, o Presidente não quis falar...

As críticas ao Presidente da Turquia, por vários académicos turcos e por ainda mais académicos, analistas e políticos internacionais, não se fizeram esperar. Como resposta, Erdoğan falou em crises de ego e decidiu apontar o dedo a todos os que não o seguem. Numa retórica meio violenta, alegou que "os estrangeiros dentro de nós" (isto é, os turcos pró-Ocidente) e os "demais estrangeiros" (isto é estrangeiros, como o Fidalgo, a laborar na Turquia) não gostam da Turquia.

Foi mais longe e chegou mesmo a dizer que "eles não querem saber se as nossas crianças morrem. Eles apenas se preocupam com dinheiro", alinhando na visão, partilhada pelo seu recente novo amigo Vladimir Putin, de um Ocidente decadente, sem valores, sem moral e sem quaisquer interesses para além do dinheiro. A ideia é simples, a Turquia (baluarte da moralidade e dos bons-costumes) está a ser penalizada pelo amoralismo Ocidental.

O Presidente não se contentou e revelou, dias mais tarde, que os norte-americanos nunca tinham pisado a lua, que tudo tinha sido encenado, alinhando com os seguidores das teorias da conspiração que negam a chegada à lua de Armstrong. O Presidente, uma vez mais, foi mais longe e falou numa "pasta negra com os segredos do mundo" que todos os Presidentes e Primeiros-Ministros recebem após as eleições.

E o Fidalgo questionou-se: então e os monarcas não recebem a dita pasta? E os Presidentes que chegam ao poder por via do golpe de estado, como será que se processa? O revisionismo histórico, de per si, tem pouco de novo; Portugal andou anos a tentar querer "vender" uma narrativa de auto-glorificação, em muitos casos, exacerbada. Mas o revisionismo histórico, temperado com teorias da conspiração, e com uma retórica ultranacionalista é perigoso...

O Presidente Erdoğan parece ter assumido que é sua missão aprofundar o plano começado por Kemal Atatürk de turquicização da Turquia. Após o colapso do Império Otomano, Atatürk culpou o multiculturalismo pela queda do Império e pelo "esmagamento dos turcos" perante as forças estrangeiras. O resultado foi a construção de uma narrativa auto-centrada que valoriza apenas e só as vitórias conseguidas por turcos, relativizando tudo o resto.

Este desejo de glorificação da nação Turca como centro do mundo explica os comentários do Presidente Erdoğan, de que os alunos turcos conhecem demasiados autores estrangeiros e de menos autores turcos e muçulmanos. A ideia é a Turquia, que em regra geral desconhece tanto o que se passa no mundo, se fechar ainda mais sobre si mesma. A ideia não está condenada ao fracasso, mas condenará a Turquia a fracassar...

E depois de tudo isto, anteontem, o Presidente Erdoğan (que se comporta cada vez mais como um mau Sultão sem império) achou por bem clarificar que "a vida da Turquia decide-se aqui, no palácio", referindo-se ao novo e faraónico palácio presidencial com mais de 1000 quartos e envolto em inúmeras polémicas.

Erdoğan, com poucas palavas, colocou o Primeiro-Ministro no seu lugar de subserviência e enfatizou a sua missão de decisor central da política da Turquia. Talvez esteja para breve a adopção de um título sonante, como o fez o anterior Presidente do Turquemenistão quando se auto-entitulou de Turkmenbashi (pai dos turquemenos).

O Primeiro-Ministro acatou a ordem. E ontem decidiu alinhar com o Presidente, nas "novas" teorias sociais. Se o Presidente diz que a igualdade de género é anti-natural, porque as mulheres são frágeis; o Primeiro-Ministro acrescenta que as taxas de suicídio nos países Nórdicos (economias avançadas) se devem à igualdade de género... Os estudos apontam como razão mais provável questões climatéricas, mas o Presidente e o Primeiro-Ministro da Turquia sabem mais do que os estudos!

É interessante notar que esta necessidade de afirmação de poder e a necessidade de construir grande para "o mundo ver" revelam um homem complexado consigo mesmo e que, por isso, ataca os outros que o atacam. A Turquia que não votou em Erdoğan temia que a sua eleição levasse à emergência de um neo-convervadorismo pan-turco-islâmico e, até ver, parece confirmar os seus temores.

É intrigante constatar que o líder do partido (AKP) que chegou ao poder, após um período marcado por instabilidade governativa e golpes de estado, prometendo modernidade, progresso e uma viragem pró-Ocidente, se vire agora contra o Ocidente. É indicativo disso mesmo que a primeira visita de Erdoğan após a eleição tenha sido ao Azerbaijão e que o seu mais recente aliado seja a Rússia.

Talvez Erdoğan tenha percebido que a luta contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria está a trazer a agenda curda de novo para a ordem do dia. Ou talvez tenha percebido que a questão do Chipre terá que ser resolvida o quanto antes, sob prejuízo de qualquer futura decisão excluir totalmente os intentos de Ankara. Ou talvez atravesse apenas uma crise de meia-idade, que ameaça arrastar o país para uma crise de legitimade...

Curiosamente, até agora, a União Europeia manteve-se silenciosa sobre as diatribes do Presidente com tiques de Sultão. A União Europeia, sempre tão vocal com o Presidente da Sérvia e tão atenta aos desenvolvimentos na Rússia e na Bielorrússia, achou por bem silenciar-se... Como de resto também costuma fazer com o Azerbaijão e até com a Geórgia. Parece que às "mulheres da UE" basta parecer querer ser pró-UE...


Sunday, November 30, 2014

Divisões, antagonismos e a pouca utilidade do eleitoralismo na Moldova

A Moldova foi a eleições parlamentares, extraordinariamente marcadas por um maniqueísmo resultante da crise na Ucrânia. Quem acompanhou o que a imprensa internacional foi dizendo sobre as eleições parlamentares da Moldova antes destas acontecerem ficou com a ideia de que a Moldova não tem problemas internos por resolver.

A imprensa internacional minimizou o impacto das sanções russos aos produtos Moldovares, como o vinho e as carnes. E quase não tocou nas problemáticas questões em torno das regiões autónomas da Gagauzia e da Transnístria. Resumiu-se tudo, no final, ao antagonismo de forças políticas pró-União Europeia e forças políticas pró-Moscovo; quadro incompleto, que não deixa perceber a importância real do escrutínio em causa.

Os resultados tardaram a chegar, porque não existirem sondagens à boca da urna. Sergiu Ostaf, director do Centro para os Direitos Humanos, considerou a ausência de sondagens prejudicial para a população. Já Arcadie Barbarosie, director do Instituto para as Políticas Públicas, desvalorizou o caso dizendo que a qualidade e rigor o escrutínio ficaria salvaguarda, mesmo sem as ditas sondagens.

Essa foi de resto a polémica que alimentou o interesse dos analistas e académicos, enquanto os números não chegavam. E os números lá chegaram. Os primeiros números davam a vitória às forças pró-russas. O Partido Socialista da República da Moldova e o Partido Comunista da República da Moldova (ambos pró-Moscovo) surgiam em primeiro e segundo lugar, com o quinto lugar ocupado pelo Partido Reformista Comunista (também ele pró-russo).

Curiosamente, estes primeiros números foram partilhados com entusiasmo pela imprensa russa mas foram praticamente ignorados pela esmagadora maioria da imprensa internacional, com honrosa excepção da Reuters que publicou uma notícia onde se dava conta da "vantagem dos partidos pró-Russos" no começo do escrutínio. Mas a noite traria surpresas...

Ao passar-se a barreira dos 30% de votos contados o Partido Reformista Comunista (pró-Russo) passou do quinto para o sexto lugar, sendo ultrapassado pelo Partido Liberal (pró-UE). Não só passou para sexto, como passou a ter menos de 6% dos votos nacionais, barreira mínima para se entrar no parlamento. A noite começava a dar sinais de mudança na tendência de voto.

Quando se estava perto dos 70% de votos contados o Partido Comunista da República da Moldova foi ultrapassado pelo Partido Liberal Democrata Moldavo (pró-UE), que não mais perderia o segundo lugar e que alargaria a diferença de votos. Em quarto lugar permaneceria (intocado) o Partido Democrata da Moldova (pró-UE). E com os ventos a soprarem na direcção de Bruxelas, a imprensa internacional lá começou a falar das eleições parlamentares na Moldova.

Aos 80% de votos contados começaram a sair dados com o número de mandatos, que cada partido conseguiria alcançar. Os partidos pró-Moscovo ficariam com 47 mandatos, enquanto os partidos pró-UE conseguiam 54 mandatos que garantiriam a manutenção da maioria absoluta (num parlamento com 101 lugares) e de um governo pró-Bruxelas. Os números pouco mais se alteraram durante a noite.

