Thursday, September 26, 2013

A Europa, as Uniões da Europa e as galinhas da vizinha...

A realidade política comparada tem sempre destas coisas, por vezes olhamos para "a galinha da vizinha" e percebemos que ela é mesmo melhor do que a nossa. Na Europa, que respirou de alívio com a elevação à glória da sua Imperatriz Auto-Nomeada e (parcialmente) eleita, o tempo é de contas. O novo orçamento tem que sair e os 28 membros + Comissão + Parlamento não se entendem.

Uns querem mais dinheiro, porque o tempo é de crise e por isso é preciso proteger os mais desfavorecidos; os mais castigados com os erros que não cometeram; os mais penalizados por se trilhar um caminho que não tem como ser caminhado. E outros, como o Reino Unido (mais recentemente), acham que dinheiro a mais é manter vícios, manter maus hábitos, manter a imoralidade.

O problema é que certas vizinhas, quando olham para a galinha do lado, olham toldadas pelo preconceito; pela ideia que a vizinha do Sul é preguiçosa e mandriona; e não faz mais e melhor apenas porque não quer. Na verdade não olha para a vizinha, põe-lhe apenas a vista em cima e deixa que o preconceito tome espaço e olhe por si, numa cegueira que não pode dar bons frutos num espaço em que as 28 vizinhas deveriam ser amigas...

E depois, num "bairro" não tão distante, há planos para se usar dinheiro como mecanismo de atractividade para a criação de um espaço onde se querem mais vizinhas. Um espaço onde as vizinhas, as que estão e as que irão chegar, se querem afiladas pela lealdade e pela ausência de cobiça pois que haverá galinhas para todas! Eu descodifico...

O Primeiro-Ministro do Quirguistão propôs a criação de um Fundo de Assistência a quem se juntar à União Eurasiática, espécie de CEE 2.0 liderada por Moscovo, que começará como um projecto de mercado livre, de transacção de bens e capitais e (a seu tempo) lá caminhará para uma integração política maior...

Nos dois bairros, no da União da Europa e no da União da Euroásia, tenta-se reconstruir a grandeza de Impérios que já foram, mas cujo pó ainda (se) inspira. Lá como cá o Síndrome de Roma (a eterna tentativa de reviver a Pax Romana) ainda vai mexendo com muitos mandantes...

Só lamento que no bairro da União da Europa, supostamente humanitária, solidária e democrática, impere o autoritarismo do mercado e austeridade multidimensional que rarifica ideias e estrangula soluções não-austeras. Lamento que a União da Europa se fragmente porque nunca se quis unir; foi a cobiça pela galinha alheia que juntou tanta vizinha.

E acho curioso que na União da Euroásia, no tal bairro de ditadores despreocupados com direitos basilares, existam preocupações com os custos de se entrar para um espaço comum; com os custos de se homogeneizar o que até então era diferente. Se tudo correr bem não será preciso cobiçar a galinha da vizinha, porque as galinhas serão todas iguais.

E por aqui se fica o Fidalgo...


Tuesday, September 24, 2013

A eleição feita coroação?

E Angela Merkel venceu. O resultado, na verdade, não tem nada de surpreendente, apesar dos comentários entusiásticos de algumas luminárias do espaço público. Desde o final de Julho que Merkel liderava todas as sondagens, com uma distância tão confortável como os sofás da Divani&Divani. A eleição quase trouxe a surpresa de um partido eurocéptico tomar lugares no Parlamento Alemão, mas o quase não faz História...

Merkel venceu a eleição e a Europa da Tecnocracia-Austeritária respirou de alívio. A Europa, transformada em quintal germânico, temia o novo, sabendo que o novo não aconteceria, numa prova de que o nervosismo mediático contamina facilmente líderes pouco ou nada preparados para as agruras da vida pública. A Europa da Tecnocracia-Austeritária respirou de alívio, mas nunca teve verdadeiramente em perigo.

A eleição de Merkel teve qualquer coisa de coroação. De confirmação do novo momento de poderio Alemão. De confirmação de que o caminho trilhado, apesar de calamitoso, é para continuar a trilhar, enquanto de Berlim não vierem sinais contrários. A eleição de Merkel foi mais uma confirmação do que um processo de selecção, porque não havia muito a seleccionar quando nem a Oposição se esforçou. A Oposição na Alemanha é de resto, como em Portugal, bastante frouxa.

A eleição, ou antes a coroação de Merkel, não fica contudo isenta de derrotas, que os media internacionais tentaram ocultar ou, o mais certo, nem se deram ao trabalho de apurar. O parceiro de coligação de Merkel perde a eleição. E ninguém acha curioso que Merkel ganhe com glória e os seus parceiros percam com estrondo? É o mesmo que jogar ténis a pares e no final um dos jogadores levar a taça e o outro ser desclassificado. Para o Fidalgo é estranho...

Merkel venceu, coroou-se de glória mas não conseguiu evitar um cenário instável para confirmar uma coligação. Merkel terá que ceder na questão dos minijobs e na introdução de um salário mínimo para atrair os Sociais-Democratas? Será desta que a Alemanha passa a pugnar por regras similares ao restante espaço europeu que tão avidamente deseja controlar? Ou a "vantagem competitiva" e o "sussurro dos mercados" ainda irão dar a volta ao jogo?

