Saturday, November 28, 2015

Os protestos de Pristina e a nudez do projecto Kosovo

O Kosovo é um estado falhado. Não existe razão para o Fidalgo moderar as palavras, quando a verdade é por demais evidente. Os protestos que hoje abalaram as ruas de Pristina são apenas o culminar de um projecto que nasceu para falhar, porque se instrumentalizou o "Nós" (Kosovares) contra um "Vós" longínquo (Rússia).

O Kosovo tem a sua raison d'être numa compensação pelo etnocídio sofrido pelos Kosovares, cometido pelas mãos das tropas de Milosevic, no decurso da Guerra dos Balcãs. Em 2008, o Kosovo declarou (sabendo que contava com o apoio de Washington!) a sua independência de modo unilateral. Em 2015 pouco mais de 55% dos Estados-membro da ONU reconhecem essa mesma declaração.

O Kosovo foi criado com triplo intento: 1.) dotar a OTAN com um aliado na região, servindo o Kosovo de desculpa para se aliciar a Albânia (a mesma Albânia que no seu projecto nacionalista sonha, a prazo, "engolir" o Kosovo); 2.) enfraquecer a Sérvia, maior aliada de Moscovo nos Balcãs; 3.) minar o soft power da Rússia na região.

O problema é que se os Kosovares se uniram no momento da declaração unilateral de independência, logo se desuniram no momento seguinte. Com uma economia paupérrima, com um governo impreparado e com uma situação social explosiva, o Kosovo tem falhado em se revelar o paraíso pró-Kosovar que era suposto ser.

O problema de se construirem Estados, de modo artificial, e apenas por justificação negativa é que a manutenção da animosidade torna-se na prioridade central. Ora as actuais investidas da Europa da União, para que a Sérvia e o Kosovo cheguem a bom termo, tinham que degenerar em protestos massivos nas ruas de Pristina e em violência verbal e física.

O Partido pela Auto-Determinação do Kosovo já percebeu que os kosovares estão pouco interessados em dialogar com os sérvios, da mesma Sérvia da qual declararam, há menos de dez anos, a cessação. Só a boa-vontade extrema, para não dizer estupidez, de quem vive entre os gabinetes de Bruxelas e Washington para achar que a aproximação seria um processo simples.

Este é o mesmo Kosovo que ainda não conseguiu delimitar as suas fronteiras com a vizinha Macedónia; o mesmo Kosovo que ora aplaude a Europa (quando a mesma "ataca" a Sérvia), ora a crítica de cinismo (quando a mesma não "ataca" a Sérvia); o mesmo Kosovo que protesta sempre com estandartes vermelhos e pretos, mas tem azul e dourado na sua bandeira...

Este é o Kosovo que já foi advertido não uma, não duas, mas várias vezes pela EULEX para refrear o nacionalismo exclusivista e de retórica violenta, que em nada contribui para a construção de pontes de entendimento entre Belgrado e Pristina. Mas se este é o mesmo Kosovo de 2008, a Sérvia essa mudou muito nos últimos anos.

Esta não é a mesma Sérvia dos anos 1990. A Sérvia soube reconstruir-se após a implosão sangrenta da Jugoslávia e é hoje um estado relativamente pacífico, se tivermos em conta o caos na Macedónia, o falhanço do esquisso institucional da Bósnia-Herzgovina, a debilidade no Montenegro e a fragilidade na Bulgária.

Esta é a Sérvia que conseguiu travar a adesão do Kosovo à UNESCO, quando Israel não conseguiu travar o mesmo para com a Palestina. Esta é a Sérvia que manteve laços diplomáticos com a Rússia e a Rússia é talvez o maior vencedor da geopolítica mundial dos últimos três anos. Esta é a Sérvia que dialoga com Bruxelas com prudência, sem as exaltações barrocas de Ancara.

Os protestos que hoje abalaram Pristina são, em bom rigor, uma confirmação do extraordinário fracasso de um país com apenas um aliado próximo, que o quer "engolir"; com uma economia depauperada; com uma população jovem em fuga para as várias capitais europeias; com um problema de legitimidade que legitima o que agora outros fazem. Há que repensar o Kosovo... e ontem já era tarde!

Saturday, November 14, 2015

Notas sobre os atentados de Beirute e de Paris

É triste acordar com más notícias numa manhã, é mais triste acordar com más notícias em duas manhãs seguidas. Acordei ontem (Sexta-Feira 13) com a notícia dos 43 mortos em Beirute, no Líbano. 43 vítimas de dois bombistas suícidas que deixaram ainda um rasto de destruição e mais de 200 feridos.

