Wednesday, June 25, 2014

Notas sobre um caos chamado Iraque

Em Novembro de 2010 tive o priviégio de participar numa série de eventos paralelos no âmbito Cimeira da NATO que aconteceu em Lisboa e na qual a mesma aprovou um novo documento orientador, quase que uma nova Constituição. Fiz parte daquele grupo de pessoas que "fechou" o acesso do público ao Parque das Nações por alguns dias.

No meios dos vários eventos lembro-me de ter sido entrevistado pela NATO TV. Queriam saber como estava a correr o evento. E eu, honestamente, lá fui fazendo o laudatório dos pontos positivos... Mas a certa altura disse (em inglês, claro está): "Tenho contudo a notar que não estamos a falar de um ponto crucial: do Iraque. Não estamos a tirar lições do que fizemos em 2004."

O entrevistador olhou-me com pouca simpatia. Tentou manter o sorriso, mas falhou na tentativa. Agradeceu as palavras; olhou para o operador de imagem como quem fala, sem abrir a boca e a entrevista terminou ali. A entrevista em causa nunca foi exibida no website da NATO. Afinal porque iriam publicar as palavras inconvenientes do jovem Secretário Executivo do Observatório de Segurança Humana?

Alguns anos depois parece que a pergunta era afinal pertinente! O Iraque, para espanto de meio-mundo, parece ter descido numa anarquia de facções com a ISIS, a Al-Qaeda, os Curdos e as forças pró-governo a tentarem aumentar o seu capital de influência. O Iraque está na eminência do colapso, tal como acontece com a Síria, com a Líbia e, passo a passo, poderá acontecer com o Líbano.

A invasão ao Iraque em 2004 não devia ter acontecido, pelo menos não do modo como aconteceu. Aos que aludem que com Saddam Hussein o país vivia com maior estabilidade; eu digo que nenhuma estabilidade poderá justificar a manutenção de ditadores com tiques semi-divinos. Por outro lado, a invasão sobre falsos pretextos e feita como foi só poderia desembocar no ponto em que estamos: em caos.

O Iraque, no pós-invasão, precisava ter sido submetido a um programa que facilitasse a aproximação dos vários grupos etno-religiosos que compõem o Iraque. Era a eles, após encontrarem um espaço de macro-comunalidade, que competeria desenhar o esquisso institucional do Iraque pós-Hussein. O Ocidente militarista e arrogante não fez nada disso: impôs um modelo de governação, um sistema político e criou um regime em que o Estado protectorado que falharia sem apoio dos Estados protectores.

Na tal Cimeira, lembro-me de numa das conferência um General da NATO estar contentíssimo com os micro-progressos alcançados no Iraque. O discurso, galante e sedutor, fazia-se com muitos "ses" e "talvez". A cada pergunta incómoda, a resposta vinha sempre com o floreado da diplomacia de Washington. Circular, com argumentos curiosos mas sem profundidade e sem relevância.

O Iraque entretanto foi dando sinais de que estaria a fraquejar. Vários analistas e académicos alertaram para o facto de Maliki controlar, e mal, apenas Bagdade. Para o facto do Iraque ser um novo Afeganistão em que o Presidente é mais um Alcaide da capital, do que um responsável responsabilizável pelo Estado. Como é costume, os analistas e académicos foram considerados alarmistas e a retórica dos "ses" imperou.

Mas os "ses" podem nunca acontecer! E no Iraque chegámos ao ponto em que a insurgência começa por força de uma força que se separou da força inimiga. As tropas da ISIS não combatem pela Al-Qaeda, apesar de se terem formado dentro desta. A ISIS tem planos próprios, que levaram a uma cisão com a Al-Qaeda antes mesmo de se avançar para a conquista dos vários pontos estratégicos.

Os Curdos, mais a Norte, aproveitando o vazio de poder tomaram o controlo do Norte do Iraque para si e aumentaram o seu controlo sobre as zonas curdas na Síria. O Curdistão, mais do que nunca, parece ser uma realidade de médio-prazo; realidade que trará instabilidade à Turquia e que poderá ter reflexos dramáticos no Líbano.

É impossível saber-se, ao certo, o que vai acontecer no Iraque. Mas é possível dizer que "sacudir a água do capote" como se apressaram a fazer Tony Blair e Durão Barroso; ou ignorar culpabilidade como fez Barack Obama, não trará quaisquer soluções. Mais ainda, a imposição da força pela força não resolverá nada, porque por cada cabeça cortada à hidra, três novas cabeças nascerão.

O Iraque precisa de um programa de construção de um Nós comum, que não dilua os vários pequenos Nós comunitários. Um programa que tenha na cidadania, identidade política, o seu centro; mas que essa cidadania não estrangule a etnicidade, identidade sócio-cultural. Um programa de aproximação ao comum, entre os que se percebem apenas como diferentes, que não se resuma a um esquema de unanimização e padronização.

