Saturday, November 28, 2015

Os protestos de Pristina e a nudez do projecto Kosovo

O Kosovo é um estado falhado. Não existe razão para o Fidalgo moderar as palavras, quando a verdade é por demais evidente. Os protestos que hoje abalaram as ruas de Pristina são apenas o culminar de um projecto que nasceu para falhar, porque se instrumentalizou o "Nós" (Kosovares) contra um "Vós" longínquo (Rússia).

O Kosovo tem a sua raison d'être numa compensação pelo etnocídio sofrido pelos Kosovares, cometido pelas mãos das tropas de Milosevic, no decurso da Guerra dos Balcãs. Em 2008, o Kosovo declarou (sabendo que contava com o apoio de Washington!) a sua independência de modo unilateral. Em 2015 pouco mais de 55% dos Estados-membro da ONU reconhecem essa mesma declaração.

O Kosovo foi criado com triplo intento: 1.) dotar a OTAN com um aliado na região, servindo o Kosovo de desculpa para se aliciar a Albânia (a mesma Albânia que no seu projecto nacionalista sonha, a prazo, "engolir" o Kosovo); 2.) enfraquecer a Sérvia, maior aliada de Moscovo nos Balcãs; 3.) minar o soft power da Rússia na região.

O problema é que se os Kosovares se uniram no momento da declaração unilateral de independência, logo se desuniram no momento seguinte. Com uma economia paupérrima, com um governo impreparado e com uma situação social explosiva, o Kosovo tem falhado em se revelar o paraíso pró-Kosovar que era suposto ser.

O problema de se construirem Estados, de modo artificial, e apenas por justificação negativa é que a manutenção da animosidade torna-se na prioridade central. Ora as actuais investidas da Europa da União, para que a Sérvia e o Kosovo cheguem a bom termo, tinham que degenerar em protestos massivos nas ruas de Pristina e em violência verbal e física.

O Partido pela Auto-Determinação do Kosovo já percebeu que os kosovares estão pouco interessados em dialogar com os sérvios, da mesma Sérvia da qual declararam, há menos de dez anos, a cessação. Só a boa-vontade extrema, para não dizer estupidez, de quem vive entre os gabinetes de Bruxelas e Washington para achar que a aproximação seria um processo simples.

Este é o mesmo Kosovo que ainda não conseguiu delimitar as suas fronteiras com a vizinha Macedónia; o mesmo Kosovo que ora aplaude a Europa (quando a mesma "ataca" a Sérvia), ora a crítica de cinismo (quando a mesma não "ataca" a Sérvia); o mesmo Kosovo que protesta sempre com estandartes vermelhos e pretos, mas tem azul e dourado na sua bandeira...

Este é o Kosovo que já foi advertido não uma, não duas, mas várias vezes pela EULEX para refrear o nacionalismo exclusivista e de retórica violenta, que em nada contribui para a construção de pontes de entendimento entre Belgrado e Pristina. Mas se este é o mesmo Kosovo de 2008, a Sérvia essa mudou muito nos últimos anos.

Esta não é a mesma Sérvia dos anos 1990. A Sérvia soube reconstruir-se após a implosão sangrenta da Jugoslávia e é hoje um estado relativamente pacífico, se tivermos em conta o caos na Macedónia, o falhanço do esquisso institucional da Bósnia-Herzgovina, a debilidade no Montenegro e a fragilidade na Bulgária.

Esta é a Sérvia que conseguiu travar a adesão do Kosovo à UNESCO, quando Israel não conseguiu travar o mesmo para com a Palestina. Esta é a Sérvia que manteve laços diplomáticos com a Rússia e a Rússia é talvez o maior vencedor da geopolítica mundial dos últimos três anos. Esta é a Sérvia que dialoga com Bruxelas com prudência, sem as exaltações barrocas de Ancara.

Os protestos que hoje abalaram Pristina são, em bom rigor, uma confirmação do extraordinário fracasso de um país com apenas um aliado próximo, que o quer "engolir"; com uma economia depauperada; com uma população jovem em fuga para as várias capitais europeias; com um problema de legitimidade que legitima o que agora outros fazem. Há que repensar o Kosovo... e ontem já era tarde!

Saturday, November 14, 2015

Notas sobre os atentados de Beirute e de Paris

É triste acordar com más notícias numa manhã, é mais triste acordar com más notícias em duas manhãs seguidas. Acordei ontem (Sexta-Feira 13) com a notícia dos 43 mortos em Beirute, no Líbano. 43 vítimas de dois bombistas suícidas que deixaram ainda um rasto de destruição e mais de 200 feridos.

E hoje acordei (por volta das 07h45, 02h45 em Portugal) com as notícias dantescas de mais de 120 mortes na bela cidade de Paris. O choque que senti roubou qualquer réstia de sono. Enquanto tomava o pequeno-almoço Daesh reclamava a autoria dos ataques, tal como clamara a autoria dos ataques em Beirute.  Não abri logo o Fidalgo, para não escrever imerso em medo. Aguardei...

Os ataques tanto em Paris como em Beirute, porque as vidas orientais valem tanto quanto as vidas ocidentais, são tragédias que mostram o pior do extremismo religioso. E neste caso de um extremismo religioso com características muito próprias, que explicam a natureza dos ataques e das acções levadas a cabo pelo Daesh.

O Daesh é composto, maioritariamente (mas não apenas) por seguidores do Wahhabismo, um movimento Sunita fundamentalista, ultraconservador e que está na origem da formação do reino da Arábia Saudita. O Wahhabismo é a doutrina dominante na Arábia Saudita, patrocinada pela Família Real que deve, em larga escala, a sua subida ao poder aos seguidores deste movimento sectarista.

Para além de todas as questões teológicas que envolvem este corrente islâmica (que se centra na ideia da Unidade ou Singularidade de Deus), o Wahhabismo deve também ser visto como uma resposta-reacção ao Imperialismo Europeu e ao Cosmopolitismo Otomano (Turco). E é neste ponto que, tem em crer o Fidalgo, se encontra a raíz dos ataques dos últimos dias.

É sempre mais simples ligar eventos que já aconteceram e entender o padrão quando o mesmo está já estabelecido, mas essa é uma limitação da condição humana. Podemos analisar o que já foi, o que já aconteceu, e não o que será. Podemos, claro, tentar predizer o que será, mas nunca analisar a previsão que corre sempre o risco de não acontecer.

Beirute não foi escolhida ao acaso. Beirute, também conhecida como Paris Oriental, é o símbolo maior (no Médio Oriente) da sobrevivência do Cosmopolitismo de tipo-Ocidental e da capacidade de várias confissões religiosas viverem lado-a-lado. O Líbano, com todas as suas imperfeições e limitações, "pulveriza" a ideia de que muçulmanos, cristão, judeus, yazidis, zoroastras, mazdas e tantos outros não conseguem viver juntos. Conseguem sim!

Beirute é não só um desafio à lógica ultraconservadora e puritana do Wahhabismo, como é também uma lembrança perene do impacto transformador do Ocidente na região. Isto porque, o Daesh é antes de mais um movimento revisionista, que procura restabelecer a suposta supremacia da Civilização Islâmica da era dos Califados Omíada (responsável pelo estabelecimento do Al-Andalus) e Abássida.

Paris, por seu turno, tem dupla importância: centro do Cosmopolitismo Ocidental e capital de um Império Colonial que teve forte presença no espaço Islâmico. O ataque de hoje é uma prova de capacidade guerrilheira do Daesh ("tenham todos medo, que atacamos até em Paris!"), mas é também um acto de vingança histórica pelos anos do domínio Colonial.

O atentado em Paris prova que a ideia criada de que as Agências Secretas tudo sabem é errada e mostra as fragilidades de uma cidade, que já este ano tinha sofrido o preço da intolerância e do fanatismo religioso. O atentado de Paris prova que é preciso fazer mais, mas isso não implica (como muito acham!) que se deva bombardear mais; matar mais; destruir mais...

Não diz o Fidalgo que não se faça nada, que o diálogo seja a única forma de resolver este assunto (sendo, sem dúvida, a melhor forma de o fazer!), mas entre a necessidade de defesa e a barbárie para acalmar medos, preconceitos e a estupidez individual de certas pessoas vai uma longa distância. Se matarmos indiscriminadamente, com a desculpa de "haverá sempre vítimas" somos iguais ao Daesh.

Os atentados de Paris e de Beirute provam que a OTAN, se quer manter alguma relevância, precisa construir uma estratégia concertada, ou simplesmente seguir a acção iniciada por Moscovo. Em vez da manutenção da mentalidade Guerra Fria que parece dominar ainda em Bruxelas e Washington, na sua oposição vazia-mas-contínua a Moscovo, é preciso uma cooperação efectiva.

Não diz o Fidalgo, até porque seria errado, que a fórmula do Presidente Putin é a mais acertada, mas ao menos existe uma fórmula... Ao passo que do lado do Presidente Obama e seus aliados a prioridade parece ser condenar as acções de Moscovo, sem apresentar um plano alternativo ou sem propor uma parceria que emende e/ou atenue os erros e os excessos do belicismo de Putin.

Os atentados de Paris e de Beirute provam que a estratégia de Ancara, de usar o Daesh como desculpa e instrumento para exterminar os Curdos (os mesmos curdos que são aliados de  Washington!) é perigosa. Tão perigosa quanto a estratégia de Riade, de financiar o Daesh para combater o Irão xiita e a Turquia sunita (mas demasiado Ocidental).

Os atentados de Paris e de Beirute mostram que ou os vários Dr. Frankensteins param de alimentar o Monstro, ou o Monstro acabará por devorar os criadores. E o Fidalgo não fala apenas de Ancara e de Riade, porque Washington e Londres não estão menos isentas de culpa. Porque a solução poderia já ter chegado, se tivesse existido vontade para tal.

Os atentados de Paris e de Beirute não devem ser usados como desculpa para a xenofobia exclusivista, de quem acha que os males do mundo virão com os refugiados. De quem acha que os refugiados apoiam o Daesh, o mesmo Daesh que os transformou em refugiados para começar. A resposta ao Terror não deve ser a acção pelo medo, mas a promoção da tolerância.

Os atentados de Paris e de Beirute não devem ser usados como desculpa para o discurso alarmista e radical, que culpa o todo pela parte. Para quem, como o Fidalgo, se encontra a viver e trabalhar num país de maioria Islâmica (Paquistão), depois de ter vivido e trabalhado num país de maioria Islâmica (Turquia) é claro como a água que grosso-modo os muçulmanos, como os Cristão e os Judeus, são pela Paz, pelo Amor e pela Justiça.

É mais fácil culpar o que não se conhece, o diferente, o que não é como nós, mas lá por ser mais fácil não é mais certo. Se sucumbirmos ao medo, o Daesh vence. Se reagirmos ao Terror como Terror, o Daesh vence. Se respondermos à Violência com Violência, o Daesh vence. Mais do que responder, urge pensar antes de responder. Afinal é tão mais fácil replicar, do que resolver...

Monday, November 02, 2015

Turquia e a meia vitória, para o meio Sultão?

A Turquia foi a votos para eleger os 550 deputados do seu Parlamento, pela segunda vez este ano. O país foi chamado a escolher de novo os seus representantes, depois do desaire das eleições de Junho de 2015 que tiraram ao AKP a maioria absoluta (276 mandatos), com a perda de 53 mandatos, passando o AKP de 311 para 258 mandatos.

As eleições de Junho revelaram que a prolongada estadia no poder, em situação de completo monópolio, instalou no AKP uma série de vícios que tornaram praticamente impossível a prática da negociação. Para o Primeiro-Ministro Ahmet Davutoğlu negociar implica impor ideias, que os demais deverão seguir sem grande contestação.

O AKP vencera as eleições de Junho de 2015, mas o Presidente Tayyip Erdoğan não quis perceber que não existia mais maioria absoluta e não agiu como facilitador do diálogo, muito pelo contrário. Por vezes, com as devidas diferenças, o residente do faustoso palácio de Ancara lembra ao Fidalgo o residente do belo palácio de Belém... Curiosidades, claro está!

