Monday, November 14, 2016

Chisinau e Sófia vão a votos... Bucareste transpira. Moscovo sorri!

O domingo ficou marcado por duas eleições Presidenciais com vários pontos em comum: 1.) ambas ocorreram no Leste Europeu; 2.) ambas disputavam a segunda volta; 3.) ambas tinham como oponentes um homem e uma mulher; 4.) ambas discutiam, mais do que outra coisa, esferas de influência para os próximos anos.

Na Moldova, o estado mais pobre do continente Europeu e um dos membros signatários da Parceria de Leste, o candidato pró-Rússia, Igor Dodon (Partido Socialista da Moldova) conseguiu 52.2% superando os pouco mais de 47% de votos que alcançara na primeira volta. Maia Sandu (Partido Acção e Solidariedade) ficou-se pelos 47.8%.

Igor Dodon, que defende uma aproximação da Moldova à Federação da Rússia, conseguiu capitalizar no descontentamento dos eleitores para com os partidos pró-UE. E mesmo o facto de Maia Sandu ser considerada uma política honesta, pelo seu não envolvimento nos múltiplos escândalos político-financeiros que têm agitado a República da Moldova, não chegou para travar Dodon.

A taxa de participação na Moldova ficou ligeiramente acima dos 53%, um valor demasiado baixo para um país que elegia pela primeira vez o Presidente por voto popular directo. Nos últimos 16 anos coube ao Parlamento (instituição dominante no regime parlamentar Moldovar) a função de indigitar o Presidente da República.

Na Bulgária, que aderiu à União Europeia em 2007 juntamente com a Roménia (que vai a votos em Dezembro!), com o escrutínio quase terminado, com 99.3% dos votos contados e validados, a vitória recaiu sobre Rumen Radev, candidato apoiado pelo Partido Socialista da Bulgária. Radev conquistou mais de 59% dos votos (59.4%), contra os 36.2% de Tsetska Tsacheva, candidata do partido no poder (GERB).

Ramen Radev, como Dodon, defende uma linha de aproximação político-diplomática entre Sófia e Moscovo sendo certo que Sófia passará a defender o fim das sanções da UE a Moscovo (vêm aí dias complicados para Juncker&Co.!), será menos aguerrida contra as insurgências no Donbass e poderá mesmo formalizar o reconhecimento da anexação da Crimeia.

Resultado imediato da eleição de Radev foi a queda do governo de coligação suportado pelo GERB, que controla as rédeas do poder em Sófia desde Julho de 2009. Eleições antecipadas não acontecerão antes de Março de 2017, uma vez que o Presidente cessante (Rosen Plevneliev) não tem já poder para dissolver a actual legislatura e Radev só o poderá fazer após tomar o cargo a 22 de Janeiro de 2017. Uma vez dissolvido o Parlamento as eleições terão lugar em 60 dias.

Apesar da corrupção ter sido tema dominante, uma onda de nostalgia pela URSS e uma vontade de aproximação ao gigante a Leste num momento de transformação e incerteza no seio da União Europeia terão facilitado a vida de Radev. Esta eleição é tanto uma derrota da UE, que tem resistido a uma restruturação que passe pela devolução de soberania aos estados, como uma vitória de Moscovo que tem sabido capitalizar nas fragilidades de Bruxelas.

A dupla eleição presidencial, na Bulgária e na Moldova, mostrou também um curioso paralelismo com as candidaturas pró-UE a serem encabeçadas por duas mulheres: Sandu (Acção e Solidariedade, Moldova) e Tsacheva (GERB, Bulgária); ao passo que as candidaturas pró-Moscovo foram encabeçadas por dois homens do, ou apoiados pelo, Partido Socialista: Dodon (Moldova) e Radev (Bulgária).

A dupla eleição presidencial irá, seguramente, ter reflexos nos desenvolvimentos políticos na vizinha Roménia, que se prepara para ir a votos, para escolher uma nova composição parlamentar, a 11 de Dezembro. É pouco expectável que a Bulgária saia da UE ou a Moldova desista da Parceria de Leste, mas é altamente provável que ambas esfriem o seu euro-entusiasmo e re-aqueçam as relações com Moscovo.

Thursday, November 10, 2016

O primeiro olhar sobre a peculiar eleição presidencial nos EUA

Tenho andado ausente do comentário político e peço desculpas por isso. As novas funções como Coordenador de Licenciatura acabaram por me "roubar" mais tempo do que previsto, e a estas somaram-se funções honoríficas numa série de eventos locais... Mas, aos poucos, tentarei retomar o contacto com a actualidade.

E nada melhor do que re-começar com o tema quente do momento: a eleição de Donald Trump como 45º Presidente dos Estados Unidos da América. Começo por responder a uma questão: em quem votaria? Em ninguém. Como monárquico convicto que sou, não entendo a utilidade da selecção do Chefe de Estado pelo voto popular. Se fosse norte-americano iria descarregar o voto em branco.

Poucos analistas, eu incluído, levaram a sério a candidatura de Donald Trump, quando este anunciou que estava na corrida para a nomeação do Partido Republicano. Em sala de aula cheguei mesmo a dizer aos alunos de Introdução à Ciência Política que as hipóteses de Trump, comparado com Rubio ou Bush, eram mínimas. Estava errado...

Olhando com atenção e curiosidade para o decurso das primárias, em ambos os partidos, comecei a mudar a minha posição. Só os tolos não se adaptam aos factos! Quando regressei a Carachi, em Agosto, assumi por mais do que uma vez que Trump tinha imensas hipóteses de vencer. E não me foquei na parolice insuflada do "discurso do ódio" e do "eleitor-burro". Foquei-me em factos!

Ignorar, como os media e muitos analistas fizeram, o simples facto de Trump ter tido umas primárias sobejamente mais complicadas (à partida) mas, curiosamente, menos dramáticas (à chegada) e de Clinton ter tido o inverso foi algo que me recusei a fazer. É certo que a máquina partidária Republicana reagiu, e muito, contra Trump. Mas é igualmente certo que a Convenção não foi tensa ou dramática como se previa.

Já Hillary Clinton, com a máquina partidária do seu lado (lembremo-nos que a esmagadora maioria dos super-delegados quase automaticamente declararam votar Clinton!) e com os media enamorados por ela, chegou à Convenção dependente de Bernie Sanders. No final do dia foi Sanders, aliás, quem desbloqueou a Convenção, num gesto de extrema lealdade para com o partido Democrata.

As primárias ficaram marcadas pelo tema do "anti-sistema", mas a máquina mediática preferiu focar-se nas gaffes e lapsos linguísticos de Donald Trump. Não querendo escamotear algumas das suas propostas, ficou a impressão de uma ênfase exagerada nos seus traços negativos, quando do outro lado da mesa estava uma política experimentada com provas dadas... e algumas delas com maus resultados ou más práticas.

As primárias falaram alto contra o tal sistema e a hostilização do partido Republicano a Trump, acabou por cristalizar a imagem do guerreiro-solitário que diz o que quer, quando quer, como quer, porque não deve nada ao partido. No outro lado da mesa, com mais tacto e menos verborreia, Sanders tentava fazer o mesmo. Mas Clinton tinha, porque tinha, que ser nomeada e candidata. Afinal já falhara umas eleições primárias em 2008...

É aqui, para mim, que Trump constrói a sua vitória. Soube cavalgar a onda de descontentamento e usar as múltiplas adversidades em sua benesse. Não querendo fazer de Trump um paladino destas eleições, parece-me erróneo ignorar o facto dos jornalistas, analistas políticos, políticos de várias sensibilidades, artistas e académicos terem gozado (literal e metaforicamente!) com Trump. E agora, com o ceptro nas mãos, Trump pode rir-se de todos.

Trump até pode ter dito muita algaraviada e patacoada, mas não tentou focar a sua eleição nos seus órgãos genitais como Clinton acabou por fazer, em muitas instâncias. Disse muito impropério mas a sua agenda era menos oca, mesmo que a possamos rotular de perigosa ou turculenta, do que se tentou "vender".

Clinton mostrou, especialmente nos debates, um lado arrogante, frio, pouco empático e elitista que afastou o eleitorado e que justifica, e muito, a vitória Republicana em todas as frentes. Numa análise fria à linguagem de ambos, nos debates, nenhum sai a ganhar. Mas ao menos Trump assumiu a sua saloice, enquanto Clinton tentava disfarçar a coisa... mas mal...

Os erros de Clinton, na governação, também não ajudaram. Parece-me extraordinário que muito comentador e comentadeiro tenha tentado ignorar, de propósito, as amizades com a Árabia Saudita, os erros graves na Líbia, ou a linguagem confrontacional com Moscovo. O foco era sempre o putativo muro no México, que Trump de resto desmistificou na sua viagem... ao México.

Achei ainda mais curioso, para não dizer ridículo, ter que ler e ouvir muito Europeu criticar a ideia de Trump de expulsar emigrantes ilegais dos EUA (Trump tem pouco, se algum, interesse em expulsar/deportar as comunidades emigrantes legalizadas e a residir nos EUA!), quando muitos desses mesmos Europeus defendem quotas apertadas para a entrada de emigrantes sírios, iraquianos e afegãos na Europa. Um pouco de bom-senso não custa nada pessoas!

O sentimento anti-sistema não é sequer uma novidade. É certo que o UKIP elegeu apenas um deputado nas últimas legislativas de Maio de 2015, mas no voto nacional surgiu como a terceira maior força com 12.6% dos votos. É aliás esse o elemento que tantos comentadores e analistas ignoraram nas suas previsões do referendo ao BREXIT. O voto no UKIP mostrava já descontentamento, mas a arrogância do "sistema" não quis tirar ilações e lá veio "surpresa"...

