Monday, January 30, 2012

Vai retrair as garras? Ou precisa de manicure Lady Merkel?

Começou uma das Cimeiras Europeias mais importantes para a zona Euro, dizem os media. Tenho que assumir que estou pouco entusiasmado e ainda menos expectante. Isto porque as anteriores Cimeiras foram anunciadas com todas esta pompa, mas todas se esboraram em resultados pálidos; em construções de palavras bonitas mas esvaziadas de poder efectivo; em mais um espasmo paralítico do grande herbívoro das 27 (quase com 28) cabeças.

A Cimeira Europeia começou antes, ao longo das últimas duas semanas, com as negociações para um novo resgate à Grécia em curso. O jogo do "avança" - "recua" prova a dificuldade em se construírem consensos, quando quem precisa quer ter voz e quem ajuda é surdo. O jogo do "avança" - "recua" provou a fúria alemã para ganhar capital político no espaço europeu.

A Cimeira Europeia começou antes da "magna reunião" dos vassalos de Merkel. Começou quando a Polónia e a República Checa ameaçaram vetar a proposta em discussão. Aposto que a Imperatriz Merkel não ficou nada contente por ver que os 26 (excluída que está a casinha da Isabel II) afinal serão apenas 24 ou menos... E isso é que não pode ser. A Alemanha de Merkel sabe que sozinha tem menos hipóteses de brilhar nos palcos extra-comunitários e por isso quer se vestir de honra e glória como timoneira do barco da União. Mas o barco da União parece seguir o rumo do Concordia.

Christine Lagarde, Dona do FMI, admitiu que a fórmula do FMI que preside está errada, quando este fim-de-semana assumiu em no Fórum Económico em Davos que a austeridade, tal como está desenhada, é suicidária. Finalmente minha senhora!!! Merkel, pelos vistos, não ouviu estas declarações... Mas quer-me parecer que Papademos ouviu e terá mesmo como ring tone as declarações de Lagarde...

Afinal a Grécia não aceitou, e bem, a proposta insana dos alemães. Abdicar da soberania económica? Não estamos a ir longe demais? É certo que o caminho para a crise das dívidas soberanas passará por uma maior integração política; ou por se assumir a falência do projecto da moeda única, dissociando-a do projecto da União Europeia que deveria ser sempre salvo.

A integração terá que existir, quando os líderes do espaço europeu forem empossados de poderes para esse efeito. Quando as populações decidirem que abdicam da soberania nacional, transferindo-a para as instituições europeias. Mas os actuais líderes não foram mandatados pelas sociedades civis correspondentes para abdicarem dessa soberania... E portanto aplaudo a ousadia da Grécia e aplaudo-a de pé!

Merkel, tenho para mim, não deve ter gostado nada de ver Papademos bater o pé, mas Merkel precisa de perceber que o mandato eleitoral que lhe deu o poder, que tanto gosta de usar, restringe-se às fronteiras da Alemanha. Em todo o restante espaço europeu, goste ou não goste, terá sempre que negociar com os líderes dos estados em causa. Ou isso, ou Merkel assume a sua faceta imperialista...

E fico-me por aqui!


Friday, January 27, 2012

Olho para o relógio e penso...

E chega ao fim mais uma semana de trabalho... Para muitos é a alegria de saber que durante dois dias podem "desligar-se" do modo profissional e vestir a pele de outro persona. Para outros, como eu, o amanhã será um dia muito parecido como o de hoje... De trabalho... Com a excepção de poder dormir mais uma hora e de poder fazer algumas tarefas em casa.

Mas não é sobre isto que me apetece escrever hoje; considere-se o parágrafo anterior (ninguém garante que os posteriores serão melhores) como uma não-introdução. Hoje apetece-se elaborar sobre a questão dos fusos horários... E creio que esta não é a primeira vez! Depois da Federação da Rússia ter anunciado que ia parar de saltitar entre o horário de Verão e o de Inverno eis que a Arménia anunciou exactamente o mesmo.

A aliada do Kremlin no Cáucaso Sul invoca razões de natureza económico-diplomática para esta nova decisão. Mas mesmo que não invocasse qualquer razão, estou absolutamente de acordo e só lamento a ausência de posicionamento de Portugal, e do resto da "turminha da União Europeia", no que toca a esta questão. Uma vez mais andamos a ruminar sobre o assunto...

Se é verdade que nos anos '60 fazia sentido tentar "poupar" uns trocos com medidas desta natureza, é igualmente verdade que hoje em dia as mesmas se pautam por uma ineficácia aberrante. Se queremos poupar energia, ser eficientes, há um rol de outras medidas (simples, acessíveis e eficazes) que podem ser adoptadas e que não são bio-nocivas.

É que a mudança de horário constante perturba o rendimento do ser humano e o nosso bio-ritmo, obrigando-nos a constantes adaptações. O ganho é quase nulo, os feitos são nocivos e portanto fica a pergunta: porque levamos tanto tempo a mudar o que é simples? Porque não seguimos o exemplo de Yerevan-Moscovo? Custa-nos assim tanto admitir que não estamos certos???

E o Fidalgo vai de fim-de-semana...

Wednesday, January 25, 2012

A caminho do "Reino da Estabilidade Perene"

Deixe-me o leitor continuar a escrever sobre a notícia que vai ocupando a cabeça de muita gente: a eventualidade um segundo resgate a Portugal. E depois de me ter alongado sobre a "utilidade" da notícia para certos media, apetece-me agora escrever sobre o conteúdo da notícia. E como me apetece, e sou feito de pequenos caprichos, aqui vai...

A notícia da provável necessidade de um segundo pacote de ajuda externa será, para uns, mais uma confirmação do que uma surpresa. Obviamente que o país iria precisar de mais ajuda, se a Grécia vai já na terceira ronda negocial. A mim parece-me, contudo, que uma provável necessidade de um segundo pacote de ajuda deve ser entendido numa perspectiva diferente. Permita-me o leitor uma pequena metáfora!

