Saturday, May 24, 2014

E entre metas respiro... e escrevo...

17h! O relógio marcava as 17h quando entrei na sala 117. Como sempre cheguei na hora certa. Um hábito meu a que os alunos, ao longo do semestre, se foram acostumando. Não sou apenas o professor estrangeiro, o hocam portekiz, sou também o professor pontual. Não sei se sou o mais pontual, não sou assim por competição, mas sei que sou pontual.

17h! Entrei na sala com um sorriso. Enquanto preparo tudo para mais uma aula, a última deste semestre, olho para os rostos que olham para mim. A última aula, por coincidência, calhou ser com os finalistas. A última aula calhou ser com quem se prepara para fechar um ciclo, antes de iniciar uma nova etapa. E, curiosamente, também eu me sinto assim: finalista!

17h05! Enquanto ligo o cabo do projector ao meu portátil, penso como me aproximo da linha da primeira meta! O fim da actividades lectivas de per si. Durante quatro anos, em Lisboa, dividi o meu tempo entre investigar (85%) e leccionar (15%) sempre que surgiam convites. E agora tudo mudou. Agora lecciono primeiro (80%) e só depois investigo (20%).

A aula flui... Os alunos naturalmente interessados, numa aula em que decidi praticar com eles potenciais exercícios de exame. E enquanto os questiono sobre o que se passa no mundo, uma voz surda, que só eu ouço, vai inquirindo sobre o que mudou em mim; na constelação que sou. E se os alunos lá respondem sobre o que aconteceu na Tailândia, na Ucrânia, na Libía ou no Rwanda, eu não tenho respostas para a voz surda que me interroga.

Pausa na aula! Agora estou mais perto de fechar o meu primeiro ano lectivo como lecturer full-time. E lembro-me que há um ano atrás, por esta altura, ainda não tinha certezas de como tudo se preparava para mudar. Mas estava perto de saber...

E então o que mudou? A voz surda insiste. Deixarei que os outros ajuízem primeiro as mutações, porque em causa própria tenderei a ver apenas beleza na mudança... E, acrescento com o rosto corado ao de leve, não tenho resposta. Sei que mudou, mas não sei o que mudou.

Retomo a aula. E quando olho para o relógio vejo que o tempo se esgota. Mostro o último slide "Good Luck to All" (Boa sorte para todos!) e vejo sorrisos. Também eles se preparam para ajuizar o que mudou e como usar o que mudou, para mudarem ainda mais.

Cheguei ao final da minha primeira meta: terminei as actividades lectivas... Agora virão os trabalhos de casa por corrigir, os exames finais, os exames de recursos e os apelos para "be gentle hocam"... E, logo em seguida, virá a investigação. Virá a Finlândia, a França, a Sérvia, o Reino Unido e a Macedónia.

Virão muitas horas de voo; longas conversas em tom ora cerimonial, ora científico, ora descontraído. Virão apresentações com a gravata (não interessa a qual) em torno do pescoço. Virão trocas de cartões e de promessas. E por fim virá Portugal... E os rostos que conheço, e a família, e os amigos e os outros...

Ontem cheguei à primeira meta e apesar da voz surda insistir na questão, eu insisto na ausência de resposta. Não sei o que mudou, mas sei que muito mudou. A mudança não tem que ser sempre medida, comparada, entendida; mas deve ser sempre vivida. E se não for assim, deixem-me pensar que é... Ontem cheguei a uma meta e amanhã parto para o Qatar, em busca de outra.


Friday, May 16, 2014

E que o preconceito tinha desaparecido, não era?

O Fidalgo achava que, este ano, não iria ter que escrever sobre a Eurovisão... Mas o Fidalgo enganou-se! A vitória de Conchita Wurst, a cantora austríaca que apareceu em palco com um vestido de noite dourado e uma barba (lembrança da sua masculinidade) a combinar, foi motivo suficiente para despoletar uma série de reacções irracionais nos espaços sócio-virtuais.

Facto: Todos temos o direito à opinião, mas convém fundamentar a mesma sobre o risco de a mesma se esborar num exercício de futilidade trivial. Também facto: Não temos todos que gostar de Conchita Wurst. Eu, pessoalmente, comecei por apostar nas canções da Arménia e da Suécia, antes de me render aos dotes vocais da cantora da Austria.

