Friday, December 26, 2014

Finda o ano e finda um ciclo...

Estou aqui há 362 dias. Cheguei 11 Setembro do ano passado. Ia começar a minha primeira experiência como Leitor a tempo integral e investigador a tempo parcial. Vinha cheio de sonhos, de planos, de expectativas e também desiludido com o meu país que me vira sair quase sem lutar para que eu ficasse.

Cheguei a 11 de Setembro de 2013 mas não estive sempre por aqui... Conferências no Qatar, na Sérvia, na França, em Portugal, no Reino Unido e na Grécia levaram-me temporariamente para outras paragens. Férias em Portugal também pararam a contagem dos dias vividos nas terras que já foram Otomanas e que hoje, a 26 de Dezembro, somam 362...

Em 362 dias aprendi muito. Mudei de estatuto (de Leitor para Professor Assistente); ganhei amigos, inimigos e conhecidos; fui desafiado a ensinar coisas que, primeiro que tudo, tive que ensinar a mim mesmo; fui testado na capacidade de ser criativo, quando existem muitas dificuldades e poucas soluções. Em 362 dias aprendi muito. É só o que consigo dizer, pelo menos, por agora.

E com 2015 a chegar seria normal que dissesse que "espero que a aventura continue a sua rota positiva", mas a aventura não continua... Ou melhor, continua mas não aqui. Aos 362 dias sei que no 365º dia estarei a aterrar em Lisboa, para depois visitar amigos em Abrantes, Lisboa, Coimbra e Porto. Sei que ao 365º dia voo para encerrar um ciclo: o ciclo turco!

E depois das visitas, de rever rostos, de contar e ouvir estórias, de partilhar sorrisos e lágrimas em redor de um bom vinho (ou de um bom gin!), sei que a aventura seguirá para Norte. Em 2015 lanço-me no ciclo finlandês! Fui desafiado a arriscar e saltar para um novo projecto e decidi aceitar o risco. E assim quando o ano finda, finda também um ciclo.

Uma conversa de táxi em Doha; uma reunião informal num bar de piscina às 3h da manhã; um anel oferecido num aeroporto; um projecto via on-line; várias conversas via skype e de súbito dei por mim, pela primeira vez, a poder escolher onde me completar enquanto profissional. A continuidade turca, que muito me aprazia, ou o desafio nórdico, que me deixou curioso.

Não é um adeus definitivo à Turquia, da qual guardo boas memórias, mas um adeus por agora... Porque, por agora, a Finlândia chama e desafia-me. E eu gosto de desafios. Não sei se mudo para melhor, mas sei que mudo para diferente. E é isso que procuro agora: o diferente. É um fim de ano, e fim de ciclo, a saber que o novo ano traz ciclo novo.


Friday, December 12, 2014

Memórias de uma Garrafa de Champanhe (3/3)

[continuação]

Uma voz forte salvou-me. O Sr. Marquês, soube-o depois, interveio a tempo. O meu corpo regressou à caminha de madeira e fui colocada, uma vez mais, ao lado do vinho do Porto. Respirei de alívio! O vinho do Porto saudou-me pela coragem, pelo modo elegante como eu me entregara ao fatal destino.

Corei, ou borbulhei, pensando que fora o medo e não a elegância a impedir qualquer reacção. Os whiskies silenciaram a cacofonia de piadas sem gosto. Os gins sussurraram baixinho algo imperceptível, mas que seria algo maledicente sobre mim… Só podia, vindo daquele grupinho de bebidas transparentes com vontades opacas!

O vinho do Porto e eu aproximámo-nos após o incidente. Aos poucos ele partilhou comigo as estórias da sua origem. De como era lindo o Douro de Portugal. Das vinhas sulcadas na terra; dos beijos do sol; dos rios que dançavam lá ao fundo; das vozes alegres das mulheres na vindima; das esperanças que punham em si.

Aos poucos entendi como o vinho do Porto espelhava a alma de um povo alegre, batalhador e sem medo de cantar perante adversidades. Tenho a dizer que o orgulho em ser francesa se esbateu.