As eleições na Polónia, em Outubro de 2015, e que resultaram no tal eixo democrático iliberal entre Varsóvia e Budapeste também davam sinais de que havia mudança no ar. E os bons resultados da direita populista na Finlândia, na Suécia, na Dinamarca e na Alemanha (as últimas eleições em Berlim mostraram isso mesmo!) também davam a entender que ou o sistema se reforma, ou o eleitor elegerá quem promete demolir o sistema. Reformar ou implodir!

Para os mais argutos, até os eventos no Brasil com o impeachment de Dilma Rousseff podem ser entendidos como um sinal curioso. Somando a isto, a eleição de Duterte nas Filipinas e as transformações políticas na China comunista e na Turquia pós-golpe; eventos que criaram o cenário político internacional propício ao discurso de Trump. Não ignoro que Trump se apoiou no medo e nas fobias da população, mas que falou também sobre problemas com os quais o eleitor se identificou.

Hillary Clinton sobrestimou a agenda vaginista (desculpem-me a linguagem!) que queria colocar uma mulher, apenas por ser a Primeira Mulher Presidente nos EUA (porque por esse mundo fora, temos tantos exemplos de mulheres no poder!). Não me entenda mal o leitor, acho que as mulheres são tão talentosas quanto os homens em qualquer função, mas não acho que a ênfase nos órgãos genitais seja razão para eleger pessoa A ou B. Clinton não percebeu que a mesma agenda falhara na ONU...

Quem também falhou e muito (e de propósito!) foram as sondagens. Todas as sondagens davam Clinton como 45ª Presidente dos EUA e no final todas elas falharam. O eleitor bofeteou as sondagens e, tenho para mim, deu cartão vermelho ao (quase-inexistente!) legado Obama. Porque no final do dia as altas promessas de Barack Obama ficaram maioritariamente por cumprir. Pergunto-me se a Academia Sueca aceitará a devolução do Nobel entregue em 2009...

O mais curioso de tudo foram as reacções pós-voto, que me fizeram lembrar a azia da direita "pafista" em Portugal, no final das última legislativas. Em Portugal quiseram deturpar o sistema transformando a noção de "quem tem maioria" na noção de "quem chega primeiro". Peço imensas desculpas se ofendo alguém mas é mais idiota e burro quem acha que o eleitorado é burro e idiota só porque o eleitorado não confirmou uma certa visão de mundo.

Em Democracia não temos que gostar do resultado pós-eleitoral, mas temos que o respeitar. Pedidos de repetição do escrutínio, de limitação do direito ao voto e outras tantas parvoíces são apenas um atestado de ignorância a quem os faz. E se o sistema eleitoral nos EUA é injusto, e tenho em crer que será esse o caso, a sua reformulação terá que ser feita a montante do ciclo eleitoral e não a jusante deste. Mudar as regras agora seria imoral, pouco ético e simplesmente cretino.

Igualmente desnecessário é o discurso do apocalipse e do fim do mundo. Parem lá com essas tontices das datas e das efemérides forçadas. No final do dia Trump, como qualquer outro Presidente, terá uma série de limitações constitucionais ao seu poder e dependerá (em larga escala!) da sua equipa governativa. E, para os mais distraídos, Trump foi apenas eleito Presidente nos e dos EUA...

(Amanhã, se for preciso, escreverei sobre o impacto pós-eleitoral de Trump, mas sem alarmismos e catastrofismos bacocos)

Monday, October 24, 2016

De como medir progressos sem contar os segundos...

Tornou-se rotina. Dia sim, dia não calço as sapatilhas, visto as calças desportivas e escolho uma das t-shirts oferecidas pela Inês para o propósito em causa. Coloco os auriculares e escolho a pasta "Running" e lá saio para a rua. Começo sempre com uma pequena caminhada pela colónia onde resido e depois lá me lanço na corrida.

Corro. Pausa. Ando. Corro de novo. Nova pausa. Nova caminhada. Um ciclo que se repete, agora, quatro vezes e que me permite, agora, correr mais de sete minutos, quando em meados de Agosto nem minuto e meio fazia. Não escondo o orgulho que sinto do progresso feito. E assumo que por vezes corro apenas porque penso nisso: como tenho progredido.

Desde que comecei a minha rotina que os guardas, que asseguram a tranquilidade e segurança da colónia, se têm mostrado curiosos. Assumo que deva ser curioso, se não mesmo engraçado, ver um académico estrangeiro a arfar no final da sua corrida; deve ter a sua piada ver um doutor a escorrer suor pelo rosto e com os óculos, por vezes, embaciados.

Eles, os guardas que nos guardam na colónia, refastelam-se nas cadeiras espalhadas no exterior, algumas com aspecto de virem da era colonial, enquanto eu me "torturo" a correr voltinhas em redor da residência ao som de música ora inglesa, ora portuguesa, ora russa, ora espanhola, ora turca, ora francesa e, de quando em vez, até música paquistanesa.

Confesso que ao início tal visão me causava algum desconforto, mas aos poucos notei que não havia no olhar dos guardas jocosidade mas antes curiosidade. Confesso que ao início apetecia-me dizer-lhes que eles, com estômagos a crescer de semana para semana, deviam andar a correr, mas noto agora que não o fazem porque não têm porque o fazer. Porque se cansariam se recebem o mesmo sentadinhos na cadeira almofadada?

E vou correndo. Deixo sempre que a música me preencha os sentidos para não pensar nestas coisas. O que importa é cumprir as metas auto-impostas. E deixar que o resto seja o resto. E lá vou correndo e parando. E no dia seguinte fico pelo quarto, com o número nove gravado na porta. E no dia depois do dia seguinte volto a correr.

Hoje numa dessas pausas, na terceira de quatro que fiz, a rotina quebrou-se. Quando parei, arfando e transpirando em bica, o guarda que vigia as traseiras da residência levantou-se, fez um respeitoso mas atabalhoado sinal de continência (filho de militar sabe destas coisas!) e apontou para a cadeira dele. Ou para as cadeiras: duas! Iguais. Uma para ele e uma para mim. Acedi ao convite, que as pernas pediam descanso.

Num instante percebemos que ele falava tão pouco inglês quanto eu falo urdu, mas isso não impediu a comunicação. Lá lhe perguntei como estava (Aap kaise hain?) a que ele respondeu: "Bem" (Good!). Apontei para o crachá para perguntar o nome dele. Hussain. A idade foi mais complicado, mas lá percebi que tem 36 anos. E do nada saiu-lhe um You very good man (Você, é um homem muito bom) com aquele sotaque típico dos falantes de urdu.

Sorri. Agradeci o cumprimento com um Shukriya (Obrigado). Estendi-lhe a mão para um aperto de mão e fui saudado por um aperto de mão e nova vénia. E depois ele gesticulou para explicar que sabia que só me voltaria a ver na quarta-feira e que eu teria a cadeira em espera. Agradeci de novo, desta feita em português, que o cansaço por vezes prega as suas partidas.

E segui para o quarto. Onde ainda sorrio. Tenho corrido sem querer chegar a qualquer destino, sem querer ir a parte alguma e contudo cheguei aqui: à atenção de quem me vigia. Tenho corrido para mim e por mim, sem perceber que corro também por ele, ou por eles. Tenho corrido para transformar o corpo, mas acabei por transformar o espaço. E na quarta-feira voltarei a calçar as sapatilhas...


Monday, October 17, 2016

São trinta e dois anos ou celebrando A Catarina

Já andavas pelos trintas anos quando, este ano, entrei no comboio. E, como sempre, a partir de hoje levas dois números de avanço... Até ao próximo 28 de Julho em que recupero a desvantagem, que logo aumentará no próximo 17 de Outubro. Ciclo que não me importo de repetir ad eternum...

Não é o primeiro aniversário que escrevo de longe. É o quarto. Seguido. Dois na Turquia. E dois no Paquistão. Já antes tivera aniversários em que estava em Lisboa, mas logo seguia para Abrantes para te dar aquele beijinho de parabéns. Mas estando longe-longe posso apenas tirar contentamento de escrever umas linhas, enquanto lágrimas marotas escapam-me dos olhos...

São trinta e dois anos que celebram as idas à arvore de natal, para saquear o chocolate pendurado nos ramos verdes do pinheiro e encher as pratas com areia.  De como corávamos quando o Natal terminava e na altura de "dividir" o chocolate acabávamos, literalmente, com um punhado de areia nas mãos. E, de quando em vez, com um castigo.

São trinta e dois anos que celebram os raides para espreitar presentes e depois, na noite de 24 para 25 de Dezembro, fingir espanto e surpresa com o que saía dos embrulhos. São trinta e dois anos que celebram horas a fazer de contas que trabalhávamos em empresas e andávamos em viagens por todo o lado. Nisso a realidade acabou por imitar a nossa imaginação e lá vou viajando aqui e ali!

São trinta e dois anos que celebram horas de maternidade-fraternal inculdada em ti pela vida e pelas circunstâncias; e nunca falhaste nesses deveres que tinhas que cumprir e para os quais não ouve tempo para aulas ou treinos. São trinta e dois anos que celebram ralhetes, raspanetes, risadas, gargalhadas e até bifes voadores...

São trinta e dois anos que celebram a menina sonhadora que se transformou na mulher trabalhadora. Ainda com o brilho dos sonhos nesses olhos cor de amêndoa, encaixilhados pela tez branca e pelo cabelo ora mais ruivo, ora mais loiro, ora mais moreno. São trinta e dois anos de muita coisa vivida que não caberá nestas palavras e que não deve caber. Há coisas que pertencem ao silêncio.

São trinta anos (e não, não me enganei!) de admiração, de fascínio, de amor. De olhar para um modelo a seguir no que toca a preserverança, elegância e espírito de luta. Muitas vezes me perguntam como é que aguento fazer tanta coisa e tantas vezes gostava de poder responder: isso é o meu lado Catarina. Não iriam entender, eu sei, mas gostava de responder isso.

