Thursday, July 30, 2015

Noivo Por Um Dia (1/5)


Os céus da Cidade enchiam-se de nuvens cinzentas quando acordei! É mais fácil relatar tudo se não disser nomes. Hábitos profissionais! A Cidade e Eu éramos usados todos os dias e ninguém parecia importar-se com os nossos nomes. Afinal porque é que desenvolvemos esta apetência para dar nomes a tudo? O que tornará o ser humano tão inseguro, ao ponto de ter que nomear algo para lhe dar existência?

Em algum momento da nossa História enveredámos pelo estranho caminho dos Nomes e agora é demasiado tarde para voltar atrás. Estamos viciados em baptizar tudo e todos! Estamos presos na rotina da nominalização e da catalogação. Estaria Descartes errado? Seria altura de se reformular o Cogito, ergo sum por algo mais actual como Nomeio, logo existe?

Filosofia! Rio-me de mim mesmo! Eu, de todos os que pisavam a Cidade, devia ser o único que acordava a pensar em Filosofia. Logo eu… Acordei, como sempre, sem grandes dificuldades! Destapei o meu corpo desnudado e de um pulo saí da cama de hotel onde pernoitara. Olhei para a cama onde uma jovem, cujo nome deixara de ecoar na minha cabeça, dormia serenamente.

Era bonita. Aliás, são quase sempre bonitas! Pele suave, cabelos pretos, olhos verdes, lábios finos, peitos pequenos e firmes. Rita, acredito que ouvi esse nome, duas ou três vezes, antes de rasgarmos as roupas e nos atirarmos para a cama. Sorri! O meu corpo nu, não sentia o frio que corria na cidade, por causa do aquecimento artificial. Lá está o homem a fugir da Natureza!

Ela moveu-se na cama. Decidi tomar um banho antes de sair do quarto. Enquanto a água aquecia, para abraçar o meu corpo, contemplei-me ao espelho. Até que sou um belo exemplar da espécie masculina. Tenho 25 anos, cabelo preto cortado curtinho, olhos castanhos-claros, lábios carnudos, o tronco talhado pelo trabalho diário do ginásio e pelas regras alimentares, um pénis de respeitáveis (se não mesmo olímpicas) proporções e umas pernas de atleta. O que mais posso querer?

Entrei no banho e deixei que a água quente molhasse o meu corpo. Um abraço húmido e reconfortante despertou todas as células do meu corpo. Só a água me abraça sem intenções e cobranças. A água não espera uma felicidade fugaz, passageira, quase instantânea. A água é sincera no seu abraço. Eu sabia que a profissão me reduziria a este estado de existência, mas não sabia o que me custaria.

Escolhi ser assim. Em algum instante existencial enveredei por este inesperado caminho. Não me queixo de infortúnio divino, ou de má sorte, sei bem que fui em quem quis chegar assim até aqui. Nunca fui empurrado pelos estranhos ventos do fado; foi de livre vontade, de cabeça limpa, de peito cheio que me entreguei a esta rota. Podia não ter sido assim, mas foi. De nada me servirão as lamentações. 

Sequei o meu corpo com pressa. Por norma, saio dos quartos de hotel quando elas ainda dormem. Como se a noite anterior não tivesse sido mais do que um sonho. Um sonho agradável, espero eu. Mas e se não tiver sido agradável? Se não tiver sido um sonho? Tanto pior para ela… Eu já fui pago. Seco o cabelo e limpo a consciência antes de sair para o frio da cidade.

Costumam chamar-me prostituto. Não que os nomes façam diferença, mas prefiro pensar em mim como Noivo de Aluguer, ou Noivo por Um Dia. Ironia sublime, acho mais elegante o substantivo Noivo. Logo eu… Sei que não tenho propriamente a profissão com a qual sonhei em criança. Se bem me lembro comecei por querer ser astronauta e depois, a certa altura, já queria ser cantor. No final dos sonhos, perdida a inocência, acabei como Noivo por Um Dia.

O meu apartamento fica numa zona buliçosa da cidade. Aqui a Vida não dorme e a Morte é a sua única companheira. Não é a zona mais in da Cidade, nem nada que se pareça, mas gosto de viver por aqui. No meio do perigo de ser assaltado, das rixas entre os gangues marginais, do cheiro a mijo dos pedintes, das manchas de vómito das noites de bebedeira, encontro algo de familiar, de reconfortante, de verdadeiramente meu. É o meu santuário.

