Friday, March 30, 2012

E a sublevação no Mali vai de mal a pior!

Anda complicada a vida no Estado do Mali e não na Nação Mali, como se vai noticiando por aí. As fronteiras das Nações são fluídas, impossíveis de uma demarcação topográfica e dependendo de uma dupla dinâmica de auto-consciencialização de pertença dos sujeitos a um certo grupo mas, também, de aceitação do grupo desse mesmo exercício de auto-consciencialização. Pelo menos para um etno-simbolista como eu é assim que funciona...

O Estado, por seu lado, tem fronteiras físicas; é passível de ser "impresso" num mapa e, como o Mali provou, possível de ser assaltado num Golpe de Estado, que vai correndo muito pior do que o esperado. Porquê? Porque é sempre fracassado o Golpe de Estado que não consegue surtir frutos nas primeiras 48 horas... Tudo o que se arrasta para lá das 48 horas passa a sublevação militar-guerrilheira-independentista; tudo o que passa as 48 horas deixa de ser Golpe de Estado na sua essência.

E por isso o que se passa no Mali, apesar de noticiado com o epíteto Golpe de Estado, é, para mim, neste momento, uma sublevação militarizada que causou a cisão de um estado frágil em várias facções políticas. Os pró-sublevação, os pró-governo e os pró-tuaregues. Os pró-sublevação representam parte do poderio militar do país e iniciaram o movimento achando que com a queda do governo viria um executivo forte, capaz de conter a rebelião tuaregue que clama por direito a um Estado seu que seja independente e soberano.

Os pró-governo contam com a "restante" força militar e com o apoio, pelo menos diplomático, da União Africana e da União Europeia. A primeira das Uniões, aliás, avisou já aos golpistas que está a ponderar um embargo económico. Uma incursão militar com forças dos estados vizinhos não está descartada, mas também não está ainda discutida com profundidade. A União Europeia apela, como sempre, ao diálogo e ao retomar da normalidade... Se é que a normalidade existia no Mali pré-golpe!!!

Os pró-tuaregues e os tuaregues em si mesmos foram a causa do golpe, que colocou o eixo Euro-Africano em sobressalto. A terceira parte desta história clama pelo direito a ter um estado seu, no que aliás parece ser uma nova vaga autonomista-independentista em África. Basta lembrar-mo-nos que a Somalilândia voltou a pedir a independência da Somália; o Reino de Barotseland quer "sair" do Zâmbia; o Saara Ocidental tenta ainda "fugir" a Marrocos; o estado do Nilo Azul no Sudão fala cada vez mais em autonomia alargada; a província Cyrenaica na Líbia também clama por autonomia... E a lista podia continuar..."

Curiosamente fora de África, palco de todo este teatro, e fora da Europa, com ligações históricas fortíssimas na região (sendo isto muito válido especialmente para a França), o Mali vai surgindo timidamente nas agendas regionais. Na Ásia as preocupações centrais são as eleição na Birmânia; a descida ao caos no Paquistão; a instabilidade no Afeganistão; o desgoverno no Iraque e a crise política que se vai sentindo na China.

Na América Latina interessam os protestos ora estudantis ora dos activistas homossexuais Chilenos e a legalização das drogas na Colômbia, bem como a visita do Papa a Cuba e saúde do Sr. Chavez da Venezuela. África fica longe! Para os Estados Unidos da América, África passou a ser ser sinónimo de Uganda. A "campanha Kony 2012" lançou o drama do Uganda para a opinião pública norte-americana, numa manobra mediático-diplomática que tenta justificar a entrada do país de Obama (o Mr. Nobel da Paz) num país com recém-descobertas jazidas de petróleo... Coincidências; Right Mr. President?


Thursday, March 29, 2012

Apontamento breve sobre a ausência de uma verdadeira etno-política...

O BBC News noticiou hoje que o Reino de Barotseland tem-se movimentado no sentido de conseguir a independência do Estado do Zâmbia onde está incluso e, ao que parece, recluso. Barotseland, ao que li, é a terra dos Lozi e deteve um estatuto especial aquando do período colonial britânico na região. Em 1964 com a conquista da independência pela Zâmbia o Reino foi absorvido no novo estado.

Conheço pouco da realidade local para poder avançar com um comentário muito elaborado, mas curiosamente o caso de Barotseland lembrou-me do que aconteceu com a Transcaucasiana Abkhazia. Esta república, lembro, declarou-se em 2008 unilateralmente independente contando, todavia, até ao momento com apenas alguns reconhecimentos da comunidade internacional.

A Abkhazia também gozou de um estatuto especial após a sua inclusão no Império Russo, até porque o Principado da Abkhazia constituía uma realidade distinta dos Reinos da Geórgia. Digo Reinos e não Reino porque depois de um período inicial unidos como Reino da Ibéria, o território da Geórgia, sacudido por vagas de invasões Persas e pelas campanhas de Tamerlane, implode em vários reinos e principados.