As eleições de Novembro devolveram ao AKP a maioria absoluta, mas a vitória teve um travo amargo. Comecemos, contudo, pela vitória. A reconquista dos 53 mandatos perdidos (com adição de 6 novos mandatos) deu ao AKP uma maioria de 317 deputados, feita maioritariamente às custas do esmagamento dos nacionalistas do MHP.

A retórica belicista, com instrumentalização do medo, contra os Curdos e contra uma estranha aliança de forças internacionais (Erdoğan acredita existir uma aliança de forças pró-Helénicas [gregos e cipriotas], pró-Arménia, pró-Israel, pró-Irão, pró-Daesh, pró-LGBTI contra Ancara) agradou ao eleitorado do MHP. Devlet Bahçeli (líder do MHP) é o maior derrotado da noite passando de 79 deputados para apenas 40 e perdendo quase 4,4% do eleitorado.

O HDP também penou na noite de 1 de Novembro. Se em Junho tinha elegido 80 deputados com uns confortáveis 13,1%; agora ficou-se pelos 59 deputados com um resultado tangencial de 10,7% (tendo em conta a barreira-voto de 10%, imposta pela lei eleitoral turca, em vigor desde o escrutínio de Junho de 2015). Os 21 deputados "perdidos" terão sido convertidos quase todos em mandatos para o AKP.

O HDP perde muito do voto que alcançara nos grandes centros urbanos, como Ancara, Istambul e Izmir, voltando a ser um fenómeno das províncias orientais. É de resto curioso notar que enquanto o MHP perde o controlo do distrito do Osmaniye para o AKP e o CHP perde os distritos de Mersin, Eskişheir e Çanakkale para o AKP ("roubando" contudo, ao AKP, o distrito de Aydın), o  HDP não perde nem ganha qualquer novo distrito.

A noite eleitoral revelou ainda a estabilidade do eleitorado do CHP, com uma flutuação de votos abaixo dos 0,4% e com a magra conquista de mais três mandatos. O CHP, contudo, contestou já, pela voz do seu líder Kemal Kılıçdaroğlu, a desigualdade com que os partidos se defrontam nos escrutínios eleitorais da Turquia sob a égide do AKP. A Europa da União, até ao momento, pouco ou nada disse...

O Presidente Erdoğan recuperou o monopólio do poder, pois ninguém sério acredita que os destinos do país estão nas mãos do Primeiro-Ministro, mas falhou, pela segunda vez, o intento de passar os 330 mandatos necessários a uma revisão da Constituição.

Isto porque Erdoğan acredita que o parlamentarismo não serve mais a Turquia, que precisa de um sistema presidencial e, espante-se o leitor, com ele como Presidente... No processo de transformação política, Erdoğan não esconde o desejo de islamizar a Turquia destruindo um dos pilares centrais do Republicanismo de Atatürk: a secularidade do Estado.

Pequena nota histórica: Atatürk atribuía ao multiculturalismo e à não separação das esferas político-religiosas o fracasso do Império Otomano. O seu programa de transformação do país passou por um secularismo agressivo, algo similar ao secularismo da I República Portuguesa, e por uma ênfase na Turquicização da  Turquia, pela construção exacerbada de um ethos nacional exclusivista e tendencialmente xenófabo.

Erdoğan não o diz, sabe que não o pode dizer, abertamente em público, mas vê-se como uma espécie de Atatürk 2.0, ou para ser mais claro como um anti-Atatürk já que tem em mente reverter muitas das iniciativas do "pai" da República da Turquia. O ano passado até a re-introdução do alfabeto otomano (com caracteres perso-árabes) veio à tona... Erdoğan sofre do síndrome do Sultão-tímido.

Construiu para si um monumental palácio com pelo menos 1150 quartos, a que se soma um "anexo" para usofruto da família do Presidente com 250 quartos; chamou a si a prerrogativa de governar o país; criou um verdadeiro culto da imagem, com o seu nome a figurar em cartazes, muppies e a ser o tema dos hinos do partido...

Fez tudo isso mas não teve a coragem, nem tem a legitimidade, de se auto-proclamar Sultão. E como Erdoğan continua a querer sultanear, sem poder ser Sultão, quer servir-se do sistema Presidencial pois é the next best thing.

Nos entretantos demoliu os pilares da frágil democracia na Turquia, com raides a órgãos de comunicação; perseguições que roçam o paranóico e o congelamento do processo de paz. Erdoğan não tem problemas em apontar o dedo às "forças externas" e parece viver ainda numa continuação-continuada-e-a-continuar da Primeira Guerra Mundial...

Davutoğlu, o tal Primeiro-Ministro que é mais Segundo do que outra coisa, já veio defender hoje da necessidade de se transformar o sistema parlamentar na Turquia, num sistema Presidencial. O facto dos turcos lhe terem negado isso mesmo parece contar pouco... Erdoğan quer uma Turquia presidencial. Erdoğan terá uma Turquia presidencial...

Alguma coisa o secundário Primeiro-Ministro terá que fazer bem, depois do fracasso da sua política externa que hostilizou os parceiros OTAN; que congelou, por muito que se façam promessas vãs, as negociações de adesão da Turquia à UE; que transformou o soft power e prestígio da Turquia no Médio Oriente em hostilidade e animosidade. E isto de alguém que antes de ser Primeiro-Ministro fora Ministro dos Negócios Estrangeiros.

As eleições na Turquia terminaram na noite de 1 de Novembro, mas terão reflexo nas semanas seguintes numa Turquia em clima de pré-guerra civil (com a tensão das minorias curdas, alevis e arménias a subir de tom), quase sem aliados nas suas fronteiras (sobrando o periclitante e também tenso Azerbaijão e a frágil Bulgária) e com poucos aliados externos (com Washington em divórcio, Bruxelas descontente e Moscovo desconfiada).

Friday, October 23, 2015

Eleições Legislativas III: A minha estabilidade vale mais do que a tua...

Não ouvi o discurso do Presidente da República em directo, porque o fuso horário não ajuda nestas coisas. Mas li-o, três vezes. A primeira vez para saber o que tinha dito o actual residente de Belém; a segunda vez para perceber se ele tinha mesmo dito, o que eu tinha lido antes; a terceira vez para "cair em mim". E confesso que fiquei tentado a uma quarta leitura...

É conhecido o desprimor que tenho por Cavaco Silva, enquanto Presidente da República. E por isso tenho sempre a tendência para ver em tudo o que diz, faz, pensa, planeia motivo para crítica cerrada e para apontar o dedo. Mas desta vez, estou em crer, mesmo que o actual Presidente me fosse indiferente teria que reagir com asco e desagrado ao que li; ao que li três vezes, tal não foi o meu espanto.

Ao Presidente da República cabe a poder de indigitar o Primeiro-Ministro. Ninguém lhe nega isso. Mas deve fazê-lo, diz o artigo 187º, tendo em "conta os resultados eleitorais". Ora esses resultados deram, de facto, vitória à coligação "Portugal à Frente", mas criaram ao mesmo tempo um quadro parlamentar dominado por partidos de centro-esquerda e esquerda.

O Presidente optou por olhar apenas para um dos lados da equação, como de resto está no seu direito, mas depois meteu as "mãos pelos pés" e atrapalhou-se. Escolher a coligação para formar governo, enquanto vencedores das eleições, tem a sua legitimidade, mas tentar fundar essa legitimidade com base na descredibilização das demais forças políticas é algo que estranho e muito.

O Presidente da República, diz a Constituição com muita clareza, está a cima do jogo político partidário e deve por isso representar TODOS os portugueses. Ora o discurso de Cavaco Silva apenas representa aqueles que concordam com a sua visão de como as coisas devem ser feitas. Afinal Cavaco sempre achou que nunca se engana, nunca erra e raramente falha.

O discurso do Presidente da República, para o Fidalgo claro está, foi mais uma diatribe irada pelo falhanço dessa ideia supremacista e não-democrática do "arco da governação". Em verdadeira e substantiva democracia todos os partidos, aos olhos do Chefe de Estado e demais órgãos de soberania, valem o mesmo. Que alguma direita não entenda isto, é problema exclusivo dessa direita.

Numa democracia madura e consolidada não existem "partidos de primeira linha" e partidos de "retaguarda". Até porque ao submeterem-se ao escrutínio eleitoral, balizado por uma Constituição, todos os partidos aceitem à priori certas regras do jogo. E se os comentadores, analistas e leigos podem e devem comentar a natureza das opções políticas de cada partido, essa opção está vedada ao Presidente.

Enquanto árbitro do jogo político, o Presidente deve tentar sempre agir com o interesse do país (no seu todo) em mente e não apenas olhando para o interesse de uma parte do país em desprimor de outra parte. Se é verdade que a coligação de Direita venceu as eleições, não é menos verdade que quase 1/5 do país deu o seu voto a uma outra visão, a que Cavaco Silva ontem tirou (sem direito para tal!) legitimidade governativa.

Cavaco Silva, o homem, tem naturalmente preferência e opções suas; mas Cavaco Silva, o Presidente, devia evitar que as mesmas toldassem as suas atitudes. O problema, contudo, é que Cavaco Silva, o Presidente, sabe que Cavaco Silva, o homem, está revestido de um glória celestial que o impede de errar e por isso não existem filtros, barreiras e cuidados de maior...

Cavaco Silva confirmou que é menos Presidente e mais Relações Públicas do país. Diz Cavaco que é seu "dever, no âmbito das minhas competências Constitucionais, tudo fazer para impedir que sejam transmitidos sinais errados às instituições financeiras, aos investidores e aos mercados". Achava o Fidalgo que o dever do Presidente, era presidir aos destinos do Estado dos portugueses. Mas o Fidalgo enganou-se...

Cavaco vai um pouco mais longe e assume que receia "muito uma quebra de confiança das Instituições Internacionais nossas credoras, dos investidores e dos mercados financeiros externos". Mas não receia uma quebra de confiança do 1/5 de portugueses que ostracizou com o seu discurso, ou dos mais de 50% de portugueses que não deram o seu voto para que o Primeiro-Ministro não mude. Os credores primeiro, os mercados segundos e quiçá, depois, os portugueses!

O discurso de Cavaco Silva acaba, curiosamente, por ser falacioso. Porque ao frisar tanto a necessidade de estabilidade, acaba por enveredar por uma prosódia polarizadora e incendiária, que em nada contribuirá para a estabilidade. E se a lógica é forçar a Esquerda a derrubar governo, criando instabilidade que depois será imputada a essa mesma Esquerda então não temos Presidente, mas aluno de Maquiavel...

Ou o Presidente da República acredita mesmo que apenas esta Direita, formatada pela sua mão, tem capacidade de criar estabilidade no país? É isso? A Esquerda está, portanto, condenada ao papel de Nero e a Direita ao de Julius Caesar? É que o segundo de tanto salvar a República, acabou por estrangular a mesma.

Corolário de um discurso triste, que mostrou que existe tanta Democracia para tão pouco Democrata, foi a tirada de "sigo a regra que sempre vigorou, repito, que sempre vigorou na nossa democracia: quem ganha as eleições é convidado a formar Governo". Não é Regra senhor, é prática, de praxis, de hábito repetido e continuado. Regra é tudo o que está na Constituição e nela não vigora este princípio.

Dizer que se faz assim, porque em 40 anos nunca se fez sem ser assim é argumento fraquinho. Talvez para adensar e consolidar o processo de transição democrática, ainda em curso em  Portugal, seja preciso fazer menos vezes "assim" e mais vezes "assado". A matriz da Democracia, afinal, é delimitada pela Constituição sem ser condicionada pela ritualização de certas práticas. Ou não são as crises "janelas de oportunidade" para inovar? Não foi isso que já disse antes, Sr. Presidente?

Efeito curioso, e potencialmente inesperado, do discurso do Sr. Presidente foi o de catalizar a união de um PS que aparece, nos media nacionais, dividido. A retórica belicista, de quem acha que só existe um caminho, porque a sua sapiência infinita lho diz e porque não queremos assustar credores (não eram parceiros?), acabou por sedimentar a união "do outro lado do muro", onde a mesma fraquejava.