Vários séculos de História tinham-nos dado presunção, pompa, um orgulho fátuo e pouco mais; enquanto este povo, os criadores deste vinho do Porto, tinham-se realizado mundo fora, tinham-se cumprido enquanto gente e poderiam fazê-lo de novo. Era apenas uma questão de quererem! Uma questão de acordarem de novo…

No meio das palavras do vinho do Porto fui-me acomodando e, pela primeira vez, senti-me em casa. O conforto de me sentir em casa durou pouco tempo. Não tardou a que uma segunda tentativa furtiva ameaçasse a minha placidez existencial. Um sobrinho do Marquês, zangado com o tio, tentou roubar-me para me levar com ele. Fui encapuçada num grosseiro saco de serapilheira.

Tentei reagir mas o medo, e o facto de estar na mesma prisão que o vinho do Porto, silenciou-me. A passos largos fomos percorrendo as divisões e os meus planos de glória foram-se esbatendo, como as cores de uma tela esquecida no jardim e regada pelos aguaceiros da manhã.

Uma vez mais o previdente Marquês salvou-me de um desfecho impróprio. O saco foi aberto e enquanto gritos e palavras menos simpáticas (bem ao gosto dos whiskies) preenchiam a casa senhorial, eu e o vinho do Porto voltámos para o nosso armário.

Nessa mesma noite um dos gins foi levado e nunca mais voltou. Os seus “companheiros” zombaram do seu azar, ao invés de mostrarem qualquer sentimento de mágoa pela sua partida. Aprendi com o meu querido vinho do Porto, que este povo que me acolheu diz que “há terceira é de vez” e no meu caso comprovou-se.

O terceiro a rondar o armário onde as bebidas repousavam foi o Marquês em pessoa. Retirou-me, quando trazia na mão duas belíssimas floutes vindas de Flandres. Não tardou a que música enchesse o salão senhorial e vozes simpáticas enchessem aquele espaço.

Era o meu momento de glória; momento de poder brilhar. Avistei numa mesa mais ao fundo o vinho do Porto, rodeado de admiradores que lhe prestavam o devido tributo. Lembrei-me do que aprendera nas caves francesas e aprimorei o dourado da minha bebida.

Relembro que era final de tarde. As conversas simpáticas, que se formavam nos lábios daquela gente bem vestida e sempre sorridente, preencheram-me. Estava pronta para ser útil; porta para sensações requintadas e que apenas a memória gustativa e o cérebro poderiam reter.

Com delicadeza a rolha deslizou e um “pop!” anunciou-me ao mundo. De começo, apenas duas pessoas me experimentaram, mas vários clarões (semelhantes aos trovões em noite de tempestade) registaram o momento.

Escorri suave para as elegantes floutes da Flandres e depois para os delicados lábios da Marquesa e os fortes, mas suaves, lábios do Marquês. Por um segundo senti-me completa; única; inteira; existente.

E logo depois tudo se estilhaçou, com a velocidade de uma gazela em fuga na savana. Metade do meu precioso líquido foi dividido em impróprios copos de whisky por uma vintena de convidados. A festa, tal como o sol, sumiu…

Vieram empregadas de limpeza; conversas sobre as conversas; agitação no salão como se um ciclone se tivesse formado ali. O vinho do Porto foi posto num saco negro e deixei de o ver. Eu fui agarrada, sem jeito e sem graça, pelos dedos gordurosos de um mordomo.

As floutes seguiram comigo o mesmo caminho. Num instante estava no salão dos Marqueses e no momento seguinte, qual eclipse, fui fechada no sótão. Fui tornada em algo dispensável. A imperatriz virou nada; grão de pó nas memórias dos meus senhores; partícula infinitesimal das suas vidas.

E aqui estou… No meio de outros tantos objectos, envolta numa camada de pó, na companhia pouco excitante das floutes da Flandres… Aqui estou sozinha com as minhas memórias, enquanto me apago de cada vez que o relógio de pêndulo soa… Aqui estou…

FIM

Wednesday, December 10, 2014

Memórias de uma Garrafa de Champanhe (2/3)

[continuação]

Fomos todas encaminhadas para os nossos destinos exóticos. A primeira de nós a deixar a loja foi encaminhada para casa dos Duques de Milão. Embora os automóveis fizessem furor entre os nobres da Europa, lembro-me que foi uma pequena carruagem que balançava desajeitadamente a vir reclamar o prémio dourado.