E hoje acordei (por volta das 07h45, 02h45 em Portugal) com as notícias dantescas de mais de 120 mortes na bela cidade de Paris. O choque que senti roubou qualquer réstia de sono. Enquanto tomava o pequeno-almoço Daesh reclamava a autoria dos ataques, tal como clamara a autoria dos ataques em Beirute.  Não abri logo o Fidalgo, para não escrever imerso em medo. Aguardei...

Os ataques tanto em Paris como em Beirute, porque as vidas orientais valem tanto quanto as vidas ocidentais, são tragédias que mostram o pior do extremismo religioso. E neste caso de um extremismo religioso com características muito próprias, que explicam a natureza dos ataques e das acções levadas a cabo pelo Daesh.

O Daesh é composto, maioritariamente (mas não apenas) por seguidores do Wahhabismo, um movimento Sunita fundamentalista, ultraconservador e que está na origem da formação do reino da Arábia Saudita. O Wahhabismo é a doutrina dominante na Arábia Saudita, patrocinada pela Família Real que deve, em larga escala, a sua subida ao poder aos seguidores deste movimento sectarista.

Para além de todas as questões teológicas que envolvem este corrente islâmica (que se centra na ideia da Unidade ou Singularidade de Deus), o Wahhabismo deve também ser visto como uma resposta-reacção ao Imperialismo Europeu e ao Cosmopolitismo Otomano (Turco). E é neste ponto que, tem em crer o Fidalgo, se encontra a raíz dos ataques dos últimos dias.

É sempre mais simples ligar eventos que já aconteceram e entender o padrão quando o mesmo está já estabelecido, mas essa é uma limitação da condição humana. Podemos analisar o que já foi, o que já aconteceu, e não o que será. Podemos, claro, tentar predizer o que será, mas nunca analisar a previsão que corre sempre o risco de não acontecer.

Beirute não foi escolhida ao acaso. Beirute, também conhecida como Paris Oriental, é o símbolo maior (no Médio Oriente) da sobrevivência do Cosmopolitismo de tipo-Ocidental e da capacidade de várias confissões religiosas viverem lado-a-lado. O Líbano, com todas as suas imperfeições e limitações, "pulveriza" a ideia de que muçulmanos, cristão, judeus, yazidis, zoroastras, mazdas e tantos outros não conseguem viver juntos. Conseguem sim!

Beirute é não só um desafio à lógica ultraconservadora e puritana do Wahhabismo, como é também uma lembrança perene do impacto transformador do Ocidente na região. Isto porque, o Daesh é antes de mais um movimento revisionista, que procura restabelecer a suposta supremacia da Civilização Islâmica da era dos Califados Omíada (responsável pelo estabelecimento do Al-Andalus) e Abássida.

Paris, por seu turno, tem dupla importância: centro do Cosmopolitismo Ocidental e capital de um Império Colonial que teve forte presença no espaço Islâmico. O ataque de hoje é uma prova de capacidade guerrilheira do Daesh ("tenham todos medo, que atacamos até em Paris!"), mas é também um acto de vingança histórica pelos anos do domínio Colonial.

O atentado em Paris prova que a ideia criada de que as Agências Secretas tudo sabem é errada e mostra as fragilidades de uma cidade, que já este ano tinha sofrido o preço da intolerância e do fanatismo religioso. O atentado de Paris prova que é preciso fazer mais, mas isso não implica (como muito acham!) que se deva bombardear mais; matar mais; destruir mais...

Não diz o Fidalgo que não se faça nada, que o diálogo seja a única forma de resolver este assunto (sendo, sem dúvida, a melhor forma de o fazer!), mas entre a necessidade de defesa e a barbárie para acalmar medos, preconceitos e a estupidez individual de certas pessoas vai uma longa distância. Se matarmos indiscriminadamente, com a desculpa de "haverá sempre vítimas" somos iguais ao Daesh.

Os atentados de Paris e de Beirute provam que a OTAN, se quer manter alguma relevância, precisa construir uma estratégia concertada, ou simplesmente seguir a acção iniciada por Moscovo. Em vez da manutenção da mentalidade Guerra Fria que parece dominar ainda em Bruxelas e Washington, na sua oposição vazia-mas-contínua a Moscovo, é preciso uma cooperação efectiva.

Não diz o Fidalgo, até porque seria errado, que a fórmula do Presidente Putin é a mais acertada, mas ao menos existe uma fórmula... Ao passo que do lado do Presidente Obama e seus aliados a prioridade parece ser condenar as acções de Moscovo, sem apresentar um plano alternativo ou sem propor uma parceria que emende e/ou atenue os erros e os excessos do belicismo de Putin.