A Abkhazia conserva o seu estatuto especial durante todo o período soviético, embora seja notório uma submissão aos desígnios não só de Moscovo mas também de Tblissi (antiga Tiflis). Apenas nos confusos anos 1990, quando Ielstin dizia aos povos da arrasada União Soviética para que se engolissem toda a autonomia que se quisessem, a Abkhazia foi incluída como refém no território da Geórgia.

Mas qual a relação disto com o pedido do Reino de Barotseland? Tudo! Não consigo entender qual o benefício da comunidade internacional em perpetuar situações de clara injustiça. A Abkhazia é tanto georgiana quanto Estocolmo seria portuguesa e o mesmos se dirá de Barotseland. Uma comunidade internacional que não consegue resolver os "óbvios" não pode querer resolver os "não-tão-óbvios" problemas da Síria, da Líbia ou mesmo da Somália.

Enquanto o elemento etno-nacional, que plasmo em toda a minha tese de doutoramento, não for incluído de modo sério na decisão política; enquanto este elemento não sair da academia e da diplomacia para o decision-making poderemos contar com muitas e muitas Líbias... Poderemos ter a certeza que as Somálias, que as Filipinas, que as Líbias, que as Nigérias vão continuar a multiplicar-se...


Monday, March 26, 2012

A hora em que Senegal festeja o fim da Era que nem começou...

A Imprensa Internacional e, mais importante, a população do Senegal saiu ontem para rua para celebrar a vitória de Macky Sall nas eleições presidenciais que tinham também na corrida o actual Presidente Abdoulaye Wade. As eleições, imbuídas num imerecido espírito libertário, foram vistas como uma oportunidade de encerrar uma Era!

Uma Era? Wade não governava, como se poderá pensar, há mais de 20 anos mas apenas e somente há 12 anos. Ora pensemos em conjunto: a maioria dos presidentes dos estados do mundo que se diz Ocidental tendem a conseguir dois mandatos consecutivos...

Nos países dessa esfera ocidentalizada os mandatos presidenciais flutuam entre um mínimo de 5 e um máximo de 7 anos de duração... E portanto esses Presidentes, de estirpe democrática, exercem os seus cargos com legitimidade, pelo menos do ponto de vista procedimental, entre 10 a 14 anos.

Ora Wade, Presidente do Senegal, acumulou apenas 12 anos de mandato... É certo que concorria a um terceiro mandato; é certo que se ganhasse iria ficar 18 anos no poder. Mas não ganhou; não se eternizou e portanto a tal Era Wade é uma não-existência.

O Senegal, diga-se, não assiste a uma grande viragem política, como o Ocidente quis ler nas eleições. Aliás é importante lembrar que Macky Sall chega à cena política sobre os auspícios de Wade. Sall é um protegido do sistema e não um contestatário libertário, colado à imagem de uma Primavera que é cada vez mais Invernal... A Síria, a Líbia e o Líbano são a prova disso.

O Ocidente anda ávido de provas de que a democracia enquanto procedimento é conceito suficiente; é fórmula de inolvidável sucesso. E quis ler no Senegal mais, muito mais, do que havia para ser dito. O Senegal prova apenas que o modelo pode funcionar se a população quiser que funcione; mas a isso é preciso adicionar uma boa dose de realismo que vai faltando nas leituras feitas do fenómeno.

O Fidalgo só lamenta que com o Mali em colapso; com a Costa do Marfim num delicado processo de re-unificação; com a Etiópia e a Eritreia próximas de mais uma guerra; com a Síria mergulhada numa guerra civil; com a Somália tomada de assalto por movimentos de guerrilha e com a Nigéria no limiar de uma implosão etno-religiosa gastemos tanta energia com uma notícia que não é o que queriam que fosse...

Wednesday, March 21, 2012

É agora que "descoitadinhizamos" o ensino?

Ainda não sei bem como me posicionar em relação ao fim dos exames diferenciados para os alunos com necessidades especiais... Por um lado fico preocupado por uma aparente insensibilidade ministerial para com estes alunos; por outro lado percebo, apoio e aplaudo a medida. Porque o que é de mais enjoa e neste campo os abusos são mais do que muitos.

O estatuto dos alunos com necessidades especiais nem sempre foi muito claro. Quase todos nós tivemos um colega de turma, ou conhecemos quem teve um colega de turma que acedeu ao estatuto e nem sempre pelas melhores... Chegamos a perversidades como "ela enerva-se nos exames, coitadinha"; "ele não se concentra, coitadinho"! E a praga da coitadinhização foi-se alastrando!

