Saturday, September 29, 2012

Porque (parece que) se calou o Fidalgo?

O Fidalgo não se calou, mas os acontecimentos políticos têm sido tantos e de tão má qualidade que me vejo assoberbado de coisas para "mastigar" e não tenho tempo de degustar sobre as trapalhadas de uma classe política que precisa, urgentemente, de se renovar. Soma-se a isso o trabalho e a incerteza quanto ao futuro... Pois chega a todos... Mas vamos por partes!

Não gosto de generalizações! Existem muitos políticos competentes na arena nacional. Lamentavelmente perdem espaço perante os sucessivos erros dos seus colegas menos competentes. Existem, no mesmo curso, deputados competentes e motivados, mesmo numa altura em que o país parece atolado e sem soluções para se salvar. Não tiremos o mérito ao todo, por uma parte estar podre. Os políticos bons e competentes existem, precisam (por certo) de mais voz e mais espaço.

Não gosto de apropriações! A manifestação de hoje não foi uma parada da CGTP, mas porque esta central sindical adora apropriar-se dos eventos que organiza não estranho o discurso. Desta vez não fui para a rua e ao ouvir Arménio Carlos falar fiquei contente pela minha decisão. A vontade de ter Estado em todo o lado, a vontade de "lutar" e não colaborar com o sector privado (que adoram chamar de Grande Capital) são apenas duas das muitas ideias erradas!

Não gosto de populismos! O discurso de Arménio Carlos pode ter parecido a muito boa gente combativo, corajoso e "muito verdadeiro" mas a mim pareceu-me demagógico e populista. Um discurso cheio de medidas retiradas da cartilha vermelha dos Comunistas. Um discurso feito para agradar ao "Camarada-Mor" Jerónimo e não para falar do e para o país real. Um discurso que não soube honrar a dimensão de um protesto que se voltou a pautar pelo civismo lusitano.

Não gosto de idiotices crónicas! Acho extraordinário que António Borges continue a ser consultor do Governo. É surpreendente o número de vezes que o Sr. Borges fala e em que se gera polémica por uma notória ausência de sensibilidade humana e por um de sentido de oportunidade sempre inoportuno. Primeiro tínhamos que ser "pobrezinhos" para ser competitivos; depois tínhamos que ter os trabalhadores "a financiarem" as empresas... E ainda vem para a rua com insultos? Por favor...

Não gosto de prepotentes! São pessoas como António Borges que fazem com que Arménio Carlos fale num tom belicista contra o Grande Capital, seja lá o que isso for. São pessoas como António Borges que tornam a imagem do empresário num ser execrável, que se transforma num "bode expiatório" fácil. São pessoas como António Borges que tornam sofrível ouvir os não-políticos falar de medidas políticas... Mas os outros é que são ignorantes, claro!!!

Não gosto de atrasos! Já se percebeu que o Governo ou se renova, ou morre por exaustão. A ideia do Primeiro-Ministro de mexer no Executivo apenas após a aprovação do Orçamento de Estado 2013 pode ser um risco e riscos é tudo o que o país não precisa. Se é preciso remodelar, redistribuir, repensar e re-energizar um Governo em sufoco então que isso se faça o quanto antes.

E o Fidalgo promete que 1.) hoje fica por aqui e 2.) vai tentar recuperar a sua "regularidade"!


Friday, September 21, 2012

Depois de Marchar é hora de 'Vigiliar'!

Depois da Marcha Histórica, desculpem-me mas continuo a achar que fizemos História, que levou mais de quatro dezenas de cidades a saírem para a rua e a exigirem o que devia ser nosso - a nossa dignidade e a equidade das políticas implementadas - chegou a hora ir para Belém mostrar que o momento ainda não passou...

Apesar de o Presidente da República, que vive num País mais Maravilhoso do que o da Alice, considerar que a crise política já terminou, que a Coligação está viva e recomenda-se, os cidadãos parecem não estar tão seguros do mesmo. O momento não é para estabilidades instáveis, feitas de cristal fino e quebradiço. O momento, tenho em crer, também não é para mutações eleitoralistas...

Aliás é interessante que na primeira sondagem pós-Marcha o PSD aparece a descer a pique nas intenções de voto e o PS (apesar de surgir em primeiro lugar) também perde terreno... É interessante ver como os partidos "do sistema" começam a representar cada vez menos gente. Falta, tenho em crer, uma sondagem que incluísse mais partidos para se ter uma noção mais fidedigna de onde param as modas do voto, por estes dias.

