Tuesday, February 25, 2014

Até onde estica o voto D.ª Itália?

Por estes dias o mundo anda todo admirado, preplexo e expectante com os acontecimentos que vão acontecendo nas Ucrânias. O Fidalgo não é excepção, mas como ando a preparar uma "coisinha" sobre o que tem acontecido na Ucrânia - Geórgia - Quirguistão (os três das Revoluções Coloridas) ficará para depois uma análise/opinião/visão sobre o que se passa nas Ucrânias.

Por estes dias anda o Fidalgo surpreso, isso sim, com o que vai acontecendo na Itália. Não faz muitos dias que Matteo Renzi se tornou no segundo Primeiro-Ministro de Itália a chegar ao cargo sem qualquer eleição e no terceiro/quarto Primeiro-Ministro da segunda década do século XXI (quarto se contarmos que Berlusconi "sobreviveu" até Novembro de 2011).

Constitucionalmente, a Itália é uma República Parlamentar desde 1946 quando, no pós-II Guerra Mundial, a Monarquia foi abolida. Isto quer dizer que a legitimidade do poder executivo (o Governo) deriva do Parlamento (poder legislativo). O Parlamento, com 945 mandatos divididos entre duas Câmaras (Câmara dos Deputados com 630 e Senado com 315), elege também o Presidente.

Nas eleições de Abril de 2008, a coligação de partidos liderada por Silvio Berlusconi venceu nas duas Câmaras do Parlamento e por isso o Presidente Georgio Napolitano convidou Berlusconi a formar governo. Até aqui nada de anormal, num país que conta com 56 legislaturas em cerca de 65 anos de parlamentarismo democrático pós-II Guerra Mundial.

Após uma série de escândalos e com a economia em crise, por culpa do efeito da Crise das Dívidas Soberanas, Berlusconi é empurrado para um pedido de demissão em Novembro de 2011. O Presidente da Itália, que partilha com outros Presidentes Sulistas a aversão à imprevisibilidade que representa o voto popular, nomeia o tecnocrata Mario Monti para formar governo e superar o difícil momento que a Itália atravessava.

Mario Monti aceitou o desafio, e a tecnocracia bem ao gosto de Bruxelas instalou-se na Itália. Monti apresentou um discurso interessante, desligado de mediatismo carnavalesco de Berlusconi e isso granjeou-lhe o respeito dentro e fora da Itália; mas a dureza das medidas de austeridade logo lhe roubou popularidade. Nas eleições de Fevereiro de 2013 o seu partido surge em quarto lugar, com pouco mais de 10% dos votos.

Em Abril de 2013, Mario Monti demite-se e Enrico Letta (com legitimidade advinda do recente voto popular) toma o seu lugar. Letta apresenta um governo ambicioso de coligação (que ficaria conhecido como Grande Coligação por incluir quatro dos partidos mais votados). As inúmeras sensibilidades políticas contidas dentro do governo provariam ser um exercício desgastante e sem cumprir sequer um ano de mandato, Letta deixa o cargo...

Na passada quinta-feira, a Itália conheceu o seu 56º Primeiro-Ministro, Matteo Renzi. A nomeação é, uma vez mais, uma prova de que o voto do eleitor nem sempre conta e de que a democracia entendida como processo de validação de um conjunto de ideias foi substituida pelo eleitoralismo simples.

É certo que os governos em Itália, tal como em Portugal, não são eleitos pelo voto popular. O cidadão-eleitor vota para eleger os deputados do Parlamento, mas a escolha destes está sujeita a um projecto, a uma visão de política, a um conjunto de ideias que eleitor e elegível partilham. O cidadão-eleitor não entrega o poder absoluto a quem o representa, mas antes confia que quem o representa o fará de acordo com uma cartilha previamente apresentada.

O voto, tem em crer o Fidalgo, não pode ser "esticado" de modo quase autocrático, apenas para evitar a trepidação da consulta popular. O voto não pode ser instrumentalizado e burocratizado, com o risco de continuarmos o afastamento entre quem elege e quem se quer fazer eleger. Com o risco de minarmos os pilares da democracia por dentro.