Os atentados de Paris e de Beirute provam que a estratégia de Ancara, de usar o Daesh como desculpa e instrumento para exterminar os Curdos (os mesmos curdos que são aliados de  Washington!) é perigosa. Tão perigosa quanto a estratégia de Riade, de financiar o Daesh para combater o Irão xiita e a Turquia sunita (mas demasiado Ocidental).

Os atentados de Paris e de Beirute mostram que ou os vários Dr. Frankensteins param de alimentar o Monstro, ou o Monstro acabará por devorar os criadores. E o Fidalgo não fala apenas de Ancara e de Riade, porque Washington e Londres não estão menos isentas de culpa. Porque a solução poderia já ter chegado, se tivesse existido vontade para tal.

Os atentados de Paris e de Beirute não devem ser usados como desculpa para a xenofobia exclusivista, de quem acha que os males do mundo virão com os refugiados. De quem acha que os refugiados apoiam o Daesh, o mesmo Daesh que os transformou em refugiados para começar. A resposta ao Terror não deve ser a acção pelo medo, mas a promoção da tolerância.

Os atentados de Paris e de Beirute não devem ser usados como desculpa para o discurso alarmista e radical, que culpa o todo pela parte. Para quem, como o Fidalgo, se encontra a viver e trabalhar num país de maioria Islâmica (Paquistão), depois de ter vivido e trabalhado num país de maioria Islâmica (Turquia) é claro como a água que grosso-modo os muçulmanos, como os Cristão e os Judeus, são pela Paz, pelo Amor e pela Justiça.

É mais fácil culpar o que não se conhece, o diferente, o que não é como nós, mas lá por ser mais fácil não é mais certo. Se sucumbirmos ao medo, o Daesh vence. Se reagirmos ao Terror como Terror, o Daesh vence. Se respondermos à Violência com Violência, o Daesh vence. Mais do que responder, urge pensar antes de responder. Afinal é tão mais fácil replicar, do que resolver...

Monday, November 02, 2015

Turquia e a meia vitória, para o meio Sultão?

A Turquia foi a votos para eleger os 550 deputados do seu Parlamento, pela segunda vez este ano. O país foi chamado a escolher de novo os seus representantes, depois do desaire das eleições de Junho de 2015 que tiraram ao AKP a maioria absoluta (276 mandatos), com a perda de 53 mandatos, passando o AKP de 311 para 258 mandatos.

As eleições de Junho revelaram que a prolongada estadia no poder, em situação de completo monópolio, instalou no AKP uma série de vícios que tornaram praticamente impossível a prática da negociação. Para o Primeiro-Ministro Ahmet Davutoğlu negociar implica impor ideias, que os demais deverão seguir sem grande contestação.

O AKP vencera as eleições de Junho de 2015, mas o Presidente Tayyip Erdoğan não quis perceber que não existia mais maioria absoluta e não agiu como facilitador do diálogo, muito pelo contrário. Por vezes, com as devidas diferenças, o residente do faustoso palácio de Ancara lembra ao Fidalgo o residente do belo palácio de Belém... Curiosidades, claro está!

As eleições de Novembro devolveram ao AKP a maioria absoluta, mas a vitória teve um travo amargo. Comecemos, contudo, pela vitória. A reconquista dos 53 mandatos perdidos (com adição de 6 novos mandatos) deu ao AKP uma maioria de 317 deputados, feita maioritariamente às custas do esmagamento dos nacionalistas do MHP.

A retórica belicista, com instrumentalização do medo, contra os Curdos e contra uma estranha aliança de forças internacionais (Erdoğan acredita existir uma aliança de forças pró-Helénicas [gregos e cipriotas], pró-Arménia, pró-Israel, pró-Irão, pró-Daesh, pró-LGBTI contra Ancara) agradou ao eleitorado do MHP. Devlet Bahçeli (líder do MHP) é o maior derrotado da noite passando de 79 deputados para apenas 40 e perdendo quase 4,4% do eleitorado.

O HDP também penou na noite de 1 de Novembro. Se em Junho tinha elegido 80 deputados com uns confortáveis 13,1%; agora ficou-se pelos 59 deputados com um resultado tangencial de 10,7% (tendo em conta a barreira-voto de 10%, imposta pela lei eleitoral turca, em vigor desde o escrutínio de Junho de 2015). Os 21 deputados "perdidos" terão sido convertidos quase todos em mandatos para o AKP.