É igualmente curioso que uma coligação que se diz forte e para durar, tenha a necessidade de criar um Conselho de Coordenação da Coligação. Ora se tudo corre bem porque razão se criou esta espécie de "guarda pretoriana institucional"? Se tudo corre bem, porque se viu a necessidade de dar um passo no sentido da burocratização da Coligação? E tudo isto, assinalo, numa reunião sem os dois líderes dos partidos coligados... Estão zangados senhores?

O país precisa de mudar, já o disse e vou repetir-me as vezes que forem preciso, mas não acredito em mudanças tipo gelatina instântanea. As coisas levam o seu tempo, para surtirem o resultado certo... E por isso depois de Marchar é chegada a hora de ir Vigiar o Conselho de Estado. Porque a rua deve continuar a ser nossa. Porque, e já o disse antes, a democracia não se esgota na Votocracia...

E porque dia 29 de Setembro não virei para a rua... Sou cidadão... Sou monárquico... Sou português... Mas não sou fantoche das centrais sindicais... Hoje sairei à rua de sorriso no rosto; dia 29 de Outubro fico a ler Pushkin e a beber chá de menta.

Monday, September 17, 2012

Revolução, transição e tortas dancake!

Nestes primeiros dias que se seguiram às manifestações Históricas que pontilharam as cidades portuguesas de Gentes com esperanças de um rumo menos cego, menos tecnocrata, menos desumanizado as leituras que vão sendo feitas pelos analistas e comentadores são quase unânimes (o unanimismo puro é sempre um sinal perigoso!) de que algo começou no último sábado...

Apesar disso, muitas são as pessoas que continuam a achar que o protesto se vai esfumar; muitos são os que apregoam que as 40 marchas vão saldar-se numa mão cheia de nadas. Não podia estar mais em desacordo! Mas antes de dizer os meus quês e porquês, apenas uma menção: é curioso que a maioria dos que acham que "nada vai mudar" sejam os Lordes do Sofá que por comodismo saloio ficaram sentadinhos nas suas poltronas, a ver tudo em directo... Coincidências por certo...

O que se começou no sábado foi um novo capítulo na História da Sociedade Civil. No sábado a Sociedade Civil mostrou que é mais do que um conceito académico, que é um organismo vivo com capacidade actuação, de interacção e/ou de interferência na Sociedade Política (a dita Elite Política). No sábado não foi apenas o dia do BASTA; foi o dia do Nós Existimos. No sábado começámos, não tenho dúvidas, uma Revolução Pacífica e sistémica.

Mas as revoluções, ao contrário dos golpes de Estado, não se fazem de um dia para o outro. Os golpes de Estado para serem bem sucedidos devem produzir efeitos em menos de vinte e quatro horas. As revoluções não se medem pela mesma bitola, pelo seu carácter mais profundo, mais intenso, mais multidimensional. As revoluções implicam transformações ao nível institucional, político, governativo (entendo que a Governação faz parte da política, mas que a política transcende o exercício da Governação) e, notoriamente, ao nível social.

As revoluções implicam estados transicionais (as ditas Transições estudadas pelos transitólogos, como é o caso do Fidalgo) nas quais se assistem a mudanças em vários níveis, em vários momentos, a vários ritmos e sempre com a noção de se atingir um ponto novo, que não sendo necessariamente melhor será obrigatoriamente diferente. Nem as transições, que desembocam em consolidações, nem as revoluções se fazem de modo instantâneo pelo tal carácter profundo, transformador e multidimensional já sublinhado.

Portanto porque acham os amigos Comodistas, aqueles que querem ver o país mudar mas que não se querem empenhar na mudança, que nada aconteceu? Que tudo acabará por não passar de um momento de ilusão e sonhos fátuos? Arriscam-se a ter de mudar o modo de pensar... E arriscam-se, de modo muito sério, a ter de dizer: "podia ter feito História, mas o sofá e duas fatias de torta dancake falaram mais alto"!

E, por agora, quedo-me por aqui...


Sunday, September 16, 2012

O Fidalgo feito Revolucionário de Ladrilho

Depois de ter escrito sobre a necessidade de irmos para a rua enquanto povo; da necessidade de mostrarmos o nosso descontentamento de modo concertado e não de nos confortarmos no café com gritinhos populistas e demagógicos. Depois de ter apelado a que se usassem as Ruas para se falar com quem (parece) não nos quer ouvir, fiz a minha parte... Deixei o portátil ligado, a televisão no off e vim eu mesmo para a rua.