Outro Facto: Quem diz não gostar da vencedora deveria, primeiro que tudo, ouvir a canção. É que apontar o dedo só porque a senhora tem barba é esquecer que falamos de um concurso musical e a Conchita foi, inegavelmente, uma das melhores músicas da noite.

Que uma certa elite na Rússia tenha descoberto, de súbito, que não gosta da Eurovisão (isto apesar do televoto dos espectadores russos ter colocado a canção em segundo lugar) eu ainda percebo (não aceito, mas percebo). O mesmo vale para a Bielorrússia, o Azerbaijão e para a Arménia, que na Geórgia houve coragem...

Mas que imensos portugueses revelem a sua persona de aderentes da Santa Inquisição, deixando-se apenas levar na onda do "aponta-o-dedismo" sem sequer ouvir a música acho patético. Desculpem a franqueza, mas acho patético. Critiquem depois de ouvir a música, mas só depois de ouvir a música. Pode ser?

Uma série de "virgens ofendidas" ficaram admiradas com a vitória de Conchita Wurst, cuja canção nos remete para o glamour extasiante de um filme de James Bond... Para esclarecer os mais distraídos, a Conchita Wurst não é a primeira vencedora não heteressoxual da Eurovisão. Aparentemente esquecemos, ou nem sequer sabíamos, que em 1998 a israelita Dana International arrebatou o primeiro lugar com a canção "Diva".

E quando as ondas de choque, porque o preconceito cego e desinformado reage assim, em choque, com a vitória da Conchita Wurst acalmaram, eis que no jogo da final da Liga Europa dois jogadores do Sevilha (a equipa vencedora) trocam um beijo na boca.

Um pequeno momento que não chega a durar 4 segundos, mas que apareceu em loops de 40 segundos em vários websites ditos informativos. Eis que no final de uma competição de futebol, essa catedral da masculinidade e da macheza, dois homens selam o seu afecto com o contacto lábio no lábio.

Piorou todo! Graçolas pouco inteligentes, comentários primários, de muita gente que se dizia "livre de preconceitos", e remarques descriminatórios invadiram o facebook e o twitter. Percebo contudo a admiração-desinformada de muita gente; porque isto do conhecimento não é como o sol, quando existe não é para todos. Mas o Fidalgo, bom amigo, passa a explicar umas coisinhas.

Não é preciso ser-se homossexual para dar um beijo na boca, com uma pessoa do mesmo sexo. Inúmeros pais e filhos selam assim o seu afecto, sem problemas quanto à sua sexualidade. É apenas uma demonstração de carinho e não um "muppie" a exibir a sexualidade de alguém. Dirão mas entre família é diferente. Certo! Rebate o Fidalgo: e como se define família? Pela crueza da genética? Ou pelos afectos partilhados? 

Mais, só para dar outro, de milhares de exemplos possíveis: na época medieval os contractos de suserania, em que um Nobre (Suserano) protegeria outro Nobre (Vassalo) em troca de fidelidade, honra e de ajuda em momentos de guerra, eram muitas vezes selados com um beijo na boca. O Suserano e o Vassalo beijavam-se na boca, depois de jurarem perante a Biblía Sagrada, porque essa era a prova maior de confiança.

É verdade que o Zoroastrísmo levou a uma polarização da vida social e a uma recriminação do "sexo-pelo-prazer" que se substituiu ao "sexo-pela-procriação". É também verdade, que no Cristianismo (influenciado pelo Judaísmo, que bebe influência no tal Zoroastrísmo) a condenação feita pelas tais sagradas escrituras é para como todo o acto sexual não reprodutor.

Isto é, era indiferente que fosse entre duas pessoas do mesmo sexo, ou de sexo diferente... Toda a actividade sexual não-reprodutora (sexo oral, anal, com preservativo ou masturbação) passa a ser recriminada. Ou seja, toda a experiência sexual deixa de valer pelo orgasmo (fim) para se justificar na reprodução (um meio).