O som das rodas de madeira a embaterem nos ladrilhos é a última memória que tenho. E dois dias depois chegou a vez dos Marqueses de Lille receberem o glamouroso néctar nascido na escuridão de uma adega francesa.

Três das imperatrizes remanescentes partiram umas semanas depois para a corte austríaca, mas só uma chegou ao destino. Ouvi rumores de que no caminho uma das borboletas de ouro líquido borbulhante seguira para o Império Alemão, para casa de um príncipe qualquer da Saxónia.

A outra imperatriz partilhou a sua magia pelas ruas de Budapeste, desviada pelas mãos de um serviçal ganancioso ávido de sentir a textura refinada do melhor champanhe. A rudeza das suas pupilas, porém, levou a que cuspisse a primeira golada e oferecesse cada gota de luxo aos seus cães acossados por um surto de carraças.

A terceira chegou em pompa à corte austríaca e deleitou-se com os prazeres da corte, até ser aberta num banquete de embaixadores. A sua existência provada pelos bigodes farfalhudos de dois austríacos, um russo, um alemão, um romeno e um turco que em amena cavaqueira falaram do mundo como se fosse um recreio.

A sexta garrafa não chegou a sair de Paris. Acompanhou duas aventuras do seu senhor e morreu na terceira, por entre o suor de braços entrelaçados e gemidos que prometiam um amor eterno que durou seis dias e algumas horas.

A sétima das irmãs viajou durante meses até chegar à corte russa, como presente de um nobre georgiano para o czar Nicolau II. Eu fui a oitava a ser adoptada. Só espero que as restantes tenham tido tanta ou mais sorte do que eu, pois perdi-lhes o rasto. Tive como destino Portugal.

A casa senhorial dos Marqueses de Abrantes, com moradia em Lisboa (vá-se lá perceber estes humanos!), esperava por mim. Uma soirée qualquer seria o meu destino, mas por culpa do destino e da incompetência de um dos serviçais cheguei atrasada. Fui arrumada com cuidado ao lado da cristaleira, junto a uma série de whiskies, gins e uma meia garrafa de brandy.

Não fui retirada da minha cama de madeira, mas abriram-me o vidro. Melhor seria que o tivessem deixado ficar. As conversas dos gins até que eram interessantes de se ouvir, sempre com um toque de urbanidade que me aprazia. O problema, o inconveniente diria eu, eram as tiradas nada cavalheirescas dos whiskies, com comentários mais próprios de uma taberna quinhentista, do que de uma casa nobre em pleno século XX.

Confesso ao leitor que fiquei espantada. Nunca imaginara que uma bebida bela, de tez dourada, armazenada num elegante vestido de vidro muito trabalhado, pudesse ser tão rude. Se entrava uma donzela no salão onde estávamos choviam piropos e impropérios que eu era obrigada a ignorar. 

Interroguei-me demoradamente se eles (os animalescos whiskies) estariam embriagados na sua própria essência, mas logo descobri que assim não era. Fazia parte da sua genética aquele palavreado grosseiro, rude, quase pré-histórico. Não eram mais do que homenzinhos das cavernas envoltos numa capelina de ouro e com sapatos de Milão.

Os gins mostraram-se corteses no trato. Todas as suas frases um puzzle bem construído de sentidos, que a tempo descobri ser um labirinto. Não era civilidade o que neles via, mas apenas um logro de mentiras e enganos. Procuravam mostrar o outro como ilógico, inferior, incapaz.

Os gins provaram, a seu tempo, ser uma bebida sem alma; copiando o comportamento de quem os bebia. Fazendo joguetes sociais a toda a hora. Construindo armadilhas e ratoeiras entre si; zombando da inferioridade dos whiskies e do silêncio do brandy.

Queria falar com o brandy, saber como era, o que sentia, de onde viera, mas nem um só som saiu da sua garrafa. O líquido foi sendo esvaziado e um dia a garrafa não voltou. Tardou pouco a que fosse substituído pelo alegre vinho do Porto.

Os gins logo votaram o simpático vinho do Porto ao isolamento e os whiskies excluíram-no das suas conversas impróprias. Sobrávamos apenas nós e, com a naturalidade do movimento pendular dos dias, fomos fermentando uma amizade.

