Thursday, November 29, 2012

Como espremer o que não tem sumo?

O Fidalgo vai ser muito directo: a entrevista de Passos Coelho, Primeiro-Ministro da República Portuguesa, foi na verdade um não acontecimento. No final da emissão aquilo que já sabíamos, antes do começo da entrevista, foi o que ficámos a saber... A Austeridade é um caminho longo; uma odisseia interminável; uma viagem cuja recompensa é o reforço da condição inicial... Ou seja Austeridade traz Mais Austeridade!

Passos Coelho tinha pouco para dizer ao país, pelo menos pouco de novo. O discurso, num tom ora defensivo ora a roçar a converseta de café, falhou na oportunidade de transmitir (pelo menos) um discurso que motivasse (galvanizar já é impossível!) os portugueses a mais um ano de sacrifícios, para manteremos o papel de "bom aluno". Um discurso que sustivesse o ideário do "bom aluno" que, curiosamente, depois é castigo pelo seu bom comportamento...

A dupla de jornalistas não funcionou! Para além de questões de estéticas (com Judite de Sousa a homenagear de uma assentada a Pink, a Dilma Rousseff e a Leopoldina), não se perceberam "ganhos" em ter dois bons profissionais de jornalismo a entrevistar o Primeiro-Ministro. Ficou o Fidalgo com a impressão de estar a assistir a uma sessão do "Fama Show", com um entrevistador a começar ideias, que o outro acabava e que o entrevistado circundava.

Não funcionou o guião de entrevista que, não sendo mau (justiça seja feita!), era pouco criativo e mostrou pouca investigação. Algumas perguntas pertinentes foram feitas, mas muitas outras (menos óbvias, eu sei) ficaram por fazer. E com estes dois profissionais como entrevistadores do Primeiro-Ministro pedia-se mais, bastante mais. E a Passos Coelho pedia-se que fosse menos guerrilheiro, mais directo e menos cartilhado...

E como acredita o Fidalgo, que não se pode espremer sumo de fruta seca fico-me por aqui... Esperando melhores entrevistas, ou, quiçá, melhores entrevistados!

Tuesday, November 27, 2012

Janus ou Themis? Como vai ser Sr. Presidente?

E o dia V, o da Votação Final do Orçamento de Estado 2013, chegou por fim. Os discursos finais dos vários partidos com assento na Assembleia da República trouxeram poucas novidades, algo aliás que marcou a maioria dos debates nos vários dias de votação na especialidade. Ideia novas têm tristemente escasseado pelas galerias parlamentares nos dias que correm!

O Orçamento de Estado 2013 foi aprovado com quase todos os votos dos deputados que "sustentam" a coligação governamental, exceptuando Rui Barreto que se juntou ao PS - PCP - BE- PEV no chumbo àquele que é considerado pelos Media Europeus como o Orçamento mais duro da História recente de Portugal. E como eles estão certos!

O Orçamento de Estado traz poucas novidades: austeridade insana continua a ser a palavra do dia. Portugal, que se encontra encalhado com um governo à espera que o Milagre Austero se cumpra, irá ter de passar por mais um ano de grandes provações. Portugal vai ser castigado com mais austeridade e porquê? Porque, desta feita, se portou bem...

Estranho prémio este! Depois daquele que era suposto ser o Cabo das Tormentas, versão pós-contemporânea, Portugal não se vê na eminência não de chegar a mares serenos, ou a uma nova Ilha dos Amores. Oh não! Depois de um ano em que os portugueses mostraram uma capacidade de resistência e um nível de democraticidade exemplares, o prémio é entrarmos num novo desafio; o prémio de dobrar o Cabo das Tormentas é chegar ao Cabo da Involução!

E no meio disto tudo o suposto timoneiro do barquinho lusitano, que dá pelo nome de Cavaco Silva, e que curiosamente não nos passa cavaco nenhum, tem agora um novo desafio nas suas mãos: legitimar o seu discurso de Junho de 2012, ou usar a "situação extraordinária" (desculpa que começa a perder aderência!) para aprovar uma proposta que, se não queimada, pelo menos vetada deveria ser...

