Thursday, November 28, 2013

De manhã Santuário, de tarde Gulag!

O Fidalgo anda, por estes dias, confuso com imensa coisa que lê, que vê e que ouve. Torna-se por isso difícil saber sobre o que escrever. Mas no meio de tanto ruído informativo, muito do qual gera mais entropia do que verdadeira gnose, o Fidalgo privilegia as contradições; as mutações de posição; os oxímoros atitudinais...

A Presidente da Assembleia da República, após os protestos da polícia frente à escadaria do Parlamento, disse ficar contente com o "desaguar" dos protestos frente à Casa que representa. Segundo a mesma, numa visão muito criativa (para ser simpático!), os protestos terminam frente ao Parlamento, porque o Parlamento simboliza esperança. Porque o povo vê no Parlamento uma espécie de farol, quando a noite austera turva os sentidos...

 Acho estranho falarmos em Esperança, se nos lembrarmos de palavras como "Gatunos", "Demissão", "Vigaristas" impressas em tantos cartazes e dirigidas, directa e exclusivamente, a quem se passeia pelos corredores da Assembleia da República. Acho curioso entenderem-se gritos de protesto de claro antagonismo entre o populus e os parlamentariis, como sinais de Esperança... Mas enfim...

Fico contudo surpreso ao saber, segundo os media, que a mesma Presidente da Assembleia da República pondera criminalizar os protestos dentro do Parlamento; dentro da tal Casa de Esperança; nas entranhas do Farol Virtuoso, que nos alumia na tempestade. Pretende limitar o acesso às galerias e, para o fazer, anda a estudar os regimes de outros países. Sugeria-lhe que começasse pela Bielorrússia, ou pelo Azerbaijão que é capaz de encontrar o que procura.

Portanto o Parlamento é local de Esperança, logo protesta-se à sua porta; mas protestar dentro do santuário é abomínavel e tem que ser, urgentemente, punido? Ora como é que isto se explica? Será que tal pessoa não entende que o direito ao protesto (com civismo, claro!) é parte integral da democracia; que o direito a pensar e agir diferente fazem parte do tal pluralismo democrático, que transcende o boletim do voto...

Não consigo compreender como é que de manhã o Parlamento é uma espécie de novo Santuário de Fátima, ao qual acorrem os peregrinos afoitos por causa da austeridade-modelo-Excel; e de tarde o Parlamento se transforma num gulag, fazendo dos deputados reféns de um Carnaval de medidas de segurança, para impedir a populaça de entrar e dizer o que pensa.

Apenas fenómenos do tipo Jekyll-Hyde, Hulk ou Homem-Lobisomem conseguem explicar tão radical transmutação, em tão pouco tempo. Será que tal pessoa, que foi eleita pelos pares, e portanto indirectamente eleita por todos nós, não entende que o Parlamento não é Seu mas Nosso?

Protestos, minha senhora, o parlamento sempre teve. Não sabia? Talvez, antes de ler os regimes de outros países (mais uma boa sugestão, para cumprir os seus intentos, será olhar para o Cazaquistão!), devesse ler a História do Parlamento e do modo como o protesto faz parte da vida do mesmo. Fica o conselho...


Tuesday, November 26, 2013

A Austeridade falhou!

A Austeridade falhou! Podem apontar o crescimento das exportações como baluarte de que a "coisa" funciona; podem apontar a saída "técnica" da recessão como estandarte do sucesso da mesma; podem apontar imensos números que, sendo sinais positivos que não se podem ignorar, não escondem o retumbante fracasso da Austeridade.

A ideia era diminuir os gastos do Estado, as tais gorduras, mas a despesa do Estado continua a crescer. A ideia era serenar os Mercados, porque pelos vistos os Mercados são quem mais importa, mas os Mercados não serenam. Pelo que vou percebendo, e de Economia pouco entendo, os Mercados não serenam não com chá de camomila, nem com Xanax.

A Austeridade serviria, para alguns, para re-educar um povo cheio de vícios e maus hábitos, muitos dos quais são mais fruto de exageros e preconceitos do que reais "acontecimentos". A Austeridade comportaria um momento de dor que daria azo a um momento de glória. A dor já veio, todos (ou quase todos!) a sentem, a glória dourada que lhe sucederá... Essa, tal como D. Sebastião, tarda em voltar!