Poucos dias depois do vinho do Porto ter chegado, rondou junto a mim a primeira ameaça. O filho mais velho dos Marqueses abriu o armário e passou os seus dedos grossos, suados, nada próprios de um nobre (pensei eu!), pelo meu delicado vestido de vidro.

Ouvi-o murmurar planos de como seria perfeita para “colher a flor” da sobrinha do Rei. Ao perceber o propósito que teria tremi horrorizada, enquanto os whiskies gargalhavam em histriónica sinfonia. O vinho do Porto manteve a postura de cavalheiro (para um vinho, claro está!) e não esboçou uma emoção.

Senti o meu corpo sair da cama de madeira. Estava perto o apocalipse para mim; o sacrifício em tributo aos prazeres da carne; um matadouro nada honroso e longe dos planos que eu fizera. Duas gotas de suor pingaram da testa do jovem para o meu corpo.

Era aquilo o meu final. Seria envolta num mar de suor, enquanto gemidos lancinantes destruiriam a pouca dignidade que me restaria, após ser grotescamente bebida em pecado e não num pomposo convívio social.

[continua]


Monday, December 08, 2014

Memórias de uma Garrafa de Champanhe (1/3)

Fui abandonada no sótão em Outubro de 1910. Brasões caíram comigo e o azul e branco gravados na mais macia seda foram tingidos de verde e vermelho. Estou aqui, sozinha e empoeirada. Perdida no sótão desta casa de gigantes.

Relembro memórias do que fui e do que podia ter sido, abrindo-me em simplicidade ao gentil leitor, quando julgava não ter nada mais para servir. Por companhia tenho duas floutes de champanhe, mandadas vir da Flandres. Uma delas está rachada e a outra sem brilho. Não as ouço murmurar sílabas finas e harmoniosas há algum tempo; há muito tempo.

Flandres deve ser um sítio soberbo para se nascer e viver. O que não teria dado para ir para Flandres. Coisas que uma garrafa de Champanhe não pode mudar, caro leitor. Mesmo assim, gostava de saber como seria tratada em Flandres. Estaria remetida a um escuro sótão? Seria apenas memória frugal de um qualquer álbum fotográfico perdido?

Em boa verdade, não importa. Agora nada mais importa. Em tempos nós as três fomos o orgulho da Família. E agora… Restará de nós, deste trio tão frívolo quanto necessário, uma breve imagem mental e quatro ou cinco fotografias esbatidas. Eu não nasci, não me criei para estar sozinha. Não foi para isso que me venderam, por mais de dez contos de réis.

Sou chique! Importada! Champanhe francês. A Rainha das bebidas. Sim, todo o champanhe deste mundo (e quem sabe também do seguinte!) é feminino. Algum homem, algum ser ou animal masculino, poderia ter o brilho que nós temos? Eles nem se maquilham propriamente nos dias que correm! Não, não, não. Se é champanhe é feminino. Se é masculinidade, imbecil virilidade, que procurais numa bebida gentil leitor, olhai então para o borbulhoso espumante.

Espumante. Esse traidor masculino, que pelo preço baixo e por um fingimento torpe nos rouba os lábios de muitas donzelas amigas. Quantas festas se regaram de grosseiro espumante, dizendo-se beber o mais delicado dos champanhes. Não me interprete mal gentil leitor, mas os humanos tendem a deixar-se iludir com demasiada ligeireza. Confiam em demasia nos sentidos. Não duvidam, não se interrogam, não questionam, não exploram…

Não se ria assim. Pensa, com justeza, o que poderei eu, uma garrafa de champanhe vazia e empoeirada, saber sobre as coisas do pensamento humano. Muito pouco, é certo. Mas sei o que é pensar; o que é duvidar e explorar. Ou acredita mesmo que o champanhe se faz simplesmente por processos ancestrais de destilação e voilá! Une magnifique boteille de champagne!

Não! O champanhe dúvida da sua essência; da sua existência; da sua aparência. Estou a ficar dourada. Mas e se aclarasse a cor? Estou a ganhar gás. Mas e se aligeirasse na efervescência? Estou a ficar apetitosa. Mas e se eu quisesse ser melhor? Ser única e irresistível?

Envolvo-me nas sombras das adegas onde me preparam; mergulho em dúvidas e medos até terminar a minha metamorfose. Não me transformo de hedionda larva para resplandecente borboleta, mas faço uma metamorfose no meio de esplendor e do encanto das adegas sombrias.