O novo governo Italiano tem agora duas batalhas pela frente: 1.) a de governar a Itália (desafio complicado, por certo!) e a de provar a sua legitimidade moral, já que legal e tecnicamente estão mais do que legitimados. E os políticos da Itália, começando pelo Presidente, têm o desafio de pensar qual o real valor do Voto. Laço totalizante e global entre eleitor e elegido? Ou transferência de poder, para que se represente um conjunto pré-definido de ideias?

Tuesday, February 18, 2014

Não sou personagem, não sou leitor, mas sei que Sou!

Se me dissessem em Novembro, ou mesmo em Outubro, que iria estar em Lisboa duas vezes seguidas, com um mero intervalo de dez/onze dias, teria sorrido simpaticamente e pensado, em silêncio, "coitadinho/a, apanhou uma insolação qualquer". Mas a verdade é que amanhã aterrarei em Lisboa quando apenas a 8 deste mês levantei voo de regresso ao meu novo canto no mundo.

Dei por mim a sorrir quando acordei de manhã. Estes dez/onze dias foram acompanhados pelo meu amigo silêncio, pela minha companheira saudade e por uma nova amiga: Ayşe Kulin. Descobri o primeiro livro (traduzido para inglês, claro) quando a 17 de Janeiro passeava por Ankara e o meu coração palpitava pelo voo do dia 18 de Janeiro que me levaria de volta ao meu país, quatro meses após a ausência.

A capa do livro chamou-me a atenção e depois de ler a sinopse na contra-capa fiquei automaticamente com vontade de ler ali o livro; afinal sempre gostei de um bom romance histórico. Mas a emoção do regresso ao meu país foi mais forte e a amiga Ayşe teve que esperar pelo meu regresso.

Regressei a 8 de Fevereiro, mas só a 9 de Fevereiro cheguei a Kırıkkale. Pelo meio passei umas quantas horas (75% das quais a dormir) em Ankara. Levei um par de horas a desarrumar a mala, meio assassinada pelo pessoal que trabalha nos aeroportos, e a organizar o caos animado de cores, tecidos e texturas em que se transformou o meu quarto.

Por momentos, o quarto transformou-se num bazaar e até conseguia ouvir os pregões expelidos com alegria e vivacidade, por vendedores com os olhos cheios de estórias por contar. O dia 9 passou-se e Ayşe continuou a esperar por mim, com a paciência tão característica dos grafemas...

Dia 10 de Fevereiro. Folhei-a, senti o cheio a novo; senti a emoção de ter perante mim uma aventura que se oferecia à minha leitura, ao dedilhar gentil dos meus dedos, ao exame metódico do meu olhar. E deixei que a estória se desvelasse.

Não foram precisos muitas páginas para ficar prisioneiro dos grafemas. E enquanto eu me apresentava às minhas seis novas turmas, as personagens de Ayşe desfilavam uma a uma. E eu era cada vez mais um persona do livro e não um mero leitor, na passividade mole de quem apenas absorve.

A semana foi-se desfiando e a estória foi tomando conta do meu dia-a-dia. Eu tinha que saber o que ia acontecer ao ministro Reşat, à sua esposa Behice, ao intrépido Kemal, à apaixonante Mehpare e a todos os outros. Nomes que deixaram de ser meras impressões, gravadas nas folhas de papel, mas que passaram a ser meus companheiros durante estes dias.

Ontem fiz a mala, uma vez mais! Sem caos, sem a vibração do bazaar instalada no meu quarto, sem consumir sequer meia-hora. E enquanto fazia a mala reparei que o livro também se preparava para o seu final. Agora que me preparava para partir, uma vez mais, antes de poder regressar, para em Abril partir e regressar de novo, o livro também se preparava para partir... para a prateleira, claro!

As vidas de todas aquelas personagens, amigos que fiz nos dias que mediaram entra duas idas a Portugal, preparam-se para atingir um final. A vida deles está presa entre 414 páginas, a minha não tem ainda o número definido mas té-lo-á um dia. A vida deles imortalizada enquanto a tinta for legível, mas presa numa bolha temporal de quem viverá para sempre entre 1919 e 1924. E se a minha não está presa, ainda, numa bolha temporal, está delimitada entre viagens. Entre decolagens e aterragens de passarões de metal...