As metas falharam. A Austeridade, contudo, conseguiu muita coisa. Asfixiou, de modo letal, uma classe média que nunca chegou a sedimentar-se; destruiu um tecido científico-criativo que demorará (e muito) a reconstruir; empobreceu o país, não apenas nos salários, na insanidade taxativa, mas também nos sonhos e na esperança.

A austeridade levou o país a ter que dizer a muitos jovens, muitos deles qualificados, alguns altamente qualificados. O país teve que chorar amargamente, enquanto quem decide se fechou no seu mundinho. Os pais deste país tiveram que perder e, infortúnio faustiano, ainda não ganharam nada com isso. E não se pense que esta geração voltará a bem, quando saiu do país pontapeada apenas porque queria trabalhar...

Uma cúpula de gente, que tendencialmente vive em redomas de cristal, dirá que "não se pode comer bife todos os dias". Concordo, com este tipo de política sem sei se, a prazo, se conseguirá comer, em Portugal, todos os dias; quanto mais bife. A mesma cúpula acha "um horror" os protestos na Assembleia da República, porque estão lá os eleitos do povo.

Verdade, os deputados foram eleitos. Mas foram eleitos mediante um programa que, sejamos honestos, não era este. Foram eleitos para cumprir uma visão, que logo se perdeu. O voto serve como contrato, como meio de transferir poder para alguém representar outrém, porque ambos partilham uma visão comum. O voto não é, não pode ser, um mecanismo de autoritarismo eleitoralista. O voto não é (não pode ser!) dogma! Discute-se e, quando disfuncional nos efeitos, muda-se!

A mesma cúpula consegue ainda levar gente a dizer que "subir ordenados é um pesadelo para os pobres", num país com cada vez mais gente a receber o mínimo. Era para isto que a Austeridade vinha? Para um empobrecimento que levará a um embrutecimento generalizado? Mas quem tem este programa esqueceu, ou talvez não saiba, que o embrutecimento é a antecâmara da violência...

A Austeridade falhou! Poderia ter funcionado, mas a cegueira ideológica e o experimentalismo económico-social falaram mais alto. A Austeridade falhou porque foi tão austera que se tornou autista; que deixou de ser capaz de ouvir; deixou de ser capaz de perceber que o consenso nasce do confronto e não do seguidismo uniformista.

A Austeridade falhou e a Oposição também tem culpas no cartório. Com o Bloco em desagregação e sem ideias claras sobre o que é... Com o PCP entretido na mesma cantiilena de sempre (ao menos mantêm a coerência?)... Com o PS exaurido de ideias credíveis e com posturas demagógicas e eleitoralistas. Uma oposição inteligente, criativa e sagaz, poderia ter ajudado a driblar a Austeridade... Mas o cheirinho do poder falou mais alto!

A Austeridade que hoje carimbará mais um Orçamento de Estado falhou; mas a Vaidade e o Orgulho de quem não tem mais nada falam mais alto. A Austeridade falhou e, a seguir, quando chegarmos ao limiar não existirá volta a dar. Pausa! Espero estar errado! Pausa! Mas acho que não estou! Pausa! E depois? Depois não se sabe o que acontecerá... Mas temo...


Thursday, November 21, 2013

2-3? 1-5? O que importa? Perde sempre o mesmo...

Quem não cuida dos seus, não pode esperar ganhar a confiança dos outros. Foi isto que pensei ao ler as notícias de hoje, vindas de Kiev. Embalado pelo apuramento para o Mundial pensei, logo em seguida, que se isto fosse um jogo de futebol o resultado, por esta altura, seria qualquer coisa como: União Europeia 2 - 3 Rússia; mas a coisa pode ficar União Europeia 1 - 5 Rússia.

A tal da Parceria de Leste, antecâmara da União Europeia que, por agora, não tem como receber mais candidaturas para estados-membros (é claríssimo que a prioridade é a inclusão dos Balcãs!), foi desenhada para aproximar a União Europeia dos três estados transcaucasianos (Arménia, Geórgia, Azerbaijão) e ainda da Bielorrússia, da Moldova e da Ucrânia.