E mesmo com tudo isto, os Nobres pela Europa fora selavam os seus contractos de fidelidade com um beijo na boca porque o preconceito redutor não os coibia disso mesmo. Ainda hoje, de resto, os beijos na face entre homens com amizades sólidas pelo Médio Oriente fora são mais do que comuns... Mas na Europa civilizada ficámos restritos ao aperto de mão. Talvez nos tenhamos civilizado de mais e aprendido de menos...

Está em crer o Fidalgo que foi isso que aconteceu em Turim... Um beijo de afecto, de quem sela confiança e celebra um feito pelo qual se batalhou durante uma época (não esquecer que para o Sevilha era a Liga Europa, ou nada). O mais curioso é que muita da jocosidade contra o beijo de Turim e a campeã de Copenhaga vem de quem não se aceita e projecta ódio ao mundo, por não se aceitar.

Muitos dos comentários que impedem uma sexualidade descomplexada, porque em última instância a comunidade LGBT (para lá do espalhafato dos brilhantes e das marchas coloridas) quer apenas ter o direito à indeferença pela diferença, vêm de quem tem complexos escondidos no seu armário. Muita da jocosidade é expelida por quem, inseguro da sua sexualidade, pensa fortalecer a sua posição na "normalidade social" agindo de modo anormal...

O Fidaldo estava em crer que os tempos eram outros. O Fidalgo achava que apesar de uma série de retrocessos sociais por esse mundo fora, no cantinho lusitano a sociedade se encontrava em rota para uma descomplexidade face á sexualidade; para uma aceitação da felicidade como norma-padrão e não da imposição do "com-quem-fazes-o-que-fazes". Mas o preconceito, esse bicho larvar que teima em não morrer, voltou a roer um pouco mais da maçã. E depois admiramo-nos de termos sido expulsos do Paraíso!


Monday, May 12, 2014

Ucrânia e os Referendos, parte II (de uma possível trilogia)

Ontem Donetsk e Luhansk (regiões do Leste da Ucrânia) realizaram referendos nos quais perguntavam apenas uma questão: "É a favor da constituição da República Popular de Donetsk/Luhansk?". A população foi chamada a votar e, segundo os separatistas, mais de 70% dos eleitores compareceram à chamada. O resultado foi o esperado: a vitória do Sim!

Os separatistas, já o disse, clamaram por uma taxa efectiva de participação superior aos 70%. Hoje, o Presidente interino da Ucrânia avançou com números bem mais baixos: 24% em Luhansk e 32% em Donetsk. Números mais baixos que, mesmo assim, são superiores aos 0% de Ucranianos que votaram neste governo interino imposto pela vontade de uns em Kiev. Mas a Ucrânia não é só Kiev...

Um dos argumentos avançados contra a realização dos referendos é a não-participação de toda a Ucrânia nos mesmos. É o facto de se restringir o referendo à população da região sobre o qual o mesmo incide. Este mesmo argumento, curiosamente, parece ter incomodado menos (ou quase nada) quando o Kosovo fez o seu referendo pró-independência. A Sérvia foi chamada a votar? Uma vez mais, questiona o Fidalgo, porque são umas acções mais ilegais do que outras?

Ainda decorriam os referendos e já a Europa se manifestava em favor do Governo (pós-golpe de Estado) central de Kiev, clamando pela ilegalidade dos referendos. Curiosamente, a mesma Europa de Bruxelas não vê que o governo central, que apoia tão fervorosamente, também carece de legalidade e de legitimação popular. Ou agora a democracia passou a jogar-se em golpes de estado e não em eleições?

Dizem as vozes contra os referendos de ontem, que a realização destes contraria o espírito da Constituição da Ucrânia. Ora sendo isso verdade, a chegada ao poder do actual governo interino também contraria o espírito da Constituição da Ucrânia. A questão volta a pairar: porque é que umas ilegalidades são mais ilegais do que outras? Onde está o equilíbrio nesta equação?

A Europa da União mostrou, contudo, coerência num ponto: a condenação aos referendos! Desde as traumáticas experiências da fracassada Constituição Europeia, que a Europa da União desenvolveu uma referendo-fobia que a tem levado a uma campanha contra as consultas populares não apenas na Crimeia, mas também no Reino Unido e na Espanha.

