Monday, October 24, 2016

De como medir progressos sem contar os segundos...

Tornou-se rotina. Dia sim, dia não calço as sapatilhas, visto as calças desportivas e escolho uma das t-shirts oferecidas pela Inês para o propósito em causa. Coloco os auriculares e escolho a pasta "Running" e lá saio para a rua. Começo sempre com uma pequena caminhada pela colónia onde resido e depois lá me lanço na corrida.

Corro. Pausa. Ando. Corro de novo. Nova pausa. Nova caminhada. Um ciclo que se repete, agora, quatro vezes e que me permite, agora, correr mais de sete minutos, quando em meados de Agosto nem minuto e meio fazia. Não escondo o orgulho que sinto do progresso feito. E assumo que por vezes corro apenas porque penso nisso: como tenho progredido.

Desde que comecei a minha rotina que os guardas, que asseguram a tranquilidade e segurança da colónia, se têm mostrado curiosos. Assumo que deva ser curioso, se não mesmo engraçado, ver um académico estrangeiro a arfar no final da sua corrida; deve ter a sua piada ver um doutor a escorrer suor pelo rosto e com os óculos, por vezes, embaciados.

Eles, os guardas que nos guardam na colónia, refastelam-se nas cadeiras espalhadas no exterior, algumas com aspecto de virem da era colonial, enquanto eu me "torturo" a correr voltinhas em redor da residência ao som de música ora inglesa, ora portuguesa, ora russa, ora espanhola, ora turca, ora francesa e, de quando em vez, até música paquistanesa.

Confesso que ao início tal visão me causava algum desconforto, mas aos poucos notei que não havia no olhar dos guardas jocosidade mas antes curiosidade. Confesso que ao início apetecia-me dizer-lhes que eles, com estômagos a crescer de semana para semana, deviam andar a correr, mas noto agora que não o fazem porque não têm porque o fazer. Porque se cansariam se recebem o mesmo sentadinhos na cadeira almofadada?

E vou correndo. Deixo sempre que a música me preencha os sentidos para não pensar nestas coisas. O que importa é cumprir as metas auto-impostas. E deixar que o resto seja o resto. E lá vou correndo e parando. E no dia seguinte fico pelo quarto, com o número nove gravado na porta. E no dia depois do dia seguinte volto a correr.

Hoje numa dessas pausas, na terceira de quatro que fiz, a rotina quebrou-se. Quando parei, arfando e transpirando em bica, o guarda que vigia as traseiras da residência levantou-se, fez um respeitoso mas atabalhoado sinal de continência (filho de militar sabe destas coisas!) e apontou para a cadeira dele. Ou para as cadeiras: duas! Iguais. Uma para ele e uma para mim. Acedi ao convite, que as pernas pediam descanso.

Num instante percebemos que ele falava tão pouco inglês quanto eu falo urdu, mas isso não impediu a comunicação. Lá lhe perguntei como estava (Aap kaise hain?) a que ele respondeu: "Bem" (Good!). Apontei para o crachá para perguntar o nome dele. Hussain. A idade foi mais complicado, mas lá percebi que tem 36 anos. E do nada saiu-lhe um You very good man (Você, é um homem muito bom) com aquele sotaque típico dos falantes de urdu.

Sorri. Agradeci o cumprimento com um Shukriya (Obrigado). Estendi-lhe a mão para um aperto de mão e fui saudado por um aperto de mão e nova vénia. E depois ele gesticulou para explicar que sabia que só me voltaria a ver na quarta-feira e que eu teria a cadeira em espera. Agradeci de novo, desta feita em português, que o cansaço por vezes prega as suas partidas.

E segui para o quarto. Onde ainda sorrio. Tenho corrido sem querer chegar a qualquer destino, sem querer ir a parte alguma e contudo cheguei aqui: à atenção de quem me vigia. Tenho corrido para mim e por mim, sem perceber que corro também por ele, ou por eles. Tenho corrido para transformar o corpo, mas acabei por transformar o espaço. E na quarta-feira voltarei a calçar as sapatilhas...


Monday, October 17, 2016

São trinta e dois anos ou celebrando A Catarina

Já andavas pelos trintas anos quando, este ano, entrei no comboio. E, como sempre, a partir de hoje levas dois números de avanço... Até ao próximo 28 de Julho em que recupero a desvantagem, que logo aumentará no próximo 17 de Outubro. Ciclo que não me importo de repetir ad eternum...

Não é o primeiro aniversário que escrevo de longe. É o quarto. Seguido. Dois na Turquia. E dois no Paquistão. Já antes tivera aniversários em que estava em Lisboa, mas logo seguia para Abrantes para te dar aquele beijinho de parabéns. Mas estando longe-longe posso apenas tirar contentamento de escrever umas linhas, enquanto lágrimas marotas escapam-me dos olhos...

São trinta e dois anos que celebram as idas à arvore de natal, para saquear o chocolate pendurado nos ramos verdes do pinheiro e encher as pratas com areia.  De como corávamos quando o Natal terminava e na altura de "dividir" o chocolate acabávamos, literalmente, com um punhado de areia nas mãos. E, de quando em vez, com um castigo.

São trinta e dois anos que celebram os raides para espreitar presentes e depois, na noite de 24 para 25 de Dezembro, fingir espanto e surpresa com o que saía dos embrulhos. São trinta e dois anos que celebram horas a fazer de contas que trabalhávamos em empresas e andávamos em viagens por todo o lado. Nisso a realidade acabou por imitar a nossa imaginação e lá vou viajando aqui e ali!

São trinta e dois anos que celebram horas de maternidade-fraternal inculdada em ti pela vida e pelas circunstâncias; e nunca falhaste nesses deveres que tinhas que cumprir e para os quais não ouve tempo para aulas ou treinos. São trinta e dois anos que celebram ralhetes, raspanetes, risadas, gargalhadas e até bifes voadores...

São trinta e dois anos que celebram a menina sonhadora que se transformou na mulher trabalhadora. Ainda com o brilho dos sonhos nesses olhos cor de amêndoa, encaixilhados pela tez branca e pelo cabelo ora mais ruivo, ora mais loiro, ora mais moreno. São trinta e dois anos de muita coisa vivida que não caberá nestas palavras e que não deve caber. Há coisas que pertencem ao silêncio.

São trinta anos (e não, não me enganei!) de admiração, de fascínio, de amor. De olhar para um modelo a seguir no que toca a preserverança, elegância e espírito de luta. Muitas vezes me perguntam como é que aguento fazer tanta coisa e tantas vezes gostava de poder responder: isso é o meu lado Catarina. Não iriam entender, eu sei, mas gostava de responder isso.

São trinta anos (continuo sem estar errado!) a roubar pedacinhos de ti, que tento colar em mim de modo atabalhoado. Se há coisa complicada de se copiar, ser Catarina é certamente uma delas. Acabamos sempre por fazer algo torpe, insuficiente, desvirtuado, sem graça... E por isso quando te copio, assumo logo a qualidade fraquinha da cópia. Mas hoje celebro o original. Não celebro ser Catarina, celebro A Catarina.

São trinta e dois anos que hoje se celebram e num pulinho serão trinta e três e quem sabe interromperei este ciclo de celebrações longe. Quem sabe se não estarei por perto, pronto a cantar os parabéns e dar-te o beijinho na bochecha... e, porque não, desafiar-te para rapinar mais pratas numa qualquer árvore de natal por perto. MUITOS PARABÉNS!