O Iraque precisa de um visão diferente; que rasgue com os erros feitos na região (os sinais que começam a vir do Afeganistão não são nada tranquilizadores) e que devolva aos protagonistas locais a capacidade de protagonizarem o seu futuro. E o Ocidente-NATO tem que perder a postura pós-colonialista de olhar para a diferença como sinal de barbárie e de retrocesso...


Friday, June 20, 2014

Chego à meta ou quando se torna especial, um dia normal...

Vislumbro a meta! O prometido final! O término da jornada! Acordei com a estranha sensação de que o dia era especial e não era por alegria pela celebração dos 53 anos de independência do Kuwait, ou por querer recordar o começo da Rebelião Herzegovina de 1875-1877 ou o fim do primeiro Cerco de Niceia há mais de 910 anos.

Não tive pressa em arranjar-me e sair rumo ao meu gabinete. Não tinha urgência de chegar ao meu pequeno principado, marcado com o número 235 na porta (Apartado de uma localidade que não existe?) e uma placa vermelha (qual brasão de honra!) com três dos meus quatro nomes. A chave não sentia o que eu sentia. Eu próprio não sabia bem o que sentia...

Olhei para o gabinete com curiosidade. Podia dizer que aquele era o meu espaço e no entanto tenho dificuldade em perceber como é que um conjunto de coisa, de matéria, se tornou no meu espaço. Porque é que aquele recanto é mais o meu espaço, do que a sala 222 onde desfilaram provas de exame? Ou a sala 102 onde ensinei, ou pelo menos tentei, durante dois semestres?

Não tenho respostas. Sei apenas que acordei com a estranha sensação de que o dia era especial. Se é verdade que chave não sabia o que sentia, não é menos verdade que talvez a chave, que me abriu o meu principado a mim mesmo, soubesse responder melhor a todas estas perguntas, para as quais não sinto urgência da resposta.

Sentei-me na minha cadeira, como fiz desde que mudei para este gabinete. Liguei o computador, levantei-me, liguei o fervedor de água, corri a persiana para deixar o sol entrar no principado, no qual entrara com permissão da chave que não sabe o que sinto. Porque teria de saber? E enquanto o café e o açúcar se fundem, por acção da água quente abro um excel.

46 alunos aguardam por este pequeno momento. 92 números por introduzir no sistema informático são tudo o que resta deste ano lectivo. Um a um vou introduzindo os números... Faltam 86. E confirmando alegrias ou trazendo tristezas. Um ano lectivo inteiro reduzido a dois números. Faltam 74. Um ano lectivo confirmado com dois cliques no teclado. Faltam 68.

E enquanto introduzo números no sistema informático vou vendo uma meta, que não se materializa para além dos meus pensamentos. Faltam 60. Uma meta que atravesso, que passo, que transponho, sem sequer sair da cadeira. Faltam 52. Uma meta que se aproxima desde o dia 10 de Setembro. E que agora está tão pertinho, tão próxima. Faltam 40.

E enquanto os alunos vão ficando com o semestre selado; eu vou sentindo que o dia é especial e, como a chave, não consigo perceber bem porquê. Faltam 34. Eu sabia que o final do ano lectivo chegaria; o que torna o dia tão especial? Faltam 28. O que transforma uma data  que se sabe que chegará, num marco especial? Faltam 16. Qual a diferença entre um dia normal e um dia especial?

Faltam 12. E os números sucedem-se. Saltam, sem se mexer, do excel para o sistema informático. Os números desfilam e aproximam a meta de mim, que como eles, não me mexo. Faltam 8. E enquanto confirmo conhecimento, ou atesto a falta do mesmo, evito responder às perguntas que me assaltam. Porque têm as perguntas que ter sempre resposta? Faltam 6.

Falta pouco; a inevitabilidade da meta. E depois de atravessar a meta, o dia continuará a ser especial? Faltam 2. É agora. Movimento os dedos uma, duas vezes e está feito. Movo o curso até ao botão para confirmar as notas. E fica feito! Está concluído o meu primeiro ano lectivo na Turquia, porque em Portugal nem me deixavam começar o ano lectivo.

Fica concluído um ciclo em terras turcas, porque em terras lusas o cíclo não se podia começar. Abdiquei de muito, para ganhar muito... Mas abdiquei. Porque se não abdicasse não ganhava e continuaria a perder. E assim chego a uma meta; assim tenho um dia especial, sem saber porquê especial! Não busco respostas, por pensar nas perguntas! E com a meta conquistada olha para novas conquistas. E sorrio...


Monday, June 16, 2014

Que não faça Ciência, mas que se tenha respeito por quem a faz...