Mais triste do que todo este exercício de oratória falaciosa, feito pelo Presidente, foi ler os comentários dos "Manuéis Normalinhos" para quem "isto era esperado"; "só isto podia acontecer"; "só isto iria acontecer". Quando temos do papel e da capacidade do Presidente da República uma visão tão redutora, tão espartilhada, talvez convenha questionarmo-nos da validade de termos um Presidente da República... mas isso fica para outro post!


Thursday, October 15, 2015

Eleições Legislativas II: Já olhou para a Europa democrática hoje?

O Fidalgo confessa que tem tentado ser paciente com uma série de comentários que tem lido, de opiniões que vomitam demagogia e tentam construir narrativas que apenas servem certos intentos. O que parece ao Fidalgo é que muito boa gente, afinal, entende pouco (se alguma coisa) sobre democracia.

Ora como já antes tentei explicar que imensa coisa pode acontecer, porque a Constituição o permite, porque as regras do jogo o permitem, porque é assim que a política em sistemas democráticos acontece, mas mesmo assim muita gente insiste em tentar deturpar palavras e "dobrar" a realidade então recorro a algo diferente...

Sabendo o Fidalgo do fascínio de Portugal por imitar, copiar, aludir e citar o que se passa "lá fora", então olhemos para o que em 2015 tem acontecido "lá fora". Como sou daqueles que acha que as comparações têm que ter limites decentes, de modo a não acabarmos a comparar "maçãs" e "orangotangos", fiquei-me apenas pelos exemplos da Europa, em 2015. Ora vamos lá...

As eleições parlamentares na Estónia realizaram-se a 1 de Março. Após as eleições o partido vencedor convidou outros partidos para rondas negociais, com vista a estabelecer uma coligação pós-eleitoral que garantisse estabilidade governativa. O documento final foi apenas assinado a 8 de Abril. O governo tomou posse a 9 de Abril

As eleições parlamentares na Finlândia realizaram-se a 19 de Abril. O partido mais votado começou diligências para formar uma coligação pós-eleitoral. Nas rondas negociais (e no governo) foram incluídos partidos eurocépticos e nacionalistas. As negociações entre as quatro forças políticas (de centro-direita, direita e extrema-direita) só ficaram concluídas a 29 de Maio.

As eleições parlamentares na Dinamarca aconteceram a 18 de Junho. Nessa mesma noite o partido mais votado anunciou que não faria governo, tendo em conta o cômputo geral dos votos. Coube ao terceiro partido mais votado a iniciativa de formar governo. Durante cinco dias o líder do Venstre tentou formar uma coligação pós-eleitoral, mas falhou o intento. Avançou para um governo minoritário com acordos de incidência parlamentar a 28 de Junho.

De onde vem este dramatismo desnecessário após apenas uma semana de negociações? Parece que está Portugal, como esteve a Bélgica, há meses sem governo. Dá para acalmar os ânimos, e perceber que as negociações para formação de governo naturalmente levam o seu tempo...  Antes uma negociação demorada, mas bem pensada, do que algo tosco feito para cair no primeiro tremelique...

Dá para parar com essa parvoíce de que "ninguém sancionou a coligação de Esquerda"? Para além de em 2011 não termos sancionado a coligação de Direita, o que a Europa nos mostra (e já agora fora da Europa também não faltam exemplos disso) é que uma larga maioria das coligações no poder são desenhadas após as eleições e não antes das mesmas.

Mas quem ganha é que vai sempre a governo: os dinamarqueses não diriam isso. E os anti-União Europeia não podem ir a governo: os finlandeses (e já agora os húngaros!) não diriam isso. Mas um dos líderes da Esquerda só quer é poder, poder, poder. Obviamente! Quem não quer conquistar poder, não vai a votos. Ou achamos que a manutenção da coligação de direita não almeja poder?

E já agora achar que os mercados financeiros têm em consideração as eleições em Portugal e o actual momento negocial é tão não verdade. Os mercados finaceiros, quando muito, olham para Bruxelas e mesmo que olhassem para o que se passa por Lisboa diria que "aos mercados o que é dos mercados e aos eleitores o que é dos eleitores".  A democracia ainda não está em bolsa. Nem pode estar...

Opiniões todos podemos ter, mas informação antes da demagogia parolinha também todos podemos ter. Podemos achar que a PaF fará melhor (ou pior); que a Esquerda afundará (ou levantará) o país; mas tudo isso são considerandos pessoais, que não devem toldar os argumentos racionais. Tenha lá a sua opinião, mas por favor evite o cliché, pelo cliché, ou o dizer, porque alguém disse. Tem um cérebro? Use-o...


Monday, October 12, 2015

Eleições Legislativas I: Democracia, maioria e pseudo-mitologia...

O Fidalgo, no seu exílio, sugerido, de resto, pelo ainda actual Primeiro-Ministro (não, meu caro, não é mito coisa nenhuma!) tem lido cada coisa que quase não acredita. Ao que parecem muito cidadão-eleitor criou mitologias sobre o sistema político e sobre o seu voto... E o pior, muita gente supostamente esclarecida alimenta tais mitologias.

As eleições Legislativas, como o nome tão bem indica, servem para eleger quem legisla... Ora sabendo que o poder Legislativo, em Portugal, cabe à monocamaral Assembleia da República, são os seus representantes (os deputados parlamentares) que o cidadão-eleitor elege. Lamento desapontar mas não se elegem, por sufrágio directo e universal, Primeiros-Ministros, ou Governos.

O que diz a Constituição, que de resto serve de "manual de instruções" de todo o jogo político, é que o governo emana da Assembleia da República, cabendo ao Presidente da República convidar o líder do partido, ou coligação partidária, com maior representatividade na Assembleia da República a formar Governo. Até aqui tudo entendido?

Não está escrito em lado nenhum, que as eleições Legislativas devem ser vistas como uma corrida de karts, em que quem chega em primeiro lugar vence. Tenham paciência... A essência da Democracia, seja ela Parlamentar ou Semi-Presidencial, não é essa. A essência da Democracia (demos = povo; cracia = governo) é portanto dar voz à maioria, sem esquecer, minorar ou rebater, a visão da minoria...

Quando a visão da minoria é esquecida e rebatida, seja por artifícios legais ou por recurso a violência estrutural, a Democracia torna-se em "Tirania da Maioria". É por culpa da "Tirania da Maioria", pela imposição de uma visão única, espartilhada, formatada, rígida, que muitos eleitores se desencantam com o sistema político e muitos optam mesmo pelo não-exercício do direito ao voto.

Apliquemos agora isto! Em 2011, no momento pós-eleitoral, o PSD (partido mais votado) e o CDS-PP (terceiro partido mais votado) coligaram forças para garantir uma maioria absoluta, que lhes desse um mandato menos turbulento, tendo em conta as medidas que tinham que aplicar. E, em especial, tendo em conta as várias promessas que teriam que rasgar na cara dos eleitores.

Em 2015 a hipótese de uma coligação eleitoral entre o PS (segundo partido mais votado), BE (terceiro partido mais votado) e CDU (quarto partido mais votado) que garantirá a mesma maioria absoluta parece levantar imensos celeumas. Ora tenhamos um pouco de mais honestidade intelectual. Porque se pode a Direita coligar em 2011, e a Esquerda não o pode fazer em 2015?

Adoro ver contas e continhas para servirem pseudo-argumentos: "Mas 90% do eleitorado não votou no BE e vão agora a governo?". Nessa óptica, lembra o Fidalgo, 63% do eleitorado também não deu o seu voto à coligação. E, sejamos honestos, o BE não vai sozinho a governo... Ora BE+PS somam 42,6% do eleitorado e se a isto somarmos o apoio da CDU (com entrada no Governo, ou por acordo de incidência parlamentar) falamos de quase 51% do eleitorado.

Falemos em deputados! 116 é o número mágico! Quando ainda falta atribuir quatro mandatos sabemos que a coligação de Direita conseguiu eleger 99 deputados. O PS+BE somam 104 deputados e se a estes somarmos os 17 da CDU: 121 deputados. Porque razão 121 deputados não podem sustentar um Governo, para que 99 deputados sustentem um outro Governo?

Argumento primeiro: porque ninguém votou numa coligação de Esquerda! Verdade. Mas ninguém votou numa coligação de direita e ela surgiu. Aliás a maioria das coligações que sustentam Governos por essa Europa fora são quase todos pós-eleitorais e não pré-eleitorais. Não podemos fazer comparações com o "Estrangeiro Civilizado" só quando nos interessa.

Argumento segundo: porque o BE e a CDU são anti-EU e anti-OTAN! Verdade. Mas o trabalho das negociações entre parceiros de coligação é mesmo esse; o de acertar "agulhas" e eliminar pontos contenciosos. Na Finlândia, só para dar um exemplo, os Verdadeiros Finlandeses (anti-UE) estão no governo e nem por isso Helsínquia aparece menos Europeísta.

Argumento terceiro: porque não votei em Costa para Primeiro-Ministro! Verdade. (Pausa para respirar fundo!) Nem em Costa, nem em nenhum outro, porque o seu voto é para os deputados e não para os líderes dos partidos. Se os media dão a entender que é para isso que o seu voto serve, a culpa é dos media (pela mensagem errada) e sua, caro/a leitor/a (por "engolir" o que os media dizem, como se fossem homílias dominicais).

Argumento quarto: foi com a Esquerda que a troika chegou ao país! Verdade. Mas se formos ao jogo das culpas então teríamos que tirar do poder PSD, PS, CDS-PP e deixar os demais partidos governar. A troika foi chamada por um governo PS, depois de erros cumulativos que não se restrigem a uma janela temporal tão curta. Afinal não foi um Primeiro-Ministro de Esquerda que, sabendo que o país estava de tanga, "fugiu" para Bruxelas...

Considerações pessoais sobre a competência deste, ou daquele, candidato mais não são do que extrapolações individuais. Os ódios de cada um, não devem ser matriz da opinião feita com seriedade. O Fidalgo sabe que a política tende a galvanizar o eleitor e, como no futebol, nem sempre a racionalidade fala mais alto. Mas, de quando em vez, tentemos isso...

O Fidalgo respeita também que para alguns cidadãos-eleitores possa parecer frustrante que a coligação do PaF, força política que, de facto, captou mais votos mas que, também de facto, foi única força a perder em percentagem de votos e em mandatos conquistados, possa formar Governo, mas a isso chama-se Democracia.

Quando vamos a umas eleições Legislativas, não podemos pensar que estamos numa corrida de 100 metros estafetas, em que ganha quem chega primeiro. Estamos sim a falar do somatório de vontades, sancionadas pelo voto popular, e 121 vontades parecem-me mais expressivas do que 99...


Sunday, October 11, 2015

Mais de 40 dias, menos de 45 noites

Verde... Uma imensidão de verde. Uma imensidão de folhas verdes que bailam ao sabor do vento. Vejo verde, neste dia em que o sol não brilha, e o calor não desarma. Vejo verde e castanho e cinza. Sorrio. Não sei se escrevo sobre o castanho das árvores, onde o verde baila a valsa do vento, ou se escrevo sobre o castanho da chávena de café.

Estou aqui há mais de quarenta dias e menos de quarenta e cinco noites. Não posso dizer que não dei pelo Tempo passar, porque a Saudade conta cada segundo, mas perdi a conta ao que ela conta. Sei que os segundos, feitos minutos, transformadas em horas, metamorfoseados em dias passaram, mas não sei quantos passaram. Até tomar consciência do que não sei e passar a saber...

Ontem, enquanto passeava por Karachi, parei numa livraria e, num impulso que qualquer leitor compulsivo entenderá, comprei vários livros, de rajada, sem pensar muito. Um autor turco, um autor afegão e dois autores paquistaneses habitam agora ao lado de um autor português, que repousa na mesinha de cabeceira deste quarto que agora é meu.