Cavaco Silva que dizia nesse 24 de Junho, em Castro Daire, que Portugal não tinha mais espaço para lidar com austeridade terá agora que mostrar que a sua palavra é sólida, como são os seus silêncios, com os quais tentou ironizar, na entrega dos Prémios Gazeta, de modo muito parolinho e provinciano. Cavaco Silva terá agora que mostrar que tem menos de Janus e mais de Themis.

O Fidalgo anda menos "regular" na escrita do seu blogue, é facto, mas isso não implica que ande menos atento. Au contraire! O Fidalgo nunca esteve tão atento, porque nunca como agora se exige que cada um dê o melhor de si. E o que o Fidalgo melhor sabe fazer é usar da massa encefálica que ainda vai sobrevivendo. E o que o Fidalgo também sabe fazer é cumprir as suas promessas! Espera-se o mesmo de quem foi eleito para liderar o Estado!

Ou isso, ou teremos que começar a debater não a refundação do Estado (mecanismo de distracção pouco eficaz) mas a refundação do sistema político... E não falo na demagogia bacoca de reduzir deputados! Não é por aí que a água vai há fonte! Mais importante é saber qual o valor desta República tão pouco Respublicana. É que se é para isto que querem um Presidente deixam o Fidalgo cheio de dúvidas...


Thursday, November 22, 2012

Que a batalha [Amigável?] comece!

É absolutamente revelador do espírito que se vive no seio da União Europeia o modo, nada unionista, como os vários Chefes de Estado têm abordado a questão do novo Orçamento Comunitário. Poucas são, na verdade, as novidades trazidas neste novo episódio da tragicomédia que é a vida da União Europeia.

Hollande, Merkel e Monti entre outros já deram a entender que esta cimeira será vital para a continuidade do projecto Europeu. E não sendo errado assumir tal perspectiva, não é menos mentira que nos últimos três anos temos assistido a uma parada de Cimeiras Históricas, que na verdade redundam em fracassos cíclicos que, numa perspectiva prática, pouco ou nada resolvem.

A Guerra dos Subsídios também já começou. O Cheque Inglês não é negociável  anunciou David Cameron antes da abertura das negociações, sabendo que Hollande não está disposto a cortes nos apoios da PAC que muito têm beneficiado Paris e Berlim. A mesma PAC que Cavaco Silva, então Primeiro-Ministro, negociou tão alegremente e que nos impediu de olhar para a Agricultura e a Indústria, áreas que agora Cavaco Silva, Presidente da República, defende tão assertivamente.

Do lado dos países vindos do Espaço Pós-Soviético os cortes (que poucos Chefes de Estado e Chefes de Governo defendem) não podem ser feitos nos Fundos de Coesão, pois que são estes fundos a causa maior da Adesão ao grupo da União. A Eslovénia, a Bulgária, a Hungria e a Polónia contam-se entre as vozes mais activas contra os cortes pela via dos Fundos da Coesão.

Portugal, tal como a Grécia e o Chipre, defendem também a necessidade de não se cortar nos Fundos da Coesão. Curiosamente, Paulo Portas e Cavaco Silva mostraram-se contra os cortes propostos de 17%, juntando a sua voz a um coro maior que diz ser injusto ter austeridade transnacional Europeia, em cima da austeridade troikiana Nacional. Passos Coelho, que queria dizer não mas não consegue levantar a voz contra a Imperatriz Merkel, prefere dizer que vai para a Cimeira com flexibilidade negocial...

A Europa da União, de resto, dividiu-se em dois grandes blocos que se institucionalizaram e tudo. De um lado os Amigos dos Fundos de Coesão, onde se contam os países mais afectados pela Crise das Dívidas Soberanas e mais destroçados pelo Austero-Autoritarismo. Neste bloco, liderado por Portugal e pela Polónia, contam-se ainda a Bulgária, a Estónia, a Grécia, a Hungria, a Lituânia, a Letónia, a Roménia, a Eslovénia, a Eslováquia e Malta.