São trinta anos (continuo sem estar errado!) a roubar pedacinhos de ti, que tento colar em mim de modo atabalhoado. Se há coisa complicada de se copiar, ser Catarina é certamente uma delas. Acabamos sempre por fazer algo torpe, insuficiente, desvirtuado, sem graça... E por isso quando te copio, assumo logo a qualidade fraquinha da cópia. Mas hoje celebro o original. Não celebro ser Catarina, celebro A Catarina.

São trinta e dois anos que hoje se celebram e num pulinho serão trinta e três e quem sabe interromperei este ciclo de celebrações longe. Quem sabe se não estarei por perto, pronto a cantar os parabéns e dar-te o beijinho na bochecha... e, porque não, desafiar-te para rapinar mais pratas numa qualquer árvore de natal por perto. MUITOS PARABÉNS!


Sunday, September 25, 2016

Carta de um irmão distante... ou os 13 aninhos da Maria!

Olá maninha,

Tudo bem por aí? Por aqui o sol ainda brilha. Estão 32º graus na rua e o vento vai fazendo bailar as verdes folhas das árvores que vejo da minha janela. No meu quarto estão 25º graus e harmoniosas composições de Dvorak vão enchendo o meu ouvido. 13 aninhos Maria! Uma idade bonita, para uma princesa ainda mais bonita.

Estás agora naquele momento em que tudo muda e em que parece que és apenas o somatório de muitas negações. Ainda não és adolescente, já não és criança e ainda não és adulta. Não falta muito para que tenhas mais perguntas do que respostas e para que comecem a pedir mais e mais e mais... Escolhe isto; decide aquilo; resolvo aqueloutro.

13 aninhos Maria! Estás naquele momento em que começas a querer experimentar autonomia. Em que queres deixar de ser apenas a irmã ou a filha, para passares a ser a Maria. 13 aninhos Maria! E um mundo de oportunidades por explorar, com esse teu sorriso simpático e com esse olhar muito teu de quem vê o mundo com outras cores.

13 aninhos Maria! O que mais aprecio em ti é a naturalidade da tua originalidade. Essa capacidade muito tua de descobrir beleza no ordinário; de transformar a rotina em extraordinário; de transformar em gargalhada o enfado. Podes até estar na fase das múltiplas negações, mas és em ti criadora de ternura e de universos fantásticos.

Seria de esperar que te escrevesse uma carta com conselhos. Que te falasse dos meus 13 anos e extraísse lições e ilações, mas não o faço. Os 13 anos que hoje celebramos são teus e não meus. O caminho que hoje começa é também teu, que o meu segue outro percurso. 13 aninhos Maria! E mesmo de longe acordei com um sorriso no rosto. O sorriso de quem tem a felicidade de te ter por irmã.

13 aninhos Maria! E quando soprares as velas e pedires um, dois, quatro, sete ou treze desejos, deseja apenas poderes ser Maria. Porque não precisas de mais nada para ser feliz. São 13 aninhos Maria! E amanhã, com os presentes já abertos e já sem mensagens no facebook por ler, irei continuar a celebrar-te aqui de longe. Porque a distância não diminui o amor e a saudade apenas aumenta o carinho!

Feliz aniversário Maria!

Tuesday, September 13, 2016

Um dia a solo ou de como o Kurban Bayramı se tornou Eid al-Adha...

É a quarta vez que estou num país de maioria islâmica aquando do Festival do Sacrifício, ou Eid al-Adha na versão árabe e Kurban Bayramı na versão turca. Durante vários dias os muçulmanos sacrificam cabras, ovelhas, vacas ou camelos (uma novidade que descobri em Carachi) como forma de limpar os pecados e de agradar o Divino.

O Festival do Sacríficio é também uma recriação simbólica do momento em que Abraão se preparava para sacrificar o filho Ismael (ou Isaac [cristão e muçulmanos têm leituras diferentes do filho que foi oferecido em sacrifício]) e o anjo Gabriel, que vira provada a fé de Abraão, interrompe o profeta e faz aparecer um cordeiro que Abraão sacrifíca no lugar do filho...

O Festival do Sacrifício tem ainda uma terceira valência: a caridade. Após o sacrifício do animal, a carne do mesmo deve ser dividida não apenas entre parentes e amigos, mas de modo a que a mesma chegue aos mais pobres que, no resto do ano, não têm acesso à mesma. Limpam-se os pecados, honra-se a memória do patriarca dos monoteísmos e pratica-se caridade...

O Eid al-Adha ou Kurban Bayramı é um dos festivais religiosos muçulmanos mais importantes e, naturalmente, um momento para as famílias se reunirem. O ano passado partilhei desse espírito em casa de uma colega. No ano anterior passara os dias do Festival em casa de amigos, na agora tão distante Kırıkkale. E no ano anterior também me quedara pela Anatólia turca.

São quatro Festivais do Sacrifício seguidos e nunca, como hoje, me senti tão deslocado. Acordei cedo, com a residência num silêncio denso apenas rasgado pelo canto de alguns pássaros empoleirados na minha janela. Desci para o pequeno-almoço. Cruzei-me com um dos rapazes que assegura o funcionamento da residência. Disse-lhe Eid Mubarak ("Que seja um festival santo") e dei-lhe uma nota verde, de 500 rupias paquistanesas. Sorriu-me.

Esperei enquanto preparava a mesa do pequeno-almoço. Na mão direita, no dedo anelar, um anel com pedra negra que comprei na Turquia. Na mão esquerda um livro que trouxe de Portugal, sobre o Portugal do Império; o Portugal de um tempo que já foi, em que o exótico inundava Lisboa. E agora sou eu quem se deixa submergir no exótico, mas Lisboa está tão longe...

Leio sem pressas, a vida de Maria da Esperança (também ela fora do seu mundo!) enquanto almejo pelo pequeno-almoço. A omelete simples e a paratha (pão achatado típico do Sul da Ásia) chegam à mesa. O meu chá de jasmim chega pouco depois. E as compotas de maçã, de framboesa e de morango chegam em último. Não uso nenhuma. Prefiro um pouco de manteiga, antes de comer a omelete. Sozinho.

Termino o pequeno-almoço sem pressas. Sei que tenho colegas no quarto 2 e no quarto 5, mas ninguém quis sair do seu micro-cosmo. Opções... E quedo-me eu, e a Maria da Esperança, no salão da residência. Recusei dois convites para desfrutar da companhia de quem agora se fecha nos seus quartos, qual pérola dentro da ostra. Mas não lamento... O lamento fica para quando errar...

O dia passa sem pressas, sem acontecimentos, sem companhia. Fechado nas paredes do quarto 9 deixo que Borodin e Balakirev me embalem, enquanto leio sobre a Ásia; não a do Sul onde me encontro, mas a Central, que há algum tempo me fascina. O dia passa. Saio um pouco para ir correr. Esticar as pernas. Sentir o vento e o bafo quente de Carachi.

Ouço o azan expelido pelos microfones, colocados no alto dos minaretes, das três mesquitas, que se fazem ouvir na residência. O sol não tardará a pôr-se depois de mais um chamamento à oração. E recolho ao quarto 9. Nunca antes passara o primeiro dia do Festival do Sacrifício apenas comigo. Nunca antes tivera apenas os grafemas que compõem Maria da Esperança por companhia.

E num dia que poderia dar por perdido, sinto que ganhei. É certo que não sacrifiquei um qualquer animal comprado de antemão, mas sacrifiquei o contacto com gente; sacrifiquei convites de colegas (por essa gente que não se deixou contactar); sacrifiquei o meu tempo, por um tempo comum que não aconteceu... E amanhã, estou em crer, farei novo sacrifício...

Monday, September 05, 2016

Caminho e corro ou uma forma de dizer Parabéns

Ainda não são 18h30 quando chego ao quarto 9, da residência a que agora chamo "casa". Poiso a mochila no chão, tiro os sapatos paquistaneses, o relógio português, a pulseira tunisina e o anel turco. Sento-me na poltrona amarela. Amarela como o sol que hoje insistiu em não brilhar, escondendo-se atrás de uma horda de nuvens paquidérmicas. Mas não chove...

Olho para o relógio. Há poucos meses atrás começaria logo a preparar as aulas do dia seguinte, ou a responder a emails que estivessem pendentes, em qualquer uma das quatro contas de email que uso diariamente. Mas não tiro nada da mochila. E o meu computador, que dormita num gavetão, continua a sua sesta.

Troca a camisa azul, com finas listas brancas, por uma t-shirt verde marinha. Troco a calça de sarja, pela calça de fato de treino. Troco o sapato moccasin pelas sapatilhas. Coloco os auriculares, e enquanto desço as escadas deixo que a música comece. Rihanna toma a liderança na playlist. Abro a porta de vidro negro e saio para a rua.

Caminhar. Correr. Caminhar. Correr. Caminhar. Correr. Ainda não posso dizer que é um hábito, que está perto de um certo. Chamemos-lhe um quase-hábito ou uma meia-rotina. E enquanto corro lembro-me que fazes anos. Lembro-me das nossas caminhadas matinais. De como as pernas nos guiavam, mas eram as palavras e os sorrisos o que mais importava.

De como subíamos a encosta que leva a São Lourenço falando ora de política, ora de desporto, ora de desejo e por vezes, quase sempre por minha culpa, de lascívia. De como gostávamos que o vento, que sempre corre em São Lourenço, nos acompanhasse. De como eu sabia que no final do dia estaria a comer um Magnum de amêndoa, mas isso era o que menos importava.

Caminho e corro. E lembro-me como fizemos quilómetros e quilómetros a pé, enfrentando chuva e vento apenas para contrabandear amizade. Ou de como nos treinavas, para te treinares. Ou de como fizémos coreografias e actuações; de como andámos entre festinhas e competições. Lembro-me de como tudo era simples, tão simples, tão serenamente simples...

