Wednesday, October 31, 2012

Clinton nos Balcãs... E nada mais...

Por estes dias Hillary Clinton, Secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros de Obama (o Presidente, e não o candidato), anda a fazer uma ronda diplomática pelos Balcãs. Na verdade, sejamos claros, Clinton veio dizer aos líderes da União Europeia o que os Estados Unidos das América pensam que deveria ser o futuro daquela que é a segunda zona mais complexa, tensa e frágil da Europa, logo a seguir ao Cáucaso.

A visita ainda não terminou e já se percebe uma incapacidade de inovação no discurso de Clinton, que chega a roçar o confrangedor. Primeiro disse na Bósnia-Herzegovina que a Unidade Nacional é o único caminho e que só a entrada na UE poderá garantir estabilidade duradoura. Clinton demonstrou assim o grau de ignorância dos EUA para com as complexidades locais.

Unidade Nacional? Na Bósnia-Herzegovina? A complexidade étnica; a ausência de maiorias étnicas; a incapacidade de diálogo interétnico; as divergências históricas, sociais e políticas nada disso conta? Unidade Nacional num estado que apenas subsiste por via de Acordos Internacionais, os de Dayton de 1995, que foram incapazes de gerar um ambiente de inclusão e de homogeneização das dissemelhanças? Unidade num estado que existe sem querer sê-lo?... Seriously? Ainda andamos com os artigos de Dankwart Rustow debaixo da cabaceira?

Mas depois de um tiro no pé, Clinton podia ter salvo a face na Sérvia... Podia, escrevo bem! Na chegada ao país que se vê abraços com o separatismo de estimação de Washington, a Secretária de Estado urgiu a uma reaproximação diplomática que só poderá acontecer caso a Sérvia entenda que o Kosovo é independente e ponto final!

Belo processo de negociação diplomática! O grande desentendimento entre a Sérvia e o Kosovo é exactamente sobre a independência do segundo em relação ao primeiro; mas é exactamente esse o tópico fora da "mesa negocial de reaproximação"?

É só ao Fidalgo que isto soa a pouco democrático, pouco justo, pouco equilibrado e pouco parcimonioso? É só ao Fidalgo que isto soa a mais do mesmo; a perigosamente mais do mesmo?... É só ao Fidalgo que isto se assemelha a mais um exercício de avestruz com a cabeça na areia? E tudo e tudo... Assim não vamos lá Mrs. Clinton!

E a Europa, vergada perante a tacanhez mental de Ashton (a quem confiámos os Negócios Estrangeiros de um algo que ainda não existe!), lembra-me as antigas aias de volta de Sua Senhoria... Estão lá; são visíveis mas dispensáveis... É isso que a Europa quer? Ser servente na sua própria casa? Servente, ainda para mais, de uma Senhoria que não entende a dinâmica das divisões; as particularidades do mobiliário? Servente num espaço onde deveria ser Suserana?

Assim não dá mesmo...


Tuesday, October 30, 2012

Jogos pós-eleitorais animam Outono na Geórgia

A vida política anda quente pela Geórgia pós-eleições parlamentares. Primeiro o Presidente da Geórgia assumiu a derrota nas eleições Parlamentares de 1 de Outubro, ficando contudo com os louros de ter sido a sua governação a permitir a democraticidade do processo. Ou seja, foi uma derrota (nos resultados) vitoriosa (nos meios e contextos).

Logo em seguida (16 de Outubro), Saakashvili decidiu restaurar a cidadania Georgiana a Ivanishvili, fundamentando com actos as suas locuções sobre o valor inestimável da Democracia e da Democratização progressiva da Geórgia. O derrotado Presidente da Geórgia passava a somar 2 - 1, no jogo contra o novíssimo Primeiro-Ministro da Geórgia.

A 19 de Outubro um novo dado em cima da mesa! Leonid Tibilov, Presidente da República (de facto) da Ossétia do Sul, assumiu que voltaria a negociar com Tbilisi se a independência da República que preside for reconhecida. Isto um dia depois de a União Europeia ter afirmado que o reconhecimento da Abkhazia e da Ossétia do Sul estão fora de questão... Nada de novo neste capítulo, quando a Europa tenta compreender o que fará a uma (eventual) Catalunha e Escócia independentizadas!!

