Thursday, October 31, 2013

O Guião que não queria guiar...

E eis que o tão esperado "Guião para a Reforma do Estado" foi por fim apresentado. O resultado final, no que ao Fidalgo diz respeito, desilude um pouco, mas não surpreende. Após a "irrevogável birra" deste Verão, Portas conseguiu a tão almejada promoção política e passou de Ministro dos Negócios Estrangeiros a Vice-Primeiro-Ministro.

Estranha recompensa, para quem penalizou o país. Estranho prémio ganho por quem fez escalar os juros da dívida pública portuguesa, como consequência da "ópera bufa". O país ficou obrigado a pagar mais a quem especula, porque quem devia governar preferiu (um certo dia) o pseudo-drama-barato...

Paulo Portas já antes da "ópera-bufa" tinha responsabilidades sobre a produção tal guião, mas com a 'promoção' ficou tudo mais claro. O país aguardou, com pouca expectativa diga-se, o resultado da genialidade política de quem tem mais de actor político do que de agente da política. Preciosismos linguísticos? Talvez... Talvez não...

Chegou por fim o dia do Guião ser dado a conhecer e puf! Os poucos que esperavam com alguma curiosidade, porque é difícil ter expectativas depois das atitudes deste Verão, viram goradas quaisquer hipóteses de o Guião surpreender, de inovar, de transformar ou mesmo de guiar.

O guião para além de ser um fraco exercício de literariedade política revela um pauperismo intelectual que assusta. O documento mais não é do que um palimpsesto insonso, sem qualquer audácia e sem qualquer direcção clara sobre como se fará a tal reforma. O guião é mais um desfilar de desculpas pelo atraso e um pedido, meio-infantil / meio-parolo, de "mais um mandato porque agora é que é".

O Guião, no fundo, não guia, nem reforma. Saldou-se num exercício de espera colectiva sem qualquer resultado. O guião tem qualquer coisa de semelhante com olhar para nuvens. O acto em si não sendo inútil tem pouco de útil, pois no final o céu continuará azul. Curiosamente este Guião não fracassará, porque não existe, porque foi escrito apenas para parecer e aparecer.

Um Guião para a Reforma do Estado precisa antes de mais de um timoneiro; de alguém que saiba guiar. É por aí que se transformará e reformará o Estado. E um timoneiro, não é alguém que joga pelo Seguro; pelo populismo fácil, pré-eleitoral. Encontre-se o timoneiro e logo se fará a reforma!


Thursday, October 17, 2013

Tentando estar, mesmo não estando...

Habituei-me a estar presente no teu aniversário. Contam-se pelos dedos de uma mão os poucos que falhei. Não estive no primeiro aniversário, porque não existia. E por isso creio que a Natureza e a Providência são mais responsáveis pela minha ausência do que eu. Ia falhando em 2009, mas cancelei o evento que tive no Porto. Não estive no do ano passado, porque estava a dar uma palestra em Lisboa, mas logo que pude rumei a Abrantes para te dar um beijinho.

Tornou-se por isso um hábito poder dar-te um beijinho de parabéns, para além das felicitações virtuais no Hi5, no Facebook e via SMS. Tornou-se um hábito poder olhar nos teus olhos cor de avelã e ver a matriz bonita de que se fazem as grandes mulheres. O mais intrigante de tudo é poder ver, o que tu não vês. É poder olhar com palavras, o que os outros vislumbram sem saberem usar os olhos.

E para quem vive de palavras, num Universo de sons mudos, és uma musa perfeita. Uma inspiração não por seres perfeita, mas pela imperfeição; pelo facto de abraçares a tua condição humana e de seguires em frente. Sabes que tens limitações, mas não deixas que elas te limitem. E essa imperfeição em constante estado de transformação torna-te mais do que perfeita: torna-te TU MESMA.

São quase 30 anos. E nos fios de cabelo, que mudaram tanto de cor, estão estórias de quem cresceu já crescida. De quem soube ser irmã e mãe ao mesmo tempo. De quem temperava carinho e traquinice, com autoridade e organização. De quem sabia dizer sim, ou impor um (necessário!) não. De quem tinha que ser criança, enquanto fazia papel de crescida.

