Thursday, August 27, 2015

Noivo Por Um Dia (5/5)

[...Continuação]

- Escolheste não ter raízes. Ser etéreo e vago; ser tão omnipresente e tão invisível quanto o ar. Todas as mulheres sabem que existes, que podem contar contigo; mas nenhuma te tem como seu. Foi isso que escolheste. – Vanessa evitava, por alguma razão, o contacto com os meus olhos. Ela não queria seguir com a conversa, mas eu ainda não estava satisfeito.

- E tu? O que escolheste? – Lancei mais uma bomba nuclear, feita de vocábulos e de ansiedades, para detonar nas mãos de Vanessa.

- Escolhi seguir em frente. Trilho um caminho recto, com objectivos, com metas, com aspirações. Seguir em frente foi a minha opção. – Vanessa respondeu secamente. Tentando mostrar-se enfadada pela conversa, quando na verdade sentia nela perturbação e inquietação.

- E porque tiveste que seguir em frente? – Repliquei eu.

- Desculpem chatear, mas a tua mãe está a chamar para o jantar Vanessa.

A tia da Vanessa salvara a sobrinha de responder às minhas inquietações. Vanessa voltou costas ao sol poente e caminhou até casa. Segui o mesmo caminho que ela, alguns segundos depois. Tínhamos chegado ali pelas escolhas e não pelo alcatrão da estrada. Eu sentia os meus demónios mais activos do que nunca.

Depois de curtir com Eva, a vida retomou o seu curso. Porque beijara Eva se não era ela quem queria? A minha amizade com a Vanessa foi-se desenhando e, numa tarde qualquer, decidira-me por uma vida sem vida. Por uma vida feita de máscaras fugazes e de despedidas planeadas. Uma vida onde a valentia de assumir os sentimentos não teria qualquer importância. Uma vida que me afastasse do altar…

- E já pensaram em marcar o casamento? – Perguntou a mãe de Vanessa entre a sopa de legumes e o frango assado no forno.

- Já falámos disso, mas nunca assentámos ideias. – Vanessa adoptou um tom de voz brincalhão. – Aqui o senhor tem medo de ir até ao altar. Tem medo que eu o deixe pendurado na hora final.

Um coro de alegres e descoordenadas gargalhadas explodiu na sala de jantar de Vanessa. Não era esse o meu medo. Como podia eu ter medo do altar, quando nunca tinha saído dele. A respiração tornou-se mais difícil. As lágrimas encheram-me os olhos e antes que me conseguisse controlar, irromperam pelo meu rosto abaixo. Sem pensar levantei-me da mesa e fugi até ao quarto da Vanessa.

As gargalhadas sumiram, como se nunca tivessem existido. Chorei enquanto olhava para as princesas de porcelana da Vanessa. Eram tão delicadas, tão frágeis, que a monstruosidade dos meus actos, das minhas escolhas, podia danificá-las. As lágrimas tornaram-me mais grossas. A porta do quarto da Vanessa rangeu um pouco, antes de sentir a mão dela tocar no meu rosto.

- O que foi? Deixaste todos preocupados! – Vanessa olhava surpresa para mim; não contava ver-me chorar. Porque razão choraria eu?

- É tudo tão claro. Já sei quem deixei no altar, de quem fujo desde aquele dia no campo de futebol. – Vanessa parecia não entender as minhas palavras. Franziu a testa, pensando, por certo, que estaria louco. – Eu fugi de mim. Eu espero por mim no altar. Espero pela minha alma.

- Não consigo perceber o que dizes!

- Foi por minha culpa que seguiste em frente. Não tinhas que o fazer, mas quando fugi de mim, quando me deixei no altar, obriguei-te a seguir em frente. Destruí a porcelana dos teus sonhos. – As lágrimas continuavam a correr pelo meu rosto, lavando as minhas veias. Os demónios que eu temia, que trancara num recanto negro do meu peito, transformaram-se em anjos e voaram.

- O que dizes?

- Eu sou Noivo por Um Dia, porque o dia em que te deixei no campo de futebol, em que cedi aos gritos dos outros, ainda não terminou. Eu queria ter o teu coração, ter-te sempre pertinho de mim. Queria amar-te porque eras única, mas acobardei-me e fugi. – Vanessa tirou a mão do meu rosto. – Fugi sem perceber que congelava a minha vida. Sem perceber que não saía da linha de partida. Fugi, sem sair do sítio.

- Agora é tarde.

- É tarde se escolhermos que é tarde. – Agarrei as mãos de Vanessa e olhei para os seus olhos infinitamente belos. – Eu escolho ser teu Noivo não por um dia, mas por uma vida. E se a vida for apenas um dia, ou um delírio que seja, pois serei noivo por um dia, ou por um delírio.

- E o que escolho eu?

- Podes seguir em frente, ou podes seguir contigo. – Larguei as mãos de Vanessa para limpar o meu rosto. – A decisão é tua. Eu já escolhi; não fugirei mais. Voltarei ao altar para me resgatar e entregar-me a ti.

Um beijo quente e húmido de Vanessa silenciou as minhas palavras. As bonecas de porcelana aplaudiram em silêncio mudo. Voltara ao dia em que a deixara sozinha no campo, mas desta vez sairia do campo de mãos dadas com ela. Não voltaria a entrar na profundeza escura dos balneários, para me lavar de mim mesmo. Desta vez escolhia ser eu mesmo; ser inteiro; ser humano e completo.