E como se tudo isto não fosse já confuso o suficiente, agora Ivanishvili assume, pela primeira vez, que Saakashvili teve culpa no despoletar da Guerra de Agosto de 2008. A prossecução de uma política nacionalista exclusivista, que fazia lembrar os anos da "Georginização" de Gamsakhurdia, foram as causas maiores do conflito que levou a que as duas repúblicas reafirmassem os projectos independentistas, manifestados no começo da última década do século XX.

Desde 2009 que tenho dito que tanto Moscovo como Tbilisi têm culpas no conflito em causa, mas a Geórgia soma mais culpas (55%-45% se quiserem) pela invasão de território constitucionalmente autónomo, sem respeito pelos direitos sociais e políticos de minorias étnicas, que se tornam em maiorias nas regiões em causa. Desde 2009 que digo que a Geórgia, que o eixo Americano-Europeu decidiu proteger, tem culpas na Guerra de Agosto de 2008.

Parece que afinal o Fidalgo andava menos errado do que pensava; nestas coisas estar certo é quase impossível. Em diplomacia estamos menos errados; estamos mais próximos da verdade; mas nunca estamos certos! A capacidade de Ivanishvili assumir a culpabilidade maior da Geórgia deveria valer-lhe o 3-2, no jogo de influências contra o Presidente Saakahsvili. Na verdade assumir a culpabilidade da Geórgia joga, quando muito, em desfavor do novo Primeiro-Ministro...

As vozes de que Ivanishvili é um "homem do Kremlin" começam a aumentar na Geórgia. Saakashvili parece ter compreendido, melhor do que o novo Primeiro-Ministro, que o balanceamento entre uma perspectiva mais pró-Russa e mais pró-Ocidente é praticamente impossível. Escolhas terão que ser feitas, pois mais vale um pássaro na mão...


Wednesday, October 17, 2012

Elegia à mais moderna das Repúblicas!

Por estes dias o Fidalgo começa a preparar-se para "dar o salto" para fora do país. Ao que parece ter mérito e saber construir um projecto de investigação não são ferramentas suficientes para se manter a posição como investigador... E como as portas nacionais se insistem em fechar, o Fidalgo expande horizontes e salta para o nível seguinte... Não é uma fuga, é um empurranço!

Mas não é sobre isso que o Fidalgo hoje se delonga! Em reflexão feita no metro, quando terminava de ler "A Fonte de Bahchisaray" de Pushkin, concluí que temos um país moderníssimo. Somos, quase seguramente, a única República do Mundo cujo Presidente comunica aos cidadãos via facebook, e não por via de actos oficiais. Querem mais moderno do que isto?

Claro que os actos oficiais são de evitar, porque obrigam ao contacto com a plebe... E depois os monárquicos é que são snobes e presunçosos?! Certo! Claro que os actos oficiais não interessam porque podem acabar de pernas para o ar, enquanto se embandeiram ideias agastadas. Claro que os actos oficiais não interessam, porque o Presidente pode oficialmente falar pelo facebook. Sinais dos tempos? Ou apenas cobardia hightech?

Temos um Presidente da República que tenta passar recadinhos via facebook e quando é ignorado, ignora que foi ignorado para que ignoremos que ele ignora que foi ignorado. Temos um Presidente da República que de tanto "silêncio patriótico" ainda vai acabar mudo... Ou isso, ou substituirá a efigie seminua da República com tanto patriotismo que lhe vai no sangue!

Temos um Presidente da República que criou o mito da total ausência de poderes de mediação; algo que lhe convém manter mas que não é de todo real... Temos um Presidente da República que se entretém a piropear (arte de enviar piropos) via facebook, enquanto um autismo selectivo crónico vai encurtando as hipóteses do Governo, com claros sinais de desgaste, sobreviver...

