Tuesday, September 22, 2015

Há quarta será de vez, caríssima Grécia?

A 20 de Setembro de 2015 a Grécia enfrentou o quarto escrutínio legislativo, em menos de quatro anos, depois das legislativas de Janeiro de 2015 (vitória do SYRIZA), de Junho de 2012 (vitória da Nova Democracia) e de Maio de 2012 (vitória da Nova Democracia).

A corrida eleitoral grega, aliás como a corrida eleitoral no Reino Unido e em certa medida na Finlândia, ficou marcada por sondagens que falavam num empate técnico, que logo a realidade se encarregou de desmentir. Aliás as sondagens, este ano, em solo europeu parecem todas destinadas ao fracasso. Ou as empresas de sondagens encontram novas metodologias de trabalho, ou ficam quietas no seu canto...

O SYRIZA foi o vencedor da noite com 35.5% dos votos (apenas menos 0.8% do que em Janeiro de 2015, quando chegou aos 36.3%), que se saldam em 145 mandatos no Parlamento Helénico. É sempre importante lembrar que a Constituição Grega prevê que o vencedor das eleições ganhe automaticamente um bónus de 50 mandatos, de modo a facilitar a formação de governos de maioria monopartidários.

A noite de 20 de Setembro confirmou assim a sedimentação do SYRIZA como uma força política a ter em conta na Grécia, tirando crédito a quem achava que o partido liderado por Alexis Tsipras era um epifenómeno passageiro apenas e só fruto da crise em que a Grécia mergulhou em 2008. Após vencer o escrutínio de Janeiro, e o referendo de Julho (que acabou por resultar num volte-face do governo e na "queda" de Varoufakis), Tsipras consegue de novo galvanizar o cidadão-eleitor.

Em segundo lugar veio a Nova Democracia, com o seu novo líder Vangelis Meimarakis, a conseguir mais 0.3% do que em Janeiro (passando de 27.8% a 28.1%) mas, curiosamente, a perder um deputado baixando de 76 para 75 mandatos. Em Junho de 2012 a Nova Democracia tinha 129 deputados e pouco mais de três anos depois reduz para 75. Uma perda de quase 60%!

O terceiro lugar ficou nas mãos da extrema-direita do Aurora Dourada. O Aurora Dourada é de resto um dos vencedores da noite eleitoral, confirmando-se como a terceira força política. Curiosamente nas últimas eleições o Aurora Dourada tem apresentado resultados similares, entre os 6% e os 7% (conquistando 17 ou 18 mandatos), devendo por isso o estatuto de "terceira força" mais a uma pulverização de votos por outros partidos políticos do que a um real incremento de votos.

O PASOK, talvez o partido mais castigado pelos cidadãos-eleitores desde 2008, surge em quarto lugar com menos de 6.5% (6.38%), que se traduzem em 17 mandatos. É importante sublinhar que os resultados confirmam um "renascer", suave mas consistente, do PASOK, que tem agora 6.38%, quando em Janeiro tinha apenas 5.2% e em Junho de 2012 se quedava pelos 4.7%. Ainda longe, contudo, dos quase 14% de Maio de 2012.

O Partido Comunista Helénico surge em quinto lugar com 5.6% (micro-variação de 0.1% em relação aos 5.5% de Janeiro) e 15 mandatos, tal como alcançara em Janeiro de 2015 e em Junho de 2012. Um pouco como em Portugal, também na Grécia o Partido Comunista parece conseguir capitalizar com a crise mas não de modo extraordinariamente expressivo.

O Potami e os Gregos Independentes, que de independentes têm muito pouco, surgem no lado dos não vencedores da noite. O Potami perde seis mandatos (tendo agora 11 deputados, ao invés dos 17 deputados conquistados em Janeiro) e 2% dos votos (de 6.1% para 4.1%). Já os Gregos Independentes, parceiros de coligação do SYRIZA, perderam 3 mandatos (somando agora 10 deputados e não 13) e 1.1% de votos.

O grande vencedor da noite, para o Fidalgo, foi o partido da União dos Centristas. Criado em 1992, esta força política nunca antes conseguira entrar no Parlamento. E consegue fazê-lo conquistando 3.4% dos votos (um aumento de 1.6% em relação a Janeiro) que lhes dão os primeiros nove deputados.

