Wednesday, December 26, 2012

O Conselho que (afinal) é uma Agência...

Foi anunciada com a devida pompa a criação do Conselho da Diáspora Portuguesa. O projecto partiu de uma ideia avançada por Cavaco Silva, confesso o meu espanto, mas uma leitura mais atenta dos objectivos do Conselho fazem cair por terra as ilusões oníricas iniciais.

O Conselho da Diáspora Portuguesa, tem em crer o Fidalgo, deveria funcionar como um elo de ligação entre Portugal e os Portugueses que escolheram outros países como local de trabalho e/ou residência permanente. O Conselho da Diáspora Portuguesa deveria funcionar como uma ponte entre o solo lusitano e a lusa gente espalhada por outros solos...

O Conselho da Diáspora Portuguesa, argumenta o Fidalgo, deveria ser uma espécie de galeria de talentos nacionais desenvolvidos no espaço internacional, permitindo, em tempos de (prometida!) prosperidade vindoura, a captação desses mesmos talentos de volta a Portugal. A Conselho da Diáspora Portuguesa seria uma incubadora de méritos e um catalisador de ligações socioemocionais para com o país que ficou para trás...

Mas o Conselho da Diáspora Portuguesa tem pouco, ou mesmo nada, de tudo isto... O Conselho da Diáspora Portuguesa, pelo menos como foi apresentado, é antes uma Agência de Publicidade e Lobbying Portuguesa que se quer fazer valer dos que alcançaram sucesso lá fora, para projectar Portugal lá fora. O Conselho da Diáspora Portuguesa almeja capitalizar uma mensagem de um país dinâmico e moderno, usando para isso os que estão lá fora???

Mas então não é esse o papel do Ministério dos Negócios Estrangeiros, por exemplo, através do trabalho da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas? Não é esse, de resto, o papel do Presidente da República? Ou até dessa função de Estado o Sr. Cavaco Silva se quer demitir passando a um, muito funcional, vazio de funções reais e substanciais?

O Conselho da Diáspora Portuguesa quer promover Portugal através dos que não vivem em Portugal? Portanto voltamos ao mesmo discurso, meio-parolo meio-idiota, de achar que quem vai para fora se torna, como que por magia, extraordinário. Continuamos a insistir na ideia que o mérito nasce espontaneamente, isto é cogumeliza-se, apenas e só por uma pessoa decidir migrar!

E não se entenda aqui qualquer tipo de preconceito para com o migrante luso. O Fidalgo não só conhece imensa gente migrada de imenso valor, como pensa juntar-se aos estão "por fora", mas estas lógicas de achar que o que está fora é que serve para fazer lobbying e promover o país parecem-me distorcidas... Quem está dentro pode ter o mesmo, ou mesmo mais impacto "lá fora", desde que lhe sejam dadas oportunidades para tal! É assim tão complicado perceber isto?

O Conselho da Diáspora Portuguesa recupera, de resto, a dinâmica que levou à escolha do Ministro da Economia, até então um académico no Canadá... O Conselho da Diáspora Portuguesa não quer servir a Diáspora Portuguesa, que entrou numa fase nova e diferente da ocorrida nas décadas de 1960-1980, mas quer antes servir-se dessa mesma Diáspora. Não se provê algo, sorve-se alguém...

Quer que as tais Oportunidades causadas pelo Desemprego, segundo palavras proféticas do Ministro com a Licenciatura mais rápida do Espaço de Bolonha, sejam capitalizadas pelo mesmo país que não soube capitalizar os méritos de uma geração que não escolhe ir para fora, mas que é antes empurrada, se não mesmo pontapeada, a ir para outros portos... Resumindo: O Conselho da Diáspora Portuguesa é bonito em nome, mas feio em intenções e forma!

E o Fidalgo por aqui se fica (com o comentário), enquanto se prepara para ir (para outras paragens)...


Wednesday, December 19, 2012

2012, o Anno Mutus de Cavaco Silva

Com o aproximar do final do ano começam a surgir por todo o lado, verdadeiros cogumelos selvagens, revistas do ano; onde se sintetizam os eventos do ano que finda (muitas das vezes assumindo-se que os dias em falta pouco podem acrescentar, aos dias já vividos no ano em revisto). É e não é isso que o Fidalgo almeja fazer hoje.

Cavaco Silva elevou ao extremo a máxima de "O Silêncio é de Ouro". Aliás, em certa medida, o Presidente da República chamou a si o direito de ser considerado o herdeiro do Rei Midas, já que o seu silêncio tem tanto de inconveniente como o toque dourado do monarca helénico. Cavaco Silva habituou todos a uma não-presença nos momentos importantes, fazendo soar na cabeça de muita gente a questão: se é para isto para que temos um Presidente da República?

Nem sequer me atrevo a dar resposta, pelo natural enviesamento que o Fidalgo sofre por ser adepto da Coroa (e não, Monarquia não é sinónimo de Ditadura!). Cavaco Silva conseguiu esvaziar o poder do Presidente da República tornando-se numa figura obsoleta, cuja utilidade fica por desvelar em 2013.

O Presidente da República, segunda consta no 134º artigo da Constituição vigente, tem um importante poder de regulador em momentos de Emergência. E quer parecer ao Fidalgo que Emergência é a palavra que melhor define o que temos vivido em 2010-2012; de resto o Primeiro-Ministro (Passos Coelho) e o Ministro dos Negócios Estrangeiros (Paulo Portas) usam amplamente a expressão para definir o actual momento sociopolítico.

O Presidente da República não só não fala, o que por si já é tristemente revelador, quando ao falar leva-nos a pensar nos méritos (dourados, claro está) dos seus prolongados silêncios... A última dessas alturas ocorreu no final de Novembro de 2012, quando na entrega dos Prémios Gazeta o Presidente tentou ironizar com os seus próprios silêncios...

A tentativa de realizar um exercício de Ironia saudou-se num momento confrangedor de puro sofrimento, para aqueles que dominam o universo das palavras... A tentativa mostrou que não só os silêncios do Presidente são maus, como os seus não-silêncios são ainda piores. E o dilema reforça-se: para que precisamos deste Presidente da República?

E a cereja em cima do bolo chegou ontem quando o Fidalgo ouviu a mensagem de Boas Festas do casal Presidencial. Além do amadorismo em torno da produção, onde não se consegue disfarçar o desconforto provinciano do casal para com os media, o Presidente da República achou por bem terminar o vídeo dizendo: "E um 2013 tão bom quanto possível"!

Podia ter sido pior... Não se ter lembrado de "E em 2013 seja o que Deus quiser!" foi uma sorte. Mas num momento delicado como cristal, como aquele que vivemos, pedia-se ao Chefe de Estado que fosse capaz de mobilizar (já que galvanizar parece-me palavra fora do vocabulário deste Presidente!) e de unir a população. Urgia uma palavra de reconhecimento e de esperança; urgia um momento de compreensão e de alento... Urgia tudo o que não fosse um "e o que for que seja!" Porque para isso não precisamos de um Presidente da República...

Resta ver se em 2013 o Presidente ressuscita da sua letargia, qual Lázaro bíblico, ou se irá definhar ainda mais feito manjerico requeimado pelo sol... O Fidalgo retira-se, por agora!


Tuesday, December 18, 2012

Manual da Greve para Totós

O Fidalgo foi apanhado de surpresa, esta manhã, por mais uma das habituais paralisações parciais da CP. Os sindicatos (verdadeiros profissionais da greve) voltaram a convocar uma paralisação que tem pouco de nova, de impactante e de relevante... Exceptuando, obviamente, a irritação e frustração geral que o sucessão incrível deste tipo de eventos na CP causa nos utilizadores dos serviços da CP.

Mas a Greve, Senhores dos Sindicatos, não é nada daquilo que têm feito! O real sentido da greve está muito longe das acções, meio patetas e meio ocas, que têm feito ao longo do ano... Adoraria que se fizesse uma contagem dos dias de serviço "menos normal" que a CP teve em 2012. Mas vamos lá então explicar o modus operandis e o sentido da greve.

A greve tem um único objectivo: dotar os trabalhadores de um trunfo negocial aquando de uma ronda de conversações com os patrões. Esse trunfo advém, nos primórdios da greve, do facto de esta ser uma Raridade e por isso causar um real impacto. A Raridade destes fenómenos levava os patrões a uma incapacidade de resposta adequada, assumindo que os meios de produção estão, de facto, do lado de quem produz e por isso ouvir, quem produz, é uma necessidade de quem ordena.

A greve pode ainda funcionar, quando não pelo factor Raridade, pelo factor Impacto! Uma greve bem feita tem qualquer coisa de grandioso, quase como uma produção da Broadway. Uma greve, feita à séria, tem que ser algo de magnânimo que realmente paralisa o serviço em causa e que, paralelamente, leva os utilizadores a questionarem-se sobre o motivo da greve e, se tudo correr bem, a darem o seu apoio aos grevistas. É isto! Nada mais simples...

Ora as greves, se é que lhe devemos chamar isto, dos Sindicatos da CP (gente profissionalizada em grevizar o trabalho) não têm Raridade nem Impacto e, curiosamente, têm levado a que uma parte muito significativa dos utilizadores da CP esteja contra os grevistas... Isto porque os grevistas mais parece que brincam aos feriados, do que fazem greves sérias e condignas...

As greves da CP levam a um afastamento dos utilizadores, naquele que é o único país da União Europeia que viu uma redução drástica dos utilizadores de transportes ferroviários (a tendência dos países da Civilidade Europeia foi para o incremento ou manutenção do número de utilizadores).

As greves da CP criam apenas um problema: desconfiança do utilizador para com o promotor do serviço, que sem utilizadores terá (a curto-prazo) que pensar em dispensar trabalhadores. Os mesmos trabalhadores que agora se entretêm a brincar aos grevistas... Os mesmos trabalhadores que, não raras vezes, ficam sem resposta perante a pergunta "Qual o motivo desta greve"! Ou isso, ou respondem com o chavão "Porque Eles tiram tudo"...

As greves da CP obrigarão a empresa, em breve trecho, a ter que rever o seu slogan de "Conte Connosco" para um "Conte [às vezes] Connosco", porque é impossível contar com um serviço que falha mais do que cumpre. Na mesma senda o slogan "Próxima paragem: Mudar a sua vida" deveria ser actualizado para um "Próxima Paragem: Greve (e se der Mudaremos a sua vida)".

As greves da CP, que de Greve pouco têm, mostram que não é apenas o Governo, os tais Eles, que não sabe negociar... Porque impor condições que, se não cumpridas, se traduzem num sequência insana de grevinhas e grevetas mal organizadas tem pouco de diplomático e nada de negocial... E tenho dito! O vosso querido, e pouco grevista, Fidalgo!