Caminho e corro. E lembro-me de como éramos três e agora és apenas tu por aí. Apenas tu podes ir dizer ao vento de São Lourenço, o que eu, e a Ana apenas podemos sussurrar de longe. Éramos três, chegámos a ser quatro, mas um país em metamorfose (não sei se para borboleta, ou se para novo estado larval!) achou por bem que nos separássemos.

Mas não é isso que hoje importa. Lembro-me de ti, enquanto corro e caminho. De como ficarás feliz por saber que tento manter o que te disse; que correria, pelo menos, dia sim, dia não; que tentaria mudar hábitos; que resistiria aos desejos do estômago, Lembro-me de ti e como gostarias de dizer que faltou fazer isto, ou fazer aquilo, ou fazer o outro...

E é isso que me faz sorrir. É essa Diana que quero celebrar hoje. A que se preocupa sempre com os que estão por perto. A que quer ver todos felizes e que, não raras vezes, se esqueça ela de ser feliz. A que prefere duas horas apenas de conversa, a meia-hora de selfies e outras tonteiras. É essa Diana que quero celebrar hoje. E amanhã, quando for correr, celebrar-te-ei outra vez. Parabéns Diana!


Wednesday, August 31, 2016

Um ano e um dia, e amanhã é Setembro

30 de Agosto, 2015. Lembro-me de passar o controlo de segurança, depois de feito o check-in, com a tranquilidade normal de mais um voo. Eu que já ando "pelos ares" desde 2005, já tomo certas coisas como rituais. Fui calmamente para a porta de embarque. Sentei-me. Li as últimas mensagens que prometiam sucesso e desejavam felicidade. Respondi a todas.

Liguei-te. E tentando estar serena desejaste-me muita sorte, muita felicidade, muito sucesso. E declaraste, uma vez mais, o orgulho que tinhas em mim e quando ias dizer que "amo-te muito filho", quase senti a humidade salgada das lágrimas grossas que rolavam pelos olhos de jade, que emolduram o teu rosto sereno. E terminámos os dois a chorar. Um em Abrantes, outro em Lisboa. Distância curta que se tornaria longa num instante.

E respondi a mais umas quantas mensagens. Lá se fez anunciar o embarque para Istambul. Curioso como embarcar para Istambul se tornou normal, desde 2013. Era em Istambul que tudo passaria a ser novo. E com esse sentido de uma certa normalidade, num momento novo, lá me sentei; coloquei os auriculares; escolhi um album jazz e serenei...

Aterrei em Istambul. Normal. Já o fizera antes. Mas desta vez não segui para o embarque doméstico, com rumo a Ancara. Desta vez segui no embarque internacional. Destino: Carachi. Agora sim começava o novo. Mas é difícil pensar em "novo" num aeroporto conhecido. E por isso só quando descolámos, deixando para trás o que conhecia, percebi pela primeira vez que estava a começar algo novo. Dali para a frente o desconhecido!

Aterrei em Carachi que me recebeu, de madrugada, com o abraço quente dos 28 graus celsius. Um oficial com o meu nome impresso num papel guiou-me pelo aeroporto. Passámos o controlo de passaporto. Recolhemos a mala. Um segundo rosto, tão desconhecido quanto sorridente, envergava um segundo papel com o meu nome. E uma hora depois dormia no quarto, a que agora chamo de casa.

30 de Agosto, 2016. Acordei, pouco passava das oito da manhã. Sem pressas, que a pressa é companheira de quem não tem rotinas. E eu tenho rotinas; muitas; ordeiras; consistentes. Ainda não eram nove da manhã e já aguardava pelo pequeno-almoço na sala comum. Há um ano atrás era no quarto. Gosto mais assim. Somos gente e não pedras. Precisamos de outra gente que nos "gentifique".

Segui directo ao gabinete, num campus que tem já poucos segredos para mim. Preparei café, aroma "Paris", para começar a manhã. E num instante estava na sala de aula. Conheço os rostos de muitos dos alunos e alunas sentados na sala, e ainda nem leccionei para a maioria. Coisas de Coordenador de Licenciatura.

Segui de uma aula, para a outra. Quase sem pausa, porque há sempre mais um papel a assinar e mais uma chamada urgente. E quando dei por mim estava na "Sala de Eventos", num evento informal de convívio entre alunos e docentes do meu departamento. Havia expectativa nos caloiros e sorriso nos demais. E esperavam palavras minhas.

E subi ao palco. Alinhei o corpo com o pódio. E quando deviam sair sons, saíram primeiro lágrimas. A emoção por vezes vence. E por vezes nem luto. Respirei fundo. Revi o que queria dizer. Lá saíram fonemas organizados, sem a complexidade desejada e sem a criatividade ensaiada. Fonemas simples, secos, informativos mas envoltos em veludo.

Almocei. E segui para mais uma aula. O dia, há um ano, teria terminado, mas não terminou. Corri. Fiz exercícios físicos complementares. E sentei-me para responder a emails: mais de sessenta. E respondi a tudo. Pelo meio três chamadas e umas quantas mensagens. Até uma breve ligação skype com um colega na Alemanha. E deitei-me... Amanhã será outro dia.


Saturday, August 20, 2016

Voltei e cheguei a Carachi... ao mesmo tempo...

Voltei há quase 3 semanas... Estive quase dois meses fora, se é que "estar fora" se aplica. Como se decide "estar fora" entre o local onde fica o coração e o local onde vivemos? Como se decide "estar fora" quando deixamos de ter o preto e o branco e nos movimentamos entre matizes de cinzento? Como se decide "estar fora" quando parece que estamos sempre fora, ou sempre dentro, ou sempre algures?

Voltei há quase 3 semanas a Carachi. Para trás ficaram quase dois meses de Portugal. Repartidos entre a serenidade familiar na agora centenária cidade de Abrantes; entre o calor das novas amizades lavradas em Tomar; entre a doçura de rostos das boas gentes do Porto; entre a vivacidade e o bulício da minha querida Lisboa. Foram quase dois meses em que queria sentir-me dentro, sabendo que parte de mim já estava fora. E quando chegasse "lá fora" uma parte ficaria ali dentro.

Voltei há quase 3 semanas a Carachi, mas foi como se chegasse de novo. É tudo diferente. Parti de Carachi, no começo de Junho, como Professor, apenas para regressar como Coordenador, nos primeiros dias de Agosto. Não fui o único a partir. Três colegas seguiram para novos "foras", novos rumos. E três novos rostos ocuparão o seu lugar. Uma chegará hoje...

Voltei há quase 3 semanas a Carachi, a essa Carachi onde nunca chovera, e logo começou a chover. Como se os céus me quisessem dizer que não há repetições; que não cheguei para um remake mas para um novo episódio. Estou no mesmo espaço, mas num momento diferente. E por isso se é certo que voltei a Carachi, não é menos certo que só cheguei a este momento agora.

Voltei ao mesmo quarto, no segundo andar, no corredor direito, com o número 9 na porta. Mas o número 8, que albergava um desses colegas, repousa agora num silêncio incomum. Num silêncio que torna tudo isto novo, apesar de tudo permanecer semelhante no número 9. Nada permanece igual, quando somos feito de movimento e de emoções. Eu sei que o igual é uma ilusão, criada apenas para dar conforto. Mas por vezes o ilusório conforto é tudo o que basta...

Voltei ao mesmo quarto, no segundo andar, no corredor direito, com o nímero 9 na porta. Mas trouxe comigo novos rituais. Chá com mel do norte do Paquistão aos sábados e café, que trouxe de Portugal, aos domingos. Trouxe para o mesmo quarto, rotinas novas. A serenidade da leitura ou o ócio constante entre a poltrona amarela e a cadeira preta, substituídas por corridas, e agachamentos e flexões e sei lá mais o quê!

Voltei e cheguei a Carachi, ao mesmo tempo. Pronto para experimentar o novo, neste espaço que já conheço mas que me reserva o desconhecido. Voltei e cheguei para recomeçar, mas não para repetir. E apesar da incerteza ser a única certeza sinto-me confortado. Se fosse para remakes ficava na centenária Abrantes num loop de carinho familiar; ou deixava-me pelo Porto num carrousel de aventuras; ou quedava-me por Lisboa...

Voltei há quase 3 semanas a Carachi, mas não vi em busca do que já foi mas do que poderá ainda ser.  Porque sei que não sabendo ao certo onde é o meu "estar fora", acabo por estar sempre dentro; por estar sempre num espaço que é meu e não é meu, porque o espaço a ninguém pertence. Voltei em busca de mais peças para entender o puzzle que sou. E amanhã começa mais uma semana...


Sunday, May 01, 2016

Hoje recordo... E depois celebraremos...

O dia nasceu sem sol. Nuvens brancas no céu e um vento quente agita as folhas das árvores e aquece os corpos. O sol não nasceu mas está calor. Ainda não é uma da tarde e já passámos os 35ºC (37ºC diz o termómetro). Tentei desligar o ar condicionado por uns instantes, mas logo grossas gotas de suor contrariaram os meus intentos.

O ano passado estávamos juntos. Há dois anos não. Ainda falho em entender porque decidimos dar ao dia da Mãe a volatilidade do primeiro domingo de Maio, enquanto o dia do Pai se fixa no estável 19 de Abril. Não há muito tempo, já mo disseste antes, celebrávamos o dia da Mãe a 8 de Dezembro. Não que a data mude a distância, mas gosto de pensar em outras coisas.

Ia querer acordar mais cedo. Ir até à cozinha. Dar de comer ao Bob, para ele se distrair e depois preparar o pequeno-almoço. Ia tentar fazer o mínimo barulho. Colocar tudo na sala de jantar; como quem preparar um banquete para uma Imperatriz. Ia colocar mais coisas na mesa do que as que conseguimos comer, porque o importante era estarem lá... como eu não estou hoje...