Já os perdedores da noite são os candidatos do Unidade Popular, força política que surje de uma cisão interna no SYRIZA, e que agrega uma visão mais anti-austeridade e menos colaboracionista com Bruxelas. Ficaram a uns míseros 0.1% de entrar no parlamento, mas a verdade é que não entram e correm, por isso, risco de desaparecer na espuma dos dias que se seguem.

As eleições confirmaram a exaustão do eleitorado grego. O taxa de participação ficou-se pelos 56.6% o pior resultado alcançado desde 1951, num país tradicionalmente com altas taxas de participação. Curiosamente, a Grécia tem obrigatoriedade do voto inscrita na lei, mas nunca foram utilizados mecanismos sancionatórios aos cidadãos que não exercem o seu direito ao voto.

As eleições parecem mudar pouco, sendo quase certa a manutenção da coligação SYRIZA + Gregos Independentes (145 + 10 = 155 mandatos), mas mudam bastante.  Após romper com muitas das promessas feitas em Janeiro de 2015, Tsipras sabia que precisava de um novo mandato que confirmasse que o povo grego ainda quer seguir o seu plano. E a verdade é que Tsipras ganhou a aposta, os gregos querem seguir o seu plano.

As eleições colocam agora a pressão no novo governo, que será confirmado o quanto antes, para implementar o duríssimo pacote de medidas assinados no âmbito do terceiro resgate financeiro. O maior problema, todavia, não será aprovar leis no Parlamento, mas fazer com que as mesmas produzam os efeitos esperados fora do Parlamento. Há quarta será de vez? Ou caminhamos já para o quinto escrutínio?


Saturday, September 19, 2015

Que haja medo, mas não falhe a memória...

As vagas de refugiados e de migrantes transformaram as redes sociais num "circo" meio-pateta, meio-parolo, de argumentos exacerbados. Uns porque iam expulsar os "racistas" e "xenófobos" das suas listas de contactos; outros por sabiam o perigo que aí vinha, quais videntes recém-desabrochadas. E o Fidalgo meio perdido...

Comecemos então por clarificar as coisas. Apesar de os media nacionais e internacionais (com honrosa excepção da Al-Jazeera e da Reuters) optaram pelo simplismo de ver em duas correntes migratórias distintas o mesmo fenómeno. Os refugiados que vêm da Síria e do Iraque e os migrantes económicos que vêm do Nepal, Bangladesh, Afeganistão e Paquistão não podem, nem devem, ser vistos da mesma forma.

Os refugiados, como o próprio nome diz, procuram refúgio porque a sua segurança reduziu-se a um grau 0. Em segurança humana diz-se que uma pessoa, ou estado, é mais seguro quanto mais livre for do Medo e das Necessidades Básicas. Ora um refugiado é prisioneiro de ambas... Do medo e das necessidades básicas.

O migrante económico encontra-se numa situação bem diferente, não tendo liberdade nas suas Necessidades Básicas mas sendo um pouco mais livre quanto ao Medo... Até pode existir falta de esperança, e alguma ansiedade que gera insegurança, mas não existe o medo como centro gravitacional das suas decisões. O migrante económico, in extremis, tem sempre outra solução. O refugiado, se quiser viver, não!

Entendidas as duas vagas que assolam a Europa, o que apraz mais, ao Fidalgo, dizer? Dizer que esse discurso do "eles vêm para nos invadir" já é velhote. Primeiro eram os emigrantes de Leste que eram todos traficantes, e "ai Santíssimo que lá vem a droga toda e lá se vai o meu rim, num ruela menos iluminada". Depois eram os Chineses que "comiam gatinhos ao pequeno-almoço" e "roubavam pâncreas nas mercearias".

Mais, se o medo é de que eles (os tais Muçulmanos) nos invadam tenho a dizer que o medo vem tarde. Primeiro porque os Muçulmanos já vivem entre nós (serão mais de 50.000, o equivalente aproximado à população de Viseu), e até ao momento com extraordinário grau de sucesso na sua integração no tecido social português. Segundo porque esses mesmo Muçulmanos vivem, simbolicamente claro, na nossa boca... todos os dias...