E nas mãos de tez pálida correm memórias de coisas sentidas, que as palavras poderiam descrever, mas que pouco acrescentam se escritas. As mãos palmilharam sensações vibrantes; não se cansaram de aplaudir, de acarinhar, de afagar, de proteger, de querer amar. As mãos que não param enquanto não ajudam o Outro, mas que muitas vezes se esquecem que também precisam de ajuda. As mãos que de tanto aplaudir, já merecem ser aplaudidas. E de pé! E com ovação!

E no sorriso escondem-se segredos, que não se segredam às paredes. No sorriso estão imagens do que se foi; de como se foi; porque se foi. No sorriso está a chave da grandeza, de quem não querendo ser grande é gigante. No sorriso está a chave da enormidade, de quem só quer ser. No sorriso está a passadeira da fama, de quem sempre gostou mais dos bastidores. No sorriso estás tu; está aquilo que tu és e que muitas vezes nem percebes ser.

E são esses quase 30 anos que se celebram hoje. Por vicissitudes dos Tempos; por erros que não cometi; por gastos que não fiz; não estou contigo. Falho mais um aniversário. E este levarei algum tempo a compensar. Falho mais um aniversário, mas não falha o que sinto: o orgulho e a admiração com que olho para a primogénita. O tremor de emoção, tão profundo, que me arranca lágrimas e sorrisos. Que guia as mãos pelas palavras, quando o cérebro se tolda de saudade e o coração exulta eufórico.

Quem nos governa não vai ler isto e mesmo que leia duvido que entenda o que aqui está plasmado; o que sinto com cada grafema impresso; o que custa não estar perto de quem nunca esteve longe; o que dói saber que causarei dor, pela ausência imposta. Mas Eles não importam! Importas tu, hoje e mais do que hoje. Importas tu ontem, hoje e amanhã. Importas! PARABÉNS maninha!


Wednesday, October 16, 2013

E se for bom este esfriar da relação Portugal-Angola?

As relações diplomáticas Portugal - Angola sempre me fascinaram, pela construção de um falso artificialismo situacionista. Portugal sempre semi-cerrou os olhos a Angola em várias frentes, como que para não ver que o que deveria ser afinal não era, nunca iria ser. Por vergonha do passado colonial, daquilo que tínhamos feito em Angola, fomos ignorando que afinal a transição para a democracia não estava em curso. Fomos aplaudindo com vigor o que não acontecia, na esperança de que acontecesse.

Olhámos sempre para Angola com um misto de paternalismo de quem "já foi o pai, o chefe da casa" e com o embaraço dos actos cruéis que fizemos. Angola era independente e isso obrigou a que fizéssemos um pequeno recuo político-diplomático, que não refreou as ajudas para o desenvolvimento e o forte compromisso português com missões de ajuda humanitária a Angola. Mas até aqui tudo bem...

E depois Angola descobriu que tinha dinheiro. A sua economia começou a crescer, com tantos recursos disponíveis a tarefa não é propriamente ardilosa, e Angola achou que ter dinheiro era ter tudo. Angola, ao bom estilo do Azerbaijão e do Cazaquistão, achou que quem cresce economicamente não pode ser atacado por estagnação e fracasso nas reformas políticas. Angola, de súbito, achou que já era crescida e não tinha que prestar contas a ninguém, por ter uma Louis Vitton debaixo de braço e um Cartier no pulso...

A elite angolana, porque Angola como país não tem culpas (e preservo muitas as amizades que tenho com gente de Angola), tornou-se arrogante e prepotente. A elite angolana passou a achar que tudo se resolve com o passar de um cheque e que dinheiro compra tudo. Mas não compra... A elite angolana aproveitou um momento de debilidade económica portuguesa para tentar "brincar aos grandes". Mas é pequeno quem aproveita os "desvalidos" para se fazer de herói. Não é pequeno, é minúsculo.

E por isso não vejo mal nenhum de as relações com Angola terem gelado, ou regredido. Não vejo mal nenhum de o país, apesar de estar economicamente débil, ter batido o pé. Não vejo mal nenhum de começarmos a dizer com todas as letras: Dinheiro e Democracia são coisas diferentes. Dinheiro e Igualdade são coisas diferentes. Dinheiro e Inteligência são coisas diferentes.