Ia ter alguma coisa combinada com a Catarina e com a Inês. Talvez flores, túlipas se as encontrássemos bonitas. E por certo um postal. Ia já ter pensado em algo bonito para escrever, sabendo que as palavras são pálidas e fracas para te agradecer tanta coisa. Para transformar em obrigado os silêncios de cumplicidade e as horas de paciência.

Talvez fossemos almoçar fora. E porque não? É verdade que não és mais Mãe hoje, do que foste ontem, ou do que serás amanhã, mas é hoje que te celebramos enquanto Mãe. Há dois meses atrás celebrámos a Mulher. E por isso repito, talvez fossemos almoçar fora, ao Aquavital, com vista para o  Tejo que insiste em não me levar as Saudades.

Mas desta vez não posso. Voltei a estar longe. Mais longe do que em 2014, quando andava pela Anatólia Turca. Agora estou nos domínios do Império Mugal. No Sul da Ásia. No Paquistão. Agora acordo sozinho, envolto no desconfortável abraço de um calor persistente; em vez de acordar para o teu abraço suave. Mas não esqueço que é o teu dia.

E é em ti que me inspiro hoje. É em ti que penso enquanto passo mais um fim-de-semana a trabalhar, entre aulas de compensação, reuniões e avaliação de trabalhos. É em ti que me revejo, enquanto tento batalhar por um futuro melhor. Não tenho três filhos, mas tenho cinco princesas e quero poder dar a todas algo melhor. E sei agora, um pouco, daquilo que passaste. E sozinha. E em silêncio.

Não te vou abraçar, mas isso não importa. Porque os abraços não se esgotam e em Junho dou-te um, ou dois, ou quinze. E enquanto choramos os dois (sabemos que vai acontecer) dou-te mais outro abraço. E depois conto-te tudo e depois quero ouvir-te contar tudo. E depois preparo-te o pequeno-almoço. E depois faremos o que não fizemos hoje.

E enquanto o depois não chega, enquanto a distância não se encurta, enquanto as folhas do calendário não anunciam Junho, apenas tenho uma coisa a dizer: Feliz Dia da Mãe. Beijinhos!

Monday, March 28, 2016

Lahore, pensamentos no dia seguinte

Lahore, capital da província de Punjab, sofreu ontem um dos mais terríveis atentados da sua história. No final do dia de Domingo de Páscoa, um bombista suicida rebentou-se num dos parques mais populares da cidade. Para já contam-se 72 mortos, mas com quase 300 feridos o número deverá subir nos próximos dias.

O ataque de ontem transmite, na sua forma mais dantesca e preversa, através da morte de crianças e mães, uma série de mensagens que importa entender. O ataque, reivindicado pelo Tehreek-i-Taliban Pakistan Jamaatul Ahrar (um subgrupo Talibã radicado no Paquistão), é uma prova de que os Talibã conseguem operar onde e quando quiserem no Paquistão...

Nos últimos meses gerou-se um clima de confiança de que os Talibãs estariam limitados a um raio de acção próximo da fronteira com o Afeganistão. O ataque na Universidade de Bacha Khan (Charsadda) a 20 Janeiro, ou a explosão do autocarro governamental em Peshawar a 7 de Março pareciam confirmar a incapacidade dos Talibãs actuarem longe da fronteira. A tragédia de ontem em Lahore destrói esta narrativa.

O ataque é também um claro sinal da intolerância dos Talibãs Paquistaneses para com a tolerância inter-religiosa do actual governo. O actual governo do Paquistão, este ano, na mesma semana, concedeu feriado à minoria Hindu (Holi, na quinta-feira) e à minoria Cristã (Domingo de Páscoa) e com isso arriscava-se a comprementar a visão fundamentalista de quem entende a Religião apenas e só em tom bélico: Nós contra Eles!

O ataque é um claro "murro simbólico" contra o Primeiro-Ministro Nawaz Sharif que nasceu em Lahore, e que disse recentemente que a província de Punjab estaria brevemente livre do fundamentalismo dos Talibãs e do Daesh. Uma mensagem audaciosa, do homem que reforçou os poderes dos Rangers e do Exército para estabilizar, com imenso sucesso, a muito instável Carachi.

O ataque insere-se, ainda, no momento em que ocorriam uma série de manisfestações pró-Mumtaz Qadri em Islamabad (onde mais de 2000 homens permanecem, ainda hoje, sentados frente ao Parlamento) e em Rawalpindi. Os protestos de domingo terão reunido mais de 10.000 manifestantes em Rawalpindi e quase 25.000 em Islamabad. Uma estranha demonstração de apoio, para com um assassino...

Pequena pausa explicativa: Mumtaz Qadri, fundamentalista islâmico, foi executado, por ordem judicial a 29 de Fevereiro (dia escolhido de propósito para evitar celebrações anuais, por causa do aniversário da sua morte!) após ter assassinado o Governador Salman Taseer, de quem era guarda-costas. Isto porque o Governador em causa defendera Asia Bibi, mulher Cristã, num caso em que a mesma era acusada injustamente de blasfémia.

Mas se o ataque tem dimensões simbólicas importantes, também tem os seus fracassos. O ataque que tinha por alvo famílias cristãs, acabou por vitimar essencialmente famílias muçulmanas. O ataque que pretendia criar apenas medo e aprofundar divisões; levou a uma extraordinária onda da solidariedade com centenas a doarem sangue e a prestarem auxílo. Nas redes sociais corre mesmo a frase de que "há sangue muçulmano e cristão misturado em cada transfusão".

O ataque levou o Primeiro-Ministro a dotar os Rangers de maior poder; ao estilo do que aconteceu em Carachi. Ora os Rangers, em parceria com o Exército, já mostraram ter capacidade de estabilizar uma megapólis de 24 milhões como Carachi, pelo que Lahore, que conta com o beneplácito do Primeiro-Ministro, deverá aguardar por melhores dias.

O ataque, para além da raiva, do choque e dor, causou ainda uma curiosa onda de indignação na emergente classe média Paquistanesa, que não consegue entender a lógica do bombista suicida se ter feito rebentar na zona dos baloiços. Mesmo que o alvo preferencial fossem as crianças cristãs, na zona dos baloiços não existem religiões pelo que foi aposta errada...

É certo que o ataque de ontem em Lahore levou a ajustes nas rotinas de hoje por todo o país. Ao contrário do que normalmente acontece, hoje o Fidalgo foi revistado ao entrar na Faculdade onde lecciona... Isto apesar de entrar na mesma, com carro e motorista da Faculdade. E de dormir dentro do campus, num edifício da Faculdade. Mas esses pequenos a pessoas tolera. A dor, o horror e o choque levarão mais tempo a ajustar...

Wednesday, March 23, 2016

Primeiro apontamento sobre o horror de Bruxelas

Já contava com o chorrilho de opiniões insufladas, exageradas, desinformadas veiculadas nas redes sociais. Já contava com os status cheio de bandeiras, de cartoons com lágrimas, de mensagens que não adiantam nem atrasam. Já contava com o festival feito em torno da dor, de uma Europa que teima em esquecer-se...

Vamos por partes. O ataque em Bruxelas foi uma supresa apenas para os leigos e os menos informados. Bruxelas, capital informal da União Europeia e da OTAN, era um óbvio alvo. De resto, em Novembro de 2015, em várias conversas que tive com gente que me questionava sobre "próximos alvos" disse, e repito, que Bruxelas, Berlim e Roma são alvos simbólicos que estarão na mira das células adormecidas e dos lobos solitários do Daesh.

O ataque em Bruxelas permanece no domínio do simbólico, tal como acontecera com o duplo atentado de Novembro em Paris e em Beirut (muita gente parece ter-se esquecido de Beirut). Os múltiplos atentados em  Ancara e Istambul são relevantes, claro, mas pertencem a uma ordem diferente de motivações e justificações.

O ataque em Bruxelas é um ataque ao "poder político" do Ocidente Europeu; após um ataque ao "centro civilizacional" (Paris) e ao "legado ocidental" fora da geografia do Ocidente (Beirut). É um ataque natural de quem quer retroceder no Tempo, sem entender que o retrocesso no Tempo é em si mesmo uma impossibilidade.

Sztompka, fala deste tipo de dinâmicas (em que existe um louvar do Passado, sem existir um real entendimento desse mesmo Passado) como sendo "incompetência civilizacional". Creio que estamos todos de acordo: o Daesh é muita coisa, menos civilizacionalmente competente. Nem entenderam ainda que o auge do Mundo Islâmico (que para nós se traduziu no Al-Andalus) coincide com o momento de maior abertura desse mesmo Mundo Islâmico!

O ataque em Bruxelas é também um aviso subliminar ao milhares de muçulmanos que fogem do conflito que lavra no Iraque e na Síria. Se esses mesmos muçulmanos pensam que a Europa da União proverá segurança e estabilidade política, que pensem duas vezes...  E por isso faz fraca figura quem culpa os refugiados, pelos atentados mais recentes em solo europeu. É mais fácil culpar o Outro, mas culpar o Outro pouco resolve o problema.

O ataque em Bruxelas revelou, uma vez mais, que a ideia de um continente-fortaleza em permanente clima de segurança é uma ilusão, sempre foi. A Segunda Guerra dos Balcãs (1991-2001), o Massacre de Munique (1972), e as Duas Guerras Mundiais tendem a ser "esquecidas", levando muito boa gente ao catastrofismo provinciano de um alegado apocalipse em marcha.

