Monday, November 14, 2016

Chisinau e Sófia vão a votos... Bucareste transpira. Moscovo sorri!

O domingo ficou marcado por duas eleições Presidenciais com vários pontos em comum: 1.) ambas ocorreram no Leste Europeu; 2.) ambas disputavam a segunda volta; 3.) ambas tinham como oponentes um homem e uma mulher; 4.) ambas discutiam, mais do que outra coisa, esferas de influência para os próximos anos.

Na Moldova, o estado mais pobre do continente Europeu e um dos membros signatários da Parceria de Leste, o candidato pró-Rússia, Igor Dodon (Partido Socialista da Moldova) conseguiu 52.2% superando os pouco mais de 47% de votos que alcançara na primeira volta. Maia Sandu (Partido Acção e Solidariedade) ficou-se pelos 47.8%.

Igor Dodon, que defende uma aproximação da Moldova à Federação da Rússia, conseguiu capitalizar no descontentamento dos eleitores para com os partidos pró-UE. E mesmo o facto de Maia Sandu ser considerada uma política honesta, pelo seu não envolvimento nos múltiplos escândalos político-financeiros que têm agitado a República da Moldova, não chegou para travar Dodon.

A taxa de participação na Moldova ficou ligeiramente acima dos 53%, um valor demasiado baixo para um país que elegia pela primeira vez o Presidente por voto popular directo. Nos últimos 16 anos coube ao Parlamento (instituição dominante no regime parlamentar Moldovar) a função de indigitar o Presidente da República.

Na Bulgária, que aderiu à União Europeia em 2007 juntamente com a Roménia (que vai a votos em Dezembro!), com o escrutínio quase terminado, com 99.3% dos votos contados e validados, a vitória recaiu sobre Rumen Radev, candidato apoiado pelo Partido Socialista da Bulgária. Radev conquistou mais de 59% dos votos (59.4%), contra os 36.2% de Tsetska Tsacheva, candidata do partido no poder (GERB).

Ramen Radev, como Dodon, defende uma linha de aproximação político-diplomática entre Sófia e Moscovo sendo certo que Sófia passará a defender o fim das sanções da UE a Moscovo (vêm aí dias complicados para Juncker&Co.!), será menos aguerrida contra as insurgências no Donbass e poderá mesmo formalizar o reconhecimento da anexação da Crimeia.

Resultado imediato da eleição de Radev foi a queda do governo de coligação suportado pelo GERB, que controla as rédeas do poder em Sófia desde Julho de 2009. Eleições antecipadas não acontecerão antes de Março de 2017, uma vez que o Presidente cessante (Rosen Plevneliev) não tem já poder para dissolver a actual legislatura e Radev só o poderá fazer após tomar o cargo a 22 de Janeiro de 2017. Uma vez dissolvido o Parlamento as eleições terão lugar em 60 dias.

Apesar da corrupção ter sido tema dominante, uma onda de nostalgia pela URSS e uma vontade de aproximação ao gigante a Leste num momento de transformação e incerteza no seio da União Europeia terão facilitado a vida de Radev. Esta eleição é tanto uma derrota da UE, que tem resistido a uma restruturação que passe pela devolução de soberania aos estados, como uma vitória de Moscovo que tem sabido capitalizar nas fragilidades de Bruxelas.

A dupla eleição presidencial, na Bulgária e na Moldova, mostrou também um curioso paralelismo com as candidaturas pró-UE a serem encabeçadas por duas mulheres: Sandu (Acção e Solidariedade, Moldova) e Tsacheva (GERB, Bulgária); ao passo que as candidaturas pró-Moscovo foram encabeçadas por dois homens do, ou apoiados pelo, Partido Socialista: Dodon (Moldova) e Radev (Bulgária).

A dupla eleição presidencial irá, seguramente, ter reflexos nos desenvolvimentos políticos na vizinha Roménia, que se prepara para ir a votos, para escolher uma nova composição parlamentar, a 11 de Dezembro. É pouco expectável que a Bulgária saia da UE ou a Moldova desista da Parceria de Leste, mas é altamente provável que ambas esfriem o seu euro-entusiasmo e re-aqueçam as relações com Moscovo.

Thursday, November 10, 2016

O primeiro olhar sobre a peculiar eleição presidencial nos EUA

Tenho andado ausente do comentário político e peço desculpas por isso. As novas funções como Coordenador de Licenciatura acabaram por me "roubar" mais tempo do que previsto, e a estas somaram-se funções honoríficas numa série de eventos locais... Mas, aos poucos, tentarei retomar o contacto com a actualidade.