Imagine que dá uma festa num destino pouco conhecido, chamemos-lhe Reino da Estabilidade Perene, e que convida 27 pessoas para a sua festa... Não 27 parece-me pouco, convida 50 pessoas para a sua festa. Por ser pouco conhecido, muitos são os convidados que se perdem no caminho e que vão dar a outros destinos como ao Principado do Gaste o Que Puder ou ao Ducado dos Mãos Largas, ou ainda ao Marquesado do Crédito. Poucos são aliás os convidados que chegam à festa e você, com razão e sem presentes, zanga-se.

Imagine agora que dá uma segunda festa no mesmo destino, mas desta vez desenha um mapa para que ninguém se perca. Para que corra bem manda editar o mapa na Troika Edições Lda. e distribui por todos os convidados que se perderam na última festa. Ao final de algumas horas percebe, mesmo assim, que alguns dos convidados continuam a não encontrar caminho... E se é verdade que alguns não sabem ler mapas e vêem-se gregos para lá chegar; outros seguem as instruções à risca mas perdem-se na mesma. De quem é a culpa?

É mais ou menos assim que vejo a necessidade de um segundo pacote de resgate para Portugal. Se o Governador do Banco de Portugal diz que estamos a cumprir de modo exemplar o acordo e, mesmo assim, o mesmo pode ser insuficiente então a culpa de não chegar ao destino não é apenas nossa. Agora pergunto-me: se não chego a A por culpa de quem me desenhou o roteiro que culpa tenho? Se me perco pelo caminho por incompetência de quem me convida, porque sou eu a sofrer as consequências?

Se precisarmos de um segundo pacote de ajuda, meus senhores tecnocratas do FMI e da UE, provam apenas a vossa incapacidade e a vossa ignorância... E, tenho a dizer, não devíamos ter que pagar pela ignorância dos outros...

E o Fidalgo retira-se...


Tuesday, January 24, 2012

Notas sobre a mediatização do segundo resgate luso...

Os jornais norte-americanos avançaram hoje com a notícia de que Portugal poderia vir a precisar de um segundo resgate. Apesar de a mesma me parecer uma possibilidade, tal como a saída do Euro é uma possibilidade, ou a queda da República é uma possibilidade, apetece-me ler a notícia de outra maneira, com outras lentes, e partilhar com quem se dá ao trabalho de me ler. Gabo o esforço do leitor!

É mais do que evidente que Portugal precisa de um segundo resgate financeiro para os media norte-americanos... A verdade é que a crise financeira europeia, também conhecida como Crise das Dívidas Soberanas (veremos que nome fica nos Anais da História), é um prato muito apetecível para os media de além-mar. A Crise das Dívidas Soberanas deu um novo fulgor aos medias dos EUA, especialmente aos jornais e por mediatizar a Europa está na ordem do dia.

A mesma crise provou ser um mecanismo escapista, na esteira do que defendia Herta Herzog, para a crise interna que os Estados Unidos da América vivem e que têm ignorado. A crise financeira na Europa mostra as fraquezas do ora aliado ora adversário civilizacional. A crise prova, em fraca medida na minha modesta opinião, que o capitalismo norte-americano triunfou... Na verdade a mediatização da crise prova apenas a facilidade com que a esfera de opinião pública se deixa ludibriar...

Segundo factor: mediatizar a crise europeia está percebido; mas porquê Portugal? A mim quer-me parecer que Portugal é o único factor de interesse disponível. A Itália de Monti tornou-se parca em escândalos e em momentos picarescos que Berlusconi nos servia antes do jantar. A França vai-se entretendo com a sua campanha eleitoral presidencial e, portanto, pouco pode oferecer para entreter nos EUA. A Espanha optou por um low-profile inteligente, juntando-se à Bélgica e, por exemplo, à discreta Áustria.

A Roménia, por razões de preconceito ideológico, não faz vender jornais. Um país pós-soviético em crise? Obviamente... A Moldova segue na mesma bitola. E a Hungria soma ao preconceito a dificuldade que seria explicar a questão Constitucional a um público despreparado. A Grécia encontra-se num impasse enfadonho... E portanto sobra Portugal como alvo de especulações e de cenários projectivos e incertos.

E, repito, não estou a dizer que desconfio de um segundo resgate apenas gostava de ver exposta com clareza a agenda mediática do país de Obama. Não estou a duvidar do conteúdo da notícia, mas não tenho peias de pôr em causa o sentido real da notícia. Estão os media norte-americanos apenas a informar? Ou, como me quer parecer, vão(-se) distraindo e sacudindo a água do capote?

E amanhã talvez escreva sobre o segundo resgate em si...

O amanhã o dirá!

Monday, January 23, 2012

Vossa Majestade volte...

Estou ainda em estado de perplexidade com a falta de sensatez do mais alto dirigente do Estado Português, quando diz que a sua reforma pode não lhe chegar para pagar as despesas... Estou em estado de perplexidade com a falta de sentido de oportunidade que o Presidente da República tem de cada vez que fala. Não foi há muito que nos interromperam o Verão para se falar do estatuto dos Açores, para espanto de todos...

Sabe quem me conhece que sou um Monárquico convicto. Defendo que em Portugal a evolução sociopolítica do país pede por um Chefe de Estado não-eleito mas responsabilizável pelo seus actos. Afinal as Cortes existem para alguma coisa. Um Chefe de Estado que fica acima de interesses e politiquices de primeira esteira. Óbvio que um Chefe de Estado do tipo monárquico não significa um homem sem opinião, apático e amorfo... Para isso mantemos o actual inquilino.

Um Rei, ou uma Rainha, poderá sempre posicionar-se; poderá sempre mostrar a sua opinião; mas esta terá que ser destrinçada da sua actuação política. Um Rei, ou uma Rainha, será um ser humano com falhas e com virtudes, como qualquer um de nós, mas com a particularidade de ser talhado desde o berço para o mais alto cargo governativo. E, volto a sublinhar, se provar a sua incapacidade o mesmo Rei/Rainha será deposto e a linha de sucessão encarregar-se-à do resto.