É para expulsar os Muçulmanos todos e as suas influências? Boa! Comecemos por dizer adeus a todos os vocábulos com "al". Vai ser interessante saber se "(al)guém quer (al)guma coisa do (al)guidar". E ir às compras passa a ser complicadote; porque do açúcar, ao limão, do xarope ao açafrão tudo são vocábulos árabes que latinizamos. E diga adeus a tocar tambor e a jogar xadrez. E expressões como Salamaleque Oxalá reprima-as com veemência.

Os tais Muçulmanos perigosos que D. Afonso Henriques combateu tão valoroso, eram tão nefastos que o Primeiro Rei de Portugal teve uma filha de uma muçulmana. As coisas que nos esquecemos... Mais ainda, D. Afonso Henriques (século XII) permite aos muçulmanos dos territórios conquistados que fiquem a viver em bairros próprios: as Mourarias. Quando for à Mouraria em Lisboa cuidado... que é território deles...

D. Afonso III, que terminou a conquista e usou pela primeira vez o título régio de Rei de Portugal e dos Algarves, também ele teve um filho de uma relação com uma muçulmana. Aliás, os muçulmanos são apenas expulsos de Portugal bem no final do século XV (1496), quando D. Manuel I (sob pressão da vizinha Espanha e do Papado Romano) promulga o Decreto de Expulsão dos Judeus, que logo se estende aos muçulmanos. Tão perigosos que eles são...

Os perigosos muçulmanos são amplamente responsáveis pelo apogeu do Estado Português. Não só muitos dos intrumentos de navegação, utilizados pelos navegadores Lusitanos, eram de origem árabe, como muitos navegadores Portugueses recrutaram árabes (sem medo, nem nada!) nas suas viagens. E, já agora, a numeração que usamos hoje em dia é um legado... árabe! Lá teremos que voltar aos números romanos. Imagino já as contas no próximo Orçamento de Estado.

Mas eles querem invadir-nos? Querem? E para isso enviam homens cheios de fome, crianças em situação de orfandade e mulheres dispostas a dar a alma pelos seus filhos? Daesh quer muita coisa, entre as quais dominar a Síria, o Iraque e a Líbia, mas se Daesh quiser invadir a Europa será com a força das armas e não com um "exército" de almas famintas por um pouco de segurança; por uma noite som o trovão das bombas.

E os Lobos Solitários? Claro que no meio das centenas de milhar de refugiados existirão elementos radicais, prontos a tudo; mas a primeira linha de defesa contra esses, serão os restantes refugiados que vêm apenas em busca de um sítio onde possam viver. Não vêm em busca do Sonho, mas sim em busca de Vida. Pior do que a xenofobia, só mesmo a crueldade gratuita, que o medo faz algumas pessoas exibirem.

Esqueçamos que os acordos internacionais nos obrigam a acolher estas pessoas. Está esquecido? Boa! Mas não esqueçamos que um país que participou na aliança de invasão ao Iraque, como nós, tem uma dívida moral para como estas pessoas. Um país que se fez ao mar para ter futuro, não pode impedir os outros de se fazerem às suas estradas, em busca também eles de um futuro. Que haja racismo, mas não falhe a memória.

Entristece-me ver uma Europa de Leste que parece ter esquecido o que aconteceu com o colapso da União Soviética. De como "expeliu" uma imensão de pessoas por essa Europa fora e agora se arreiga nas suas novas torres de marfim, com os portões cerrados e uma cara feia. Entristece-me quem ainda ontem recebeu e hoje já não parece querer (ou saber?!) dar.

Entristece-me, e envergonha-me, o florescimento em Portugal de várias "boas samaritanas" que não querendo ajudar os refugiados, se lembraram de súbito que existiam pedintes. Os mesmos pedintes que ainda no dia anterior ignoraram com um sorriso no rosto e quiçá com um comentário venenoso. Mas hoje: "ai os nossos pedintes coitadinhos, que ninguém os ajuda". A questão nunca pode ser ajudar A ou B; terá que ser sempre ajudar A e B. Simples, não é?

Que mal farão os refugiados e os migrantes económicos, no interior de um país despovoado? Que mal farão famílias novas, num país com fracas taxas de natalidade? Que mal farão pessoas com esta fibra, num país, por vezes, demasiado amolecido? Que mal farão aos que já aí estão, aqueles que lutam apenas pelo direito a existir? É mais simples deixar morrer, para sossegar os medos? Espanto-me com tudo isto...