Vanessa pediu-me para descer. Respeitei o desejo dela. Ela escolhia um caminho onde eu não fazia falta. Ficou sozinha no seu quarto, olhando para as suas princesas de porcelana. Desci as escadas lentamente. Entrei na sala de jantar e pedi desculpa a todos pelo meu comportamento. Ninguém parecia importar-se com o sucedido. Perguntaram pela Vanessa, mas não sabia o que responder. Optei pelo silêncio.

Abrira o meu coração, trespassado pela claridade do que não vira até ali. Não era Noivo por Um Dia de alma e vontade; era-o por cobardia. Vanessa tinha aprisionado o meu ser, mesmo sem querer ser sua carcereira. Infelizmente despertara demasiado tarde. Vanessa seguira em frente; habituara-se à vida que escolhera. O pior de tudo é que sei que ela se afasta de mim por minha culpa.

Passado alguns minutos, horas tortuosas para mim, Vanessa saiu do seu quarto. Entrou na sala com um vestido de cauda azul-marinho, feito de delicada seda; ao longo do vestido tinha sido bordada, em azul-escuro, à sombra de uma grande rosa. Um delicado trabalho artesanal que assentava na Vanessa com uma perfeição onírica.

Esticara o cabelo artesanalmente e maquilhara os olhos. Um suave tom de rosa realçava os seus lábios carnudos. Nunca antes vira Vanessa assim. O espanto de todos os presentes, era infinitamente menor quando comparado com o meu deslumbramento: ela escolhera.

- Quero ser princesa! Ter o meu conto de fadas! – Vanessa avançou na minha direcção. – Não quero ter que seguir em frente. Quero seguir apenas; avançar passinho a passinho. Quero continuar o que nunca terminámos.

- Que assim seja!

Percebia no rosto dos presentes um sentimento de desconhecimento; até os podia ter elucidado sobre o que se passava, mas aquele era o nosso momento. Beijámo-nos outra vez, recuperando o tempo que não tinha sido perdido, mas sim congelado. Tudo o que tinha vivido nos últimos anos tornou-se fantasioso; irreal; imaginário. Vanessa e eu podíamos renascer.

Sem saberem o que fazer, os familiares de Vanessa bateram palmas. Tinha que ir ver a minha família, um destes dias. Tinha que recuperar o que congelara, mas que nunca perdera. Tinha que voltar a ser integralmente Eu e não uma simples mancha de gente. Tinha que me completar. Vanessa e eu sorrimos um para o outro. A estrada não nos levara ali, a estrada começava ali.

- Casamos no final do ano. – Anunciou Vanessa para gáudio dos presentes. – Que o final do ano seja o nosso princípio. – E de súbito passei a ser mesmo Noivo por Um Dia; pelo primeiro de muitos dias!

FIM


Thursday, August 20, 2015

Noivo Por Um Dia (4/5)

[...Continuação]

- Os meus parabéns garanhão. A Daniela adorou a noite de ontem. – Vanessa não podia estar a falar a sério. A noite de ontem não acontecera. – Não sei o que fizeste, mas ela diz que és uma relíquia.

- A sério? – Recompus-me do choque inicial em segundos. Daniela gostara de uma noite que não acontecera. Tanto melhor assim. Saímos os dois a ganhar. – Bom, é para agradar que me pagam.

Não sei o que sentem os génios, quando são tocados pela inspiração divina, mas o que senti foi algo verosimilhante. Leonardo Da Vinci, Copérnico e Einstein que me desculpem, mas até eu posso sentir a inspiração divina descer sobre mim. Daniela não tinha sido abandonada no altar; não a tinha tornado na Outra, nem na Abandonada. Ela mantivera-se intacta, pura, virginal.

Teria sido eu deixado no altar? A violência da revelação fez-me perder as forças. Corri até à casa de banho e vomitei as entranhas. A Daniela incinerara a minha essência humana com dúvidas. Em que altura da vida escolhera ser isto? Esta espécie de vida, onde adiava tudo. Adiava, percebia agora, mas não podia fugir. Por muito que corresse, a meta mais não era do que a linha partida.

Lembrei-me do dia em que pela primeira vez vi, com olhos de ver, a Vanessa; a mesma Vanessa que deixei sozinha no campo de futebol, perante os gritos dos meus amigos. Jogámos a partida de futebol e fomos até aos balneários. Olhei para o fundo do campo e lá estava ela. Depois o abraço de um colega de equipa resgatou-me para as negras catacumbas a que chamávamos de balneários.

Tomei banho no meio deles, sentindo-me sozinho. Lembro-me agora que me interroguei sobre quem era, o que queria, enquanto me olhava ao espelho. Penteei o meu cabelo com o rigor necessário; tinha uma imagem a manter. Quando saí do balneário voltei ao campo mas a Vanessa já não estava lá. Obviamente teria seguido com a sua vida; mas o óbvio pareceu-me cruel e, sem ninguém ver, chorei.

Ergui a cabeça com esforço. Ter memórias, do que já fora, enquanto regurgitava era algo novo. A mão quente de Vanessa afagou-me o couro cabeludo. Os demónios já estavam soltos, podia senti-los caminharem pelas minhas veias. Inspirei fundo e reuni as energias que ainda tinha para me levantar. Vanessa seguiu atrás de mim, até me sentar no sofá da sala.

Foquei o olhar na televisão. Imagens de uma apresentadora quase semi-nua, aos saltinhos, encheram os meus olhos. Vanessa desaparecera. Não a conseguia ver, mas sentia a sua presença na minha cozinha. Ia preparar-me um chá. O som da água a ferver animou as células do meu corpo. Instantes depois, Vanessa acercou-se com uma caneca fumegante de chá de ervas. Obrigou-me a beber tudo até ao fim.