Estranho a ausência de menção aos valores da abstenção, que muito nos podem dizer sobre o real impacto doméstico da eleição que coroou Merkel para mais um mandato que, quando terminar, a fará estar na liderança da Alemanha mais tempo do que Assad tinha de liderança da Síria no começo da Revolução Árabe. Mas como é óbvio só Assad é que se quer perpetuar no poder político.

Não foi uma eleição o que a Alemanha viveu no Domingo. Foi uma coroação; a coroação de uma ideia gasta, vazia, derrotada e mesmo assim capaz de galvanizar um povo que não percebeu que "destruir" os vizinhos levará a uma inevitável auto-destruição. E o Fidalgo fica-se por aqui...


Thursday, September 19, 2013

Política em estado parolo-parolinho...

Vai muito pateta a política portuguesa. Evitei "bloggar" em Agosto por temer os efeitos da silly season que não poupou ninguém. Estranheza foi a palavra de ordem, com o duelo da "Moralista" Judite contra o "Gastador" Lorenzo ou com a proposta de mentes brilhantes do Bloco (de cimento?) que querem regular o piropo na rua!

Com a vinda de Setembro tive que me ocupar com a mudança de país e por isso fui adiando comentar o que ia acontecendo. Mas este último pedaço informativo que li obrigou-me a um esforço adicional: o CNE quer controlar, para ser meiguinho, os comentários aos candidatos das Autárquicas nas redes sociais, dois dias antes das eleições? É isso mesmo aquilo que li? Ou a falta de um café decente está a fazer-me alucinar?

O CNE quer regular assim tanto a vida mediática? Primeiro foram as imposições aos meios de comunicação públicos e privados que levaram a uma opção pela cobertura mínima. Má opção, tenho em crer! É este o passo que se segue? Vivemos em sociedade mediatizadas, com forte impacto dos meios audiovisuais e das redes sociais, e o CNE quer remar contra isso?

O CNE quer voltar à política feita por via dos arautos, ou nem os arautos são permitidos? Ou será melhor os candidatos e os cidadãos-eleitores comunicarem por sinais de fumo? É que nem estes são verdadeiramente democráticos, porque é preciso saber lê-los. Ou se anda a trabalhar em excesso no CNE e a exaustão levou ao esgotamento dos seus profissionais... Ou se anda a trabalhar de menos e o enfado levou a enfabulações patetas. Uma das duas explicará isto...

Pior do que isso só mesmo a decisão do Tribunal Constitucional que levou à criação do Majorem Nomadum (Autarca Nómada). Como que para presentear quem Governa, depois dos castigos anteriores, e porque o TC se vê enredado nas redes de poder que deveria regular decidiu-se que os candidatos podem fazer "packs" de três mandatos num concelho e saltar para o concelho seguinte.

E a seriedade que se impõe à política autárquica? O conhecer da realidade local? Não me venham os puristas com o argumento bacoco do "é a população quem escolhe" e se, in extremis, mas possível, todos os candidatos forem Majorem Nomadum? Como se escolhe? Os cargos em disputa nas autárquicas não deveriam ser vistos como medidas "Passaporte-Emprego" para quem nunca fez nada mais...

Portanto, em Portugal, podemos perpetuar o poder dando-lhe um carácter nómada e não podemos comentar o poder na casa das tribos urbanas (as redes sociais, entenda-se!). É estranho não? A seguir o CNE vai dizer que "piropar" na rua também não está certo e um destes dias, ao estilo do Turquemenistão, estamos a viver numa "era de felicidade" declarada por édito!

É assim que queremos democratizar a democracia e credibilizar o sistema? Fechando-nos na caverna e dando aos líderes a capacidade de o serem ad eternum, desde que se revezem geograficamente? Assim não o vamos conseguir.

E já agora que conversa é essa de um ex-Primeiro-Ministro ir lançar um livro sobre Ciência Política? Então mas ele não ia para Paris doutorar-se em Filosofia? Interrompeu o doutoramento e mudou de área só porque comenta (sem substância diga-se!) umas coisas em sinal aberto? Quer parecer aqui ao Fidalgo que anda tudo muito confuso pelo jardim há beira-mar plantado.

Longe, mas muito atento...
O vosso: Fidalgo ;)


Wednesday, September 18, 2013

E o café soube a isso tudo...