Moro no terceiro andar, num prédio com cinco andares. Se é no meio que fica a virtude, então este prédio é a excepção. Não me considero nada virtuoso! Rodo a chave na fechadura da porta do hall e entro no prédio. Subir os degraus do prédio é igual a compor uma melodia. Cada qual tem um chiar diferente, distinto, quase melódico. Sabemos sempre quem sobe e desce as escadas do prédio. É uma questão de apurar o ouvido e decompor as árias.

Se os degraus chiam notas graves, quase sofredoras, é a D. Alberta que vai até ao café. Esta pequena baleia de 106kg mora no 4º andar esquerdo, é viúva há quase 20 anos e, por isso, acha tudo o que tenha a ver com sexo nojento. Cada vez que me vê benze-se três vezes e murmura algo, que suponho ser uma reza. Não sei porquê, mas dá-me prazer piscar-lhe o olho e ver as gordurinhas do pescoço vibrarem de horror.

Já quando os degraus chiam suaves, quase inaudíveis, é a menina Helena que sobe até ao 5º andar direito. É professora de Filosofia, tem 45 anos, nunca casou, mas tem um caso com o padre novo da paróquia. Refugia-se no mundo de Descartes e de Hegel para fugir ao mundo dos vivos. Já pensei em seduzi-la, mas para isso teria que ler mais do que apenas a “Dica da Semana”.

No 5º andar esquerdo não mora ninguém e no 4º andar direito mora um casal de reformados que raramente desce as escadas. Não sei que sons farão eles, mas isso não me preocupa muito. No 3º andar tenho por vizinho o Simão. Estudante universitário, com seis ou sete matrículas, não leva uma vida muito diferente da minha.

Vive para o prazer, mais do que para o estudo. Um destes dias acontecerá um momento em que a sua consciência despertará, mas até lá é o seu corpo que goza o dia-a-dia. Aposto que a esta hora está a dormir, meio bêbedo, meio ganzado e com uma ou duas tipas enroladas nas suas pernas. As coisas em que penso enquanto subo os degraus do meu prédio.

Meu? Desde quando o prédio é meu? Prefiro não perder tempo a pensar no que pensei. Rodo a chave e com um ligeiro chiar a porta abre-se. Não é propriamente um loft, mas serve para as minhas parcas necessidades. A cama que está no meu quarto é mais as vezes em que serve de poiso para roupa, do que as vezes em que recebe a visita do meu corpo.

Posso dizer que casei com a minha cama. Um daqueles casamentos com 40 anos de existência. Continuo a minha vida sexual por fora, porque sei que a cama estará lá sempre para me receber. A cama, só ela e a água dos chuveiros da Cidade, ser-me-á sempre fiel. Apetece-me comer qualquer coisa. Abro a porta do frigorífico e deparo-me com a desilusão de ser tão desorganizado.

Restam-me três ovos, duas fatias de queijo bolorento e uma coisa verde que há uns meses atrás deve ter sido uma alface. Se houvesse um Sindicato Nacional do Bolor eu seria nomeado Benfeitor, tantas são as vezes que deixo a comida ganhar barbas brancas e manchas verdes. Paciência, tenho que me contentar em fazer uma omeleta e deitar o resto da comida fora.

Ligo o plasma para ver o que dá na televisão. Talk-shows matinais, uma pequena e tão reconfortante praga. São sempre a mesma coisa: estórias tristes, músicas soturnas, heróis vulgares, lágrimas, aplausos, conselhos da anfitriã, mais lágrimas, uma pequena surpresa, alguns sorrisos, mais memórias, novo assalto das lágrimas e fim da emissão. No dia seguinte mudam-se os figurinos, repete-se o guião.

Tento escutar a estória de hoje. Uma mulher violada pelo pai e pelo irmão, lá vêm as lágrimas a rolar pela face balofa da senhora. Diz que passou fome, mas está mais inchada do que os meus peixes. O público comove-se, a anfitriã pede justiça, consciente de que ninguém fará nada. O público rejubila, a anfitriã oferece flores à convidada e, como se nada fosse, sorri e oferece dinheiro num passatempo.