E nada melhor do que re-começar com o tema quente do momento: a eleição de Donald Trump como 45º Presidente dos Estados Unidos da América. Começo por responder a uma questão: em quem votaria? Em ninguém. Como monárquico convicto que sou, não entendo a utilidade da selecção do Chefe de Estado pelo voto popular. Se fosse norte-americano iria descarregar o voto em branco.

Poucos analistas, eu incluído, levaram a sério a candidatura de Donald Trump, quando este anunciou que estava na corrida para a nomeação do Partido Republicano. Em sala de aula cheguei mesmo a dizer aos alunos de Introdução à Ciência Política que as hipóteses de Trump, comparado com Rubio ou Bush, eram mínimas. Estava errado...

Olhando com atenção e curiosidade para o decurso das primárias, em ambos os partidos, comecei a mudar a minha posição. Só os tolos não se adaptam aos factos! Quando regressei a Carachi, em Agosto, assumi por mais do que uma vez que Trump tinha imensas hipóteses de vencer. E não me foquei na parolice insuflada do "discurso do ódio" e do "eleitor-burro". Foquei-me em factos!

Ignorar, como os media e muitos analistas fizeram, o simples facto de Trump ter tido umas primárias sobejamente mais complicadas (à partida) mas, curiosamente, menos dramáticas (à chegada) e de Clinton ter tido o inverso foi algo que me recusei a fazer. É certo que a máquina partidária Republicana reagiu, e muito, contra Trump. Mas é igualmente certo que a Convenção não foi tensa ou dramática como se previa.

Já Hillary Clinton, com a máquina partidária do seu lado (lembremo-nos que a esmagadora maioria dos super-delegados quase automaticamente declararam votar Clinton!) e com os media enamorados por ela, chegou à Convenção dependente de Bernie Sanders. No final do dia foi Sanders, aliás, quem desbloqueou a Convenção, num gesto de extrema lealdade para com o partido Democrata.

As primárias ficaram marcadas pelo tema do "anti-sistema", mas a máquina mediática preferiu focar-se nas gaffes e lapsos linguísticos de Donald Trump. Não querendo escamotear algumas das suas propostas, ficou a impressão de uma ênfase exagerada nos seus traços negativos, quando do outro lado da mesa estava uma política experimentada com provas dadas... e algumas delas com maus resultados ou más práticas.

As primárias falaram alto contra o tal sistema e a hostilização do partido Republicano a Trump, acabou por cristalizar a imagem do guerreiro-solitário que diz o que quer, quando quer, como quer, porque não deve nada ao partido. No outro lado da mesa, com mais tacto e menos verborreia, Sanders tentava fazer o mesmo. Mas Clinton tinha, porque tinha, que ser nomeada e candidata. Afinal já falhara umas eleições primárias em 2008...

É aqui, para mim, que Trump constrói a sua vitória. Soube cavalgar a onda de descontentamento e usar as múltiplas adversidades em sua benesse. Não querendo fazer de Trump um paladino destas eleições, parece-me erróneo ignorar o facto dos jornalistas, analistas políticos, políticos de várias sensibilidades, artistas e académicos terem gozado (literal e metaforicamente!) com Trump. E agora, com o ceptro nas mãos, Trump pode rir-se de todos.

Trump até pode ter dito muita algaraviada e patacoada, mas não tentou focar a sua eleição nos seus órgãos genitais como Clinton acabou por fazer, em muitas instâncias. Disse muito impropério mas a sua agenda era menos oca, mesmo que a possamos rotular de perigosa ou turculenta, do que se tentou "vender".

Clinton mostrou, especialmente nos debates, um lado arrogante, frio, pouco empático e elitista que afastou o eleitorado e que justifica, e muito, a vitória Republicana em todas as frentes. Numa análise fria à linguagem de ambos, nos debates, nenhum sai a ganhar. Mas ao menos Trump assumiu a sua saloice, enquanto Clinton tentava disfarçar a coisa... mas mal...

Os erros de Clinton, na governação, também não ajudaram. Parece-me extraordinário que muito comentador e comentadeiro tenha tentado ignorar, de propósito, as amizades com a Árabia Saudita, os erros graves na Líbia, ou a linguagem confrontacional com Moscovo. O foco era sempre o putativo muro no México, que Trump de resto desmistificou na sua viagem... ao México.