Do outro lado, com os seus ratings ainda em níveis aceitáveis, surgiu o bloco dos Amigos para um Gasto mais Eficaz. A Alemanha, a Áustria, a Finlândia, a França, a (surpresa!) Itália, os Países Baixos e a Suécia optam por uma defesa de cortes que obriguem a uma racionalização dos fundos comunitários, ou seja, optam por uma continuação do caminho da Austeridade. A Comissão Europeia, com o seu tão prestimoso líder, já mostraram uma natural inclinação por esta segunda facção.

A Croácia, que entra para a família da União em Julho de 2013, e que tem-se reformado e transformado por via das transferências de capital oriundos dos Fundos da Coesão, optou por se juntar aos Amigos dos Fundos de Coesão. No meio da Batalle Royale dos blocos de Amigos o Reino Unido, a Irlanda (claro está!) a República Checa (outra vez!), a Espanha e a Dinamarca decidiram ficar em terreno neutro, observando os argumentos esgrimidos pelos dois Euro-gigantones.

E enquanto a Europa da União se cinde em grupos, facções e círculos, a Europa vai perdendo espaço no mundo. Ou ninguém estranhou a não-presença de Ashton no seio da crise Israel-o-Palestiniana? A ONU saudou os méritos dos esforços diplomáticos dos EUA, do Egipto e da Liga Árabe; a U.E., ao que parece, já nem para "menino das águas" serve na cena internacional... E enquanto não se arrumar a casa, as coisas não podem mesmo mudar...


Tuesday, November 20, 2012

A República e as Nações: França, France, Francia, Frankreich!

Nas últimas duas semanas o Fidalgo ministrou duas Aulas Abertas sobre a questão da re-emergência dos "Nacionalismos em Tempo de Crise" no espaço Europeu que, esclareço desde já o leitor, transcende o espaço da União Europeia. Para não maçar o leitor com um desfile de nacionalismos infindável centrar-se-à hoje o Fidalgo no caso dos nacionalismos existentes no seio da República Francesa.

No seio do país que tem por tradição iniciar profundas transformações no espaço civilizacional europeu (do fim do Absolutismo, ao Imperialismo Bonapartista, ao Republicanismo Jacobino, ao Maio de 1968) contam-se pelo menos três movimentos nacionalistas. A Bretanha, a Alsácia-Lorena e a Córsega.

Bretanha! As marchas dos Bretões têm-se centrado numa luta pela defesa dos direitos educacionais e culturais alcançados, algo que poderá ser ameaçado pelos cortes que Hollande terá forçosamente de fazer. Ora cortar nos benefícios de uma minoria poderá parecer o movimento mais correcto para a maioria da população, mas fazê-lo poderá levar o movimento Bretão a politizar-se e a pedir por uma Autonomia política aprofundada. Os pedidos de Soberania na Bretanha são para já uma miragem, mas não podem ser excluídos do cenário!

Alsácia-Lorena! É, provavelmente, uma das regiões que mais vezes trocou de Senhorio no século XX, gravitando entre as mãos Germânicas e o controlo Gaulês. Os movimentos sociais na Alsácia-Lorena têm perdido força nos últimos anos devido a baixas taxas de natalidade e a um "afrancesamento" daquele que era o mais germânico dos distritos da República Francesa. Mas a incerteza económica interna e a pujança da Alemanha podem re-despertar desejos de revanchismo histórico.

Córsega! A ilha de Córsega foi, recentemente, palco de uma série de actos de violência que o governo central atribuiu às máfias e aos separatistas. Não estando errado o diagnóstico, o mesmo pesa por ser injusto ao juntar máfias e separatistas Córsegos como se fossem a mesma coisa. A Córsega desde, pelo menos, 1923 que tenta voltar para "dentro" da vizinha Itália.

A força do movimento independentista na Córsega atesta-se, por exemplo, no facto de nas últimas eleições regionais (em 2010) o Partido da Nação Córsega ter eleito 11 deputados na Assembleia Regional, a que se devem somar os 4 deputados eleitos pelo partido Córsega Livre. Contas feitas, numa Assembleia que conta com 51 lugares os Nacionalistas contam já com 15 deputados eleitos. E as sondagens não mostram estes partidos perderem vigor... Au contraire mes chers amis!

