Saturday, January 24, 2015

"Ode a um Mundo Sem Ética" ou de novo a FCT...

Fiquei anteontem a saber que, uma vez mais, não consegui a Bolsa Individual de Pós-Doutoramento da FCT. Desta vez contudo existem algumas nuances, naquele que vai sendo um tango entre quem quer fazer Ciência em Portugal (os investigadores) e quem quer destruir a Ciência em Portugal (a FCT).

Nuance 1: fui excluído do concurso por questões administrativas. Recebi um email a avisar das irregularidades administrativas a 10 de Novembro. No mesmo são me dados 10 dias para me pronunciar. Respondi a 11 de Novembro. Ainda aguardo resposta da pronúncia em causa...

Nuance 2: pela primeira vez estou pouco desapontado. Talvez por não ser a primeira vez que passo por isto, ou simplesmente por ter aceite o facto de que amar o país e vergar-me a quem o governa são coisas diferentes e distintas. Amo Portugal mas, já percebi, que por agora terei que trabalhar fora do meu país para me poder realizar

Nuance 3: Porque partilho então o texto enviado à FCT e que nunca teve resposta? Porque queria que isto não acontecesse a investigadores sem oportunidade de "dar o salto". Porque gostaria de ver as instituições competentes, o tal Ministério da Educação ou a Comissão Parlamentar para a Educação, Ciência e Cultura, tomarem medidas para impedir a delapidação do frágil edifício científico que se tentou construir em Portugal.

Nuance 4: Não conto voltar a concorrer, no próximo concurso (que abrirá este ano, lá para Junho/Julho) de atribuição de Bolsas Individuais da FCT. Porque existe um limite de decência e auto-respeito que ainda tenho e do qual não abdico. Entendo que o tempo é para "poupar" e "cortar", mas boa-educação, honestidade, ética e profissionalismo não custam nada...

Caro Paulo Pereira
Vogal do Conselho Diretivo da FCT,

Este email vem na sequência do email recebido ontem, no qual fui informado que “a FCT concluiu que a candidatura por si titulada, supra identificada, não reúne as condições de admissibilidade necessárias à sua avaliação, pelo que propõe que a mesma seja excluída do Concurso com fundamento no seguinte: Não foi realizada a associação do orientador científico à candidatura” e que teria 10 dias úteis para me pronunciar sobre a decisão comunicada.

A decisão em causa não estando formalmente errada carece de rigor e demonstra má-fé, para não dizer pior, pela parte de quem avalia as candidaturas na FCT. É verdade que o candidato parece não apresentar qualquer Orientador, mas também é verdade que apresenta dois co-Orientadores.


Ora numa situação destas, e já me aconteceu algo semelhante num concurso para Itália e num outro para a Noruega, a instituição decide à priori pela exclusão do candidato, em vez de se questionar se não terá havido um lapso e se um dos co-Orientadores não será, de facto, Orientador.

Após ter conversado com um dos Co-Orientadores que lacraram a associação ao meu projecto fiquei a saber que a plataforma, no momento de lacrar a candidatura, apresentava apenas a opção co-Orientador. Ora um erro técnico da plataforma não deveria, tem em crer o candidato, levar à exclusão do proponente.

O candidato avança na sua Candidatura, no ponto 5 – Condições de Acolhimento, o nome do Orientador e do Co-Orientador e os mesmos nomes coincidem com os nomes dos dois Co-Orientadores que lacraram a sua associação ao projecto. Uma análise séria da candidatura teria detectado isso e teria deduzido que se estava perante um lapso sobre o qual o proponente deveria ser inquirido, antes de ser proposto a exclusão.

O candidato teve sempre presente que um projecto que se propõe a explorar a dinâmica da construção de Estados na região do Vale de Fergana, no coração da Ásia Central, teria poucas hipóteses de “sobreviver” ao processo de análise da FCT. Mas o candidato quis acreditar que o processo seria dotado de rigor, objectividade e espírito crítico (na versão completa do termo).

Sabemos que os tempos pedem contenção, e que “cortar” está na ordem do dia, mas contenção não deveria ser sinónimo de falta de rigor e de clara má-fé por quem conduz o processo de avaliação das candidaturas às Bolsas Individuais de Doutoramento e Pós-Doutoramento 2014.