Angola tem dinheiro? Tem! E depois? Outros valores devem prevalecer. José Eduardo dos Santos terá dificuldade em compreender que amizade e diplomacia não são sinónimos de servilismo. José Eduardo dos Santos terá dificuldade em compreender que ao fechar a porta de Angola, talvez esteja a ajudar-nos a procurarmos outros mercados e, meu caro Presidente, se o país quiser, o país consegue substituir o que ganharia com Angola.

O Ministro dos Negócios Estrangeiros poderia ter feito as coisas de outro modo? Talvez! Mas de que serve o "veludo", quando somos tratados com desfaçatez por causa de um momento menos bom? De que servem falas mansas, com quem olha altivamente de cima do seu pedestal incrustado de diamantes mas com pés de barro oco?

Só gostava que não se atacasse o Ministro dos Negócios Estrangeiros, por vontade de atacar o Primeiro-Ministro, quando, desta vez, o Ministro dos Negócios Estrangeiros até esteve bem. E quanto à elite angolana-eduardina se conhecessem bem a História veriam que hoje "quem canta de galo", amanhã não serve nem para galinha. É só olhar para a Mongólia, para a Bulgária ou para a Geórgia... E tenho dito...


Monday, October 14, 2013

O Urso tem as garras de fora?

Moscovo voltou a mostrar a cara feia do nacionalismo ultra-eslavófilo, de cariz exclusivista e xenófobo. É pouco correcto dizer que o nacionalismo "está de volta" à Rússia, porque esta Rússia, a do pós-sovietismo, é por definição nacionalista. Foi de resto o discurso de salvação nacional que deu a Yeltsin o poder para desafiar Gorbachev e despoletar a transformação da União em Federação.

O nacionalismo foi a base de construção da Rússia feita Federação. Yeltsin usou a nação como escudo num momento em que os russkyi questionavam "quem somos?", após o colapso da União Soviética. Foi a nação que permitiu aproximar os não-russkyi de Moscovo, com Yeltsin a dar às outras nações toda a autonomia que conseguissem engolir (com óbvias excepções no Cáucaso Norte e na região do Médio Volga).

O nacionalismo permitiu a Vladimir Putin, vindo das sombras do FSB, destronar Yeltsin; projectar a Rússia para os russos e adiar a resposta a essa questão central: "quem somos"? O nacionalismo de Yeltsin, que protegia os russkyi mas dialogava com os demais povos, foi-se estreitando... Putin percebeu cedo que o nacionalismo era uma força mobilizadora poderosa e usou-a sempre que precisou.

É o nacionalismo de cariz eslavófilo que justifica as fotografias do Verão de 2009, em que Putin exibe a sua masculinidade a nadar em águas geladas e a cavalgar semi-nú. É o nacionalismo que justifica a incapacidade de se organizarem eventos internacionais em Moscovo, em que o russo não tente reclamar o seu espaço taco-a-taco com o inglês. É nacionalismo que vai excluindo todos os "outros", que mostra agora o seu lado mais feio, mais violento, menos racional.

O nacionalismo não é necessariamente vil, como por vezes dão a entender alguns comentadores da praça. Mas este nacionalismo exclusivista, ultra-eslavófilo, pode tornar-se incendiário (se não mesmo calamitoso!) quando combinado com uma ascensão das extremas-direitas na França, na Áustria, na Hungria, na Espanha, na Grécia, na Polónia, na Bulgária, no Reino Unido e mesmo na Alemanha.

O curioso do nacionalismo ultra-eslavófilo é que o seu discurso é, quase todo, voltado para dentro. Os migrantes contra quem se cantam cânticos, contra quem se protesta e em quem se exerce violência, são quase sempre migrantes internos; quase sempre de origem Ciscaucasiana; quase sempre muçulmanos. O nacionalismo que ontem saiu à rua quer purgar Moscovo dos migrantes internos. O nacionalismo de ontem quer a Rússia para os russkyi e só para os russkyi.