E depois não querem que o Fidalgo seja Monárquico? Comparado com a verdadeira humilhação e delapidação da qualidade de vida que representam os sucessivos "ajustes" ao Memorando de Entendimento, o Mapa Cor de Rosa (baluarte dos Republicanos) foi apenas uma derrota diplomática, para evitar um massacre militar. O tal Ultimatum que o Rei Português aceitou serviu para salvar vidas... O Memorando dos nossos dias serve para as destruir...

Mas com uma República que não tem, praticamente, mecanismos para a demissão/exoneração/substituição do Sr. Presidente, que se passeia pelo facebook mas se abstém de fazer o que mais lhe compete, porque quereríamos nós uma mudança? Assim é que está bom...

Pum!


Friday, October 12, 2012

União Europeia: Nobel da Paz 2012! E esta?

A manhã começou com rumores que o Fidalgo considerou interessantes. O Le Figaro anunciava que a União Europeia era o mais forte candidato a ganhar o galardão de Nobel da Paz 2012. Ficou o Fidalgo com a ideia de que alguém no Le Figaro teria confundido brandy com café com leite mas não: o anúncio chegou menos de duas horas depois.

Primeiro pensamento, com um Nobel da Paz no Curriculum podemos ter o risco de ver alguns políticos a pedirem equivalência em Estudos da Paz. Ao espanto, que (seguramente) percorreu os cidadãos de toda a Comunidade Europeia, seguiu-se a necessidade imperiosa de ouvir a argumentação da Real Academia Sueca e a obrigação moral de concordar parcialmente com a decisão desta. Surpreso o leitor? Não vale a pena, que eu explico tudo.

De facto, tal como se argumentou, não podemos minorar o importantíssimo papel da União Europeia, neta da CECA, na estabilização da vida política, diplomática e social da Europa. Não podemos negar que a União Europeia foi capaz de alcançar um nível de entendimento inter-estados que nenhuma outra Organização Internacional conseguiu.

A ASEAN até tem feito um trabalho interessante no Sudeste Asiático só que conta apenas com 10 membros e 4 "satélites" (Índia, China, Japão e Austrália) e não tem a profundidade de interacções da UE, com os seus 27 membros (28 em breve, com a entrada da Croácia) e mais de 10 satélites (Islândia, Montenegro, Macedónia, Sérvia, Turquia, Ucrânia, Bielorrússia, Moldova, Arménia, Azerbaijão, Geórgia).

A APEC não passa de uma organização Económica. A União Africana está longe sequer de ser comparável. O MERCOSUL não funciona, como aliás o dizem todos os seus intervenientes. E na América do Norte a NAFTA conta apenas com três membros e resume-se à esfera económico-financeira. E a Liga Árabe tem estado longe de corresponder às elevadas expectativas que sobre ela recaíam.

Não podemos menosprezar o papel crucial da União Europeia na aceleração da construção de uma ideia de Civilidade Europeia. É injusto que por um mau momento, que começou em 2008, se esqueça tudo o que ficou para trás. E não, o Fidalgo não esquece que a União Europeia tem sofrido de lentidão crónica e de dislexia ao nível do processo decisional, nos últimos anos. O Fidalgo não esquece que a União Europeia precisa reformar-se, redesenhar-se e repensar-se urgentemente!

Mas o Fidalgo também não esquece, não o deve fazer, que a União tem méritos que merecem ser louvados. E é isso que o Nobel da Paz 2012 faz. E, desculpem a acidez, por comparação é mais justo o laureado de 2012 do que o laureado de 2009. O Nobel da Paz é merecido pelo legado mas, e estamos no reino da opinião, talvez venha um pouco tarde e fora de contexto...

O Fidalgo fica, por outro lado, com a sensação que o Nobel da Paz atribuído à União Europeia é uma espécie de Globo de Ouro de Mérito e Excelência. Uma palmadinha nas costas por tudo o que se fez antes de uma, cada vez menos improvável, implosão. Ao contrário da Liga das Nações que ganhou três Prémios Nobel da Paz no momento pós-fundacional, em 1919 (Thomas Woodrow Wilson, Fundador), 1920 (Leon Victor Bourgeois, Presidente do Conselho da Liga) e 1921 (Karl Branting, Delegado no Conselho da Liga), a União Europeia ganha um prémio no momento em que parece estar em colapso.