Não caminhamos para nada "pior", apenas relembramos (após o rebentar das bombas e o contar dos corpos) o que quisemos esquecer: que a segurança é ilusória e, paradoxo curioso, insegura. Precisamos reaprender a viver, não tenho dúvidas disso; mas precisamos, ainda mais, de reaprender a relembrar. E precisamos também de menos politiquês corretinho...

A vitimização do mundo pós-colonial não serve nem às ex-colónias, nem aos ex-colonizadores. As primeiras presas num discurso de lamentação cíclica, que impede entender o Passado como um todo e avançar para o Presente, porque o importante é manter o Agora em que se aponta o dedo e se fala de esperança, mas não se age sobre a mesma. 

As segundas, porque presas à auto-culpabilização, se vêm enredadas na incapacidade de agir. Nada pode ser feito, porque tudo viola sensibilidades. Isto serve quem mesmo? Ninguém! O Ocidente precisa (se não o fez já!) assumir culpa pelos seus erros, mas precisa também de encontrar mecanismos de acção-reacção que evitem um perigoso entorpecimento social e apatia comunitária.

Os atentados de Bruxelas apontam também para o fracasso da guetização étnico-religiosa, chamada de modo erróneo de Multiculturalismo, que se vive na França, Bélgica, Alemanha e não só. Não é por acaso que os mesmos países que o relatório da Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas louvou pelas políticas de assimilação e integração multicultural (a saber Portugal, Espanha e Noruega) sejam também os menos expostos a actos desta natureza.

Não estou esquecido dos ataques em Madrid, em 2004, mas também não estou esquecido que falávamos na altura de outros actores (al-Qaeda) com agendas diferenciadas. O Daesh quer, primeiro que tudo, mostrar o fracasso do Ocidente e devolver ao Ocidente o medo, que gera insegurança, que gera intolerância, que gera militância, que gerará uma nova onda de violência pró-Daesh. A Al-Qaeda queria vingar-se do que fizeramos no Iraque...

Para alguém, como eu, que vive e trabalha (pela segunda vez) num país de maioria muçulmana (primeiro Turquia e agora Paquistão) foi curioso notar duas coisas: 1.) a maioria dos muçulmanos de imediato condenou os ataques e tentou expressar solidariedade para com o Europeu, que de súbito olhava o computador com lágrimas nos olhos; 2.) a maioria dos habitantes de Carachi reagiu de modo brando, sem exageros folclóricos, porque estão acostumados à ideia de que a segurança não é segura.

Os ataques de Bruxelas revelam também que a Europa não precisa de mais integração, mas sim de mais autonomia e de maior investimento em mecanismos de segurança. Se quisessemos mesmo mais integração os ataques de Paris em Novembro de 2015 ou os ataques de ontem em Bruxelas levariam à activação do artigo 222 do Tratado de Lisboa, ou do Artigo 5º da OTAN. E nada disso aconteceu!

É preciso devolver soberania aos Estados-membros da Europa da União; é preciso acabar com os mitos da segurança como um dado adquirido e voltar a apostar no investimento, inteligente e sem exageros, nos Exércitos nacionais e nas forças policiais. De pouco serve ter muita maquineta, quando não temos os recursos humanos necessários! É preciso debater se devemos diluir a politização de um espaço que se construiu sobre premissas económicas.

Para o Fidalgo poderíamos começar por dissolver o Parlamento Europeu, entidade que causa mais entropia do que benesses, e reduzir a Europa da União a um organismo de cooperação inter-estatal de cariz económico-financeiro; uma espécie de retorno à Europa pré-Tratado de Roma. A maior integração parece levar a uma maior descoordenação e isso em nada ajudará a evitar que actos como o de ontem se repitam.

De pouco importa dizer que tudo faremos para tudo ficar igual, porque isso é uma impossibilidade lógica. Não há hashtag ou bandeirinha na foto de perfil que mude isso! O que temos que fazer é perceber como os ataques de Bruxelas podem mudar muita coisa e, sem pressas e sem balelas, descortinar o que queremos que mude, como queremos que mude e porque queremos que mude. Afinal de contas para "segurar a segurança" é preciso entender a insegurança...

Saturday, March 19, 2016

Em vez de celebrar Carlos, ser Carlos!

Estamos a ganhar estranhos hábitos, por força de forças que nos escapam. Tornamos em rotina o que, muitas vezes, não controlamos apenas para termos uma remota sensação de segurança. Mas a segurança não aplaca a saudade, nem pára o pensamento, nem seca a lágrima. E o estranho hábito prossegue.

19/03/14. Kirikkale, Turquia. Já tinha passado outros dias do Pai longe, mas nunca tão longe. Já os tinha passado em Abrantes, enquanto estavas por Lisboa, e quase que chegámos a inverter papéis, mas nunca à distância de dois voos. O dia foi estranho. Deixei que o trabalho me enchesse de ânimo, e entre aulas e correcção de trabalhos lá fui passando as horas.

Não deixei de me lembrar de que aquele era o teu dia. Todos os dias são o teu dia, e o da mãe, e os das manas e o de um rol de gente que importa. Mas o 19 de Março é um bocadinho mais teu, do que de todos os outros, e por isso tenho-te sempre mais presente. E mesmo longe, nas terras de Osman e Suleimão, tive presente o Sultão que me trouxe ao mundo. E o dia fez-se...

19/03/15. Espoo, Finlândia. Passei da quente Anatólia, para a gélida Escandinávia, mas pouco mais mudou. Continuei longe de ti, agora apenas a um voo de distância, mas demasiado longe para poder celebrar contigo; para poder saborear qualquer das iguarias que cozinhas com tanto afecto; para poder beber uma ginginha caseira e ver o pôr-de-sol em Abrantes...

O dia foi, uma vez mais, recheado de trabalho e de horas em frente a um computador... Mas não há montanha de tarefas que apague a ausência de quem queremos celebrar, quando os queremos celebrar. Voltei a ter que te celebrar de longe. Não perdi o orgulho de ser teu Filho, mas a distância torna mais complicado poder mostrá-lo. Porque há coisas, sei-o agora, que nem as palavras conseguem expressar.

19/03/16. Carachi, Paquistão. Do frio do Norte da Europa, para o calor do Sul da Ásia. Fiquei ainda mais longe e no entanto não tenho mais saudade. Porque a saudade não cresce com os quilómetros, mas sim com as ausências. E por isso é igual a distante Carachi ou a mais próxima Roma. Estaria na mesma longe, sem poder dar-te um abraço e talvez um postal com o emblema do teu Benfica.

E apesar de tudo hoje sorrio.  Porque muito do que conquistei, muito do que fiz para chegar até aqui fi-lo por, sendo Tiago, ser Carlos. Aprendi muito coisa a observar-te, a estudar como por vezes resolves os teus problemas e fui deixando que a aprendizagem se tornasse parte de mim.

E por isso celebrei-te não apenas em pensamentos e palavras bonitas mas em gestos. Celebrei-te sendo Carlos em acções e gestos. E a vitória que hoje alcancei, mais logo conto tudo no habitual email, não foi minha mas sim tua.

Não sei onde estarei no 19/03/17 mas esteja em Lagos, Nigéria ou em Ierevan, Arménia, sei que estando sozinho e longe não estou só nem tão distante. Porque para celebrar Carlos, o pai, preciso apenas de ser como Carlos, o pai. Não é apenas orgulho que tenho em ti, é amor. E amor copia-se até ao infinito!

FELIZ DIA DO PAI


Wednesday, March 02, 2016

Celebro-te e a um longe que se faz perto

Está a transformar-se num péssimo hábito este de passar o teu dia, longe de ti. Está a transformar-se numa péssima rotina esta idiotice de estar longe, quando devia estar perto. Já lá vão três dias teus, passados em terras de outrém, para além de outros tantos passados em terras lusas mas longe. Certas repetições não deviam poder acontecer...

Acordei pelas 06h35, com a voz da Melodie Gardot, e com o quarto envolto em trevas. O sol de Carachi nascia na rua, por detrás das persianas. Não tive pressas. Conheço tão bem as minhas rotinas matinais e os meus tempos e gestos e no entanto estranhei esta manhã. Quase que a combati. Quase que quis ficar ali imóvel, com o tempo congelado e num espaço sem espaço. Mas o impossível não foi possível. Levantei-me!

Programei, na noite anterior, a moldura electrónica para ter apenas uma foto em exibição permanente. E enquanto me sorrias alegre, sabendo eu que dormes a mais de 10.000km de distância, sorri também. O sorriso manteve-se. E o silêncio também. Fiz o que sempre faço todas as manhãs, sem novidade e sem surpresa e no entanto senti-me insatisfeito. Queria mais algo...

Mordisquei um dos chocolates que chegaram no dia anterior, enquanto esperava pelo pequeno-almoço na companhia de Catarina de Médicis. Ironia deliciosa, tu fazes anos e eu, aqui longe, é que recebo presentes. Sou em quem está longe? Ou és tu? O que importa? Estamos longe outra vez... Isso é que importa. E é isso que me insatisfaz, penso enquanto Catarina corre, ao sabor dos grafemas, para salvar o Navarra.

O pequeno-almoço veio. O carro veio. As aulas vieram. Os alunos vieram. O almoço veio. Os emails vieram. Os documentos vieram. O funcionário do piso veio. Os colegas vieram. Mais alunos vieram. Mais emails vieram. Mais documentos vieram. O lanche veio. Ainda mais documentos vieram. Tudo veio. A distância já estava, a saudade também, mas a melancolia do longe veio.  E tu não!

E agora sorrio. Penso em como estando longe, eu de ti e tu de mim, te consigo ter perto. De como nas pequeninas coisas e nos grandes feitos te vejo. De como consigo ouvir a tua voz, nos momentos de maior silêncio. De como consigo sentir-se afagar-me os cabelos, quando apenas a solidão me faz companhia. De como consigo que estejas perto, apesar dos mais de 10.000km que nos separam.

