Wednesday, October 16, 2013

E se for bom este esfriar da relação Portugal-Angola?

As relações diplomáticas Portugal - Angola sempre me fascinaram, pela construção de um falso artificialismo situacionista. Portugal sempre semi-cerrou os olhos a Angola em várias frentes, como que para não ver que o que deveria ser afinal não era, nunca iria ser. Por vergonha do passado colonial, daquilo que tínhamos feito em Angola, fomos ignorando que afinal a transição para a democracia não estava em curso. Fomos aplaudindo com vigor o que não acontecia, na esperança de que acontecesse.

Olhámos sempre para Angola com um misto de paternalismo de quem "já foi o pai, o chefe da casa" e com o embaraço dos actos cruéis que fizemos. Angola era independente e isso obrigou a que fizéssemos um pequeno recuo político-diplomático, que não refreou as ajudas para o desenvolvimento e o forte compromisso português com missões de ajuda humanitária a Angola. Mas até aqui tudo bem...

E depois Angola descobriu que tinha dinheiro. A sua economia começou a crescer, com tantos recursos disponíveis a tarefa não é propriamente ardilosa, e Angola achou que ter dinheiro era ter tudo. Angola, ao bom estilo do Azerbaijão e do Cazaquistão, achou que quem cresce economicamente não pode ser atacado por estagnação e fracasso nas reformas políticas. Angola, de súbito, achou que já era crescida e não tinha que prestar contas a ninguém, por ter uma Louis Vitton debaixo de braço e um Cartier no pulso...

A elite angolana, porque Angola como país não tem culpas (e preservo muitas as amizades que tenho com gente de Angola), tornou-se arrogante e prepotente. A elite angolana passou a achar que tudo se resolve com o passar de um cheque e que dinheiro compra tudo. Mas não compra... A elite angolana aproveitou um momento de debilidade económica portuguesa para tentar "brincar aos grandes". Mas é pequeno quem aproveita os "desvalidos" para se fazer de herói. Não é pequeno, é minúsculo.

E por isso não vejo mal nenhum de as relações com Angola terem gelado, ou regredido. Não vejo mal nenhum de o país, apesar de estar economicamente débil, ter batido o pé. Não vejo mal nenhum de começarmos a dizer com todas as letras: Dinheiro e Democracia são coisas diferentes. Dinheiro e Igualdade são coisas diferentes. Dinheiro e Inteligência são coisas diferentes.

Angola tem dinheiro? Tem! E depois? Outros valores devem prevalecer. José Eduardo dos Santos terá dificuldade em compreender que amizade e diplomacia não são sinónimos de servilismo. José Eduardo dos Santos terá dificuldade em compreender que ao fechar a porta de Angola, talvez esteja a ajudar-nos a procurarmos outros mercados e, meu caro Presidente, se o país quiser, o país consegue substituir o que ganharia com Angola.

O Ministro dos Negócios Estrangeiros poderia ter feito as coisas de outro modo? Talvez! Mas de que serve o "veludo", quando somos tratados com desfaçatez por causa de um momento menos bom? De que servem falas mansas, com quem olha altivamente de cima do seu pedestal incrustado de diamantes mas com pés de barro oco?

Só gostava que não se atacasse o Ministro dos Negócios Estrangeiros, por vontade de atacar o Primeiro-Ministro, quando, desta vez, o Ministro dos Negócios Estrangeiros até esteve bem. E quanto à elite angolana-eduardina se conhecessem bem a História veriam que hoje "quem canta de galo", amanhã não serve nem para galinha. É só olhar para a Mongólia, para a Bulgária ou para a Geórgia... E tenho dito...


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