Já é conhecido o modus operandis algo esquizofrénico da FCT. O Fidalgo já escreveu sobre o mesmo mais do que uma vez; mas há alturas em que a repetição é a única forma de pressão, quando uma das partes insiste em faltar ao respeito a quem apenas gostaria de fazer Ciência...

A FCT abriu, em Junho/Julho do ano passado, o concursos para Bolsa Individual de Doutoramento e Pós-Doutoramento. O Fidalgo, apesar de saber das restrições orçamentais e racionais que grassam pela FCT, avançou com uma candidatura. Afinal não somos assim tanto os doutorados, com publicações e participações em eventos internacionais, com menos de 30 anos.

A candidatura foi rejeitada. Acto inglório, já que o projecto correspondia a uma versão melhorada do projecto submetido em 2012 igualmente recusado mas, espante-se o leitor, com nota superior. O Fidalgo desce de 3,8 para 3,4 (as notas da FCT vão de 0 a 5) quando o CV, o número de instituições envolvidas, a qualidade dos orientados e a experiência do candidato aumenta...

O Fidalgo, pois claro, fez apelo na fase de Audiência Prévia; apelo esse lacrado a 10 de Fevereiro. Para quem não conhece os procedimentos da FCT, após a fase de Audiência Prévia (na qual raramente o candidato é levado a sério) segue-se a fase do Recurso onde, raras vezes, os argumentos do candidato são tomados em conta.

Todo o exercício esfuma-se numa pilha de nadas; mas o Fidalgo não tem problema em lutar contra moinhos de vento. O autismo da FCT não sendo novo é deselegante e pouco civilizado. Pior, o autismo da FCT financiada com dinheiros públicos e fundos europeus é uma prova de arrogância institucional e de nepotismo na sua máxima potência.

Mas voltemos ao apelo lacrado a 10 de Fevereiro... O tal apelo a 16 de Junho ainda não teve resposta. Com um novo concurso na eminência de ser aberto, a FCT entra no ridículo de não ter conseguido fechar ainda o concurso de 2013. Pior, a mesma FCT não comunica com os candidatos; não mostra qualquer respeito por quem apenas quer fazer Ciência no seu país, ou em nome do mesmo.

Num momento em que o Ministério da Educação quer apostar no ensino dual, na profissionalização por via da técnica dos alunos, o mesmo Ministério parece apostado em destruir, por via da delapidação da já de si podre FCT, Ciência. Queremos técnicos mas não queremos técnicos-pensantes? É isso? A capacidade de pensar, que nos leva a fazer Ciência, passou a inimiga da FCT que tem na capacidade de pensar a sua razão de existir? Estranho...

Esta é a mesma FCT que respondeu, diria que sem urbanidade, a uma série de perguntas de uma Comissão Parlamentar (motivada pelo esforço cavaleiresco de Samuel Paiva Pires), invocando estatutos e normas regulamentares. A mesma FCT que perante os factos, que são tantos e tão evidentes, se escuda nos seus regulamentos que tendem a ser propositadamente ambíguos.

Esta é a mesma FCT que em vez de construir Ciência, de cimentar Ciência, está a exportar cérebros que farão Ciência em outras paragens... Esta é a mesma FCT que, dominada pelos interesses de uma pequena minoria, vai preferindo a cunha, ao mérito; vai optando por favorecer o amiguinho e não o cientista. Esta é a mesma FCT que não sabendo fazer Ciência deveria, pelo menos, ter respeito por quem a quer fazer!


Friday, June 13, 2014

Uma Bulgária que ziguezagueia

A Bulgária, pressionada por Bruxelas e por Washington, anunciou que iria parar (por agora) a construção do South Stream, projecto de gasoduto liderado por Moscovo. A notícia ecoou na maioria dos media internacionais ocidentais como uma vitória, frente à Rússia que em Janeiro anexou a Crimeia... A mesma Crimeia de que os media deixaram de falar... Aceitação pelo silêncio? Ou novo Chipre?

A decisão de Sofia é, na verdade, apenas mais um ziguezague facilmente entendível, para quem vai acompanhando a vida política búlgara. A Bulgária, o Estado-membro mais pobre da União Europeia, vive momentos de instabilidade política há mais de ano e meio; com protestos (nem sempre pacíficos) não apenas em Sofia, mas em várias cidades da Bulgária.

A elite política não pode, por isso, perder apoios externos, quando os apoios internos são escassos. Foi por isso com normalidade que o Fidalgo viu a decisão da Bulgária e com anormalidade que viu o festival mediático feito em torno da decisão em causa.

A mesma Bulgária foi um dos primeiros países a assinar pelo South Stream quando o Nabucco (projecto concorrente ao consórcio liderado por Moscovo, e actualmente em estado semi-comatoso semi-lazarento) ainda fazia sonhar os tecnocratas de Bruxelas.