Note-se que o Fidalgo não é contra diferenciar o que deve ser diferenciar; é contra, isso sim, o aproveitamento diferenciado do que deve ser homogéneo e justo. A tendência nacional para se coitadinhizar os alunos foi minando a qualidade dos mesmos de duas maneiras: 1.) desresponsabilizou os preguiçosos que, coitadinhos, precisavam de uma ajudita... 2.) desmotivou os bons alunos que não entendiam as benesses.

É por isto que entendo a medida do Ministro da Educação que, para já, vai pautando a sua actuação ministerial com nota positiva. Reforçar o ensino do essencial; reforçar o papel do professor; punir o aluno que transgride e "descoitadinhizar" o sistema. Se o travão não fosse posto a tempo, e mesmo assim já vai tarde, iríamos ter mais e mais pessoas com iliteracia alfabetizada. Ou seja, sabem o alfabeto mas não o sabem usar!

O aluno, já o disse antes, não é uma peça de museu. As frustrações, as provações, os castigos, as avaliações menos simpáticas fazem parte do processo de formação cívica e escolar do mesmo. No mundo "real" não costumam existir escapes, porque razão têm que existir na escola? O estudante, e não o escolante (que vai passear-se na escola, mas que não está muito interessante em estudar), tem que ser capaz de se superar e de aprender com os erros.

Sempre fui considerado um bom aluno na maioria das disciplinas/cadeiras/unidades curriculares mas sempre me vi em sarilhos em Educação Visual e Educação Física... Lá vinham as minha notas por aí abaixo... Isso não implicou que me senti-se um coitadinho! Em Educação Visual resignei-me a uma passagem com pouco sucesso pela disciplina; em Educação Física refugiei-me no Voleibol e no Trampolim... Tudo o resto era penoso mas ia-se fazendo... Coitadinho de mim? Não obrigado!!!


 Reforço e sublinho é preciso pensar num sistema que proteja os alunos com verdadeiras necessidades especiais; com verdadeira necessidade de um modo de avaliação diferente; tudo o resto deve ser posto no cesto do lixo. Mas, estou em crer, que o Ministro da Educação já terá acautelado isto... E se não tiver, o Fidalgo pode sempre dar a dica!


Tuesday, March 20, 2012

Catroga na terra das rendas desnecessariamente necessárias...

Ainda estou a decidir se fico estupefacto, furioso, incrédulo ou apenas conformado com as mais recentes declarações de Fernando Catroga. A mesma pessoa que assinou o memorando da troika, enquanto oposição é certo, e que falava em rendas excessivas foi agora apanhado no enredo das suas palavras... É que, diz o povo e com razão, pela boca morre o peixe!

Catroga, que se celebrizou pela incapacidade de conter o provincianismo pateta do seu ADN, não consegue agora explicar porque razão não terminam as rendas do Estado à EDP. A mesma EDP onde é agora Presidente do Conselho Geral. Agora, por entre um discurso cheio de pausas e silêncios que dizem tudo, Catroga vai dizendo que afinal as coisas não eram como pensava...

É um fenómeno extraordinário como passar de oposição a pode ilumina as pessoas. Ainda mais incrível é o facto de essa clarividência instantânea estar quase sempre relacionada com cargos principescamente remunerados; algo que numa República deveria ser um contra-senso. Fernando Catroga é assim vítima por falar demais e pensar de menos.

São casos como este e como a Lei dos Tectos Salariais que logo se esboroou na Lei das 1001 Excepções que vão diluindo a confiança na classe política. Por muito que Passos Coelho sorria; por muito que os seus Ministro vão mostrando, de quando em vez, alguma sapiência. Casos como as rendas de Catroga funcionam como uma avalanche; destroem em segundos o que levou meses a edificar.

Pede-se mais bom-senso a todos! E, por favor, não me venham com as pieguices do: os outros também faziam assim. Enquanto não tivermos vontade para romper o ciclo, não podemos querer que o ciclo pare por magia. Enquanto acharmos que o dicere e o facere não andarem de mãos dadas, ou, pelo menos, lado a lado, vai ser complicado pensar em mudanças e ver transformações realistas...

Ou Catroga&Companhia começam a repensar na vidinha... Ou Fidalgo&Friends terão que pensar em soluções alternativas. Quem tem empregada/o sabe que quando uma casa não é limpa mas apenas "disfarçada" costuma-se despedir a empregada/o e contratar um/a nova/o... E eu até gosto de fazer tarefas domésticas!

Monday, March 19, 2012

Nobel da Paz ou de "Pás!"?

Estou abespinhado com as declarações da presidente da Libéria Ellen Johnson Sirleaf nas quais defende a criminalização da homossexualidade. Não me vou por sequer com prédicas sobre a naturalidade da sexualidade mas focar-me apenas numa coisa: a Sr.ª Sirleaf, que defende estas ideias, num estilo aliás próximo ao que se faz no vizinho Uganda, foi Nobel da Paz em 2011!