Ainda não eram nove e meia quando o pequeno-almoço veio. Ishaq vem, como sempre, com um tabuleiro cheio e um sorriso simpático. Deixo que as cores despertem os meus sentidos: o verde do cacho de uvas, o amarelo das duas bananas, o vermelho da maçã, o castanho do pão torrado, o laranja da compota e o negro do café.

Saboreio tudo sem pressas, enquanto fito os autores que agora habitam comigo. Brian Crain dedilha no seu piano fazendo-me companhia, neste espaço feito de solidão, esperança, sonho e Saudade. Tomo sempre o pequeno-almoço a sós, na companhia imaterial de um músico. Ontem foi Taro Hakase, anteontem Farid Farjad. E fito de novo os autores. Apetece-me ler algo novo!

Escolho ao acaso. "O Prisioneiro" de Omar Shahid Hamid. E eu que me sinto cada vez mais Livre abraço o paradoxo e perco-me na leitura. Vejo, com olhos que não os meus, uma Karachi que aos poucos vou conhecendo. Descubro a cidade, enquanto me descubro a mim, e hoje nem sequer saí do quarto. O Tempo passa, a Saudade conta-o, mas Eu não sei o que ela conta.

Faço uma pausa! O ar enche-se com o som da mesquita. A melodia do azan (chamamento) para a salat (oração) do dhuhr (meio-dia), entoada pelo muezim, enche o espaço, onde o sol não brilha e o verde marulha ao sabor do vento. Passou mais tempo, do que era suposto. Coloco "O Prisioneiro" de lado, na companhia do "Livro Negro" de Orhan Pamuk. Exames aguardam pelo toque da caneta vermelha. Tenho afinal obrigações a cumprir, foi para isto que vim.

Abro o envelope e revejo gestos, rotinas e rituais que já tive na Turquia. Estava lá faz apenas um ano, mas Kırıkkale parece distar de mim uma vida, ou duas. Lá, como aqui, os exames aguardavam pelo toque da caneta (lá verde, aqui vermelha), que escreveria um número, que selaria aquele momento. Várias semanas de aulas, comprimidas  em hora e meia de exame e dois ou três números escritos no topo de um enunciado.

Por vezes não sei quem ensina e quem tem que aprender. Agarro mais um exame e deixo que a caneta  vermelha sobrevoe palavras e frases, como o avião que me trouxe sobrevoou montanhas e rios. Passaram mais de quarenta dias e menos de quarenta e cinco noites desde que cheguei aqui. Pronto a ensinar e desejoso de aprender. E no entermeio avalio; deixo que a caneta vermelha se cumpra e que o excel se preencha.

Preenchidas as tabelas arrumarei a caneta vermelha. E aguardarei por me preencher a mim. E mais logo, depois do último azan e de mais uma fatia de naan, voltarei ao "Prisioneiro" para que ele me liberte. E a Saudade contará o tempo, ao qual perderei a conta. E quando der por mim, terei chegado aos cinquenta dias...

Tuesday, September 22, 2015

Há quarta será de vez, caríssima Grécia?

A 20 de Setembro de 2015 a Grécia enfrentou o quarto escrutínio legislativo, em menos de quatro anos, depois das legislativas de Janeiro de 2015 (vitória do SYRIZA), de Junho de 2012 (vitória da Nova Democracia) e de Maio de 2012 (vitória da Nova Democracia).

A corrida eleitoral grega, aliás como a corrida eleitoral no Reino Unido e em certa medida na Finlândia, ficou marcada por sondagens que falavam num empate técnico, que logo a realidade se encarregou de desmentir. Aliás as sondagens, este ano, em solo europeu parecem todas destinadas ao fracasso. Ou as empresas de sondagens encontram novas metodologias de trabalho, ou ficam quietas no seu canto...

O SYRIZA foi o vencedor da noite com 35.5% dos votos (apenas menos 0.8% do que em Janeiro de 2015, quando chegou aos 36.3%), que se saldam em 145 mandatos no Parlamento Helénico. É sempre importante lembrar que a Constituição Grega prevê que o vencedor das eleições ganhe automaticamente um bónus de 50 mandatos, de modo a facilitar a formação de governos de maioria monopartidários.

A noite de 20 de Setembro confirmou assim a sedimentação do SYRIZA como uma força política a ter em conta na Grécia, tirando crédito a quem achava que o partido liderado por Alexis Tsipras era um epifenómeno passageiro apenas e só fruto da crise em que a Grécia mergulhou em 2008. Após vencer o escrutínio de Janeiro, e o referendo de Julho (que acabou por resultar num volte-face do governo e na "queda" de Varoufakis), Tsipras consegue de novo galvanizar o cidadão-eleitor.

Em segundo lugar veio a Nova Democracia, com o seu novo líder Vangelis Meimarakis, a conseguir mais 0.3% do que em Janeiro (passando de 27.8% a 28.1%) mas, curiosamente, a perder um deputado baixando de 76 para 75 mandatos. Em Junho de 2012 a Nova Democracia tinha 129 deputados e pouco mais de três anos depois reduz para 75. Uma perda de quase 60%!

O terceiro lugar ficou nas mãos da extrema-direita do Aurora Dourada. O Aurora Dourada é de resto um dos vencedores da noite eleitoral, confirmando-se como a terceira força política. Curiosamente nas últimas eleições o Aurora Dourada tem apresentado resultados similares, entre os 6% e os 7% (conquistando 17 ou 18 mandatos), devendo por isso o estatuto de "terceira força" mais a uma pulverização de votos por outros partidos políticos do que a um real incremento de votos.

O PASOK, talvez o partido mais castigado pelos cidadãos-eleitores desde 2008, surge em quarto lugar com menos de 6.5% (6.38%), que se traduzem em 17 mandatos. É importante sublinhar que os resultados confirmam um "renascer", suave mas consistente, do PASOK, que tem agora 6.38%, quando em Janeiro tinha apenas 5.2% e em Junho de 2012 se quedava pelos 4.7%. Ainda longe, contudo, dos quase 14% de Maio de 2012.

O Partido Comunista Helénico surge em quinto lugar com 5.6% (micro-variação de 0.1% em relação aos 5.5% de Janeiro) e 15 mandatos, tal como alcançara em Janeiro de 2015 e em Junho de 2012. Um pouco como em Portugal, também na Grécia o Partido Comunista parece conseguir capitalizar com a crise mas não de modo extraordinariamente expressivo.

O Potami e os Gregos Independentes, que de independentes têm muito pouco, surgem no lado dos não vencedores da noite. O Potami perde seis mandatos (tendo agora 11 deputados, ao invés dos 17 deputados conquistados em Janeiro) e 2% dos votos (de 6.1% para 4.1%). Já os Gregos Independentes, parceiros de coligação do SYRIZA, perderam 3 mandatos (somando agora 10 deputados e não 13) e 1.1% de votos.

O grande vencedor da noite, para o Fidalgo, foi o partido da União dos Centristas. Criado em 1992, esta força política nunca antes conseguira entrar no Parlamento. E consegue fazê-lo conquistando 3.4% dos votos (um aumento de 1.6% em relação a Janeiro) que lhes dão os primeiros nove deputados.

Já os perdedores da noite são os candidatos do Unidade Popular, força política que surje de uma cisão interna no SYRIZA, e que agrega uma visão mais anti-austeridade e menos colaboracionista com Bruxelas. Ficaram a uns míseros 0.1% de entrar no parlamento, mas a verdade é que não entram e correm, por isso, risco de desaparecer na espuma dos dias que se seguem.

As eleições confirmaram a exaustão do eleitorado grego. O taxa de participação ficou-se pelos 56.6% o pior resultado alcançado desde 1951, num país tradicionalmente com altas taxas de participação. Curiosamente, a Grécia tem obrigatoriedade do voto inscrita na lei, mas nunca foram utilizados mecanismos sancionatórios aos cidadãos que não exercem o seu direito ao voto.

As eleições parecem mudar pouco, sendo quase certa a manutenção da coligação SYRIZA + Gregos Independentes (145 + 10 = 155 mandatos), mas mudam bastante.  Após romper com muitas das promessas feitas em Janeiro de 2015, Tsipras sabia que precisava de um novo mandato que confirmasse que o povo grego ainda quer seguir o seu plano. E a verdade é que Tsipras ganhou a aposta, os gregos querem seguir o seu plano.

As eleições colocam agora a pressão no novo governo, que será confirmado o quanto antes, para implementar o duríssimo pacote de medidas assinados no âmbito do terceiro resgate financeiro. O maior problema, todavia, não será aprovar leis no Parlamento, mas fazer com que as mesmas produzam os efeitos esperados fora do Parlamento. Há quarta será de vez? Ou caminhamos já para o quinto escrutínio?


Saturday, September 19, 2015

Que haja medo, mas não falhe a memória...

As vagas de refugiados e de migrantes transformaram as redes sociais num "circo" meio-pateta, meio-parolo, de argumentos exacerbados. Uns porque iam expulsar os "racistas" e "xenófobos" das suas listas de contactos; outros por sabiam o perigo que aí vinha, quais videntes recém-desabrochadas. E o Fidalgo meio perdido...

Comecemos então por clarificar as coisas. Apesar de os media nacionais e internacionais (com honrosa excepção da Al-Jazeera e da Reuters) optaram pelo simplismo de ver em duas correntes migratórias distintas o mesmo fenómeno. Os refugiados que vêm da Síria e do Iraque e os migrantes económicos que vêm do Nepal, Bangladesh, Afeganistão e Paquistão não podem, nem devem, ser vistos da mesma forma.

Os refugiados, como o próprio nome diz, procuram refúgio porque a sua segurança reduziu-se a um grau 0. Em segurança humana diz-se que uma pessoa, ou estado, é mais seguro quanto mais livre for do Medo e das Necessidades Básicas. Ora um refugiado é prisioneiro de ambas... Do medo e das necessidades básicas.

O migrante económico encontra-se numa situação bem diferente, não tendo liberdade nas suas Necessidades Básicas mas sendo um pouco mais livre quanto ao Medo... Até pode existir falta de esperança, e alguma ansiedade que gera insegurança, mas não existe o medo como centro gravitacional das suas decisões. O migrante económico, in extremis, tem sempre outra solução. O refugiado, se quiser viver, não!

Entendidas as duas vagas que assolam a Europa, o que apraz mais, ao Fidalgo, dizer? Dizer que esse discurso do "eles vêm para nos invadir" já é velhote. Primeiro eram os emigrantes de Leste que eram todos traficantes, e "ai Santíssimo que lá vem a droga toda e lá se vai o meu rim, num ruela menos iluminada". Depois eram os Chineses que "comiam gatinhos ao pequeno-almoço" e "roubavam pâncreas nas mercearias".

Mais, se o medo é de que eles (os tais Muçulmanos) nos invadam tenho a dizer que o medo vem tarde. Primeiro porque os Muçulmanos já vivem entre nós (serão mais de 50.000, o equivalente aproximado à população de Viseu), e até ao momento com extraordinário grau de sucesso na sua integração no tecido social português. Segundo porque esses mesmo Muçulmanos vivem, simbolicamente claro, na nossa boca... todos os dias...

É para expulsar os Muçulmanos todos e as suas influências? Boa! Comecemos por dizer adeus a todos os vocábulos com "al". Vai ser interessante saber se "(al)guém quer (al)guma coisa do (al)guidar". E ir às compras passa a ser complicadote; porque do açúcar, ao limão, do xarope ao açafrão tudo são vocábulos árabes que latinizamos. E diga adeus a tocar tambor e a jogar xadrez. E expressões como Salamaleque Oxalá reprima-as com veemência.

Os tais Muçulmanos perigosos que D. Afonso Henriques combateu tão valoroso, eram tão nefastos que o Primeiro Rei de Portugal teve uma filha de uma muçulmana. As coisas que nos esquecemos... Mais ainda, D. Afonso Henriques (século XII) permite aos muçulmanos dos territórios conquistados que fiquem a viver em bairros próprios: as Mourarias. Quando for à Mouraria em Lisboa cuidado... que é território deles...