Já te celebrei de tantas maneiras e todas merecidas. Da mãe presente; à guerreira persistente; à Rainha elegante; à conselheira paciente... Mas este ano celebro apenas o estares sempre aqui, o fazeres-te perto estando longe. O termos, há 29 anos, sete meses e três dias, um laço feito de silêncio, partilha e amor mais sólido que diamante ou grafeno. O termos isto que não tem nome, mas tem forma.

Peço desculpa por não estar perto; mas sei que sabes porque estou longe. Peço desculpa por te preocupar todos os dias, sabendo que ficas alerta sempre que ouves notícias de países acabados em "estão". Peço desculpa por falhar, outra e outra e outra vez, à celebração do teu dia. Falho em corpo, mas não esqueço! Peço desculpa por, a esta altura, já te ter feito chorar.  Por estares, tenho a certeza, de lenço em punho e olhos a brilhar cheio de cristais aquosos. [Pausa] Podes sorrir!

Celebro o muito que ainda tens para alcançar; o muito que ainda tens para nos surpreender; o muito que ainda tens por fazer. E mesmo longe cantar-te-ei os parabéns e terei tanto ou mais orgulho por poder dizer: é a minha mãe! E quem sabe, em 2017, depois de Lisboa, de Kirikkale, de Espoo e de Carachi se não celebro o teu dia em Abrantes, ao teu lado. Mas mesmo que não celebre ao teu lado, sei que não estarei longe. Nunca estarei longe.

PARABÉNS MÃE!

Beijinhos,
Filho, Tiago

Monday, February 22, 2016

Hyderabad, ou ida a uma Kalkhora sem esperança!

Uma nota ao leitor: Num país como o Paquistão é sempre arriscado ter expectativas, porque as mesmas raramente se confirmam sendo ora goradas, ora ultrapassadas pela realidade. É talvez melhor esperar pouco, para retirar tudo de cada experiência. Ora se nem sempre chove em Tóquio quando uma borboleta bate as asas em  Nova Iorque, também, por vezes, o que era melhor, desejável, ideal, deixa de o ser...

A frenética Carachi que nunca dorme, mas que precisava e muito de fazer uma ou outra sesta, ainda me surpreende pela sua diversidade. Uma cidade que traduz, em não tão pequena escala, o que se passa no subcontinente em termos de composição étnica, religiosa, social, cultural e política. Carachi é como que uma manta de retalhos, tecida por bordadeiras com distintas vontades.

Carachi, capital da província de Sindh e cidade mais populosa de todo o Paquistão com (estima-se) quase 24 milhões de habitantes, não terá dado pela ausência temporária de sete dos seus habitantes não-nativos. Seguimos então os sete, em dois carros brancos, pouco passava das 15 horas, com destino a Hyderabad.

Antes da partida, a curiosidade do turista e o interesse do investigador lá descobriram que partiria rumo à antiga capital de Kalkhora (dinastia Sindh semi-autónoma do século XVIII) e antiga capital da província de Sindh, antes de Carachi arrebatar o título. Hyderabad dizem os censos de 1998, é a sexta cidade mais populosa do país e a segunda maior cidade de Sindh, logo a seguir a Carachi. E sem querer, os censos e Kalkhora teceram em mim expectativas...

Levámos menos de duas horas e meia a percorrer uma estrada com quase mais buracos do que pavimento; um trajecto que poderia fazer parte do próximo Paris-Dacar, até porque a distinta prova já não parte de Paris e já não chega a Dacar... Menos de duas horas e meia rodeado por uma paisagem inóspita, quase lunar, e pelo silêncio gritante de casas abandonadas pelo Homem e pelo Tempo.

Chegámos a Hyderabad bem perto das 18 horas com um programa bem definido: chá em casa de um dos sete que partiram de Carachi. Um jovem de Hyderabad que não queria perder a oportunidade de mostrar ao Professor Português a sua hospitalidade. Veio o chá, e os chocolates e os biscoitos de manteiga e a água. Veio tudo, menos a mãe, relegada à sombra do não-reconhecimento no seu próprio lar. Senti alguma vergonha, mas ali pouco mais podia fazer.

Segundo item na agenda: ver um pouco de Hyderabad.  Preferia ter ido em busca daquela mãe que não vi, do que ter saído para ver o que vi. Enquanto me falavam de como era simpático o centro da cidade os olhos dos meus seis companheiros de viagem ignoravam o que os meus olhos não conseguiam esquecer. Crianças, tantas crianças, que brincavam no meio de gigantescas pilhas de lixo.

Crianças, tantas crianças, que se entretinham com sacos de plástico e com pneus já sem outro uso que não a imaginação. Crianças, tantas crianças, com o rosto com mais tristeza do que esperança. E nós preocupados em encontrarmos um lugar onde comer algo, ou beber um café. E nós, a quem a infância não fora roubada preocupados com o agora, enquanto passávamos por quem não tivera o ontem.

Não pense o leitor que vou apontar o dedo ao Ocidente, ao colonizador, à Religião, ao que quer que seja. De pouco adianta apontar dedos, quando os olhos veêm crianças, tantas crianças, brincar entre Gizés de lixo e Coliseus de pedra e poeira. De pouco servem as culpas, num sítio que não perdeu apenas o esplendor da História mas também a sua esperança...

E, depois de falhada a tentativa de um café decente e de comer um wrap, lá seguimos para o terceiro objectivo: assistir ao casamento para o qual foramos convidados. Para mim era algo mais, ia assistir, pela primeira vez, a um casamento xiita no Sul da Ásia. Não foi o primeiro casamento segregacionista a que assisti (participei em dois ou três na Turquia), mas foi talvez aquele em que mais senti o peso da segregação.

Homens e noivo num salão e mulheres e noiva noutro salão numa noite que celebra a união do casal pareceu-me estranho. Como se celebra a união de dois, que passam a ser um, quando os dois não se encontram num só espaço? Como se celebra um novo momento na vida, onde passamos a ser um com duas vozes, se as duas vozes não se encontram unas? Como?

E enquanto o meu cérebro processava dúvidas, algo interessante se revelou perante os meus olhos. Enquanto, na Lusitânia, festejamos a união com quem conhece os que se unem, ali, onde a união se celebra de modo dividido, festeja-se a união com quem quer festejar a união. Abrem-se as portas à comunidade que precisa apenas de conhecer o noivo, o irmão do noivo, o primo do noivo, o amigo do primo do tio do noivo...

E aos poucos deixei de lado as questões, as expectativas tecidas de uma Kalkhora que já não existe, e apenas fruí o que acontecia. E veio a comida (saborosa, diga-se!), e a bebida (escolhendo livremente entre água, ice-tea, coca-cola e 7up) e a música. Vieram conversas em urdu, sindhi, punjabi e pashto que não entendi mas que encheram o salão. E quando a fome se saciou a festa cessou e logo regressámos a Carachi...

E enquanto percorriamos a estrada, coberta pelo vulto denso da noite, mas sentindo a trepidação de cada buraco e de cada elevação num pavimento regulamente irregular, deixei que o sono viesse. Mas ele não veio, talvez perdido no mesmo sítio onde ficou a esperança de Kalkhora. A mesma que não vi no rosto das crianças, de tantas crianças...

Thursday, February 18, 2016

Urduizo-me, ou olhando pela janela dos fonemas...

Aprender qualquer língua é uma janela para um novo mundo. Porque uma nova língua implica não apenas sinais de pontuação, acentos, regras ortográficas e um novo sistema gramatical. Uma nova língua implica um pensar novo; um novo modo de olhar o mundo, com olhos matizados por outras tonalidades. No final, estou em crer, falamos todos humanês.

Foi com essa máxima de conhecer um povo por dentro, por um dos elementos definidores da identidade, que comecei a aprender russo, quando ainda estava por  Lisboa. E as poucos ao Доброе утро (Bom dia), juntei o Здравствуй. Как Дела? (Olá. Como vão as coisas?) e mais tarde até o Спасибо за информацию (Obrigado pela informação) se banalizou.

Na mudança para Kırıkkale, no coração da Anatólia, voltei a envidar esforços, quase todos auto-didáticos, para compreender uma nova língua: o turco. E ao Tünaydın (Boa tarde) lá juntei o İyi günler (Tenha um bom dia), a que se somou o Nasılsınız? (Como está?) e o sempre útil Teşekkürler (Obrigado). E não levei tempo a perceber a utilidade do Lütfen yavaş konuşun (Por favor, fale mais devagar).

Mas na mudança para Carachi, capital de Sindh e verdadeira Istambul paquistanesa, não senti o mesmo ímpeto para aprender a língua nativa, porque o inglês ainda figura como língua nativa em paridade com o Urdu, a que se somam (sem estatuto de língua nativa) o Punjabi, o Balouch, o Pashto, o Sindhi e outras tantas formas de comunicar. Inglês seria a ferramenta para comunicar e construir pontes.

E contudo, depois de uns meses por aqui, comecei a perceber que conhecer um pouco de Urdu talvez me facilitasse a vida. E assim passei a escutar com atenção e aos poucos vou lá fui entendendo que Batao significa Diz-me!, mas se for Ouve-me então terei que usar o meri baat suno. Levei um pouco mais tempo a perceber que Kia hua? é "O que se passa?" e Kia hua he? é "O que aconteceu?"

Aos poucos comecei a juntar sons, que até aqui ignorei mais por falta de interesse, do que por falta de vontade. Aos poucos o que até aqui era melodia sem sentido, passou a ser sinfonia legível. Ainda estou longe de poder conversar ou socializar em Urdu, ou qualquer outro dialecto local, mas estou mesmo assim mais perto de ver o mundo com mais uma nova matiz.