Em Portugal sempre que dizemos a palavra Monarquia perguntam logo se não gostamos de viver em Democracia. A maioria dos Monárquicos adora viver em Democracia e fica, como eu, a sorrir pela confusão gerada. O ranking do "Economist Intelligence Unit" responde a esta confusão sozinho: nos 10 países do top 7 são monarquias e 3 são repúblicas. Eu repito 7 dos dez regimes mais democráticos do mundo são monarquias. Acho que fica desfeito esse mal-entendido.

Dizem que com que direito um Rei é Rei apenas por nascer na família X. Que no sistema Republicano todos podemos ser Presidentes? Podemos mesmo? E a restrição da idade? Se morrer antes dos 35 anos não sou elegível. E a questão do cadastro? E a questão das assinaturas? E o financiamento da campanha? Podemos mesmo todos ser Presidentes? Ou alimentamos uma ilusão utópica, que não tem provado os seus frutos.

A Monarquia Portuguesa sempre foi progressista, desde o seu nascimento. D. Afonso Henriques, por exemplo, nunca introduziu a Lei Sálica (que excluía as mulheres de acederem ao trono); se não tivemos tantas Rainhas como a Rússia foi por questões de ordenamento interno e não por impeditivos legais. A Monarquia Portuguesa tinha um Parlamento Bicamaral funcional, que governava o país mas que não apaziguava a fome de quem se queria entronizar, nem que fosse temporariamente, rei...

A República o que trouxe a Portugal? Instabilidade nos primeiros 16 anos; seguidos de uma ditadura que levou quase meio-século e agora sim estamos a tentar re-construir o esqueleto democrático que os Monárquicos lançaram no começo do século XIX. Em Monarquia o Chefe de Estado é um guardião da Cultura e da Sociedade em geral; em República o Presidente é um "ocupante" da cadeira, que logo logo será ocupada por um outro... É se no máximo um gestor institucional...

Em Monarquia continuamos a ter que sustentar a Família Real, pensarão ainda alguns. Não necessariamente. A instauração da V Dinastia poderia trazer inovações legais que ditassem limites ao Orçamento da Casa Real e que acabassem com o sustento de vários ex-presidentes, que encarecem o erário público e que nem sempre merecem o encarecimento do mesmo. Em Monarquia não teríamos cavaquices a desfilarem na televisão na hora do jantar...

E acho que já provei o meu ponto.


Wednesday, January 18, 2012

Da ajuda como instrumento ou como finalidade...

Não é hábito meu continuar o mesmo tema de uns posts para os outros, porque gosto de ir cruzando temáticas e espicaçando quem lê (e a mim enquanto escrevo) na construção de um puzzle mental. Mas desta vez quebro a regra e mantenho-me no tema do post anterior. E uma vez por culpa das notícias que vou publicando no Observatório de Segurança Humana.

Segundo as agências de ajuda internacional a resposta lenta da comunidade internacional aos problemas da África Oriental custam vidas, mais do que minutos. A cada decisão adiada, suspensa, prorrogada no tempo e que se passeia de corredor em corredor, de secretária em secretária, sucumbem mais umas quantas vidas. É que por detrás dos números tenebrosos estão seres humanos que se diluem nos caudais da História sem hipóteses de se realizarem por inteiro!

Mas, tal como já disse, o actual esquema não pode ser mantido. E agora levanto para discussão mais duas coisinhas... Primeiro vamos ao lado dos governos. A ajuda internacional não deve ser politizada e entendida como um instrumento de pressão diplomática. A ajuda internacional deveria desligar-se o mais possível dos interesses dos governantes, sendo contudo este um processo complexo e que exigiria um paradigma radicalmente novo... E que não vejo a ser sequer discutido.

Por outro lado a questão da mutação do paradigma da ajuda prende-se com o posicionamento que adoptamos. Se entendemos a ajuda como um fim de per si, se entendemos que o simples processo de dar dinheiro e enviar bens serve para suprir as necessidades das populações carenciadas então que não se mexa no paradigma actual. Para funcionar mal, mais vale este que já conhecemos.

Mas se começarmos a entender a ajuda como um instrumento de capacitação das populações locais então, peço desculpas, mas anda-se a fazer tudo ao contrário. A ajuda devia servir para capacitar as populações a que estas possam, num futuro breve, ter forma de responder a adversidades de modo autónomo. Obviamente que em casos extraordinários a ajuda internacional seria necessária, mas cessaria a necessidade de ajuda cíclica em cada cheia e em cada má colheita...

A ajuda internacional deveria funcionar não como uma corrente de dinheiro, mas como um canal de capacitação e de transformação de talentos e oportunidades. Há que empoderar os nativos, os que habitam a terra, ao invés de nos limitar-mos a enviar uns euros para o terreno. Se só deixamos dinheiro é normal que quando este acaba nos peçam mais.

Mas se em vez de dinheiro deixarmos capacidades, resiliência, inputs estruturais e colectivos, então a necessidade de pedir mais dinheiro vai-se esbatendo. E poderemos começar a ter mais países, como o Gana, a anunciar o princípio do fim da dependência da ajuda externa. A ajuda entendida como um instrumento, como uma ferramenta, pode ajudar-nos a sair do impasse em que África parece ter caído. Pois uma África capacitada é uma África mais autónoma, e portanto mais livre.

Ficam as sugestões... Que o Fidalgo vai ler mais qualquer coisita!


Monday, January 16, 2012

Ajudar não é viciar!

Publicámos hoje uma notícia no Observatório de Segurança Humana que me deixou com sentimentos mistos: agradavelmente surpreso mas reticente... Do Gana (país africano para os mais distraídos) chegam vozes que dizem que em 10 anos esse pequeno país africano talvez não precise mais de recorrer à ajuda internacional. Curiosamente no mesmo dia chegam ventos da Somália que falam na provável morte de dezenas de milhar de pessoas com fome...