O óleo já canta na frigideira. Despejo os três ovos e misturo-lhes umas pedrinhas de sal. Gostava de saber se os ovos têm consciência do que lhes acontece? Será que sabem que só existem para ser comidos? E agora que penso nisso, eu sou um ovo. Sou um ovo diferente, servido no final da refeição, mas continuo a ser um ovo. Será que no final de contas não sou Noivo por Um Dia, mas sim um Ovo?

Inquieta-me a ideia. Será que me deixo consumir dia atrás de dia, como os ovos que vão ganhando consistência no centro da frigideira? Serei apenas um produto gourmet a usar em certos dias? Tento rejeitar a ideia, enquanto o talk-show vai para o intervalo. Não cresci para me tornar um Ovo. E contudo, pouco mais posso reclamar... Também duvido que tenha crescido para ser o que sou hoje. Em algum momento perdi o sonho de ser astronauta ou cantor. Quando terá sido?

Astronauta! Devia ter uns quatro anos quando pensei pela primeira vez em ser um daqueles senhores que vestiam roupas grandes e andavam aos saltinhos pela lua. Até decorei o meu quarto com posters de filmes sobre o espaço. Na altura pensava que bastava querer para ser! Depois, não sei por que razão, desencantou-me a ideia de ir até pertinho da moradia d’Ele. Num certo momento, que nunca serei capaz de identificar, senti que já não me seduzia a ideia de andar aos saltinhos no Espaço.

Andei uns meses sem vocação. Nada de grave, quando somos crianças podemos não querer ser nada. Até acho que era melhor proibirem-nos de sonharmos, com o que vamos ser anos mais tarde! Facilitava tanto as nossas opções! “Tem jeito para Medicina, Sr. Luís”, diz alguém experiente, a alguém com vocação, “Mas o meu sonho é ser Designer de Moda” e perde-se um bom médico, por culpa de um sonho de criança. Era melhor que se proibissem os sonhos do tipo “Um dia eu vou ser”!

Quando vim de um concerto decidi, no alto dos meus nove anos, que queria ser como aquele cantor. Queria andar em concertos, festas, flashes, gente em histeria. Isso sim era uma profissão de valor. Um ano depois já treinava nas festinhas de karaoke e um dia descobri que os cantores tinham que ter talento e dedicação; que as festas e os flashes eram 10% da carreira. E ser cantor deixou de ser uma prioridade.

Acabei sem sonhos. Entre os 10 e os 17 anos não sonhei em ser nada. Fiz tudo o que os adolescentes fazem: praticava desportos colectivos com os meus amigos, saía à noite, namoriscava, traía quem namorava comigo, bebia, refilava com os meus pais, tirava más notas, dizia que ninguém me compreendia, fingia estar revoltado com um governo que desconhecia por completo.

[Continua...]


Thursday, July 23, 2015

A obra nasce...

Um autor nunca é dono da sua obra. Esta é uma das primeiras coisas que aprendemos a aceitar quando escrevemos e partilhamos aquilo que escrevemos. Isto porque apesar de sermos os autores, os criadores de algo, esse algo só se realizará quando for lido por outrém e por isso a obra não é nossa (do autor) mas de quem a lê, porque lhe dará sentido...

Ontem na Biblioteca Municipal António Botto lancei, por fim, a minha primeira obra de literatura científica: "O Confronto dos Projetos Nacionais no Cáucaso Norte", com a chancela da Nota de Rodapé Edições. A obra, agora em livro, resulta de se transpor para livro o trabalho de quatro anos de Doutoramento. A obra resulta de querer partilhar o que fiz e não guardar conhecimento numa prateleira.

E foi isso que retive da sessão de lançamento! Um momento de partilha. Convidei o Professor Alves Jana para fazer a introdução da obra e do autor. O resultado não poderia ter sido melhor: provocador, arrebatador e cativante. A obra foi sendo apresentada como um ponte entre o que o autor agora sabe e o que leitor pode ficar a saber. A obra foi apresentada como um meio e não como um fim. E enquanto era apresentada a obra nasceu.

Enquanto ouvia o Professor Jana falar sobre o livro, que pôde ler de antemão, e falar sobre o autor (eu, portanto!) lembrei-me das inúmeras tardes e noites em Oeiras, rodeado de livros e de dossiers, com latas de Red Bull numa prateleira e uma chávena de chá noutra... Ao ouvir aquelas palavras lembrei-me dos sorrisos nos pequenos avanços (mais um parágrafo! Hurray!) e nas lágrimas dos bloqueios e dos recuos.