Voltemos ao que eu dizia… Saí da loja em 1900. Fui acomodada numa caixa com o cuidado de quem repousa uma criança. No meu ano fomos poucas as que conseguimos transformar-nos em borboletas de beber. Algo estranho, segundo ouvi, uma miasma qualquer, destruíra aquelas que podiam ter sido minhas amigas, que podiam ter viajado mundo fora como eu.

E por sermos tão poucas, tão raras, fomos tratadas como imperatrizes e não como as princesas que somos. A minha cama de madeira era quente e confortável, um paralelepípedo sem imprecisões, no qual encaixava um vidro transparente e fino como papel.

Alinharam-me ao pé das outras imperatrizes, doze garrafas reluzentes, aliás treze garrafas reluzentes que logo passaram a doze por a décima terceira ter-se estilhaçado no chão.

Um descuido do lojista e um pequeno encontrão do pequeno Louis, que ficou de castigo dois meses depois de três bofetadas vigorosas, saldaram-se numa tragédia que se espalhou freneticamente pelo chão da loja. Algumas de nós borbulhámos de pavor não fosse aquele destino estender-se a todas.

Estava pronta para ir para a montra, engalanada na minha cama de madeira e vidro brilhante, mas em vez disso fui embrulhada em papel castanho. Nada que me tivesse apanhado de surpresa.

As doze imperatrizes... Desculpe-me o leitor pelo percalço... As doze garrafas de champanhe seguiram todas para os seus destinos, mas nem uma única ficou na montra. Nesse ano, em que o mundo gregoriano entrou no século XX, foi o traidor espumante quem figurou, todo lampeiro, na vitrina da loja.

[Continua...]


Friday, December 05, 2014

Revisionismos, egos e um Sultão sem Império

Recep Tayyip Erdoğan, Presidente da Turquia desde 28 de Agosto de 2014, tomou o gosto pelo revisionismo histórico e pelo mediatismo "escandaloso-ó-populista". A primeira estocada foi a declaração de que teriam sido os navegadores muçulmanos a encontrar a América primeiro, em 1178, e não Colombo em 1492.

Sendo quase certo que Colombo não foi, de facto, o primeiro a pisar a América, a maioria dos indícios apontam para para os Vikings (oriundos da Islândia), que tanto quanto sabemos passaram do paganismo politeísta ao Cristianismo monoteísta. Existem até indícios do estabelecimento de uma colónia viking, no Canadá, no começo do século XI que terá sido abandonada antes do final desse mesmo século.

A teoria do Presidente sustenta-se nos escritos do historiador Youssef Mroueh, que em 1996 publicou um artigo onde cita uma passagem do diário de Colombo como prova de que os muçulmanos teriam chegado à América primeira. A maioria dos historiados islâmicos não segue este teoria. E curiosamente, não existem vestígios de qualquer construção islâmica pré-Colombo no continente americano. Mas sobre isso, o Presidente não quis falar...

As críticas ao Presidente da Turquia, por vários académicos turcos e por ainda mais académicos, analistas e políticos internacionais, não se fizeram esperar. Como resposta, Erdoğan falou em crises de ego e decidiu apontar o dedo a todos os que não o seguem. Numa retórica meio violenta, alegou que "os estrangeiros dentro de nós" (isto é, os turcos pró-Ocidente) e os "demais estrangeiros" (isto é estrangeiros, como o Fidalgo, a laborar na Turquia) não gostam da Turquia.

Foi mais longe e chegou mesmo a dizer que "eles não querem saber se as nossas crianças morrem. Eles apenas se preocupam com dinheiro", alinhando na visão, partilhada pelo seu recente novo amigo Vladimir Putin, de um Ocidente decadente, sem valores, sem moral e sem quaisquer interesses para além do dinheiro. A ideia é simples, a Turquia (baluarte da moralidade e dos bons-costumes) está a ser penalizada pelo amoralismo Ocidental.

O Presidente não se contentou e revelou, dias mais tarde, que os norte-americanos nunca tinham pisado a lua, que tudo tinha sido encenado, alinhando com os seguidores das teorias da conspiração que negam a chegada à lua de Armstrong. O Presidente, uma vez mais, foi mais longe e falou numa "pasta negra com os segredos do mundo" que todos os Presidentes e Primeiros-Ministros recebem após as eleições.