Sei que não sou personagem do romance de Ayşe, apesar de ter vivido a estória com uma intensidade alucinante, mas também sei que não sou (raramente sou) um passivo leitor. Sei que Sou algo mais, algo que não se define, que não se cataloga, que não se conceptualiza... E porque haveria de se definir? Sei que Sou e isso é que importante, porque para o Ser basta-me saber que sei. E amanhã aterro em Lisboa!


Tuesday, February 11, 2014

O curioso caso da Gagauzia

A União Europeia ainda não recuperou do fracasso da Cimeira que firmou a "Parceria de Leste", em Novembro de 2013. Não recuperou, porque para sarar maleitas é preciso reconhecê-las e aos olhos dos tecnocratas da UE está tudo bem. É mais fácil fechar os olhos, mas o fácil não resolverá os problemas. É apenas isso mesmo: fácil!

Curiosamente, tendo em conta que tudo está bem, vemos Kiev ser disputada pela interferência de Bruxelas (dançando ao ritmo da batuta germânica), pelos "pacotinhos de promessas" de Washington e pela reacção musculada de Moscovo. E no meio de toda a poeira mediática, que em Portugal tende a não ser filtrada, tem escapado a atenção ao que vai acontecendo noutros lados... Digamos na Moldova!

A Moldova é um dos vários países renascidos com a implosão da União Soviética. Em jeito de resenha histórica, pode dizer-se que a Moldova surge como principado na segunda metada do século XIV (1359) e passado à condição de vassala-tributária do Império Otomano no século XVI, em 1538. No começo do século XIX, mais propriamente em 1812, o Tratado de Bucareste transfere a obrigação de vassalagem da Moldova do Império Otomano, para o Império Russo.

A Moldova renascida no final de Agosto de 1991 é apenas uma pálida imagem da Moldova antiga. Partes do anterior território Moldavo estão hoje inseridas na Roménia e na Ucrânia. A mesma Ucrânia das disputas... Esta Moldova "reduzida" conta ainda com duas regiões separatistas/autonomistas no seu território: a Transnítria e a Gagauzia.

A primeira tende a ser mais mediática, por isso falemos da segunda. A Gagauzia é um pequeno país com uma área geográfica maior do que as Ilhas Faroé mas menor do que as Ilhas Comoros. Para se ter uma ideia da dimensão, a Gagauzia equivale a cerca de 55% do concelho de Abrantes e é cerca de cinco vezes mais pequena do que o distrito de Santarém.

A população da Gagauzia é pouco maior do que os 155000 habitantes, a maioria dos quais (mais de 80%) de origem Gagauz, grupo étnico de origem turcófona e composto maioritariamente por Cristãos Ortodoxos. Na Gagauzia os Moldavos representam menos de 8% da população, os Búlgaros quase 5% e os Russos quase 2,5%. Mas porque interessa a pequenina Gagauzia, num post que começou por falar do fracasso de uma das mais ambiciosas iniciativas da União Europeia?

Porque a Gaugazia revela um novo fracasso da União Europeia! No momento em que as elites de Chisinau se preparam para aprofundar as relações bilaterais com Bruxelas, a população da Gagauzia organizou um referendo sobre a vontade ou não de uma maior integração com a União Europeia. Os resultados foram claros: 92,7% da população é contra uma maior aproximação da Gagauzia à União Europeia. E quase 98,4% defendem uma maior aproximação ao projecto russo de uma comunidade eurasiática...

A elite em Chisinau, nervosa com as reacções que poderiam vir de Bruxelas, apressou-se a qualificar o referendo de ilegal e disse que o mesmo era nulo e incapaz de produzir efeitos. Parece ao Fidalgo que o efeito está produzido, os Gaugazes não querem a instabilidade da desunida UE. Se é para se submeterem ao jugo de alguém, que seja ao de Moscovo onde, pelo menos, as regras do jogo são mais simples.

Os poucos especialistas e analistas do dito mundo Ocidental que tentaram ler o referendo, apressaram-se a culpar Moscovo de pressionar as populações. Mas ninguém conseguiu rebater o facto de mais de 70% dos mais de 155000 habitantes da Gagauzia terem ido a votos e desses, mais de 90% deram um chute na UE. Tentou-se minimizar o resultado, porque a região é pequena. Mas se a UE perde a Gagauzia, perderá também a Transnítria; a Moldova encolhe ainda mais e corre mesmo o risco de implodir.