Thursday, December 13, 2012

O estranho caso da República Checa...

Aconteceu ontem, enquanto o Fidalgo lia Nabokov e comia Toblerone, a Reunião dos Ministros de Finanças dos 27 países da União Europeia. No final da reunião anunciou-se com pompa que as Ministeriais Inteligências chegaram a um Acordo que permitirá dar ao Banco Central Europeu poderes directos de supervisão sobre cerca de 200 bancos e poderes, invocáveis, sobre os restantes (quase) sete milhares de bancos de média e pequena dimensão.

O Acordo, que levou 14 horas a ser finalizado, representa uma vitória da Máquina Imperial Alemã e uma confirmação do esvaziamento do poder real de Paris frente a Berlim! O Acordo, curiosamente, não conduziu a um consenso generalizado dos 27, em breve 28, Estados da União. O Reino Unido e a Dinamarca fizeram-se valer dos seus mecanismos de opt-outs e a Suécia e a República Checa assinalaram o seu desinteresse no projecto em causa.

O resultado da reunião, que para quem vai lendo e estando atento, tem pouco de surpreendente, chamou contudo a atenção do Fidalgo para a postura da República Checa nos últimos anos. Em 2009 a República Checa recusou-se a assinar o Tratado de Lisboa até lhe terem sido feitas concessões, próximas do mecanismo de opt-out, que apaziguaram os seus governantes.

Em 2011 a República Checa ameaçou bloquear o CETA (Acordo de Comércio entre a União Europeia e o Canadá), caso uma série de prerrogativas diplomáticas, ligadas aos vistos, não fossem tidas em consideração. A Europa que agoniza em manter a União voltou a aceder aos pedidos de Praga. No início do ano o Acordo de reforço à Disciplina Fiscal contou, outra vez, com os Nãos da República Checa e do comparsa Reino Unido.

Confesso que me faz alguma estranheza o Eurocepticismo militante. Ter uma perspectiva divergente dos Eurocrentes e dos Servos da Merkel (nova forma de Servidão, após a extinção dos Servos da gleba) pode ser salutar; mas ter uma perspectiva continuamente divergente, divisionista e bloqueadora parece-me um contra-senso, tendo em conta que a adesão à Europa da União é um acto de liberdade.

É o mesmo que querer entrar para um Clube de Golfe, com regras de adesão algo apertadas, e após ser admitido no mesmo dizer que seria mais interessante se jogassem antes Xadrez. Não se descarta o valor do Xadrez, mas a inscrição e adesão foi feita com a consciência de que naquele Clube se joga Golfe. Ora a República Checa, e mesmo o Reino Unido, precisam decidir-se se querem mesmo estar no Clube de Golfe como membros de pleno direito, ou se são Golden Visitors.

Para completar o ramalhete do posicionamento, muito curioso, de Praga na cena internacional é necessário mencionar ainda que a República Checa foi o único país do espaço Europeu a votar contra a elevação da Palestina para o estatuto de Estado Observador Não-Membro. Paixão assolapada por Washington? Ou necessidade de se diferenciar dos congéneres vizinhos nos Balcãs? Seja o que for tudo isto é curioso, muito curioso...


Friday, December 07, 2012

É exactamente assim que não se faz Sr. Barroso!

O final da semana trouxe vários pequenos acontecimentos, muitos dos quais centrados mais no dicere do que no facere. Nos últimos tempos o Fidalgo tem feito algumas apresentações/comunicações/exposições sobre a temática do despertar de vários nacionalismos no espaço Europeu, que transcende a União Europeia em geografia e em dimensão civilizacional, e por isso escrever sobre notícias com e/ou da Escócia é uma boa forma de fechar a semana.

A Câmara dos Lordes do Parlamento Britânico pediu um parecer às Instituições Europeias sobre quais as consequências para a Escócia caso o referendo se realizasse, a ocorrência do mesmo ainda não passa de uma probabilidade, e caso o "Sim", queremos ser independentes, vença! A União Europeia, na voz de Durão Barroso, diz que a Escócia fica de fora da União Europeia se esta se independentizar.

A resposta, na verdade, tem tão pouco de sagaz como de nova. Durão Barroso já dissera antes aos Catalães que uma transformação da região em Estado Soberano, levaria a uma expulsão do (entretanto formado) novo Estado da União Europeia. Uma Catalunha independente teria que negociar a sua admissão na União Europeia e, de igual modo, uma Escócia independente terá que sair para voltar a entrar.

Isto claro assumindo que a Escócia, e já agora a Catalunha, no momento após a sua independência e constituição enquanto Estado soberano quererá voltar para a União Europeia. Barroso tem, por vezes, em demasiada conta o poder de atractividade da União Europeia. Mas e se "expulsar compulsivamente" a Escócia e a Catalunha não for uma punição mas um prémio? Nesse cenário de que valem estas ameaças (seguramente) vazias?

A União Europeia não gosta de Estado pequenos, isso é notório, e muito menos acha engraçado o cenário de uma pulverização de autonomias e soberanias no seu espaço sociopolítico. Mas a realidade parece empenhada em querer contrariar os "gostos" dos líderes da União. A União Europeia mostra, igualmente, uma notória (e indesculpável) impreparação para lidar com este tipo de fenómenos nacionalistas.

Um dos elementos centrais na construção de espaços nacionais com potencial política é a percepção de ameaças. Ora somar à ameaça óbvia, representada pela Austeridade insana, uma ameaça clara, de uma União Europeia pouco dialogante e nada diplomática, é dar lastro a que estes projectos nacionais ganhem consistência e se cristalizem mais rapidamente. Durão Barroso quer dissuadir pelo medo, mas pelo medo está apenas a fomentar (e a fermentar!) o bolo dos nacionalismos!

O único lado positivo, em tudo isto, é ver como Durão Barroso é consistente nas suas palavras. O único lado positivo é ver como mantém as suas ideias, apesar de ser sinal de inteligência  a capacidade de se assumir erros e a capacidade de adaptação perante o que está incorrecto. O único lado positivo é perceber que Durão Barroso não se perde nas suas entrevistas, ao contrário do pobre Jean-Claude Juncker (Presidente do Eurogrupo) a quem o barulho vai baralhando as ideias...


Thursday, December 06, 2012

Semantica revolucionária

Por estes dias, em que muito tem acontecido, o Fidalgo andou pelo Centro Ismaili de Lisboa (espaço que tem um charme muito próprio) por causa do Fórum Lisboa 2012. O tema da edição deste ano podia traduzir-se "A Estação/Época Árabe - Das Mudanças aos Desafios, Dois Anos Depois"! E logo aqui começaram os problemas do conflito (eterno!) entre o que se diz e o que se quer dizer.

Mais do que um dos oradores convidados fizeram questão de sublinhar que a Estação/Época Árabe (antiga Primavera Árabe) está ainda em curso em todos os países por ela afectados, sendo precipitado se não mesmo incorrecto usar o vocábulo Depois (after, na versão anglófona). Mesmo na Tunísia, que começou o movimento de transformações políticas, não se reclama estar-se já numa fase pós-transicional.

Para Paulo Portas, Ministro dos Negócios Estrangeiros, que discursou no primeiro dia a mudança de Primavera Árabe para Estação/Época Árabe é muito fortuita. A ideia não é, de resto, nova! O Fidalgo ouvira o Sr. Ministro dizer o mesmo no encerramento do 16º Seminário da Juventude Portuguesa do Atlântico. O problema para nós, lusa gente, será a tradução da palavra em causa, uma vez que Season (ou no original francês Saison) pode traduzir-se como Estação, Época, Temporada ou Período.

Sem resolver o problema da Estação/Época/Temporada (não gosto muito do termo Período!) Árabe saltamos para a questão seguinte. Onde ocorreram as tão mediáticas Transições? Tunísia? Egipto? Líbia? Iémen? Síria? Jordânia? Marrocos? Bahrein? Argélia? Para espanto do Fidalgo as transições ocorreram em poucos destes países na verdade. Eu explico!

Para Lahbib Choubani, Ministro para as Relações com a Sociedade Civil e com o Parlamento (curiosa nomenclatura), em Marrocos não se assistiu a uma Transição mas antes a uma Evolução gradual, no quadro das instituições e com o papel muito activo de SAR Mohammed VI. Aliás os vários delegados vindos de Marrocos elogiaram, quase em uníssono, o papel de Sua Majestade na Evolução de um país que assim rejeita ter entrado na Parada da Transições Árabes.

Para SAR Rym Ali e para Kariman Mango, vindas da Jordânia, o reino não passou por qualquer Transição mas antes por uma fase de Transformação. E no mesmo sentido os representantes da Argélia falam em Adaptação e não em Transição. E, de uma assentada, a lista de Transições que parecia tão vibrante é encurtada em 1/3.

Magda Eltouny (Liga Árabe), Touhami Abdouli (Tunísia) e Bothaina Kamel (Egípto) concordam que no Egipto se pode falar de Transição. A Tunísia não tem, de resto, tentado monopolizar o vocábulo, mas faz questão de lembrar que tudo começa por aqueles lados. No Egipto falam em transição tri-faseada: 1.) derrubar o Presidente Mubarak; 2.) afastar o Conselho Militar; 3.) depor o Presidente Mursi.

Do Bahrain e do Íemen pouco se falou, nem sequer representantes tinham. Da Síria nem uma palavra, nem um qualificativozinho, para aquela que é uma Guerra Civil, com culpas nos dois lados da trincheira. E, para meu espanto, como que para substituir o Bahrain e o Íemen estava presente um representante da Palestina (que recentemente fez upgrade ao seu status internacional) que veio agradecer o voto de Portugal... Num Fórum sem representantes de Israel...

No meio de todas as discussões sobre que palavra usar para qualificar o momento em causa perdeu-se uma boa oportunidade, com muita gente de Alto Nível, para compreender a fundo o que está acontecer no espaço Árabe; para compreender sucessos e aceitar derrotas; para compreender processos, dinâmicas e métodos. Perdeu-se substância para a linguística... Que não sendo irrelevante, não releva a real dimensão da questão em análise.

Assim se percebe o tempo que as decisões demoram a tomar, quando dois dias servem para discutir como discutir a questão. Quando o produto de um Fórum que reuniu tanta gente interessante foi um não-produto. Quando o máximo que se conseguiu alcançar foi no domínio Nominal... Pois no domínio Substancial de nada, ou quase nada, serviu o Fórum...


Thursday, November 29, 2012

Como espremer o que não tem sumo?

O Fidalgo vai ser muito directo: a entrevista de Passos Coelho, Primeiro-Ministro da República Portuguesa, foi na verdade um não acontecimento. No final da emissão aquilo que já sabíamos, antes do começo da entrevista, foi o que ficámos a saber... A Austeridade é um caminho longo; uma odisseia interminável; uma viagem cuja recompensa é o reforço da condição inicial... Ou seja Austeridade traz Mais Austeridade!