D. Afonso III, que terminou a conquista e usou pela primeira vez o título régio de Rei de Portugal e dos Algarves, também ele teve um filho de uma relação com uma muçulmana. Aliás, os muçulmanos são apenas expulsos de Portugal bem no final do século XV (1496), quando D. Manuel I (sob pressão da vizinha Espanha e do Papado Romano) promulga o Decreto de Expulsão dos Judeus, que logo se estende aos muçulmanos. Tão perigosos que eles são...

Os perigosos muçulmanos são amplamente responsáveis pelo apogeu do Estado Português. Não só muitos dos intrumentos de navegação, utilizados pelos navegadores Lusitanos, eram de origem árabe, como muitos navegadores Portugueses recrutaram árabes (sem medo, nem nada!) nas suas viagens. E, já agora, a numeração que usamos hoje em dia é um legado... árabe! Lá teremos que voltar aos números romanos. Imagino já as contas no próximo Orçamento de Estado.

Mas eles querem invadir-nos? Querem? E para isso enviam homens cheios de fome, crianças em situação de orfandade e mulheres dispostas a dar a alma pelos seus filhos? Daesh quer muita coisa, entre as quais dominar a Síria, o Iraque e a Líbia, mas se Daesh quiser invadir a Europa será com a força das armas e não com um "exército" de almas famintas por um pouco de segurança; por uma noite som o trovão das bombas.

E os Lobos Solitários? Claro que no meio das centenas de milhar de refugiados existirão elementos radicais, prontos a tudo; mas a primeira linha de defesa contra esses, serão os restantes refugiados que vêm apenas em busca de um sítio onde possam viver. Não vêm em busca do Sonho, mas sim em busca de Vida. Pior do que a xenofobia, só mesmo a crueldade gratuita, que o medo faz algumas pessoas exibirem.

Esqueçamos que os acordos internacionais nos obrigam a acolher estas pessoas. Está esquecido? Boa! Mas não esqueçamos que um país que participou na aliança de invasão ao Iraque, como nós, tem uma dívida moral para como estas pessoas. Um país que se fez ao mar para ter futuro, não pode impedir os outros de se fazerem às suas estradas, em busca também eles de um futuro. Que haja racismo, mas não falhe a memória.

Entristece-me ver uma Europa de Leste que parece ter esquecido o que aconteceu com o colapso da União Soviética. De como "expeliu" uma imensão de pessoas por essa Europa fora e agora se arreiga nas suas novas torres de marfim, com os portões cerrados e uma cara feia. Entristece-me quem ainda ontem recebeu e hoje já não parece querer (ou saber?!) dar.

Entristece-me, e envergonha-me, o florescimento em Portugal de várias "boas samaritanas" que não querendo ajudar os refugiados, se lembraram de súbito que existiam pedintes. Os mesmos pedintes que ainda no dia anterior ignoraram com um sorriso no rosto e quiçá com um comentário venenoso. Mas hoje: "ai os nossos pedintes coitadinhos, que ninguém os ajuda". A questão nunca pode ser ajudar A ou B; terá que ser sempre ajudar A e B. Simples, não é?

Que mal farão os refugiados e os migrantes económicos, no interior de um país despovoado? Que mal farão famílias novas, num país com fracas taxas de natalidade? Que mal farão pessoas com esta fibra, num país, por vezes, demasiado amolecido? Que mal farão aos que já aí estão, aqueles que lutam apenas pelo direito a existir? É mais simples deixar morrer, para sossegar os medos? Espanto-me com tudo isto...

No final a questão é apenas essa. O que triunfa? O medo preconceituoso e cheio de estereótipos? O racismo que nos cataloga em "Nós" contra "Eles"? A xenofobia que excluí com violência, o que simplesmente não entende? Ou a solidariedade? A capacidade de superar o susto inicial e de ver para além do que parece óbvio?

Onde há fumo há fogo, diz o povo. E o povo até está certo; mas não confudamos o fumo de um barbecue familiar, com o de um incêndio dantesco...


Tuesday, September 15, 2015

Crónica do 15 de Setembro ou ter asas e querer voar

15 de Setembro, 2013. Lisboa, Portugal. Pouco passa das onze da manhã quando desligo o telefone. Pelo meu rosto correm lágrimas, num regato desordeiro que ameaça manchar os bilhetes que me levaram até Ankara. A voz da minha mãe foi a última que ouvi. E sei que ela, do outro lado da linha, sentada num sofá azul, também estará em lágrimas.

Os últimos dias por Portugal foram de despedida. Fui surpreendido por várias manifestações de carinho que me encheram o coração. Não serenam os medos e os anseios, mas ajudam a gerir os mesmos. Dias de "Adeus e Até Já" antes de me lançar ao desafio fora de portas. Sei que começará aqui uma nova etapa, mas apenas sei isso. E não saber mais inquieta-me.

O embarque começa. Olho Lisboa uma última vez e avanço pelo corredor. Seguirei primeiro para Istambul, onde farei escala antes de chegar a Ankara. E depois terei alguém esperando que chegue, para me levarem até Kirikkale. E será aí, em Kirikkale, que começará um novo ciclo. Sorrio perante os planos e sonhos que tenho, mas as lágrimas insistem em cair. E sem me aperceber, antes mesmo de entrar no espaço aéreo do país hermano adormeço...

15 de Setembro, 2014. Kirikkale, Turquia. Já cheguei a Kirikkale faz dois dias e curiosamente preparo-me para seguir para a ilha grega de Rhodes dentro de uma semana. Mais uma conferência. Cheguei para o meu terceiro trimestre em terras estrangeiras, mas desta vez chego com a ideia da partida na minha mente. E isso anima-me.

Não a partida temporária para Rhodes, que dias depois será revertida, mas uma partida diferente, no final do ano, quando as folhas do calendário deixarem de acabar em "14" e passarem a "15". Enquanto faço a mala, para essa curta viagem à Grécia insular, dou por mim a pensar como é que um português, se preparara para seguir para a Finlândia, depois de receber uma proposta no Qatar.

Ainda não é certo que siga para o Norte da Europa, depois de ter um pézinho no Médio Oriente. Mas as coisas parecem fluir nesse sentido. Estou feliz aqui, penso enquanto arrumo mais uma gravata na mala, onde me deram oportunidade de "abrir as asas"; mas agora que as estiquei quero voar. Vou olhando em redor e parece que já sinto saudades do que ainda nem sei se perdi, por talvez ir para onde nem sei se irei. Fecho a mala e vou jantar...

15 de Setembro, 2015. Karachi, Paquistão. Estou aqui há quase três semanas. Desta vez sem lágrimas. Sempre com um pequeno aperto no coração, com o que fica para trás, mas com um grande sorriso no rosto. Depois de peripécias inesperadas pelo Norte da Europa, vim para o Sul da Ásia. Voltei a pular e a colocar mais um "pin" no mapa.

São quase 20h. Na Turquia e na Finlândia serão 18h. Em Portugal apenas 16h. Preparo-me para mais um jantar e dou por mim a fitar a moldura electrónica onde rostos que me são familiares desfilam. Cheguei aqui com todos eles e muitos outros. Vim, pela primeira vez, sem planos; sem pretensões; sem projectos de monta. Vim.

E ao final de quase três semanas aqui e de dois anos a trabalhar fora do meu país sinto-me mais Eu. O caminho tem tido curvas perigosas, obstáculos inesperados, desafios complexos mas tem sido feito. Se fosse em linha recta já teria abandonado o percurso, porque seria menos Eu. Não nego saudades e tristezas, mas ainda não estou completo. Faltam peças neste puzzle de que sou feito.

E aqui encontrarei mais algumas. E, quem sabe, no próximo 15 de Setembro estarei noutro ponto. As asas estão esticadas e, em tendo boas correntes, estou sempre pronto a voar. E um dia, com o puzzle quase completo, voltarei ao ponto de origem, de onde saí a 15 de Setembro de 2013 e lá, e apenas lá, completar-me-ei. Até lá seguirei explorando...

Sunday, September 06, 2015

E uma semana depois o calor abraça-me...

São quase 19h. O ar enche-se com o som harmonioso vindo do alto dos minaretes que chamam os fiéis para mais uma oração na mesquita. Um calor pegajoso tem-me acompanhado desde que o dia começou. Comecei o dia a achar que nunca sentira nada assim, mas não levei tempo a lembrar-me que já conhecia este calor... Que ele não era novidade!

Curioso como o calor que sinto aqui, no mais recente ponto do planeta onde habito (Ásia, Paquistão), me lembra o calor que senti ao aterrar na minha primeira viagem fora de Portugal, se excluirmos as idas a Badajoz... Foi em Manaus, no Brasil, que senti um calor tão intenso como aqui. Foi nesse lugar mágico que me transformou em viajante que o senti pela primeira vez.

Manaus simboliza sempre o ponto de partida. A primeira vez que saí de Portugal num contexto semi-profissional: na altura, num projecto de intercâmbio universitário. E durante esse mês em Manaus senti sempre o abraço abafado desse calor constante que, após anos, voltou a entrar no meu dia a dia. Curioso como as coisas parecem ser tão circulares e quando achamos que algo é um ponto de partida, afinal era apenas uma chegada...

Há uma semana atrás, por esta hora, estaria ainda a sobrevoar solo europeu. Milha a milha aproximava-me de Istambul onde embarcaria num segundo voo para Karachi, quase sem direito a pausa para esticar as pernas. E pela madrugada mais de quatro da manhã (pouco passaria da meia-noite em Lisboa) aterrei no novo desafio: Paquistão.

E uma semana já terminou. Já conheci colegas novos e alunos novos. Já tratei de burocracias e de papeladas. Já visitei edíficios que passarei a conhecer melhor. Já explorei o meu novo gabinete. Já comecei novas disciplinas que me foram confiadas. Já conheci uma pontinha da frenética e gigantesca Karachi. Já fiz...

Quando fui para a Turquia tracei largos planos e muitos projectos. Realizei alguns, mas deixei muitos em stand-by. Depois deixei que a confiança e a racionalidade me guiassem e segui para a fria Finlândia. Por vezes é preciso arriscar, dizem, e eu achei que seria esse o meu momento!

E o que parecia um ciclo interessante, passou a nada por causa de nada. Mas como não me faço com o nada segui em frente. E cheguei aqui. Saí da Ásia Média, para a Europa do Norte para vir ter ao Sudeste Asiático.

Nos dias que antecederam a vinda muitas dúvidas, medos, interrogações assaltaram a minha mente. E se não gostarem da primeira aula? E se eu não gostar do país? E se não correr bem o voo? E se não tiver boas instalações?

Mas as dúvidas podem reduzir-se a um nada, que não as nadifica mas silencia-as. E eu sabia que teria que seguir para um novo desafio. Que não podia parar agora. Não agora! Que só seguindo poderia partir em busca de resposta. Ou apenas em busca...

O calor continua aqui. Ao meu lado. No meio do salão comum da residência para docentes onde agora habito. O salão que permanece quase vazio. Ninguém mais para além de mim, do calor que me abraça e do silêncio.

Vi um colega meu lá em cima e sei que mais dois andam pelo edifício, mas não estão aqui. Também eles seguem em busca para as interrogações que os assaltam. Também eles vieram para aqui, porque estar por ali não dava, não era certo, era nada...

Deixo sempre em Portugal amigas e amigos com lágrimas nos olhos; deixo sempre em Portugal familiares de coração apertado; deixo sempre em Portugal conhecidos em estado de ansiedade. Deixo sempre Portugal... Mas nunca esqueço... E enquanto o abraço do calor não desenlaça; enquanto o tempo não passa; vou ficando por aqui.

Vou lendo, vou sonhando, vou escrevendo, vou lembrando e vou vivendo... E amanhã serão oito dias!


Tuesday, September 01, 2015

Mais um Primeiro Dia...

Ainda não sei bem o que me atemoriza mais, se o primeiro dia de aulas como aluno, se o primeiro dia de aulas como professor. Tenho fiapos de memória do primeiro dia de aulas na primária. Recordo a luz morna de Setembro sobre um edifício rosa, no qual ansiava entrar. Lembro da escadaria; dos corredores de pedra; da sala de aulas. Do rosto da professora e de como queria aprender mais, mais, mais.