Meio mundo ficou exultante de alegria porque três mulheres ganharam o Nobel da Paz. Entre as três laureadas estava Sirleaf porque, dissesse na altura, teria ajudado a Libéria a fazer uma transição política exemplar e a entrar num período de consolidação sociopolítica. Ora, quer-me parecer, que para uma Nobel da Paz recém-laureada este tipo de declaração entra na rota do contra-senso.

A Presidente da Libéria é assim uma Nobel da Paz na fronteira da esquizofrenia. Como se pode dizer que alguém defende a Paz, quando esse mesmo alguém pretende punir os seus concidadãos por terem nascido com uma predisposição genética diferente da dela? Como pode alguém ser defensora da Paz, quando essa mesma pessoa pretende instaurar um combate legal a costumes pessoais?

Da Academia Sueca não se ouviu, até ao momento, uma única palavra. E não acredito que se vá ouvir; pois que estas coisas tendem a perder o som junto dos ouvidos de muito boa gente. São as tais verdades pouco conveniente e diplomaticamente embaraçosas. Se o Uganda perdeu a ajuda internacional por culpa das ameaças de legislação homofóbica e o Quénia seguiu numa rota igual; porque razão o mesmo não acontece na Libéria?

Se eu achava que o Nobel da Paz roçava o pateta quando atribuído a Barack Obama, pouco depois de tomar posse como Presidente dos EUA, e na sequência de ter dito "para o Afeganistão e em força"... Com estas atitudes de Sirleaf e com o mutismo de uma comunidade internacional que anda devagar, demasiado devagar, o Nobel da Paz corre o risco de passar a ser menos importante que os Emmy ou mesmo os Razzie.

E contudo não me posso esquecer que a fortuna dos Nobel se deve à exploração da pólvora e à venda de armamento a ela associado. Os Prémios Nobel mais não são do que uma tentativa de limpar o nome do "mercador da morte" como o apelidou a imprensa francesa. E assim se explicam estes paradoxos. Quando se fala de Paz para os Nobel podemos não falar de Paz = Pacificidade mas de Paz = Pás! Estala o conflito...

E o Fidalgo retira-se por hoje!


Tuesday, March 13, 2012

Cortar e racionalizar não são sinónimos... Os transportes que o digam!

Continuo sem perceber duas coisas: 1.) Porque é que as empresas públicas têm agora, de súbito, todas que dar lucro? Não é suposto o "comportamento" destas ser dissemelhante do que acontece no privado e por isso mesmo estas são públicas? 2.) Onde nascem os buracos orçamentais destas empresas? É que os transportes em Lisboa, salvo excepções, andam cheios de gente...

Ou seja, andam pejadinhos de clientes que na sua larga maioria pagam o bilhete. Devemos sempre contar com um ou outro pelintra, que "fura" o sistema! Não ria... Nem pense "espertos"... É por uns acharem que sabem demais, que agora todos temos de menos... De bem menos! Deveria ser natural a noção de que se deve pagar um serviço que se usufruiu. Mas isto sou eu a pensar alto, claro!

Falando em ter menos... Andar na linha Verde de Metro em Lisboa tornou-se um exercício caricatural daquilo que acontecia há algumas semanas atrás. Eu explico: a redução pouco inteligente, em nome da racionalidade económica, para três carruagens das composições que circulam na Linha Verde criou um espectáculo matinal absurdo, que torna o Surrealismo de Dali em algo tangível...

Ter um lugar sentado no Metro deixou de ser um direito; passou a ser um privilégio de uma minoria. Os restantes passageiros, que pagam o mesmo bilhete, vão-se espremendo uns contra os outros; num desconforto dantesco que roça o pitoresco. É estupidificante ver como as pessoas se sujeitam a absurdos em nome da mobilidade urbana... E depois admiram-se que os lisboetas não usem transportes públicos?

Quando a Comissão que deveria repensar os transportes falou em racionalizar os mesmos e em aumentar a sua interligação achei a ideia meritória... Mas é de lamentar o modo provinciano, amador mesmo, como essa ideia foi implementada. Em nome das ordens de D.ª Troika fizeram-se cortes cegos e reduções incoerentes por quem, apesar de gerir os transportes públicos, não os usa... E isso, digam o que disserem, poderia evitar tantos erros!!!

Os funcionários da CP, em particular, contribuem para que os lisboetas pensem cada vez menos nos transportes públicos. A lufa lufa constante de greves, mais paralisações, mais protestos, mais greves e mais paralisações já roça o enfadonho. Agora o normal é saber que algum serviço da CP está em greve raro, quase mítico diria eu, é ver a CP 100% operacional.