No final a questão é apenas essa. O que triunfa? O medo preconceituoso e cheio de estereótipos? O racismo que nos cataloga em "Nós" contra "Eles"? A xenofobia que excluí com violência, o que simplesmente não entende? Ou a solidariedade? A capacidade de superar o susto inicial e de ver para além do que parece óbvio?

Onde há fumo há fogo, diz o povo. E o povo até está certo; mas não confudamos o fumo de um barbecue familiar, com o de um incêndio dantesco...


Tuesday, September 15, 2015

Crónica do 15 de Setembro ou ter asas e querer voar

15 de Setembro, 2013. Lisboa, Portugal. Pouco passa das onze da manhã quando desligo o telefone. Pelo meu rosto correm lágrimas, num regato desordeiro que ameaça manchar os bilhetes que me levaram até Ankara. A voz da minha mãe foi a última que ouvi. E sei que ela, do outro lado da linha, sentada num sofá azul, também estará em lágrimas.

Os últimos dias por Portugal foram de despedida. Fui surpreendido por várias manifestações de carinho que me encheram o coração. Não serenam os medos e os anseios, mas ajudam a gerir os mesmos. Dias de "Adeus e Até Já" antes de me lançar ao desafio fora de portas. Sei que começará aqui uma nova etapa, mas apenas sei isso. E não saber mais inquieta-me.

O embarque começa. Olho Lisboa uma última vez e avanço pelo corredor. Seguirei primeiro para Istambul, onde farei escala antes de chegar a Ankara. E depois terei alguém esperando que chegue, para me levarem até Kirikkale. E será aí, em Kirikkale, que começará um novo ciclo. Sorrio perante os planos e sonhos que tenho, mas as lágrimas insistem em cair. E sem me aperceber, antes mesmo de entrar no espaço aéreo do país hermano adormeço...

15 de Setembro, 2014. Kirikkale, Turquia. Já cheguei a Kirikkale faz dois dias e curiosamente preparo-me para seguir para a ilha grega de Rhodes dentro de uma semana. Mais uma conferência. Cheguei para o meu terceiro trimestre em terras estrangeiras, mas desta vez chego com a ideia da partida na minha mente. E isso anima-me.

Não a partida temporária para Rhodes, que dias depois será revertida, mas uma partida diferente, no final do ano, quando as folhas do calendário deixarem de acabar em "14" e passarem a "15". Enquanto faço a mala, para essa curta viagem à Grécia insular, dou por mim a pensar como é que um português, se preparara para seguir para a Finlândia, depois de receber uma proposta no Qatar.

Ainda não é certo que siga para o Norte da Europa, depois de ter um pézinho no Médio Oriente. Mas as coisas parecem fluir nesse sentido. Estou feliz aqui, penso enquanto arrumo mais uma gravata na mala, onde me deram oportunidade de "abrir as asas"; mas agora que as estiquei quero voar. Vou olhando em redor e parece que já sinto saudades do que ainda nem sei se perdi, por talvez ir para onde nem sei se irei. Fecho a mala e vou jantar...

15 de Setembro, 2015. Karachi, Paquistão. Estou aqui há quase três semanas. Desta vez sem lágrimas. Sempre com um pequeno aperto no coração, com o que fica para trás, mas com um grande sorriso no rosto. Depois de peripécias inesperadas pelo Norte da Europa, vim para o Sul da Ásia. Voltei a pular e a colocar mais um "pin" no mapa.

São quase 20h. Na Turquia e na Finlândia serão 18h. Em Portugal apenas 16h. Preparo-me para mais um jantar e dou por mim a fitar a moldura electrónica onde rostos que me são familiares desfilam. Cheguei aqui com todos eles e muitos outros. Vim, pela primeira vez, sem planos; sem pretensões; sem projectos de monta. Vim.

E ao final de quase três semanas aqui e de dois anos a trabalhar fora do meu país sinto-me mais Eu. O caminho tem tido curvas perigosas, obstáculos inesperados, desafios complexos mas tem sido feito. Se fosse em linha recta já teria abandonado o percurso, porque seria menos Eu. Não nego saudades e tristezas, mas ainda não estou completo. Faltam peças neste puzzle de que sou feito.

