Monday, July 28, 2014

O fim da jornada, ou um novo começo...

A 27 de Junho decidi fazer o jejum do Ramadão, mais por solidariedade e por curiosidade cultural do que por qualquer outra razão. Decidi cumprir os preceitos do jejum do Ramadão, que implicam total abstinência de água, comida, tabaco, sexo, por um ciclo de vinte e quatro horas para entender melhor mas não completamente porque jejuam os muçulmanos.

E ao final do primeiro dia, complicado pelas privações e pelo lento desfiar das horas, decidi fazer mais um dia. E aos poucos o que era um desafio pontual, tornou-se numa maratona em que o corredor não tem que se mover para chegar à meta. Uma maratona em que o importante é não-fazer; uma maratona em que correr não leva a lado nenhum.

E aos poucos o que era um desafio, um mero espreitar e sentir a cultura islâmica, passou a ser parte de mim. Ao jejum adicionei o diálogo comigo mesmo, com a minha alma, com os meus Egos (que isso de ter só um Ego parece-me pouco!). Ao jejum adicionei o diálogo com o Divino, não lhe dando um nome, porque o Divino tem vários... e nem todos de tónica masculina...

O jejum, a privação de comer e beber, trouxe alimento espiritual. Enquanto esperava pelo iftar fui-me alimentando de palavras, de sonhos, de ideias, de pensamentos. Fui-me alimentando de mundo, porque há muito que tinha fome dele... Mesmo sem sentir. O jejum mostrou-me como nos deixamos inebriar pelo acessório, pelo anexo, pelo supérfulo...

Não foi preciso jejuar para dar valor à comida e a tudo o resto, mas só jejuando percebi o total valor de tudo o que temos com facilidade. Do mundo priveligiado em que nasci e no qual, apesar de todos os precalços, podemos viver e não apenas sobreviver. O jejum do ramadão tornou-se assim não apenas numa experiência cultura, mas numa verdadeira escola em que o Mestre e o Aprendente se fundiram!

E ontem à noite terminou tudo! Conheci um egípcio que, pela sua fé, passava pelas mesmas provações que eu passara, por querer apenas conhecer mais. Um egípcio que, com um sorriso solar, fez questão de partilhar o seu iftar comigo. Nada de muito luxuoso, duas sandes de queijo, um sumo e duas peças de fruta. Partilhámos! E a jornada findou...

E hoje que se celebra o meu nascimento sinto que o mais importante é aplaudir esta jornada. No ano em que caso os anos, renovei-me ao alimentar-me de mundo quando tudo o mais estava auto-proíbido. Curioso como o ramadão, este ano, termina na noite em que se começam a celebrar os meus 28 anos, a 28 de Julho... Curioso como as coisas fazem mais sentido, quando não procuramos forçá-lo.

Foram trinta dias que ainda não compreendo; trinta passinhos que dei sem saber para onde; trinta ciclos que completei sem razão, para além da vontade, do querer. Não sei se repetirei a experiência para o ano, não é importante, mas sei que este ano fiz o jejum do ramadão e sei que com o mesmo o Tiago dos 28 anos é bem diferente do que tinha 27 anos...


Thursday, July 24, 2014

Manual de como (Não!) admitir novos membros...

Imagine que funda um Clube de Leitura. E define os membros desse Clube de Leitura têm que gostar de policiais, vestir verde às quartas-feiras e beber whisky. Nos primeiros tempos recebe membros que gostam de policiais, vestem verde em quase todas as quarta-feiras e apesar de não serem fãs de whisky fingem gostar da bebida... Fecha os olhos para evitar desconforto!

E depois surge um candidato ao Clube de Leitura que só lê romances históricos, que veste azul às quartas-feiras e que apenas bebe vodka. O Clube de Leitura, naturalmente, rejeita a candidatura e faz uma série de recomendações caso o candidato queira mesmo ser membro. O candidato finge interessar-se pelas recomendações, mas pouco muda... Seria de esperar que nunca entrasse no Clube...

Surpresa! De súbito alguns membros do Clube de Leitura, que se fundou sobre certos valores, acham importante a integração do membro que não respeita qualquer dos preceitos basilares do Clube. Um dos membros tenta opor-se e no final, para fingir que todos rumam no mesmo sentido, lá consente uma desvirtuação do Clube...

É assim que o Fidalgo vê a adesão oficial da Guiné Equatorial à Comunidade de Países de Língua Portuguesa, vulgo CPLP. A CPLP foi criada para sedimentar laços diplomáticos entre países de língua portuguesa (os tais policiais do Clube!). Mas a Guiné Equatorial não tem o Português como língua, o que de resto se viu ao anunciar a adesão à CPLP em espanhol, inglês, francês... E o Português? Ups!