O primeiro golo, já se sabia, foi direitinho para a Rússia. Minsk ainda fingiu interesse na Parceria de Leste, mas poucos ficaram convencidos que Minsk e Bruxelas acertassem agulhas. Afinal Bruxelas adora, de quando em vez, relembrar que Minsk tem "o último Ditador da Europa". Minsk, por seu lado, tem interesses estratégicos, diria que vitais mesmo, com Moscovo. Este golo foi, por isso, limpinho; de grande penalidade e sem guarda-redes.

O segundo golo foi para a União Europeia, hipótese de empatar o jogo. A Geórgia, ainda sob clara dominação de Saakashvili, mostrou um ímpeto invulgar pelo Ocidente. A Geórgia só queria saber de UE e de OTAN e tudo o mais eram cantigas. Mas Saakashvili caiu, ficou sem poder e aquilo que parecia um golo pode ser, no final, um fora de jogo. Por agora fica 1-1 mas não é garantido que se mantenha.

A União Europeia passou, em seguida, para a frente do marcador. A Moldova, em paridade com a Geórgia, foi chamada de campeã, de timoneira e de bom exemplo. A Moldova, verdadeiro 2-1 que coloca a União Europeia em vantagem, irá a Vilnius assinar a parceria; Chisinau irá a Vilnius fazer figura de boa aluna (será colega de turma da menina Lisboa?), veremos é por quanto tempo...

A União Europeia estava contente. Contava ir fulgurante para o 3-1 mas estampou-se, trocou os pés, caiu no chão e viu a Rússia igualar a partida. A Arménia disse "obrigadinho, mas por agora não" e a seguir bateu à porta de Moscovo para saber se ainda tinham cadeiras, para a Comunidade Eurasiática. Moscovo sorriu, convidou a entrar e antes que a UE falasse fechou a porta. Ficou feito o 2-2.

A União Europeia falou em arbitragens injustas; em regras mal desenhadas; em pressões. A UE falou naquilo que também fez, mas é sempre mais difícil vermo-nos por inteiro ao espelho. E enquanto se queixava a Rússia foi fazendo jogo; foi passando a bola com controlo, com domínio, com tática e lá chegou ao 2-3. A Ucrânia anunciou hoje que irá a jogo, mas que prefere o equipamento branco-azul-vermelho ao azul-dourado.

E o 5-1? Não nos podemos esquecer que a Géorgia poderá ser golo em fora de jogo e, se assim for, e a jogada se repetir, tenho em crer que será ponto para a Rússia e o 2-3 passará para 1-4. Vantagem dos Visitantes, porque os da Casa nem dos da casa tomam conta... E depois o golo incerto, o Azerbaijão, que animado pelo petro-dólares vai jogando com os dois lados. É quase certo que não assinará em Vilnius a adesão à Parceria, mas também não é certo que entre na Comunidade que Moscovo oferece....

Baku é assim uma espécie de golo em tempo de descontos; que não se sabe quando irá acontecer mas que, a manter-se a situação, é bem provável que penda para os Visitantes e lá ficamos com o União Europeia 1 - 5 Rússia. É bem provável que a União Europeia veja a Parceria de Leste, fraco projecto (desenhado por quem não tem capacidade para acolher novos membros!), definhar após ganhar vida.

E assim, lá ficamos nós com (mais) uma demonstração de que a União é cada vez menos atractiva; de que a União, une cada vez menos. Tudo isto numa altura em que Ankara estuda a hipótese eurasiática; no momento em que Londres prepara um referendo sobre a aliança com Bruxelas; no instante em que Zagreb também fala em semelhantes manobras; no momento em que alianças Latinas e lobbys Escandinavos minam o que outrora foi respeito e entendimento...


Tuesday, November 19, 2013

Kiev entalada entre a "pressão" e a "diplomacia"

Tem sido interessante acompanhar os últimos dias antes da Conferência de Vilnius que irá marcar o arranque da "Parceria com o Leste". A Parceria irá funcionar como uma espécie de sala de espera, onde os parceiros aguardaram a sua vez para entrarem no Palacete Europeu, dominado pela auto-proclamada Imperatriz sedeada em Berlim.