A Europa da União, que se diz um projecto solidário feito em prol das pessoas, parece temer o clamor das populações quando estas procuram apenas uma coisa: o direito à auto-determinação; a capacidade de decidirem politicamente enquanto colectivo social que se vê como exógeno ao Estado a que pertence. E se amanhã Abrantes, mero exemplo especulativo, quiser ser apenas Abrantes e não Portugal? Azar, dirá a Europa da União...

O que os referendos de ontem também demonstram é que a teimosia de Kiev em adiar a federalização, apenas porque esta foi inicialmente defendida por Moscovo, levará a uma implosão da Ucrânia. Os referendos mostram também que Donetsk e Luhansk, com o apoio tácito de Moscovo, estão a usar os instrumentos políticos do Ocidente contra o próprio Ocidente.

A recusa de Kiev em federalizar a Ucrânia já originou violência, mortes e três referendos (não esqueçamos a Crimeia) pelo direito à auto-determinação. A teimosia política de uma Bruxelas fechada em preconceitos e estereótipos típicos da Guerra Fria, combinada com o revisionismo históricista de Moscovo ameaçam um novo "apagão" da Ucrânia do mapa-mundo. E Donetsk já chama por Moscovo...

Thursday, May 08, 2014

E amanhã serão 201...

200 dias! Estou a viver há 200 dias na Turquia (descontando já as três idas a Portugal). Olho para trás e sorrio. São 200 dias! Não que o facto de hoje marcar 200 dias de vida por aqui mude alguma coisa, que não muda. Mas é um marco simbólico; um bom momento para pensar no que fiz e para projectar tudo o que quero fazer.

Curioso mundo este, ontem (aos 199 dias) já sentira algo especial. Ontem, pela primeira vez desde que aqui trabalho, voltei a entrar no auditório onde tudo mudou. Ontem voltei a entrar no auditório onde, em Maio de 2013, dei uma conferência, que motivou uma reunião, que gerou um convite, que se transformou num contracto, que levou (em meados de Setembro) a que chegasse e começasse a viver o primeiro destes 200 dias.

Lembro-me perfeitamente como, antes da conferência, estava nervoso. Depois de meses em busca de uma oportunidade; depois de meses de recusas, de quase sins, de quase nãos e de muitos silêncios, chegara a hipótese de mostrar o meu valor. O convite era apenas para dar uma conferência, no âmbito do Festival da Juventude (que celebraremos, aqui, para a semana). Mas eu sentia que podia ser algo mais...

Preparei-me, como sempre faço, o melhor que pude. Mudei a apresentação umas cinco vezes; pensei na roupa que ia levar umas dez vezes; pensei no que ia dizer umas quinze vezes... Não queria deixar o acaso tomar conta da situação. Na minha cabeça tudo foi escrupulosamente ensaiado. E, mesmo assim, lembro-me de descer as escadas do auditório com o coração a palpitar, enquanto muitas dezenas de olhos me seguiam.

Fui apresentado em turco; só percebi o país de origem (Portekiz) e o meu nome pronunciado com a charmosa melodia da língua turca. Fez-se um pequeno silêncio. E comecei. A conferência correu como planeara e logo terminou, tão rápida como os flashes das máquinas fotográficas presentes no auditório. E agora?

O Reitor da Universidade estava visivelmente satisfeito. O Presidente da Faculdade tinha um sorriso no rosto. O director do departamento de Relações Internacionais também parecei contente. O Presidente da Faculdade levantou-se e ofereceu-me um pequeno souvenir (um troféu se quiserem!) e convidou-me para me juntar a ele (mais tarde) numa pequena reunião.

Eu estava satisfeito. Cumprira o que ensaiara. Fizera o meu papel, mas sentia que ainda havia mais para fazer. Fui ao quarto de hotel e, célere, mudei de roupa. Não porque precisasse, ou porque quisesse impressionar, mas para me renovar. Para sentir que, a partir dali, era tudo novo.

Mudei de roupa e segui para a reunião. Fiz o caminho que hoje, aos 200 dias, me é tão familiar, mas que então me era estranho. E lá nos reunimos. Veio o chá, as delícias turcas e a conversa lá fluiu. E no final eu sorria: queriam ficar comigo! Estavam interessados em dar-me aquela oportunidade que o meu país, teimosa r tristemente, não queria dar-me.