A Guiné Equatorial não cumpriu qualquer meta na promoção e ensino do português. A antiga colónia de Espanha entra assim na Comunidade de Países de Língua Portuguesa, sem que a população fale português. Ou seja, num Clube em que se lê policiais entra um membro a ler romances históricos. Será só o Fidalgo a achar isto estranho?

E o direito à diversidade de Leitura, a gostar de algo diferente? Neste caso, não se aplica... Se se gostam de outros géneros, procurem-se outros Clubes de Leitura. A adesão à CPLP é facultativa, por isso quem entra devia respeitar as permissas basilares da organização. Ou ainda se corre o risco de a CPLP criar uma aula portuguesa-ó-céptica no seu seio.

A Guiné Equatorial, é certo, foi colónia de Portugal entre 1474 e 1778 (quando D. Maria I cede os direitos a Carlos III de Espanha) mas dificilmente consegue demonstrar um sentimento de forte lusofonia. A lusofonia é algo difícil de categorizar, que leva a tensões entre os vários membros, mas que se sente... A Guiné Equatorial não o sente e é por isso que veste azul, quando no clube todos vestem verde...

A Guiné Equatorial é um dos regimes ditatoriais mais repressivos de África e que menos respeita os direitos humanos. E se é verdade que a ideia de democracia em Luanda não é levada à letra, não é menos verdade que o esforço de Luanda não se pode comparar ao passivismo de Malabo. Por Angola existem progressos e vontade de operar mudança; pela Guiné Equatorial não.

Para o Fidalgo a Guiné Equatorial poderia ser, como era desde 2006, um Observador Associado. Ou seja, um leitor de romances históricos, que veste azul e bebe vodka, que visita um Clube de Leitura centrado em policiais e que, um dia, poderá desenvolver apetite por policiais e vestir verde, enquanto bebe whisky... Mas a admissão como membro de pleno direito tem tanto de cómica (pela irrazoabilidade) como de trágica (pelo que simboliza)!

A entrada da Guiné Equatorial salda-se assim numa manobra diplomática de Luanda e Brasília que querem mostrar a Lisboa que são mais fortes. E Lisboa, para não aparecer isolada, acedeu... Porque no final o importante é dar uma ideia de unidade, mesmo que essa unidade seja em torno de uma desvirtuação completa do sentido original da CPLP.

O Fidalgo aguarda agora para ver qual o próximo membro a entrar para a CPLP. Senegal? Maurícias?  Georgia? Namíbia? Japão? Turquia? Num Clube em que a regra é gostar de policiais, vestir verde às quartas-feiras e beber whisky mas em que quem gosta de romances históricos, veste azul e bebe vodka também é admitido sem reservas pode esperar-se tudo... menos seriedade...


Sunday, July 20, 2014

Democracia (real e substantiva) procura-se...

Uma leitura rápida pelos noticiários deixa a impressão de que muitos países ditos democráticos, ou em transição para a democracia, falharam nos seus intentos. Golpes de estado, guerrilha política, guerra civil e uma panóplia de outros horrores parece mostrar o fracasso da Democracia... A ideia, contudo, não podia estar mais errada!

Nos anos 1990, com a implosão da União Soviética e a desintegração da Jugoslávia, o comunismo sofreu um rude golpe. Investigadores, académicos, transitólogos e actores políticos entraram num frenesim meio histeriónico de que a democratização seria o único final possível para os novos estados... Eram os tempos do Fim da História de Fukuyama e do "caminho único".

Nada mais errado! Não porque a Democracia não funcione, ou porque seja um sistema incapaz de se adaptar a todos os países, mas porque o que se operou não foi uma transição para uma democratização mas antes para o eleitoralismo procedimental. Democracia passou a ser reduzida ao acto de poder votar, sem o cuidado em se desenvolver um pano de fundo cultural democrático...

A disputa no Afeganistão e na Indonésia pela cadeira presidencial, com os dois candidatos a reclamarem vitória e a clamarem inúmeras irregularidades nos respectivos sufrágios, demonstra como sem uma cultura democrática o eleitoralismo procedimental redunda num esquisso institucional débil; incapaz de construir consensos e de levar a compromissos.

A queda de regimes sufragados no Egipto, no Quirguistão e na Ucrânia demonstra como sem o desenvolvimento de uma cultura democrática, as eleições se transformam facilmente num"carimbo" pós-revolucionário e pós-golpe de estado e não no mecanismo de "responsabilização" dos actores políticos e "avaliação de resultados" alcançados durante o mandato.

Os sufrágios ritualistas na Líbia, no Turquemenistão ou no Sudão apenas enfatizam a debilidade de um mecanismo procedimental, sem um trabalho de fundo. Na verdade não se operaram transições para a democracia no pós-1990; operaram-se sim operações de "importação" do eleitoralismo ocidental considerado superior numa lógica neo-colonial e paternalista... Só podia dar asneira...