O problema é que o Palacete Europeu não tem, por agora, mais quartos. Após as últimas vagas o número de membros como que duplicou e os residentes ainda tentam entender-se. A desorganização não sendo total é enorme e o Palacete, para além da fachada, dá mais sinais de erosão do que de renovação. A tecnocracia nunca deveria ter tomado conta de Bruxelas e agora Bruxelas ameaça não conseguir tomar conta dos seus residentes...

Nos últimos meses a União Europeia sofreu alguns reveses inesperados. A Arménia decidiu abandonar a rota Europeizante e abraçar as oferendas vindas de Moscovo. A Moldova e a Geórgia, apresentadas como campeãs da Parceria, esfriaram o entusiasmo com que olham para Bruxelas. A Moldova assinará, quase certo, o acordo da "Parceria de Leste," mas fá-lo-á com o mesmo espírito desconfiado com que a Polónia e a Croácia entraram para a UE.

A Geórgia é provável que assine o acordo, mas está longe de ser garantido. E subestimar a atractividade de Moscovo é sempre um erro que devemos evitar. A Ucrânia torna-se, por isso, indispensável ao sucesso da conferência. Nas últimas semanas o Fidalgo tem lido imensas coisas sobre o jogo que se disputa em torno de Kiev e registo a linguagem usada, resquício da Guerra Fria, que tarda em arrefecer nas cabeças de muito boa gente...

Quando a União Europeia avança com propostas, com oferendas, com ideias para unir Kiev e Bruxelas fala-se em cooperação e diplomacia; fala-se em avanços e em progresso. Quando a Rússia faz exactamente o mesmo, para atrair Kiev para a sua União Eurasiática, então já é pressão inaceitável, retrocesso, alienação diplomática; então torna-se o progresso em recuo...

De Berlim, hoje, a auto-nomeada Imperatriz falava nos benefícios do acordo EU-Ucrânia, para aligeirar Kiev do jugo muscovita. Não parece ao Fidalgo grande  mudança, a troca de um suserano por outro. E se Kiev pensa que o Urso de Berlim é mais amistoso do que o Urso de Moscovo está muito enganada. A única diferença entre os Ursos contendentes é a cor do pêlo (a tal Democracia!), porque a ferocidade essa é a mesma.

Como quer esta União Europeia ter um diálogo construtivo com a vizinha Eurasiática, se ainda olha para a mesma com as lentes redutoras da Guerra Fria. Como quer Bruxelas ser levada a sério por Moscovo se ainda se preserva a mentalidade de quem não viu, ou não quis ver, o arrear da bandeira da União Soviética no final de 1991.

Enquanto Bruxelas deixar os seus ditâmes entregues aos rugidos do Urso de Berlim, sem apelo nem agravo do que os restantes residentes do Palacete têm a dizer, não será de estranhar que iniciativas como o referendo de Cameron à permanência de Londres na UE, ou a "chamada" para a formação de uma Frente Latina por Letta se repliquem e multiquem.

Kiev está entalada entre a "pressão" e a "diplomacia", porque a UE está entalada entre a erosão e a necessidade de fazer uma reforma sem reformadores competentes para a executar. Kiev está entalada entre dois blocos, porque quer fingir-se Euro-cosmopolita e renegar ao seu legado eslavo. Mas, desta feita, talvez seja na eslavofilia que reside a melhor oferta...


Saturday, November 16, 2013

E aos dois meses... sorrio...

16 de Setembro! Acordei pela primeira vez numa cama que não era minha, num quarto que não era meu, com uma janela que não me pertencia. Acordei pela primeira vez num Universo novo. Sozinho. Ou quase. Só eu e o Silêncio. Abri os olhos mas levei uns cinco minutos a sair da cama. Tocar com os pés no chão alcatifado do quarto seria confirmar a realidade. Tinha chegado e para aqui chegar, tinha partido...

Olhei pela janela e vi um suave vislumbre do que me aguardava. Olhei pela janela e não vi o que via no cérebro; as imagens que ainda desfilavam na minha mente e que emoldurava antes que se desvanecessem. Quanto se trata de memória a velocidade de preservação é imperiosa... Ou se conserva a memória num caixilho cristalino, ou se perde a mesma no turbilhão intenso que é recordar. No turbilhão que é voltar atrás, quando o relógio insiste em andar em frente.