A noite acontecera. Não existe melhor forma para descrever a noite que passara. Porque não sei se dormi, se não dormi, se dormi não dormindo. Porque não sei e isso, sinceramente, nada acrescenta. A noite passara e eu perdera-a. A última lua antes da partida. O último sussurrar do vento pelos cantos de um bairro labiríntico em paredes e segredos. A última noite passara.
O gesto simples de abrir a cama, puxar os cobertores para o fundo da cama e tapar-me com o lençol a ver um qualquer filme russo, turco, iraniano, uzbeque, o que fosse, transformado em segundos numa memória. Um gesto que repetirei, por certo, mas não no dia seguinte, nem na semana seguinte, nem no mês seguinte. A última noite perdera-a. Passara por mim e eu nem sei se a dormi, ou se não a dormi.
A convicção de que tudo ia mudar, de que muito começaria após aquele dia mas muito ficaria também por começar e por acabar, levou-me aos rituais da higienização matinal. Material pouco digno de literatura a que pouparei o simpático leitor. Basta saber que eu perdera a última noite e que preparava o último dia.
Vi o rosto d'Ela pela primeira vez no corredor. Tentou sorrir-me, mas não conseguiu mais do que um pálido esboçar de alegria, misturado com um Evereste de tristeza. E, porque me queria sereno, seguiu para a cozinha e eu fui, pela última vez, arrumar o quarto onde perdera a última noite; a mesma noite que não sei se dormi, ou não dormi...
Arranjei-me com atenção aos detalhes; com uma minúcia de cinema documental. Cada cena arrastada, propositadamente lenta para se ler nas linhas, nas entrelinhas, nas linhas das entrelinhas. E cada cena ficou-me gravada na mente com a nitidez de uma tela de Gustave Courbet. Era ali o começo de um mundo, mas para isso fecharia outro. Coisas que o dom da ubiquidade poderia resolver!
E fui para a sala. E quando esperava pela caneca azul e pela caneca vermelha ali estavam elas, duas chávenas de porcelana. Duas chávenas elegantes, delicadas, trabalhadas para agradar a visão quando é do palato que tratamos. Duas chávenas que falavam mais do que os talk-shows matinais, onde a verborreia idiota há muito substituiu a inteligência da simplicidade.
Duas chávenas de café. Bonitas. Muito bonitas. E de tão bonitas penosas. Enchia-as de café para ocultar a sua beleza, mas o esplendor apenas se tornou mais evidente. A noite passara e em breve a manhã também passaria e o controlo dos segundos, que nunca foi meu, escapava-me como água do Tejo nos dedos de uma criança. As chávenas continuariam bonitas, continuariam na minha memória, continuariam ali. Só eu ia partir.
E o café soube a isso tudo. Ao amargo de um adeus que sabia inevitável, um adeus que eu escolhera, um adeus que eu ardentemente buscara... Ao amargo de uma despedida que se aproximava, porque era eu quem partia e não o tempo que nunca parte por nunca ficar, ao amargo de um último beijo que me levaria às lágrimas. Ao amargo da Saudade que sentia já, por saber que a sentiria depois.
E o café soube a isso tudo. Ao mel dos sonhos que se cumpriam, ao mel dos sacrifícios desabrochados em conquistas, ao mel do "tudo valeu a pena"! Ao mel de poder crescer, dar mais um passinho em frente, fazer-me gente. Ao mel de puder ver naqueles olhos, carregados de lágrimas e de ternura, orgulho genuíno. Ao mel de saber que partindo ficaria ali, guardado em memórias e em recordações doces.
E o café soube a isso tudo. E a noite perdida, que não sei se dormira ou não; e as memórias gravadas com a lentidão reflexiva dos documentários experimentalistas (do tipo Sokurov!); e os olhos que vira carregados de sal e de sol. O café soube a isso tudo. E por isso embarquei feliz. Com o coração cheio de saudade tão envinagrada quanto doce; com o coração cheio de saber que voltarei, para poder voltar a partir; com o coração cheio de saber que o café pode saber a isso tudo...

(Excerto, de um algo que existirá mais tarde, pensado a sobrevoar os céus da Itália e escrito em Kirikkale)


Monday, September 16, 2013

Como um espaço pode ser uma hera!

Ainda não sei como me aprisionei na rotina, mas sabê-lo também não importa. Transformamos espaços físicos em ambientes transcendentes e de súbito o inusitado faz todo o sentido.
Como se o equilíbrio do Universo dependesse daquela cadeira com o estofo lancetado (imagem de um guerreiro púnico a pedir sossego?), ou de uma mesa 'bamba' onde, por vezes, corre cerveja como a força das monções na Índia ou das cheias no Nilo.
O equilíbrio do Universo suspenso pelo cheiro do tabaco mesclado com o aroma do café que já se bebeu, que se bebe, e que aguarda ser bebido. E as vozes... As vozes... Vozes que, por vezes, nem percebemos o que dizem e que mesmo assim fazem todo o sentido. É como uma hera a rotina que trepa por nós, que fica entrançada, em quem descobre estas geografias fora dos mapas.
E os espaços passam a ser santuários sem o fausto da talha dourada e a rigidez serenamente perturbadora dos Santos. Um santuário dos que procuram a mundaneidade; dos que não se arvoram à pretensão da auréola, nem se põe em bicos dos pés para atestar da sua idoneidade.
E são esses os espaços que valem a pena! São esses os espaços que silenciam as perguntas, de quem faz da Arte de perguntar Vida. Eu tenho um desses espaços. Uma dessas zonas onde a fantasia e o real se unem numa bizarria que de tão improvável  e desconexa se torna harmoniosa.
Obrigado por tudo Arcada e 'arcadenses'!

(Excerto, de um algo que existirá mais tarde, escrito a sobrevoar os céus da Albânia)