A violência do protesto de ontem foi apenas um aviso, mais um, de uma espiral de eventos que poderá descarrilar sem aviso. Já antes, num passado bem recente, o futebol desencadeara um fenómeno de hooliganismo-ultra-nacionalista, com cenas de violência entre russos e tchetchenos. Não são de resto poucos os sinais e os avisos de que o nacionalismo ultra-eslavófilo vem ganhando terreno na Rússia de Vladimir Putin...

É importante lembrar a revitalização do ultra-nacionalista LPDR (Partido Liberal Democrático da Rússia) nas eleições de 2011; o registo oficial do partido neo-imperialista ROS (União de Todos os Povos da Rússia) em 2012, que usa as cores da bandeira imperial (dourado, branco e preto) e que tem mostrado fulgor em todas as projecções de intenção de voto; a declaração (simbólica!) da independência da cidade de Domodedovo em Outubro 2012, e isto apenas para mencionar alguns exemplos...

Curioso como o recrudescimento do nacionalismo ultra-eslavófilo tem ganho energias com o fracasso progressivo da Europa da União, a tal alternativa, o tal espaço de igualdade e solidariedade transnacional. Com a União Europeia afundada numa crise que parece não ter fim, porque a União tem muito pouco de unida, a melhor alternativa é a reconstrução do esplendor de Moscovo; o único caminho é erguer-se uma terceira Roma, com pronúncia eslava.

O Urso tem as garras de fora? Tem... Sempre as teve. Só que agora está a usá-las...


Friday, October 11, 2013

Azerbaijanices, é o que é...

Os países do espaço pós-soviético insistem na parada eleitoralista, como mecanismo de "certificação" do seu grau de democraticidade. E se é inegável que as três repúblicas bálticas e algumas repúblicas balcânicas têm feito um esforço assinalável no sentido de construírem regimes de base democrática; é não menos verdade que na Europa de Leste, Cáucaso e Ásia Central a parada eleitoralista é mais um ritual, do que um verdadeiro mecanismo democratizante.

E com isto chegamos às eleições no Azerbaijão. O resultado não foi propriamente uma surpresa, com Ilham Aliyev a conquistar o seu terceiro mandato presidencial. Aliyev não validou apenas o seu terceiro mandato com o (suposto!) voto popular. O Presidente Aliyev mostrou que é o líder natural do petro-estado transcaucasiano, já que o resultado final da eleição Presidencial, que decorreu a uma quarta-feira (curioso, não?), lhe deu quase 86% dos votos!

Um resultado impressionante por si só, mas ainda mais impressionante se o Fidalgo lhe disser que o Presidente reeleito não fez campanha eleitoral. Nada de muito surpreendente, pois afinal para quê correr se já estamos na meta? A oposição lá ensaiou um protestos, umas marchas e uns comícios, mas tudo muito sem chama porque nem a oposição, deslumbrada com os petro-dólares e com a opulência que irradia de Baku, se quis opor muito a Aliyev.

A eleição presidencial no Azerbaijão, de resto, foi como se Usain Bolt corresse os 100 metros contra criancinhas de sete meses pouco ou nada capazes de se porem em pé. Foi tão veloz a vitória de Aliyev que os resultados eram já conhecidos, ainda as mesas de voto estavam abertas. Para quê esperar pela contagem (em Portugal levamos quase quarenta e oito horas de escrutínio eleitoral!?) se o vencedor já sabia que vencera?

Aliyev é o epíteto do verdadeiro autocrata pós-soviético, minado pelo neo-patrimonialismo eslavo-mongol que o impede de destingir a res publica da res privata. Aliyev venceu as eleições no Azerbaijão, porque o Azerbaijão é de Aliyev e quem pensar o contrário engana-se (e muito!). O Azerbaijão é tão de Aliyev que até já existe sucessor para o Presidente, caso este decida não concorrer a um quarto mandato: Mehriban Aliyeva, a sua esposa.

O resultado eleitoral no Azerbaijão foi denunciado por várias organizações internacionais e por vários estados do dito mundo Ocidental, mas como o dinheiro fala mais alto a denúncia foi soft. Os Estados Unidos da América condenaram a irregularidade e a falta de transparência eleitoral, mas não avançaram com quaisquer consequências diplomáticas. Algo curioso se considerarmos a velocidade com que se impõem sanções a Minsk, que apenas joga o mesmo jogo que Baku.