Não tomei pequeno-almoço. As tarefas, banais, desinteressantes, rotineiras, ganharam um curioso colorido. Acordar, tomar banho, vestir, organizar o quarto que não era (nem seria!) meu, tudo feito com uma calma e morosidade propositada.

Queria saborear os primeiros momentos, agora que aqui tinha chegado. Partira, não me esquecia, mas apenas partira porque aqui queria chegar. Agora era tempo de não esquecer a partida, mas preocupar-me com a chegada...

Vieram rostos simpáticos, e nomes em catadupa, e uma torrente de papéis, e visitas oficiais/semi-oficiais/não-oficiais, e uma sem fim de apertos de mão e sorrisos. Vieram sons que não conhecia. Vieram imagens que nunca vi. Vieram sabores novos, que exploraram os limites das minhas papilas gustativas. Vieram cheiros fascinantes, que desafiaram as categorias ocidentais impressas no meu cérebro. Vieram gestos e cores. Vieram hábitos que nunca antes tivera. Vieram rotinas novas...

16 de Outubro! Primeiro mês! A palavra Saudade começa a fazer sentido. Agora sim a começo a entender. E entendo o drama do Fado, de quem sentindo tristeza pelo que perde, está feliz com o que ganhou. De quem para voltar à partida, lamentará o abandono da chegada. Psicodrama complicado, irresolúvel, que mais vale ser sentido do que racionalizado.

Primeiro mês! Ainda agora comecei a construção de uma nova vida, como quem ergue um novo palacete, mas já me sinto parte da chegada. O meu rosto (ao que parece) meio-turco, que leva muitos a duvidaram que seja "portekiz", facilitou a integração. A simpatia de quem cá vive, na chegada, fez o resto. E aos poucos somo ao muito que deixei na partida, o muito que conquistei na chegada. E com um mês volvido, celebrado em pleno Bayram, preparo-me para descobrir mais da chegada... E sorrio!

16 de Novembro! Olho para o amontoado de exames que terminei de corrigir na noite passada, antes do jogo de futebol que vi com uma nova intensidade. Curioso, eu que nunca gostei muito de futebol, sofri durante 90 minutos e vibrei com cada momento em que ouvi sons que me lembravam a partida... Olho para o amontado de exames que terminei de corrigir, para a pilha de expectativas que passou pela minha mão e sorrio de novo. Sorrio mais agora.

Dois meses! O tempo não ajuda à Saudade, apenas ajuda a que nos habituemos a ela. A Saudade e o Silêncio, quando os sons me são desconhecidos, são companheiras de jornada. Mas a Novidade e a Amizade também residem por estes lados... Dois meses depois estou certo que partir da Partida foi o mais certo; estou certo que chegar à Chegada não sendo inevitável, era desejável. Dois meses depois já não temo pisar o chão alcatifado...

Dois meses! E quando forem três? É difícil saber... Quando forem três a Chegada preparará a celebração do Natal, o mesmo Natal que na Partida não se celebra. Quando forem três, a Chegada estará a tiritar de frio e a Partida também. Quando forem três, a Chegada terá lágrimas dos Deuses a cairem a potes, na partida ouvi falar em neve... Quando forem três verei... Por agora são dois! Dois meses e a viagem continua...


Monday, November 11, 2013

Sem castanhas, sem jeropiga.. Sem S. Martinho...

O dia de S. Martinho é uma daquelas comemorações que sempre me agradou, pela genuina simplicidade da mesma. É daquelas comemorações que não precisa de feriado para acontecer; que não precisa de discursos oficiais; de paradas e maratonas de filmes. É uma comemoração simples e generosa que celebra isso mesmo... A generosidade humana no seu estado mais pueril. A simplicidade do acto de dar, sem esperar receber!

O dia de S. Martinho não tendo feriado, algo que agradará a certos governantes, tem os seus rituais dos quais as castanhas e a jeropiga (ou água-pé!) são os mais importantes. As broas também entram na festa, mas as broas, por norma, começam o seu reinado com o Dia de Todos os Santos. O tal dia que já foi feriado e que, por vicissitudes da demagogia austeritário-tecnocrática, deixou de o ser...

