Thursday, March 16, 2017

A ilusão da vitória nos Países Baixos... ou o tapar do sol com a peneira!

Os Países Baixos foram a votos ontem, naquela que foi a primeira eleição de relevo no panorama político europeu, que conta ainda este ano com eleições legislativas na Bulgária, França, Albânia, Noruega, Alemanha e República Checa; eleições presidenciais na França, Eslovénia e Sérvia e eleições autárquicas em Portugal, Reino Unido, Estónia, Dinamarca e Finlândia.

A campanha eleitoral desde cedo que se polarizou entre o populismo de extrema-direita do PVV de Geert Wilders contra "todos os outros", encabeçados pelo VVD, de centro-direita, do Primeiro-Ministro Mark Rutte. As sondagens causaram arrepio em Bruxelas, quando de súbito o PVV aparecia como potencial vencedor das eleições.

Veio o dia do voto. Contaram-se os votos. Vieram os resultados. E perante os resultados deparo-me com um ambiente festivaleiro de celebração, em torno de um resultado que nada tem para ser celebrado. O Primeiro-Ministro diz que "foi vencida uma espécie errada de populismo", mas olhando para os números falho em ver isso...

O VVD ganhou as eleições, é um facto, mas desceu dos 26.6% alcançados em 2012 para os 21.3% (2017), o que se traduz numa perda de 8 mandatos: de 41 mandatos em 2012 para 33 mandatos em 2017. O PVV passa de 10.1% (2012) para 13.1% (2017), ou seja sobe 2% no voto nacional, conquista cinco novos mandatos (passando de 15 para 20) e torna-se na segunda força política.

Mais interessante, e pouco referido por muitos media onde falta investigação e por muitos analistas que não fazem "o trabalho de casa" (porque, lá está, dá trabalho!), é o caso do PvdA, parceiro de coligação do VVD que passa de 24.8% em 2012 para uns parcos 5.7% (perdendo 19.1% do voto nacional) passando de 38 mandatos para 9 mandatos.

Ora quando os partidos da coligação governamental, numa eleição que disputava 150 mandatos, conseguem perder 37 mandatos (cerca de 25% do total de mandatos em disputa) falho em perceber onde está a tal vitória. Com o actual cenário qualquer coligação governamental precisará incluir, pelo menos, quatro partidos para alcançar maioria simples (76 mandatos) no Parlamento holandês.

As negociações para formar a coligação governamental não serão simples, tendo em conta a pulverização de votos num Parlamento que passa a albergar 14 forças políticas, ao invés das 11 que ganharam mandatos em 2012. A "chave" para a coligação poderá estar nas mãos do GL que passou de 2.3% de votos para os 8.9%, ganhando 10 novos mandatos (passando de 4 para 14 mandatos).

É verdade que o PVV não vai formar governo, mas isso era um dado adquirido à priori. Todos os partidos com assento parlamentar e com bons resultados nas sondagens pré-eleitorais tinham já dito que não iriam estar dispostos a fazer coligação com o PVV. E nos Países Baixos governos de partido único são uma raridade.

A celebração pífia da tal grande vitória do VVD, lembra-me os festejos bacocos após a segunda volta nas eleições presidenciais na Áustria (Dezembro, 2016). Uma vez mais, a extrema-direita (agora apelidada de direita populista pelos media) não chegou ao poder... Mas o facto de ter chegado a uma segunda volta e de nessa segunda volta ter tido mais de 46% de votos tem que nos alarmar, mais do que tranquilizar.

Mas celebrem lá estas pequenas vitórias em Bruxelas e pela Europa fora. Ignorem o avanço significativo da extrema-direita (ou da direita populista). Entretenham-se com joguinhos de palavras nos media e depois fiquem pasmos quando um punhado governos na Europa da União forem tomados de assalto, pelo voto popular.