E não esqueço o que senti quando dei aulas, fora de Portugal, na primeira vez. De como desci as escadas com vagar, para disfarçar o tremor nas pernas; de como memorizei quinze frases que iniciariam a aula e de como não disse nenhuma; de como sabia que aquele primeiro momento não se repetiria. E ficaria guardado... E hoje repetiu-se o ciclo!

Acordei cedo, ainda não eram sete da manhã, abraçado pelo calor pegajoso do Sudeste Asiático. Não me custou a abandonar a cama fofa e de proporções generosas do quarto 9. Tomei um duche sem pressas, com a água fria a desfazer o enlace apertado do calor enquanto pensava em de tudo o que ficara por Portugal para eu vir para aqui: Karachi, Paquistão.

De como uma vez mais caíram lágrimas do rosto da minha mãe, que me vê partir cada vez para mais longe. De como uma vez mais ficaram as minhas irmãs entre a preocupação nervosa e o orgulho cintilante. De como os amigos e as amigas ficaram surpresos. De como uma vez rumei a um destino desafiante.

O pequeno-almoço chegou na hora marcada: 07h45. Saíra do banho há menos de 15 minutos e já as gotículas de suor teimavam em surgir na testa. Posicionei-me debaixo da ventoínha, mas o calor é omnipresente por estes lados. Resignei-me, por agora... Chá, fruta, torradas e um torrente de palavras sobre o reinado revolucionário do faraó que introduziu a ideia de monoteísmo.

Desci para o carro que me leva para o campus todas as manhãs sem pressas, mas sentindo o tremor miudinho aguçar as garras. Lá vem ele... Sorri, cumprimentei o motorista e sentei-me no banco de trás com o tablet ligado. Ia começar a aula a dizer "isto" e depois "aquilo" e depois "outro" e terminaria. O carro parou em frente ao edifício onde leccionarei pela primeira vez. No segundo tempo da manhã seguirei para outro edifício.

Subo a rampa de acesso ao segundo piso. Vejo muitos rostos sorridentes, que trocam palavras entre si ora em urdu, ora em inglês, ora em dialectos que não consigo perceber mas que dão uma musicalidade cosmopolita ao corredor. Avanço por entre saris, túnicas e burqas, numa mistura fantásticas de modos de estar e de trajar.

Main Campus, Adamjee, Class Room 2! É ali! Avanço sem pressas, enquanto o tremor nas pernas se instala. Levo a mão à maçaneta da porta. Revejo tudo o que quero dizer; revejo porque estou aqui; revejo de onde venho e ignoro para onde vou... ainda agora cheguei. Abro a porta. Esboço um sorrio, meio tosco, e digo um "bom dia". E todo o treino, preparação, planeamento, colapsa ali. Mas sigo em frente...

E a aula seguiu em frente. Quase 40 paquistaneses viajaram ao Egipto de Amenhotep IV pelas mãos de um professor vindo de Portugal. Não expus matéria, nem debitei conceitos e datas; discutimos, com questões que fui fazendo; com ligar as pontes e os pontos do passado com o presente. E apesar de não ter tido como queria, disse tudo o que queria e mais. E sorri quando ao final de 75 minutos disse: "Até quinta-feira".

Não sei quantos "Primeiros Dias" mais terei na minha carreira; quantas vezes começarei um novo ciclo; quantas vezes mudarei mais de continente, ou de país; mas sinceramente não quero saber... Com o primeiro dia superado quero focar-me no desafio que agora começa; quero olhar para o que comecei quando no Domingo, pelas 11h30, entrei naquele avião em Lisboa. E amanhã será o segundo dia!

Thursday, August 27, 2015

Noivo Por Um Dia (5/5)

[...Continuação]

- Escolheste não ter raízes. Ser etéreo e vago; ser tão omnipresente e tão invisível quanto o ar. Todas as mulheres sabem que existes, que podem contar contigo; mas nenhuma te tem como seu. Foi isso que escolheste. – Vanessa evitava, por alguma razão, o contacto com os meus olhos. Ela não queria seguir com a conversa, mas eu ainda não estava satisfeito.

- E tu? O que escolheste? – Lancei mais uma bomba nuclear, feita de vocábulos e de ansiedades, para detonar nas mãos de Vanessa.

- Escolhi seguir em frente. Trilho um caminho recto, com objectivos, com metas, com aspirações. Seguir em frente foi a minha opção. – Vanessa respondeu secamente. Tentando mostrar-se enfadada pela conversa, quando na verdade sentia nela perturbação e inquietação.

- E porque tiveste que seguir em frente? – Repliquei eu.

- Desculpem chatear, mas a tua mãe está a chamar para o jantar Vanessa.

A tia da Vanessa salvara a sobrinha de responder às minhas inquietações. Vanessa voltou costas ao sol poente e caminhou até casa. Segui o mesmo caminho que ela, alguns segundos depois. Tínhamos chegado ali pelas escolhas e não pelo alcatrão da estrada. Eu sentia os meus demónios mais activos do que nunca.

Depois de curtir com Eva, a vida retomou o seu curso. Porque beijara Eva se não era ela quem queria? A minha amizade com a Vanessa foi-se desenhando e, numa tarde qualquer, decidira-me por uma vida sem vida. Por uma vida feita de máscaras fugazes e de despedidas planeadas. Uma vida onde a valentia de assumir os sentimentos não teria qualquer importância. Uma vida que me afastasse do altar…

- E já pensaram em marcar o casamento? – Perguntou a mãe de Vanessa entre a sopa de legumes e o frango assado no forno.

- Já falámos disso, mas nunca assentámos ideias. – Vanessa adoptou um tom de voz brincalhão. – Aqui o senhor tem medo de ir até ao altar. Tem medo que eu o deixe pendurado na hora final.

Um coro de alegres e descoordenadas gargalhadas explodiu na sala de jantar de Vanessa. Não era esse o meu medo. Como podia eu ter medo do altar, quando nunca tinha saído dele. A respiração tornou-se mais difícil. As lágrimas encheram-me os olhos e antes que me conseguisse controlar, irromperam pelo meu rosto abaixo. Sem pensar levantei-me da mesa e fugi até ao quarto da Vanessa.

As gargalhadas sumiram, como se nunca tivessem existido. Chorei enquanto olhava para as princesas de porcelana da Vanessa. Eram tão delicadas, tão frágeis, que a monstruosidade dos meus actos, das minhas escolhas, podia danificá-las. As lágrimas tornaram-me mais grossas. A porta do quarto da Vanessa rangeu um pouco, antes de sentir a mão dela tocar no meu rosto.

- O que foi? Deixaste todos preocupados! – Vanessa olhava surpresa para mim; não contava ver-me chorar. Porque razão choraria eu?

- É tudo tão claro. Já sei quem deixei no altar, de quem fujo desde aquele dia no campo de futebol. – Vanessa parecia não entender as minhas palavras. Franziu a testa, pensando, por certo, que estaria louco. – Eu fugi de mim. Eu espero por mim no altar. Espero pela minha alma.

- Não consigo perceber o que dizes!

- Foi por minha culpa que seguiste em frente. Não tinhas que o fazer, mas quando fugi de mim, quando me deixei no altar, obriguei-te a seguir em frente. Destruí a porcelana dos teus sonhos. – As lágrimas continuavam a correr pelo meu rosto, lavando as minhas veias. Os demónios que eu temia, que trancara num recanto negro do meu peito, transformaram-se em anjos e voaram.

- O que dizes?

- Eu sou Noivo por Um Dia, porque o dia em que te deixei no campo de futebol, em que cedi aos gritos dos outros, ainda não terminou. Eu queria ter o teu coração, ter-te sempre pertinho de mim. Queria amar-te porque eras única, mas acobardei-me e fugi. – Vanessa tirou a mão do meu rosto. – Fugi sem perceber que congelava a minha vida. Sem perceber que não saía da linha de partida. Fugi, sem sair do sítio.

- Agora é tarde.

- É tarde se escolhermos que é tarde. – Agarrei as mãos de Vanessa e olhei para os seus olhos infinitamente belos. – Eu escolho ser teu Noivo não por um dia, mas por uma vida. E se a vida for apenas um dia, ou um delírio que seja, pois serei noivo por um dia, ou por um delírio.

- E o que escolho eu?

- Podes seguir em frente, ou podes seguir contigo. – Larguei as mãos de Vanessa para limpar o meu rosto. – A decisão é tua. Eu já escolhi; não fugirei mais. Voltarei ao altar para me resgatar e entregar-me a ti.

Um beijo quente e húmido de Vanessa silenciou as minhas palavras. As bonecas de porcelana aplaudiram em silêncio mudo. Voltara ao dia em que a deixara sozinha no campo, mas desta vez sairia do campo de mãos dadas com ela. Não voltaria a entrar na profundeza escura dos balneários, para me lavar de mim mesmo. Desta vez escolhia ser eu mesmo; ser inteiro; ser humano e completo.

Vanessa pediu-me para descer. Respeitei o desejo dela. Ela escolhia um caminho onde eu não fazia falta. Ficou sozinha no seu quarto, olhando para as suas princesas de porcelana. Desci as escadas lentamente. Entrei na sala de jantar e pedi desculpa a todos pelo meu comportamento. Ninguém parecia importar-se com o sucedido. Perguntaram pela Vanessa, mas não sabia o que responder. Optei pelo silêncio.

Abrira o meu coração, trespassado pela claridade do que não vira até ali. Não era Noivo por Um Dia de alma e vontade; era-o por cobardia. Vanessa tinha aprisionado o meu ser, mesmo sem querer ser sua carcereira. Infelizmente despertara demasiado tarde. Vanessa seguira em frente; habituara-se à vida que escolhera. O pior de tudo é que sei que ela se afasta de mim por minha culpa.

Passado alguns minutos, horas tortuosas para mim, Vanessa saiu do seu quarto. Entrou na sala com um vestido de cauda azul-marinho, feito de delicada seda; ao longo do vestido tinha sido bordada, em azul-escuro, à sombra de uma grande rosa. Um delicado trabalho artesanal que assentava na Vanessa com uma perfeição onírica.

Esticara o cabelo artesanalmente e maquilhara os olhos. Um suave tom de rosa realçava os seus lábios carnudos. Nunca antes vira Vanessa assim. O espanto de todos os presentes, era infinitamente menor quando comparado com o meu deslumbramento: ela escolhera.

- Quero ser princesa! Ter o meu conto de fadas! – Vanessa avançou na minha direcção. – Não quero ter que seguir em frente. Quero seguir apenas; avançar passinho a passinho. Quero continuar o que nunca terminámos.

- Que assim seja!

Percebia no rosto dos presentes um sentimento de desconhecimento; até os podia ter elucidado sobre o que se passava, mas aquele era o nosso momento. Beijámo-nos outra vez, recuperando o tempo que não tinha sido perdido, mas sim congelado. Tudo o que tinha vivido nos últimos anos tornou-se fantasioso; irreal; imaginário. Vanessa e eu podíamos renascer.

Sem saberem o que fazer, os familiares de Vanessa bateram palmas. Tinha que ir ver a minha família, um destes dias. Tinha que recuperar o que congelara, mas que nunca perdera. Tinha que voltar a ser integralmente Eu e não uma simples mancha de gente. Tinha que me completar. Vanessa e eu sorrimos um para o outro. A estrada não nos levara ali, a estrada começava ali.

- Casamos no final do ano. – Anunciou Vanessa para gáudio dos presentes. – Que o final do ano seja o nosso princípio. – E de súbito passei a ser mesmo Noivo por Um Dia; pelo primeiro de muitos dias!

FIM


Thursday, August 20, 2015

Noivo Por Um Dia (4/5)

[...Continuação]

- Os meus parabéns garanhão. A Daniela adorou a noite de ontem. – Vanessa não podia estar a falar a sério. A noite de ontem não acontecera. – Não sei o que fizeste, mas ela diz que és uma relíquia.