E o Fidalgo questionou-se: então e os monarcas não recebem a dita pasta? E os Presidentes que chegam ao poder por via do golpe de estado, como será que se processa? O revisionismo histórico, de per si, tem pouco de novo; Portugal andou anos a tentar querer "vender" uma narrativa de auto-glorificação, em muitos casos, exacerbada. Mas o revisionismo histórico, temperado com teorias da conspiração, e com uma retórica ultranacionalista é perigoso...

O Presidente Erdoğan parece ter assumido que é sua missão aprofundar o plano começado por Kemal Atatürk de turquicização da Turquia. Após o colapso do Império Otomano, Atatürk culpou o multiculturalismo pela queda do Império e pelo "esmagamento dos turcos" perante as forças estrangeiras. O resultado foi a construção de uma narrativa auto-centrada que valoriza apenas e só as vitórias conseguidas por turcos, relativizando tudo o resto.

Este desejo de glorificação da nação Turca como centro do mundo explica os comentários do Presidente Erdoğan, de que os alunos turcos conhecem demasiados autores estrangeiros e de menos autores turcos e muçulmanos. A ideia é a Turquia, que em regra geral desconhece tanto o que se passa no mundo, se fechar ainda mais sobre si mesma. A ideia não está condenada ao fracasso, mas condenará a Turquia a fracassar...

E depois de tudo isto, anteontem, o Presidente Erdoğan (que se comporta cada vez mais como um mau Sultão sem império) achou por bem clarificar que "a vida da Turquia decide-se aqui, no palácio", referindo-se ao novo e faraónico palácio presidencial com mais de 1000 quartos e envolto em inúmeras polémicas.

Erdoğan, com poucas palavas, colocou o Primeiro-Ministro no seu lugar de subserviência e enfatizou a sua missão de decisor central da política da Turquia. Talvez esteja para breve a adopção de um título sonante, como o fez o anterior Presidente do Turquemenistão quando se auto-entitulou de Turkmenbashi (pai dos turquemenos).

O Primeiro-Ministro acatou a ordem. E ontem decidiu alinhar com o Presidente, nas "novas" teorias sociais. Se o Presidente diz que a igualdade de género é anti-natural, porque as mulheres são frágeis; o Primeiro-Ministro acrescenta que as taxas de suicídio nos países Nórdicos (economias avançadas) se devem à igualdade de género... Os estudos apontam como razão mais provável questões climatéricas, mas o Presidente e o Primeiro-Ministro da Turquia sabem mais do que os estudos!

É interessante notar que esta necessidade de afirmação de poder e a necessidade de construir grande para "o mundo ver" revelam um homem complexado consigo mesmo e que, por isso, ataca os outros que o atacam. A Turquia que não votou em Erdoğan temia que a sua eleição levasse à emergência de um neo-convervadorismo pan-turco-islâmico e, até ver, parece confirmar os seus temores.

É intrigante constatar que o líder do partido (AKP) que chegou ao poder, após um período marcado por instabilidade governativa e golpes de estado, prometendo modernidade, progresso e uma viragem pró-Ocidente, se vire agora contra o Ocidente. É indicativo disso mesmo que a primeira visita de Erdoğan após a eleição tenha sido ao Azerbaijão e que o seu mais recente aliado seja a Rússia.

Talvez Erdoğan tenha percebido que a luta contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria está a trazer a agenda curda de novo para a ordem do dia. Ou talvez tenha percebido que a questão do Chipre terá que ser resolvida o quanto antes, sob prejuízo de qualquer futura decisão excluir totalmente os intentos de Ankara. Ou talvez atravesse apenas uma crise de meia-idade, que ameaça arrastar o país para uma crise de legitimade...

Curiosamente, até agora, a União Europeia manteve-se silenciosa sobre as diatribes do Presidente com tiques de Sultão. A União Europeia, sempre tão vocal com o Presidente da Sérvia e tão atenta aos desenvolvimentos na Rússia e na Bielorrússia, achou por bem silenciar-se... Como de resto também costuma fazer com o Azerbaijão e até com a Geórgia. Parece que às "mulheres da UE" basta parecer querer ser pró-UE...