Monday, March 06, 2017

Notas sobre o simbolismo da final de críquete no Paquistão

A Associação de Estudantes do IBA convidou-me no sábado à noite para assistir, no domingo à noite, à final da Super Liga de Criquete do Paquistão (PSL). A final, que decorreu em Lahore, foi transmitida num ecrã gigante no anfiteatro do IBA... E para que tal evento acontecesse precisavam ter um docente presente, ou não teriam permissão da administração. A honra coube ao docente português (que nem segue a modalidade)!

As bancadas do anfiteatro estiveram sempre cheias e bastante animadas, enquanto eu ia tentando perceber um desporto que nunca me chamou a atenção. E após ver a final entre Peshawar e Quetta confesso que o desejo de saber mais sobre críquete é mínimo, ou nulo. Mas então porque aceitei estar presente na transmissão da final que decorreu das 18h até perto da 1h da manhã?

Porque esta final tinha uma importante dimensão simbólica. Voltou-se a jogar críquete profissional no Paquistão, após uma proibição legal imposta em 2009 na sequência de um ataque à selecção de críquete do Sri Lanka. O ataque, que vitimou 6 polícias e 2 civis, aconteceu a 3 de Março de 2009, antes de um jogo que iria decorrer mesmo estádio que agora recebeu a final da PSL este ano.

A proibição legal obrigou a alguma criatividade, num país que vibra tanto com o críquete como Portugal vibra com o futebol e os EUA com o basquetebol. A PSL passou a ser jogada nos Emiratos Árabes Unidos. Este ano a liga foi, uma vez mais jogada nos Emiratos Árabes Unidos, mas a final, por decisão do governo federal decorreu este ano em Lahore, no Estádio Qaddafi.

A decisão dividiu a classe política e a sociedade paquistanesa. De um lado os apoiantes do Primeiro-Ministro Nawaz Sharif (PML-N) e da tese da "normalização progressiva", que aplaudiram a iniciativa que convenientemente acontece antes das próximas legislativas que se disputarão algures em Março de 2018. A final de ontem foi uma vitória para esta ala.

Na outra ala, as vozes críticas com expoente máximo no líder do PTI (e curiosamente ex-jogador de críquete!), Imran Khan, e dos adeptos da tese do "estabilizar primeiro". Para esta ala a despesa colossal gasta com um dispositivo de segurança massivo (que levou, pelo menos, três anos a planear) criou ontem uma falsa sensação de segurança. Imran Khan disse mesmo: "com este dispositivo todo até na Síria podiam fazer a final".

As duas teses estão certas. O Paquistão precisa de fazer uma normalização progressiva da sua vida cultural e desportiva, mas antes disso precisa de estabilizar primeiro os sectores ecónomico-social e conservadores. A onda de atentados das últimas semanas, que culminou com o atentado em Sehwan, mais não foi do que uma reacção dos grupos ultra-conservadores que temem a normalização do país.

Porque o recrutamento quer para as várias facções dos Talibãs, quer para o auto-proclamado Estado Islâmico, quer para as milícias locais, é mais fácil se não houver esperança de que as coisas vão melhorar. Sem a passividade, induzida pela falta de esperança, do crente, que aguarda que a fé e a oração mova os problemas em passe mágico, estes grupos perdem muito do seu poder magnético.

Foi isso que o Primeiro-Ministro do Paquistão tentou contrariar com a organização da final de ontem, que (dizem os fãs da modalidade) não foi especialmente entusiasmante do ponto de vista desportivo, mas que do ponto de vista simbólico criou uma onda de optimismo pelo futuro próximo que é importante saber utilizar nos tempos vindouros.

A final sem incidentes de segurança foi um prémio também para o exército, que atravessa uma fase de lutas interinas pela manutenção de cargos; pois a chegada de um novo Chefe das Forças Armadas cria sempre oportunidades e ameaças. A final foi assim um momento de rara união nacional, que é preciso saber valorizar, até porque lá para o final do ano entramos em pré-campanha eleitoral...

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Thursday, March 02, 2017

55 túlipas e igual número de beijinhos...