Enquanto a União Europeia se vai entretendo com as marchas na Catalunha e com o referendo na Escócia, a Europa das Nações vai continuando a trilhar o seu caminho. Em alturas de transformação e ampliação de incertezas como as que vivemos a Nação tende a confortar os seus nacionais, especialmente num momento em que o Estado parece atacar os cidadãos! Ignorar a força do nacionalismo é um risco que a Europa não deve correr... Ou então avizinham-se muitas surpresas para quem governa...


Monday, November 19, 2012

Israel, a Besta Bíblica amiga do Ocidente

As razões do conflito Israel-o-Palestiniano são por demais conhecidas, como são de resto conhecidas as várias fases de uma Guerra que não dá tréguas desde que em 1948 se declarou a Independência do Estado de Israel, em território Palestiniano sob administração colonial Britânica.

Os Aliados queriam compensar os judeus pelas Atrocidades contra estes cometidas pelo III Reich de Hitler e por isso "ofereceram-lhes" um Estado. Tudo normal, não fosse o facto de parte das terras em causa terem já o seu Senhorio, que o Ocidente (convenientemente pouco!) Esclarecido tende a obliterar mas que existia na região na mesma.

Avancemos! Israel terá atacado, não digo que em primeiro ou segundo, mas terá atacado (outra vez) os territórios da Palestina (com Estatuto político indefinido desde há muito) e logo em seguido os generais e políticos de Israel disseram que "temiam um ataque Palestiniano e se defenderiam de qualquer ameaça"?! Então a lógica é atacar e a seguir dizer que a contra-ofensiva é que é o ataque inicial?

A União Europeia, como sempre a reboque dos Estados Unidos da América, já disse que Israel tem legitimidade para se defender. Defender? É só o Fidalgo que vê a desproporção de uma Israel que ataca com o poderio de um exército high-tech e high-power contra um (putativo) exército cindido em três facções e sem grande armamento...

É aliás curioso como Israel parece não ter problemas em "testar" armamento novo sobre alvos reais, sem qualquer condenação activa que pede às duas partes moderação! Ao mesmo tempo o Mundo do Ocidente fica nervoso quando o Irão ou a Coreia decide exibir armamento testado em zonas desérticas. Será só o Fidalgo a ver o assustador grau de crueza envolto nisto tudo?

Se fosse o Irão a atacar com a ferocidade de Israel o mundo clamaria que eram as forças melífluas do Terrorismo e da Incompreensão em acção. Se fosse o Paquistão ou o Afeganistão a atacar com a ferocidade de Israel seriam as forças nefastas do Fanatismo e da Insanidade em acção. Mas como é Israel a atacar com a ferocidade de uma Besta Bíblica está tudo bem?

Israel ainda por cima parece esquecer-se que a lista de aliados regionais, mais importantes do que a UE, encolheu no pós Revoluções Árabes. O Egipto está menos "amigável"; a Líbia não está disponível para diálogo (com o país no limiar da implosão); a Tunísia opta pelo silêncio; a Jordânia, mediador activo nos últimos anos, tem problemas internos por sanar e o mesmo no Bahrein...

Israel, que nasce como compensação de um Genocídio, parece não ter problemas em fazer vítimas em série do lado palestiniano... Talvez seja cedo ainda, mas chegará o dia em que os de Israel passaram a uma dupla condição na questão do Genocídio. Povo genocidado pela Alemanha Nazi e povo genocidário da Palestina. E quanto sangue mais terá a Europa Unida que ver nos televisores, computadores, telemóveis e tablets até tomar uma posição nova e justa?

O Fidalgo deixa a questão que urge uma resposta!


Friday, November 16, 2012

E o TPI condena-se (outra vez) por não Condenar!

O Fidalgo anda por estes dias a dever ao sue fiel leitor, se ele existir claro, um comentário sobre os protestos em Lisboa que pela PRIMEIRA vez degeneraram em violência: manifestantes - polícia! E apesar de ser oportuno o momento, o Fidalgo tem um outro comentário, sobre um outro tema, de um outro país, mais actual que (também!) merece ser partilhado.