Diziam os slogans que queríamos as nossas vidas de volta, que queríamos portanto voltar para trás no tempo a uma era que supostamente já se pintou de dourado. Mas felizmente falhámos pois em vez de andarmos para trás, andámos foi para a frente. O País salpicou-se de gente nas ruas, andou perto do um milhão de cidadãos, que quis mostrar-se descontente e isso deixou-me contente... Passo a explicar!

Participei no protesto de Lisboa, no tal que terá reunido meio milhão de habitantes. E o nível de civismo e o sentido de que só juntos poderemos fazer algo melhor e diferente estava estampado nos rostos da maioria. A indignação era transversal a todos fossem as "tias" da Cascais, ou os "freaks" da Reboleira, fossem os "betos" do Estoril, ou os "brothers" de Chelas. Não faltou ninguém à chamada.

A marcha teve um profundo sentido simbólico; marchou-se porque acreditamos que existe caminho mas não este. Marchou-se porque sabemos que existe alternativas, outras vias, e queremos que a nossa voz seja ouvida porque sem nós "Eles" (os políticos) nem sequer se fariam eleger para os cargos, no Portugal do pós-1974. E "Eles" puderam relembrar-se ontem que o poder real está deste lado.

Dizia o Samuel Paiva Pires, fundador do sempre pertinente e acutilante Estado Sentido, que o país se unira; que não dava para reduzir o protesto a uma assemblage de Comunas, ou a uma "festinha" das sindicais (que vai dar tudo ao mesmo). Dizia o Samuel que muito boa gente terá que "sair da bolha" e vir para o mundo real, admitir erros, compreender falhas e (sobretudo) modificar o rumo que tão cegamente se escolheu. Portugal não pode ser laboratório de experimentalismo económico!

Cabe agora a quem Governa tirar ilações do que aconteceu ontem. Porque razão Lisboa veio em peso para rua? Porque razão Coimbra viu os maiores protestos desde 1974? E o mesmo em Viseu!? Tentar escamotear a realidade, ocultá-la, pintá-la com outras cores pode ser fatal. E lembro quem nos Governa que os militares, pela primeira vez em anos, emitiram um Comunicado com uma retórica intensa. E lembro quem nos Governa que este protesto foi uma Marcha, o próximo poderá não o ser...

Duas notas negativas... Cartão vermelho: Aos sujeitos, poucos que eu estive lá e vi, que por rebeldia parola e excesso de testosterona quiseram fazer distúrbios. Manchar com violência e desacatos aquele que foi um Dia Histórico e de grande elevação cívica é mais do que parolice, é egoísmo e estupidez no seu grau máximo. É hiper-estupidez diria eu...

Cartão amarelo: Aos comodistas! A quem ficou na praia porque estava um sol simpático. A quem ficou em casa porque estava calor. A quem ficou no café porque estava com amigos. A quem não foi só porque não; porque "as ruas nada mudam"... Aconselho a estes últimos que leiam um pouco de História de Portugal e da Europa antes de dizerem que "as ruas nada mudam".

A mensagem está dada: ESTAMOS DE OLHO! O país tardou mas acordou. E quem esteve nas ruas sentiu que algo de novo nasceu enquanto íamos para a Praça de Espanha; que algo de novo despontou quando gritámos às portas da Assembleia Nacional. A quem Gasparizou o país ficou o aviso que na próxima pode ser menos marcha e mais acção... Estávamos todos na rua, não se esqueça disso sr. Ministro.


Friday, September 14, 2012

O problema não está na receita, mas nos cozinheiros...

Por estes dias em que algo (não vou catalogar como Evolução, Transição, Revolução que ainda é cedo) parece estar a fermentar pelas ruas do país, certas palavras não me saem da cabeça: "é esta a receita para sair da crise"! Como o governo, especialmente o Sr. Gaspar, parecem adorar dizer tais palavras eu pensei em cozinhar este comentário...

O Plano de Austeridade, a receita que nos foi servida porque (não sejamos falsamente ingénuos) a encomenda-mos, só podia ter sabor amargo mas na sua essência, o amargor de tal menu, era algo mais do que necessário. Uma espécie de óleo de fígado de bacalhau... Sabe mal, mas fortalece o corpo. O problema é que a receita servida aos portugueses não só não fortalece, como desfalece um país que precisando de energia vai ficando cada vez mais mortiço.

Não sou, já o disse mais do que muitas vezes, entendido em economia, mas entendo o suficiente de cozinha para perceber que a receita com que se quis cozinhar tal menu só podia dar asneira. Assinou-se o primeiro memorando dizendo que tínhamos de fazer o mesmo, com menos recursos... Ora sabe quem cozinha que isso não é possível. Podemos acrescentar água para fazer "render", para fazer "surdir" mas perde-se sempre em sabor, em textura e/ou em qualidade.