Passos Coelho tinha pouco para dizer ao país, pelo menos pouco de novo. O discurso, num tom ora defensivo ora a roçar a converseta de café, falhou na oportunidade de transmitir (pelo menos) um discurso que motivasse (galvanizar já é impossível!) os portugueses a mais um ano de sacrifícios, para manteremos o papel de "bom aluno". Um discurso que sustivesse o ideário do "bom aluno" que, curiosamente, depois é castigo pelo seu bom comportamento...

A dupla de jornalistas não funcionou! Para além de questões de estéticas (com Judite de Sousa a homenagear de uma assentada a Pink, a Dilma Rousseff e a Leopoldina), não se perceberam "ganhos" em ter dois bons profissionais de jornalismo a entrevistar o Primeiro-Ministro. Ficou o Fidalgo com a impressão de estar a assistir a uma sessão do "Fama Show", com um entrevistador a começar ideias, que o outro acabava e que o entrevistado circundava.

Não funcionou o guião de entrevista que, não sendo mau (justiça seja feita!), era pouco criativo e mostrou pouca investigação. Algumas perguntas pertinentes foram feitas, mas muitas outras (menos óbvias, eu sei) ficaram por fazer. E com estes dois profissionais como entrevistadores do Primeiro-Ministro pedia-se mais, bastante mais. E a Passos Coelho pedia-se que fosse menos guerrilheiro, mais directo e menos cartilhado...

E como acredita o Fidalgo, que não se pode espremer sumo de fruta seca fico-me por aqui... Esperando melhores entrevistas, ou, quiçá, melhores entrevistados!

Tuesday, November 27, 2012

Janus ou Themis? Como vai ser Sr. Presidente?

E o dia V, o da Votação Final do Orçamento de Estado 2013, chegou por fim. Os discursos finais dos vários partidos com assento na Assembleia da República trouxeram poucas novidades, algo aliás que marcou a maioria dos debates nos vários dias de votação na especialidade. Ideia novas têm tristemente escasseado pelas galerias parlamentares nos dias que correm!

O Orçamento de Estado 2013 foi aprovado com quase todos os votos dos deputados que "sustentam" a coligação governamental, exceptuando Rui Barreto que se juntou ao PS - PCP - BE- PEV no chumbo àquele que é considerado pelos Media Europeus como o Orçamento mais duro da História recente de Portugal. E como eles estão certos!

O Orçamento de Estado traz poucas novidades: austeridade insana continua a ser a palavra do dia. Portugal, que se encontra encalhado com um governo à espera que o Milagre Austero se cumpra, irá ter de passar por mais um ano de grandes provações. Portugal vai ser castigado com mais austeridade e porquê? Porque, desta feita, se portou bem...

Estranho prémio este! Depois daquele que era suposto ser o Cabo das Tormentas, versão pós-contemporânea, Portugal não se vê na eminência não de chegar a mares serenos, ou a uma nova Ilha dos Amores. Oh não! Depois de um ano em que os portugueses mostraram uma capacidade de resistência e um nível de democraticidade exemplares, o prémio é entrarmos num novo desafio; o prémio de dobrar o Cabo das Tormentas é chegar ao Cabo da Involução!

E no meio disto tudo o suposto timoneiro do barquinho lusitano, que dá pelo nome de Cavaco Silva, e que curiosamente não nos passa cavaco nenhum, tem agora um novo desafio nas suas mãos: legitimar o seu discurso de Junho de 2012, ou usar a "situação extraordinária" (desculpa que começa a perder aderência!) para aprovar uma proposta que, se não queimada, pelo menos vetada deveria ser...

Cavaco Silva que dizia nesse 24 de Junho, em Castro Daire, que Portugal não tinha mais espaço para lidar com austeridade terá agora que mostrar que a sua palavra é sólida, como são os seus silêncios, com os quais tentou ironizar, na entrega dos Prémios Gazeta, de modo muito parolinho e provinciano. Cavaco Silva terá agora que mostrar que tem menos de Janus e mais de Themis.

O Fidalgo anda menos "regular" na escrita do seu blogue, é facto, mas isso não implica que ande menos atento. Au contraire! O Fidalgo nunca esteve tão atento, porque nunca como agora se exige que cada um dê o melhor de si. E o que o Fidalgo melhor sabe fazer é usar da massa encefálica que ainda vai sobrevivendo. E o que o Fidalgo também sabe fazer é cumprir as suas promessas! Espera-se o mesmo de quem foi eleito para liderar o Estado!

Ou isso, ou teremos que começar a debater não a refundação do Estado (mecanismo de distracção pouco eficaz) mas a refundação do sistema político... E não falo na demagogia bacoca de reduzir deputados! Não é por aí que a água vai há fonte! Mais importante é saber qual o valor desta República tão pouco Respublicana. É que se é para isto que querem um Presidente deixam o Fidalgo cheio de dúvidas...


Thursday, November 22, 2012

Que a batalha [Amigável?] comece!

É absolutamente revelador do espírito que se vive no seio da União Europeia o modo, nada unionista, como os vários Chefes de Estado têm abordado a questão do novo Orçamento Comunitário. Poucas são, na verdade, as novidades trazidas neste novo episódio da tragicomédia que é a vida da União Europeia.

Hollande, Merkel e Monti entre outros já deram a entender que esta cimeira será vital para a continuidade do projecto Europeu. E não sendo errado assumir tal perspectiva, não é menos mentira que nos últimos três anos temos assistido a uma parada de Cimeiras Históricas, que na verdade redundam em fracassos cíclicos que, numa perspectiva prática, pouco ou nada resolvem.

A Guerra dos Subsídios também já começou. O Cheque Inglês não é negociável  anunciou David Cameron antes da abertura das negociações, sabendo que Hollande não está disposto a cortes nos apoios da PAC que muito têm beneficiado Paris e Berlim. A mesma PAC que Cavaco Silva, então Primeiro-Ministro, negociou tão alegremente e que nos impediu de olhar para a Agricultura e a Indústria, áreas que agora Cavaco Silva, Presidente da República, defende tão assertivamente.

Do lado dos países vindos do Espaço Pós-Soviético os cortes (que poucos Chefes de Estado e Chefes de Governo defendem) não podem ser feitos nos Fundos de Coesão, pois que são estes fundos a causa maior da Adesão ao grupo da União. A Eslovénia, a Bulgária, a Hungria e a Polónia contam-se entre as vozes mais activas contra os cortes pela via dos Fundos da Coesão.

Portugal, tal como a Grécia e o Chipre, defendem também a necessidade de não se cortar nos Fundos da Coesão. Curiosamente, Paulo Portas e Cavaco Silva mostraram-se contra os cortes propostos de 17%, juntando a sua voz a um coro maior que diz ser injusto ter austeridade transnacional Europeia, em cima da austeridade troikiana Nacional. Passos Coelho, que queria dizer não mas não consegue levantar a voz contra a Imperatriz Merkel, prefere dizer que vai para a Cimeira com flexibilidade negocial...

A Europa da União, de resto, dividiu-se em dois grandes blocos que se institucionalizaram e tudo. De um lado os Amigos dos Fundos de Coesão, onde se contam os países mais afectados pela Crise das Dívidas Soberanas e mais destroçados pelo Austero-Autoritarismo. Neste bloco, liderado por Portugal e pela Polónia, contam-se ainda a Bulgária, a Estónia, a Grécia, a Hungria, a Lituânia, a Letónia, a Roménia, a Eslovénia, a Eslováquia e Malta.

Do outro lado, com os seus ratings ainda em níveis aceitáveis, surgiu o bloco dos Amigos para um Gasto mais Eficaz. A Alemanha, a Áustria, a Finlândia, a França, a (surpresa!) Itália, os Países Baixos e a Suécia optam por uma defesa de cortes que obriguem a uma racionalização dos fundos comunitários, ou seja, optam por uma continuação do caminho da Austeridade. A Comissão Europeia, com o seu tão prestimoso líder, já mostraram uma natural inclinação por esta segunda facção.

A Croácia, que entra para a família da União em Julho de 2013, e que tem-se reformado e transformado por via das transferências de capital oriundos dos Fundos da Coesão, optou por se juntar aos Amigos dos Fundos de Coesão. No meio da Batalle Royale dos blocos de Amigos o Reino Unido, a Irlanda (claro está!) a República Checa (outra vez!), a Espanha e a Dinamarca decidiram ficar em terreno neutro, observando os argumentos esgrimidos pelos dois Euro-gigantones.

E enquanto a Europa da União se cinde em grupos, facções e círculos, a Europa vai perdendo espaço no mundo. Ou ninguém estranhou a não-presença de Ashton no seio da crise Israel-o-Palestiniana? A ONU saudou os méritos dos esforços diplomáticos dos EUA, do Egipto e da Liga Árabe; a U.E., ao que parece, já nem para "menino das águas" serve na cena internacional... E enquanto não se arrumar a casa, as coisas não podem mesmo mudar...


Tuesday, November 20, 2012

A República e as Nações: França, France, Francia, Frankreich!

Nas últimas duas semanas o Fidalgo ministrou duas Aulas Abertas sobre a questão da re-emergência dos "Nacionalismos em Tempo de Crise" no espaço Europeu que, esclareço desde já o leitor, transcende o espaço da União Europeia. Para não maçar o leitor com um desfile de nacionalismos infindável centrar-se-à hoje o Fidalgo no caso dos nacionalismos existentes no seio da República Francesa.

No seio do país que tem por tradição iniciar profundas transformações no espaço civilizacional europeu (do fim do Absolutismo, ao Imperialismo Bonapartista, ao Republicanismo Jacobino, ao Maio de 1968) contam-se pelo menos três movimentos nacionalistas. A Bretanha, a Alsácia-Lorena e a Córsega.

Bretanha! As marchas dos Bretões têm-se centrado numa luta pela defesa dos direitos educacionais e culturais alcançados, algo que poderá ser ameaçado pelos cortes que Hollande terá forçosamente de fazer. Ora cortar nos benefícios de uma minoria poderá parecer o movimento mais correcto para a maioria da população, mas fazê-lo poderá levar o movimento Bretão a politizar-se e a pedir por uma Autonomia política aprofundada. Os pedidos de Soberania na Bretanha são para já uma miragem, mas não podem ser excluídos do cenário!

Alsácia-Lorena! É, provavelmente, uma das regiões que mais vezes trocou de Senhorio no século XX, gravitando entre as mãos Germânicas e o controlo Gaulês. Os movimentos sociais na Alsácia-Lorena têm perdido força nos últimos anos devido a baixas taxas de natalidade e a um "afrancesamento" daquele que era o mais germânico dos distritos da República Francesa. Mas a incerteza económica interna e a pujança da Alemanha podem re-despertar desejos de revanchismo histórico.