O Tribunal Penal Internacional ilibou os Generais Croatas Ante Gotovina e Mladan Markac de todas as acusações relacionadas com os vários actos etnocídas contra populações Sérvias, no decurso da Guerra nos Balcãs que se seguiu à implosão descontrolada da Jugoslávia. Este é um daqueles casos em que "cada qual" terá uma opinião diferente  dependendo do posicionamento mais pró ou mais anti qualquer uma das perspectivas em cima da mesa.

Na perspectiva Croata a ilibação dos dois Generais confirma o seu estatuto de Heróis da Nação Croata. Confirma que quaisquer actos cometidos não são condenáveis (afinal é o Tribunal Penal Internacional quem os iliba) e apenas terão tido lugar pela defesa da Croácia. A ilibação confirma ainda a Croácia como um Estado "sem mácula e culpa" nos vários etnocídios cometidos nos Balcãs na década de 1990.

Na perspectiva Sérvia a ilibação dos dois Generais é vista como uma prova, final e cabal, de que o Tribunal Penal Internacional não é isento nos seus julgamentos. E se somarmos à ilibação dos dois Generais Croatas, a condenação do general Sérvio Karadzic e a (quase) condenação do presidente Sérvio Milosevic, que morreu antes de conhecer o veredicto, estão postos na mesa os ingredientes para uma verdadeira nova conspiratória ao estilo Lev Grossman!

Tudo isto torna-se ainda mais tenso e perigoso, numa fase em que a Sérvia legitimou pelo voto um Nacionalista radical. A decisão do TPI, claramente em prol da Croácia, será lida como um sinal de uma alegada "perseguição" à Sérvia realizada pela Instituição Internacional em causa! E nisto o Fidalgo concorda... O TPI está longe de agir com imparcialidade, neste e noutros casos.

A razão da demonização da Sérvia? A de sempre! A Sérvia, ao contrário da Croácia, é mais pró-Rússia (estado aliás que não reconhece o Kosovo) e menos pró-Americana (estado Padrinho do projecto Kosovar). E não esquecer que a Croácia irá juntar-se à União Europeia em Julho do ano que se segue... Ora o TPI não ia "manchar" com sangue etnocidário o novo estado membro, da Instituição que ganhou o Nobel da Paz em 2012...

E falta uma terceira perspectiva: a de África! Muitos têm sido os líderes africanos que dizem que o TPI tem uma agenda política estabelecida. Muitos são os líderes africanos que falam da incapacidade do TPI em condenar os "do Mundo Ocidental" e esta decisão em nada ajudará a minimizar essas alegações. Ou alguém acredita que no meio de uma série de conflitos étnicos de "todos contra todos", dos quais saiu o novo mapa político dos Balcãs, apenas os Sérvios agiram de modo condenável?

E o Fidalgo fica-se por aqui!


Tuesday, November 13, 2012

Olha, obrigadinho querida!

Ontem mesmo a mais distraída das almas, como é o caso do Fidalgo por estes dias, não tinha como escapar à Merkelização dos noticiários nacionais. Não houve passinho dado por Sua Alteza que não fosse acompanhado com um pomposo directo. Não houve cochicho feito por Sua Majestade que não fosse registado e transmitido com uma euforia própria do Carnaval... E nós com o Natal tão perto!

Angela Merkel veio visitar o "bom aluno" da cartilha Berlinense. Uma visita curta, mas não haveria de resto grandes novidades para quem tem muito que ver com o actual programa governativo em curto. Merkel veio até Lisboa, sob os olhares atentos da Europa Aflita, e a visita saldou-se apenas num: "continuem o bom caminho que um dia, eventualmente, com muita paciência, os resultados lá surgirão".

Um dia, quando tudo tiver destruído e a Austeridade (necessária, se regulada e justa, na óptica do Fidalgo) tiver galgado a sua função e se tiver transformado em Calamidade o sol brilhará; porque depois de "Vos" empobrecermos, qualquer esmolita parecerá um tesouro compensatório. Depois de "Vos" fazermos regredir no seio de uma Europa (des)Unida e sem fôlego criativo verão que o caminho por Nós traçado era o certo.