O que os votos mostraram, mas muitos analistas alegremente ignoraram, foi uma Moldova profundamente dividida (é importante dizer que o Partido Reformista Comunista ficou a menos de 1% de entrar no parlamento, o que poderia ter destabilizado ainda mais as contas) que continua a ser acossada por uma visão que insiste no antagonismo UE vs Rússia; ao invés de se ensaiar uma visão de aproximação de UE ≈ Rússia.

O que o escrutínio mostrou foi uma Moldova frágil; incapaz de alcançar consensos nacionais e de transformar as perigosas divisões em extraordinárias oportunidades. O que o escrutínio mostrou foi uma Moldova com potencial "incendiário" igual ou superior ao da Ucrânia... Uma Moldova onde Comrat deu pouca relevância ao escrutínio e Tiraspol boicotou, uma vez mais, o mesmo.

Como se posso integrar um país como a Moldova na Parceria de Leste com a União Europeia, quando o mesmo país é incapaz de "acomodar" as divergências entre a sua população (Moldovares pró-EU e moldovares pró-Moscovo) e entre a população Moldovar e os Gagauzes, Transnístres, Cossacos, Russos e Romenos? As eleições provaram, isso sim, que a Moldova não falhou a transição porque nem sequer a começou...


Monday, November 24, 2014

As interessantes eleições na Roménia

Este mês a República da Roménia foi a votos para eleger um novo Presidente. A eleição decorreu em dois turnos. A primeira volta (2 de Novembro) determinou que Victor Ponta (actual Primeiro-Ministro da Roménia) com 40,4% das intenções de voto e Klaus Iohannis (Presidente de Sibiu, que, mera curiosidade, foi capital do Principado da Transilvânia até 1865) com 30,3% iriam à segunda volta (16 de Novembro).

É interessante referir que o terceiro candidato mais votado, com menos de 5,5% dos votos, foi o independente Călin Popescu-Tăriceanu (ex-Primeiro-Ministro e ex-membro do PNL de Iohannis). Na segunda volta e contrariando a esmagadora maioria das sondagens foi Klaus Iohannis com 54,4% quem venceu a corrida presidencial.

É interessante notar que no espaço de duas semanas Iohannis consegue amealhar mais 14,1% de votos; enquanto Ponta apenas aumenta em 5,1%. Os números são ainda mais impressionantes se tivermos em conta que na primeira volta a taxa de participação foi de 53,2% (perto dos 9,725,000 de votos) e na segunda volta foi de 64,1% (perto dos 11,720,000).

É igualmente interessante notar que, durante a fase de campanha, Victor Ponta terá prometido um referendo sobre a manutenção da forma Republicana de regime, ou o retorno a uma Monarquia (numa altura em que a Família Real Romena goza de imensa popularidade). Alguns analistas dizem que os republicanos mais aguerridos e os comunistas terão, nesse momento, voltado costas a Ponta por culpa de tal promessa.

Interessante também o modo como o Presidente cessante, Traian Băsescu, condicionou o resultado da corrida presidencial quando a 14 de Outubro acusou Victor Ponta de ter sido espião entre 1997 e 2001. A acusação por si só bastou para agitar as águas, num país obcecado e ainda temeroso com actividades de espionagem, quase sempre (mas não só!) em prol de Moscovo.

O Presidente cessante, numas eleições marcadas por uma série de acusações, foi ainda mais longe e acusou Victor Ponta de subornar o eleitorado. O Presidente chegou mesmo a falar em números: 4,800,000,000€ seriam distribuídos mais tarde pelos "votantes lealistas", dinheiro esse que viria do erário público. Iohannis aproveitou sempre os trunfos dados pelo Presidente.

Mas o mais interessante é o facto do ponto de viragem nas eleições Presidenciais na Roménia não ter acontecido "em casa", mas "fora dela". Na primeira ronda as eleições ficaram manchadas por inúmeros problemas com o voto dos Romenos fora da Roménia. A não-preparação dos agentes diplomáticos romenos para o voto da sua população degenerou, cedo, numa onda inesperada de protestos.

Em Madrid, Nova Iorque, Estrasburgo, Munique, Roma, Estugarda vários eleitores frustrados gritavam "Fora Ponta!" e "Queremos votar". E em Paris, Londres, Viena e Turim os manifestantes chegaram mesmo a invadir as premissas das Embaixadas e Consulados, quando perceberam que não conseguiriam exercer o direito ao voto.

Na segunda ronda era suposto tudo correr melhor... Era suposto, mas não aconteceu assim. E assim filas gigantescas de romenos, em direcção às suas Embaixadas, surgiram em França, no Reino Unido, na Bélgica, na Noruega, na Alemanha, na Suíça, em Itália e em Espanha. Em Turim a polícia chegou a ter que intervir... E o voto da diáspora foi castigador para Victor Ponta.

É igualmente interessante como as eleições Presidenciais causaram "vítimas" inesperadas. A 10 de Novembro, após o fiasco das eleições presidenciais "fora de portas", Titus Corlățean, então Ministro dos Negócios Estrangeiros, pediu a sua demissão. A 18 de Novembro Teodor Meleșcanu, recém-indigitado Ministro dos Negócios Estrangeiros, também bateu com a porta. E hoje foi indigitado para o cargo Bogdan Aurescu...

As eleições na Roménia confirmam também como algumas instituições internacionais são muito vocais apenas e só quando interessa. Numas eleições manchadas por acusações graves de suborno, espionagem e manipulação de votos viu-se uma União Europeia ignorar tudo... até porque a Roménia já faz parte do clube.

Numas eleições que, em momentos, roçaram a paranóia colectiva, o fantasma de Moscovo pairou sobre Bucareste quando convinha e a quem convinha. Interessante, para terminar, é ver como os propalados "perigos do voto manipulado" foram logo esquecidos pelo vencedor, e em breve novo Presidente da Roménia, Klaus Iohannis que após vencer disse: "Tomámos o nosso país de volta". Tomaram-no de volta de quem?


Tuesday, November 18, 2014

Outra crise em Tbilisi, ou uma Geórgia que se "Ucraniza"?

4 de Novembro! Irakli Alasania, até então Ministro da Defesa, é demitido do cargo. Razão da demissão? Alasania acusa o gabinete do Primeiro-Ministro Irakli Garibashvili de conduzir acções que colocam em causa o trajecto Euro-Atlanticista da Geórgia.

É interessante notar que Alasania nunca acusou o Primeiro-Ministro de ser pró-Moscovo (acusação política que na Geórgia equivaleria dizer "você é neo-nazi" ou "você é ultra-anárquico"), apenas o acusou de não ser fervoroso adepto do caminho Euro-atlântico. E a verdade é que o governo em causa se comprometeu, em Outubro de 2012, em encetar uma reaproximação diplomática gradual a Moscovo.

As declarações bombásticas feitas a 4 de Novembro vieram na sequência de uma série de detenções e investigações a membros do staff do Ministério da Defesa. Na Geórgia, como na Ucrânia, no Quirguistão, no Cazaquistão e no Azerbaijão, o poder judicial e as forças policiais são muitas vezes transformados em simples armas de arremesso político.

O Primeiro-Ministro não foi de modas e demitiu Alasania em menos de quatro horas. Sucede-lhe no posto Mindia Janelidze, até então Secretário do Conselho de Segurança e Emergência Estatal. De Janelidze pouco se conhece e, dizem muitos analistas, a sua escolha revela a necessidade de ter figuras de pouco vulto na liderança do Ministério da Defesa, de modo a que o mesmo sucumba aos desejos e intentos do Primeiro-Ministro Garibashvili.

A crise política iniciada com os comentários de Alasania revela ainda duas outras coisas: 1.) demonstrou de modo claro que Bidzina Ivanishvili, Primeiro-Ministro da Geórgia entre Outubro de 2012 e Novembro de 2013, ainda controla o jogo político em Tbilisi. Vários analistas alertaram para o perigo de o homem mais rico da Geórgia (Ivanishvili) se poder tornar num "shadow player", aquando do seu afastamento voluntário, prematuro e inesperado do cargo de Primeiro-Ministro.

2.) A crise política mostra ainda a implosão do "Sonho Georgiano", plataforma de partidos que se uniram contra o antigo Presidente Mikhail Saakashvili. Em meados de Setembro, deste ano, já o Primeiro-Ministro Garibashvili assumia a tensão política entre a sua equipa e a equipa do Presidente Giorgi Margvelashvili (eleito em Outubro de 2013).

A crise despoletada pelos comentários de Alasania surge assim não como uma total surpresa, mas como o corolário de uma crise interna entre os parceiros de uma "Aliança Negativa" construída com o mote de derrubar Saakhashvili e não com o mote de operar uma transição sustentável para um sistema político diferente daquele que o timoneiro da Revolução das Rosas erguera.