Córsega! A ilha de Córsega foi, recentemente, palco de uma série de actos de violência que o governo central atribuiu às máfias e aos separatistas. Não estando errado o diagnóstico, o mesmo pesa por ser injusto ao juntar máfias e separatistas Córsegos como se fossem a mesma coisa. A Córsega desde, pelo menos, 1923 que tenta voltar para "dentro" da vizinha Itália.

A força do movimento independentista na Córsega atesta-se, por exemplo, no facto de nas últimas eleições regionais (em 2010) o Partido da Nação Córsega ter eleito 11 deputados na Assembleia Regional, a que se devem somar os 4 deputados eleitos pelo partido Córsega Livre. Contas feitas, numa Assembleia que conta com 51 lugares os Nacionalistas contam já com 15 deputados eleitos. E as sondagens não mostram estes partidos perderem vigor... Au contraire mes chers amis!

Enquanto a União Europeia se vai entretendo com as marchas na Catalunha e com o referendo na Escócia, a Europa das Nações vai continuando a trilhar o seu caminho. Em alturas de transformação e ampliação de incertezas como as que vivemos a Nação tende a confortar os seus nacionais, especialmente num momento em que o Estado parece atacar os cidadãos! Ignorar a força do nacionalismo é um risco que a Europa não deve correr... Ou então avizinham-se muitas surpresas para quem governa...


Monday, November 19, 2012

Israel, a Besta Bíblica amiga do Ocidente

As razões do conflito Israel-o-Palestiniano são por demais conhecidas, como são de resto conhecidas as várias fases de uma Guerra que não dá tréguas desde que em 1948 se declarou a Independência do Estado de Israel, em território Palestiniano sob administração colonial Britânica.

Os Aliados queriam compensar os judeus pelas Atrocidades contra estes cometidas pelo III Reich de Hitler e por isso "ofereceram-lhes" um Estado. Tudo normal, não fosse o facto de parte das terras em causa terem já o seu Senhorio, que o Ocidente (convenientemente pouco!) Esclarecido tende a obliterar mas que existia na região na mesma.

Avancemos! Israel terá atacado, não digo que em primeiro ou segundo, mas terá atacado (outra vez) os territórios da Palestina (com Estatuto político indefinido desde há muito) e logo em seguido os generais e políticos de Israel disseram que "temiam um ataque Palestiniano e se defenderiam de qualquer ameaça"?! Então a lógica é atacar e a seguir dizer que a contra-ofensiva é que é o ataque inicial?

A União Europeia, como sempre a reboque dos Estados Unidos da América, já disse que Israel tem legitimidade para se defender. Defender? É só o Fidalgo que vê a desproporção de uma Israel que ataca com o poderio de um exército high-tech e high-power contra um (putativo) exército cindido em três facções e sem grande armamento...

É aliás curioso como Israel parece não ter problemas em "testar" armamento novo sobre alvos reais, sem qualquer condenação activa que pede às duas partes moderação! Ao mesmo tempo o Mundo do Ocidente fica nervoso quando o Irão ou a Coreia decide exibir armamento testado em zonas desérticas. Será só o Fidalgo a ver o assustador grau de crueza envolto nisto tudo?

Se fosse o Irão a atacar com a ferocidade de Israel o mundo clamaria que eram as forças melífluas do Terrorismo e da Incompreensão em acção. Se fosse o Paquistão ou o Afeganistão a atacar com a ferocidade de Israel seriam as forças nefastas do Fanatismo e da Insanidade em acção. Mas como é Israel a atacar com a ferocidade de uma Besta Bíblica está tudo bem?

Israel ainda por cima parece esquecer-se que a lista de aliados regionais, mais importantes do que a UE, encolheu no pós Revoluções Árabes. O Egipto está menos "amigável"; a Líbia não está disponível para diálogo (com o país no limiar da implosão); a Tunísia opta pelo silêncio; a Jordânia, mediador activo nos últimos anos, tem problemas internos por sanar e o mesmo no Bahrein...

Israel, que nasce como compensação de um Genocídio, parece não ter problemas em fazer vítimas em série do lado palestiniano... Talvez seja cedo ainda, mas chegará o dia em que os de Israel passaram a uma dupla condição na questão do Genocídio. Povo genocidado pela Alemanha Nazi e povo genocidário da Palestina. E quanto sangue mais terá a Europa Unida que ver nos televisores, computadores, telemóveis e tablets até tomar uma posição nova e justa?

O Fidalgo deixa a questão que urge uma resposta!


Friday, November 16, 2012

E o TPI condena-se (outra vez) por não Condenar!

O Fidalgo anda por estes dias a dever ao sue fiel leitor, se ele existir claro, um comentário sobre os protestos em Lisboa que pela PRIMEIRA vez degeneraram em violência: manifestantes - polícia! E apesar de ser oportuno o momento, o Fidalgo tem um outro comentário, sobre um outro tema, de um outro país, mais actual que (também!) merece ser partilhado.

O Tribunal Penal Internacional ilibou os Generais Croatas Ante Gotovina e Mladan Markac de todas as acusações relacionadas com os vários actos etnocídas contra populações Sérvias, no decurso da Guerra nos Balcãs que se seguiu à implosão descontrolada da Jugoslávia. Este é um daqueles casos em que "cada qual" terá uma opinião diferente  dependendo do posicionamento mais pró ou mais anti qualquer uma das perspectivas em cima da mesa.

Na perspectiva Croata a ilibação dos dois Generais confirma o seu estatuto de Heróis da Nação Croata. Confirma que quaisquer actos cometidos não são condenáveis (afinal é o Tribunal Penal Internacional quem os iliba) e apenas terão tido lugar pela defesa da Croácia. A ilibação confirma ainda a Croácia como um Estado "sem mácula e culpa" nos vários etnocídios cometidos nos Balcãs na década de 1990.

Na perspectiva Sérvia a ilibação dos dois Generais é vista como uma prova, final e cabal, de que o Tribunal Penal Internacional não é isento nos seus julgamentos. E se somarmos à ilibação dos dois Generais Croatas, a condenação do general Sérvio Karadzic e a (quase) condenação do presidente Sérvio Milosevic, que morreu antes de conhecer o veredicto, estão postos na mesa os ingredientes para uma verdadeira nova conspiratória ao estilo Lev Grossman!

Tudo isto torna-se ainda mais tenso e perigoso, numa fase em que a Sérvia legitimou pelo voto um Nacionalista radical. A decisão do TPI, claramente em prol da Croácia, será lida como um sinal de uma alegada "perseguição" à Sérvia realizada pela Instituição Internacional em causa! E nisto o Fidalgo concorda... O TPI está longe de agir com imparcialidade, neste e noutros casos.

A razão da demonização da Sérvia? A de sempre! A Sérvia, ao contrário da Croácia, é mais pró-Rússia (estado aliás que não reconhece o Kosovo) e menos pró-Americana (estado Padrinho do projecto Kosovar). E não esquecer que a Croácia irá juntar-se à União Europeia em Julho do ano que se segue... Ora o TPI não ia "manchar" com sangue etnocidário o novo estado membro, da Instituição que ganhou o Nobel da Paz em 2012...

E falta uma terceira perspectiva: a de África! Muitos têm sido os líderes africanos que dizem que o TPI tem uma agenda política estabelecida. Muitos são os líderes africanos que falam da incapacidade do TPI em condenar os "do Mundo Ocidental" e esta decisão em nada ajudará a minimizar essas alegações. Ou alguém acredita que no meio de uma série de conflitos étnicos de "todos contra todos", dos quais saiu o novo mapa político dos Balcãs, apenas os Sérvios agiram de modo condenável?

E o Fidalgo fica-se por aqui!


Tuesday, November 13, 2012

Olha, obrigadinho querida!

Ontem mesmo a mais distraída das almas, como é o caso do Fidalgo por estes dias, não tinha como escapar à Merkelização dos noticiários nacionais. Não houve passinho dado por Sua Alteza que não fosse acompanhado com um pomposo directo. Não houve cochicho feito por Sua Majestade que não fosse registado e transmitido com uma euforia própria do Carnaval... E nós com o Natal tão perto!

Angela Merkel veio visitar o "bom aluno" da cartilha Berlinense. Uma visita curta, mas não haveria de resto grandes novidades para quem tem muito que ver com o actual programa governativo em curto. Merkel veio até Lisboa, sob os olhares atentos da Europa Aflita, e a visita saldou-se apenas num: "continuem o bom caminho que um dia, eventualmente, com muita paciência, os resultados lá surgirão".

Um dia, quando tudo tiver destruído e a Austeridade (necessária, se regulada e justa, na óptica do Fidalgo) tiver galgado a sua função e se tiver transformado em Calamidade o sol brilhará; porque depois de "Vos" empobrecermos, qualquer esmolita parecerá um tesouro compensatório. Depois de "Vos" fazermos regredir no seio de uma Europa (des)Unida e sem fôlego criativo verão que o caminho por Nós traçado era o certo.

Isto, claro, se na altura em causa ainda forem capazes de "Ver"! E o Fidalgo sabe que Berlim não tem culpas plenas na actual situação. Lisboa tem o seu quinhão de patetices e gastos que não se justificam. Nova Iorque e Bruxelas, por razões que a razão tão bem conhece, também partilham o ónus da culpa... Mas foi Merkel quem nos visitou!

Angela Merkel veio à "ponta da Europa" sem trazer qualquer mensagem verdadeiramente positiva, que de resto poderia ser um sinal interessante para um povo que se exaspera (por fim!) contra tanta Austeridade insana, que implica muito cortes e o pior dele o corte cego no bom-senso. Merkel podia dizer mais do que: "no final da longa e muito penosa estrada esperará por Vós um (incerto) Oásis"!

Não se pedia a Merkel um aplauso entusiasta do que tem sido feito, mas pedia-se mais do que aquilo que fez parar uma cidade... Se era para dizer o que disse e fazer o que não fez então mais valia ter feito a visita via Google Earth, ou comunicado via Skype. Sempre se poupavam uns trocados; sempre se mostrava inovação; sempre se impedia o mediatização pateta de quem manda sem ter sido mandatada...

A única mais-valia da visita de Merkel são as fotografias cheias de ternura, quase de paixão, entre Merkel e Passos Coelho, com o Tejo como pano de fundo. As fotos onde se vê o fiel aluno (ou eterno vassalo?) mostrar que fez os T.P.C. com aprumo! No meio de todo este Não-Acontecimento resta apenas dizer: Obrigadinho querida! E mais nada... Por agora... Por enquanto...