A Gagauzia é geograficamente pequena, mas o efeito do seu referendo poderá ser maior, do que aquele que nos é servido pelos holofotes dos mainstream media. A Gagauzia é pequena, também o é a Suiça, mas o impacto do referendo poderá ser maior do que calculam alguns tecnocratas da UE. É que não olhar para o curioso caso da Gagauzia poderá custar a Ucrânia, a Bósnia-Herzegovina, ou mesmo a Sérvia, aos senhores de Bruxelas.


Sunday, February 09, 2014

Um desafio chamado Kırıkkale, versão 2.0

E por fim cheguei a Kırıkkale. A viagem começou ontem, em Lisboa, batiam as 15h (17h em Kırıkkale) quando o pássaro de metal que me trouxe a Portugal, me devolveu ao meu ninho turco. Mesmo sem precisar de visto para ir a Portugal, o tempo permitido para a minha estadia terminou. Afinal, tenho que voltar ao meu novo poiso "definitivo" sabendo que a tal ideia de "definitivo" não existe. Então volto para onde mesmo?...

Aterrei em Ankara eram 0h10, dia 9 de Fevereiro. Por Portugal eram 22h10 e o dia 8 de Fevereiro ainda reinava. Ao vir para a Turquia adientei-me no calendário, e as saudades também se adiantaram. Adientei-me no calendário, sabendo que me atrasarei em tantas outras coisas. Sorrio. As coisas que me passam pela cabeça quando escrevo no blog. Desculpe-me o leitor por estas pausas, mas são trivialidades necessároas. Com estas pausas posso inspirar sanidade e expirar o resto...

Tinha um rosto amigo no terminal doméstico do aeroporto de Ankara. Esperava por mim! Eu sabia que fizera amigos, mas não contava que se interessassem assim pelo meu bem-estar. A saudade ficou espantada e, no meio do seu espanto, tornou-se mais suportável. Entrei para o carro dele e vi ruas onde já estive, lugares onde já tirei fotos, ruas que já percorri. Como quem repete um sonho noite após noite. A familiaridade reconfortou-me!

Vi outro rosto amigo, minutos depois. Juntou-se a nós (seria de resto em casa deste que eu acabaria por pernoitar) para uma refeição tardia. Os sabores da Turquia voltaram a inundar as minhas papilas gustativas que 24 horas antes tinham degustado portugalidade. E naquele momento eu soube que voltara aos temperos fortes, aos condimentos combinados, ao bailado entre o picante e o refrescante que parece marcar a gastronomia desta região.

E enquanto tomo um chá, hábito que recuperarei velozmente, reparo que os sons em meu redor não me são estranhos, apesar de muito do seu sentido me escapar... Posso ver o esplendor da sua arquitectura, mesmo sem entender os seus elementos, a agregação dos seus elementos, o sentido que provém da agregação dos seus elementos. Mas, em breve, esta língua deixará de me ser estranha! Fica prometido!

Dormi por Ankara antes de partir para Kırıkkale. Vim sozinho, como acontecera três semanas antes, num mini-autocarro apinhado de gentes e malas. Um mini-autocarro apinhado de expectativas, de planos, de sonhos, de rumos. As nuvens negras, que pensava ter deixado por Portugal, apareceram para dar o ar de sua graça e até as gotículas de chuva apareceram em cena. Estará o tempo a querer ludibriar a saudade?

Kırıkkale! Subi duas ruas, arrastando uma mala de 23kg e com 9kg nas costas. Subi duas ruas com o peso dos meus planos e dos meus objectivos a chicotearem-me a alma. Para se ganhar, temos que estar prontos para perder. Já antes lera isto em romances e dramas históricos, mas só agora entendo a magnitude destas palavras. Ganhar será a próxima paragem, já que já perdi muito...

Amanhã começo o segundo semestre. Terei o desafio de desenvolver capacidades em oito turmas; terei o desafio de desafiar mentes e sonhos para novas realidades; terei o desafio de me desafiar, pois só assim as coisas fazem sentido. Amanhã começo a ganhar, agora que já aceitei o que perdi e que sei que quanto mais ganhar mais perderei. Curioso balanço universal... Pois que venha o segundo semestre!


Tuesday, February 04, 2014

Não sei agarrar fumo...