Enquanto imponderáveis como estes, de uma Linha de metro reduzida a uma caricatura de si mesma e de uma empresa transportadora que mais parece um paraíso grevista, forem existindo é certinho que será difícil "demover" os transeuntes de usarem os seus transportes privados. Enquanto se pensar em racionalizar usando tudo menos a razão, parece-me natural que o resultado seja tudo menos razoável. Assim nem dez planos de austeridade nos põem na rota certa!!!


Monday, March 12, 2012

Notas sobre a questão "Jovem": Desemprego e Educação

Muito se tem dito sobre a questão dos jovens. Uns aludem para o facto de que esta crise irá criar uma "geração perdida" e uma se tudo correr bem, ou arriscam-se a ir para o triturador da História mais gerações. Outros lembrar que esta é a "geração com mais formação" da nossa História; contraposto por outros que relembram que "a geração i-touch" é também a menos resiliente. Em que ficamos?

É difícil posicionar-mo-nos nesta questão, isso temos por certo. É verdade que o investimento que se fez na educação, talvez a única bandeira meritória do Republicanismo (apesar de o impulso ter vindo de uma série de reformas da Monarquia Constitucional e Parlamentar que tínhamos), começa agora a colher frutos mas parece que o "agricultor" terá que deitar essa fruta fora. Porque não está amadurecida? Não! Porque não tem mercado para a colocar...

Uns dirão que a emigração é solução e pode sê-lo; mas feita com peso e medida. A verdadeira fuga de cérebros e de gente altamente qualificada deveriam ser uma preocupação do governo; deveriam, mas para além de boas intenções tem-se visto pouco, pouquíssimo aliás... É preciso, digo eu, exterminar certas ideias irrealistas que fomos alimentando.

Porque é que ainda olhamos para as profissões técnicas com desdém? Porque troçamos dos que pensam na palavra Agricultura? Porque é que ainda pensamos numa série de áreas (ligadas à Cultura e ao Espectáculo) como profissões de segunda? Um bom mecânico e um bom serralheiro são tão úteis como um bom Advogado ou um bom Médico. As profissões técnicas precisam ganhar um novo élan social. É importante repensar as profissões técnicas sem hostilizar (como se tornou moda) os que prosseguem os seus estudos...

O país precisa de agricultores, certíssimo, e precisa de mecânicos, jardineiros e serralheiros mas não pode dispensar os Filósofos, os Sociólogos, os Politólogos pois um país que não se sabe pensar é um país que se condena a um definhamento lento e penoso. Não temos que ser todos Doutores, parece-me óbvio, mas alguns terão que continuar a sê-lo. É bom que não nos esqueçamos disto.

Na questão do desemprego jovem muito há a fazer; mas ver o governo a "atacar" o problema do Emprego com Estágios é o mesmo que olhar para uma ventoinha que tenta prevenir o derretimento de um cubo de gelo; funcionará a prazo mas apenas a prazo. O emprego deve ser combatido com Emprego e, mais do que isso, com criação de sistemas que promovam o Mérito e a Criatividade.

O Empreendedorismo tornou-se chavão corrente nestas coisas e, inclusive, tornou-se nome de muitas Unidades Curriculares mas se ser Empreendedor fosse "ensinável" a questão não seria empreendedora. Saber inovar implica romper com canônes e com padronizações... Ora o ensino não mais é do que uma padronização do conhecimento. É mais útil ter uma Unidade Curricular de Música num curso de Engenharia (falo muito a sério) do que o dito Empreendedorismo Escolástico.

Para se atacar o "desemprego" que se diz Jovem ouçam-se os Jovens... E falo dos Jovens todos e não apenas os que pertencem aos organigramas dos partidos e às suas estruturas paralelas (as J's). Reforce-se a disciplina na sala de aula. Acabe-se com o facilitismo, que promove a mediocridade. E termine-se com o psicologismo do aluno-vítima... Afinal, o que estão nas salas de aula são alunos e não pecinhas cristalinas de museu...

E acho que me fico por aqui...


Saturday, March 10, 2012

Cavaco, meu caro, isso não é política; isso é politiquinha...

Cavaco Silva conseguiu uma coisa: instalar-se no meu blog quando falo de política nacional e isso, tenho a dizer, é algo com que eu não contava. Não é contudo, pelas melhores razões, que vou referindo o Sr. Presidente da República! Antes fosse... Cavaco Silva alimentar por estes dias, e uma vez mais, uma polémica fraccionista...

Mas vamos por partes! Cavaco Silva, enquanto cidadão e enquanto detentor de um cargo político, tem todo o direito a ter uma opinião; Cavo Silva pode, e deve, ir dizendo o que lhe vai na alma. Mas, ao mesmo tempo que tem o direito à palavra, tem o dever de pensar nos efeitos dessa mesma palavra. Não é tanto o que diz, mas como e quando o diz, que vai tirando credibilidade ao Presidente da República...