- Este fim-de-semana tenho um serviço especial para ti. – Vanessa falava mais devagar do que o normal, receosa de que eu não a acompanhasse. Anuí com a cabeça para que continuasse. – Uma cliente precisa que finjas ser o seu Noivo durante um dia, nada mais do que isso. Ela tem que apresentar-te à sua família.

Ora aí estava um pedido original. Os demónios que Daniela soltara, estancaram a passeata pelo meu corpo. Nunca antes fingira ser Noivo Por um Dia perante a família de qualquer das minhas Noivas. O que poderia eu fazer? Recusar é um mau princípio nesta profissão; mas não me apetecia entrar em charadas familiares.

- Quanto é que vou lucrar com isto? Não posso fazer o preço habitual. – Bebi três goles de chá antes de prosseguir com as minhas explicações – Uma coisa é fingir ser o Noivo de alguém num dueto pré-coreografado, outra é fingir perante uma plateia. Sou actor de monólogo sem plateia; se quisesse aplausos e espectadores não teria escolhido isto como vida.

- És tu quem define o preço. – Vanessa tirou o som do televisor. O gesto déjà vu assustou-me. Daniela também tirara o som do televisor antes de me atacar cruelmente, com os seus fonemas de garras afiadas. – Não me digas que não. És a minha única esperança.

As palavras de Vanessa bloquearam-me. Era ela a cliente? Porque precisaria ela de mentir aos seus familiares? A questão do preço esfumou-se. Não levaria um cêntimo que fosse a Vanessa. Voltei a ver-me no campo de futebol, com o rosto molhado pelas lágrimas. O grito de um amigo colocou-me em alerta, sequei o rosto e segui em frente. Nos dias que se seguiram não voltei a ver a Vanessa.

- Farei esse serviço inteiramente de borla. – Vanessa ia arguir contra a ideia mas consegui antecipar-me à sua vontade. – É esta a minha condição. Ou aceitas de borla, ou nada feito Vanessa.

- Que assim seja. – Vanessa agarrou na sua bolsa – Venho buscar-te amanhã pela manhã. Vamos até casa dos meus pais.

Vanessa deu-me um beijo na testa e saiu do apartamento. Com a chávena de chá a esfriar na minha mão fiquei a pensar no que acontecera. Ia ser Noivo por Um Dia da Vanessa. Seria a Vanessa feita do mesmo material da virginal Daniela? Ou tornar-se-ia a Vanessa na Outra da Rita e na Abandonada da próxima cliente? O que reservaria o dia seguinte?

O que restou do dia foi varrido velozmente. Num instante estava a levantar-me, de novo, da minha cama. Tinha meia hora para me arranjar, antes que a Daniela me viesse buscar. Tomei um duche rápido e optei por vestir um conjunto descontraído. Calças em tons de bege e uma camisa em tons de salmão foram a minha opção. Tirei a camisa, troquei-a por uma verde-escura, mantive as mesmas calças.

Fiz uma pequena mala de viagem, com duas mudas de roupa suplentes. A camisa em tons de salmão não conseguiu ter lugar na mala. Fica para a próxima. O carro de Vanessa esperava já por mim quando desci até à rua. Dei-lhe num beijo de bons dias e liguei a rádio do seu carro. Quis pagar a gasolina, mas Vanessa não deixou. Sei que o seu ordenado de jornalista é magrinho; faço numa noite mais do que a Daniela factura num mês.

O caminho para casa dos pais de Vanessa foi feito no silêncio. Ao contrário do que eu imaginara ela não tinha arquitectado uma estória. Não iria ter guião de auxílio, só me pedira para ser o mais autêntico possível. Missão complicada, tenho que admitir; não é propriamente fácil ser-se autêntico no meio de uma farsa. Será mesmo uma farsa o que os dois vamos fazer? Hoje não me posso perder com filosofias!

A viagem durou pouco mais de hora e meia. Revi durante a viagem coisas que poderia e não poderia dizer. Tentei desenhar um personagem, mas nenhum dos modelos me agradou. Teria mesmo que ser espontâneo, no meio da encenação para a qual tinha sido contratado. Abandonámos o conforto do alcatrão, trocado pelo trepidante caminho de terra que rasgava um campo cheio de acácias amarelas.

Os pais de Vanessa saíram para a rua pelo simples escutar do ruído do motor. O ronco do motor do carro da Vanessa anunciava o retorno da filha pródiga, perdida para a Cidade grande. Há quanto tempo não visito os meus pais? Há quanto tempo esperarão eles pelo ronco do motor de um carro que lhes devolva, por instantes, o filho? Pensei em tudo isto antes de sair do carro.

A mãe da Vanessa impressionou-me pela beleza dos seus cinquenta e um anos. Tinha uns olhos cândidos, cheios de doçura. Com um abraço terno recebia o homem que resgatara (pelo menos assim pensava!) o coração da sua filha.

O pai de Vanessa teria mais uns cinco anos do que a mãe, mas também conservava um rosto jovial. Deu-me um aperto de mão vigoroso, como que a mostrar que era o líder daquela casa. Marcava terreno a quem lhe levara a cria. Idiotices de homens!

Entrámos e um banzé de gente veio receber o noivo da Vanessa. Não contava com tantos rostos. Beijinhos e abraços sucederam-se até ser obrigado a sentar-me, com a Vanessa ao meu lado a acariciar-me o rosto. Parecíamos um casal e, por um segundo, senti aquilo como sendo real.