Num artigo que publiquei em 2012, após a vitória de Ivanishvili, alertei que seria tão essencial quanto ardiloso manter a aliança entre vários partidos com agendas dissemelhantes e todos com "sede de poder". No mesmo artigo aludia ainda para o potencial destabilizador de uma "crise fratricida" entre os vários partidos da coligação e de como isso daria, uma vez mais, poder a Saakahsvili. Parece que estava certo...

Com a crise política a atingir a Geórgia, Saakashvili tem aparecido como a figura maior na defesa do caminho Euro-atlanticista. Saakashvili foi aplaudido por uma multidão de 30.000 pessoas que, a 15 de Novembro, protestavam, com cartazes sugestivos onde se lia "STOP Putin!", contra aquilo que percebem como uma trajectória pró-Moscovo do novo governo. Uma multidão que leu nos actos de Alasania, o que Alasania nunca disse abertamente.

Saakashvili foi aplaudido em Novembro de 2015, pela multidão que em Novembro de 2003 forçou o Presidente Shevardnadze a demitir-se, catapultando o jovem Saakashvili para a ribalta política. A mesma multidão que protestou contra si em 2009, no rescaldo da Guerra de Agosto de 2008 que terminou com a secessão de facto da Abkházia e da Ossétia do Sul.

A volatilidade da opinião pública de Tbilisi é resultado da fragilidade da sociedade civil georgiana, num país que parece mais apostado em integrar-se no Ocidente e fugir da Rússia, do que em perceber-se a si mesmo. O caracter cíclico das crises políticas na Geórgia, que transformam o mesmo actor político em Herói de manhã e em Vilão de noite, poderá abrir espaço a uma "nova Ucrânia". E a Europa ainda não precisa de mais Ucrânias...


Friday, November 14, 2014

Burkina Faso e de como não são tudo "Primaveras"...

Os representantes da sociedade civil, da arena política e da esfera militar parecem ter chegado a acordo sobre um plano para a transição em curso no Burkina Faso. O Fidalgo hesita em dizer "transição para a democracia" porque se há algo que os anos 1990 nos ensinam é que as altas expectativas quanto à democratização de regimes frágeis, sem o pano de fundo cultural adequado, tendem a esborar-se em poucos meses...

A 30 de Outubro o Presidente do Burkina Faso declarava o Estado de Emergência, após uma turba de milhares ter invadido as ruas da capital (de ser nome Ouagadougou), o Parlamento e o canal público de televisão. A multidão protestava contra as emendas Constitucionais que permitiriam ao Presidente Blaise Campaore continuar no posto que ocupava desde 1987.

Os actos de Presidente Campaore mostravam uma vontade férrea de não largar o poder. Após declarar o estado de emergência, o Presidente anunciou que demitiria o governo e criaria um plano de transição. Mas a turba não queria que o governo caísse, mas sim que o Presidente de há quase 30 anos se afastasse. O Presidente Campaore não quis sair, mas os militares insistiram...

A 31 de Outubro a situação era clara e confusa, ao mesmo tempo. Era claro que acontecera um golpe de estado e que os militares estavam em controlo. Era menos claro onde estava o Presidente. Viria a saber-se depois que Campaore fugira para a vizinha Costa do Marfim, temendo um desfecho ao estilo al-Gadaffi. E no final do dia 31 de Outubro Campaore apareceu para dizer que abandonara a presidência do país e pedindo eleições em 90 dias.

A 31 de Outubro também foi ficando mais claro que o líder do golpe (e do país) era o General Honore Traore. Mas a 1 de Novembro a clareza desfez-se, quando o Tenente Coronel Isaac Zida clamou igualmente estar na liderança do país. Ambos os "líderes" falavam em transição democrática serena, mas o país parecia condenado a uma situação parecida com a da vizinha Costa do Marfim, no pós-eleições presidenciais de 2011.

Seguiram-se confrontos pontuais na capital entre as forças dos dois "líderes transicionais" e as poucas forças aliadas do Presidente deposto. Mediam-se forças. E depois de alguma tensão ontem chegou-se a acordo sobre um plano transicional, que, curiosamente, preparará o país para a transição seguinte. Portanto é o plano da transição para a transição.

O acordado entre os actores civis, líderes políticos e forças militares foi o modo de selecção de um presidente interino provisório, que nomeará um primeiro-ministro interino provisório, que escolherá um governo provisório com 25 membros e que preparará o caminho para as eleições, que deverão ocorrer em 90 dias... Os tais 90 dias que Campaore, agora exilado na Costa do Marfim, pedira.

O acordo de ontem mostra também que o Tenente Coronel Zida ganhou a disputa frente ao General Traore. Apesar de inicialmente ter sido visto como uma figura secundária, a verdade é que começou a perceber-se que Zida gozava do apoio das camadas "jovens" do exército do Burkina Faso, enquanto que Traore apenas reunia consenso nas altas patentes. Na "contagem de espingardas" Zida ganhou e ontem surgiu com destaque no tal acordo.

Durante os quase vinte dias de terramoto político no Burkina Faso vários foram os media e analistas que tentaram colar o epíteto de "Primavera Árabe" aos eventos em curso. Nada mais incorrecto e menos necessário. Incorrecto porque o que se assistiu foi nada mais do que um golpe de estado, seguido de tentativa de normalização. Tal como tivemos em Portugal, há 40 anos, em Abril de 1974.

Desnecessário porque se olharmos para o mapa da propagandeada "Primavera Árabe" encontramos um quadro desolador. Com a Líbia e a Síria em situação de conflito civil; com o Líbano e o Egipto em situação de tensão crescente; com o Bahrain e o Omã pouco diferentes. Apenas a Tunísia e quiçá a Jordânia terão tirado dividendos da tal Primavera, mas no geral o que se tem seguido tem sido um duríssimo "Inverno Extremista" que está longe de estar sob controlo.

Ora perante isto, perante o fracasso da ideia de uma "Primavera Árabe" que traria a democracia à la Ocidental ao mundo Árabe (como se isso fosse solução?!), porque insistimos em rotular tudo como "Primavera Árabe". Se protestam na Arménia, é a dita Primavera; se fazem manifestações no Azerbaijão, é a dita Primavera; se caem governos no Sudão do Sul, é a dita da Primavera; se ocorrem golpes de estado no Burkina Faso, é a dita Primavera.

De tanto "Primaverarmos" tudo, acabamos por não Primaverar nada e por entender ainda menos. As ondas transitológicas são eventos que ocorrem com alguma rapidez, num espaço-tempo limitado. Os golpes de estado, as manifestações e a queda de governos são a normalidade imposta pela luta do poder, numa lógica maquiavélica em que o importante é o poder pelo poder e não o poder como instrumento para algo mais.

O Burkina Faso entra agora no complicado período de pacificação nacional, com um plano de acção que envolve sociedade civil, elite política e chefias militares de modo a responsabilizar todos. O Burkina Faso poderá mesmo sair desta crise reforçado; mais próximo de uma democratização real, mas para isso acontecer não é preciso chamar a dita da Primavera...


Wednesday, October 29, 2014

Tunísia a nova timoneira do Magrebe?

O ano 2011 surpreendeu o mundo com o começo da quinta onda transitológica iniciada na Tunísia. O movimento, que começou após a imolação de Mohamed Bouazizi, pedia pela demissão do ditador Ben Ali (no poder quase 22 anos), pela transformação do sistema político, pela reforma do sistema económico e pela capacitação do sistema social.

Cedo, talvez demasiado cedo, o modelo contagiou outros vizinhos e o Egipto, a Líbia, a Síria, o Iémen e o Bahrain entraram na chamada Estação Árabe (tendo em conta os resultados até aqui alcançados não temos motivos para falar em Primavera Árabe). O Kuwait, a Jordânia, o Omã e o Líbano também foram sacudidos por protestos de menor intensidade, respondidos (parcial ou integralmente) pelas autoridades locais.

A Tunísia tornou-se assim numa espécie de farol da Estação Árabe. Era a primeira a livrar-se do ditador e a entrar num percurso de reformas ao nível estrutural e ao nível institucional. As eleições do último domingo, 26 de Outubro, não só confirmam a dianteira tunisina como parecem distanciar a Tunísia de todos os outros países "apanhados" pela Estação Árabe.

Em Outubro de 2011, a Tunísia elegeu a sua Assembleia Constituinte encarregue de desenhar uma nova Constituição que abra caminho a uma democratização progressiva e sustentável. O partido islamita Ennahda ganhou o primeiro escrutínio conquistando 89 mandatos, seguido pelo Congresso para a República (29 mandatos), pela Petição Popular (26 mandatos), pelo Fórum Democrático (20 mandatos) e pelo Partido Progressivo Democrático (16 mandatos).