Se não é possível fazer o mesmo com menos recursos, algo que o Chef Gaspar devia ter entendido, é ainda menos realista querer fazer mais com menos... Se eu tenho muito mais gente para alimentar e menos ingredientes chegará a um ponto em que juntar somente água e mesmo farinha não será suficiente. Chegará a um ponto que seccionar as fatias em triângulo deixará de ser suficiente...

Se a única coisa que o Chef faz é cortar de um lado, para colocar em dispensas já de si cheias, chegará a um limite em que a receita não se pode fazer. Chegará a um limite em que ou se vão buscar mais ingredientes, ou se muda a receita. O efeito final será o mesmo, cozinhar a dita Austeridade, mas a receita essa está visto que tem de ser outra...

E no meio desta verdadeira trapalhada, de um governo que parece autista e que roça o autoritarismo salazarento, decidi-me (pela primeira vez em anos) a vir para a rua mostrar que estou descontente. Decidi que chega apenas de escrever posts no blog ou de falar com certas pessoas, que até podem fazer chegar a minha mensagem. Decidi que é o momento de tomar a rua de assalto e de pedir por mais, por melhor e por diferente...

Não quero o troika fora de Portugal, pois isso é muito lindo mas não passa de populismo bacoco e desnecessário, mas quero Portugal devolvido a Portugal, perdoem-me as redundâncias. Vou para a rua como cidadão e como monárquico. Vou para rua porque se a República teve três chances (em pouco mais de cem anos) de se cozinhar e re-cozinhar e falhou talvez seja hora de mudar de cozinha!


Wednesday, September 12, 2012

Dois novos (des)Governos na Ásia Central...

Enquanto Portugal se vai debatendo se mais Austeridade, agora que temos mais tempo, é necessário; se mais medidas, que não implicam cortes onde se devia cortes, é mesmo a receita do sucesso, o mundo vai avançando. E como o Fidalgo até é doutorando em Relações Internacionais nada como ver o que se anda a fazer por outros lados... Ásia Central? E porque não?

Quirguistão! Primeira paragem no Quirguistão apenas para dar conta do novo Governo ter finalmente tomado posse. Depois da Revolução de Abril de 2010, que veio reverter os efeitos da Revolução das Tulipas de 2005, e das tensas eleições de 2011, chegou por fim o momento do país entrar na complicada tarefa de "fechar" o ciclo pré-transicional e entrar na transição profunda, ou transição acelerada.

O mesmo Quirguistão está no meio de um conflito diplomático com a Bielorrússia. Isto porque Kurmanbek  Bakiyev, Presidente deposto pela Revolução de 2010, e o seu irmão Janysh Bakiyev vivem em Minsk e porque a Minsk de Lukashenka (não raras vezes apelidado de o Último Ditador Europeu) se recusa a entregar os mesmos a Bishkek. E Minsk tem provas dadas que pode ser um porto de abrigo para exilados políticos sejam estes quirguizes, sérvios, suecos, siberianos... É escolher...

Mongólia! Ainda pelas terras da Ásia Central, a Mongólia também conseguiu por fim formar um Governo, após as eleições de 28 de Junho. Dois meses e meio para formar governo não é assim tão mau, se pensarmos que a Bélgica levou mais de um ano para o fazer. A diferença, todavia, é que a Mongólia não estando regionalizada paralisou durante dois meses. Pior! A formação do Governo demonstra uma total submissão a interesses privados e a jogos de influência.

O número de pastas ministeriais subiu de 11 para 16; enquanto que o número de agências e instituições estatais caiu de 43 para 28. O número de elementos do Governo que também mantém funções no parlamento supera os 80%. A ligação entre muitos dos Ministros agora eleitos e o sector dos Negócios é tão grande, tão descarada, que nem sequer é escondida. É "tudo às claras"!

Monday, September 10, 2012

Austeridade 5 - 0 Portugal

Estive estes dias todos sem escrever não por uma qualquer ausência de notícias sumarentas (assim fosse!), mas antes por me sentir aparvalhado (usaria melhor palavra, se me lembrasse de alguma) com as últimas notícias da Crise das Dívidas Soberanas ou da EuroCrise, como se vai vulgarizando na imprensa.

Primeiro veio o balão de oxigénio! Contra os planos e (estranhos) anseios de Madame Merkel, auto-coroada como Imperatriz da (des)União Europeia, Mario Draghi, Líder do Banco Central Europeu, anunciou que compraria dívida dos Estados da zona Euro sem qualquer limitação orçamental, ou percentual... Obviamente, desde que estes cumprissem certas metas!