E enquanto ouviu aquelas palavras tomei consciência de que a obra transpõe o Cáucaso Norte, não apenas pela abordagem teórica que permite uma transferência de conhecimentos para outras geografias, mas porque a obra é Caúcaso + Tiago. A obra não oferece apenas uma análise, muito menos oferece A análise, sobre o Cáucaso... Oferece a análise que o Tiago pode fazer, num determinado tempo.

E enquanto ouvia aquelas palavras percebi que não era simplesmente a obra que nascia, era eu que me completava um pouco mais. E depois ouve aplausos... E a palavra passou a estar do meu lado. Deixei de ouvir para falar. E o que era para ser uma apresentação de uma obra, da minha obra, tornou-se numa simpática soirée em que o Cáucaso se alargou.

E entre perguntas e respostas, num diálogo que mostrou como a obra não era, desde aquele momento, apenas minha, lá apareceu a complicada Ucrânia, e o mais distante Turquemenistão. Lá demos um saltinho até ao Médio Oriente e depois um pulo até ao Norte da Europa. E assim, sem pretensões de grandeza e num ambiente de pontes e de conhecimento partilhado a obra nasceu!

Obrigado a quem esteve presente e a quem não esteve, mas queria ter estado, obrigado também. E agora é tempo de pensar na segunda obra científica e talvez olhar de novo, e com afinco, para as obras literárias que tenho guardado (num exercício de egoísmo confesso) apenas e só para mim. É altura de as dar aos seus donos...


Wednesday, July 22, 2015

Burundi e as eleições que não elegem: confirmam!

Existe uma tendência generalizada para se equacionar democracia com eleições. E se é verdade que o dispositivo eleitoral permite a renovação tão necessária aos sistemas democráticas, não é menos verdade que as eleições são apenas uma das ferramentas dos sistemas democráticos. A supremacia da lei é, neste sentido, outro pilar central e crucial dos regimes democráticos.

Ora equacionar eleitoralismo com democracia leva a travestismos sistémicos, que apenas iludem quem se quer deixar iludir. É deste tipo de democracia-travestida que temos vários exemplos na Ásia Central e também em África, como é o caso do Burundi que teve ontem a eleição presidencial, dois meses após ter realizado eleições legislativas.

As eleições presidenciais no Burundi revestiram-se de polémica desde o começo com o Presidente Pierre Nkurunziza a avançar para um terceiro mandato presidencial, que a Constituição do Burundi proíbe mas que o Tribunal Constitucional do Burundi autorizou. Ora quando a lei é "lida" com uma intenção, que não a intenção plasmada na mesma, está visto que a democracia padece de maleitas...

O Presidente Nkurunziza intrepreta a lei como dizendo que o Presidente está limitado a dois mandatos eleitos por voto popular (algo que a Constituição não menciona). Os opositores dizem que a lei fala simplesmente na impossibilidade de se ficar no poder por três mandatos consecutivos... Isto porque, faça-se o devido contexto, Nkurunziza chega ao poder em 2005 por voto do Parlamento e não pelo voto popular...

As eleições, que tiveram menos de 75% de taxa de participação (73,44%) e que deram ao Presidente Nkurunziza quase 70% dos votos (69,41%) mostraram o privado da vontade política do Presidente sobre o sistema político a que preside. As eleições mostraram que transfigurar democracia num mero exercício de travestismo eleitoral potencia situações como a do Burundi.

As eleições mostraram também, como também o tinham feito as legislativas, um país em estado de alta tensão com a classe política, a elite económica e as chefias militares em competição permanente. No meio perdem-se vidas; acontecem jogadas e golpes mas depois, como se fazem as ditas eleições, pode dizer-se ao mundo que "a Democracia mora aqui". E, mais incrível, a comunidade internacional engole todo este teatro de parca qualidade...

O Burundi fica assim pronto para um novo período governativo, com um Parlamento e um Presidente validados pelo voto popular, que começa marcado por fortes tensões e por algumas mortes, que deixam antever como a democracia travestida degenera em sangue e infelizmente levam o Fidalgo a esperar o pior... Espero daqui a uns meses não estar a escrever de novo sobre o Burundi! Veremos caro leitor, veremos...