Após apurados os resultados dezanove partidos (oito dos quais com apenas um mandato cada) conseguiram bilhete de entrada no parlamento tunisino a que se somaram oito mandatos de candidatos independentes. Tornava-se óbvio que negociar, que conceder, aceder, ouvir e consensualizar seria o único caminho para o sucesso.

O processo na Tunísia esteve longe de ser pacífico. Tensões, alguns golpes políticos, algumas intrigas e imensos protestos marcaram a vida da Tunísia que, contudo, e ao contrário do vizinho Egipto, resistiu ao impulso de golpes de estado para desvirtuar o que o voto decidira. Os islamistas acabaram por se revelar uma força capaz de aceder a consensos e negociações com outras forças políticas. Pelo caminho, em três anos, ficaram quatro Primeiros-Ministros...

Na Tunísia percebeu-se cedo, creio que no Egipto ainda não se percebeu, que o golpe de estado é o caminho certo para descredibilizar o voto democrático, quando o mesmo ainda não faz parte da cultura política dominante. A demissão de Primeiros-Ministros tornou-se assim no "mal menor" numa tentativa de manter o ambiente de frágil consenso conseguido após a eleição de Outubro de 2011.

A nova eleição, três anos depois, para o primeiro parlamento pós-deposição de Ben Ali, mostrou uma vez mais um saudável ambiente pró-democrático. Com uma taxa de participação na casa dos 62%-63%, a Tunísia viu uma série de partidos conquistarem mandatos e, acima de tudo, viu os derrotados aceitarem a derrota e os vencedores abrirem portas a alianças e consensos.

As eleição terão ditado, segundo dados preliminares, o seguinte parlamento: Nidaa Tunis (38,24%) com 83 mandatos; Ennahda (31,33%) com 68 mandatos; União Patriótica Livre (7,83%) com 17 mandatos; Frente Popular (5,25%) com 12 mandatos; Afek Tunis (4,14%) com 9 mandatos; Corrente Democrática (2,30%) com cinco mandatos; Congresso para a República e A Iniciativa (1,84%) ambos com 4 mandatos.

O partido vencedor Nidaa Tunis fala em política de porta aberta e o Ennahda, que liderou os governos no período de transição 2011-2014, deu indicações de que estaria aberto para um governo de unidade nacional. Porque, afinal de contas, islamitas e seculares não têm que ser partes antitéticas mesmo que defendam ideias dissemelhantes.

São estes actos simbólicos que demonstram uma vontade de transformar a democracia numa questão de atitude adoptada pelos actores políticos (democracia como um comportamento se quiserem), que implicará um permanente diálogo construtivo e não impositivo; ao invés da tradicional visão da democracia como um mero sistema eleitoral de imposição de vontade das maiorias... O voto tanto pode democratizar como pode criar subserviência...

A Tunísia mostra também que as revoluções "exportadas" ao estilo copy-paste tendem a funcionar melhor na origem do que na cópia... Já antes, a quarta onda transitológica no espaço pós-soviético o mostrara (teremos dificuldade em aprender? ou ignorou-se o óbvio?)... O sucesso Báltico não foi replicado no Leste Europeu, nem no Cáucaso Sul e muito menos ainda na Ásia Central.

As revoluções podem, de facto, "infectar" os vizinhos com o seu ideário e agitar as suas dinâmicas internas, mas o processo transformativo terá sempre que ser desenhado com atenção às contextualidade locais. Apenas um olhar atento para essas contextualidades nos levará a ter mais Tunísias e menos Egiptos, ou Líbias, ou Sírias...


Thursday, October 23, 2014

Será o Iémen uma nova Líbia?

O Iémen (versão aportuguesada de al-Yaman) tornou-se o estado que hoje conhecemos, no começo da década de 1990; numa época de forte transformação no espaço pós-soviético com reflexos imediatos no espaço do Magrebe e do Médio Oriente. O colapso da URSS impede que se ateste a proposta de Braudel do socialismo-marxista como solução para o Médio Oriente.

Antes da unificação, contudo, o Iémen de hoje compreendia vários projectos políticos díspares. Começando nos finais do século XIX, em 1872 o Império Otomano estabeleceu o distrito do Iémen, que em 1918 se transforma em Reino do Iémen após a implosão do Império Otomano, derrotado na I Guerra Mundial. Em 1962, a dinastia é derrubada e estabelece-se a República Árabe do Iémen. Isto tudo a Norte...

A Sul temos o estabelecimento do Sultanato de Mahra em 1549, após um breve período de dominação portuguesa na zona. Em 1962 estabelece-se a Federação da Arábia do Sul que agrega o sultanato de Aulaqi, a Federação dos Emiratos Arábes do Sul e a Colónia de Aden. Conflitos com o Norte ocorrem em 1972, 1979 e em 1986 o Iémen do Sul mergulha numa guerra civil.

E chegamos assim a 1990. Inspirados pela reunificação do Vietname (1976), pelos fortes rumores, nos finais do anos 1980, de uma reunificação Roménia-Moldova e pela reunificação da Alemanha (1990), a Républica Árabe do Iémen e a Federação da Árabia do Sul tornam-se na República do Iémen unindo o que (ao contrário da Alemanha e do Vietname) nunca antes estivera unido.

A nova República enfrenta várias crises que ameaçam implodir o projecto unionista. Em 1991, a Arábia Saudita e os EUA interferem na política doméstica do novo estado como forma de punição pelo voto "anti-guerra" (no Conselho de Segurança da ONU, no qual o Iémen exerce mandato como membro não-permanente) no decurso da Guerra do Kuwait.

 Em 1992, protestos violentos por causa de escassez de comida ameaçam levar o país a uma guerra civil e em 1993 o governo de unidade nacional dá sinais de poder colapsar a qualquer instante, depois de realizadas as primeiras eleições parlamentares.

Em Fevereiro de 1994, na Jordânia, os representantes políticos do Norte e do Sul chegam a um entendimento, mas isso não é suficiente para travar a guerra civil de Maio-Julho de 1994. É este país, com uma união política frágil, um entendimento macro-social inexistente,e sob constante pressão da vizinha Arábia Saudita, que em 2011 entra na "Estação Árabe" (vulgo, Primavera Árabe).

A revolta popular não é em si um momento de transição política, com uma Unidade Nacional coesa na dianteira e um projecto pós-transição. É antes uma Aliança Negativa anti-Saleh; a ideia era derrubar o Presidente e depois logo se veria... Há medida que os protestos se arrastam a agenda de quem protesta também se alarga, mas a ideia de união para derrubar (o Presidente Saleh) e não para construir (um novo Iémen) subsiste.

Ora derrubado Saleh, que negoceia uma saída menos inglória do que a de Mubarak (Egipto) ou a de Ben Ali (Tunísia) e menos trágica do que a de Gaddafi (Líbia), as várias oposições não têm mais lastro para continuar na Aliança Negativa. E os aliados, que nunca foram amigos, tornam-se inimigos. E a luta pelo poder, quando existe um vazio institucional, generaliza-se.

As últimas semanas, com os actos dos Houthis, apenas confirmam que a unificação do Iémen é um projecto fracassado desde que nasceu. O norte do Iémen, onde pulsam dezenas de vários grupos étnicos e de clãs dissemelhantes, já pugna pela separação (inspirados pela Ucrânia? ou pela Escócia?) e o sul do Iémen parece estar na iminência de mais um conflito interno.

A implosão do Iémen surge como surpresa menor, se nos lembrarmos que na Líbia pós-Gaddafi o clima de guerra civil já levou a vários pronunciamentos autonomistas, logo silenciados, e tem impossibilitado a pacificação do país; quanto mais a consolidação de uma transição que resultou num retrocesso estrondoso.

A instabilidade do Iémen, mesmo que não leve a uma cisão entre Norte e Sul, prova, tal como a Ucrânia e a Líbia e a Geórgia, que as transições focadas apenas nas dimensões político-institucionais e económicas tenderão sempre a falhar. A questão étnico-identitária e o subjacente pilar cultural deveriam ser questõs centrais, prioritárias, nas agendas destes espaços sociopolíticos.

O Consenso de Washington falhou, porque desenvolvimento económico não é condição sine qua non para democratização e, ao mesmo tempo, a construção de instituições proto-democráticas tenderá a ser vazia (e por isso fracassada!) sem um pano de fundo cultural que se adapte a estas novas instituições, respeitando as várias identidades psicossociais que partilham o mesmo território.

O Iémen, mesmo que não imploda formalmente, já é uma nova Líbia porque ruiu na capacidade de construir consensos alargados e deu lastro a um adensar de inimizades entre grupos que partilham um espaço comum, mas querem domínio exclusivo do mesmo. Ora se todos querem tudo sem abrir a porta a mutualidade e concessões; tudo só pode correr mal...


Thursday, October 16, 2014

Uma Turquia que não se move... muito...