E assim se começaram a desenhar estes 200 dias. Foi um Verão estranho, em que eu sabia que devia aproveitar tudo porque as coisas iam mudar. E assim fiz. E Junho foi-se. Julho passou. Agosto finou-se. E em Setembro lá saí de Lisboa rumo a estes 200 dias. E apesar das saudades, do que ficou para trás, do que não pude ver ou fazer, estou feliz.

São 200 dias que mudaram tanta coisa, que ainda é cedo para perceber a importância dos mesmos. São 200 dias que me permitem sonhar com mais 200 e planear, e projectar, e trabalhar, e realizar-me. São 200 dias que não teria tido no meu país... São 200 dias hoje e amanhã são 201...

Saturday, May 03, 2014

Vejo-te nas pequenas coisas Mãe...

É típico deste dia escrever verdadeiros manifestos sobre como a nossa Mãe é a melhor de todas; como se as mães competissem num campeonato invísivel em que a maioria parece conseguir chegar ao pódio. É típico deste dia presentear as mães, nem que seja com um simples postal que diga "Adoro-te!". É típico deste dia um amor fátuo, oco, com muitos rocócós que no dia a seguir se esquecem. O amor reduzido a um postal, três frases e dois beijinhos de circunstância.

Desculpem o Fidalgo, mas não alinho (mais) nisso. A minha Mãe nunca competiu para ser a Melhor de Todas; uma espécie de Miss Mãe. A minha Mãe nunca almejou um trono (apesar do filho monárquico) e uma coroa para exibir o seu lado maternal. A minha Mãe apenas quis cumprir-se; realizar-se, deixando que nós (a sua prole) se realiza-se. Relegada, por ela mesma, a um papel secundário é a guionista principal da minha vida.

Lembro-me, Mãe, de como és feita de pequenos gestos. De como, por exemplo, pelos 17 anos da Catarina (feitos a 17 de Outubro) lhe preparaste uma surpresa. Uma fita com 17 metros, escrita em dourado pela família e pelos amigos. Uma fita azul-escura, ladeada por duas bonecas simpáticas. Um marco! E feito por ti. Não foi um presente Channel, Versaci ou Storytailor e, contudo, vejo nele algo de alta costura uma espécie de mater chic!

Achei interessante, Mãe, o presente que há dias deste há Inês. De como deixaste que a imaginação te guiasse e com uma série de objectos banais fizeste beleza. Estes pequenos presentes, que não trazem etiqueta Nike, Adidas ou Reebok, trazem a etiqueta daquilo que tu és. Um festival de criatividade com um único intento: espalhar amor. E o amor não se vê na opulência e no fausto, mas no monumental sentido de um pequeno gesto.

Não esqueço, Mãe, como na minha última visita a Portugal deixaste uma rosa no meu quarto. Uma simples rosa. Uma simples rosa, colhida por ti. Um pequeno gesto. Um "Amo-te filho" silencioso; delicado como o perfume dessa rosa. E não esqueço como preparaste, com afinco e ternura, aquele pequeno-almoço amargo, em que chorámos com as palavras entaladas na garganta, quando a 15 de Setembro saí de Abrantes... rumo a um novo ciclo.

É isso que mais gosto em ti, Mãe. Esse teu lado terno; feito de pequenos momentos; feito de gestos cheios de leitura para quem se dispõe a lê-los. Falas menos por palavras, que sempre me sairam mais fáceis a mim, e mais por acções. E eu leio-te. Vejo como te preocupas sempre. Como, apesar de orgulhosa por tudo o que já fizemos, por tudo o que já provámos, ainda temes que possamos não ser felizes. Que as coisas possam não correr bem.

Mas Mãe a nossa felicidade começa em ti. É isso que nem sempre conseguimos dizer. Problemas? Desafios? Maus momentos? Vamos ter sempre. Já nos habituámos a isso. Mas queremos que andes feliz, sem te preocupares em demasia. Já lutaste por nós, com a força de uma guerreira. Agora é a nossa vez de lutar por ti; é a nossa vez de fazer os pequenos gestos; é a nossa vez de colocar a rosa no teu quarto, ou de preparar o teu pequeno-almoço.