E fiquei a pensar na questão da ajuda internacional e na sua eficácia... Sou um firme defensor da ajuda internacional, não faria outro sentido sendo Secretário Executivo do OSH, mas acho que a mesma precisa ser repensada de modo profundo. Repensada nos seus fundamentos, nos seus intentos e no seu financiamento. Parece-me óbvio que o actual modelo já esgotou os seus méritos.

E uso o exemplo somali para me justificar! A Somália é um dos grandes beneficiários da ajuda internacional e, curiosamente, um dos estados que regista menos progressos positivos. De ano para ano os relatórios são devastadores e notícias como a de hoje, que dão conta da possível morte de dezenas de milhar de pessoas com fome, não fazem a capa da maioria dos jornais de tão banalizadas que estão.

A ajuda internacional, até ao momento, é uma espécie de porquinho mialheiro... Estende-se a mão, recebe-se umas moedas, gasta-se, não se é responsabilizado pela forma como se gasta e volta-se a pedir mais uma moedinhas... E o ciclo não termina na maioria dos casos... É atenuado por vezes; minorado noutras; mas são raros os casos como o do Gana! E de excepções não se fazem regras.

É necessário agir com maior celeridade quando se torna óbvio que a ajuda internacional é mais uma ajuda ao financiamento das elites políticas, do que uma real ajuda aos destinatários originais. É necessário agir com celeridade quando o despotismo e o egoísmo político se sobrepõem a noções de bem estar comum e ao sentido mínimo de humanidade. É necessário punir em alguns casos e não fechar sempre os olhos só para aparecer bem na fotografia ou para expiar culpas do passado histórico!

Sim, a Europa errou no passado quando colonizou África. A Europa errou no passado quando estraçalhou África de esquadro e régua em punho sem uma visão humana, racional, crítica do que se fazia. O fracasso do continente Africano é parcialmente culpa europeia mas não é só culpa europeia... A descolonização não trouxe a paz, o desenvolvimento, o crescimento que se aludia. A África pós-colonial mostra mais vezes cores vermelhas sangue e negro fome do que durante o período de governação das várias administrações europeias que pulularam no continente...

E portanto não me parece justo que se olhe para a Europa com amor e devoção quando a ajuda internacional chega... Mas que se enxovalhe a mesma Europa, como se fosse um trapo velho e surrento, só porque a ajuda não vai chegar mais. Porque governos democraticamente eleitos e responsabilizáveis publicamente decidem mudar as prioridades do dinheiro. E numa fase em que o dinheiro é pouco responsabilizar quem utiliza a ajuda internacional pode destrinçar trigo do joio.

Ajudar deve ser entendido como um acto complementar, que depreende uma malha de acções políticas que irão ajudar a fortalecer resultados e a enrobustecer as áreas em que a ajuda se foca. Ajudar é fazer apenas parte do processo e não, como acontece hoje em dia, fazer todo o processo. Porque fazer tudo, sem responsabilizar as elites políticas locais, é criar um estímulo ao vício da irresponsabilidade e da ganância... É dizer: se não fizer nós faremos por si...

E isso, desculpem-me a franqueza, não é ajudar!

E, para não aborrecer o leitor, o Fidalgo fica-se por aqui.

Friday, January 13, 2012

Voltemos ao Império Merkeliano!

Confesso que tenho acompanhado com interesse os desenvolvimentos da Crise das Dívidas Soberanas da Zona Euro, mesmo que nos últimos posts tenha-me debruçado sobre outras temáticas. Gosto de diversidade, de pluralidade e por isso tenho pulado de tema em tema. Mas, depois das notícias que foram saindo esta semana, tornou-se inevitável voltar a escrever sobre o Império Merkeliano.

Ainda há pouco tempo atrás a Itália era dada como certa, tal como a Espanha, que seriam as próximas a cair na teia complexa da ajuda financeira... E, de súbito, a Itália é dada como estando em zona segura! Confusos? Não vale a pena. É que na verdade falamos de Itálias diferentes, com interesses diferentes para Sua Baixeza (consta que a Chanceller alemã não é muito alta, pois longe de mim fazer juízos de carácter) Imperial D. Merkel I.

A Itália de Berlusconi era um perigo para a Zona Euro e uma certeza: o perigo de poder fazer colapsar o euro e a certeza da iminência da necessidade de ajuda externa. A Itália de Berlusconi era uma rival política, que não cedia aos apelos de Merkel e que, não raras vezes, caricaturava essa auto nomeada Imperatriz. A Itália de Monti tornou-se, em pouco tempo, zona segura. E a Itália de Monti tornou-se, em ainda menos tempo, em uma ovelhinha dócil no rebanho europeu. E Merkel já mostrou que quer ser a única pastora.

Mais interessante ainda, Monti quer agora que o duo (Merkel-Sarkozy) passe a ser um trio, onde Roma também possa ir cantando uma árias. Monti, todavia, terá que provar a Merkel que é fiel, pois para pajem já existe o Sarkozy... Mas para aio ainda há uma vaga e Monti não é o único na corrida. Cameron não quer, mas corre sérios riscos de ficar como o bobo da corte Merkeliana. A ver vamos...

A crise das dívidas soberanas vai transformando os políticos, substituídos (em boa hora!) pelos tecnocratas. Mas a mesma crise vai pervertendo a moralidade da política, quando uns se aproveitam de A para alcançar B, alegando que querem C. A crise de que tanto se fala tornou-se a mais fácil das desculpas para promover mudanças e mutações sem auscultação da sociedade civil... E basta olhar para a Hungria para perceber o quão perigoso isso pode ser!