Isto, claro, se na altura em causa ainda forem capazes de "Ver"! E o Fidalgo sabe que Berlim não tem culpas plenas na actual situação. Lisboa tem o seu quinhão de patetices e gastos que não se justificam. Nova Iorque e Bruxelas, por razões que a razão tão bem conhece, também partilham o ónus da culpa... Mas foi Merkel quem nos visitou!

Angela Merkel veio à "ponta da Europa" sem trazer qualquer mensagem verdadeiramente positiva, que de resto poderia ser um sinal interessante para um povo que se exaspera (por fim!) contra tanta Austeridade insana, que implica muito cortes e o pior dele o corte cego no bom-senso. Merkel podia dizer mais do que: "no final da longa e muito penosa estrada esperará por Vós um (incerto) Oásis"!

Não se pedia a Merkel um aplauso entusiasta do que tem sido feito, mas pedia-se mais do que aquilo que fez parar uma cidade... Se era para dizer o que disse e fazer o que não fez então mais valia ter feito a visita via Google Earth, ou comunicado via Skype. Sempre se poupavam uns trocados; sempre se mostrava inovação; sempre se impedia o mediatização pateta de quem manda sem ter sido mandatada...

A única mais-valia da visita de Merkel são as fotografias cheias de ternura, quase de paixão, entre Merkel e Passos Coelho, com o Tejo como pano de fundo. As fotos onde se vê o fiel aluno (ou eterno vassalo?) mostrar que fez os T.P.C. com aprumo! No meio de todo este Não-Acontecimento resta apenas dizer: Obrigadinho querida! E mais nada... Por agora... Por enquanto...


Thursday, November 08, 2012

Passagem pelo Viscondado de Tacanhistão!

O Fidalgo por estes dias decidiu passear. E como a época é de cortes, de restrições e de outras tantas condições fez-se cumprir o slogan: ir para fora cá dentro. Nada como passar uns dias pelo Viscondado de Tacanhistão para ficar absorto com tanta parolice junta. Vamos às (devidas) explicações, ou, se preferir o leitor, ao diário da viagem.

No primeiro dia, e porque o Viscondado é pequeno (em razão inversa à parolice nele contida), o Fidalgo passou pela Residência do Visconde que, após uma ausência de um mês que preocupou alguns dos súbditos, decidira-se a falar... E como justificou tão ilustre figura a sua ausência? Como explicou o seu afastamento e apagamento num momento de tensão? Com um surto de Divismo...

Sua Excelência Visconde de Tacanhistão, por vezes também chamado de Presidente da República, explicou que não falava, porque existiam "muitas vozes que tinham já falado", porque "existiam muitas opiniões no ar" e ele não estava ali para falar, mas sim para trabalhar!!! Esqueceu, por certo, o Visconde em causa que a sua palavra é de extrema importância para quem lhe confiou um voto, para quem o elegeu temporariamente como líder.

Obliterou-se da mente do Visconde que o facto de existirem muitas vozes no ar é parte natural e saudável de regimes que se assumem como democráticos, plurais e abertos. Sua Excelência queria que a sua voz fosse a única a ser ouvida? Queria transformar-se em Guru ou quereria reencarnar como Dalai Lama? Sua Excelência não quer partilhar o palco, ao estilo de Lukashenka, Karimov e Aliyev, de uma "festa" que se quer participativa e plural!

No meio do espanto pela tacanhez, atributo que lhe valeu a liderança do Viscondado, da justificativa do blackout ficou o ânimo do "porque prefiro trabalhar", mas ao que parece nem isso se tem visto... E não venham dizer ao Fidalgo que Sua Excelência trabalha nos bastidores, que não estamos a falar de uma peça de teatro. E se estamos, tem o Fidalgo a dizer, o argumento das últimas cenas exibidas tem sido escrito por gente sem inspiração...