Thursday, November 08, 2012

Passagem pelo Viscondado de Tacanhistão!

O Fidalgo por estes dias decidiu passear. E como a época é de cortes, de restrições e de outras tantas condições fez-se cumprir o slogan: ir para fora cá dentro. Nada como passar uns dias pelo Viscondado de Tacanhistão para ficar absorto com tanta parolice junta. Vamos às (devidas) explicações, ou, se preferir o leitor, ao diário da viagem.

No primeiro dia, e porque o Viscondado é pequeno (em razão inversa à parolice nele contida), o Fidalgo passou pela Residência do Visconde que, após uma ausência de um mês que preocupou alguns dos súbditos, decidira-se a falar... E como justificou tão ilustre figura a sua ausência? Como explicou o seu afastamento e apagamento num momento de tensão? Com um surto de Divismo...

Sua Excelência Visconde de Tacanhistão, por vezes também chamado de Presidente da República, explicou que não falava, porque existiam "muitas vozes que tinham já falado", porque "existiam muitas opiniões no ar" e ele não estava ali para falar, mas sim para trabalhar!!! Esqueceu, por certo, o Visconde em causa que a sua palavra é de extrema importância para quem lhe confiou um voto, para quem o elegeu temporariamente como líder.

Obliterou-se da mente do Visconde que o facto de existirem muitas vozes no ar é parte natural e saudável de regimes que se assumem como democráticos, plurais e abertos. Sua Excelência queria que a sua voz fosse a única a ser ouvida? Queria transformar-se em Guru ou quereria reencarnar como Dalai Lama? Sua Excelência não quer partilhar o palco, ao estilo de Lukashenka, Karimov e Aliyev, de uma "festa" que se quer participativa e plural!

No meio do espanto pela tacanhez, atributo que lhe valeu a liderança do Viscondado, da justificativa do blackout ficou o ânimo do "porque prefiro trabalhar", mas ao que parece nem isso se tem visto... E não venham dizer ao Fidalgo que Sua Excelência trabalha nos bastidores, que não estamos a falar de uma peça de teatro. E se estamos, tem o Fidalgo a dizer, o argumento das últimas cenas exibidas tem sido escrito por gente sem inspiração...

Não bastasse o espanto com a tacanha atitude de Sua Excelência o Visconde, ainda teve o Fidalgo que se deparar com a irrazoabilidade de uma figura que funde no seu nome o pintor Monet e o General Junot! Diz certa pessoa que os habitantes do Viscondado terão que saber empobrecer, porque "não se podem comer bifes todos os dias", como se a mesma pessoa tivesse alguma coisa que ver com isso.

Diz a mesma pessoa, que funde no nome (mas não na essência) Monet e Junot, que os habitantes de Tacanhistão têm que ser não apenas pobrezinhos, mas tristezinhos e pequeninos... Assumir a sua pobreza e aceitá-la... Ao invés de dar ideias inovadoras para solucionarem os problemas em causa, ao invés de ajudar ao debate que precisa de ser empreendedor e criativo, a dita pessoa apenas se conforma com a pequenez e em tacanha atitude quer que todos a sigam...

E com tanta tacanhez o Fidalgo retira-se, antes que a mesma o afecte!


Tuesday, November 06, 2012

Tsrantcha e Brashten: Búlgaras ou Gregas?

E hoje que o Fidalgo estava com planos para falar do que se passa no nosso jardim, à beira-mar deixado, algo inesperado fez-me mudar os planos. Os Balcãs partilham com o Cáucaso uma extraordinária densidade étnica que, seguindo as teses etno-simbolistas, levam a uma construção da Identidade multi-nível e, consequentemente, a uma densificação da complexidade das dinâmicas políticas.

Os Balcãs, tal como o Cáucaso, são conhecidos mais parte do que pelo todo. No Cáucaso é a Chechénia que faz "soar campainhas" e nos Balcãs será, claramente, o caso do Kosovo. Mas nas duas regiões existem muitas outras questões etno-nacionais que merecem um olhar mais atento e cuidadoso; até porque ambas as regiões se reclamam (justamente) como parte da Europa e podem levar ao degenerar de conflitos... A I Grande Guerra começa com um incidente nos Balcãs...

Mas vamos à notícia: duas aldeias búlgaras Tsrantcha e Brashten sonham por estes dias ser "anexadas" à vizinha Grécia. Em Sofia a táctica adoptada tem sido a de ignorar e silenciar o problema; algo de resto muito Europeu... Mas as duas pequenas aldeias, que se situam numa zona de fronteira entre os dois estados, têm conseguido fazer passar a sua mensagem.

O desejo das duas aldeias é apenas mais um sinal de que muito continua por fazer e por estudar nos Balcãs, strictu sensu, e no espaço pós-soviético, lato sensu, no que concerne à construção de noções inclusivas e mais amplas de identidade. Algo, de resto, que o Fidalgo tem tentado fazer, mas que os Lordes da Investigação em Portugal consideram secundário...

Se somarmos o desejo destas duas aldeias em "trocar" de país; ao fracasso do Kosovo ser amplamente reconhecido pela Comunidade Internacional; ao reacender da tensão na Transnítria (Moldova); ao escalar da pressão diplomática Macedónia-Grécia-Bulgária (em torno do nome da primeira) conseguimos ter um vislumbre de como muito está por fazer... Muito está por estudar...

O desejo de Tsranthca e Brashten parece confirmar as perspectivas de autores como Henry Hale que asseveram que em situação de dupla perda (a Bulgária e a Grécia atravessam ambas um mau momento económico) os povos tendem a preferir perder junto aos seus similares. Se as duas aldeias não se sentem parte do Nós Búlgaro e não "ganham" por fazer parte do espaço deste, é natural que queiram voltar ao "Nós" grego (do qual fazem parte mas) no qual também não ganharão nada mais.

Quais as soluções possíveis? Será a Autonomia Não-Territorial um caminho? Ou a Autonomia Nacional-Cultural é mais segura? Ou ambas são o mesmo e ambas sem garantias? O Fidalgo até que tem as suas ideias sobre isto mas, só porque sim, não as vai partilhar hoje... Os Lordes da Investigação, vulgo FCT, que analisem estas questões... Não são Eles mentes brilhantes? Força!


Wednesday, October 31, 2012

Clinton nos Balcãs... E nada mais...

Por estes dias Hillary Clinton, Secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros de Obama (o Presidente, e não o candidato), anda a fazer uma ronda diplomática pelos Balcãs. Na verdade, sejamos claros, Clinton veio dizer aos líderes da União Europeia o que os Estados Unidos das América pensam que deveria ser o futuro daquela que é a segunda zona mais complexa, tensa e frágil da Europa, logo a seguir ao Cáucaso.

A visita ainda não terminou e já se percebe uma incapacidade de inovação no discurso de Clinton, que chega a roçar o confrangedor. Primeiro disse na Bósnia-Herzegovina que a Unidade Nacional é o único caminho e que só a entrada na UE poderá garantir estabilidade duradoura. Clinton demonstrou assim o grau de ignorância dos EUA para com as complexidades locais.

Unidade Nacional? Na Bósnia-Herzegovina? A complexidade étnica; a ausência de maiorias étnicas; a incapacidade de diálogo interétnico; as divergências históricas, sociais e políticas nada disso conta? Unidade Nacional num estado que apenas subsiste por via de Acordos Internacionais, os de Dayton de 1995, que foram incapazes de gerar um ambiente de inclusão e de homogeneização das dissemelhanças? Unidade num estado que existe sem querer sê-lo?... Seriously? Ainda andamos com os artigos de Dankwart Rustow debaixo da cabaceira?

Mas depois de um tiro no pé, Clinton podia ter salvo a face na Sérvia... Podia, escrevo bem! Na chegada ao país que se vê abraços com o separatismo de estimação de Washington, a Secretária de Estado urgiu a uma reaproximação diplomática que só poderá acontecer caso a Sérvia entenda que o Kosovo é independente e ponto final!

Belo processo de negociação diplomática! O grande desentendimento entre a Sérvia e o Kosovo é exactamente sobre a independência do segundo em relação ao primeiro; mas é exactamente esse o tópico fora da "mesa negocial de reaproximação"?

É só ao Fidalgo que isto soa a pouco democrático, pouco justo, pouco equilibrado e pouco parcimonioso? É só ao Fidalgo que isto soa a mais do mesmo; a perigosamente mais do mesmo?... É só ao Fidalgo que isto se assemelha a mais um exercício de avestruz com a cabeça na areia? E tudo e tudo... Assim não vamos lá Mrs. Clinton!

E a Europa, vergada perante a tacanhez mental de Ashton (a quem confiámos os Negócios Estrangeiros de um algo que ainda não existe!), lembra-me as antigas aias de volta de Sua Senhoria... Estão lá; são visíveis mas dispensáveis... É isso que a Europa quer? Ser servente na sua própria casa? Servente, ainda para mais, de uma Senhoria que não entende a dinâmica das divisões; as particularidades do mobiliário? Servente num espaço onde deveria ser Suserana?

Assim não dá mesmo...


Tuesday, October 30, 2012

Jogos pós-eleitorais animam Outono na Geórgia

A vida política anda quente pela Geórgia pós-eleições parlamentares. Primeiro o Presidente da Geórgia assumiu a derrota nas eleições Parlamentares de 1 de Outubro, ficando contudo com os louros de ter sido a sua governação a permitir a democraticidade do processo. Ou seja, foi uma derrota (nos resultados) vitoriosa (nos meios e contextos).

Logo em seguida (16 de Outubro), Saakashvili decidiu restaurar a cidadania Georgiana a Ivanishvili, fundamentando com actos as suas locuções sobre o valor inestimável da Democracia e da Democratização progressiva da Geórgia. O derrotado Presidente da Geórgia passava a somar 2 - 1, no jogo contra o novíssimo Primeiro-Ministro da Geórgia.

A 19 de Outubro um novo dado em cima da mesa! Leonid Tibilov, Presidente da República (de facto) da Ossétia do Sul, assumiu que voltaria a negociar com Tbilisi se a independência da República que preside for reconhecida. Isto um dia depois de a União Europeia ter afirmado que o reconhecimento da Abkhazia e da Ossétia do Sul estão fora de questão... Nada de novo neste capítulo, quando a Europa tenta compreender o que fará a uma (eventual) Catalunha e Escócia independentizadas!!

E como se tudo isto não fosse já confuso o suficiente, agora Ivanishvili assume, pela primeira vez, que Saakashvili teve culpa no despoletar da Guerra de Agosto de 2008. A prossecução de uma política nacionalista exclusivista, que fazia lembrar os anos da "Georginização" de Gamsakhurdia, foram as causas maiores do conflito que levou a que as duas repúblicas reafirmassem os projectos independentistas, manifestados no começo da última década do século XX.