E no meio de toda a efervescência palaciana, as agências de rating anunciaram hoje uma nova razia aos ratings. Anunciaram hoje um novo corte ao qual apenas escapam quatro países. Um corte insensato (e por isso coerente com os anteriores!) numa altura em que a Grécia tem as negociações do seu crédito paradas. Um corte ridículo que poderá acelerar o radicalismo contestatário.

Vai sendo tempo de se saber como pára o inquérito que a U.E. lançou para aferir da equidade da acção das agências de rating. Vai sendo tempo de a Europa acordar do transe em que parece mergulhada e pôr mãos à obra. Não consigo acreditar que a Europa dos Impérios se renda assim! Não consigo acreditar que a Europa da Liberdade e da Democracia se deixe engolir pela paranóia do rating e pela máquina Merkeliana. Não consigo nem quero acreditar...

E hoje fico-me por aqui...


Thursday, January 12, 2012

Portugal tem novo signo astrológico: o Maçon!

O ano passado, por altura do Verão, se a memória não me atraiçoa, andou meio mundo admirado com as notícias que davam conta de um décimo terceiro signo: o Serpentário (ou Serpente, para simplificar a coisa). Depois de dois ou três dias de embriaguez mediática lá se foi dizendo que "os entendidos conheciam este signo", mas o mesmo não se tornava tão operacionável como os outros doze e por isso foi banido.

No começo de 2012 descobriu-se agora um novo signo: Maçon. De súbito a pergunta que anda no ar é: o senhor é Maçon? E, sou sincero, dá vontade de responder, Não, sou Leão! E no meu caso é duplamente verdade. O meu signo é Leão e não, não sou Maçon. Parece-me contudo patética tanta diatribe lançada na praça pública sobre um tema, que não é tema em si. Não me digam que só descobriram agora que a vizinha do segundo esquerdo e a filha da amiga da tia são Maçons?

Os Maçons, ao contrário do que quer fazer crer Dan Brown e a sua acolitagem parola, não são uma organização secreta que governa o mundo com tirania... É verdade que os rituais iniciáticos são secretos, mas o acesso aos mesmo não tem nada de secreto. Se os Maçons são uma organização secreta então têm um péssimo assessor de imprensa, porque desde sempre todos falam das suas movimentações e dos seus membros.

Permita-me o leitor a pausa para dizer que a Maçonaria tem tanto de secreta e corporativa como algumas Tunas Académicas... O ingresso em ambas é semi-público, amplamente conhecido e pautado por regras definidas previamente. Os rituais de iniciação ou de ascensão de categoria, em ambas, é que se revestem de um simbolismo próprio e de um carácter privado, que promove a intensificação do sentimento de fraternidade e justifica a lealdade para com aquele grupo.

Mas voltemos ao assunto do post! Se os Maçons são uma organização secreta expliquem-me, mentes iluminadas, como é que existem (pelo menos) 6 milhões de Maçons em todo o mundo? Se os Maçons são os donos de Portugal, como querem fazer querer, acham mesmo que querem destruir o país que lhes dá poder económico, capital político e prestígio social?

A mim quer-me parecer que querem fazer dos Maçons no século XXI, o mesmo que fizemos com os judeus na Idade Média: bode expiatório. Mas arranjar "bodes expiatórios" não é solução para a crise; "registar" os Maçons como quase propôs a Ministra da Justiça não inverterá paradigmas; "conhecer" os membros secretos da menos secreta das organizações não nos coloca na rota do crescimento. Mas claro que isto sou eu apenas a deambular pelo tema...

As teorias e historietas da conspiração trazem conforto a algumas almas, animam e aquecem corações, fazem até vender livros, mas no final não resolvem problemas. No final os seguidores do conspiracionismo são os primeiros a não quererem alterar o status quo, pois a mutação do mesmo retira-lhes parte da razão de viver. Na verdade o corporativismo secreto está menos nos Maçons e mais nos seguidores de Dan Brown&Companhia...

E, repito, não, não sou Maçon!

Tuesday, January 10, 2012

Um erro chamado Kosovo!

O Kosovo tem nos investigadores um efeito similar ao clubismo nos adeptos do futebol. A questão do Kosovo, ou dilema Kosovar, divide paixões e inflama discussões que vão dançando ora entre argumentos ora entre sentimentos. O Kosovo é como a ópera: não dá para ficar indiferente. Ou se apoia, ou não se apoia a declaração unilateral de independência.

Sou contra a independência do Kosovo. Não que tenha uma qualquer agenda Sérvia, ou que seja contra o alegado direito à auto-determinação dos Kosovares. A mim parece-me que os ditos Kosovares, na verdade, mais não são do que Albaneses a viver na Sérvia que, por força dos seus líderes políticos e de aliados propositadamente mal informados, como os Estados Unidos da América, estão a tentar etnicizar o que não precisa ser etnicizado.

O Kosovo é um projecto que tresanda a cinismo e a prepotência de uma parte do Ocidente. E explico porquê! O Kosovo tem menos direito a ser independente do que a Abkhazia (o caso da Ossétia do Sul é mais complexo e por isso vou evitá-lo), mas tenta-se vender a ideia contrária. A Abkhazia existiu enquanto principado independente durante séculos, tendo apenas sido absorvida no Império Russo no século XVIII, em 1810, no reinado de Sefer Ali-Bey (que mais tarde cristianiza o seu nome para George) e mesmo assim mantendo a sua autonomia governativa sob regência de Mahmud Bey (ou Mikhail na versão russófona) até 1864, quando é absorvida pelas forças de Alexandre II.

O Kosovo foi, no máximo, uma província vassala do Império Otomano que depois foi incorporada no território Sérvio. A Abkhazia só se torna de facto parte integrante da Geórgia no final da URSS, mantendo sempre um estatuto de autonomia. E mesmo assim o mundo continua a achar que o Kosovo é que tem direito a ser independente e a Abkhazia deveria contentar-se em fazer parte de um país que não é o seu? Ora onde está a lógica nisto?