- Então, diga-nos lá, como é que conseguiu conquistar aqui a nossa Vanessa? – Perguntou uma das tias da Vanessa, falando em nome de toda a família. Instalou-se um silêncio algo incómodo.

- A Vanessa é mais do que se vê. Quanto mais a descubro, mais apaixonado fico. – Os demónios dentro de mim prepararam os tambores para o baile, que se desenrolaria brevemente no meu cérebro. As minhas palavras soavam naturais, quase verdadeiras.

Não houve mais perguntas. Um festival de aplausos irrompeu de todas as partes. Tinha passado no teste familiar; era o homem certo para a Vanessa. Dera a resposta que eles tinham ansiado; passava a ser um deles. Vanessa beijou-me nos lábios, perante um longo Ahhhh! de satisfação da plateia. Estava montado o espectáculo. Se eles soubessem a verdade… Se eu soubesse a verdade...

Antes de servirem o almoço, subimos um pouco até ao quarto da Vanessa. Todos os presentes quiseram levar a minha mala para cima. Deixei que um primo da Vanessa tivesse o privilégio de transportar o meu pequeno trolley, perante o olhar de inveja dos restantes. Fomos deixados em paz, com a porta fechada. A família não queria perturbar o casal de pombinhos.

O quarto de Vanessa foi uma surpresa. Além da cama de ferro, da mesinha de cabeceira a condizer e do armário de madeira branca, houve um móvel que chamou a minha atenção. Uma estante de madeira, com quatro prateleiras cheia de bonecas de porcelana, todas vestidas de princesa. Cada uma delas sentada numa pequena poltrona, com um vestido de gala e o cabelo bem escovado.

- É bonita a tua colecção de bonecas. – Agarrei numa com cuidado. Vestia um vestido azul, cheio de rendas brancas e tinha o cabelo aos caracóis. – Não te fazia uma coleccionadora de bonecas de porcelana.

- É mais uma coisa para descobrires. – Vanessa continuou a tirar a sua roupa da mala, sem prestar atenção ao que eu fazia. – Excelente a tua resposta há bocado. Já foste aceite por todos aqui. Fico a dever-te esta!

- Sem problemas.

Voltei ao campo de futebol. Aos dias que se seguiram. Não vi a Vanessa durante duas semanas. Quando a voltei a vê-la, trazia uma câmara fotográfica ao ombro; andava a caçar fotografias para o Clube de Jornalismo da escola. Ao seu lado, com um vestido de seda curtinho, vinha Eva.

Trocámos umas palavras circunstanciais, antes de lançar o meu charme sobre Eva. Era o esperado de alguém como eu e decidira fazer o esperado, para não esperar... Duas horas depois estaríamos aos beijos no balneário. Mas a minha cabeça não beijava Eva. Beijava-a…

A boneca de porcelana parecia sorrir-me. Aquilo não era uma colecção; era um sonho de infância. As bonecas eram retratos das aspirações de Vanessa. Ela também queria ter o seu momento de princesa. Fiquei absorto com a minha descoberta. Os meus demónios dançavam frenéticos. As palavras de Daniela ressoaram, de novo, na minha cabeça: “Por quem esperas no altar? De que foges tu?”

Descemos até à sala de jantar de Vanessa. Em redor de uma mesa enorme estavam sentadas dezasseis pessoas e ainda havia dois lugares vagos; os nossos lugares. A Vanessa sentou-se e beijou-me nos lábios. O almoço decorreu tranquilo, no meio da agitação normal causada por dezoito comensais. Uma sucessão de travessas desfilou pela mesa, antes de ser dado por encerrado o almoço.

O pai de Vanessa falou-me das memórias que tinha da filha e de como se orgulhava dela; enquanto a mãe e as tias de Vanessa tentavam arrancar pormenores de uma relação feita de irrealidade, tão sólida como manteiga no Verão. Se pudesse sorrir tê-lo-ia feito.

Fomos afastados um do outro durante a tarde. Nada que não contasse. Creio que teria acontecido o mesmo se fosse com os meus pais. O pai de Vanessa queria impressionar-me, mostrar que conhecia bem a sua filha, que a protegeria de tudo. Mas não era a Vanessa quem precisava de protecção.

Deixei que a minha imaginação respondesse a todas as questões. Os primos e os tios de Vanessa evitaram as perguntas mais pessoais, para minha satisfação. Não me apetecia ter que mentir nesse campo. Usar memórias de outras Noivas, de momentos instantâneos, como sendo momentos meus e da Vanessa, era algo que não me agradava. Só voltei a ver a Vanessa no final da tarde.

- O meu pai não te torturou com perguntas pois não? – Perguntou Vanessa com um tom de voz doce. Estava no seu meio, podia ser tudo o que a Cidade não conhecia. Ali podia ser genuína.

- Nada que eu não esperasse. – Puxei de um cigarro, o meu primeiro que fumava desde que ali estava. – O que é que nos trouxe até aqui? – Perguntei curioso por saber o que iria ouvir dizer Vanessa.

- As escolhas que fizemos. – Respondeu secamente, como que a tentar encerrar uma conversa indesejada. 

- E que escolhas fiz eu? – Insisti de novo. Desta vez desistir não seria opção, não seria uma escolha possível. Vanessa olhou para o sol poente; uma mancha vermelha na abóbada celeste que rasgava o amarelo das acácias campestres.

[Continua...]