Quando uma instituição se escuda em formalismos, como mecanismo de corte, algo está errado. Quando uma instituição de promoção da Ciência é incapaz de perceber que a formalidade é um mecanismo facilitador e não castrador do processo científico, algo está muito errado. É por razões como esta que Portugal se tem mostrado incapaz de reter a sua, ainda embrionária, comunidade científica.

Aguardo uma resposta da Vossa parte.

Atenciosamente,
Tiago Ferreira Lopes


Monday, January 19, 2015

Carta a um ex-professor de Educação Física

Olá Nuno,

Acho que já o posso tratar assim, pelo primeiro nome. Arrisco ao trato no primeiro nome, mas não ao trato por tu. Acho que "fulanizamos" demais pelas terras de Cesário Verde e de Lídia Jorge. E por isso trato-o pelo primeiro nome, mas mantenho o respeito e a dignidade do "Vós", por vezes transformado em "Nós" majestático. Disperso-me...

Olá Nuno. Se me dissessem, no ano lectivo de 2002/2003, que em 2015 estaria a escrever esta carta gargalharia por certo. Se a pessoa insistisse na afirmação, acabaria por acenar em negação e perguntar se a pessoa se estaria a sentir bem. Mas em 2015 não escrever esta carta é que seria irrazoável. E por isso escrevo-a.

Por certo terá apenas fiapos de memória das aulas que me deu. Ao passo que eu lembro-me de imensas coisas. É sempre mais fácil para o aluno que num ano tem um professor, do que para o professor que num ano tem dezenas, ou centenas, de alunos. E para os lados da 24 de Julho, em Lisboa, existe quem queira que sejam milhares de alunos por ano, para um professor... Mas não divaguemos...

Lembro-me de como as aulas de Educação Física eram um misto de tormento e resignação. De como apareci em quase todas, se não mesmo em todas. De como refilei, protestei, pastelei em quase todas, se não mesmo em todas. E de como acabei sempre por participar em quase todas, se não mesmo em todas. Refilava muito, é certo, mas ia fazendo.

E ia fazendo porque o Nuno não desistia. Era talvez o mais "complicado" dos rapazes da turma de Humanidades. Enquanto os meus colegas faziam tudo e queriam mais e mais, eu fazia os mínimos e queria menos e menos. E assim que o Nuno virava costas, a corrida tornava-se em passeio. E assim que o Nuno virava costas os exercícios frenéticos abrandavam automaticamente.

Não me lembro de parar, mas não digo que não o tenha feito. A memória por vezes pode ser traiçoeira. Lembro-me como o Nuno, no segundo período, me disse uma coisa que me ficou na cabeça: "Tiago não quero fazer de ti um desportista, mas não quero que desistas". Na altura devo ter pensado, de mim para mim, algo como: "Não preciso destas macacadas para nada"!

Mas a frase ficou gravada. Essas treze palavrinhas ficaram marcadas. E desde então lembro-me delas sempre que o corpo, e não a mente, é chamado a agir. Lembrei-me delas na aulas e nos treinos que fiz com a Diana, nos quais nunca desisti. Lembrei-me delas quando me inscrevi num ginásio em Oeiras, em 2009, e me atrevi a experimentar várias aulas de grupo.

Lembrei-me delas numa caminhada entre Cedilho e Nisa (quase 20km) que fiz em 2013, antes de embarcar para a Turquia. Lembrei-me delas nas caminhadas que fiz com a minha mãe nos últimos dois Verões. Lembrei-me delas nos meses a fio em que segui o plano de exercícios físicos matinais, prescrito pela minha irmã.

"Tiago não quero fazer de ti um desportista, mas não quero que desistas". E foi isso que fiz hoje! Não desisti! Comecei, a semana passada, a trabalhar numa empresa na Finlândia que segue a máxima mens sana in corporo sano (mente sã em corpo são). É pedido aos funcionários que tentem, pelo menos, cinco horas de actividade física por semana. E todas as segundas-feiras reportam-se conquistas ou fracassos numa coisa chamada: Clube dos Guerreiros!

"Tiago não quero fazer de ti um desportista, mas não quero que desistas". E com o som desses treze vocábulos gravado na minha mente entrei no ginásio, decidido a fazer 60 minutos de actividade física. Uma loucura, para quem há muito se contentava com 25 minutos. Primeiro fiz a passadeira: 30 minutos. Fácil? Não. Mas não ia desistir.