A Turquia tem estado no centro de um turbilhão de comentários jocosos, críticas e "apontar" de dedo por manter uma postura de passividade perante o problema do Estado Islâmico no Iraque e na Síria (EIIS, segundo alguma imprensa especializada). Ainda hoje o website RIA Novosti publicava uma notícia onde dizia "Turquia continua a ponderar participação na Aliança contra o EIIS".

E ontem a BBC News publicara algo semelhante. E anteontem o Guardian. E antes de anteontem o Le Monde. A Turquia parece não reagir ao problema que tem na sua fronteira, porque a Turquia faz fronteira quer com a Síria quer com o Iraque, já que o estabelecimento do EIIS daria à Turquia um novo vizinho truculento.

Os EUA, pela mão do Presidente laureado com o Nobel da Paz em 2009, lançaram uma ofensiva contra o EIIS onde contam com a ajuda dos aliados tradicionais como sejam o Reino Unido, a Austrália, o Canadá, a Nova Zelândia e com a ajuda de estados do Médio Oriente como sejam o Bahrein, Kuwait, a Árabia Saudita, o Qatar, os Emirados Arabes Unidos e o Líbano.

A Turquia foi convidada para participar hoje num encontro de Chefes Militares promovido por Washington onde Ankara será pressionada, uma vez mais, a enviar tropas suas para o terreno, para combater os avanços do EIIS. A questão da utilização, pelos EUA e demais aliados, da base aérea de Incirlik também deve voltar à mesa das negociações.

Mas porque não se move a Turquia? As razões para o aparente imobilismo de Ankara são várias, mas a mais premente é a doutrina de Política Externa adoptada por Erdoğan (actual Presidente), mas desenvolvida por Davutoğlu (actual Primeiro-Ministro), que se resume numa frase: "zero problemas com os vizinhos"; ou em duas palavras: "isolacionismo precioso".

A ideia é relativamente simples, a Turquia não se deve envolver em problemas com os vizinhos (mezo), porque a Turquia não é um poder regional mas um poder central (macro). Assim a Turquia não deve destabilizar a sua longa fronteira, porque a área de actuação "natural" da Turquia vai dos Balcãs, à Ásia Central, com passagem obrigatória no Cáucaso, e não apenas no Médio Oriente.

A não destabilização da fronteira não implica total imobilismo, mas antes uma resolução bilateral das questões diplomáticas mais tensas sem envolvimento de outras partes. Ora a participação da Turquia numa aliança, para resolver um problema no Iraque e na Síria, deita por terra a visão de uma Turquia capaz de estabilizar a sua fronteira por via da acção diplomática bilateral.

É certo que o EIIS não parece ser um problema que possa ser resolvido por acção bilateral e por recurso ao diálogo, mas é igualmente certo que o mesma EIIS ainda não atacou directa e flagrantemente solo turco pelo que a doutrina do "isolacionismo precioso" dificulta uma acção mais estruturada de Ankara. Na incerteza de uma estratégia de win-win, o isolacionismo permite um glorioso (mas falacioso) draw.

Se a ideia é "zero problemas com os vizinhos" porque se vai meter a Turquia com o maior problema da vizinhança? Até porque, lembrarão hojes os representantes da Turquia na reunião convocada por Washington, a Turquia já autorizou o treino de forças paramilitares das Oposições na Síria em solo turco. Logo, a Turquia não pode ser conotada como "não se movendo"... Ela move-se... mas devagarinho.

Um outro problema para a Turquia será a colaboração com os Estados Árabes. Se é certo que a Turquia se considera como um "poder natural" no Médio Oriente, é igualmente certo que existe uma tensão, para não dizer preconceito, entre turcos e árabes. Os primeiros acusam os segundos de serem bárbaros semi-desenvolvidos; os segundos atacam os primeiros por serem demasiados ocidentais e "muçulmanos de segunda".

Um outro factor tem que ser lembrado. Uma grande parte das Altas Patentes e Chefias Militares da Turquia encontra-se detida. A sucessão alucinante de golpes de Estado nos anos 1980-1990 levou o AKP a desenvolver um medo, por vezes quase paranóico, para com as chefias militares. Cada micro-rumor de putativo golpe de Estado foi sucedido de prisões de altos quadros militares. Como pode a Turquia pegar em armas, se não tem quem dirija as tropas?

A estas questões junta-se outra: a opinião pública. Por um lado o mundo assistiu aos violentos protestos, com quase quatro dezenas de mortos, que aconteceram nas regiões ocidentais do Mar Egeu e do Mar de Marmara que gravitam em torno de Istambul (terceira capital do Império Otomano), de Izmir (bastião da oposição) e de Bursa (centro industrial e segunda capital do Império Otomano). Aqui pede-se uma resposta musculada de Ankara.

Mas, por outro lado, as regiões da Anatólia Central e da Anatólia de Leste, do Mar Negro e do Mar Mediterrâneo não entendem a necessidade da Turquia "pegar em armas" tendo em conta que a EIIS não atacou a Turquia. E, lembram as opiniões públicas favoráveis ao AKP, a Turquia já faz a sua parte ao receber quase dois milhões de refugiados. Quantos refugiados recebeu a Europa no seu todo? Cerca de 4%, isto é menos de 125.000!

Um último factor a ter em conta: a questão curda. A Turquia teme que o final do conflito com a EIIS abra espaço a um movimento internacional de apoio à criação do Curdistão. E tendo em conta que Constitucionalmente a secessão do Curdistão iraquiano é simples e que a secessão do Curdistão sírio tem sido preparada com sucessivos aumentos de poder autonómico, não é de estranhar o medo de Ankara em agir de modo mais celére.

Ankara não esqueceu que o apoio norte-americano acelerou o reconhecimento do Kosovo, que a Turquia também reconheceu, e teme agora o reverso da medalha. Ora como se pode mover mais a Turquia, que já se moveu ao apoiar o treino das forças paramilitares da Síria e ao receber um influxo gigantesco de refugiados, num quadro de bloqueio ideológico; falta de liderança militar; desconfiança quanto aos parceiros; falta de apoio da opinião pública e medo de secessionismos à posteriori?

Tuesday, October 14, 2014

A Bósnia-Herzegovina e o fracasso do eleitoralismo...

A Bósnia-Herzegovina foi a votos do domingo, 12 de Outubro. Foi a eleições o país da Europa que existe sem uma Constituição (propriamente dita) e que alicerça o seu funcionamento nos Acordos de Dayton que eram para ter sido revistos e transformados em texto Constitucional em 2005. O país da Europa que tem o sistema de governo mais complexo e menos eficaz do espaço europeu.

A Bósnia-Herzegovina vive num permanente estado de adiamento, que afasta cada vez mais os eleitores do jogo político. Nestas eleições a participação ficou-se pelos 54%, quando em 2010 chegara aos 56%. Curiosamente, num país que não tem sequer quatro milhões de habitantes foram a votos quase 7500 candidatos, para 518 cargos disponíveis. O que foi a votos no domingo passado?

1.) A Presidência tripartida (dividida entre em um Bósnio, um Croata e um Sérvio); 2.) a Câmara dos Representantes da Federação da Bósnia-Herzegovina; 3.) A Câmara dos Representantes da Bósnia-Herzegovina (não, o Fidalgo não se está a repetir... São mesmo estruturas diferentes); 4.) a Presidência e Vice-Presidência da Républica Srpska; 5.) o Parlamento da Républica Srpska; 6.) as Assembleias dos dez Cantões da Federação da Bósnia-Herzegovina.

Os resultados desta verdadeira maratona eleitoral ainda não são, a esta hora, quase 48 horas depois de fechadas as urnas, totalmente conhecidos. Só para dar um exemplo, na Presidência tripartida já se conhecem os Presidentes dos Croatas-Bósnios e dos Bósnios-Bósnios, mas o dos Sérvios-Bósnios ainda está por confirmar porque a diferença de votos é mínima.

O que as eleições na Bósnia-Herzegovina provam, uma vez mais, é que ter eleições não traz por si só democracia, nem faz funcionar o sistema político, por muito que certas sumidades ateimem em não perceber este facto. A implementação e consolidação da democracia depende de uma multiplicidade de factores e não apenas da existência de sufrágios regulares...

O sufrágio, de resto, foi alvo de várias críticas por parte de eleitores, jornalistas e até alguns observadores. A União Europeia, sempre mais aguerrida quando é para criticar não-membros, lembrou a Bósnia-Herzegovina que a não implementação das reformas pré-acordadas atrasará o processo de adesão à União Europeia. Como se isso fosse a prioridade, pensa o Fidalgo...

O que estas eleições demonstram é que o projecto "Bósnia-Herzegovina", urdido pelos Acordos de Dayton no final da Guerra dos Balcãs dos anos 1990, ou sofre uma transformação radical, ou corre o risco de implodir sobre si mesmo. Nenhum sistema sobrevive permanentemente num estado de completo imobilismo inoperante.