Thursday, August 13, 2015

Noivo Por Um Dia (3/5)

[...Continuação]

O champanhe chega à mesa. Daniel abre a garrafa, despeja um pouco do líquido dourado borbulhante numa floute de cristal e entrega-a a Daniela; em seguida, também eu recebo uma floute. Quando o empregado se retira, tocando-me discretamente no ombro, em sinal de fraternidade, erguemos as floutes e brindamos a uma noite de sonho. Já não é Daniela a banqueira, que tenho pela frente; mas Daniela, a adolescente com o sonho de ser princesa por uma noite.

O jantar decorre tranquilo, se é que se pode chamar tranquilo a um jantar destes. Daniela revela-se uma companhia agradável. Sabe manter o interesse de uma conversa, sabe cativar a atenção. A perna de Daniela roça na minha duas vezes. Pisco-lhe o olho esquerdo em sinal de aprovação. Sinto-a a desinibir-se. Por uma noite, por instantes que seja, tudo o resto vai deixar de ter importância.

Para sobremesa uma fatia de Romântica vagarosamente partilhada. É um dos maiores clichés da minha profissão. Dividir a sobremesa tem um efeito tão afrodisíaco nas mulheres, quanto o Viagra tem nos homens. Pelo menos a crer no que dizem alguns amigos meus, viciados no milagre vendido em cápsulas azuis.

Recusamos a sugestão do Daniel, para bebermos um digestivo. Temos outras coisas em que pensar. Afinal, sou pago há hora. Comigo tempo é dinheiro. Daniela quer ir dançar, descomprimir um pouco antes de passarmos aos negócios... Elogio a ideia, como se estivesse a pensar no mesmo.

Pago a conta, mais tarde tratarei de acertarmos contas. Chamo um táxi; enquanto esperamos beijo-lhe o pescoço. Daniela encolhe-se perante o inesperado frio das minhas mãos, aninhando-se no meu corpo. Segredo-lhe duas ou três coisas ao ouvido, antes de o táxi aparecer. A viagem é rápida, feita num silêncio sedutor. Daniela estuda o meu corpo; por certo imagina as coisas que faremos mais tarde.

Esta noite dançaremos no Holy Night. Este é um dos bares mais requintados da Cidade. Não fosse a proprietária ser minha cliente regular e duvido que entrasse no Holy Night. Daniela envia duas ou três sms antes de entrarmos no Holy Night. A exuberância da decoração agrada-lhe. É o cenário perfeito para nos conquistarmos um ao outro; não que isso seja preciso. Coisas de mulheres; não me compete perceber.

Enquanto dançamos na pista a minha mão explora as ancas de Daniela. Vanessa não se enganou, esta é um cliente especial. Por entre gritos consigo convencê-la a irmos andando. Não me apetece gastar as energias na pista de dança.

Daniela cora, usa o cabelo para disfarçar mas sei que está tão vermelha quanto o pimentão que normalmente usa nos cozinhados. Finjo não perceber que está embaraçada, como se esta fosse a sua primeira vez. E se for? Nunca pensei nisso… E se for? Se for paciência, não posso fazer nada quanto a isso.

Daniela marcou um quarto no Hotel Fine Art. São poucas as clientes que me levam aos seus apartamentos. Entendo isso como a ultima violação da sua privacidade. Já basta, ficar a conhecer-lhes o corpo, as taras, as fantasias. Tudo o resto é mantido na escuridão da doce ignorância.

O ritual do check in não me preocupa. Aproveito para fumar um cigarro e olhar o meu cabelo num dos espelhos do átrio. Não sei porque me preocupo com o penteado, se daqui a uns minutos estarei alegremente despenteado. Manias!

Terminado o check in vamos até ao elevador que nos conduzirá ao piso do quarto. Os nossos passos não ecoam, amordaçados pela alcatifa verde e azul. É muito curioso que tantas mulheres tenham fantasias com elevadores, mas poucas tenham coragem para avançar. É um dos mistérios que Freud deixou por resolver.

Ficamos no sexto piso, quarto 6. Já estive neste hotel umas vinte vezes, nenhuma das quais em férias. Ossos do ofício. Daniela vai até à casa de banho enquanto eu tiro o blazer e desaperto os botões da camisa. Está a ser tudo estranhamente lento.

Ligo a TV para ver o que está a dar no EuroSport. A esta hora olhar-se-á ao espelho enquanto responde a mais uma ou duas sms, penso eu. A porta abre-se. Daniela entra no quarto e a medo senta-se na cama. Pressinto uma conversa, antes de tratarmos do que verdadeiramente nos trouxe até ao sexto quarto, do sexto piso, do Hotel Fine Art.

- Quem é a noiva de amanhã?

A pergunta deixa-me espantado. De todas as conversas que já tive, e já tive algumas bem bizarras, nenhuma começou daquela forma. Saber qual a próxima cliente; qual a mulher que amanhã desempenhará o papel de Daniela. Vislumbro por momentos a minha agenda mental. Não vejo qual será o interesse de revelar a minha agenda, mas também não tenho motivos para não o fazer.

- Marisa, 23 anos, estudante de Medicina no último ano. – Abotoei dois dos botões da camisa. Não convém ficar enregelado enquanto conversamos e pressinto que a conversa se irá alongar.

- Então amanhã vais deixar-me pendurada no altar por causa de uma estudante? – Inquiriu Daniela enquanto tirava todo o som da televisão. Reparei que ela procurava qualquer coisa no meu olhar, mas fugi ao scanning. Se quisesse ser avaliado iria a um psicólogo.

- Sim, acho que se pode dizer isso. – Levantei-me da cama. A conversa estava a tomar um rumo descontrolado, mas até ali inofensivo. Tirei um cigarro do bolso e pensei começar a fumar. Lembro-me dos letreiros a vermelho e guardo o maço.