Cavaco Silva é uma pálida imagem do que deve ser um Chefe de Estado. Como Monárquico que sou, acharei sempre que os Presidentes da República são uma não-utilidade em Portugal. Mas, também sei admitir, que Jorge Sampaio soube exercer o cargo com uma sageza que rareia no actual inquilino de Belém. Jorge Sampaio tornou o duelo de ideologias entre Monárquicos e Republicanos em algo interessante...

Com Cavaco Silva nem sequer temos direito a duelo.. Eu, por mim falo, não gosto de "bater em mortos"! Cavaco Silva decidiu publicar memórias, enquanto não perde a sua, nas quais hostiliza as relações que teria com S. Bento da era Sócrates. Uma vez mais digo, Cavaco tem direito a ter uma opinião; desde que no momento certo e com a noção daquilo que diz e de quando o diz...

Dizer que as relações com Sócrates eram menos boas; eram complicadas; eram belicosas; quando Sócrates se vai entretendo em Paris com o seu curso parece-me uma inutilidade. Aliás, o único efeito das palavras do Sr. Presidente da República saldou-se em reabrir feridas políticas mal saradas e quezílias que em nada ajudam a elevar o discurso político, que por estes dias ando fraquinho, desgastado, pouco interessante e desmotivador.

Cavaco Silva, Presidente da República, é mais um polarizador de opiniões e não um unificador de vontades, como aliás se pretende. Não admira portanto que acções cívicas como a petição com 40.000 assinaturas a pedir a demissão do Sr. Presidente (algo inédito no Portugal da III República) vão surgindo e multiplicando-se. E apesar de estas acções se saldarem numa nulidade de efeitos, ficam sempre as marcas profundas do seu simbolismo político.

Cavaco Silva está tão pronto para ser Presidente da República, num país que precisa de Monarquia, como eu estou pronto para jogar futebol... E acredite o leitor que isso sim seria um desastre... Vai por isso fraco, quase esgotado, o diálogo político em Portugal. E numa altura em que se exige elevação; inovação; esforço; dedicação e Alta Política, o mais alto representante do Estado vai-se limitando a um desfile de incoerências e a uma política que é apenas politiquinha...

E fico-me por aqui... Por agora...


Wednesday, March 07, 2012

Quem com força tudo ganha... Há força tudo tira...

Poucas surpresas vieram da Líbia... Ontem escrevia neste blog sobre os caminhos que o Conselho Nacional de Transição poderia seguir e sobre a oportunidade ímpar, de mostrar ao mundo Ocidental, um processo de transição centrado na vontade popular e não na popularização de certas micro-vontades. Confuso? Eu explico.

Ao manifesto de declaração de autonomia da Líbia Oriental, o Conselho Nacional de Transição respondeu com um muito assertivo "a Líbia continuará unida, nem que seja pela força"! Ora pergunto-me: alguém desse dito Conselho percebeu que com a concessão de autonomia a Líbia continuaria unida, apenas mudaria a capacidade desse mesmo conselho influir na vida sociopolítica da região? Claro que perceberam...

A região de Cyrenaica é demasiado rica para lhe ser concedida autonomia. Se fosse pobrezinha como o etno-nacionalista e independentista Karakalpakistão dentro do Uzbequistão de Islom Karimov, então Cyrenaica poderia ser autónoma. Lá diz Henry Hale que no jogo secessionista quem tem mais a ganhar com a união, tende a adiar a independentização. É o caso em que a autonomia basta... E, mesmo nestes casos, nem sempre as coisas são lineares... Não nos esqueçamos do Kosovo ou da Escócia!

Mas a Cyrenaica é rica como Cabinda em Angola e, nesses casos, convém às autoridades centrais manterem a centralidade desse mesmo poder político. Cyrenaica é demasiado rica, para ser também um tanto ou quanto autónoma, não vá o discurso independentista ganhar fôlego. E quem tomou o poder pelo pulso das armas, sabe que apenas com as armas poderá manter a união de um país feito de retalhos.

No caso da Líbia, dizer que esta é como um puzzle está longe de ser verdade. No máximo, a Líbia é como uma colecção de peças de diferentes puzzles, com formatos e tamanhos dissemelhantes e em que poucas, se algumas dessas peças, encaixam entre si. Uma vez mais, foi a geometria uniformizante da política Ocidental Novecentista que olhou para a Líbia e disse: faça-se um estado...

E por magia o que era plural, passou a ser uno. Este tipo de magias, que se centrou mais em procedimentos e burocracias mas, que se desligou da dimensão heterogénea e plural das populações dificilmente daria resultados, no longo prazo. E, infelizmente, há demasiadas Líbias em África! E de menos vontade para as solucionar!