Desde 2009 que tenho dito que tanto Moscovo como Tbilisi têm culpas no conflito em causa, mas a Geórgia soma mais culpas (55%-45% se quiserem) pela invasão de território constitucionalmente autónomo, sem respeito pelos direitos sociais e políticos de minorias étnicas, que se tornam em maiorias nas regiões em causa. Desde 2009 que digo que a Geórgia, que o eixo Americano-Europeu decidiu proteger, tem culpas na Guerra de Agosto de 2008.

Parece que afinal o Fidalgo andava menos errado do que pensava; nestas coisas estar certo é quase impossível. Em diplomacia estamos menos errados; estamos mais próximos da verdade; mas nunca estamos certos! A capacidade de Ivanishvili assumir a culpabilidade maior da Geórgia deveria valer-lhe o 3-2, no jogo de influências contra o Presidente Saakahsvili. Na verdade assumir a culpabilidade da Geórgia joga, quando muito, em desfavor do novo Primeiro-Ministro...

As vozes de que Ivanishvili é um "homem do Kremlin" começam a aumentar na Geórgia. Saakashvili parece ter compreendido, melhor do que o novo Primeiro-Ministro, que o balanceamento entre uma perspectiva mais pró-Russa e mais pró-Ocidente é praticamente impossível. Escolhas terão que ser feitas, pois mais vale um pássaro na mão...


Wednesday, October 17, 2012

Elegia à mais moderna das Repúblicas!

Por estes dias o Fidalgo começa a preparar-se para "dar o salto" para fora do país. Ao que parece ter mérito e saber construir um projecto de investigação não são ferramentas suficientes para se manter a posição como investigador... E como as portas nacionais se insistem em fechar, o Fidalgo expande horizontes e salta para o nível seguinte... Não é uma fuga, é um empurranço!

Mas não é sobre isso que o Fidalgo hoje se delonga! Em reflexão feita no metro, quando terminava de ler "A Fonte de Bahchisaray" de Pushkin, concluí que temos um país moderníssimo. Somos, quase seguramente, a única República do Mundo cujo Presidente comunica aos cidadãos via facebook, e não por via de actos oficiais. Querem mais moderno do que isto?

Claro que os actos oficiais são de evitar, porque obrigam ao contacto com a plebe... E depois os monárquicos é que são snobes e presunçosos?! Certo! Claro que os actos oficiais não interessam porque podem acabar de pernas para o ar, enquanto se embandeiram ideias agastadas. Claro que os actos oficiais não interessam, porque o Presidente pode oficialmente falar pelo facebook. Sinais dos tempos? Ou apenas cobardia hightech?

Temos um Presidente da República que tenta passar recadinhos via facebook e quando é ignorado, ignora que foi ignorado para que ignoremos que ele ignora que foi ignorado. Temos um Presidente da República que de tanto "silêncio patriótico" ainda vai acabar mudo... Ou isso, ou substituirá a efigie seminua da República com tanto patriotismo que lhe vai no sangue!

Temos um Presidente da República que criou o mito da total ausência de poderes de mediação; algo que lhe convém manter mas que não é de todo real... Temos um Presidente da República que se entretém a piropear (arte de enviar piropos) via facebook, enquanto um autismo selectivo crónico vai encurtando as hipóteses do Governo, com claros sinais de desgaste, sobreviver...

E depois não querem que o Fidalgo seja Monárquico? Comparado com a verdadeira humilhação e delapidação da qualidade de vida que representam os sucessivos "ajustes" ao Memorando de Entendimento, o Mapa Cor de Rosa (baluarte dos Republicanos) foi apenas uma derrota diplomática, para evitar um massacre militar. O tal Ultimatum que o Rei Português aceitou serviu para salvar vidas... O Memorando dos nossos dias serve para as destruir...

Mas com uma República que não tem, praticamente, mecanismos para a demissão/exoneração/substituição do Sr. Presidente, que se passeia pelo facebook mas se abstém de fazer o que mais lhe compete, porque quereríamos nós uma mudança? Assim é que está bom...

Pum!


Friday, October 12, 2012

União Europeia: Nobel da Paz 2012! E esta?

A manhã começou com rumores que o Fidalgo considerou interessantes. O Le Figaro anunciava que a União Europeia era o mais forte candidato a ganhar o galardão de Nobel da Paz 2012. Ficou o Fidalgo com a ideia de que alguém no Le Figaro teria confundido brandy com café com leite mas não: o anúncio chegou menos de duas horas depois.

Primeiro pensamento, com um Nobel da Paz no Curriculum podemos ter o risco de ver alguns políticos a pedirem equivalência em Estudos da Paz. Ao espanto, que (seguramente) percorreu os cidadãos de toda a Comunidade Europeia, seguiu-se a necessidade imperiosa de ouvir a argumentação da Real Academia Sueca e a obrigação moral de concordar parcialmente com a decisão desta. Surpreso o leitor? Não vale a pena, que eu explico tudo.

De facto, tal como se argumentou, não podemos minorar o importantíssimo papel da União Europeia, neta da CECA, na estabilização da vida política, diplomática e social da Europa. Não podemos negar que a União Europeia foi capaz de alcançar um nível de entendimento inter-estados que nenhuma outra Organização Internacional conseguiu.

A ASEAN até tem feito um trabalho interessante no Sudeste Asiático só que conta apenas com 10 membros e 4 "satélites" (Índia, China, Japão e Austrália) e não tem a profundidade de interacções da UE, com os seus 27 membros (28 em breve, com a entrada da Croácia) e mais de 10 satélites (Islândia, Montenegro, Macedónia, Sérvia, Turquia, Ucrânia, Bielorrússia, Moldova, Arménia, Azerbaijão, Geórgia).

A APEC não passa de uma organização Económica. A União Africana está longe sequer de ser comparável. O MERCOSUL não funciona, como aliás o dizem todos os seus intervenientes. E na América do Norte a NAFTA conta apenas com três membros e resume-se à esfera económico-financeira. E a Liga Árabe tem estado longe de corresponder às elevadas expectativas que sobre ela recaíam.

Não podemos menosprezar o papel crucial da União Europeia na aceleração da construção de uma ideia de Civilidade Europeia. É injusto que por um mau momento, que começou em 2008, se esqueça tudo o que ficou para trás. E não, o Fidalgo não esquece que a União Europeia tem sofrido de lentidão crónica e de dislexia ao nível do processo decisional, nos últimos anos. O Fidalgo não esquece que a União Europeia precisa reformar-se, redesenhar-se e repensar-se urgentemente!

Mas o Fidalgo também não esquece, não o deve fazer, que a União tem méritos que merecem ser louvados. E é isso que o Nobel da Paz 2012 faz. E, desculpem a acidez, por comparação é mais justo o laureado de 2012 do que o laureado de 2009. O Nobel da Paz é merecido pelo legado mas, e estamos no reino da opinião, talvez venha um pouco tarde e fora de contexto...

O Fidalgo fica, por outro lado, com a sensação que o Nobel da Paz atribuído à União Europeia é uma espécie de Globo de Ouro de Mérito e Excelência. Uma palmadinha nas costas por tudo o que se fez antes de uma, cada vez menos improvável, implosão. Ao contrário da Liga das Nações que ganhou três Prémios Nobel da Paz no momento pós-fundacional, em 1919 (Thomas Woodrow Wilson, Fundador), 1920 (Leon Victor Bourgeois, Presidente do Conselho da Liga) e 1921 (Karl Branting, Delegado no Conselho da Liga), a União Europeia ganha um prémio no momento em que parece estar em colapso.

Igualmente estranho foi o segundo argumento usado pela Academia Real Sueca, esse sim muito muito muito criticável. Atribuir um Nobel da Paz como estímulo a que se resolva a Crise das Dívidas Soberanas. E porque razão a Academia Sueca se imiscui de assuntos que em nada lhe dizem respeito? É esta a forma do Norte, que olha para os PIIGS do Sul, dizer diplomaticamente: estamos convosco!?

A atribuição do Nobel da Paz levantará, curiosamente, nos próximos dias, uma guerra de poleiro no seio da União. Quem o vai receber? Durão Barroso, como Presidente da Comissão Europeia? Herman Van Rompuy, como Presidente do Conselho Europeu? Martin Schulz, como Presidente do Parlamento Europeu? Ou Catherine Ashton, como Alta Representante dos Negócios Estrangeiros da União Europeia? Ou Angela Merkel, como Imperatriz Auto Coroada?

E é neste ponto que o Fidalgo se retira!


Thursday, October 11, 2012

Mas existe ou não um Memorando de Entendimento?

Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia (um dos vértices da Troika) terá dito que as medidas de Austeridade são da responsabilidade exclusiva dos governos que as decidem e implementam... Nada que, uns meses antes, Christine Lagarde, Directora do Fundo Monetário Internacional (outro vértice da Troika), não tivesse dito...

Mas então o Fidalgo fica com dúvidas! O que raio (desculpem o linguajar!) é que ficou acordado no famoso Memorando de Entendimento que regula a nossa vida desde que pedimos o resgate? Afinal o que ficou impresso nos papéis assinados com tanta pompa? Se não existem responsabilidades de dois vértices da Troika, que assim deixa de ser trilateral, porque se chama ao documento de Entendimento? Qual o real papel da Comissão Europeia e do FMI em tudo isto???

Ora quer parecer ao Fidalgo que aquilo que o país pediu não foi um resgate, mas antes um Crédito Estatal com Penhor de Aplicação! É que mais parece que não estamos perante um resgate da Comunidade Internacional, mas antes perante uma concessão de crédito que terá que ser pago sem quaisquer outras imposições... As tais medidas que teriam sido acordadas com os Três da Troika afinal não foram acordadas? É isso? Pagar é o que mais importa, é basicamente isso que diz Durão Barroso?

É impressão minha ou o FMI continua a brincar com as palavras, para não dizer o que deve ser dito: Que a receita do FMI não funciona, como aliás muitos economistas, analistas e especialistas avisaram. Que os modelos de engenharia Económica-Financeira desprovidos de sensibilidade humana, desligados da complexidade da realidade, não conduzem ao enriquecimento e à estabilização macroeconómica, mas antes ao embrutecimento e à desestabilização sociopolítica.

É impressão minha, ou o FMI devia ganhar coragem para assumir o erro, de um programa que (num dia) acordou mas que (no dia seguinte) afinal foi apenas "desenhado" pelos Governos resgatados?! Dizer, como o fizeram no início de Setembro, que calcularam mal o impacto da Austeridade não chega! É parco e pouco confortante dizerem que afinal o resultado foi pior do que o projectado por modelos aritméticos, que esquecem que a Incerteza é a única certeza em momentos de transição e transformação (e disso o Fidalgo até que percebe alguma coisa!).