A OSCE, apesar de criticar o resultado eleitoral pouco claro, aplaude o facto de eleição ter sido disputada por vários candidatos. Factores como equidade, justiça, transparência e honestidade foram menorizados. Aliyev ganhou contra "outros", sabendo de antemão que os outros não eram verdadeiramente elegíveis, mas o importante para a OSCE era que os "outros" estivessem lá...

A União Europeia preferiu nem sequer enviar uma missão de observação eleitoral, não fosse o relatório final "chatear" Baku e o negócio dos oleodutos e gasodutos esfumar-se de vez... Para derrotas já bastou o colapso do ambicioso projecto Nabucco. Ao Fidalgo a parada eleitoral, porque não se deve chamar "eleição" a um acto de confirmação, não trouxe surpresas, apenas confirmações e alguns desapontamentos. Azerbaijanices, é o que é...


Tuesday, October 08, 2013

Quando chegamos ao final do túnel?

Pedro Passos Coelho anunciou hoje que o Orçamento de Estado  para 2014 pode gerar "um choque de expectativas", isto tendo em conta algum optimismo no discurso político, do seu partido, dos seus ministros e da sua lavra, nos últimos meses. Optimismo é exagerar, porque a narrativa política vai flutuando entre "estamos quase no fundo do túnel" (felicidade-frouxa?) e o "afinal era só uma curva, o túnel continua" (infelicidade-apocalíptica?).

Quem tem memória recorda-se que o começo do final das trevas troikianas seria após Setembro, com o famoso regresso aos Mercados. Veio Outubro e o discurso fala ainda em "choque de expectativas", alinhando de resto com Durão Barroso que avisa que se segue o túnel ou "está o caldo entornado". Isto dito por alguém que assim que pode abandonou a malga lusitana, pela baixela aporcelanada de Bruxelas. É preciso ter pouca (se alguma!) decência...

Ou avisos, de resto, vão sendo uma constante. Quando se encontram perante o imobilismo e ao seguidismo acrítico vai-se dizendo "mas estamos tão perto"; e quando a contestação sobe de tom, quando o bater do pé se ouve mais do que o bater das palmas a narrativa logo muda para um "mas o Apocalipse ainda pode acontecer". Esta gestão de expectativas já não causa choque, nem sequer surpresa. Já não causa nada!

Passos Coelho vai saltitando (para fazer jus ao nome, talvez?) entre a esperança de um amanhã de glória, para dar um novo alento de energia ao populus para se fazer o que falta fazer; e o amanhã sombrio que assustará o populus e o condicionará a fazer o que falta fazer. O importante é cumprir a cartilha, a mesma cartilha que tem sido alvo de críticas até por quem a desenhou.

A mesma cartilha que parece condenada ao fracasso sempre que testada; e condenada a ser sempre usada quando falta imaginação, ou quando a ideologia fala mais alto do que a lógica dos factos... Não são as expectativas que ficarão em choque com o novo Orçamento de Estado, é antes a moralidade que volta a ficar em coma. Porque afinal o que importa são os números, os credores, as dívidas todas pagas, os lucros e depois, bem no fundo do tal túnel, as pessoas.

Na Grécia, com dois+um pacotes de ajuda e algumas renegociações de metas feitas nos últimos seis anos, também se fala em "final do túnel" no final de 2014. Isto num país com o emprego quase a chegar aos 30%; num país com um tecido económico arrasado; com uma população sem esperança e com uma classe política perigosamente descredibilizada.

Vai sendo tempo de a classe política nacional (porque a Oposição também tem muitas culpas!) deixar a demagogia bacoca e o partidarismo cego, para passar à acção e ao resolver dos problemas. Vai sendo tempo de a classe política nacional pensar não apenas em resgatar a soberania económica, mas a soberania de sermos quem somos: Portugal! Só assim chegaremos, um dia, de facto, por fim, ao fim do túnel!


Saturday, October 05, 2013

E no silêncio fracciono-me...

É extraordinário o tempo que passamos connosco mesmos quando vivemos num país onde não dominamos a língua. Quando, apesar da sala estar cheia e do ruído da conversa marulhar com a delicadeza das ondas em praia-mar, estamos sós! Não é silêncio puro o que nos rodeia, mas também não chega a ser ruído. E, quando damos por isso, nem queremos saber o que é.