O imobolismo político tem causado feridas sociais graves, num país onde o desemprego ronda os 45% (números oficiais, que alguns analistas dizem ser mais altos). Essas feridas sociais justificam a vitória dos vários partidos nacionalistas (fossem Bósnios, Croatas e Sérvios) nos vários sufrágios que aconteceram em simultâneo.

Essas feridas sociais, causadas pelo imobilismo de um sistema inoperante e a precisar de revisão vai para uma década, levaram aos protestos massivos de Fevereiro de 2014. E não é de excluir uma radicalização da guetização da população da Bósnia-Herzegovina; num país onde a pertença étnica é marca dominante e onde o diálogo para a construção de um Nós partilhado pura e simplesmente não existe.

A Bósnia-Herzegovina é assim, tem em crer o Fidalgo, um barril de pólvora "re-enchido". Porque há 100 anos atrás, na mesma Bósnia, um assassinato despoletou uma Guerra Mundial. Não acredita o Fidalgo que uma nova Guerra Mundial esteja na calha, mas um conflito regional nos Balcãs não é de excluir... Basta saber ler as tensões... Basta manter o imobilismo que fere... Basta esperar...


Friday, October 03, 2014

Já não preciso fugir...

Deitei-me com receio... O dia seguinte (hoje, portanto!) traria o princípio do Kurban Bayram (Festival dos Sacrifícios). O feriado que se prolonga por vários dias gravita em torno de uma única ideia: família. É este o tempo de visitar familiares longínquos, de passar tempo com familiares próximos e de adensar laços, memórias e vivências familiares...

O feriado é, para um emigrado a solo, uma crueldade inocente. Cruel, pois como se festeja a família quando a mesma está longe? Demasiado longe? Mas inocente, porque enquanto todos fazem planos do que farão com as suas famílias não percebem o sorriso ensaiado, sem emoção, que desenho no rosto. O feriado não é meu mas que importa? Terei que o "viver" na mesma.

Deito-me então com receio... Ainda me lembro de como o ano passado, recém chegado a uma vida nova, num país novo, num continente novo, me custaram a passar os cinco dias do Kurban Bayram. Como se festeja o amor familiar, quando a família se resume a memórias, acopladas a sensações que despoletam sorrisos e lágrimas e, quem sabe, a uma ou outra conversa pelo skype?

Antes de me deitar entrego-me a uma tarefa frenética em busca de uma viagem... Quero viajar para algum lugar... Olho por hotéis em Izmir, em Bursa, em Antália e até em Istambul. Procuro horários e preços de voos, autocarros e comboios. Quero viajar para algum lugar... Enquanto as famílias se reencontram eu quero perder-me, deixar-me ir. Quero viajar para algum lugar...

Deito-me com receio e acordo a sorrir. Durante a noite recordo como, o ano passado, ao terceiro dia do Kurban Bayram, a campainha cá de casa soou. Teria o meu colega de casa vindo mais cedo de Samsun? Estranhei... Abri a porta e vi o rosto sorridente de um jovem que conhecera uma semana antes.

O jovem, estudante de música em Gaziantep (cidade próxima da fronteira com a Síria, vinha em minha busca. Sabia que eu estava sozinho e queria resgatar-me. E apesar de mal falar inglês e eu falar apenas, na altura, dez palavras de turco convidou-me a juntar-me à família dele. Convidou-me a almoçar com eles e a ouvi-lo tocar bağlama.

Enquanto preparo o café, que me acorda todas as manhãs, volto a sorrir. E lembro como, o ano passado, ao quarto dia de Kurban Bayram, o dono do estabelecimento onde costumo jantar tentou perguntar-me se estava bem e cozinhou para mim um prato que nem vinha na ementa. E recusou-se a receber dinheiro pelo esforço. Um presente de quem estivera com a sua família e lamentava quem não podia ter estado...

Olho para o computador; para as buscas de hotéis, de voos, de autocarros, de comboios e até de taxis. Para os vários pacotes que anunciam viagens a preços imperdíveis e fecho as janelas uma a uma. Eu não quero, não queria, viajar; queria fugir. Fugir da celebração da família, quando a família está longe. Fugir do feriado que não é meu, mas que tenho que "viver" na mesma. Fugir...

E eu que acredito que a família é mais do que os laços de sangue, que contam muito mas não contam tudo, percebo como mesmo em Portugal estaria semi-orfão. Como a minha família, de sangue e de amizade, se tem espalhado desde a Suiça, ao Congo; da Sérvia, à China; da Bélgica, a Moçambique; do Reino Unido, a Angola; da França, à India.

E percebo que não preciso fugir. Porque mesmo aqui, no meu cantinho na Anatólia, comecei já a construir uma família. Criei já laços de amizade e lealdade que, não substituindo a família que ficou longe, aconchegam o coração e reconfortam a alma. Fugir é para quem está só e eu não estou só. Percebo como não preciso de fugir porque a família não se perdeu, cresceu; a família ficou longe, mas agora também está perto.

Ainda não sei se amanhã fico por aqui, ou se viajarei na mesma. É uma doce incógnita sobre a qual prefiro não me delongar. Ainda não se se amanhã descanso, se me devoto a trabalhar, ou se simplesmente me deixo ir por aí. Mas sei que amanhã não fujo. Sei que não preciso fugir... porque apesar da família, de sangue, estar longe; a nova família, de amizade e lealdade, acolhe-me. E, com uma lágrima a deslizar pelo rosto, sorrio...


Tuesday, September 30, 2014

Catalunha desafia, mas Madrid não quer ir a jogo!

27 de Setembro! A Generalidade da Catalunha publica o decreto que oficializa a chamada do referendo independentista, apesar de alguns analistas teram avançado com a ideia de que a derrota do SIM na Escócia refrearia a campanha na Catalunha. Nada mais errado... Aliás a derrota do SIM não levou a um esfriar das pulsões autonomistas e separatistas por essa Europa fora!

28 de Setembro! As discussões sobre o referendo catalão são ensombradas pelo extraordinário medo de Madrid em autorizar a consulta popular. A opinião de muitos analistas, e de dois catalães com quem o Fidalgo falou em Rhodes, são de que o referendo será um não-acontecimento no que depender do governo central.

29 de Setembro! O Tribunal Constitucional de Espanha trava o referendo numa votação com unanimidade. E com isso, sem perceberem, dão um novo ímpeto aos independentistas catalães. O Tribunal Constitucional trava a consulta sobre a continuidade da Catalunha no seio de Espanha, perdendo um dos dois trunfos que Londres usou com meticulosa inteligência.

30 de Setembro! A Generalidade da Catalunha promete responder ao desafio posto pelo veto do Constitucional. A campanha institucional é discretamente retirada, mas a convicção de que o referendo de 9 de Novembro irá mesmo acontecer permanece alta pelos lados da Catalunha. Os próximos dias prometem ser agitados para juristas e juízes.

O que o referendo da independência da Catalunha revela, sem grandes surpresas (infelizmente), é o medo de Madrid em aprofundar a consolidação da democracia. Porque isto da democracia ser apenas usada no momento da eleição de representantes políticos foi, como diz o povo, "chão que já deu uvas".

É preciso adensar a democracia e os referendos são uma boa forma de o fazer. Desde que com parcimónia, como mostra a Suíça... Porque nestas coisas tudo o que é de mais, acaba por funcionar de menos. O referendo terá que ser acoplado a uma série de outros instrumentos para se consolidar e aprofundar a democracia em Espanha, mas, para isso acontecer, o referendo não pode ser temido...

A convocatória do referendo Catalão, do dia 9 de Novembro, tem agora caminho aberto a arrepiar uma certa Europa que pugna, apenas de vez em quando, pela "integridade territorial" e por um monolitismo político que não se coaduna com a complexidade vibrante hodierna. Bélgica, França, Itália e Moldova poderão ser as próximas a enfrentar tais referendos que desafiam a continuidade das actuais fronteiras.

Madrid a ir a jogo partirá em desvantagem, quando comparada com Londres no "desafio escocês". Londres autorizou o referendo, largamente negociado com Edimburgo. E Londres soube prometer mais autonomia para evitar cisões. Madrid bloqueou, e com celeridade, o referendo e parece indisposta a qualquer janela de negociação para reforço de poderes.

Ainda é cedo para saber se o referendo será desbloqueado, com o sim de Madrid; se será proíbido e atirado para as calendas; ou será realizado de modo unilateral. Certo é que o referendo Catalão poderá transformar-se no tsunami do qual a Europa da União achava ter escapado.


Tuesday, September 23, 2014

Afeganistão: salvação ou adiamento?