Cheguei a 18 de Janeiro! Mal dormi nessa noite, tenho a memória clara de ter acordado umas oito, se não mesmo nove, vezes. A ansiedade percorria o meu corpo, enquanto a adrenalina transformava as minhas células num sambódromo de excitação. As horas "preso" dentro dos passarões de metal que me levaram de Ankara a Lisboa passaram lentamente.

Aterrei em Lisboa! Tentei controlar a emoção de estar em Lisboa, de estar de novo no meu país, mas falhei em todas as tentativas. A minha bagagem, como quase sempre, foi uma das últimas a surgir no tapete número oito. Tirei-a de uma só vez. E depois de transpor um corredor lá estavam eles: olhos que ansiavam por me ver chegar e gritos de alegria. E o rosto da minha mãe, iluminado de alegria numa Lisboa carregada com nuvens cinzentas.

Viemos para Abrantes. Pelo caminho recebi flores; comi broas; comi uma bifana (ao preço de caviar russo!) e ouvi a língua de Lídia Jorge e Mário de Carvalho desfilar pelos meus ouvidos. Vim para Abrantes, para a capital do meu pequeno reino. Sabia que teria apenas três semanas; um pequeno interregno no exílio que fui forçado a escolher.

E os rostos surgiram. Os amigos foram aparecendo. Os beijinhos, os apertos de mão, os abraços foram acariciando a saudade. E a saudade tornou-se alegria, mas não desapareceu. Porque ser português é ser saudade, isso sei-o agora. Mas preferia não saber... Até o meu telemóvel com o número de Portugal ganhou vida, com os toques de SMS e as chamadas. Pequenos rituais que não terei quando voltar...

Abrantes, a capital do meu reino, soube abraçar-me com o calor da amizade e mostrar-me porque tenho saudades, quando Abrantes se torna apenas uma memória, uma fotografia, um tag. E não fui só eu quem foi abraçado; enquanto me abraçava, a minha mãe era abraçada pelo conforto de me ter por perto. Orgulha-se de tudo o que faço, mas queria poder orgulhar-se e ter-me por perto. Mas há gente em S. Bento e na Avenida D. Carlos I que discorda dela...

Lisboa foi a cidade seguinte. E eu que adoro sair à noite, adorei uma Lisboa caseira. Dois dias e meio passados em duas casas, que me souberam ao mel doce de Samsun. Dois dias e meio de conversa, de sorrisos, de reviver memórias e de criar novas estórias. Sentia Lisboa a dar-me um beijo na nuca, como que a desculpar-se por ser a porta de saída, depois de ter sido a de entrada. Foi em Lisboa que aterrei e será dela que partirei. Ironias!

Porto! O meu santuário, como há três anos lhe chamei. Cidade bonita, enegracida pelas nuvens paquidérmicas que se passeiam demoradamente e, contudo, iluminada pelo coração generoso dos que lá habitam. Revi gentes, sonhos, esperanças. Revi pessoas que foram entrando naquilo que sou e senti-me, uma vez mais, em casa. Abrantes é a capital do meu reino, mas o Porto é o santuário. Ambas as cidades importam! E só isso interessa.

Abrantes. Regressei com alegria no rosto. Contente por ver as minhas irmãs, a minha mãe, os meus amigos, o meu pai e todos os outros que importam. Foi com alegria que ontem me deitei, depois de cantar e ouvir cantar com amigos e desconhecidos. Depois de um ensaio, em que a saudade ensaiou o seu regresso triunfal. As três semanas estão a acabar...

Acordei meio melancólico. Sei que tenho poucos dias pela frente; que tenho menos de noventa e seis horas; que tenho menos de 5760 minutos. Sei que está na hora de partir, para poder regressar. Sei que não adianta tentar deter o tempo, porque não só não deterei o tempo, como perderei tempo a tentar. E a saudade feita melancolia tenta instalar-se.

Mas ainda é cedo. Não posso parar o tempo, mas posso aproveitar o tempo que ainda tenho. Posso focar-me em viver cada segundo, gravando-o na minha memória, em vez de lamentar o final desses mesmos segundos. Posso optar por sorrir, enquanto é tempo, em vez de chorar, antes de ser tempo de chorar. E é isso que farei. Não sei agarrar fumo, mas sei engarrafá-lo. E, enquanto aqui estiver, é isso que farei.