E aqui encontrarei mais algumas. E, quem sabe, no próximo 15 de Setembro estarei noutro ponto. As asas estão esticadas e, em tendo boas correntes, estou sempre pronto a voar. E um dia, com o puzzle quase completo, voltarei ao ponto de origem, de onde saí a 15 de Setembro de 2013 e lá, e apenas lá, completar-me-ei. Até lá seguirei explorando...

Sunday, September 06, 2015

E uma semana depois o calor abraça-me...

São quase 19h. O ar enche-se com o som harmonioso vindo do alto dos minaretes que chamam os fiéis para mais uma oração na mesquita. Um calor pegajoso tem-me acompanhado desde que o dia começou. Comecei o dia a achar que nunca sentira nada assim, mas não levei tempo a lembrar-me que já conhecia este calor... Que ele não era novidade!

Curioso como o calor que sinto aqui, no mais recente ponto do planeta onde habito (Ásia, Paquistão), me lembra o calor que senti ao aterrar na minha primeira viagem fora de Portugal, se excluirmos as idas a Badajoz... Foi em Manaus, no Brasil, que senti um calor tão intenso como aqui. Foi nesse lugar mágico que me transformou em viajante que o senti pela primeira vez.

Manaus simboliza sempre o ponto de partida. A primeira vez que saí de Portugal num contexto semi-profissional: na altura, num projecto de intercâmbio universitário. E durante esse mês em Manaus senti sempre o abraço abafado desse calor constante que, após anos, voltou a entrar no meu dia a dia. Curioso como as coisas parecem ser tão circulares e quando achamos que algo é um ponto de partida, afinal era apenas uma chegada...

Há uma semana atrás, por esta hora, estaria ainda a sobrevoar solo europeu. Milha a milha aproximava-me de Istambul onde embarcaria num segundo voo para Karachi, quase sem direito a pausa para esticar as pernas. E pela madrugada mais de quatro da manhã (pouco passaria da meia-noite em Lisboa) aterrei no novo desafio: Paquistão.

E uma semana já terminou. Já conheci colegas novos e alunos novos. Já tratei de burocracias e de papeladas. Já visitei edíficios que passarei a conhecer melhor. Já explorei o meu novo gabinete. Já comecei novas disciplinas que me foram confiadas. Já conheci uma pontinha da frenética e gigantesca Karachi. Já fiz...

Quando fui para a Turquia tracei largos planos e muitos projectos. Realizei alguns, mas deixei muitos em stand-by. Depois deixei que a confiança e a racionalidade me guiassem e segui para a fria Finlândia. Por vezes é preciso arriscar, dizem, e eu achei que seria esse o meu momento!

E o que parecia um ciclo interessante, passou a nada por causa de nada. Mas como não me faço com o nada segui em frente. E cheguei aqui. Saí da Ásia Média, para a Europa do Norte para vir ter ao Sudeste Asiático.

Nos dias que antecederam a vinda muitas dúvidas, medos, interrogações assaltaram a minha mente. E se não gostarem da primeira aula? E se eu não gostar do país? E se não correr bem o voo? E se não tiver boas instalações?

Mas as dúvidas podem reduzir-se a um nada, que não as nadifica mas silencia-as. E eu sabia que teria que seguir para um novo desafio. Que não podia parar agora. Não agora! Que só seguindo poderia partir em busca de resposta. Ou apenas em busca...

O calor continua aqui. Ao meu lado. No meio do salão comum da residência para docentes onde agora habito. O salão que permanece quase vazio. Ninguém mais para além de mim, do calor que me abraça e do silêncio.

Vi um colega meu lá em cima e sei que mais dois andam pelo edifício, mas não estão aqui. Também eles seguem em busca para as interrogações que os assaltam. Também eles vieram para aqui, porque estar por ali não dava, não era certo, era nada...

Deixo sempre em Portugal amigas e amigos com lágrimas nos olhos; deixo sempre em Portugal familiares de coração apertado; deixo sempre em Portugal conhecidos em estado de ansiedade. Deixo sempre Portugal... Mas nunca esqueço... E enquanto o abraço do calor não desenlaça; enquanto o tempo não passa; vou ficando por aqui.