E o Afeganistão lá saiu do impasse político em que mergulhara desde meados de Junho. Isto porque ainda não eram conhecidos os resultados da segunda ronda e já Ashraf Ghani (que fora Ministro das Finanças entre Junho de 2002 e Dezembro de 2004) e Abdullah Abdullah (antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros entre Outubro de 2001 e Abril de 2005) clamavam vitória.

Os dois candidatos, incapazes de reunir uma maioria de 50%+1 voto na primeira ronda, pareciam incapazes de aceitar os resultados da segunda ronda... Um desfile de acusações, de suspeições, de interdições judiciais, paralisou a vida política em Kabul. Porque quem acha que o Presidente e o governo do Afeganistão controla, de facto, muito mais do que Kabul conhece pouco da realidade local...

Após um momento de tensão entre os dois candidatos, que parecia adivinhar um cenário estilo Costa do Marfim em 2010, a ONU veio para o terreno e conseguiu-se um acordo. Ashraf Ghani será Presidente do Afeganistão e Abdullah Abdullah subirá a Primeiro-Ministro com poderes reforçados. Nas eleições em democracia a derrota faz parte do jogo; nas eleições no Afeganistão a coisa é diferente...

Com a Síria e o Iraque sob ataque das forças do Estado Islâmico, com a Líbia na eminência do colapso total, com o Yemen em estado de tensão (com um novo Acordo assinado recentemente entre rebeldes Houti e governo), com os Curdos a subirem de tom o clamor independentista, com o Egipto e o Irão em momento incerto, o mundo "ocidental" não podia deixar fracassar o Afeganistão.

Mas o acordo conseguido abre portas a uma série de cenários complicados. Um acordo de partilha de poder, como aquele que foi desenhado, implica uma cultura democrática madura e não um esquisso institucional de tipo pastiche importado por quem parece ignorar, ou perceber pouco, uma série de contextualidades locais. E no caso do Afeganistão, as contextualidades locais são vitais para serenar a arena política.

O acordo pode abrir caminho a uma situação de tensão como a que se viveu na Geórgia pós-eleições parlamentares de 2012, que obrigaram a uma coabitação tensa entre Mikhail Saakhasvili (na altura Presidente) e Bidzina Ivanishvili (que passou a ser Primeiro-Ministro) que originou, entre outros episódios, a "guerra das amnistias". E a Geórgia de hoje está longe de estar mais pacífica...

O acordo pode abrir caminho, por outro lado, a episódios como a Crise Constitucional na Roménia em 2012 ou ainda iniciar um período de protestos delongados, com as duas facções a maquinarem os seus apoiantes, transformando o Afeganistão numa nova Bulgária que está sob protesto desde o começo de 2013.

O acordo, apontado como uma vitória da diplomacia, que de facto o foi, é contudo prova da derrota da implementação de uma democracia de tipo pastiche, que não respeita os fluxos do poder tradicional e as instituições, informais e semi-formais, que, de facto, controlam o poder no Afeganistão.

O acordo que parece salvar o Afeganistão pode, na verdade, ser apenas o adiamento de uma nova crise... E de crises o mundo, por agora, está servido! Em vez de se aplaudir o acordo, que serve de tampão, deveria sim pensar-se em redesenhar o esquisso institucional e constitucional do Afeganistão adoptando-o à realidade local.

Para começo, sugere o Fidalgo, dar mais poderes ao Loya Jirga (Grande Assembleia) e acelerar o envolvimento dos líderes tribais e dos clãs na governação local. O uso de eleições não deve ser descartado, mas deve ser reforçado com uma transformação do sistema de ensino voltado para questões de Cidadania e Responsabilidade Política. E a prazo repensar se o país não devia optar pelo Parlamentarismo, em vez deste quasi-Semi-Presidencialismo.

Não precisamos inventar nada, quando um país como o Afeganistão já criou tanto... Não precisamos importar modelos que obviamente não funcionarão, porque as contextualidades locais são outras. Não precisamos ignorar o óbvio, porque esse óbvio tenderá a morder-nos o tornozelo... Não precisamos errar quando acertar é possível! Para quê adiar, fingindo salvar, se salvar é o objectivo?


Friday, September 19, 2014

Não se deu o divórcio, mas ainda faltam as partilhas...

A Escócia rejeitou a independência... A notícia faz manchete nos jornais e, ao que parece, a Europa suspira de alívio. Que isto de ter novos Estados assusta muita gente... A Escócia terá rejeitado a ideia de uma cisão com o Reino Unido, com 55% a votarem pela manutenção da União e 45% a quererem saltar fora.

A noite do referendo teve uma atmosfera Eurovisiva, com os media por todo o lado, com votação em contagem decrescente, com "cantorias" a que chamaram de campanha e com a excitação da votação que chegava de 32 localidades. O ambiente perfeito para uma noite longa, sem dormir, que culminou na antecipada vitória do Não (os pró-Unionistas).

A noite de resto não confirma, mas também não desmente, o post anterior do Fidalgo. Afinal houve vitórias para todos. O Não ganhou nos resultados globais e na capital, Edimmburgo, conseguiu mesmo um expressivo 61,10%. Já o Sim foi ganhar em Glasgow e em Dundee superou a barreira dos 58%. A luta mais renhida foi em Inverclyde com, 49,9% pelo Sim e 50,1% pelo Não.

O referendo confirma também uma coisa: algo tinha que mudar na Escócia. A Escócia mantém-se no Reino Unido mas apenas porque Londres sacrificou alguns dos seus poderes, em prol de uma autonomia alargada. Cameron, que vence o desafio separatista, terá agora que vencer o desafio parlamentar ao estabelecer um calendário rápido e eficaz de transferência de poderes de Londres para Edimburgo.

O referendo mostra o apetite pela mudança com quase 85% do electorado a ir a votos. É certo que tudo parece que fica na mesma, mas não fica... E se Madrid, Roma e Bruxelas suspiraram por momentos de alívio foi apenas por momento. A Catalunha e a Flandres podem agora usar o precedente escocês para pressionar os governos centrais a fazerem iniciativas semelhantes... E não é certo que ganhe sempre o Não!

O referendo mostra também que não existem razões para se temer a democracia. A derrota do Sim não trouxe tumultos e desacatos, mas apenas uma aceitação consternada de que existiram mudanças menos profundas do que as desejadas. Mas a tónica do referendo é essa: no final nada ficará como dantes e Edimburgo torna-se mais autónoma.

O referendo não preconizou o divórcio de Edimburgo com Londres mas abriu a porta a outros divórcios mais penosos... Porque a ideia de Madrid anular a autonomia para prevenir o referendo na Catalunha, ou a ilegalização de referendos, como fez recentemente Roma, a uma iniciativa em Veneza, são caminho certo para o adensar de animosidades; para a crispação de posições e para um visão dicotómica de tudo ou nada...

É verdade que o referendo de ontem não preconizou o divórcio entre Edimburgo e Londres, mas ainda faltam as partilhas. A questão referendária está fechada, mas esta estória está longe de estar concluída. E o Fidalgo estará atento aos próximos capítulos. Londres tem a bola do seu lado... por agora...


Wednesday, September 17, 2014

Se uma independência incomoda muita gente...

É de propósito que o Fidalgo opta por escrever hoje, e não amanhã, este post sobre o referendo que poderá dar a independência à Escócia. Escrevo hoje porque a imprevisibilidade como que apimenta o exercício de projecção do que poderá acontecer. Fica por isso o aviso: amanhã tudo isto pode cumprir-se, ou tudo isto pode esborar-se num amontoado de nadas!

Londres e Edimburgo negociaram o referendo com pouca fé no resultado do mesmo. Para Cameron, que se baseava nas sondagens e estudos de opinião de então, a independência escocesa era uma miragem distante; enquanto que para Salmond o referendo era visto como uma forma eficaz de pressionar Londres a ceder mais autonomia.

A um dia do referendo tudo mudou. O "Sim" (dos independentistas) e o "Não" (dos unionistas) será decidido pelos eleitores na casa dos "Talvez". As sondagens mostraram a campanha pró-independência a ganhar fulgor inesperado e de súbito o que era uma jogada política, passou a ser um verdadeiro projecto político.

Londres acusou o medo e já veio prometer mais autonomia e avisar que "o divórcio será sempre penoso"; porque isto da democracia por referendo é muito lindo, desde que o resultado seja o que se queria... Isabel II, que continuará a ser Chefe de Estado da Escócia (caso esta se torne independente), veio apenas pedir aos Escoceses que pensem com cuidado na hora do voto.

Edimburgo tem tentado puxar a campanha para a necessidade de proteger os Escoceses em áreas como a saúde, educação e economia. Edimburgo lançou mesmo o "Artigo Branco", espécie de carta de intenções mesclada com príncipios proto-constitucionais, onde explica o caminho a trilhar no pós-independência.