Dizer que errou seria um passo de gigante para a (necessária) credibilização do FMI que surge, cada vez mais, como um monstro predatório e não como o Regulador das Divisas Internacionais que deveria ser. O FMI em vez de ser a chave das soluções é cada vez mais a Caixa de Pandora de muitos estados... Dizer que errou em vez de sacudir a água do capote, ao estilo Durão Barroso, seria muito salutar para o FMI de Lagarde. Mas não estou para acreditar em milagres nos dias que correm...

Se os pedidos de mea culpa não vão chegar, pelo menos gostaria de ver os Senhores da Troika a não se desligarem do Memorando que Entenderam ser a fórmula mágica para colocar as contas de Portugal em ordem e garantir aos credores o pagamento do empréstimo com lucros, muitos dos quais imerecidos... Deixemos de jogar ao "a culpa não é minha" que isso é feio, muito feio...


Tuesday, October 09, 2012

O Reino Unido (não) veta a UE?!

Estava a começar a escrever sobre a transformação da política na Jordânia, onde a Irmandade Muçulmana quer impor a "onda transicional" a que chamámos de Primavera Árabe, mas a Europa chamou a minha atenção nos entretantos. David Cameron, Primeiro Ministro do Reino Unido, ameaçou que vetaria o Orçamento Comunitário para 2014-2020 se este aumentasse as despesas, como previsto, e se, ao mesmo tempo, este fosse penalizador para os interesses britânicos.

As declarações foram feitas no âmbito do Congresso do Partido Conservador, que decorre em Birmingham,   e devem ser lidas com cautela. Mais do que falar para a União Europeia o PM do reino de Isabel II falava para o eleitorado, numa altura em que o Partido Conservador "luta" por melhorar nas sondagens apelando ao mecanismo de "swith off" que mantém nas relações com o Continente Comunitário.

Esta não é, de resto, a primeira vez que a Ilha tem comportamento de isolacionismo interno, que faz soar as campainhas da União de modo desnecessário. A posição do Reino Unido, de resto, é uma das mais suis generis. Quando tudo corre bem, quando tudo é fácil e dourado, então o Reino Unido é um construtor da Europa Comunitária... Mas quando tudo corre mal o discurso passa de Nós para Eles, os do Continente.

As declarações de Cameron são, na verdade, um duplo trunfo desenhado por uma boa estratégia de comunicação política. Por um lado ao ameaçarem o veto no Orçamento da UE apelam ao nacionalismo Britânico que, ciclicamente, precisa de sentir que ainda tem algum poder; apelam ao nacionalismo do ex-Império mais poderoso do Mundo.

Por outro lado, ao se desculparem com a execução Orçamental dizem internamente e externamente (com especial incidência) que o veto não é feito por razões nacionalistas, ou proteccionistas, mas sim por questões que se prendem com o realismo e a exequibilidade do Orçamento em causa. Um duplo trunfo que, todavia, algum dia pode levar a uma derrota...

Quem está apenas nos Clubes (como a UE) quando existem festas e soirées, mas se ausenta no momento em que é preciso planear e arrumar a casa tende a ser posto de parte e a isolar-se. E paulatinamente tenderá a sentir que não é um membro do Clube e que, perdoem-me a franqueza, a Porta de Saída é serventia da casa. Vai sendo tempo do Reino Unido dizer se quer, ou não quer, ser Comunitário e Europeu!

E sem mais assunto, por hoje, o Fidalgo se despede...



Thursday, October 04, 2012

Domodedovo em busca da independência???

Depois das eleições na Geórgia, da turbulência no Tajiquistão e dos protestos na Sérvia pensei que o espaço pós-soviético iniciasse um período de adormecimento. Mas estava enganado. A cidade de Domodedovo, parte integrante da Federação da Rússia, declarou-se como República Democrática da Rússia e pediu o reconhecimento da sua independência à União Europeia.

Domodedovo é uma pequena cidade a sul de Moscovo, fazendo de resto parte da malha urbana da capital da Rússia. Imaginemos que Oeiras pedia a sua independência; é algo do género o que aconteceu na Rússia, no primeiro dia, do décimo mês de 2012. A cidade em causa é, de resto, conhecida por albergar o maior e mais moderno aeroporto da capital.

A declaração de independência foi um acto desesperado da comunidade local que, inclusive, realizou um referendo em 2007 no qual mais de 98% dos habitantes se pronunciaram em favor do projecto independentista. Mas porquê tal iniciativa? Para chamar a atenção do Kremlin para a criminalidade crescente na região e para terminar com, o que dizem ser, o "autismo" das autoridades federais.

O movimento é, de resto, extraordinariamente inteligente; revelando que ainda existe audácia num mundo que por vezes parece mortiço. Sem recorrerem a protestos, manifestações e outras formas de luta que já esgotaram a sua utilidade prática, os moradores do Domodedovo agiram tendo em conta o maior medo do Kremlin de Putin: os projectos independentistas!

O pedido de reconhecimento da independência da República Democrática de Domodedovo teve em conta a tensão entre a Chechénia e a Inguchétia cresce; o crescente descontrolo do Daguestão; os protestos em Karachaevo-Cherkessia; a animosidade em Kabardino-Balkaria e o facto de o Tataristão e a Bashkortistão terem inflamado a retórica nacionalista e autonomista.

O pedido de reconhecimento de independência mostra uma admirável consciência da realidade envolvente e uma capacidade de pensar "out of the box". O mais extraordinário, acredita o Fidalgo, é facto de este acto poder desencadear uma onda de processos similares num estado com quase 300 grupos étnicos. E, pensa o Fidalgo, talvez no quase mono-étnico cantinho lusitano precisemos de iniciativas com este arrojo!


Tuesday, October 02, 2012

Transição na Geórgia? Parece que sim!

E contra todos os cenários projectados uma dupla conjugação de dois resultados deixou meio mundo de analistas e especialistas, considero-me incluso na primeira categoria, de queixo caído... Não só o partido de Saakashvili não triunfou nas eleições parlamentares disputadas ontem, como assumiu essa mesma derrota. Um feito notável, verdade seja dita!

Numa certa perspectiva Saakashvili não perdeu. O sucesso da parada eleitoralista que desembocou num triunfo (maioritariamente) pacífico da Votocracia (pois que a Democracia transcende, ou deve transcender, o momento das Eleições) são legados do actual Presidente da Geórgia; são conquistas da sua governação, como fez questão de sublinhar no discurso de reconhecimento do "deslize" parlamentar.

A Oposição liderada por Ivanishvili, centrada no movimento partidário Sonho Georgiano, tem agora que acordar agora para uma realidade complexa que determinará, agora sim, o sucesso ou insucesso da Transição da Geórgia pós-Soviética. O mais difícil, parecia, seria vencer as eleições, derrubando o establishement Saakashviliano. Vencida essa barreira seguem-se desafios maiores!

Em primeiro lugar Ivanishvili pode ter vencido a corrida ao Parlamento, mas Saakashvili continua a ser Presidente da Geórgia. E o Sr. Presidente disse no discurso de aceitação da derrota que "discordo das premissas do Sonho Georgiano". Não é preciso ser especialista ou analista para adivinhar uma governação tensa nos próximos meses, já que não falamos de diferendos na forma mas sim de antagonismos no conteúdo.

Em segundo lugar, Ivanishvili tem nas mãos uma bomba-relógio. O seu movimento partidário, que agrega dezasseis forças partidárias mais pequenas, corre o risco de se desintegrar e perder impacto. Porquê? A razão da união e nascimento do Sonho Georgiano foi Negativa e não Positiva. A lógica era negar a Saakashvili uma vitória e isso foi conseguido. O que mais resta para unir as facções? Dinheiro de Ivanishvili? Mas então é Democracia ou Autocracia Eleitoralista?

Em terceiro lugar, Ivanishvili assumiu hoje que quer cooperar com a OTAN e com a Rússia. O problema, todavia, está em saber se a Rússia de Putin, que olha para Oriente e para Sul, quer colaborar com um país que nos últimos anos lhe tem feito oposição. O problema está em saber se a aliança com os EUA, e com a OTAN por extensão, é assim tão benéfica tendo em conta a inacção na Guerra dos Cinco Dias de Agosto de 2008.

Em quarto lugar, Ivanishvili terá de lidar com as questões dos separatismos da Abkhazia e da Ossétia do Sul. Reafirmar a unidade territorial georgiana, como tem feito Saakashvili, não acrescentará nada a quem quer promover transformações na Geórgia e dificultará o relacionamento com a Rússia, que de resto foi o primeiro estado do mundo a reconhecer as duas repúblicas.

Ivanishvili terá ainda que decidir se mantém a condenação do Genocídio Circasse emitida pelo Parlamento em Maio de 2011, ou se dá um passo atrás para agradar o poderoso vizinho do Norte. E a questão de criar um passaporte especial para todos os habitantes do Cáucaso Norte também terá que ser ponderada, pelo menos se a intenção de diálogo diplomático construtivo for mais do que uma promessa eleitoral.

De qualquer maneira, a Geórgia deu ontem um passo decisivo na construção da sua Democracia. Apesar dos perto de 100 incidentes registados pelos Observadores Internacionais, a votação decorreu com normalidade. Os vencedores e os vencidos aceitaram os resultados. A violência pós-eleitoral não se fez sentir. Falta ver agora como continua esta História...


Monday, October 01, 2012

Leitura (primária) das eleições na Geórgia!

Depois de alguns posts sucessivos a debruçar-me sobre a situação nacional, acho que vai sendo de o Fidalgo mudar de paragens e olhar para outros mundos. E, por defeito de formação e de profissão, no meu mundo Portugal não faz fronteira com Espanha mas com o Cáucaso.

A Geórgia foi hoje a votos numas eleições Parlamentares que, diziam os analistas ocidentais, são primordiais para aferir da robustez da Democracia Georgiana. As eleições de hoje, afirmam alguns, poderão prover dados que confirmaram se este estado do Cáucaso, candidato à OTAN e "amiguinho" (já não se diz vassalo nos dias que correm) dos EUA, ainda se encontra em Transição, ou se já entrou no delicado e mais complexo período de Consolidação.

Ainda é cedo para ter certezas. Para já sabe-se que que O Sonho Georgiano (nome do maior partido da oposição) venceu a corrida em Tblissi (a capital), mas no cômputo global ambos os partidos clamam vitória. Os números vão levar tempo a ser conhecidos, validados e aceites por todas as forças políticas envolvidas. Mas o que fica de mais interessante, numa primeira leitura, são pequenos sinais simbólicos que me foram chamando a atenção.