A Bulgária foi, de resto, dos países que maior disponibilidade mostrou para implementar o projecto, até porque sabe a Bulgária que convém ser amiga de Bruxelas (já que faz parte do Euro-clube) mas não convém hostilizar muito a vizinha Rússia... Ou corria o risco de implodir mais rapidamente do que a Ucrânia, dadas as fracturas sociais profundas e a fragilidade institucional que grassa pela Bulgária.

A Bulgária tenta por isso jogar ao estilo de Baku... Ora aplaude o Euro-Ocidente, ora acarinha a Mãe-Rússia. O problema é que a Bulgária não tem os recursos energéticos que permitem a Baku jogar tal jogo e por isso a cada ziguezague a Bulgária em vez de piscar o olho a um "dos lados", vai se apenas afastando dos dois parceiros com quem quer dançar um tango... Mas um tango a três não é tango!

Os ziguezagues de Sofia são também prova de que nem os Comunistas, nem os Eurófilos são fortes o suficiente para determinar, de vez, a posição daquele que já foi um poderoso Império... Os ziguezagues búlgaros fazem parte de um jogo, que a Sérvia (mais cautelosa) também vai jogando e que a Macedónia vai dando sinais de também querer jogar.

Os ziguezagues da Búlgaria demonstram que a entrada na União Europeia, para muitos destes países, faz-se menos por uma partilha de valores similares e mais por um provar de que a transição do pós-sovietismo para a pós-modernidade está completa.

A entrada na União Europeia é um "atestado de qualidade", portanto um fim, e não um começo; um início de jornada. E se este zigue correu bem a Bruxelas, o próximo zague (lá para Setembro/Outubro) será diferente...

Tuesday, June 10, 2014

D.ª Inglaterra decida-se, if you please...

Começam a ser cada vez menos interessantes os "gritos do Ipiranga" vindos de Londres. A cada proposta vinda de Bruxelas, ou de Berlim, que desagrada ao executivo de Cameron lá vem a ameaça do "Olhem que se não mudam isso saímos da União Europeia".

Na verdade, a maioria destes falsos "bater na mesa" são mais para consumo interno, do que para pressão externa. O governo do Reino Unido tem que gerir, com cautela, um eleitorado tendencialmente eurocéptico mas que sabe precisar da Europa. Um amor-ódio disfuncional, que explica estes falsos "bater o pé" que se esfumam em grandes nadas...

Desta vez, contudo, nota o Fidalgo duas curiosas novidades. A França quis vir a jogo e qual Paladina da Europa de Bruxelas disse ao Reino Unido que é hora de decidir se fica, ou não fica... E se for para não ficar que faça as malinhas o quanto antes. Grito pífio vindo de Paris, com um Presidente à procura de mostrar algum poder externo depois da devastadora dupla derrota eleitoral interna.

Segunda novidade. Um encontro de líderes juntando Londres, Berlim e Amesterdão (que tem ganho poder dentro da União Europeia) em Estocolmo. Os quatro líderes discutiram a liderança da Comissão Europeia, num verdadeiro acto Consular. Isto apesar de tal decisão depender (em teoria) da vontade de 28 Chefes de Estado, e de precisar de ser validada pelo Parlamento Europeu.

O institucionalismo euro-democrático esvaziado por um punhado de países sem peias em mostrar a divisão clara entre países com poder e países a quererem ter poder. O grito de Londres, farsa da política interna que (desta feita) causou algumas ondas de choque externas, revelou ainda a irrazoabilidade de se tentar politizar uma União que deveria ser técnico-administrativo-burocrática.

O mal da União Europeia é a tentativa, mais do que fracassada, de fingir que é uma espécie de mega-Estado federal (sabendo-se que a Federalização da Europa agrada pouco a uma larga percentagem dos Europeus). Neste ficcionar de realidades, o Parlamento Europeu foi dotado de maior poder, levando a uma duplicação (quase nunca harmoniosa) de funções entre o dito Parlamento Europeu e os Parlamentos Nacionais.

Mas a União pós-Tratado de Lisboa não se ficou pelo reforço dos poderes do Parlamento Europeu. Criou-se a figura do Presidente que, já se percebeu, não preside a quase nada. Um cargo, de resto, menos útil do que a já de si pouco útil Alta Representante da União para os Negócios Estrangeiros.

No meio desta insanidade quase que tragicómica, os gritinhos de Londres acabam por fazer algum sentido. Enquanto a Europa não assume a sua natureza técnico-administrativo-burocrática, abandonando o aventureirismo federalista, a racionalidade tenderá a ser escassa. Porque a Europa é muito linda, mas o eleitorado nacional é quem mais importa...