Mais curioso do que o jogo entre as duas capitais, tem sido a reacção internacional. Na Europa ficou lançado o pânico com Durão Barroso, agora ex-Presidente da Comissão Europeia, a dizer que a Escócia independente teria que se re-candidatar à União Europeia. De Espanha, abraços com o tumulto Catalão, vieram vozes de preocupação com o "precedente perigoso".

A Itália, que teve um referendo virtual (não validado) para a reconstituição da República Sereníssima de Veneza e que tem no Norte um foco de permanente instabilidade, também pede cautela. A OTAN (ou NATO) avisou, pela voz do futuro ex-Secretário Geral (Rasmussen), que a Escócia seria re-admitida apenas se todos os membros estiverem de acordo.

O "Sim" que despolete a independência da Escócia irá originar um período de tensão ao nível das Organizações Internacionais e irá, ao mesmo tempo, galvanizar outros movimentos independentistas e autonomistas que começam a despertar um pouco por toda a Europa. Curiosamente, o Fidalgo falou sobre isto na Universidade da Beira Interior em Novembro de 2012... E o guião parece não se ter desviado muito...

O "Sim" pode também levar a Escócia a transformar-se num Kosovo 2.0 e levará a uma nova guerra de acusações... Moscovo pode apontar o dedo a um Ocidente que selecciona quem pode e não pode ser independente e o Sahara Ocidental pode desistir do processo diplomático. Ou, mais preocupante, pode incendiar o Nagorno-Karabakh onde a tensão tem subido de tom nos últimos meses.

O "Sim" a uma independência da Escócia irá transformar as relações diplomáticas, podendo ser a porta de abertura para uma nova Primavera dos Povos ao estilo 1848... Se há quem acha que o século XXI é feito de super-potências, o Fidalgo acha que serão as Identidades e os espaços de partilha psicoidentitária que dominarão este século e levarão ao surgimento de novos estados...

A independência da Escócia poderá ser apenas a ponta de um icebergue que irá transformar fronteiras mostrando a volatilidade das mesmas. E se o "Não" ganhar? Se o "Não" ganhar, nada ficará como estava porque o precedente está lançado e a vizinha Catalunha vem em seguida...


Monday, September 15, 2014

Saudades de ter saudades

Agosto foi mês de pausa para o Fidalgo. Não que o mundo não tenha provido notícias, com o adensar da guerra civil na Ucrânia, com o avanço do Estado Islâmico do Iraque e da Síria, com as campanhas pró-independência na Escócia e na Catalunha... Temas não faltaram, mas o Fidalgo achou por bem fazer uma pausa. A sua pausa!

E regressa hoje, depois de ontem ter regressado a Kırıkkale, e de no dia anterior ter regressado à Turquia. Uma cadeia de regressos, que fez também regressar aquela que nunca partiu: a Saudade. E enquanto desempoeiro o estilo e a prosa, vou percebendo como tinha Saudades de ter Saudades. E, sem pensar muito, sorrio.

O mês de Julho foi intenso, com conferências e reuniões de trabalho em Nantes, Novi Sad, Belgrado e Lisboa. O mesmo, antes de encerrar, trouxe o final do ramadão e do ciclo de trinta dias de jejum que me propus, e que consegui, fazer; trouxe ainda o "casamento dos anos": 28 a 28. E por isso, inebriado pela intensidade dos dias, a Saudade tornou-se memória espectral de um algo que sentira...

Agosto trouxe amizades e rostos que conheço. Mas trouxe também trabalho, em catadupa, que isto da vida intelectual tem muito mais de isolamento do que de glamour. As viagens a Conferências, Seminários, Fóruns, Cimeiras e afins são o final da estrada, mas para lá chegar é preciso caminhar a estrada. Agosto trouxe Portugalidade, num país com Verão a meio-gás!

As Saudades estavam lá. A dormitar... Iam espreitando quando podiam. Dei-me por mim, mais do que uma vez, a pensar com sorridente nostalgia no que deixara para trás, em Kırıkkale, em Ankara, em Konya para seguir para a frente; para Abrantes e para Lisboa. As saudades atacaram quando pensava no Porto, em Évora, em Albufeira, em Aveiro e em Estarreja mas com estocadas suaves.

E o Tempo, que nunca domaremos por muito refinado que seja o relógio, avançou. Agosto findou-se e o vislumbre da Turquia, de voltar ao que ficara para trás, deixando para trás onde agora ficara, deu ímpeto às saudades. Fui fazendo as malas sem pressa, como se isso atrasasse o Tempo. Manias fúteis de quem sabe que o Tempo não se atrasa.

Fui organizando o novo ano lectivo, com a paixão de quem ama o que faz, mas com a vagareza de quem quer embalar as Horas e encantar os Segundos, nem que fosse para ganhar dois Minutos... Mas o Tempo seguiu imperturbável e eu segui com ele. Não tinha mais a fazer... E Abrantes ficou para trás, Lisboa seguiu-se-lhe e cheguei a Kırıkkale, que antes também ficara para trás.

E quando o Fidalgo regressa, depois de ter ficado para trás, percebo que tinha saudades de ter Saudades. Porque elas enchem o coração, ocupando o espaço que seria da Tristeza; porque elas, as Saudades, dão certezas de Futuro, recorrendo ao Passado, para superar o Presente. São dolorosas, mas carinhosas. E por isso sim, tinha saudades de ter Saudades.

É sina de qualquer português ter saudades? Sim, e ainda bem que assim é. Porque quando deixamos de as combater, passamos a entendê-las. As lágrimas continuam a rolar pelo rosto quando ouvimos a voz de quem nos ama; o aperto do coração não pássa ao ver aquela foto, daquela pessoa; mas as Saudades sussurram promessas de um amanhã, igual ao ontem desde que se supere o hoje.


Monday, July 28, 2014

O fim da jornada, ou um novo começo...

A 27 de Junho decidi fazer o jejum do Ramadão, mais por solidariedade e por curiosidade cultural do que por qualquer outra razão. Decidi cumprir os preceitos do jejum do Ramadão, que implicam total abstinência de água, comida, tabaco, sexo, por um ciclo de vinte e quatro horas para entender melhor mas não completamente porque jejuam os muçulmanos.

E ao final do primeiro dia, complicado pelas privações e pelo lento desfiar das horas, decidi fazer mais um dia. E aos poucos o que era um desafio pontual, tornou-se numa maratona em que o corredor não tem que se mover para chegar à meta. Uma maratona em que o importante é não-fazer; uma maratona em que correr não leva a lado nenhum.

E aos poucos o que era um desafio, um mero espreitar e sentir a cultura islâmica, passou a ser parte de mim. Ao jejum adicionei o diálogo comigo mesmo, com a minha alma, com os meus Egos (que isso de ter só um Ego parece-me pouco!). Ao jejum adicionei o diálogo com o Divino, não lhe dando um nome, porque o Divino tem vários... e nem todos de tónica masculina...

O jejum, a privação de comer e beber, trouxe alimento espiritual. Enquanto esperava pelo iftar fui-me alimentando de palavras, de sonhos, de ideias, de pensamentos. Fui-me alimentando de mundo, porque há muito que tinha fome dele... Mesmo sem sentir. O jejum mostrou-me como nos deixamos inebriar pelo acessório, pelo anexo, pelo supérfulo...

Não foi preciso jejuar para dar valor à comida e a tudo o resto, mas só jejuando percebi o total valor de tudo o que temos com facilidade. Do mundo priveligiado em que nasci e no qual, apesar de todos os precalços, podemos viver e não apenas sobreviver. O jejum do ramadão tornou-se assim não apenas numa experiência cultura, mas numa verdadeira escola em que o Mestre e o Aprendente se fundiram!

E ontem à noite terminou tudo! Conheci um egípcio que, pela sua fé, passava pelas mesmas provações que eu passara, por querer apenas conhecer mais. Um egípcio que, com um sorriso solar, fez questão de partilhar o seu iftar comigo. Nada de muito luxuoso, duas sandes de queijo, um sumo e duas peças de fruta. Partilhámos! E a jornada findou...

E hoje que se celebra o meu nascimento sinto que o mais importante é aplaudir esta jornada. No ano em que caso os anos, renovei-me ao alimentar-me de mundo quando tudo o mais estava auto-proíbido. Curioso como o ramadão, este ano, termina na noite em que se começam a celebrar os meus 28 anos, a 28 de Julho... Curioso como as coisas fazem mais sentido, quando não procuramos forçá-lo.

Foram trinta dias que ainda não compreendo; trinta passinhos que dei sem saber para onde; trinta ciclos que completei sem razão, para além da vontade, do querer. Não sei se repetirei a experiência para o ano, não é importante, mas sei que este ano fiz o jejum do ramadão e sei que com o mesmo o Tiago dos 28 anos é bem diferente do que tinha 27 anos...