Igualmente estranho foi o segundo argumento usado pela Academia Real Sueca, esse sim muito muito muito criticável. Atribuir um Nobel da Paz como estímulo a que se resolva a Crise das Dívidas Soberanas. E porque razão a Academia Sueca se imiscui de assuntos que em nada lhe dizem respeito? É esta a forma do Norte, que olha para os PIIGS do Sul, dizer diplomaticamente: estamos convosco!?

A atribuição do Nobel da Paz levantará, curiosamente, nos próximos dias, uma guerra de poleiro no seio da União. Quem o vai receber? Durão Barroso, como Presidente da Comissão Europeia? Herman Van Rompuy, como Presidente do Conselho Europeu? Martin Schulz, como Presidente do Parlamento Europeu? Ou Catherine Ashton, como Alta Representante dos Negócios Estrangeiros da União Europeia? Ou Angela Merkel, como Imperatriz Auto Coroada?

E é neste ponto que o Fidalgo se retira!


Thursday, October 11, 2012

Mas existe ou não um Memorando de Entendimento?

Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia (um dos vértices da Troika) terá dito que as medidas de Austeridade são da responsabilidade exclusiva dos governos que as decidem e implementam... Nada que, uns meses antes, Christine Lagarde, Directora do Fundo Monetário Internacional (outro vértice da Troika), não tivesse dito...

Mas então o Fidalgo fica com dúvidas! O que raio (desculpem o linguajar!) é que ficou acordado no famoso Memorando de Entendimento que regula a nossa vida desde que pedimos o resgate? Afinal o que ficou impresso nos papéis assinados com tanta pompa? Se não existem responsabilidades de dois vértices da Troika, que assim deixa de ser trilateral, porque se chama ao documento de Entendimento? Qual o real papel da Comissão Europeia e do FMI em tudo isto???

Ora quer parecer ao Fidalgo que aquilo que o país pediu não foi um resgate, mas antes um Crédito Estatal com Penhor de Aplicação! É que mais parece que não estamos perante um resgate da Comunidade Internacional, mas antes perante uma concessão de crédito que terá que ser pago sem quaisquer outras imposições... As tais medidas que teriam sido acordadas com os Três da Troika afinal não foram acordadas? É isso? Pagar é o que mais importa, é basicamente isso que diz Durão Barroso?

É impressão minha ou o FMI continua a brincar com as palavras, para não dizer o que deve ser dito: Que a receita do FMI não funciona, como aliás muitos economistas, analistas e especialistas avisaram. Que os modelos de engenharia Económica-Financeira desprovidos de sensibilidade humana, desligados da complexidade da realidade, não conduzem ao enriquecimento e à estabilização macroeconómica, mas antes ao embrutecimento e à desestabilização sociopolítica.

É impressão minha, ou o FMI devia ganhar coragem para assumir o erro, de um programa que (num dia) acordou mas que (no dia seguinte) afinal foi apenas "desenhado" pelos Governos resgatados?! Dizer, como o fizeram no início de Setembro, que calcularam mal o impacto da Austeridade não chega! É parco e pouco confortante dizerem que afinal o resultado foi pior do que o projectado por modelos aritméticos, que esquecem que a Incerteza é a única certeza em momentos de transição e transformação (e disso o Fidalgo até que percebe alguma coisa!).

Dizer que errou seria um passo de gigante para a (necessária) credibilização do FMI que surge, cada vez mais, como um monstro predatório e não como o Regulador das Divisas Internacionais que deveria ser. O FMI em vez de ser a chave das soluções é cada vez mais a Caixa de Pandora de muitos estados... Dizer que errou em vez de sacudir a água do capote, ao estilo Durão Barroso, seria muito salutar para o FMI de Lagarde. Mas não estou para acreditar em milagres nos dias que correm...

Se os pedidos de mea culpa não vão chegar, pelo menos gostaria de ver os Senhores da Troika a não se desligarem do Memorando que Entenderam ser a fórmula mágica para colocar as contas de Portugal em ordem e garantir aos credores o pagamento do empréstimo com lucros, muitos dos quais imerecidos... Deixemos de jogar ao "a culpa não é minha" que isso é feio, muito feio...