Não bastasse o espanto com a tacanha atitude de Sua Excelência o Visconde, ainda teve o Fidalgo que se deparar com a irrazoabilidade de uma figura que funde no seu nome o pintor Monet e o General Junot! Diz certa pessoa que os habitantes do Viscondado terão que saber empobrecer, porque "não se podem comer bifes todos os dias", como se a mesma pessoa tivesse alguma coisa que ver com isso.

Diz a mesma pessoa, que funde no nome (mas não na essência) Monet e Junot, que os habitantes de Tacanhistão têm que ser não apenas pobrezinhos, mas tristezinhos e pequeninos... Assumir a sua pobreza e aceitá-la... Ao invés de dar ideias inovadoras para solucionarem os problemas em causa, ao invés de ajudar ao debate que precisa de ser empreendedor e criativo, a dita pessoa apenas se conforma com a pequenez e em tacanha atitude quer que todos a sigam...

E com tanta tacanhez o Fidalgo retira-se, antes que a mesma o afecte!


Tuesday, November 06, 2012

Tsrantcha e Brashten: Búlgaras ou Gregas?

E hoje que o Fidalgo estava com planos para falar do que se passa no nosso jardim, à beira-mar deixado, algo inesperado fez-me mudar os planos. Os Balcãs partilham com o Cáucaso uma extraordinária densidade étnica que, seguindo as teses etno-simbolistas, levam a uma construção da Identidade multi-nível e, consequentemente, a uma densificação da complexidade das dinâmicas políticas.

Os Balcãs, tal como o Cáucaso, são conhecidos mais parte do que pelo todo. No Cáucaso é a Chechénia que faz "soar campainhas" e nos Balcãs será, claramente, o caso do Kosovo. Mas nas duas regiões existem muitas outras questões etno-nacionais que merecem um olhar mais atento e cuidadoso; até porque ambas as regiões se reclamam (justamente) como parte da Europa e podem levar ao degenerar de conflitos... A I Grande Guerra começa com um incidente nos Balcãs...

Mas vamos à notícia: duas aldeias búlgaras Tsrantcha e Brashten sonham por estes dias ser "anexadas" à vizinha Grécia. Em Sofia a táctica adoptada tem sido a de ignorar e silenciar o problema; algo de resto muito Europeu... Mas as duas pequenas aldeias, que se situam numa zona de fronteira entre os dois estados, têm conseguido fazer passar a sua mensagem.

O desejo das duas aldeias é apenas mais um sinal de que muito continua por fazer e por estudar nos Balcãs, strictu sensu, e no espaço pós-soviético, lato sensu, no que concerne à construção de noções inclusivas e mais amplas de identidade. Algo, de resto, que o Fidalgo tem tentado fazer, mas que os Lordes da Investigação em Portugal consideram secundário...

Se somarmos o desejo destas duas aldeias em "trocar" de país; ao fracasso do Kosovo ser amplamente reconhecido pela Comunidade Internacional; ao reacender da tensão na Transnítria (Moldova); ao escalar da pressão diplomática Macedónia-Grécia-Bulgária (em torno do nome da primeira) conseguimos ter um vislumbre de como muito está por fazer... Muito está por estudar...

O desejo de Tsranthca e Brashten parece confirmar as perspectivas de autores como Henry Hale que asseveram que em situação de dupla perda (a Bulgária e a Grécia atravessam ambas um mau momento económico) os povos tendem a preferir perder junto aos seus similares. Se as duas aldeias não se sentem parte do Nós Búlgaro e não "ganham" por fazer parte do espaço deste, é natural que queiram voltar ao "Nós" grego (do qual fazem parte mas) no qual também não ganharão nada mais.

Quais as soluções possíveis? Será a Autonomia Não-Territorial um caminho? Ou a Autonomia Nacional-Cultural é mais segura? Ou ambas são o mesmo e ambas sem garantias? O Fidalgo até que tem as suas ideias sobre isto mas, só porque sim, não as vai partilhar hoje... Os Lordes da Investigação, vulgo FCT, que analisem estas questões... Não são Eles mentes brilhantes? Força!