- Quem ficou hoje no altar? Sou a Outra de quem?

- Qual o interesse disso? Não é pela Outra nem pela de amanhã que estamos aqui. É pelo momento, pelo agora. – Disse eu, ansioso por encerrar aquela conversa. Já estávamos a ir longe demais.

- Gostava de saber. Nada mais que isso. – Daniela lançou-me um olhar cheio de ternura. Senti-me a desarmar e quando dei por mim estava tudo dito.

- Rita, 24 anos, designer de moda. Foi ela a Noiva de Ontem. – Volto a mexer no maço. Apetece-me ir até à varanda fumar todos os cigarros de enfiada, mas resisto ao impulso. As perguntas tinham que ficar por ali.

- Irónico, estou entalada entre a juventude. Eu, quase quarentona, entre duas miúdas. O meu passado e o meu futuro não são o meu presente. – Daniela levantou-se, pegou-me na mão e olhou-me bem fundo nos olhos. – Por quem esperas no altar? De que foges tu?

- Não sei se percebes, mas são vocês que ficam no altar da rotina à minha espera. Eu não espero por ninguém. – Argumentei num tom de voz mais ríspido, para transmitir o meu desconforto.

- Nem tu acreditas no que dizes, porque tenho eu que acreditar? – Daniela sorriu para mim provocadora.

Apeteceu-me bater-lhe. Puxar do cinto das calças e desfazê-lo no seu corpo. Inspirei bem fundo e larguei uma baforada de ar. O que eu não daria agora por um cigarro. Abotoei mais dois botões da camisa. O meu tronco musculado desapareceu entre o tecido da camisa azul; desliguei a televisão.

A conversa descarrilara e era impossível voltar ao que tínhamos sido. As palavras tinham violado o espaço; estripado violentamente o que nos unia. A princesa, virara outra coisa mais e eu não estava ali para qualquer outra coisa. Ou princesa, ou nada. Dou uma última oportunidade...

- Foi para isto que pagou? – Perguntei com a voz distante, tentando parecer imune às suas provocações retóricas.

- E se tiver sido? Se for este o meu prazer? – Daniela deitou-se na cama a olhar o tecto. Podia tê-la forçado a fazer o que quisesse, mas limitei-me a olhar o seu corpo. – E se eu tiver pago apenas para conhecer o seu altar? Para saber de quem é Noivo? Para saber desenhar o rosto de quem o deixou pendurado até hoje. – Daniela falava do que não sabia com tanta sabedoria. Noutros tempos, noutras circunstâncias, um enxerto de porrada calaria a sua voz, mas não abafaria os seus argumentos.

- Pois muito bem. Então se é assim, terminamos a noite agora. São 1.000€ e fica tudo resolvido. Boa noite!

Tinha que sair daquele quarto o quanto antes. Os demónios, que trancara no meu coração (é estranho, pensava não ter coração!), estavam de novo activos. Ansiavam pela oportunidade de atormentar a minha mente; turvar a lucidez frágil do meu espírito. Com um punhado de palavras Daniela disse que o dinheiro estava na recepção do Hotel. Nem me despedi; saí do quarto a correr. Entrei no elevador, pressionei seis ou sete vezes no “0”. O elevador demorou uma eternidade a chegar ao piso térreo.

Estuguei o passo na direcção do balcão de check in. Um envelope branco foi-me entregue pelo empregado. Contei dez notas de 100€, deixei uma ao empregado e chamei um táxi. Não contara voltar para casa tão cedo. Ia dormir na minha cama, por muito estranho que isso me parecesse. Há muito que não ansiava por retornar a casa e ficar por lá sozinho; longe de perguntas indiscretas.

A Vanessa ia ter muito que explicar. Subi as escadas devagar, tentando não me fazer ouvir. Do apartamento do Simão chegavam até à rua gritos eufóricos de uma das companheiras do estudante. Ao menos um de nós que tivesse sorte. Rodei a chave, a porta não chiou como esperei.

Tranquei-me em casa e corri para o chuveiro. Tinha que lavar o rasto inquisidor de Daniela da minha mente. Vanessa deixara mensagem no gravador. A Noiva do dia seguinte tinha desmarcado. Certamente nervosismo de última hora. Não era a primeira vez que me acontecia e, seguramente, não seria a última.

Deitei-me na cama, despertando a orquestra sinfónica da chiadeira. Fitei o tecto por segundos e, sem dar por mim, apaguei num sono profundo e vazio. Escuridão! No dia seguinte fui arrancado da cama pelo bater insistente da porta. Uma voz conhecida chamava pelo meu nome. Dormira com a roupa vestida, por cima dos lençóis. Apurei a audição. Era a Vanessa que chamava por mim.

Resmunguei algo para dar a entender que estava acordado. Levantei-me de uma vez da cama, com uma facilidade que me assustou. Fui até ao espelho compor o cabelo. Em passo lento fui até à porta. Vanessa entrou de rompante, sem pedir licença. Estava com o carimbo da preocupação estampado no rosto. Desviei o olhar, para que não lesse em mim a palavra “fracasso”. O que lhe teria dito Daniela?

[Continua...]

Thursday, August 06, 2015

Noivo Por Um Dia (2/5)

[...Continuação]

No final dos meus 17 anos conheci a Vanessa. Na altura lembro-me que ela queria ser jornalista. Sonho de infância misturado com o fascínio de seguir a profissão de um pai ausente. Na altura não lhe dei grande importância.