Tuesday, October 09, 2012

O Reino Unido (não) veta a UE?!

Estava a começar a escrever sobre a transformação da política na Jordânia, onde a Irmandade Muçulmana quer impor a "onda transicional" a que chamámos de Primavera Árabe, mas a Europa chamou a minha atenção nos entretantos. David Cameron, Primeiro Ministro do Reino Unido, ameaçou que vetaria o Orçamento Comunitário para 2014-2020 se este aumentasse as despesas, como previsto, e se, ao mesmo tempo, este fosse penalizador para os interesses britânicos.

As declarações foram feitas no âmbito do Congresso do Partido Conservador, que decorre em Birmingham,   e devem ser lidas com cautela. Mais do que falar para a União Europeia o PM do reino de Isabel II falava para o eleitorado, numa altura em que o Partido Conservador "luta" por melhorar nas sondagens apelando ao mecanismo de "swith off" que mantém nas relações com o Continente Comunitário.

Esta não é, de resto, a primeira vez que a Ilha tem comportamento de isolacionismo interno, que faz soar as campainhas da União de modo desnecessário. A posição do Reino Unido, de resto, é uma das mais suis generis. Quando tudo corre bem, quando tudo é fácil e dourado, então o Reino Unido é um construtor da Europa Comunitária... Mas quando tudo corre mal o discurso passa de Nós para Eles, os do Continente.

As declarações de Cameron são, na verdade, um duplo trunfo desenhado por uma boa estratégia de comunicação política. Por um lado ao ameaçarem o veto no Orçamento da UE apelam ao nacionalismo Britânico que, ciclicamente, precisa de sentir que ainda tem algum poder; apelam ao nacionalismo do ex-Império mais poderoso do Mundo.

Por outro lado, ao se desculparem com a execução Orçamental dizem internamente e externamente (com especial incidência) que o veto não é feito por razões nacionalistas, ou proteccionistas, mas sim por questões que se prendem com o realismo e a exequibilidade do Orçamento em causa. Um duplo trunfo que, todavia, algum dia pode levar a uma derrota...

Quem está apenas nos Clubes (como a UE) quando existem festas e soirées, mas se ausenta no momento em que é preciso planear e arrumar a casa tende a ser posto de parte e a isolar-se. E paulatinamente tenderá a sentir que não é um membro do Clube e que, perdoem-me a franqueza, a Porta de Saída é serventia da casa. Vai sendo tempo do Reino Unido dizer se quer, ou não quer, ser Comunitário e Europeu!

E sem mais assunto, por hoje, o Fidalgo se despede...



Thursday, October 04, 2012

Domodedovo em busca da independência???

Depois das eleições na Geórgia, da turbulência no Tajiquistão e dos protestos na Sérvia pensei que o espaço pós-soviético iniciasse um período de adormecimento. Mas estava enganado. A cidade de Domodedovo, parte integrante da Federação da Rússia, declarou-se como República Democrática da Rússia e pediu o reconhecimento da sua independência à União Europeia.

Domodedovo é uma pequena cidade a sul de Moscovo, fazendo de resto parte da malha urbana da capital da Rússia. Imaginemos que Oeiras pedia a sua independência; é algo do género o que aconteceu na Rússia, no primeiro dia, do décimo mês de 2012. A cidade em causa é, de resto, conhecida por albergar o maior e mais moderno aeroporto da capital.

A declaração de independência foi um acto desesperado da comunidade local que, inclusive, realizou um referendo em 2007 no qual mais de 98% dos habitantes se pronunciaram em favor do projecto independentista. Mas porquê tal iniciativa? Para chamar a atenção do Kremlin para a criminalidade crescente na região e para terminar com, o que dizem ser, o "autismo" das autoridades federais.

O movimento é, de resto, extraordinariamente inteligente; revelando que ainda existe audácia num mundo que por vezes parece mortiço. Sem recorrerem a protestos, manifestações e outras formas de luta que já esgotaram a sua utilidade prática, os moradores do Domodedovo agiram tendo em conta o maior medo do Kremlin de Putin: os projectos independentistas!