Depois a bicicleta. Escolhi o modo "random hill", velocidade 8 (a máquina oferecia entre 1 a 20). E ao fim de 25 minutos parei. Fiquei a cinco minutos de completar os 60 minutos. Desisti? Assim o parece, mas não sinto isso. Parei porque tive noção que esses cinco minutos extra hoje, podiam levar-me a "rejeitar" o ginásio amanhã. Isso sim seria desistir. Mas não desisti, porque amanhã conto voltar e fazer, nem que seja, 26 minutos.

O Nuno não queria fazer de mim um desportista, não o fez; mas não queria que eu desistisse e não conto desistir. E apesar de lamentar o não ter aproveitado quando devia, não vou ficar a olhar para o passado numa nostalgia inerte. Vou antes pensar no agora e no amanhã com a determinação de não desistir. Porque, tenho em crer, se não desistir farei bem a mim mesmo e, talvez, farei feliz e um ex-professor de Educação Física.

Obrigado Nuno!


Thursday, January 15, 2015

Finlândia ou o passinho em frente

Passei a última noite em Portugal com amigos. Uma noite normal. Um bom jantar, boa conversa, muitas gargalhadas e bom vinho. E uma palavra na mesa: Finlândia. Enquanto o vento frio fustigava as ruas de Lisboa, falavamos do que me poderia esperar na gélida Espoo (Finlândia), da qual sabia que pouco sabia.

Fiquei acordado toda a noite. O voo sairia cedo, quando os sonhos aconchegavam uns e o quentinho dos cobertores outros. Na sala, comigo, ficaram duas amigas que foram sendo vencidas pelo sono. Sorri, eram umas 3h30, ao aperceber-me que só eu restava acordado. Chamei um táxi. Lavei o rosto. Olhei para a mala vermelha que materializava o imaterializável.

Segui para o aeroporto. Fiz o check-in com um sorriso no rosto, enquanto por todo o lado via olhos ensonados e bocas que abriam involuntariamente, denunciando o sono que não abandonara os donos semi-acordados. O telefone tocou. Mensagem publicitária. Ignorei-a. Passei pelo controlo policial e pelo detector de metais. O telefone voltou a tocar.

Era a minha mãe. A voz mesclada de sono e saudade disse-me um adeus e um boa sorte. Agradeci. E sorri para um telemóvel sem vida, que guardei no bolso. Caminhei com calma para a porta que me levaria ao Norte. Antes de embarcar outra chamada. A primeira das quatros princesa, a única a nascer antes de mim, ligava-me. Desejava-me sorte, boa viagem e felicidade. Agradeci, claro.

E, sem saber de onde, uma pequena lágrima correu-me pelo rosto enquanto sorria. Acho que a Saudade tem destas coisas. Torna-nos gelatinosos, trémulos, flutuando entre a alegria e a tristeza. Sorrindo e chorando ao mesmo tempo. Não tive pressa em limpar a lágrima. Uma voz feminina anunciou o começo do embarque. E deixei-me embarcar.

Cheguei a Amesterdão sabendo que chegava para partir. Saí do avião a passo estugado. Procurei a porta do voo que se seguia. Ainda tive tempo de me sentar. Deu para actualizar o status no facebook, para tranquilizar amigos e família. E quando pensava responder a dois emails que entratanto tinham chegado uma nova voz, feminina por sinal, anunciou mais um embarque.

Ainda não eram 15 horas (13 horas em Portugal) quando aterrei em Helsínquia. Cheguei com esperanças e sonhos e planos e projectos e anseios. A mala, a materialização em vermelho do imaterializável, não chegou. Ficara por Amesterdão. Chegaria quase trinta horas depois. Fui recebido com um cartão simpático e um sorriso.

Fiz compras num supermercado local, onde conto voltar hoje. E entrei, pela primeira vez, no escritório. Nomes, rostos, apertos de mão, galanteios e cordialidades inundaram-me. Um simpático tsunami, mas um tsunami na mesma. Tentei manter a postura cordial, mas o cansaço não facilitou a tarefa. E fui, por fim, conduzido à nova moradia. Explorei-a.

E enquanto a explorava animava-me. Começava ali um novo ciclo. Começava um novo capítulo de um livro que não se escreve, mas que se vive. Começava um passinho rumo a uma meta que não conheço, mas que sei que existe. Começava a continuidade, porque é isso que me sinto: um somatório de começos e términos que não são mais do que a continuidade do que não se descontinua.