Não era a mais vistosa do grupo de raparigas que o meu grupo de amigos andava a galar. Ficava feliz em viver no conforto do meio. Nem vistosa, nem horrorosa, normal. Confortavelmente sentava-se nas bancadas a ver-nos impressionar as suas amigas, enquanto fingíamos jogar futebol. E aos poucos a sua presença ia-nos contagiando.

Quando a maquilhagem e os perfumes Dior deixavam de fazer efeito, quando a roupa de marca e os saltos altos perdiam a piada restava-nos a naturalidade fresca da Vanessa. Sem se esforçar, sem entrar em jogos de faz de conta, Vanessa conseguia marcar posição e fazer-se sentir. Ela sabia que era somente uma questão de tempo, até se tornar visível aos nossos olhos.

Numa tarde qualquer, antes de irmos parodiar com a bola, dei conta da chegada antecipada da Vanessa. Pela primeira vez, desde que dera pela sua existência, chegava ao campo de futebol sem o grupinho do costume. Vestia calças de ganga, que ficavam impecáveis com a blusa azul clara, que comprara numa loja em saldos. Uns discretos brincos de prata e um toque de batom cor-de-rosa compunham o resto do figurino.

Até que era mais bonita do que me apercebera. Os meus amigos gritavam ao mundo proezas sexuais fabulosas, muitas das quais sabíamos serem pura imaginação, aceites por todos como realidades consumadas. Afastei-me com prudência, para que não dessem logo pela minha falta. Vanessa percebeu que eu caminhava na sua direcção, mas não alterou a trajectória rumo às bancadas.

- Sozinha Vanessa? – Perguntei eu lançando-lhe o meu sorriso de engate; uma das armas mais fiéis que desenvolvera no jogo da conquista.

- Nem por isso. O que não falta é gente à minha volta. – Ironizou Vanessa que, para minha estranheza, parecia imune ao efeito do meu sorriso. – Mas se te referes ao grupo de aspirantes a tias que me acompanha regularmente, então posso dizer que vim sozinha.

Gargalhei alto. Nunca antes pensara naqueles termos, mas a frase até que fazia muito sentido. A maioria das amigas de Vanessa tinha o comportamento fotocopiado de muitas das "tias" do social português, como se vissem nelas o ideal de feminino perfeito.

Uma falácia comportamental que ainda hoje tem os seus reflexos. Passámos do mérito à sociedade oca do flash. De facto não estranhei quando anos mais tarde, muitas delas invadiram as colunas das revistas sociais portuguesas.

- Então não queres ser aspirante a "tia" Vanessa? – Disse-lhe tentando engrossar a voz e lançando-lhe um olhar de galã de cinema.

- Descobriste isso sozinho, ou tiveste ajuda da wikipédia? – Vanessa continuava a resistir aos meus poderes de atracção, até ali 100% infalíveis. O meu grupo de amigos deu pela minha ausência e começou a apupar na nossa direcção. – Tu, se eu não errar muito, deves querer ser jogador de futebol.

- Por acaso não sei o que quero ser. – Admiti envergonhado, perante o olhar cheio de certezas de Vanessa. – E tu o que queres ser Vanessa? Qual o próximo passo?

- Jornalismo. Quero ser repórter num jornal. A rádio não me apaixona e não sou vaidosa que chegue para querer ser jornalista de televisão.

O mundo de certezas de Vanessa embateu de frente com a nebulosa que era o meu futuro. Ela tinha planos delineados, aspirações definidas, ambições concretas. Tinha as suas metas a atingir e sabia o que teria de fazer para chegar onde queria. A Vanessa era como os atletas olímpicos dos 100 metros, só olhava em frente para cortar a meta em primeiro.

Eu era mais como os corredores de fundo, os que fazem as maratonas de 40 km. Sabia gerir esforços, sabia seguir em frente, sabia que queria ser algo mais, mas só me importava em terminar a corrida, sem saber qual a minha posição. Vanessa subitamente tornou-se mais mulher. Porque só reparava em Vanessa agora? Onde se escondera ela durante 17 anos? Cedi aos gritos dos meus amigos e deixei-a sozinha, com a conversa por acabar.

Hoje estou particularmente dado a memórias penso, enquanto degusto a omeleta singela. Não sei o que me terá dado, mas o passado está mais vivido, mais presente, mais aqui. O noticiário não anima o meu humor. De pouco importo a um Noivo por Um Dia, como eu, quem é o primeiro-ministro, ou quem está em guerra contra quem. O mais certo é a mulher do primeiro-ministro, seja ele quem for, ter sido uma das minhas clientes e seria estranho vê-la na televisão com honras de Estado.

No atendedor de chamadas tenho três mensagens. A primeira é da minha agente de viagens a confirmar o meu voo para Pukhet, onde vou tirar umas merecidas férias. Há pequenos luxos a que não gosto de me privar e viajar é um deles.

Normalmente quando viajo, em lazer, acabo sempre por trabalhar um pouco. Neste ramo não se podem desperdiçar muitas oportunidades. Na Cidade do México os extras acabaram por render quase 10.000€, em Buenos Aires fiz mais de 20.000€ e em Bora Bora por pouco não facturei 50.000€.

A segunda mensagem é de um colega de profissão, a pedir um ou dois contactos da minha agenda porque o mês dele não lhe tem corrido propriamente bem. Quando somos Noivo por Um Dia, coxos e baixinhos, as coisas tornam-se mais complicadas. A sorte do meu colega é a sua forte presença social e a capacidade de fazer as pessoas pensarem e fazerem exactamente tudo como ele quer. É um pequeno espanto vê-lo em acção.