O pedido de reconhecimento da independência da República Democrática de Domodedovo teve em conta a tensão entre a Chechénia e a Inguchétia cresce; o crescente descontrolo do Daguestão; os protestos em Karachaevo-Cherkessia; a animosidade em Kabardino-Balkaria e o facto de o Tataristão e a Bashkortistão terem inflamado a retórica nacionalista e autonomista.

O pedido de reconhecimento de independência mostra uma admirável consciência da realidade envolvente e uma capacidade de pensar "out of the box". O mais extraordinário, acredita o Fidalgo, é facto de este acto poder desencadear uma onda de processos similares num estado com quase 300 grupos étnicos. E, pensa o Fidalgo, talvez no quase mono-étnico cantinho lusitano precisemos de iniciativas com este arrojo!


Tuesday, October 02, 2012

Transição na Geórgia? Parece que sim!

E contra todos os cenários projectados uma dupla conjugação de dois resultados deixou meio mundo de analistas e especialistas, considero-me incluso na primeira categoria, de queixo caído... Não só o partido de Saakashvili não triunfou nas eleições parlamentares disputadas ontem, como assumiu essa mesma derrota. Um feito notável, verdade seja dita!

Numa certa perspectiva Saakashvili não perdeu. O sucesso da parada eleitoralista que desembocou num triunfo (maioritariamente) pacífico da Votocracia (pois que a Democracia transcende, ou deve transcender, o momento das Eleições) são legados do actual Presidente da Geórgia; são conquistas da sua governação, como fez questão de sublinhar no discurso de reconhecimento do "deslize" parlamentar.

A Oposição liderada por Ivanishvili, centrada no movimento partidário Sonho Georgiano, tem agora que acordar agora para uma realidade complexa que determinará, agora sim, o sucesso ou insucesso da Transição da Geórgia pós-Soviética. O mais difícil, parecia, seria vencer as eleições, derrubando o establishement Saakashviliano. Vencida essa barreira seguem-se desafios maiores!

Em primeiro lugar Ivanishvili pode ter vencido a corrida ao Parlamento, mas Saakashvili continua a ser Presidente da Geórgia. E o Sr. Presidente disse no discurso de aceitação da derrota que "discordo das premissas do Sonho Georgiano". Não é preciso ser especialista ou analista para adivinhar uma governação tensa nos próximos meses, já que não falamos de diferendos na forma mas sim de antagonismos no conteúdo.

Em segundo lugar, Ivanishvili tem nas mãos uma bomba-relógio. O seu movimento partidário, que agrega dezasseis forças partidárias mais pequenas, corre o risco de se desintegrar e perder impacto. Porquê? A razão da união e nascimento do Sonho Georgiano foi Negativa e não Positiva. A lógica era negar a Saakashvili uma vitória e isso foi conseguido. O que mais resta para unir as facções? Dinheiro de Ivanishvili? Mas então é Democracia ou Autocracia Eleitoralista?

Em terceiro lugar, Ivanishvili assumiu hoje que quer cooperar com a OTAN e com a Rússia. O problema, todavia, está em saber se a Rússia de Putin, que olha para Oriente e para Sul, quer colaborar com um país que nos últimos anos lhe tem feito oposição. O problema está em saber se a aliança com os EUA, e com a OTAN por extensão, é assim tão benéfica tendo em conta a inacção na Guerra dos Cinco Dias de Agosto de 2008.

Em quarto lugar, Ivanishvili terá de lidar com as questões dos separatismos da Abkhazia e da Ossétia do Sul. Reafirmar a unidade territorial georgiana, como tem feito Saakashvili, não acrescentará nada a quem quer promover transformações na Geórgia e dificultará o relacionamento com a Rússia, que de resto foi o primeiro estado do mundo a reconhecer as duas repúblicas.

Ivanishvili terá ainda que decidir se mantém a condenação do Genocídio Circasse emitida pelo Parlamento em Maio de 2011, ou se dá um passo atrás para agradar o poderoso vizinho do Norte. E a questão de criar um passaporte especial para todos os habitantes do Cáucaso Norte também terá que ser ponderada, pelo menos se a intenção de diálogo diplomático construtivo for mais do que uma promessa eleitoral.