A nossa felicidade começa em ti. Hoje é o Dia da Mãe, a celebração (ou comercialização?) dessas mulheres extraordinárias que nos deram vida. Hoje é o Dia da Mãe! Mas e amanhã? Amanhã é o dia da minha mãe, e depois, e depois, e depois, e depois. Porque celebro-te todos os dias; porque te vejo em pequeninas coisas, seja nas frases carinhosas que me deixas no email ou no "adoro-te filho" com que assinas mais uma carta.

FELIZ DIA DA MÃE... E amanhã a celebração continua!


Friday, May 02, 2014

E pelas tuas 24 Primaveras não canto... corro!

Não é o primeiro aniversário que não festejo, no dia, contigo. Não falo das sms, das chamadas, dos posts no facebook/Hi5 que esses não têm falhado. Falo de estar contigo. Presente. Falo do cara a cara; de poder desafinar enquanto trauteio o "Parabéns a você" junto aos teus ouvidos; falo de poder simplesmente dar um beijo. E hoje nada disso é simples!

A Saudade é uma criatura estranha. Companheira deste exílio semi-livre-e-semi-imposto vou aprendendo com ela a lembrar-me de vocês. E hoje tenho me lembrado mais de ti: a Princesa-Desportista que celebra 24 Primaveras e outros tantos Verões, Outonos e Invernos. Recordo-me acima de tudo de uma coisa que te caracteriza (para além da teimosia taurina!): a tua garra.

Nasceste pequenina; frágil; num momento complicado. Mas agarraste-te à vida e com garra lutaste por um lugar aqui. Querias Ser! Da infância lembro-me das cíclicas amigdalites que de 15 em 15 dias te visitavam; mas que não te tiravam a vontade agerrida de brincar, correr, saltar, explorar, enquanto não voltavas a aninhar-te entre os cobertores no sofá da sala. Lembro-me da garra com que defendias a necessidade de ir a mais um treino; como se a tua não-presença iniciasse o Apocalipse.

Confesso que copiei um bocadinho disso. A ideia de ter mesmo que ser, de ter mesmo que estar, de ter mesmo que fazer... Pois só com essa garra se conseguem conquistas. Lembro-me da garra com que defendias o teu Liceu, a tua UBI e o teu CNA. Não porque eles precisassem de qualquer defesa, mas porque contigo é assim que se vive com intensidade e... com garra!

Hoje sou eu quem mais viaja, mas foste tu a primeira a andar de avião. E pequenita que eras! Sorrio, com as coisas que a Saudade me faz recordar. Lembro-me de garra com quem sempre defendeste os mais próximos de ti e como, para além da fachada da durona, és um ser sensível, delicada como seda indiana. De como as lágrimas brotam dos teus olhos facilmente, quando a emoção fala mais alto.

E é a esse ser com a garra de uma amazona e a delicadeza de uma gotinha de orvalho que, hoje, não posso dar um beijinho de parabéns. É a ti que não posso dar um abraço e sem dizer nada sorrir. Porque nos últimos anos desenvolvemos uma comunicação que vai para lá de palavras; um código quase telepático que se traduz em sorrisos, olhares e gestos.

Não te posso dar um beijinho, mas posso mostrar um pouco de garra. E hoje, depois das aulas, depois de chegar ao cantinho a que chamo agora de casa, irei calçar as sapatilhas (há meses encostadas ao armário) e irei correr. Não sei por quanto tempo, que distância, por onde. Irei correr. Irei tentar superar o comodismo perguiçoso e mostrar um pouco de garra.

Porque, diz-me a Saudade, a única forma de te desejar parabéns não é chorando, apontando o dedo, criticando (quem merece ser criticado!), levantando ondas, ou escrevendo odes é fazendo... E fazer, no teu caso, é correr... E por isso hoje correrei. E em cada passada dar-te-ei os parabéns; em cada inspiração e expiração dar-te-ei os parabéns; em cada metro alcançado dar-te-ei os parabéns.

E quando fazes 24 anos estamos longe, mas sei que correrei para ficarmos, de algum modo, mais perto... PARABÉNS MANINHA!

P.S.: Lá para meados de Julho dou-te o merecido beijinho.