A Líbia transicional poderia dar o pontapé de saída para mostrar que a Primavera Árabe sempre pode dar flores e não apenas esporos, indesejáveis agora que começa a temporada das alergias... É que está todo o Médio Oriente aos espirros, com o Irão e Israel pertinho de terem uma convulsão hiperalérgica, e não se vislumbram melhoras...


Tuesday, March 06, 2012

E agora Líbia?

O Conselho Popular de Cyrenaica, na Líbia Oriental, declarou hoje a sua autonomia! O movimento, diz o Conselho Nacional de Transição, não tem, para já, validade legal, mas serve, digo eu, de balão de ensaio ao dito 'ambiente democrático' que a Líbia pós-Khadaffi iria começar... A Primavera Árabe vai ao ser terceiro exame (depois das eleições tensas na Tunísia e violentas no Egipto) e ameaça não ter nota para, na Líbia, não ir sequer a oral... A ver vamos!

A declaração de autonomia da região mais rica em petróleo, de toda a Líbia, causou reacções para todos os gostos. Os lealistas e saudosistas do anterior regime já brandem ameaças da implosão da Líbia! Os pró-autonomia, maioritariamente localizados em Cyrenaica (claro!), dizem que este é um direito "natural" de uma região tão castigada por Khadaffi. O Conselho Nacional de Transição vai pedindo calma, mas lembrando que o movimento é legalmente nulo...

Ora, parece-me a mim, se o Conselho Nacional de Transição decidir invalidar aquilo que os líderes etno-tribais e os representantes da sociedade civil acordaram, passaremos de uma declaração de autonomia, a uma vontade pela independência. E então poderemos ter não uma, mas duas (ou mesmo três) Líbias... Terreno pantanoso? Claro; mas não se podia esperar menos, depois de uma transição feita ao sabor da metralhadora e que deu poder político e simbólico a líderes etno-tribais há muito sem ele...

Os desafios na Líbia pós-Primavera Árabe são imensos e não falo, apenas, na reconstrução de um país devastado pela guerra contra os lealistas de Khadaffi e por uma série de "escaramuças" inter-tribais entretanto reacendidas. A Líbia tem que olhar para si e perceber se faz sentir manter este estado, onde várias etno-nações se sentem aprisionadas e poucas se sentem representadas.

A Líbia terá que olhar para si e perceber se o federalismo, ou o regionalismo, ou a autonomização de várias regiões são soluções viáveis e credíveis. A cisão em dois, três ou mais estados não deve, tenho em crer, ficar de fora da mesa. A Líbia, aliás, poderia ser o primeiro estado africano a "corrigir" os erros da famosa Conferência de Berlim de 1884/5, redesenhando as suas fronteiras pela via do diálogo e não pela via das balas e das bombas!

A Líbia, que se vê abraços com um primeiro bocejo do dominó autonomista, terá que decidir se quer tornar reais os votos de "respeito pela vontade popular", que foram usados para empossar o tal Conselho Nacional de Transição. Ou se os mesmos votos não passaram de um mero formalismo, para que novos rostos ocupassem a cadeira de Khadaffi... Novos rostos, não implicam, de per si, novas vontades; e a Líbia poderá mostrar-nos isso nas próximas semanas.

O Fidalgo, obviamente, estará aqui para tudo ver... E, se me aprouver, para comentar...


Monday, March 05, 2012

Putin, meu querido, porque complicas tudo?

E como se esperava Vladimir Putin ganhou as eleições presidenciais na Federação da Rússia, sem precisar de ir a segunda volta mas sem se livrar de escândalos que prometem fazer rolar muita tinta (e quiçá marchar muita gente) nos próximos dias.

Putin ganhou as eleições com quase 65% dos votos e logo choveram críticas de um lado e aplausos de outro... As reacções a esta eleição pautam-se, aliás, por um divergência nas reacções. Os observadores da CEI (Comunidade de Estados Independentes) dizem que as eleições foram limpas, transparentes e democráticas. A CEI, que desde o seu nascimento após a implosão da URSS, tem sido dominado pelo Kremlin aplaudiu as eleições no Kremlin... Estranho seria o contrário...

A OCDE, por seu lado, diz que "o jogo estava viciado" para que Putin voltasse a sentar-se na cadeira, de onde saiu quatro anos antes e onde poderá ficar por mais doze... É bom lembrar que os mandatos presidenciais na Rússia passam a partir de agora a durar seis anos. O presidente bielorrusso Lukashenko, abraços com uma troca de palavras pouco diplomáticas com a UE, congratulou o amigo Putin.