Vou lendo, vou sonhando, vou escrevendo, vou lembrando e vou vivendo... E amanhã serão oito dias!


Tuesday, September 01, 2015

Mais um Primeiro Dia...

Ainda não sei bem o que me atemoriza mais, se o primeiro dia de aulas como aluno, se o primeiro dia de aulas como professor. Tenho fiapos de memória do primeiro dia de aulas na primária. Recordo a luz morna de Setembro sobre um edifício rosa, no qual ansiava entrar. Lembro da escadaria; dos corredores de pedra; da sala de aulas. Do rosto da professora e de como queria aprender mais, mais, mais.

E não esqueço o que senti quando dei aulas, fora de Portugal, na primeira vez. De como desci as escadas com vagar, para disfarçar o tremor nas pernas; de como memorizei quinze frases que iniciariam a aula e de como não disse nenhuma; de como sabia que aquele primeiro momento não se repetiria. E ficaria guardado... E hoje repetiu-se o ciclo!

Acordei cedo, ainda não eram sete da manhã, abraçado pelo calor pegajoso do Sudeste Asiático. Não me custou a abandonar a cama fofa e de proporções generosas do quarto 9. Tomei um duche sem pressas, com a água fria a desfazer o enlace apertado do calor enquanto pensava em de tudo o que ficara por Portugal para eu vir para aqui: Karachi, Paquistão.

De como uma vez mais caíram lágrimas do rosto da minha mãe, que me vê partir cada vez para mais longe. De como uma vez mais ficaram as minhas irmãs entre a preocupação nervosa e o orgulho cintilante. De como os amigos e as amigas ficaram surpresos. De como uma vez rumei a um destino desafiante.

O pequeno-almoço chegou na hora marcada: 07h45. Saíra do banho há menos de 15 minutos e já as gotículas de suor teimavam em surgir na testa. Posicionei-me debaixo da ventoínha, mas o calor é omnipresente por estes lados. Resignei-me, por agora... Chá, fruta, torradas e um torrente de palavras sobre o reinado revolucionário do faraó que introduziu a ideia de monoteísmo.

Desci para o carro que me leva para o campus todas as manhãs sem pressas, mas sentindo o tremor miudinho aguçar as garras. Lá vem ele... Sorri, cumprimentei o motorista e sentei-me no banco de trás com o tablet ligado. Ia começar a aula a dizer "isto" e depois "aquilo" e depois "outro" e terminaria. O carro parou em frente ao edifício onde leccionarei pela primeira vez. No segundo tempo da manhã seguirei para outro edifício.

Subo a rampa de acesso ao segundo piso. Vejo muitos rostos sorridentes, que trocam palavras entre si ora em urdu, ora em inglês, ora em dialectos que não consigo perceber mas que dão uma musicalidade cosmopolita ao corredor. Avanço por entre saris, túnicas e burqas, numa mistura fantásticas de modos de estar e de trajar.

Main Campus, Adamjee, Class Room 2! É ali! Avanço sem pressas, enquanto o tremor nas pernas se instala. Levo a mão à maçaneta da porta. Revejo tudo o que quero dizer; revejo porque estou aqui; revejo de onde venho e ignoro para onde vou... ainda agora cheguei. Abro a porta. Esboço um sorrio, meio tosco, e digo um "bom dia". E todo o treino, preparação, planeamento, colapsa ali. Mas sigo em frente...

E a aula seguiu em frente. Quase 40 paquistaneses viajaram ao Egipto de Amenhotep IV pelas mãos de um professor vindo de Portugal. Não expus matéria, nem debitei conceitos e datas; discutimos, com questões que fui fazendo; com ligar as pontes e os pontos do passado com o presente. E apesar de não ter tido como queria, disse tudo o que queria e mais. E sorri quando ao final de 75 minutos disse: "Até quinta-feira".

Não sei quantos "Primeiros Dias" mais terei na minha carreira; quantas vezes começarei um novo ciclo; quantas vezes mudarei mais de continente, ou de país; mas sinceramente não quero saber... Com o primeiro dia superado quero focar-me no desafio que agora começa; quero olhar para o que comecei quando no Domingo, pelas 11h30, entrei naquele avião em Lisboa. E amanhã será o segundo dia!