Tuesday, November 26, 2013

A Austeridade falhou!

A Austeridade falhou! Podem apontar o crescimento das exportações como baluarte de que a "coisa" funciona; podem apontar a saída "técnica" da recessão como estandarte do sucesso da mesma; podem apontar imensos números que, sendo sinais positivos que não se podem ignorar, não escondem o retumbante fracasso da Austeridade.

A ideia era diminuir os gastos do Estado, as tais gorduras, mas a despesa do Estado continua a crescer. A ideia era serenar os Mercados, porque pelos vistos os Mercados são quem mais importa, mas os Mercados não serenam. Pelo que vou percebendo, e de Economia pouco entendo, os Mercados não serenam não com chá de camomila, nem com Xanax.

A Austeridade serviria, para alguns, para re-educar um povo cheio de vícios e maus hábitos, muitos dos quais são mais fruto de exageros e preconceitos do que reais "acontecimentos". A Austeridade comportaria um momento de dor que daria azo a um momento de glória. A dor já veio, todos (ou quase todos!) a sentem, a glória dourada que lhe sucederá... Essa, tal como D. Sebastião, tarda em voltar!

As metas falharam. A Austeridade, contudo, conseguiu muita coisa. Asfixiou, de modo letal, uma classe média que nunca chegou a sedimentar-se; destruiu um tecido científico-criativo que demorará (e muito) a reconstruir; empobreceu o país, não apenas nos salários, na insanidade taxativa, mas também nos sonhos e na esperança.

A austeridade levou o país a ter que dizer a muitos jovens, muitos deles qualificados, alguns altamente qualificados. O país teve que chorar amargamente, enquanto quem decide se fechou no seu mundinho. Os pais deste país tiveram que perder e, infortúnio faustiano, ainda não ganharam nada com isso. E não se pense que esta geração voltará a bem, quando saiu do país pontapeada apenas porque queria trabalhar...

Uma cúpula de gente, que tendencialmente vive em redomas de cristal, dirá que "não se pode comer bife todos os dias". Concordo, com este tipo de política sem sei se, a prazo, se conseguirá comer, em Portugal, todos os dias; quanto mais bife. A mesma cúpula acha "um horror" os protestos na Assembleia da República, porque estão lá os eleitos do povo.

Verdade, os deputados foram eleitos. Mas foram eleitos mediante um programa que, sejamos honestos, não era este. Foram eleitos para cumprir uma visão, que logo se perdeu. O voto serve como contrato, como meio de transferir poder para alguém representar outrém, porque ambos partilham uma visão comum. O voto não é, não pode ser, um mecanismo de autoritarismo eleitoralista. O voto não é (não pode ser!) dogma! Discute-se e, quando disfuncional nos efeitos, muda-se!

A mesma cúpula consegue ainda levar gente a dizer que "subir ordenados é um pesadelo para os pobres", num país com cada vez mais gente a receber o mínimo. Era para isto que a Austeridade vinha? Para um empobrecimento que levará a um embrutecimento generalizado? Mas quem tem este programa esqueceu, ou talvez não saiba, que o embrutecimento é a antecâmara da violência...

A Austeridade falhou! Poderia ter funcionado, mas a cegueira ideológica e o experimentalismo económico-social falaram mais alto. A Austeridade falhou porque foi tão austera que se tornou autista; que deixou de ser capaz de ouvir; deixou de ser capaz de perceber que o consenso nasce do confronto e não do seguidismo uniformista.

A Austeridade falhou e a Oposição também tem culpas no cartório. Com o Bloco em desagregação e sem ideias claras sobre o que é... Com o PCP entretido na mesma cantiilena de sempre (ao menos mantêm a coerência?)... Com o PS exaurido de ideias credíveis e com posturas demagógicas e eleitoralistas. Uma oposição inteligente, criativa e sagaz, poderia ter ajudado a driblar a Austeridade... Mas o cheirinho do poder falou mais alto!

A Austeridade que hoje carimbará mais um Orçamento de Estado falhou; mas a Vaidade e o Orgulho de quem não tem mais nada falam mais alto. A Austeridade falhou e, a seguir, quando chegarmos ao limiar não existirá volta a dar. Pausa! Espero estar errado! Pausa! Mas acho que não estou! Pausa! E depois? Depois não se sabe o que acontecerá... Mas temo...


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