É extraordinário como de repente percebo que há muito que não falava comigo. Era fácil fugir ao silêncio. Era cómodo deixar que a língua de Camões, Queiroz e Pessoa embriagasse o silêncio. E a conversa adiou-se. Percebo agora que inventamos modos de fugir ao silêncio, mesmo quando caminhamos sozinhos aguardamos pelo som de uma mensagem, de uma chamada, ou usamos headphones para bloquear o silêncio. Mas o silêncio é persistente...

E agora que estou num país onde a língua dominante só aos poucos me parece familiar, num país onde nem 100 vocábulos sei ainda (ao que parece, alguns linguistas dizem que com menos de 7000 palavras não se consegue ter domínio basilar sobre a língua), num país onde as conversas trazem ruído mas deixam passar o silêncio, o silêncio, ele mesmo, começou a falar comigo. E, na verdade, fico contente que assim seja.

O silêncio mostrou-me o que eu não sabia, ou se sabia ignorava. O silêncio guiou-me por mim mesmo e desmontou-me em pedacinhos, como quem desmonta um puzzle mal montado apenas para o reconstruir. Mas antes de construirmos o puzzle, de voltarmos a dar sentido às peças, o silêncio pediu-me que olhasse para as peças. Pediu-me que antes de admirar a beleza do todo, que contemplasse a elegância da parte. E assim fiz!

E no silêncio fraccionei-me. E vi que de súbito não sou tão inteiro como julgava. Entendi, a olhar para as peças, que sou o que sou exactamente por aquilo que não sou. Sou um puzzle incompleto. Um puzzle na perenidade do inacabado. Um puzzle sempre em busca de mais peças. Um puzzle que tendo sido desmontado, pelo erro do que reflectia, nunca ficará terminado agora que se auto-entende. Sou um puzzle por terminar e isso deixa-me feliz.

Sou um puzzle de rosto e nomes. Sou criatividade em estado puro: sou Maria e não Tiago; sou urbanidade com um sorriso: sou Carolina e não Tiago; sou energia sem medo de arriscar: sou Inês e não Tiago; sou doçura com a força de um tufão: sou Catarina e não Tiago; sou organização para ter estabilidade: sou Carlos e não Tiago; sou perspicácia e amor incondicional: sou Filomena e não Tiago.

Sou feito de tudo isto e de mais, muito mais. Sou um fracção, sou um somar de peças que nunca terminará. E apenas o silêncio me ensinou isso! Era isso que ele, o silêncio, me queria dizer; era isso que eu sabia que ele diria; era isso que não desconhecendo, ignorava. E para quê? Sou feito de peças, sou um somatório do que não sou, mas é por isso mesmo que eu sou assim. É por deixar que as peças se liguem, se conectem, se completem.

Sou feitos de pedaços que não são Tiago e que não sendo Tiago fazem de mim o que sou. E isso, esse saber do que sou feito, devo-o apenas a ele: ao silêncio. É extraordinário o tempo que passamos connosco mesmos quando vivemos num país onde não dominamos a língua. Mas é mais extraordinário perceber o tempo que perdemos sem estar connosco mesmos...

(Excerto de um algo que começa a ganhar forma, escrito em Kirikkale, Turquia)


Thursday, October 03, 2013

O todo, a parte e a nomeação de Putin...

É uma das questões filosóficas centrais na Teoria do Conhecimento, podemos conhecer o todo apenas pela parte? Ou a parte é apenas uma fracção imprecisa do todo? Os Prémios Nobel, dos últimos anos, parecem inclinados a dizer que a parte é mais importante do que o todo, mesmo que o todo seja diferente da parte que se destaca.

Anda meio planeta espantado com a nomeação de Vladimir Putin para o Prémio Nobel da Paz. O Fidalgo não só não fica espantado como acha que Putin devia ganhar o prémio em causa. A que se deve esta súbita onda de Putinismo agudo? A nada, apenas deixo a lógica das coisas operar. Mas, como sempre nestas coisas do raciocínio, o melhor é irmos por partes.