Por um lado, Mikhail Saakashvili, Presidente da Geórgia, que se afirma pró-Ocidente e pró-Democracia usou, como nunca antes na curta História da Geórgia pós-soviética, o trunfo nacionalista, roçando mesmo a xenofobia, para assustar o eleitorado especialmente das zonas rurais. Saakashvili, de resto, desde que chegou ao poder, pela via da Revolução das Rosas de Novembro de 2003, que tem usado a Nação como forma de manter o seu controlo sobre o aparelho de Estado!

Depois de em Agosto de 2008 ter perdido a Guerra dos Cinco Dias contra a Rússia e de em Abril de 2009 ter enfrentado protestos gigantescos que pediam pela sua demissão, o Presidente da Geórgia percebeu que invocar o Fantasma do Norte (a Rússia de Putin, entenda-se) lhe podia render votos... E ao que parece a aposta surtiu efeito onde se esperava.

Por outro lado, Bidzina Ivanishvili usou como trunfo a sua estória de sucesso pessoal, não fosse este o homem mais rico da Geórgia (apesar de inúmeros relatórios e artigos levantarem dúvidas sobre a legalidade de todos os negócios de Ivanishvili). O líder da oposição, reunida no Sonho Georgiano, almeja destronar Saakashvili e, alega, iniciar um período de verdadeira democratização do país.

Curiosamente recusou-se a exercer o seu direito de voto nas eleições de hoje. Apesar da recusa ser um sinal de protesto ao regime de Saakashvili, o que Ivanishvili  colocou em causa ao não votar foi antes todo o sistema. Ora se o líder da oposição não acredita no Voto, mas quer pelo voto chegar ao poder algo de esquizofrénico se passa! Não podemos acreditar apenas no regime se vencermos... Tal como em Portugal certas personalidades não podem ser Oposição e Governo ao mesmo tempo.

As eleições da Geórgia são importantes, dizem certos especialistas, porque testam o ambiente democrático no Cáucaso Sul (ou Cáucaso independentizado). Na verdade isso parece-me uma hipérbole desnecessária, porque o Azerbaijão está longe de ser democrático, por muitas paradas eleitorais que tenha. E a força da democracia na Arménia em pouco depende do que acontecer hoje na Geórgia. Agora que as eleições de hoje terão influência no processo da sindependências unilaterais da Abkhazia e da Ossétia do Sul disso tenho poucas dúvidas...

Mas para já, enquanto os dados não estão todos na mesa, fico-me por aqui!


Saturday, September 29, 2012

Porque (parece que) se calou o Fidalgo?

O Fidalgo não se calou, mas os acontecimentos políticos têm sido tantos e de tão má qualidade que me vejo assoberbado de coisas para "mastigar" e não tenho tempo de degustar sobre as trapalhadas de uma classe política que precisa, urgentemente, de se renovar. Soma-se a isso o trabalho e a incerteza quanto ao futuro... Pois chega a todos... Mas vamos por partes!

Não gosto de generalizações! Existem muitos políticos competentes na arena nacional. Lamentavelmente perdem espaço perante os sucessivos erros dos seus colegas menos competentes. Existem, no mesmo curso, deputados competentes e motivados, mesmo numa altura em que o país parece atolado e sem soluções para se salvar. Não tiremos o mérito ao todo, por uma parte estar podre. Os políticos bons e competentes existem, precisam (por certo) de mais voz e mais espaço.

Não gosto de apropriações! A manifestação de hoje não foi uma parada da CGTP, mas porque esta central sindical adora apropriar-se dos eventos que organiza não estranho o discurso. Desta vez não fui para a rua e ao ouvir Arménio Carlos falar fiquei contente pela minha decisão. A vontade de ter Estado em todo o lado, a vontade de "lutar" e não colaborar com o sector privado (que adoram chamar de Grande Capital) são apenas duas das muitas ideias erradas!

Não gosto de populismos! O discurso de Arménio Carlos pode ter parecido a muito boa gente combativo, corajoso e "muito verdadeiro" mas a mim pareceu-me demagógico e populista. Um discurso cheio de medidas retiradas da cartilha vermelha dos Comunistas. Um discurso feito para agradar ao "Camarada-Mor" Jerónimo e não para falar do e para o país real. Um discurso que não soube honrar a dimensão de um protesto que se voltou a pautar pelo civismo lusitano.

Não gosto de idiotices crónicas! Acho extraordinário que António Borges continue a ser consultor do Governo. É surpreendente o número de vezes que o Sr. Borges fala e em que se gera polémica por uma notória ausência de sensibilidade humana e por um de sentido de oportunidade sempre inoportuno. Primeiro tínhamos que ser "pobrezinhos" para ser competitivos; depois tínhamos que ter os trabalhadores "a financiarem" as empresas... E ainda vem para a rua com insultos? Por favor...

Não gosto de prepotentes! São pessoas como António Borges que fazem com que Arménio Carlos fale num tom belicista contra o Grande Capital, seja lá o que isso for. São pessoas como António Borges que tornam a imagem do empresário num ser execrável, que se transforma num "bode expiatório" fácil. São pessoas como António Borges que tornam sofrível ouvir os não-políticos falar de medidas políticas... Mas os outros é que são ignorantes, claro!!!

Não gosto de atrasos! Já se percebeu que o Governo ou se renova, ou morre por exaustão. A ideia do Primeiro-Ministro de mexer no Executivo apenas após a aprovação do Orçamento de Estado 2013 pode ser um risco e riscos é tudo o que o país não precisa. Se é preciso remodelar, redistribuir, repensar e re-energizar um Governo em sufoco então que isso se faça o quanto antes.

E o Fidalgo promete que 1.) hoje fica por aqui e 2.) vai tentar recuperar a sua "regularidade"!


Friday, September 21, 2012

Depois de Marchar é hora de 'Vigiliar'!

Depois da Marcha Histórica, desculpem-me mas continuo a achar que fizemos História, que levou mais de quatro dezenas de cidades a saírem para a rua e a exigirem o que devia ser nosso - a nossa dignidade e a equidade das políticas implementadas - chegou a hora ir para Belém mostrar que o momento ainda não passou...

Apesar de o Presidente da República, que vive num País mais Maravilhoso do que o da Alice, considerar que a crise política já terminou, que a Coligação está viva e recomenda-se, os cidadãos parecem não estar tão seguros do mesmo. O momento não é para estabilidades instáveis, feitas de cristal fino e quebradiço. O momento, tenho em crer, também não é para mutações eleitoralistas...

Aliás é interessante que na primeira sondagem pós-Marcha o PSD aparece a descer a pique nas intenções de voto e o PS (apesar de surgir em primeiro lugar) também perde terreno... É interessante ver como os partidos "do sistema" começam a representar cada vez menos gente. Falta, tenho em crer, uma sondagem que incluísse mais partidos para se ter uma noção mais fidedigna de onde param as modas do voto, por estes dias.

É igualmente curioso que uma coligação que se diz forte e para durar, tenha a necessidade de criar um Conselho de Coordenação da Coligação. Ora se tudo corre bem porque razão se criou esta espécie de "guarda pretoriana institucional"? Se tudo corre bem, porque se viu a necessidade de dar um passo no sentido da burocratização da Coligação? E tudo isto, assinalo, numa reunião sem os dois líderes dos partidos coligados... Estão zangados senhores?

O país precisa de mudar, já o disse e vou repetir-me as vezes que forem preciso, mas não acredito em mudanças tipo gelatina instântanea. As coisas levam o seu tempo, para surtirem o resultado certo... E por isso depois de Marchar é chegada a hora de ir Vigiar o Conselho de Estado. Porque a rua deve continuar a ser nossa. Porque, e já o disse antes, a democracia não se esgota na Votocracia...

E porque dia 29 de Setembro não virei para a rua... Sou cidadão... Sou monárquico... Sou português... Mas não sou fantoche das centrais sindicais... Hoje sairei à rua de sorriso no rosto; dia 29 de Outubro fico a ler Pushkin e a beber chá de menta.

Monday, September 17, 2012

Revolução, transição e tortas dancake!

Nestes primeiros dias que se seguiram às manifestações Históricas que pontilharam as cidades portuguesas de Gentes com esperanças de um rumo menos cego, menos tecnocrata, menos desumanizado as leituras que vão sendo feitas pelos analistas e comentadores são quase unânimes (o unanimismo puro é sempre um sinal perigoso!) de que algo começou no último sábado...

Apesar disso, muitas são as pessoas que continuam a achar que o protesto se vai esfumar; muitos são os que apregoam que as 40 marchas vão saldar-se numa mão cheia de nadas. Não podia estar mais em desacordo! Mas antes de dizer os meus quês e porquês, apenas uma menção: é curioso que a maioria dos que acham que "nada vai mudar" sejam os Lordes do Sofá que por comodismo saloio ficaram sentadinhos nas suas poltronas, a ver tudo em directo... Coincidências por certo...

O que se começou no sábado foi um novo capítulo na História da Sociedade Civil. No sábado a Sociedade Civil mostrou que é mais do que um conceito académico, que é um organismo vivo com capacidade actuação, de interacção e/ou de interferência na Sociedade Política (a dita Elite Política). No sábado não foi apenas o dia do BASTA; foi o dia do Nós Existimos. No sábado começámos, não tenho dúvidas, uma Revolução Pacífica e sistémica.

Mas as revoluções, ao contrário dos golpes de Estado, não se fazem de um dia para o outro. Os golpes de Estado para serem bem sucedidos devem produzir efeitos em menos de vinte e quatro horas. As revoluções não se medem pela mesma bitola, pelo seu carácter mais profundo, mais intenso, mais multidimensional. As revoluções implicam transformações ao nível institucional, político, governativo (entendo que a Governação faz parte da política, mas que a política transcende o exercício da Governação) e, notoriamente, ao nível social.

As revoluções implicam estados transicionais (as ditas Transições estudadas pelos transitólogos, como é o caso do Fidalgo) nas quais se assistem a mudanças em vários níveis, em vários momentos, a vários ritmos e sempre com a noção de se atingir um ponto novo, que não sendo necessariamente melhor será obrigatoriamente diferente. Nem as transições, que desembocam em consolidações, nem as revoluções se fazem de modo instantâneo pelo tal carácter profundo, transformador e multidimensional já sublinhado.

Portanto porque acham os amigos Comodistas, aqueles que querem ver o país mudar mas que não se querem empenhar na mudança, que nada aconteceu? Que tudo acabará por não passar de um momento de ilusão e sonhos fátuos? Arriscam-se a ter de mudar o modo de pensar... E arriscam-se, de modo muito sério, a ter de dizer: "podia ter feito História, mas o sofá e duas fatias de torta dancake falaram mais alto"!

E, por agora, quedo-me por aqui...