A independência da Abkhazia, disse Luís Amado, ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros, constitui uma violação da integridade territorial da Geórgia. Muito bem, aceito o argumento. E logo me vem a pergunta: e a independência do Kosovo não é uma violação da integridade territorial da Sérvia? Porque não podem os Abkhazes, que são (para todos os efeitos) um aglomerado civilizacional dissimilar dos demais vizinhos, ter o seu estado, quando os Kosovares (que são basicamente Albaneses a viver na Sérvia) podem?

O Kosovo é tanto um erro que, pasmem-se algumas alminhas, após a sua independentização o seu Primeiro-Ministro foi acusado de tráfico de órgãos e, recentemente, o Kosovo pediu ao FMI para negociar a sua dívida pública. Pergunto-me: como pode um país com menos de cinco anos de independência ter uma dívida pública que mereça intervenção do FMI? O que correu mal? Onde estão os aliados que bateram palminhas no içar da bandeira do Kosovo?

O Kosovo, parece-me, está condenado a um fim que a Albânia conhece... A sua integração na Albânia, para já rejeitada, será a única forma de garantir a viabilidade de um estado que causa um estado de desconforto na Europa da União. O Kosovo, como a Bielorrússia, perceberá a tempo que o desejo de independência por vezes não devia passar de uma utopia. O Kosovo é um erro que o Ocidente promovido pela pressão diplomática dos EUA.

O Kosovo é uma inutilidade existente na Europa. Muito duro? Pronto, é uma imbecilidade norte-americana que adora construir pequenos protectorados que, normalmente, correm mal. O Afeganistão dos Talibans passou de aliado (nos anos 70) a inimigo; o Iraque de Saddam idem; o Egipto de Mubarak também... E fico-me por aqui!

Monday, January 09, 2012

Nem tanga, nem slip... Acabou a crise!

Acabou a crise!

Não; não foi o Ministro da Economia ou mesmo o Primeiro-Ministro quem anunciou o final da crise na qual estamos mergulhados desde há muito tempo. Começámos por descobrir, em 2004, que estávamos de "tanga" e Durão Barroso, corajoso, achou que a tanga de Bruxelas dava melhor com o seu tom de pele e "raspou-se" para fora do país. E nem foi preciso apelar à migração dos políticos! As coisas que uma pessoa se lembra.

Depois veio o Primeiro-Ministro com nome de filósofo e uma capacidade de oratória a lembrar os políticos atenienses. A tanga passou a ser um slip de moda, ecológico, resistente e tecnológico. O dinheiro apareceu e passámos da tanga às ofertas de computadores para que os mais novos descobrissem as novas tecnologias. Um pequeno prodígio esses meses (que anos foram poucos) em que tudo parecia ir em Alta Velocidade.

E depois veio o bicho papão das Dívidas Soberanas acompanhado pelas Moiras contemporâneas (as agências de rating) que tudo vêem e tudo conseguem prever. Portugal ficou de súbito sem slips e vendeu a tanga que estava esburacada, vá-se lá saber como. E agora no começo do Annus Horribilis, do ano de todas as transformações EU, euzinho, venho anunciar o fim da crise?

Obviamente que sim!

O Benfica ontem ganhou ao União de Leiria e voou, dizem os jornais, para o primeiro lugar da tabela. Num país que se move a jogos de futebol (é sintomático disso que dos 20 programas mais vistos de 2011, quinze sejam jogos de futebol) e no qual a legião de fãs do Benfica oblitera todos os outros clubes, o Benfica é o único clube com quatro dos seus jogos a figurarem no ranking dos dez programas mais vistos na televisão portuguesa em 2011, a vitória de ontem preconiza o fim da crise.

É conhecido de todos nós a extraordinária capacidade dos portugueses flutuarem numa bivalência comportamental que lembra os oxímoros literários. Se pela manhã somos os piores da Europa, quando não do mundo, que não sabemos nada, que não fazemos nada, que não prestamos para nada e que não solucionaremos nada... De tarde, com a cervejola na mão e o tremoço no canto da boca, assistimos a um jogo de futebol e pimba: "até os comemos!"

A vitória do Benfica de ontem galvanizará imensa gente que, nos dias que se seguem, andará de sorriso na rua e deixará de ouvir palavras como "Austeridade", "Crise" e "Sacrifício". E se as ouvirem dirão algo do género: "Os jogadores do Glorioso de facto têm espírito de sacrifício"; ou "É verdade, há uma crise de talento no futebol". A outra crise desaparecerá dos ouvidos dos "Benfiquenses" nos próximos dias.

E não me entendam mal. Acho fantástico que se consiga estar alegre, bem disposto, contente, ao invés do estado de desgraça de comiseração que costuma marcar o português. Acho louvável que haja gente que se sente bem, no ano em que querem que nos sintamos mal. Só pedia dosagem e bom-senso. Dosagem nos exageros... Não somos nem super-heróis, mas também não somos os pobrezinhos dos servos da gleba quinhentista.

Só podia que não fosse apenas o Benfica a chegar ao primeiro lugar. Aproveite-se a motivação e invista-se a energia positiva em criatividade, empreendedorismo, inovação e quiçá chegaremos todos ao primeiro lugar. Não faz sentido continuar a usar o sofá como mecanismo de terapia emocional e de catárse psicossocial, cruzando-se os braços a todos os outros esforços. O caminho faz-se andando e não falando, falando, falando, palrando, falando...

Quem vê futebol, e eu não faço parte do lote, não entende o que é importante? Para além do dinheiro, dos carros, dos maus cortes de cabelo, das roupas que nunca estarão na moda (entendida como bom gosto), das miúdas e das estroinices, o futebol é um desporto de equipa. Joga-se pelo esforço concertado de vários jogadores. Ora se todos pensarmos que podemos fazer mais um bocadinho para dar mais 3 pontos a Portugal será tudo muito mais fácil.

Fica a dica, em estilo de "sermão e missa cantada", do amigo Fidalgo!


Friday, January 06, 2012

E ainda faltam 360 dias...