Vladimir Putin, Presidente da Rússia (e Primeiro-Ministro do mesmo país, nas horas vagas!) foi nomeado para o prémio Nobel da Paz pelo seu contributo para encontrar uma solução não-armada para a guerra civil na Síria. É difícil falar em solução pacífica num conflito que já leva mais de 100.000 mortos e um número ímpar de refugiados que se vão amontoando na Jordânia, no Líbano e na Turquia.

Vladimir Putin usou a sua argúcia diplomática para neutralizar, diria mesmo vaporizar, o belicismo dos Estados Unidos da América e da França, com o Reino Unido (parceiro na guerra do Iraque) a ficar de fora, pois que as garras de Cameron foram retraídas pela tesoura parlamentar! A Rússia, que o Ocidente Euro-Americano continua a ver como o Outro, fez uso das suas "soft skills" e conseguiu serenar um conflito, que não terminou ainda mas esfriou...

A Rússia liderada por Putin agiu, portanto, em prol da Paz. Ora se o Nobel é atribuído a quem actua em nome da Paz, parece-me legítimo querer-se nomear Vladimir Putin para o mesmo. Especialmente quando em 2009 o Nobel da Paz foi atribuído a Barack Obama pelas coisas que "poderia fazer" pela paz internacional. O mesmo Barack Obama com "sede de conflito" na questão Síria, empurrado pelo lobby israelita que vê inimigos em todas as sombras...

Ora se Obama pode ganhar o Nobel pelo que "poderia fazer", porque razão choca o mundo Euro-Americano que Putin ganhe o Nobel pelo que já fez? E não esquece o Fidalgo, que até é especialista em Assuntos do Cáucaso, toda a violência e repressão brutal exercida sobre os povos do Cáucaso Norte e também do Cáucaso Sul; não esquece a Guerra Russo-Georgiana de 2008; não esquece a II Guerra Russo-Chechena...

Mas se fossemos analisar o todo então nem Obama teria ganho o Nobel da Paz (tentou com a campanha Kony 2012 mobilizar a opinião pública para uma intervenção no Uganda; depois afilou os dentes à Coreia do Norte e de seguida ameaçou invadir a Síria), nem os Prémios Nobel da Paz fariam sentido, visto que têm o nome do mesmo homem conhecido como "O Mercador da Morte". Se é a parte que vigora nas análises da Academia Sueca pois então venha de lá a nomeação e, quiçá, o prémio para Vladimir Putin!


Tuesday, October 01, 2013

Breve reflexão sobre as Autárquicas 2013

Com os resultados das autárquicas praticamente fechados, estão ainda por realizar duas votações e por apurar os resultados de duas outras mesas de voto, é tempo de balanço. Surpreendeu-me de resto a avidez com que comentadores teceram laboriosos raciocínios sem ter os resultados finais. Surpreendeu-me a velocidade com que se quis formular opiniões, que por vezes redundam em clichés com intenções "politiqueiras".

Com um mandato ainda por atribuir o PS conseguiu já igualar o número de mandatos que ganhou em 2009 em Câmaras Municipais: 921. O PSD (sozinho) perdeu 135 mandatos passando de 666 para 531. A CDU aumentou 39 mandatos passando dos 174 para os 213. O CDS-PP (sozinho) sobe também de 31 para 47 mandatos, ou seja mais 16 mandatos. O Bloco de Esquerda passa de 9 para 8 mandatos.

Os Independentes passam de 67 mandatos para 113 mandatos, naquela que foi a maior subida da noite em conquista de mandatos nas Câmaras Municipais. O MPT (sozinho) manteve o mesmo número de mandatos conquistados no último escrutínio: 2. E o PND (sozinho) perdeu o único mandato que tinha conquistado.

Há ainda a ter em conta mandatos conquistados na Assembleia Municipal e nas Juntas de Freguesia, mas o Fidalgo não olhará para isso. O Fidalgo também deixará de fora do seu comentário a confusão das coligações, curiosamente mais comuns entre os partidos de Direita do que entre a Esquerda. E há ainda a tragédia de uma abstenção perto dos 47,5%.