O dia de S. Martinho não é feriado mas tem rituais imprescindíveis que o marcam. Rituais que este ano não pude cumprir. Não tive castanhas, nem jeropiga, nem mesmo broas. Não tive roupas mais quentinhas. Não tive sorrisos em família. Não tive direito a um serão relaxado, oferta de um S. Martinho que, em anos anteriores, nunca me falhou. Não tive e tão cedo não terei...

Por culpa de uma série de coisas que não fiz fui forçado a mudar de país. Não me interpretem mal, sempre quis migrar. Sempre pensei em internacionalizar a minha carreira. Sempre tive nos meus planos experimentar outros palcos, para além do jardim lusitano. Sempre ambicionei ir até outras paragens... Mas sempre pensei que isso aconteceria por minha escolha e não por falta de escolhas. Sempre pensei que isso seria um passo meu e não um empurrão alheio...

Sabia que abdicaria do S. Martinho, que teria que passar algum tempo sem o sabor da jeropiga, o calor das castanhas assadas e o doce das broas; sabia que teria de prescindir dos abraços da família, do café com os amigos. Sabia isso tudo e mesmo assim queria, sempre quis, internacionalizar-me. Sempre soube que iria descobrir outros mundos, neste mundo. Mas, repito, sempre achei que seria EU a escolher o momento... Eu e não uma grupeta de gente fechada em gabinetes estofados, lá para os lados de S. Bento...

E por isso não sinto que abdiquei do S. Martinho. Não sinto que fiquei sem jeropiga, sem castanhas, sem broas e sem a presença da família. Sinto que me roubaram... Que assaltaram as minhas esperanças e aceleraram os meus planos; porque ou saia para fora, ou não iria a lado nenhum. E, talvez culpa minha?, não me vejo a fazer nenhum! Sinto que me assaltaram expectativas, depois de anos a fio a venderem sonhos que estou a cumprir, é verdade, mas com um custo enorme e com um guião novo...

E, porque já me tiraram muito, o Fidalgo fica-se por aqui... E a quem anda nos tais gabinetes estofados espero que a jeropiga não tenha o sabor salgado das lágrimas de quem parte; desejo que as castanhas não tenham o gosto amargo de quem abdica de muito; anseio que as broas não desiludam as bocas, de quem desiludiu não uma mas várias gerações... A vocês um bom S. Martinho...

E a todos os outros um FELIZ S. MARTINHO!


Friday, November 08, 2013

A lenta agonia da (in)Cultura!

Vamos directos ao assunto, a Cultura é o parente pobre deste governo desde o começo das suas funções. Para gáudio de alguns e espanto-horror-tristeza de muitos, a Cultura perdeu o direito a um ministério e passou a ser uma mera Secretaria de Estado sobre a alçada do Primeiro-Ministro. A manobra legal até poderia ser interessante, impulsionar a Cultura para um novo patamar, mas cedo se percebeu que era o começo da agonia...

A Cultura, sob os auspícios da Austeridade-tecnocrático-experimentalista, foi definhando a uma quase inexistência. De quando em vez a Cultura dá provas de vida, apenas porque os profissionais do sector têm uma alma e um profissionalismo que resiste a tudo...

Uma classe que resiste mesmo à patetice governativa e ao seguidismo-berlinista que dita tudo com folhinhas de Excel, sem atentar nas especificidades da realidade. Sem atentar nas necessidades da Cultura. Necessidades que gerarão potencialidades, mas já lá irei...

A Cultura foi entregue a um homem da Cultura que, cedo se percebeu, não tinha força para comandar a sua Secretaria. Trocou-se o Secretário de Estado e a Secretaria ficou como que morta. Abandonada a um mutismo sepulcral e a um vazio criativo mais fundo do que o fosso das Marianas.

A Cultura encarada como secundária, vista quase como um passatempo inútil em tempo de "Salvação nacional" (ainda me vão dizer o que se anda a salvar mesmo!?), foi espancada com a brutalidade imberbe de quem não conhece, nem parece querer conhecer, o imenso valor e a extraordinária necessidade de termos mais e mais Cultura.