Da Ucrânia de Yanukovych, a Arménia de Sargysan, a Sérvia de Boris Tadic e a China de Hu Jintao juntaram-se aos que felicitaram Putin pela vitória. O Irão de Ahmadinejad e a Síria de Assad também entraram no coro do contentamento. Portugal e os Estados Unidos da América optaram, para já, pelo silêncio. Já a Alemanha de Merkel, sim de Merkel, também felicitou Vladimir Putin...

As fraudes nos actos eleitorais no espaço pós-soviético não são uma novidade mas, desta vez, são de uma inutilidade gritante. Vladimir Putin não "alterou" quase 15% dos votos, não é racional acreditar nisso (até porque algumas das mesas de votos envolvidas na dita fraude não foram validadas) e portanto a única coisa que justificará os actos foi o medo de ter de ir a uma segunda volta. Isso, ou então "old habits dye hard".

Não nos devemos esquecer que foi o Kremlin quem mandou instalar as câmaras nas mesas de voto; o mesmo Kremlin que viciou o jogo para a OCDE. E portanto só um amadorismo gritante tornaria "aceitável" uma super fraude filmada em directo e acompanhada on-line por todo o mundo. Não digo que a fraude eleitoral não existiu; digo apenas que a mesma foi inútil já que Putin ganharia sempre as eleições.

Curioso, contudo, alguns dos dados eleitorais vindos do meu Cáucaso Norte. É intrigante notar que a república da Chechénia regista a taxa de participação eleitoral mais elevada de toda a república (quase 95%) quando a mesma Chechénia, dias antes, terá sido "a origem" de um putativo atentado a Putin. A Chechénia dos rebeldes separatistas terá votado em 99,73% no ainda primeiro-ministro Putin. Mas então os chechenos querem matar o agora eleito presidente? Ou querem elegê-lo em gáudio e apoteose?

Mais interessante ainda... A republica do Daguestão, onde fervilham vários grupos étnicos que têm pressionado a administração federal para uma maior autonomia, foi a segunda entidade político-administrativa que mais votou em Vladimir Putin...

E a terceira destas entidades da Federação da Rússia que mais apoia Putin é a Karachaevo-Cherkessia, também no Cáucaso Norte, e também esta com dois grupos étnicos (Karachay e Cherkessk ou Circasses) que almejam, pelo menos, uma maior autonomia... Pelo menos... É por isso normal que Putin tenha-se aliado aos nacionalistas mas tenha travado os intentos da campanha "Stop Feeding the Caucasus". É por isso normal que o Cáucaso Norte continue a interessar ao (quase) novo inquilino do Kremlin!

E ainda me perguntam porque estudo o Cáucaso Norte...


Thursday, March 01, 2012

O lado menos brilhante da Europa (des)Unida!

A União Europeia mostrou hoje, uma vez mais, duas das suas facetas menos bonitas... Porque, apesar de inúmeros pesares, a União dos Estados da Europa (parem de lhes chamar Nações, que isso é uma outra coisa!) ainda vai tendo os seus méritos. E, se olharmos para a História da Europa, a União dos Estados, com maior ou menor formalismo, sempre foi acontecendo...

Faceta cinzenta da Europa: o imobilismo! Os líderes da União Europeia não conseguiram aprovar ainda o segundo pacote de ajuda à Grécia, ficando o mesmo adiado por mais uma semana. Depois do esforço hercúleo a que os deputados gregos se sujeitaram e de várias humilhações (sim, humilhações) a que o povo grego foi sujeito a resposta da União qual é: ajudar? Sim claro que ajudamos... Mas agora vou ali beber um cafézinho e já volto!

Faceta negra da Europa: o cinismo! Os líderes da União Europeia aprovaram esta semana o pedido da Sérvia para que esta aceda ao estatuto de Candidato à União Europeia. Em poucas palavras, a Sérvia está agora no hall da UE mas ainda não pode aceder à sala de jantar. Quem não consegue chegar sequer ao hall, por culpa do veto Neerlandês (ou seja, dos Países Baixos [vulgo Holanda]), é a Bulgária e a Roménia.

Os pequenos progressos de uns são necessários, só porque se quer aplacar um vizinho instável que se quer para já pacífico (a Rússia pois claro); enquanto que os esforços significativos de outros, são considerados insignificantes. Quem nem sequer tenta rumar para o Palácio Europeu é a Macedónia que anda de candeias às avessas com a Grécia, por causa do nome, vai para vinte anos...

E é esta a Europa que tem se sair de uma crise profunda; que ameaça privar uma geração inteira de sonhos, de esperanças e de certezas que afinal eram miragens. E é esta a Europa que quer recuperar o brilho perdido nos palcos internacionais, quando em casa de deixa ofuscar pelo brilho, demasiado intenso, das divisas que encandeiam os olhos de muito boa gente.

E, pergunta o Fidalgo, que Europa é esta?