O que podemos retirar de tudo isto? A vitória do PS não foi tão avassaladora como algumas mentes da praça, levadas pela excitação da noite eleitoral, quiseram fazer crer. A vitória do PS é interessante, é um novo dado político que o Governo não pode ignorar, mas não é mais do que isso: interessante. Em percentagem de votos o PS até perde 1,42% de votos, passando de 37,67% (2009) para 36,25% (2013).

O PSD (sozinho), por seu lado, é um dos grandes derrotados da noite. Perde 135 mandatos e 6,26% nas intenções de voto não chegando sequer aos 17%. Um resultado fraco para um Governo que tem um Orçamento de Estado para aprovar e que tem de mostrar trabalho urgentemente, pois a capacidade dos portugueses acreditarem no valor dos sacrifícios impostos esgota-se.

Falar em vencedores nas Autárquicas 2013 é falar na CDU! Conquistam 39 mandatos novos, aumentam o domínio no Alentejo, e aumentam o número de votos em 1,31%. Passam dos 9,75% de 2009 para uns curiosos 11,06%. A CDU, goste-se ou não do estilo, representa uma oposição com consistência. Mantém uma linha de argumentação coerente, não sendo apenas anti-governo é alternativa com propostas, ideias e argumentos conhecidos. A CDU não capturou votos de protesto, tem em crer o Fidalgo, capturou votos de cansaço com o bipartidarismo laranja-rosa e votos de quem tem vontade de descobrir trilhos novos.

O CDS-PP é outro vencedor da noite passando a contar com mais 16 mandatos e perdendo apenas 0,5% de votos entre os dois escrutínios. A irrevogabilidade de Portas não fez moça, ao que parece, na mente de muitos eleitores. A crise/birra política não se traduziu em perda de votos e mandatos. O CDS-PP representa, curiosamente, uma inversão do cenário alemão: na Alemanha o partido de Merkel ganhou votos à custa do parceiro mais pequeno; por Portugal o parceiro de coligação foi buscar votos ao "irmão grande".

O PSD não esteve sozinho na sua derrota! O BE, por muito que tente disfarçar, perdeu em toda a linha. Não conseguiu, sequer, renovar os 9 mandatos conquistados em 2009, perdeu um pelo caminho; não conseguiu passar a barreira dos 3% de votos (nem sequer 2,50% obteve); não conseguiu manter a única Câmara Municipal que tinha. O BE anda à deriva, sem ideias e sem argúcia, e corre o risco de desaparecer, de se diluir entre a oposição vincada da CDU e a oposição dócil do PS.

Voltemos aos vencedores! A coroa das Autárquicas 2013 vai para os candidatos Independentes. Conseguem mais 46 mandatos, conseguem mais 2,83% votos ficando pertinho da barreira dos 7%, conseguem conquistar a segunda Câmara mais poderosa do país. Os Independentes são os grandes vencedores da noite eleitoral, mostrando uma clara resposta da sociedade civil à exaustão de ideias e ao diluir de ideais na sociedade política.

Os Independentes representam um grito de revolta democrático, com mais consistência do que os mediáticos Anonymous. São uma nova faceta da vida política nacional, que apesar de contar com quase 48% de eleitores-abstencionistas, conta também com cada vez mais gente empenhada em fazer política, num momento em que a cola agregadora dos partidos políticos mostra sinais de fraqueza. A vitória da noite é dos Independentes e ignorar isso é não perceber muito de política.

Menção muito honrosa ao Movimento Revolução Branca que marcou os meses que antecederam o escrutínio popular. A vontade férrea em acabar com os "dinossauros" políticos acabou por se traduzir na aniquilação de muitas desta figuras. O autarca-nómada não é um espécimen extinto, pois que sobreviveram alguns, mas a sua população é menos numerosa do que se previa.

E é isto! As Autárquicas 2013 deixam os partidos com sensações e posições diferentes. Temos assim um PS com uma vitoriazita engalanada pelo estrondo de Lisboaum PSD com uma derrota indigesta, mal disfarçada pelas conquistas nas várias coligações; um CDS-PP com uma vitória por clara transferência de votos; uma CDU com uma vitória relevante, com um novo domínio sobre o bastião Alentejano; um BE em estado de diluição; e os Independentes coroados pela persistência, pela criatividade e pela ousadia.