- A sério? – Recompus-me do choque inicial em segundos. Daniela gostara de uma noite que não acontecera. Tanto melhor assim. Saímos os dois a ganhar. – Bom, é para agradar que me pagam.

Não sei o que sentem os génios, quando são tocados pela inspiração divina, mas o que senti foi algo verosimilhante. Leonardo Da Vinci, Copérnico e Einstein que me desculpem, mas até eu posso sentir a inspiração divina descer sobre mim. Daniela não tinha sido abandonada no altar; não a tinha tornado na Outra, nem na Abandonada. Ela mantivera-se intacta, pura, virginal.

Teria sido eu deixado no altar? A violência da revelação fez-me perder as forças. Corri até à casa de banho e vomitei as entranhas. A Daniela incinerara a minha essência humana com dúvidas. Em que altura da vida escolhera ser isto? Esta espécie de vida, onde adiava tudo. Adiava, percebia agora, mas não podia fugir. Por muito que corresse, a meta mais não era do que a linha partida.

Lembrei-me do dia em que pela primeira vez vi, com olhos de ver, a Vanessa; a mesma Vanessa que deixei sozinha no campo de futebol, perante os gritos dos meus amigos. Jogámos a partida de futebol e fomos até aos balneários. Olhei para o fundo do campo e lá estava ela. Depois o abraço de um colega de equipa resgatou-me para as negras catacumbas a que chamávamos de balneários.

Tomei banho no meio deles, sentindo-me sozinho. Lembro-me agora que me interroguei sobre quem era, o que queria, enquanto me olhava ao espelho. Penteei o meu cabelo com o rigor necessário; tinha uma imagem a manter. Quando saí do balneário voltei ao campo mas a Vanessa já não estava lá. Obviamente teria seguido com a sua vida; mas o óbvio pareceu-me cruel e, sem ninguém ver, chorei.

Ergui a cabeça com esforço. Ter memórias, do que já fora, enquanto regurgitava era algo novo. A mão quente de Vanessa afagou-me o couro cabeludo. Os demónios já estavam soltos, podia senti-los caminharem pelas minhas veias. Inspirei fundo e reuni as energias que ainda tinha para me levantar. Vanessa seguiu atrás de mim, até me sentar no sofá da sala.

Foquei o olhar na televisão. Imagens de uma apresentadora quase semi-nua, aos saltinhos, encheram os meus olhos. Vanessa desaparecera. Não a conseguia ver, mas sentia a sua presença na minha cozinha. Ia preparar-me um chá. O som da água a ferver animou as células do meu corpo. Instantes depois, Vanessa acercou-se com uma caneca fumegante de chá de ervas. Obrigou-me a beber tudo até ao fim.

- Este fim-de-semana tenho um serviço especial para ti. – Vanessa falava mais devagar do que o normal, receosa de que eu não a acompanhasse. Anuí com a cabeça para que continuasse. – Uma cliente precisa que finjas ser o seu Noivo durante um dia, nada mais do que isso. Ela tem que apresentar-te à sua família.

Ora aí estava um pedido original. Os demónios que Daniela soltara, estancaram a passeata pelo meu corpo. Nunca antes fingira ser Noivo Por um Dia perante a família de qualquer das minhas Noivas. O que poderia eu fazer? Recusar é um mau princípio nesta profissão; mas não me apetecia entrar em charadas familiares.

- Quanto é que vou lucrar com isto? Não posso fazer o preço habitual. – Bebi três goles de chá antes de prosseguir com as minhas explicações – Uma coisa é fingir ser o Noivo de alguém num dueto pré-coreografado, outra é fingir perante uma plateia. Sou actor de monólogo sem plateia; se quisesse aplausos e espectadores não teria escolhido isto como vida.

- És tu quem define o preço. – Vanessa tirou o som do televisor. O gesto déjà vu assustou-me. Daniela também tirara o som do televisor antes de me atacar cruelmente, com os seus fonemas de garras afiadas. – Não me digas que não. És a minha única esperança.

As palavras de Vanessa bloquearam-me. Era ela a cliente? Porque precisaria ela de mentir aos seus familiares? A questão do preço esfumou-se. Não levaria um cêntimo que fosse a Vanessa. Voltei a ver-me no campo de futebol, com o rosto molhado pelas lágrimas. O grito de um amigo colocou-me em alerta, sequei o rosto e segui em frente. Nos dias que se seguiram não voltei a ver a Vanessa.

- Farei esse serviço inteiramente de borla. – Vanessa ia arguir contra a ideia mas consegui antecipar-me à sua vontade. – É esta a minha condição. Ou aceitas de borla, ou nada feito Vanessa.

- Que assim seja. – Vanessa agarrou na sua bolsa – Venho buscar-te amanhã pela manhã. Vamos até casa dos meus pais.

Vanessa deu-me um beijo na testa e saiu do apartamento. Com a chávena de chá a esfriar na minha mão fiquei a pensar no que acontecera. Ia ser Noivo por Um Dia da Vanessa. Seria a Vanessa feita do mesmo material da virginal Daniela? Ou tornar-se-ia a Vanessa na Outra da Rita e na Abandonada da próxima cliente? O que reservaria o dia seguinte?

O que restou do dia foi varrido velozmente. Num instante estava a levantar-me, de novo, da minha cama. Tinha meia hora para me arranjar, antes que a Daniela me viesse buscar. Tomei um duche rápido e optei por vestir um conjunto descontraído. Calças em tons de bege e uma camisa em tons de salmão foram a minha opção. Tirei a camisa, troquei-a por uma verde-escura, mantive as mesmas calças.

Fiz uma pequena mala de viagem, com duas mudas de roupa suplentes. A camisa em tons de salmão não conseguiu ter lugar na mala. Fica para a próxima. O carro de Vanessa esperava já por mim quando desci até à rua. Dei-lhe num beijo de bons dias e liguei a rádio do seu carro. Quis pagar a gasolina, mas Vanessa não deixou. Sei que o seu ordenado de jornalista é magrinho; faço numa noite mais do que a Daniela factura num mês.

O caminho para casa dos pais de Vanessa foi feito no silêncio. Ao contrário do que eu imaginara ela não tinha arquitectado uma estória. Não iria ter guião de auxílio, só me pedira para ser o mais autêntico possível. Missão complicada, tenho que admitir; não é propriamente fácil ser-se autêntico no meio de uma farsa. Será mesmo uma farsa o que os dois vamos fazer? Hoje não me posso perder com filosofias!

A viagem durou pouco mais de hora e meia. Revi durante a viagem coisas que poderia e não poderia dizer. Tentei desenhar um personagem, mas nenhum dos modelos me agradou. Teria mesmo que ser espontâneo, no meio da encenação para a qual tinha sido contratado. Abandonámos o conforto do alcatrão, trocado pelo trepidante caminho de terra que rasgava um campo cheio de acácias amarelas.

Os pais de Vanessa saíram para a rua pelo simples escutar do ruído do motor. O ronco do motor do carro da Vanessa anunciava o retorno da filha pródiga, perdida para a Cidade grande. Há quanto tempo não visito os meus pais? Há quanto tempo esperarão eles pelo ronco do motor de um carro que lhes devolva, por instantes, o filho? Pensei em tudo isto antes de sair do carro.

A mãe da Vanessa impressionou-me pela beleza dos seus cinquenta e um anos. Tinha uns olhos cândidos, cheios de doçura. Com um abraço terno recebia o homem que resgatara (pelo menos assim pensava!) o coração da sua filha.

O pai de Vanessa teria mais uns cinco anos do que a mãe, mas também conservava um rosto jovial. Deu-me um aperto de mão vigoroso, como que a mostrar que era o líder daquela casa. Marcava terreno a quem lhe levara a cria. Idiotices de homens!

Entrámos e um banzé de gente veio receber o noivo da Vanessa. Não contava com tantos rostos. Beijinhos e abraços sucederam-se até ser obrigado a sentar-me, com a Vanessa ao meu lado a acariciar-me o rosto. Parecíamos um casal e, por um segundo, senti aquilo como sendo real.

- Então, diga-nos lá, como é que conseguiu conquistar aqui a nossa Vanessa? – Perguntou uma das tias da Vanessa, falando em nome de toda a família. Instalou-se um silêncio algo incómodo.

- A Vanessa é mais do que se vê. Quanto mais a descubro, mais apaixonado fico. – Os demónios dentro de mim prepararam os tambores para o baile, que se desenrolaria brevemente no meu cérebro. As minhas palavras soavam naturais, quase verdadeiras.

Não houve mais perguntas. Um festival de aplausos irrompeu de todas as partes. Tinha passado no teste familiar; era o homem certo para a Vanessa. Dera a resposta que eles tinham ansiado; passava a ser um deles. Vanessa beijou-me nos lábios, perante um longo Ahhhh! de satisfação da plateia. Estava montado o espectáculo. Se eles soubessem a verdade… Se eu soubesse a verdade...

Antes de servirem o almoço, subimos um pouco até ao quarto da Vanessa. Todos os presentes quiseram levar a minha mala para cima. Deixei que um primo da Vanessa tivesse o privilégio de transportar o meu pequeno trolley, perante o olhar de inveja dos restantes. Fomos deixados em paz, com a porta fechada. A família não queria perturbar o casal de pombinhos.

O quarto de Vanessa foi uma surpresa. Além da cama de ferro, da mesinha de cabeceira a condizer e do armário de madeira branca, houve um móvel que chamou a minha atenção. Uma estante de madeira, com quatro prateleiras cheia de bonecas de porcelana, todas vestidas de princesa. Cada uma delas sentada numa pequena poltrona, com um vestido de gala e o cabelo bem escovado.

- É bonita a tua colecção de bonecas. – Agarrei numa com cuidado. Vestia um vestido azul, cheio de rendas brancas e tinha o cabelo aos caracóis. – Não te fazia uma coleccionadora de bonecas de porcelana.

- É mais uma coisa para descobrires. – Vanessa continuou a tirar a sua roupa da mala, sem prestar atenção ao que eu fazia. – Excelente a tua resposta há bocado. Já foste aceite por todos aqui. Fico a dever-te esta!

- Sem problemas.

Voltei ao campo de futebol. Aos dias que se seguiram. Não vi a Vanessa durante duas semanas. Quando a voltei a vê-la, trazia uma câmara fotográfica ao ombro; andava a caçar fotografias para o Clube de Jornalismo da escola. Ao seu lado, com um vestido de seda curtinho, vinha Eva.

Trocámos umas palavras circunstanciais, antes de lançar o meu charme sobre Eva. Era o esperado de alguém como eu e decidira fazer o esperado, para não esperar... Duas horas depois estaríamos aos beijos no balneário. Mas a minha cabeça não beijava Eva. Beijava-a…

A boneca de porcelana parecia sorrir-me. Aquilo não era uma colecção; era um sonho de infância. As bonecas eram retratos das aspirações de Vanessa. Ela também queria ter o seu momento de princesa. Fiquei absorto com a minha descoberta. Os meus demónios dançavam frenéticos. As palavras de Daniela ressoaram, de novo, na minha cabeça: “Por quem esperas no altar? De que foges tu?”

Descemos até à sala de jantar de Vanessa. Em redor de uma mesa enorme estavam sentadas dezasseis pessoas e ainda havia dois lugares vagos; os nossos lugares. A Vanessa sentou-se e beijou-me nos lábios. O almoço decorreu tranquilo, no meio da agitação normal causada por dezoito comensais. Uma sucessão de travessas desfilou pela mesa, antes de ser dado por encerrado o almoço.

O pai de Vanessa falou-me das memórias que tinha da filha e de como se orgulhava dela; enquanto a mãe e as tias de Vanessa tentavam arrancar pormenores de uma relação feita de irrealidade, tão sólida como manteiga no Verão. Se pudesse sorrir tê-lo-ia feito.

Fomos afastados um do outro durante a tarde. Nada que não contasse. Creio que teria acontecido o mesmo se fosse com os meus pais. O pai de Vanessa queria impressionar-me, mostrar que conhecia bem a sua filha, que a protegeria de tudo. Mas não era a Vanessa quem precisava de protecção.