O HDP perde muito do voto que alcançara nos grandes centros urbanos, como Ancara, Istambul e Izmir, voltando a ser um fenómeno das províncias orientais. É de resto curioso notar que enquanto o MHP perde o controlo do distrito do Osmaniye para o AKP e o CHP perde os distritos de Mersin, Eskişheir e Çanakkale para o AKP ("roubando" contudo, ao AKP, o distrito de Aydın), o  HDP não perde nem ganha qualquer novo distrito.

A noite eleitoral revelou ainda a estabilidade do eleitorado do CHP, com uma flutuação de votos abaixo dos 0,4% e com a magra conquista de mais três mandatos. O CHP, contudo, contestou já, pela voz do seu líder Kemal Kılıçdaroğlu, a desigualdade com que os partidos se defrontam nos escrutínios eleitorais da Turquia sob a égide do AKP. A Europa da União, até ao momento, pouco ou nada disse...

O Presidente Erdoğan recuperou o monopólio do poder, pois ninguém sério acredita que os destinos do país estão nas mãos do Primeiro-Ministro, mas falhou, pela segunda vez, o intento de passar os 330 mandatos necessários a uma revisão da Constituição.

Isto porque Erdoğan acredita que o parlamentarismo não serve mais a Turquia, que precisa de um sistema presidencial e, espante-se o leitor, com ele como Presidente... No processo de transformação política, Erdoğan não esconde o desejo de islamizar a Turquia destruindo um dos pilares centrais do Republicanismo de Atatürk: a secularidade do Estado.

Pequena nota histórica: Atatürk atribuía ao multiculturalismo e à não separação das esferas político-religiosas o fracasso do Império Otomano. O seu programa de transformação do país passou por um secularismo agressivo, algo similar ao secularismo da I República Portuguesa, e por uma ênfase na Turquicização da  Turquia, pela construção exacerbada de um ethos nacional exclusivista e tendencialmente xenófabo.

Erdoğan não o diz, sabe que não o pode dizer, abertamente em público, mas vê-se como uma espécie de Atatürk 2.0, ou para ser mais claro como um anti-Atatürk já que tem em mente reverter muitas das iniciativas do "pai" da República da Turquia. O ano passado até a re-introdução do alfabeto otomano (com caracteres perso-árabes) veio à tona... Erdoğan sofre do síndrome do Sultão-tímido.

Construiu para si um monumental palácio com pelo menos 1150 quartos, a que se soma um "anexo" para usofruto da família do Presidente com 250 quartos; chamou a si a prerrogativa de governar o país; criou um verdadeiro culto da imagem, com o seu nome a figurar em cartazes, muppies e a ser o tema dos hinos do partido...

Fez tudo isso mas não teve a coragem, nem tem a legitimidade, de se auto-proclamar Sultão. E como Erdoğan continua a querer sultanear, sem poder ser Sultão, quer servir-se do sistema Presidencial pois é the next best thing.

Nos entretantos demoliu os pilares da frágil democracia na Turquia, com raides a órgãos de comunicação; perseguições que roçam o paranóico e o congelamento do processo de paz. Erdoğan não tem problemas em apontar o dedo às "forças externas" e parece viver ainda numa continuação-continuada-e-a-continuar da Primeira Guerra Mundial...

Davutoğlu, o tal Primeiro-Ministro que é mais Segundo do que outra coisa, já veio defender hoje da necessidade de se transformar o sistema parlamentar na Turquia, num sistema Presidencial. O facto dos turcos lhe terem negado isso mesmo parece contar pouco... Erdoğan quer uma Turquia presidencial. Erdoğan terá uma Turquia presidencial...

Alguma coisa o secundário Primeiro-Ministro terá que fazer bem, depois do fracasso da sua política externa que hostilizou os parceiros OTAN; que congelou, por muito que se façam promessas vãs, as negociações de adesão da Turquia à UE; que transformou o soft power e prestígio da Turquia no Médio Oriente em hostilidade e animosidade. E isto de alguém que antes de ser Primeiro-Ministro fora Ministro dos Negócios Estrangeiros.

As eleições na Turquia terminaram na noite de 1 de Novembro, mas terão reflexo nas semanas seguintes numa Turquia em clima de pré-guerra civil (com a tensão das minorias curdas, alevis e arménias a subir de tom), quase sem aliados nas suas fronteiras (sobrando o periclitante e também tenso Azerbaijão e a frágil Bulgária) e com poucos aliados externos (com Washington em divórcio, Bruxelas descontente e Moscovo desconfiada).