A terceira mensagem é da Vanessa. Mais um contacto de uma cliente que quer ter um Noivo por Um Dia. Ouço o perfil e fico curioso. Daniela, 39 anos, banqueira, divorciada há três dias, sem filhos. Vanessa avisa que enviou para o meu e-mail uma foto da cliente, mas adianta que vou ficar espantado. Com uma gargalhada irónica acrescenta ainda que “esta é das que dão bónus”.

Até há hora marcada tenho tempo para ir ao ginásio. Quando o nosso corpo é o nosso escritório a manutenção tem que ser feita diariamente. Nada pode estar fora do sítio. Este é um ramo oculto por entre as sombras dos candeeiros das cidades e os vidros fumados, mas altamente competitivo e lucrativo. Uma falha, um pequeno deslize e tudo o que construímos é desfeito, como se não valesse nada.

No ginásio, ao contrário da maioria dos homens, não procuro seduzir mulheres, exibindo o meu corpo, ou passeando-me piscando o olho. O ginásio é o meu santuário, o meu refúgio, o meu lugar de meditação. No ginásio procuro a paz que no dia-a-dia me foge. A paz que me fugiu há tanto tempo, que duvido reconhecê-la, mesmo que nela tropece por acidente.

Enquanto as minhas células queimam as calorias das refeições pré-cozinhadas com que me alimento, o meu cérebro queima as memórias das minhas clientes. Prefiro esquecer nomes, rostos e moradas. É mais fácil viver quando cada dia é uma constante redescoberta. Prefiro o desconforto da instabilidade, de não saber se vai chover ou se vai fazer sol, à rotina e à maquinação da minha vida.

Em definitivo hoje estou para a Filosofia. Se pegar num livro e me dedicar com muita atenção às premissas dos grandes autores aposto que descubro os erros contidos nos seus pensamentos tão habilmente erguidos. Sinto-me capaz disso e não duvido que seria capaz… Se fosse essa a minha natureza. Eu não sou Filósofo, sou um epicurista, ou empirista se preferirem; sou um dos que vive pelos sentidos, para os sentidos e está encerrada esta questão.

Por volta das 17h, depois de expelir pelos meus poros três garrafas de água, retorno ao meu apartamento. A água do chuveiro recebe-me num abraço quente, sem as exigências a que estou habituado. “Faz assim…”; “Gostava de experimentar aquilo…”; “Queria sentir acolá”. Enquanto a água escoa pelo ralo peço aos Deuses que levem estes pensamentos para fora de mim.

A escolha da roupa, quando somos Noivos por Um Dia, é vital. Há que perceber as expectativas de quem nos paga. Escolho um casual chic, para uma mulher bem sucedida como a Daniela. Calças, blazer, meias tudo pintado de negro, com uma camisa azul clara, desabotoada até ao terceiro botão. Como adereço apenas um relógio Cassio, feito de titânio. Um pouco de cera modeladora para espetar o cabelo e duas borrifadelas de perfume Gucci, uma no pescoço e uma no pulso.

Devo encontrar a Daniela no Étoiles, um dos restaurantes mais luxuosos da Cidade. Provavelmente estragaria o romance ficcionado, se dissesse a Daniela que os empregados do Étoiles me conhecem e que fazem parte do jogo. Provavelmente ela não vai querer saber que dentro do Étoiles já comecei mais romances de 24 horas do que se começaram guerras no Médio Oriente em 1000 anos.

Chego, como sempre, cinco minutos depois da hora combinada. A ansiedade que a minha ausência provoca é um dos trunfos que aprendi a usar. O empregado, Daniel penso que é esse o seu nome, indica-me a mesa onde Daniela olha impacientemente para o relógio Cartier. Estendo-lhe uma nota de 50€ para que leve uma garrafa de champanhe para a mesa. Com um piscar de olhos a combinação fica selada e a nota de tons laranja desaparece dos meus dedos.

Olho para Daniela pela primeira vez. Para quem fez 39 anos, Daniela está muito bem. Não lhe daria mais do que 29 anos, 30 anos no máximo. Pela forma perfeita da sua silhueta adivinho uma nadadora amadora. O cabelo ruivo, descaindo em cachos, lembra-me rolos de especiarias indianas. Tem olhos negros profundos, encaixados num rosto onde se desenham pequenas sardas. Vai ser uma noite interessante, penso para mim.

- Daniela presumo! – Qual carteirista profissional roubo-lhe a mão onde deposito um beijo. No seu olhar vejo que estou perdoado, mas continuo a desempenhar o papel que decorei com o tempo – As minhas desculpas por deixá-la sozinha. Não que sirva de desculpa, mas o trânsito desta Cidade está cada vez pior.

- Não tem importância. – Não é sincera no que diz. Se fosse um dos subalternos que chefia diariamente já estaria com um raspanete gravado nas minhas orelhas. Tem ar de ser autoritária, mas está mais derretida do que chocolate suíço no deserto do Saara – Sei o quão horrível é conduzir nesta Cidade.

Pisco-lhe o olho, grato pela sua compreensão. Daniela cora um pouquinho. Está a viver um sonho de infância. O seu momento de princesa. Todas as mulheres sentem a necessidade de serem princesas por um dia. De serem as mais belas do baile e de terem um príncipe a lutar contra dragões e contra bruxas. Daniela vive agora o seu momento de fantasia, para amanhã acordar feliz e enfrentar a frieza do mundo, que se pinta mais em tons de cinzento do que de prateado.

[Continua...]