Deixei que a minha imaginação respondesse a todas as questões. Os primos e os tios de Vanessa evitaram as perguntas mais pessoais, para minha satisfação. Não me apetecia ter que mentir nesse campo. Usar memórias de outras Noivas, de momentos instantâneos, como sendo momentos meus e da Vanessa, era algo que não me agradava. Só voltei a ver a Vanessa no final da tarde.

- O meu pai não te torturou com perguntas pois não? – Perguntou Vanessa com um tom de voz doce. Estava no seu meio, podia ser tudo o que a Cidade não conhecia. Ali podia ser genuína.

- Nada que eu não esperasse. – Puxei de um cigarro, o meu primeiro que fumava desde que ali estava. – O que é que nos trouxe até aqui? – Perguntei curioso por saber o que iria ouvir dizer Vanessa.

- As escolhas que fizemos. – Respondeu secamente, como que a tentar encerrar uma conversa indesejada. 

- E que escolhas fiz eu? – Insisti de novo. Desta vez desistir não seria opção, não seria uma escolha possível. Vanessa olhou para o sol poente; uma mancha vermelha na abóbada celeste que rasgava o amarelo das acácias campestres.

[Continua...]


Thursday, August 13, 2015

Noivo Por Um Dia (3/5)

[...Continuação]

O champanhe chega à mesa. Daniel abre a garrafa, despeja um pouco do líquido dourado borbulhante numa floute de cristal e entrega-a a Daniela; em seguida, também eu recebo uma floute. Quando o empregado se retira, tocando-me discretamente no ombro, em sinal de fraternidade, erguemos as floutes e brindamos a uma noite de sonho. Já não é Daniela a banqueira, que tenho pela frente; mas Daniela, a adolescente com o sonho de ser princesa por uma noite.

O jantar decorre tranquilo, se é que se pode chamar tranquilo a um jantar destes. Daniela revela-se uma companhia agradável. Sabe manter o interesse de uma conversa, sabe cativar a atenção. A perna de Daniela roça na minha duas vezes. Pisco-lhe o olho esquerdo em sinal de aprovação. Sinto-a a desinibir-se. Por uma noite, por instantes que seja, tudo o resto vai deixar de ter importância.

Para sobremesa uma fatia de Romântica vagarosamente partilhada. É um dos maiores clichés da minha profissão. Dividir a sobremesa tem um efeito tão afrodisíaco nas mulheres, quanto o Viagra tem nos homens. Pelo menos a crer no que dizem alguns amigos meus, viciados no milagre vendido em cápsulas azuis.

Recusamos a sugestão do Daniel, para bebermos um digestivo. Temos outras coisas em que pensar. Afinal, sou pago há hora. Comigo tempo é dinheiro. Daniela quer ir dançar, descomprimir um pouco antes de passarmos aos negócios... Elogio a ideia, como se estivesse a pensar no mesmo.

Pago a conta, mais tarde tratarei de acertarmos contas. Chamo um táxi; enquanto esperamos beijo-lhe o pescoço. Daniela encolhe-se perante o inesperado frio das minhas mãos, aninhando-se no meu corpo. Segredo-lhe duas ou três coisas ao ouvido, antes de o táxi aparecer. A viagem é rápida, feita num silêncio sedutor. Daniela estuda o meu corpo; por certo imagina as coisas que faremos mais tarde.

Esta noite dançaremos no Holy Night. Este é um dos bares mais requintados da Cidade. Não fosse a proprietária ser minha cliente regular e duvido que entrasse no Holy Night. Daniela envia duas ou três sms antes de entrarmos no Holy Night. A exuberância da decoração agrada-lhe. É o cenário perfeito para nos conquistarmos um ao outro; não que isso seja preciso. Coisas de mulheres; não me compete perceber.

Enquanto dançamos na pista a minha mão explora as ancas de Daniela. Vanessa não se enganou, esta é um cliente especial. Por entre gritos consigo convencê-la a irmos andando. Não me apetece gastar as energias na pista de dança.

Daniela cora, usa o cabelo para disfarçar mas sei que está tão vermelha quanto o pimentão que normalmente usa nos cozinhados. Finjo não perceber que está embaraçada, como se esta fosse a sua primeira vez. E se for? Nunca pensei nisso… E se for? Se for paciência, não posso fazer nada quanto a isso.

Daniela marcou um quarto no Hotel Fine Art. São poucas as clientes que me levam aos seus apartamentos. Entendo isso como a ultima violação da sua privacidade. Já basta, ficar a conhecer-lhes o corpo, as taras, as fantasias. Tudo o resto é mantido na escuridão da doce ignorância.

O ritual do check in não me preocupa. Aproveito para fumar um cigarro e olhar o meu cabelo num dos espelhos do átrio. Não sei porque me preocupo com o penteado, se daqui a uns minutos estarei alegremente despenteado. Manias!

Terminado o check in vamos até ao elevador que nos conduzirá ao piso do quarto. Os nossos passos não ecoam, amordaçados pela alcatifa verde e azul. É muito curioso que tantas mulheres tenham fantasias com elevadores, mas poucas tenham coragem para avançar. É um dos mistérios que Freud deixou por resolver.

Ficamos no sexto piso, quarto 6. Já estive neste hotel umas vinte vezes, nenhuma das quais em férias. Ossos do ofício. Daniela vai até à casa de banho enquanto eu tiro o blazer e desaperto os botões da camisa. Está a ser tudo estranhamente lento.

Ligo a TV para ver o que está a dar no EuroSport. A esta hora olhar-se-á ao espelho enquanto responde a mais uma ou duas sms, penso eu. A porta abre-se. Daniela entra no quarto e a medo senta-se na cama. Pressinto uma conversa, antes de tratarmos do que verdadeiramente nos trouxe até ao sexto quarto, do sexto piso, do Hotel Fine Art.

- Quem é a noiva de amanhã?

A pergunta deixa-me espantado. De todas as conversas que já tive, e já tive algumas bem bizarras, nenhuma começou daquela forma. Saber qual a próxima cliente; qual a mulher que amanhã desempenhará o papel de Daniela. Vislumbro por momentos a minha agenda mental. Não vejo qual será o interesse de revelar a minha agenda, mas também não tenho motivos para não o fazer.

- Marisa, 23 anos, estudante de Medicina no último ano. – Abotoei dois dos botões da camisa. Não convém ficar enregelado enquanto conversamos e pressinto que a conversa se irá alongar.

- Então amanhã vais deixar-me pendurada no altar por causa de uma estudante? – Inquiriu Daniela enquanto tirava todo o som da televisão. Reparei que ela procurava qualquer coisa no meu olhar, mas fugi ao scanning. Se quisesse ser avaliado iria a um psicólogo.

- Sim, acho que se pode dizer isso. – Levantei-me da cama. A conversa estava a tomar um rumo descontrolado, mas até ali inofensivo. Tirei um cigarro do bolso e pensei começar a fumar. Lembro-me dos letreiros a vermelho e guardo o maço.

- Quem ficou hoje no altar? Sou a Outra de quem?

- Qual o interesse disso? Não é pela Outra nem pela de amanhã que estamos aqui. É pelo momento, pelo agora. – Disse eu, ansioso por encerrar aquela conversa. Já estávamos a ir longe demais.

- Gostava de saber. Nada mais que isso. – Daniela lançou-me um olhar cheio de ternura. Senti-me a desarmar e quando dei por mim estava tudo dito.

- Rita, 24 anos, designer de moda. Foi ela a Noiva de Ontem. – Volto a mexer no maço. Apetece-me ir até à varanda fumar todos os cigarros de enfiada, mas resisto ao impulso. As perguntas tinham que ficar por ali.

- Irónico, estou entalada entre a juventude. Eu, quase quarentona, entre duas miúdas. O meu passado e o meu futuro não são o meu presente. – Daniela levantou-se, pegou-me na mão e olhou-me bem fundo nos olhos. – Por quem esperas no altar? De que foges tu?

- Não sei se percebes, mas são vocês que ficam no altar da rotina à minha espera. Eu não espero por ninguém. – Argumentei num tom de voz mais ríspido, para transmitir o meu desconforto.

- Nem tu acreditas no que dizes, porque tenho eu que acreditar? – Daniela sorriu para mim provocadora.

Apeteceu-me bater-lhe. Puxar do cinto das calças e desfazê-lo no seu corpo. Inspirei bem fundo e larguei uma baforada de ar. O que eu não daria agora por um cigarro. Abotoei mais dois botões da camisa. O meu tronco musculado desapareceu entre o tecido da camisa azul; desliguei a televisão.

A conversa descarrilara e era impossível voltar ao que tínhamos sido. As palavras tinham violado o espaço; estripado violentamente o que nos unia. A princesa, virara outra coisa mais e eu não estava ali para qualquer outra coisa. Ou princesa, ou nada. Dou uma última oportunidade...

- Foi para isto que pagou? – Perguntei com a voz distante, tentando parecer imune às suas provocações retóricas.

- E se tiver sido? Se for este o meu prazer? – Daniela deitou-se na cama a olhar o tecto. Podia tê-la forçado a fazer o que quisesse, mas limitei-me a olhar o seu corpo. – E se eu tiver pago apenas para conhecer o seu altar? Para saber de quem é Noivo? Para saber desenhar o rosto de quem o deixou pendurado até hoje. – Daniela falava do que não sabia com tanta sabedoria. Noutros tempos, noutras circunstâncias, um enxerto de porrada calaria a sua voz, mas não abafaria os seus argumentos.

- Pois muito bem. Então se é assim, terminamos a noite agora. São 1.000€ e fica tudo resolvido. Boa noite!

Tinha que sair daquele quarto o quanto antes. Os demónios, que trancara no meu coração (é estranho, pensava não ter coração!), estavam de novo activos. Ansiavam pela oportunidade de atormentar a minha mente; turvar a lucidez frágil do meu espírito. Com um punhado de palavras Daniela disse que o dinheiro estava na recepção do Hotel. Nem me despedi; saí do quarto a correr. Entrei no elevador, pressionei seis ou sete vezes no “0”. O elevador demorou uma eternidade a chegar ao piso térreo.

Estuguei o passo na direcção do balcão de check in. Um envelope branco foi-me entregue pelo empregado. Contei dez notas de 100€, deixei uma ao empregado e chamei um táxi. Não contara voltar para casa tão cedo. Ia dormir na minha cama, por muito estranho que isso me parecesse. Há muito que não ansiava por retornar a casa e ficar por lá sozinho; longe de perguntas indiscretas.

A Vanessa ia ter muito que explicar. Subi as escadas devagar, tentando não me fazer ouvir. Do apartamento do Simão chegavam até à rua gritos eufóricos de uma das companheiras do estudante. Ao menos um de nós que tivesse sorte. Rodei a chave, a porta não chiou como esperei.

Tranquei-me em casa e corri para o chuveiro. Tinha que lavar o rasto inquisidor de Daniela da minha mente. Vanessa deixara mensagem no gravador. A Noiva do dia seguinte tinha desmarcado. Certamente nervosismo de última hora. Não era a primeira vez que me acontecia e, seguramente, não seria a última.

Deitei-me na cama, despertando a orquestra sinfónica da chiadeira. Fitei o tecto por segundos e, sem dar por mim, apaguei num sono profundo e vazio. Escuridão! No dia seguinte fui arrancado da cama pelo bater insistente da porta. Uma voz conhecida chamava pelo meu nome. Dormira com a roupa vestida, por cima dos lençóis. Apurei a audição. Era a Vanessa que chamava por mim.

Resmunguei algo para dar a entender que estava acordado. Levantei-me de uma vez da cama, com uma facilidade que me assustou. Fui até ao espelho compor o cabelo. Em passo lento fui até à porta. Vanessa entrou de rompante, sem pedir licença. Estava com o carimbo da preocupação estampado no rosto. Desviei o olhar, para que não lesse em mim a palavra “fracasso”. O que lhe teria dito Daniela?

[Continua...]