Curiosamente, com este facto o Presidente da República não fica admirado, espantado, surpreso. Curiosamente com a agonia penosa da Cultura (que por norma assume-se como parte central das governações régias!) a presidência republicana opta pelo silêncio. Porque pelos finados é melhor ter refindo decoro e respeitar a vigília com pesaroso silêncio? Ou porque não se entende o valor tremendo Silêncio, perante tamanha barbárie? 

O actual governo estava certo, já o disse antes, quando criticava a cultura instalada de alguma subsídio-dependência por certos artistas. Mas a fórmula encontrada para transformar o problema não me parece a mais sana. Ora se o sistema de estímulo e apoio à Cultura estava mal desenhado (viciado, por certo!) o normal seria re-desenhar, reformar, repensar o mesmo e não fazê-lo implodir.

Perante um problema não se pensou numa solução, mas antes em dinamite-tecnocrática... Se o problema desaparecer, entre os fumos tóxicos da explosão, não terá que ser resolvido... Soluciona-se o problema, sem a maçada de pensar numa solução!

E depois espantam-se com a baixa taxa de consumo cultural em Portugal? Com a falta de leitura? Com o sucesso das Margaridas? Com o insucesso das Lídias? Com a incapacidade de tirar proveito da criatividade e da Cultura, como se faz em outros países do dito mundo civilizado? Ora quem não semeia, não pode querer colher. A Cultura anda em agonia e o problema não é apenas o Agora, mas o futuro...


Tuesday, November 05, 2013

Surpreso, Sr. Presidente? Surpreso fiquei eu...

O Presidente da República que se engalanou para mais um "corta-fita", uma das raras funções que ainda consegue realizar com competência, mostrou-se surpreso por Portugal ser a excepção à Europa, no que se referia ao acordos entre partidos políticos. Ora, ora, ora... Então Vossa Excelência, sempre tão arguto, está assim tão surpreso? E surpreso com o quê mesmo?

Denota o Fidalgo que, aos poucos, a palavra "consensos" vai sumindo do léxico político europeu... E ainda bem! O Fidalgo não é, nunca foi, contra uma política de consensos na lógica de Habermas, se o consenso for entendido na sua totalidade e não apenas como instrumento de uniformismo restrictivo, que impede o direito a pensar e a agir de modo diferente.

O consenso de Habermas não elimina o confronto na esfera do simbólico e da ideologia; o consenso é um compromisso alargado que comporta matizes diferentes; o consenso de Habermas nunca foi uma porta para um seguidismo parolo, enviesado e que proibe o discurso da alternativa e achincalha a ideia diferente (por ser diferente).

Quanto ao diálogo político reinante na Europa, o Fidalgo gostaria de saber a que Europa se refere a figura presidencial. A Europa onde a Bélgica levou mais de um ano a formar governo, batendo o record pertencente ao Iraque de estado sem governo por mair periodo de tempo? Ou a Europa das eleições na Grécia que conduziram a uma maior instabilidade? Ou a Europa da República Checa onde a possibilidade de um resgate conduziu ao "chamamento" eleitoral, por desacordos entre os partidos com maior representatividade parlamentar?

Ou a Europa da Itália onde os acordos políticos são, quando muito, pontuais e tão efémeros que chegam a dar vontade de rir, não fosse a situação dramática. Ou a Europa da Bulgária, abraços com uma série de protestos anti-governo e com uma clara incapacidade de as várias forças políticas encontrarem uma ideia comum? Ou a Europa da Hungria, ainda a recuperar do choque da constituição de Orban e a tentar entender como se joga o jogo democrático daqui em frente.

Estava surpreso com o quê mesmo? Concordo que não serve a Portugal uma Oposição incapaz de dialogar e incapaz de apresentar propostas realistas, sem o traço da demagogia populista. Concordo que não serve a Portugal uma Oposição que bate o pé, para captar votos, e que depois transforma o seu discurso por causa do "fardo governativo". Mas também não serve a Portugal a ideia de que apenas o uniformismo ideológico-intelectual nos salvará da crise.

O Sr. Presidente ficou surpreso com a falta de acordo político em Portugal? O Fidalgo fica surpreso com o que surpreende o Sr. Presidente da República. Talvez fosse mais útil surpreender-se com outras coisas... Sei lá o desemprego? A "fuga dos cérebros"? A nova pobreza? A exclusão social? A destruição dos sonhos e da realização de duas gerações?