E se é verdade que o caminho se faz caminhando, também é verdade que se caminha falando. E aos poucos vou-me completando. Porque se viajar nos torna mais únicos, deixar que a viagem nos transforme torna-nos mais autênticos. Continuo incompleto, como um puzzle, mas vou encontrado novas peças. E amanhã, quem sabe, aprenderei a vingésima sexta palavra...

Monday, January 25, 2016

Notas de um Monárquico (emigrado!) sobre as Presidenciais

Os Portugueses foram ontem a votos para escolher, pela quinta vez, um Chefe de Estado. Como Monárquico, a ver isto fica clarificado, não sou averso a eleições de per se. Sou averso à escolha do Chefe de Estado, mas eleições Parlamentares, Regionais e Locais venham elas. Sou averso à ideia da escolha do Chefe de Estado e mesmo assim voto nas Presidenciais. Em branco, mas voto!

O resultado, sejamos lá sinceros, surpreendou pouco. Marcelo Rebelo de Sousa era desde há muito o candidato super-favorito. Fica por provar, e esse trabalho de escrutínio rigoroso cabe na Academia e não no comentário fast food (a intragável McDonaldização da opinião!), se as eleições foram justas tendo em conta a hiper-exposição do vencedor, face a todos os outros candidatos.

Marcelo Rebelo de Sousa ganhou com 52%, um resultado que é bom sem ser impressionante, até porque algumas sondagens chegaram a dar-lhe bem mais. Marcelo Rebelo de Sousa ganhou há primeira volta é verdade; mas assim como assim só tivemos segunda volta em 1986 na qual se defrontaram Mário Soares (que vence a segunda volta, depois de ficar em segundo na primeira volta) e Freitas do Amaral (que vence a primeira volta, mas perde a segunda).

Uma interessante surpresa o resultado de Sampaio da Nóvoa. Importante ressalvar que o quase anonimato de Sampaio da Nóvoa, desconhecido para a larga maioria dos eleitores, não o impediu de chegar quase aos 23%. Mais, Sampaio da Nóvoa não ficou assim tão longe de forçar uma segunda volta e de obrigar os eleitores a terem que pensar um bocadinho mais em político e menos em mediatismo político...

Outro resultado a ter em conta, o da eurodeputada Marisa Matias que conseguiu levar o BE aos dois dígitos numa eleição presidencial. Não só mostra como o BE se soube reinventar logo que a estranha liderança bicéfala se desfez, como mostrou um enraizamento do BE que por certo fará soar campaínhas de alarme no PCP e, porque não?, no PS.

Resultado medíocre, o de Maria de Belém. Campanha fraca, sem qualquer élan, com uma imagem meio-snobe e meio-pedante que marca a esquerda caviar e com uma completa ausência de criatividade e arrojo. Soma-se a tudo isso uma sobre-confiança na capacidade de atrair o voto feminino e voto jovem e a incapacidade de perceber quando assumir erros e pedir desculpas. O eleitorado viu, não gostou e mostrou cartão (bem!) vermelho.

Resultado igualmente fraco o de Edgar da Silva. Sendo certo que o PCP dificilmente terá um candidato seu presidenciável, é igualmente certo que passar de 7,14% nas Presidenciais de 2011 para 3,95% nas de 2016 prova como o PCP errou no casting. Edgar da Silva é por isso, a par com Maria de Belém (olha que lindo, igualdade de género) um dos grandes derrotados da noite.

Igualmente derrotada saiu a República, incapaz de atrair 50% dos eleitores. Verdade que correram melhores estas eleições do que as Presidenciais de 2011, com um tímido acréscimo de 2.32% (de 46.52% para 48.84%); mas é igualmente verdade que na História da III República eleições com Presidentes em busca de renovação de mandato tendem a ser menos participadas. Logo o acréscimo é pálido, para não dizer quase nulo.

A quem quer ler nos candidatos menos votados um voto de protesto, quer-me parecer que é uma visão um tanto ou quanto rebuscada. E mesmo que seja os tais menos votados todos somados fazem menos de 7%. Fraco protesto, diria eu! Curioso que os candidatos Henrique Neto (0.84%), Jorge Sequeira (0.30%) e Cândido Ferreira (0.23%) têm todos, individualmente, menos votos do que o número de votos em branco (1.24%), ou de votos nulos (0.92%).

A quem achou engraçado fazer graçolas, sem graça, sobre se a Esquerda se iria coligar de novo, o Fidalgo apenas tem a dizer que falta de cultura democrática e de entendimento do funcionamento das diferentes instituições tem o seu limite. A Constituição da República existe para tirar todas as dúvidas. Nas Presidenciais importa quem ganha; nas Legislativas importa quem soma mais mandatos. Conceitos bem diferentes...

Como Monárquico, assumindo a minha parcialidade, vejo nestes mais de 51% de eleitores que não foram votar uma amálgama de fenómenos que vão da apatia política, à preguiça irresponsável, ao descontentamento com os políticos, ou ao desencanto com o regime. Vejo contudo a necessidade do regime se repensar, sobre risco de desaparecer sem perceber como. E não, nem todos precisamos de conspirações e tiros para operar mudanças...

VIVA O REI!

Thursday, January 21, 2016

Moldova em rota de implosão!

A Moldova anda por estes dias no meio de um verdadeiro turbilhão político que parece não ter modo de chegar ao fim. Sejamos claros os protestos populares na Moldova não são novos, mas a intensidade das últimas semanas tem sido factor de surpresa... até para o Fidalgo. Mas então porque está a Moldova a atravessar tão grave crise política?

A política na Moldova encontra-se, desde o começo do século XXI, profundamente dividida entre os partidos pró-Bruxelas e os partidos pró-Moscovo. A cisão política entre dois campos antagónicos não é uma novidade no espaço pós-soviético, grosso modo, ou mesmo na Europa de Leste. O grande problema aqui foram os resultados das últimas eleições parlamentares.

As eleições legislativas na Moldova aconteceram a 30 de Novembro de 2014 e resultaram num verdadeiro equilíbrio entre partidos pró-Moscovo (com o PSRM a conquistar 25 mandatos e o PCRM a conquistar 21 mandatos) e partidos pró-Bruxelas (com os Liberais Democratas a conquistarem 23 mandatos, o partido Democrático 19 mandatos e o Partido Liberal 13 mandatos).

Ora o segundo, quarto e quinto partidos mais votados, porque conseguiram somar mais mandatos (55 mandatos, contra os 46 dos partidos pró-Moscovo) aliaram-se numa coligação governamental pós-eleitoral. É o que o sistema parlamentar, ao contrário do que pensam algumas luminárias lusitanas, não se define por "quem fica em primeiro", mas antes por "quem tem mais mandatos"... Curiosidades, claro está!

Até aqui tudo normal... No momento da eleição Iurie Leancă (Liberal Democrata) era o Primeiro-Ministro, tendo ficado em exercício de funções até finais de Fevereiro de 2015. Sucedeu-lhe Chiril Gaburic (Democrata Liberal) que tomou posse a 18 de Fevereiro de 2015 e se demitiu a 22 de Junho de 2015 após a Procuradoria-Geral abrir uma investigação sobre a falsificação de diplomas escolares do então Primeiro-Ministro.

Durante um mês a Moldova teve uma Primeira-Ministra gestionária: Natalia Gherman. A 30 de Julho de 2015 Valeriu Streleț (Liberal Democrata) foi nomeado interinamente como Primeiro-Ministro, apenas para ser removido por uma moção de censura a 30 de Outubro de 2015. Sucedeu-lhe mais um Primeiro-Ministro gestionário, desta vez vindo do Partido Liberal: Gheorghe Brega.

E eis que a 20 de Janeiro de 2016 foi a vez do Partido Democrático ter o seu "momento ao sol" com a indigitação de mais um Primeiro-Ministro, desta feita Pavel Filip. O problema é que em Outubro o voto de censura a Streleț ocorreu na sequência de um mega-escândalo financeiro que abalou a sociedade do estado mais pobre da Europa. E os populares, especialmente, mas não só, os pró-Moscovo, querem que lhes seja devolvida a palavra. E clamam por eleições.

A Europa da União, sempre tão vocal nestas coisas da democracia, tem estado curiosamente silenciosa. É que isto de ter um governo pró-Bruxelas que poderá ser substituido por um governo pró-Moscovo é meio chato e meio inconveniente. A democracia que fique, só por uns mesinhos, suspensa até que exista uma solução que seja tão democrática como europeísta... Isto se ainda existirem europeístas na Moldova depois deste escândalo.

A Moldova foi forçada hoje a pedir assistência financeira à vizinha Roménia, com a qual partilha uma relação muito tensa, e ao FMI. A Moldova clama por eleições, porque entende que eleições tudo resolvem, mas não as pode ter porque o novo Primeiro-Ministro diz que não se demite e mesmo que as tenha não entende que isso nada resolve, porque não se envidaram esforços para o desenvolvimento de uma cultura democrática.

A Moldova prova que o simplismo eleitoralista e o pastiche Constitucional nada resolve e muito complica. Ora um país dividido pela identidade, com grupos pró-unificação com a Roménia, grupos pró-unificação com a Rússia, grupos separatistas na Transnístria e na Gagauzia e grupos nacionalistas, e afectado, de modo endémico, pela corrupção só poderia estar onde está a Moldova: no limiar da implosão política e do colapso social.

Esta Moldova, "cabeça de cartaz" (juntamente com a igualmente frágil Geórgia) da fracassada Parceria de Leste, mostra como Bruxelas tende a sobre-avaliar o seu élan. Os Moldovares não são pró-Bruxelas mas sim pró-fundos-económicos-estruturais-vindos-de-Bruxelas. Os Moldovares não são pró-Bruxelas mas sim pró-ideia-de-entrar-no-clube-do-primeiro-mundo. E não digo que sejam todos pró-Moscovo mas são mais pró-Rússia do que muitos gostariam de admitir...