Hoje, já com a mala vermelha que materializa o imaterializável por estes lados, e a começar a entrar na dinâmica do novo desafio só posso estar feliz. É mais um passinho em frente. Mais um degrau que se sobe, ou que se desce, porque o que importa é não estagnar. É mais um pulinho em direcção a algo. E um dia, talvez, quem sabe, venha a dar passinhos e pulinhos destes no meu país...


Thursday, January 08, 2015

Porque (para mim!) temos que ser Charlie...

Confesso que ontem, quando o Jornal da SIC encerrou, e o pivot disse o "e hoje Somos Todos Charlie" fiquei em tensão. Depois de ouvir, ver e ler notícias (todo o dia) sobre os actos de barbárie que abalaram Paris, depois de ouvir as palavras do pivot seguidas de um silêncio ensurdecedor seguiram-se lágrimas.

Porque se respondem com tiros a desenhos num papel? É verdade que os desenhos do Charlie Hebdo sempre incomodaram muita gente... Mas essa gente soube protestar, por vezes veemente, com urbanidade. Pode dizer-se que por vezes o Charlie Hebdo abusava, que usava pouco do "bom senso", que usava pouco de contenção... Mas a sátira é isso mesmo!

Olhemos o diccionário. Procure-se essa palavra manchada de sangue, por quem olha sem saber ver. Encontre-se o vocábulo! Leia-se com calma. Sátira: "composição livre e irónica contra instituições, costumes e ideias de época; composição que ridiculariza os vícios e as imperfeições; ironia, zombaria".

Era isto que o Charlie Hebdo fazia. Sátira! Claro que era incómodo, porque criticava e critica não só o que somos, mas o porque somos e o como somos. E quem não sabe olhar para si, rindo-se primeiro e reflectindo depois, acaba por olhar sem ver com os olhos turvos de um ódio fátuo mas assassino. Porque os cartoons falam para lá dos traços... Mas para isso é preciso perceber o que é a sátira.

As fileiras de gentinha politicamente correcta vieram condenar o acto bárbaro e o cartoon, juntando no mesmo saco traços no papel e tiros no corpo. Não tenho outra maneira de dizer isto: senti asco! O Charlie Hebdo critica tudo; cartooniza tudo; põe o dedo na ferida em tudo e a maioria desse tudo esperneia, grita, critica, vocifereia, ameaça mas deixa o Charlie ser Charlie.

E depois uma minoria de indíviduos vê num desenho crítico uma ofensa capital, que não se pode apagar com borracha mas apenas lavar com sangue. E os tiros passam a valer, porque existe um ente Divino que precisa de sangue para aplacar o seu desagrado... Porque um acto de expressão criativa passa a ser visto como um pecado mortal.

E o problema do ataque ao Charlie Hebdo não é o agora, mas o que se segue. Para além destes actos permitirem aos partidos nacionalistas-extremistas reforçar a sua retórica anti-emigração; para além destes actos reforçarem a imagem negativa do Islão no Ocidente; para além destes actos o perigo é o da instalação e aprofundamento de auto-censuras.

Fica o medo de desenhar algo, porque alguém poderá não perceber e, ao invés de se recorrer às cartas de indignação, aos comentários de repulsa e aos processos judiciais, recorrer às armas para replicar o que se faz com os lápis. E a auto-censura é mais perigosa do que a censura institucional. E a auto-censura, que já existe, é mais corrosiva do que todos os "lápis azuis".

O Fidalgo não ignora que a Europa tem que fazer um exame profundo a si mesma; que existem ódios latentes de várias minorias marginalizadas pelas maiorias europeias muitas vezes pedantes e arrogantes. O Fidalgo não ignora as sequelas da violência estrutural e simbólica do colonialismo europeu. O Fidalgo não ignora que a Europa actua por vezes de modo impositivo no seu quadro de valores. Mas dois erros não fazem um acto certo...

Porque temos que ser Charlie, porque se não formos Charlie aquilo que nos parece a defesa dos direitos das minorias acabará por se plasmar no amordaçar dos direitos de todos (maiorias e minorias). Se não formos Charlie o direito ao comentário diferente, crítico acabará por se diluir num discurso vazio e acrítico. Se não formos Charlie hoje, não teremos voz amanhã.