Cheguei à residência pertinho das 19h. Depois de mais de três horas de aulas a falar de Partidos Políticos e Sistemas Partidários o que mais me apetece é descansar, mas antes tenho ainda uma aula para preparar, alguns emails para enviar e tenho que ir até à passadeira. Lá vou correr para parte nenhuma, desafiando-me apenas a mim...

Deixo que a voz da Mariza ecoe pelo quarto, enquanto me preparo para ir transpirar o stress. E no silêncio sonoro do meu quarto vens-me à memória. Estiveste todo o dia no meu pensamento, mas agora que resto apenas eu o silêncio, a memória torna-se mais vivida, intensa, quase real. Penso em como terás acordado cedo, quase duas horas antes de saires de casa.

Talvez tenhas aquele pijama roxo fofinho, que por esses lados ainda as noites são frias. Terás acordado, e talvez feito duas ou três rondas do "Palavraz". Até que o Bob, algures escondido acorde, e te comece às lambidelas. Consigo quase imaginar-te a levantar, colocar o pijama e dizeres com a tua voz doce: "Bob vamos à rua". Mais rápido que uma flecha, o Bob segue para a porta com o entusiasmo do passeio matinal.

Ana Moura termina de cantar. Olho as horas. Passam dois minutos das 19h. Reconheço a voz da Carminho. E volto às memórias, que nunca me abandonam. Irás passear com o Bob, enquanto pensas no que deixar para o almoço da Inês e talvez no que fazer para o jantar, que não devias ser tu a preparar. Sorrio. Pensas sempre primeiro nos outros e depois nos outros... e só depois em ti!

Quase aposto que após o passeio matinal, segues para a casa. E enquanto o Bob mordisca a sua comida, ou ataca o sofá, tu vais-te arranjando e deixando tudo pronto. Se for preciso abdicas do teu pequeno-almoço, para ter um almoço do qual não desfrutarás pronto. Filomenices... Antes de saires deixas um bilhete com instruções, assinado com o teu ternurento "Mãe Mena".

Fecho a porta do quarto, coloco os auriculares para terminar de ouvir António Zambujo. Sigo para a zona de exercícios na residência. E penso como terás beijinhos de parabéns das colegas, de alguns papás e de algumas mamãs e talvez até dos meninos e meninas da tua sala. E se não tiveres são eles que mais perdem... E depois segues para casa, para preparar um jantar para que te celebrem.

A Inês virá do trabalho com fome, a Catarina cansada, e o Bob andará em busca da generosidade alheia. E terão sorrisos, e conversas e talvez fotos. E chegará o bolo e o Parabéns a você. Virão presentes e flores e beijinhos e se a coisa se proporcionar café e digestivo. E depois ficas tu a limpar a tua festa, que tu organizaste. E fico eu, aqui, longe mas sentindo-te perto.

Sinto as lágrimas, três ou quatro, escaparem dos meus olhos e rolarem pelo rosto. Não estou triste. Estou longe, é certo, e não estarei aí para te dar as merecidas 55 túlipas, talvez da cor do pijama fofinho com que acordaste de manhã... Mas estou contente, saudoso, mas contente. Porque destes 55 ciclos fiz parte de 30 e pude aprender e crescer contigo.

Mais uma lágrima rola pelo rosto, mas estou feliz. Porque hoje celebro-te de longe, sem o toque da pele na pele, mas com os sentimentos de coração para coração; mas sei que no Verão te poderei celebrar de perto. E beberemos chá no final da noite, com bolo caseiro feito por ti, enquanto vemos uma qualquer série ou filme.

O teu dia não é hoje, mas sempre. Porque todas as noites te desejo boas noites e todas as manhãs te digo bom-dia, mesmo que quase sempre sem palavras. Porque no silêncio o som das palavras perde-se, mas a vibração dos sentidos fica. Porque hoje celebramos os 55 ciclos já completos, mas amanhã e depois e depois e depois celebramos-te apenas a ti: PARABÉNS MÃE!