De qualquer maneira, a Geórgia deu ontem um passo decisivo na construção da sua Democracia. Apesar dos perto de 100 incidentes registados pelos Observadores Internacionais, a votação decorreu com normalidade. Os vencedores e os vencidos aceitaram os resultados. A violência pós-eleitoral não se fez sentir. Falta ver agora como continua esta História...


Monday, October 01, 2012

Leitura (primária) das eleições na Geórgia!

Depois de alguns posts sucessivos a debruçar-me sobre a situação nacional, acho que vai sendo de o Fidalgo mudar de paragens e olhar para outros mundos. E, por defeito de formação e de profissão, no meu mundo Portugal não faz fronteira com Espanha mas com o Cáucaso.

A Geórgia foi hoje a votos numas eleições Parlamentares que, diziam os analistas ocidentais, são primordiais para aferir da robustez da Democracia Georgiana. As eleições de hoje, afirmam alguns, poderão prover dados que confirmaram se este estado do Cáucaso, candidato à OTAN e "amiguinho" (já não se diz vassalo nos dias que correm) dos EUA, ainda se encontra em Transição, ou se já entrou no delicado e mais complexo período de Consolidação.

Ainda é cedo para ter certezas. Para já sabe-se que que O Sonho Georgiano (nome do maior partido da oposição) venceu a corrida em Tblissi (a capital), mas no cômputo global ambos os partidos clamam vitória. Os números vão levar tempo a ser conhecidos, validados e aceites por todas as forças políticas envolvidas. Mas o que fica de mais interessante, numa primeira leitura, são pequenos sinais simbólicos que me foram chamando a atenção.

Por um lado, Mikhail Saakashvili, Presidente da Geórgia, que se afirma pró-Ocidente e pró-Democracia usou, como nunca antes na curta História da Geórgia pós-soviética, o trunfo nacionalista, roçando mesmo a xenofobia, para assustar o eleitorado especialmente das zonas rurais. Saakashvili, de resto, desde que chegou ao poder, pela via da Revolução das Rosas de Novembro de 2003, que tem usado a Nação como forma de manter o seu controlo sobre o aparelho de Estado!

Depois de em Agosto de 2008 ter perdido a Guerra dos Cinco Dias contra a Rússia e de em Abril de 2009 ter enfrentado protestos gigantescos que pediam pela sua demissão, o Presidente da Geórgia percebeu que invocar o Fantasma do Norte (a Rússia de Putin, entenda-se) lhe podia render votos... E ao que parece a aposta surtiu efeito onde se esperava.

Por outro lado, Bidzina Ivanishvili usou como trunfo a sua estória de sucesso pessoal, não fosse este o homem mais rico da Geórgia (apesar de inúmeros relatórios e artigos levantarem dúvidas sobre a legalidade de todos os negócios de Ivanishvili). O líder da oposição, reunida no Sonho Georgiano, almeja destronar Saakashvili e, alega, iniciar um período de verdadeira democratização do país.

Curiosamente recusou-se a exercer o seu direito de voto nas eleições de hoje. Apesar da recusa ser um sinal de protesto ao regime de Saakashvili, o que Ivanishvili  colocou em causa ao não votar foi antes todo o sistema. Ora se o líder da oposição não acredita no Voto, mas quer pelo voto chegar ao poder algo de esquizofrénico se passa! Não podemos acreditar apenas no regime se vencermos... Tal como em Portugal certas personalidades não podem ser Oposição e Governo ao mesmo tempo.

As eleições da Geórgia são importantes, dizem certos especialistas, porque testam o ambiente democrático no Cáucaso Sul (ou Cáucaso independentizado). Na verdade isso parece-me uma hipérbole desnecessária, porque o Azerbaijão está longe de ser democrático, por muitas paradas eleitorais que tenha. E a força da democracia na Arménia em pouco depende do que acontecer hoje na Geórgia. Agora que as eleições de hoje terão influência no processo da sindependências unilaterais da Abkhazia e da Ossétia do Sul disso tenho poucas dúvidas...

Mas para já, enquanto os dados não estão todos na mesa, fico-me por aqui!