Achei ainda mais curioso, para não dizer ridículo, ter que ler e ouvir muito Europeu criticar a ideia de Trump de expulsar emigrantes ilegais dos EUA (Trump tem pouco, se algum, interesse em expulsar/deportar as comunidades emigrantes legalizadas e a residir nos EUA!), quando muitos desses mesmos Europeus defendem quotas apertadas para a entrada de emigrantes sírios, iraquianos e afegãos na Europa. Um pouco de bom-senso não custa nada pessoas!

O sentimento anti-sistema não é sequer uma novidade. É certo que o UKIP elegeu apenas um deputado nas últimas legislativas de Maio de 2015, mas no voto nacional surgiu como a terceira maior força com 12.6% dos votos. É aliás esse o elemento que tantos comentadores e analistas ignoraram nas suas previsões do referendo ao BREXIT. O voto no UKIP mostrava já descontentamento, mas a arrogância do "sistema" não quis tirar ilações e lá veio "surpresa"...

As eleições na Polónia, em Outubro de 2015, e que resultaram no tal eixo democrático iliberal entre Varsóvia e Budapeste também davam sinais de que havia mudança no ar. E os bons resultados da direita populista na Finlândia, na Suécia, na Dinamarca e na Alemanha (as últimas eleições em Berlim mostraram isso mesmo!) também davam a entender que ou o sistema se reforma, ou o eleitor elegerá quem promete demolir o sistema. Reformar ou implodir!

Para os mais argutos, até os eventos no Brasil com o impeachment de Dilma Rousseff podem ser entendidos como um sinal curioso. Somando a isto, a eleição de Duterte nas Filipinas e as transformações políticas na China comunista e na Turquia pós-golpe; eventos que criaram o cenário político internacional propício ao discurso de Trump. Não ignoro que Trump se apoiou no medo e nas fobias da população, mas que falou também sobre problemas com os quais o eleitor se identificou.

Hillary Clinton sobrestimou a agenda vaginista (desculpem-me a linguagem!) que queria colocar uma mulher, apenas por ser a Primeira Mulher Presidente nos EUA (porque por esse mundo fora, temos tantos exemplos de mulheres no poder!). Não me entenda mal o leitor, acho que as mulheres são tão talentosas quanto os homens em qualquer função, mas não acho que a ênfase nos órgãos genitais seja razão para eleger pessoa A ou B. Clinton não percebeu que a mesma agenda falhara na ONU...

Quem também falhou e muito (e de propósito!) foram as sondagens. Todas as sondagens davam Clinton como 45ª Presidente dos EUA e no final todas elas falharam. O eleitor bofeteou as sondagens e, tenho para mim, deu cartão vermelho ao (quase-inexistente!) legado Obama. Porque no final do dia as altas promessas de Barack Obama ficaram maioritariamente por cumprir. Pergunto-me se a Academia Sueca aceitará a devolução do Nobel entregue em 2009...

O mais curioso de tudo foram as reacções pós-voto, que me fizeram lembrar a azia da direita "pafista" em Portugal, no final das última legislativas. Em Portugal quiseram deturpar o sistema transformando a noção de "quem tem maioria" na noção de "quem chega primeiro". Peço imensas desculpas se ofendo alguém mas é mais idiota e burro quem acha que o eleitorado é burro e idiota só porque o eleitorado não confirmou uma certa visão de mundo.

Em Democracia não temos que gostar do resultado pós-eleitoral, mas temos que o respeitar. Pedidos de repetição do escrutínio, de limitação do direito ao voto e outras tantas parvoíces são apenas um atestado de ignorância a quem os faz. E se o sistema eleitoral nos EUA é injusto, e tenho em crer que será esse o caso, a sua reformulação terá que ser feita a montante do ciclo eleitoral e não a jusante deste. Mudar as regras agora seria imoral, pouco ético e simplesmente cretino.

Igualmente desnecessário é o discurso do apocalipse e do fim do mundo. Parem lá com essas tontices das datas e das efemérides forçadas. No final do dia Trump, como qualquer outro Presidente, terá uma série de limitações constitucionais ao seu poder e dependerá (em larga escala!) da sua equipa governativa. E, para os mais distraídos, Trump foi apenas eleito Presidente nos e dos EUA...

(Amanhã, se for preciso, escreverei sobre o impacto pós-eleitoral de Trump, mas sem alarmismos e catastrofismos bacocos)