O ano 2012 ainda agora começou e o cenário é já em si dantesco, levando-me a questionar se os ameríndios Maias não terão razão... Se assim for a 21 de Dezembro lá se vai tudo e andei eu a esforçar-me para ter um Doutoramento que apenas "desfrutarei" alguns escassos meses... Enfim; não é de misticismo ou de previsões astrológicas e religiosas que escrevo hoje.

2012 começa mergulhado num aparente caos, herdado de um 2011 intenso. Comecemos pelo óbvio, a Primavera Árabe, que os media apadrinharam com tanto carinho, parece estar a resvalar para um Inverno Belicoso com a Líbia, a Síria em cenário de guerra civil e com explosões de violência demasiado regulares no Yemen e no Bahrein. E mesmo o Egipto ainda está longe de estar estabilizado...

No Iraque a violência inter-étnica e inter-religiosa vai dando sinais de uma vitalidade preocupante; ao mesmo tempo que o Afeganistão e o Paquistão tentam reconstruir a sua política pensando mais na Economia e nos Interesses, do que no que mais interesse: no cidadão, no ser humano entendido de modo singular. No Irão a tensão também cresceu e são cada vez mais os sinais de um potencial conflito regional, se não mesmo internacional.

O cenário negro continua. Os Sudões estão em conflito e apesar de a comunidade internacional só reconhecer a República do Sudão e a República do Sudão do Sul quer-me parecer que estão ali três e não duas entidades políticas... Quer-me parecer que o Sudão ainda vai ser retalhado. O conflito na Somália não dá sinais de abrandamento, apesar da desistência das tropas da Etiópia parecer um bom sinal, não nos podemos esquecer do endurecimento da retórica vinda do Quénia.

A Costa do Marfim, o Congo e a Guiné-Bissau voltaram a dar provas de que a adopção dos modelos democráticos ocidentais às realidades locais, sem um ajustamento cultural, resultam em consequências mais gravosas do que benéficas... Mas ninguém viu nada, como sempre! Na Nigéria há cada vez mais sinais de que o país se prepara para uma vaga de confrontos etno-religiosos, que podem resultar num desfecho apocalíptico.

A animosidade beligerante entre as duas Coreias também voltou a reacender-se no momento em que Kim jong-Un entra em cena (se fosse uma monarquia o novo líder da Coreia do Norte seria muito provavelmente Kim Jong III). A Índia percebeu, no final de 2011 diga-se, que o seu sistema político está bloqueado pela dimensão e diversidade populacional de um país desenhado de modo assimétrico e cheio de problemas sociais complexos. Na China também há protestos, mas para já nada que o governo central não saiba serenar e resolver.

No meio de toda a loucura, e talvez por causa dela, a OSCE vem anunciar que não vai monitorizar as eleições do Turcomenistão; felizmente não se esperam eleições no Quirguistão, no Uzbequistão e no Tajiquistão para este ano. Na América Latina, o Chile continua a viver uma onda contestatária que, apesar de pouco mediatizada, pode ser importante para se compreenderem em profundidade os acontecimentos políticos locais, já que o Paraguai e a Colômbia parecem seguir o mesmo caminho. 

Na Europa a crise das Dívidas Soberanas já fez mais uma vítima: a Hungria. E a marcha dos estados "fmizados" promete continuar... A vizinha Rússia vive um inesperado clima de contestação, ao qual muito esfregam as mãos de contentamento... Lembro que as mutações políticas na Rússia estão marcadas por momentos de sangue e tragédia. Ao Império sucedeu-se uma guerra civil; à União sucedeu-se a Catastroika. Portanto de onde vem o contentamento?

E no meio de tudo isto, vá-se lá saber como, eu ainda acho que eu 2012 temos hipótese de dar a volta por cima. Ainda podemos reconstruir o que começámos em 2011 e demolir alguns dos erros preservados no ano transacto. Ainda acho que em 2012 muita coisa positiva pode acontecer. Afinal 2012 só esgotou 6 dias, só precisamos de saber gerir os outros 360.

Wednesday, January 04, 2012

Estou de partida

Estou de partida, sem ter chegado a lugar algum. Estou de partida, enquanto olho paisagens esborratadas pela velocidade e enegrecidas pelo sentimento. Estou de partida, quando queria chegar a um lugar que não existe, que se sente mas não se apresenta. Estou de partida, e tenho que sorrir se chorar eu não quiser. Estou de partida, levando na memória sons e vivências que ainda não aconteceram.

Estou de partida, pois não cheguei a realizar-me; não deixei de ser partícula onírica; não deixei de ser uma probabilidade, uma possibilidade, uma eventualidade. Estou de partida porque sim, e mais nada! Estou de partida, pois quando chegar terei que continuar a percorrer esta longa estrada.

Estou de partida sem sair do mesmo lugar. Tal como estou em pé, mesmo quando eu me sentar. Sou um redemoinho de contradições e parto deste sítio, onde nunca cheguei. Estou de partida, buscando essa chegada; atendendo uma chamada que um dia se fará. Estou de partida agora, porque prefiro o já, ao lamento da demora.

Estou de partida mas deixo-me ficar. Deixo réstias de mim, retalhos da manta da minha existência, pedacinhos pequeninos da minha essência que implantei por aí. Estou de partida, sem ter pensado uma chegada, apesar de ter gravado, na mente, a morada de onde saio. Estou de partida por agora, pois quero ver se chego em Maio.

Estou de partida, por evidência, e deixo de clamar assim. Estou de partida, minha querida, não precisas esperar por mim. Porque quem parte também chega; quem parte também te aconchega; quem parte está perto de ti. Olha ao espelho e sorri e verás que estou aí; e que mesmo estando de partida estou já de chegada… E mesmo quando parto sabes estarei à tua beira... a ver-te dormir…

Tuesday, January 03, 2012

Hungarizemos a Europa!