A transição para a democracia é um processo complexo que não implica apenas uma abertura aos mercados (liberalização), aos voláteis hiper-nervosos e irracionais mercados. A democracia implica uma reconstrução das instituições políticas (modernização); implica uma reconstrução do projecto estado que envolva o cidadão (statehood) e implica um adensar do laço mnésico-histórico-afectivo entre os sujeitos que partilham o mesmo estado (nacionalismo).

O processo da transição é assim composto de, pelo menos, quatro vectores... Mas a maioria das transições operadas desde os anos 1990 até aos nossos dias apenas dão atenção aos dois primeiros, descurando a importância estrutural dos dois últimos. E no final a Democracia parece falhar!!! Mas não se pode dizer que falha, aquilo que não se aplica...

O que falhou foram as transições decididas nos confortáveis gabinetes de Washington e Bruxelas que confiaram mais em Lipset do que em Offe e Kuzio. O que falhou foram as transições decididas por quem foi incapaz de perceber as contextualidade locais, importando um esquisso institucional ao invés de adaptar um sistema político. Ou seja, a Democracia (em muitos casos) não falhou, porque ainda não foi aplicada.


Wednesday, July 02, 2014

Este caminho faz-se jejuando...

Na noite de 27 de Junho, mais por impulso do que por qualquer outra razão, decidi-me a fazer trinta dias de jejum seguindo o calendário muçulmano no período do Ramadão. Não posso dizer que estou a fazer Ramadão porque não cumpro as rezas e os rituais religiosos, para além do jejum. Mas o jejum tenho cumprido com um rigor religioso.

O primeiro dia foi interessante. Sentia no ar a excitação de fazer algo novo. Fui inundado por uma onda de carinho islâmico como nunca pensei... Emails e mensagens de facebook da Jordânia, do Egipto, da Tunísia, da Indonésia, da Somália, do Paquistão, da Argélia, do Canadá, dos EUA desejavam-me força e agradeciam o que era visto como um gesto simpático. Continuar era imperioso...

O segundo dia foi intenso. Deixei de me preocupar com: será que consigo fazer isto? O dia anterior já me dissera que sim. E passei a ter uma questão surda no ouvido: Porque ainda faço isto? E, curioso, não estou preocupado em encontrar resposta para tão pertinente pergunta. Não corri a tentar entender porque fazia o que fazia. E venci o segundo dia...

O terceiro dia foi pacífico. Encontrei paz no jejum. Na ausência das refeições, que controlam mais do nosso dia do que nos damos conta, encontrei uma serenidade que me permitiu continuar com as minhas rotinas. É verdade que as energias são menores, quando a comida escasseia, mas é igualmente verdade que aprendi a gerir as energias com maior eficácia. E fez-se mais um dia...

O quarto dia foi turbulento. Acordei a pensar em comida e, quando estamos em jejum, pensar em comida não ajuda muito. Mas nada como um bom desafio, para fortalecer o espírito. Eu sabia que queria continuar a fazer isto, que tinha que fazer isto; que só saberei porque faço isto, fazendo isto. É a única maneira de chegar ao Conhecimento é pela fazer. E nessa certeza ultrapassei mais um dia.

O quinta dia ainda vai em curso... Faltam menos de três horas para concluir mais um ciclo. E hoje continuo sem saber porque faço isto, mas sei que fazer isto é certo. Tenho sentido uma clarividência e uma criatividade no pensamento como há muito não sentia. Livre da rotina das refeições, entreguei-me à rotina dos pensamentos que me tem ajudado a superar os momentos complicados. E aguardo superar mais um dia...

Não pense o leitor que almejo um lugar como asceta ou como eremita; que faço isto com um qualquer sentido de elevação espiritual. Nada menos certo... Faço isto para me perceber enquanto pessoa e para, despido de certos comodismos, me olhar ao raio-X inquisidor dos meus pensamentos. Faço jejum porque há muito que tinha fome de ideias. E agora deixo que elas me alimentem; que elas nutram o meu corpo.

Nestes cinco dias de jejum aprendi uma coisa: o diálogo interreligioso não se faz dialogando, mas fazendo-se. É preciso agir sobre a vontade de estabelecer pontes que partilham o mesmo Deus, mas não partilham a sua teologia e os rituais. É preciso fazer para mostrar ao Outro, que afinal estamos (Nós) tão próximos do Outro. Porque afinal todos somos o Outro de alguém...

Não sei onde, quando e como terminará este caminho... Mas sei que cinco dias estão quase completos; que 1/6 da jornada está quase feita e que tenho ganho muito. É verdade que não tenho comido, bebido, o que me apetece; mas tenho-me nutrido de ideias e de pensamentos que há muito pareciam ter-me abandonado. Privei o corpo de alguns prazeres, mas dei à alma alimento. E por isso vale a pena.

E que venha o sexto dia...