Wednesday, August 31, 2016

Um ano e um dia, e amanhã é Setembro

30 de Agosto, 2015. Lembro-me de passar o controlo de segurança, depois de feito o check-in, com a tranquilidade normal de mais um voo. Eu que já ando "pelos ares" desde 2005, já tomo certas coisas como rituais. Fui calmamente para a porta de embarque. Sentei-me. Li as últimas mensagens que prometiam sucesso e desejavam felicidade. Respondi a todas.

Liguei-te. E tentando estar serena desejaste-me muita sorte, muita felicidade, muito sucesso. E declaraste, uma vez mais, o orgulho que tinhas em mim e quando ias dizer que "amo-te muito filho", quase senti a humidade salgada das lágrimas grossas que rolavam pelos olhos de jade, que emolduram o teu rosto sereno. E terminámos os dois a chorar. Um em Abrantes, outro em Lisboa. Distância curta que se tornaria longa num instante.

E respondi a mais umas quantas mensagens. Lá se fez anunciar o embarque para Istambul. Curioso como embarcar para Istambul se tornou normal, desde 2013. Era em Istambul que tudo passaria a ser novo. E com esse sentido de uma certa normalidade, num momento novo, lá me sentei; coloquei os auriculares; escolhi um album jazz e serenei...

Aterrei em Istambul. Normal. Já o fizera antes. Mas desta vez não segui para o embarque doméstico, com rumo a Ancara. Desta vez segui no embarque internacional. Destino: Carachi. Agora sim começava o novo. Mas é difícil pensar em "novo" num aeroporto conhecido. E por isso só quando descolámos, deixando para trás o que conhecia, percebi pela primeira vez que estava a começar algo novo. Dali para a frente o desconhecido!

Aterrei em Carachi que me recebeu, de madrugada, com o abraço quente dos 28 graus celsius. Um oficial com o meu nome impresso num papel guiou-me pelo aeroporto. Passámos o controlo de passaporto. Recolhemos a mala. Um segundo rosto, tão desconhecido quanto sorridente, envergava um segundo papel com o meu nome. E uma hora depois dormia no quarto, a que agora chamo de casa.

30 de Agosto, 2016. Acordei, pouco passava das oito da manhã. Sem pressas, que a pressa é companheira de quem não tem rotinas. E eu tenho rotinas; muitas; ordeiras; consistentes. Ainda não eram nove da manhã e já aguardava pelo pequeno-almoço na sala comum. Há um ano atrás era no quarto. Gosto mais assim. Somos gente e não pedras. Precisamos de outra gente que nos "gentifique".

Segui directo ao gabinete, num campus que tem já poucos segredos para mim. Preparei café, aroma "Paris", para começar a manhã. E num instante estava na sala de aula. Conheço os rostos de muitos dos alunos e alunas sentados na sala, e ainda nem leccionei para a maioria. Coisas de Coordenador de Licenciatura.

Segui de uma aula, para a outra. Quase sem pausa, porque há sempre mais um papel a assinar e mais uma chamada urgente. E quando dei por mim estava na "Sala de Eventos", num evento informal de convívio entre alunos e docentes do meu departamento. Havia expectativa nos caloiros e sorriso nos demais. E esperavam palavras minhas.

E subi ao palco. Alinhei o corpo com o pódio. E quando deviam sair sons, saíram primeiro lágrimas. A emoção por vezes vence. E por vezes nem luto. Respirei fundo. Revi o que queria dizer. Lá saíram fonemas organizados, sem a complexidade desejada e sem a criatividade ensaiada. Fonemas simples, secos, informativos mas envoltos em veludo.

Almocei. E segui para mais uma aula. O dia, há um ano, teria terminado, mas não terminou. Corri. Fiz exercícios físicos complementares. E sentei-me para responder a emails: mais de sessenta. E respondi a tudo. Pelo meio três chamadas e umas quantas mensagens. Até uma breve ligação skype com um colega na Alemanha. E deitei-me... Amanhã será outro dia.


Saturday, August 20, 2016

Voltei e cheguei a Carachi... ao mesmo tempo...

Voltei há quase 3 semanas... Estive quase dois meses fora, se é que "estar fora" se aplica. Como se decide "estar fora" entre o local onde fica o coração e o local onde vivemos? Como se decide "estar fora" quando deixamos de ter o preto e o branco e nos movimentamos entre matizes de cinzento? Como se decide "estar fora" quando parece que estamos sempre fora, ou sempre dentro, ou sempre algures?

Voltei há quase 3 semanas a Carachi. Para trás ficaram quase dois meses de Portugal. Repartidos entre a serenidade familiar na agora centenária cidade de Abrantes; entre o calor das novas amizades lavradas em Tomar; entre a doçura de rostos das boas gentes do Porto; entre a vivacidade e o bulício da minha querida Lisboa. Foram quase dois meses em que queria sentir-me dentro, sabendo que parte de mim já estava fora. E quando chegasse "lá fora" uma parte ficaria ali dentro.

Voltei há quase 3 semanas a Carachi, mas foi como se chegasse de novo. É tudo diferente. Parti de Carachi, no começo de Junho, como Professor, apenas para regressar como Coordenador, nos primeiros dias de Agosto. Não fui o único a partir. Três colegas seguiram para novos "foras", novos rumos. E três novos rostos ocuparão o seu lugar. Uma chegará hoje...

Voltei há quase 3 semanas a Carachi, a essa Carachi onde nunca chovera, e logo começou a chover. Como se os céus me quisessem dizer que não há repetições; que não cheguei para um remake mas para um novo episódio. Estou no mesmo espaço, mas num momento diferente. E por isso se é certo que voltei a Carachi, não é menos certo que só cheguei a este momento agora.

Voltei ao mesmo quarto, no segundo andar, no corredor direito, com o número 9 na porta. Mas o número 8, que albergava um desses colegas, repousa agora num silêncio incomum. Num silêncio que torna tudo isto novo, apesar de tudo permanecer semelhante no número 9. Nada permanece igual, quando somos feito de movimento e de emoções. Eu sei que o igual é uma ilusão, criada apenas para dar conforto. Mas por vezes o ilusório conforto é tudo o que basta...

Voltei ao mesmo quarto, no segundo andar, no corredor direito, com o nímero 9 na porta. Mas trouxe comigo novos rituais. Chá com mel do norte do Paquistão aos sábados e café, que trouxe de Portugal, aos domingos. Trouxe para o mesmo quarto, rotinas novas. A serenidade da leitura ou o ócio constante entre a poltrona amarela e a cadeira preta, substituídas por corridas, e agachamentos e flexões e sei lá mais o quê!

Voltei e cheguei a Carachi, ao mesmo tempo. Pronto para experimentar o novo, neste espaço que já conheço mas que me reserva o desconhecido. Voltei e cheguei para recomeçar, mas não para repetir. E apesar da incerteza ser a única certeza sinto-me confortado. Se fosse para remakes ficava na centenária Abrantes num loop de carinho familiar; ou deixava-me pelo Porto num carrousel de aventuras; ou quedava-me por Lisboa...

Voltei há quase 3 semanas a Carachi, mas não vi em busca do que já foi mas do que poderá ainda ser.  Porque sei que não sabendo ao certo onde é o meu "estar fora", acabo por estar sempre dentro; por estar sempre num espaço que é meu e não é meu, porque o espaço a ninguém pertence. Voltei em busca de mais peças para entender o puzzle que sou. E amanhã começa mais uma semana...