Estava a beber o meu café da manhã, e bem que me soube depois de uma noite acompanhado pelas "Sónias", como diz uma das minhas irmãs mais novas, quando li sobre o arrepio que a Hungria deu à Europa da União. Não se previa uma manifestação com a dimensão, o entusiasmo e a lucidez registadas contra a Nova Constituição que, entre outras coisas, faz temer um regresso aos tempos da cortina de ferro. Isto quando a Rússia de Putin ainda se recompõe do recente "percalço" eleitoral.

A sociedade civil na Hungria demonstrou o caminho às demais sociedades civis europeias. Em nome da Economia podemos e devemos fazer muita coisa, mas não devemos ameaçar liberdades e direitos sociais conquistados com muito esforço. Em nome da Economia podemos até repensar os "direitos adquiridos" (falácia que os mais velhos sindicalistas europeus usam e abusam, para não se mexer num sistema que tem de ser reconstruído), mas isso não significa que se ameacem outros direitos sociais.

Mas nem só de Hungria se fez a Europa de hoje... E a Grécia, a primeira a tombar perante o ataque acirrado dos agentes económicos de Wall Street & Companhia, também saltou para os escaparates. Com uma notícia que é cada vez menos notícia: a saída do Euro será iminente se o novo resgate não for aprovado. Ameaçar com a "saída" da zona Euro é uma arma ambígua, pois pode acontecer que um dia Papademos se veja num contexto em que lhe digam: então saiam e, se faz favor, não batam com a porta!

Tenho a consciência que a saída do Euro parece a solução mágica, nas cabeças de alguns génios iluminados, mas aconselharia prudência onde vejo impaciência. O Euro, com todas as suas maleitas, também provou ser capaz de muitas virtudes e não devemos imputar a uma moeda, que no fundo é um projecto comunitário com grande potencial, as culpas do actual cenário europeu... Afinal a História diz-nos que a Europa sempre adorou gastar mais do que tinha! E sempre se achou à beira do abismo económico...

Talvez nos tenham ficado genes da Roma Imperial, da grandeza dourada desse Império, que ciclicamente fomos tentando refazer (lembro-me assim de súbito dos intentos do Sacro Império Romano-Germânico, do Império Francês, do Império Russo e da Alemanha Nazi). Os Impérios não voltam, pelo menos no curto-prazo, e o abismo está agora presente no mais perigoso dos lugares: na psique da esfera pública. E vejo muitas "Grécias" a jogarem cartadas de adiamento e poucas "Hungrias" a virem para a rua...

Talvez falte aos Gregos a coragem para tomar medidas certas, ao invés de continuar no jogo do "sai-não sai do euro". Talvez falte aos Gregos a coragem para serem mais Húngaros, para serem pró-activos, reivindicativos e não maquinados por sindicatos ossificados e inflamados em violência bárbara e desnecessária. Talvez falte aos Gregos assumirem a falência da sua República e repensarem-se social, cultural, política, económica e comunitariamente.

E talvez, quiçá de certeza, tudo isso não falte apenas aos Gregos... Não é lusa gente?

E o Fidalgo continuará atento!

Monday, January 02, 2012

O Tempo tem tanto tempo, quanto Dinheiro o tempo tem...

Foi talvez uma das notícias mais curiosas que li na recta final de 2011... A estado insular de Samoa decidiu alterar o seu fuso horário e, para o fazer, decidiu o Executivo local saltar do dia 29 de Dezembro para o dia 31 de Dezembro. Samoa, que até então se regia pelo fuso horário norte-americano havaiano, passa a regular-se pelas horas de Wellington (Nova Zelândia), aproximando-se ainda de Camberra (Austrália) e de Pequim (China).

O decisão do governo samoano não se prendeu com uma mera correcção dos relógios, ou com uma aproximação amigável aos vizinhos. Razões económicas, como não poderia deixar de ser, pesaram mais na hora da decisão e, pasmei eu, não é a primeira mudança que os samoanos aceitam em prol do desenvolvimento económico. Em 2009 a ilha alterou a esquema de condução da direita para a esquerda, para "alinhar" com os vizinhos australianos...

Em 2011, a Samoa não foi o único estado do mundo a "brincar" com os relógios. A Federação da Rússia anunciou que deixa de adoptar horário de Verão, tendo feito a última alteração na Primavera de 2011. O argumento, muito válido para mim, é que estão por provar os benefícios de poupança energética que levaram à adopção deste sistema... E, acrescenta o Executivo Russo, são evidentes as maleitas para o biorritmo das constantes mudanças de horário... E com o biorritmo afectado, a produtividade baixa e lá se vai a Economia!!!

Em nome da Economia, uma vez mais, é que Dmitri Medvedev pediu, em 2009, que se pensassem em planos para diminuir o número de fusos horários em vigor na Federação da Rússia (por enquanto são onze os horários da Federação da Rússia), começando-se por reduzir o número de horários do Extremo Oriente Russo de três para um. O argumento central? Maior eficácia organizacional; maior uniformidade; menores custos; maior rentabilidade dos recursos públicos... Economia, portanto!

Em nome dessa mesma Economia, David Cameron anda a pensar, desde 2010, na adopção do fuso horário da Europa Continental (CET), pelo qual Madrid e Paris se regem, abandonando Lisboa no fuso horário actual. O movimento é feito sobre a capa de uma maior aproximação diplomática, mas é óbvio que é a pressão económica quem fala mais alto. E se até aqui a ideia estava a cozinhar em lume brando, o recente impasse por causa da posição britânica na crise na Eurozona pode acelerar a cozedura da mesma.

Mas isso teremos que esperar para ver... E, enquanto nada mais acontece, vou-me apercebendo que a Economia é uma reificação mais poderosa do que supunha; pois quer-me parecer que até o Tempo tem que se curvar aos caprichos dos irmãos Lucro e Custo! Mas claro que posso estar a exagerar, contagiado ainda pelas euforias da passagem de ano...

O Fidalgo vai continuar atento... Bom 2012!