Saturday, July 04, 2015

Tupou VI e o milenar Reino do Tonga

O Reino do Tonga assistiu ontem à glamorosa cerimónia de coroação do Rei Tupou VI. O acto de ontem foi (na verdade) apenas uma (algo tardia) confirmação simbólica do desempenho de funções de Chefe de Estado que o Rei Tupou VI começou a 18 de Março de 2012, após a morte do seu antecessor o Rei Jorge Tupou V.

E porque interessa isto ao  Fidalgo? Para começar, para um monárquico convicto como o Fidalgo qualquer entronização é sempre motivo para festejo. O respeito pelos símbolos da Nação, a preservação da memória e a ideia de que existe continuidade são pilares essenciais dos regimes monárquicos. Isso e um amor do/a Chefe de Estado pelo povo, que muitas Repúblicas não conseguem entender...

O Reino do Tonga é um arquipélago composto por 177 ilhas, das quais mais de 50 não são habitadas. O Tonga, apelidado por James Cook como "As Ilhas Amigáveis", é um dos poucos Estados no Pacífico que nunca perdeu a soberania para qualquer potência estrangeira. No Sudeste Asiático somente a monárquica Tailândia se pode gabar do mesmo.

Vamos lá a um pouco de História. O Tonga unificado existe apenas desde 1875, quando o Rei Jorge Tupou I subiu ao trono, começando a dinastia Tupou. Antes desta dinastia três outras dinastias já antes tinham ocupado o trono, que não fica sem candidato desde, pelo menos, o século X. Isso mesmo, mais de 1000 anos de continuidade.

Antes da dinastia Tupou, o trono do Tonga encontrava-se nas mãos dos Tuʻi Kanokupolu. Esta dinastia governou o Tonga desde o começo do século XVII até meados do século XIX. Só depois Jorge Tupou I subiu ao trono, operando uma unificação complexa do Tonga, que então mergulhara num clima de guerrilha civil maquinada pelas potências estrangeiras: Reino Unido e Países Baixos.

Tuʻi Kanokupolu chegam ao poder com a queda dos Tuʻi Haʻatakalaua. Esta dinastia chega ao poder do Tonga por volta de 1470 até finais do século XVI. O primeiro monarca dos Tuʻi Haʻatakalaua chega ao poder para vingar a violenta morte do seu paí, último líder dos Tu'i Tonga. Na transição do século XVI para o século XVII assiste-se a uma transição de poder, nem sempre pacífica, de uma dinastia (Tuʻi Haʻatakalaua) para a outra (Tuʻi Kanokupolu).

A primeira dinastia do Tonga é então a Tu'i Tonga, da qual existem registos que datam desde o século X até à transição operada em 1470. Este é o período do Império Tonga! Curiosamente, o primeiro Rei da segunda dinastia (Kauʻulufonua I) era filho do último Rei da primeira dinastia (Takalaua), o que leva alguns historiadores e entusiastas (como o Fidalgo) a dizer que as duas dinastias são na verdade uma.

Mais! O último Rei da segunda dinastia e o primeiro Rei da terceira dinastia eram irmãos, o que, uma vez mais, mostra continuidade na linhagem real. E o primeiro Rei da quarta dinastia (George Tupou I) é filho do penúltimo Rei da terceira dinastia (Tupouto'a). Ou seja, existem laços de consanguinidade nos governantes do Tonga que vão desde o século X até ao século XXI.

Isso por si só não chega para provar o valor de algo, bem sei, mas traduz bem esta noção de continuidade. Os governos cumprem a noção de governos temporais, limitados, com poder governativo no curto e médio-prazo. Mas o Rei é o guardião do Passado e o garante do Futuro; aquele que consegue planear a longo-prazo, porque está acima do jogo político. 

O novo Rei do Tonga celebra esse encontro do Passado e do Futuro. O novo Rei representa uma linhagem milenar, que se estende por quase onze séculos e ao mesmo tempo já anunciou que o arquipélago se prepara agora para um necessário período de aprofundamento da democratização do regime, que passará a ser uma Monarquia Constitucional Parlamentar.

O novo Rei do Tonga permite aos tongoleses uma certeza de que fazem parte de uma comunidade com continuidade multissecular. É um garante de tradição e de certeza, num mundo cada vez mais repleto de incertezas e em que tudo se parece mover cada vez mais depressa. Longa vida ao Rei do Tonga e, quem sabe, um destes dias poderemos dizer o mesmo em Lisboa...