Pensou o Fidalgo: "vai dar para não agravar a austeridade em 2013". No dia seguinte, Pedro Passos Coelho, actual primeiro-ministro e fiel pajem da Imperatriz, anunciou novas medidas que se traduzem numa única palavra: austeridade, austeridadE, austeridADE, austeRIDADE, AUSTERIDADE! A sangria, que eu julgara estancada, vai mesmo continuar...

O anúncio das medidas é pouco "estranho", se posto no contexto de uma Europa toda ela "em cortes". Hoje, por exemplo, a França de Hollande anunciou um plano de corte de 30.000 milhões de euros; a Espanha vai fazendo medidas e truques para não dizer que vai pedir um resgate; a Grécia voltou a falhar uma ronda negocial com os Cavaleiros da Troika.

E é com a troika que fica o meu maior pasmo... Enquanto a fórmula foi cumprindo, quase profeticamente, o que os seus autores achariam que se iria cumprir, a troika vinha a Portugal sempre muito "faladora" e os resumos, notas e recomendações eram feitos no final da visita, ou logo após a mesma... Desta vez, que a fórmula mostrou ter falhado (como tantos e tantos avisaram que falharia) a troika entrou muda e saiu calada.

Pior, entrou muda, saiu calada e deixou sozinho Pedro Passos Coelho com o estandarte das más notícias. A troika, quer parecer ao Fidalgo, é como aqueles parceiros de jogos de cartas que nos batem nas costas enquanto ganhamos jogos, mas que trocam a sua lealdade ao fim das primeiras duas ou três derrotas... Se o plano é de todos, então todos devem dar a cara por ele.

E não me venham com o argumento do "o plano é do Governo Português", que se assim fosse não existiria uma coisa chamada Memorando. Pedia-se decência, pelo menos ao nível institucional, mas pelos vistos numa era de cortes e reduções até na decência e na sensatez se decidiu cortar... E sem mais dizer, que ainda tenho ideias por assentar, me despeço... Por agora...


Wednesday, September 05, 2012

Autonomias, separatismos e OPAs insulares...

Para alguém que estuda as questões relacionadas com o Espaço Pós-Soviético, mormente nas regiões do Cáucaso e da Ásia Central, as dinâmicas relacionadas com o separatismo e os desejos autonomistas dos povos são algo de "normal". Muitas das vezes, é minha convicção, olhamos para estes movimentos sociopolíticos com um enviesamento tal que não compreendemos bem o que estamos a estudar.

O estudo "guiado" pelas mãos perigosas do preconceito tende a dar resultados errados que, curiosamente, se tendem a repetir de investigador para investigador, de analista para analista. A autonomia e o separatismo não são necessariamente inimigas da modernidade e da democraticidade. A autonomia e o separatismo não são obrigatoriamente um mecanismo utilizado por povos subdesenvolvidos. A autonomia e o separatismo não são sempre a antecâmara da violência inter-étnica.

E toda esta introdução cheia de preocupação do domínio metodológico para falar de três países: Canadá, Irlanda do Norte e Japão. Os três desenvolvidos, considerados democracias de pleno direito e os três abraços desde há muito com dinâmicas de tipo autonomista, separatista, nacionalista, irredentista... E tudo o mais que aprouver ao leitor acabado em "ista"!

Canadá! O caso canadiano é curioso. O Quebec, ou Canadá Francês (para simplificar), há muito que joga este jogo entre a integração moderada e o desejo de uma independência plena. Os referendos, que já os houve, têm prevenido a cisão do Canadá até ao momento... E mesmo a débil vitória dos Separatistas nas eleições de ontem não deve mudar isso! É um separatismo light ou se preferirmos separatismo civilizado, onde não cabe violência desnecessária. Os actos de um homem não devem ser lidos como os actos de uma comunidade.

Irlanda do Norte! Ao contrário da vizinha a Sul, a Irlanda do Norte escolheu manter-se como parte constituinte do Reino Unido, mas isso não impede que a violência grasse no seu solo... De modo tristemente cíclico, Belfast é palco de violência inter-religiosa, que tem pouco de autonomista e/ou de separatista. O processo de separação das Irlandas era suposto ser um dos mais "civilizados" do mundo Ocidental, e não deixa de ser isso mesmo: uma suposição.

Japão! A surpresa do dia! Contra tudo o que é habitual nas lutas inter-estatais pelo controlo de certos territórios (Marrocos vs. Sahara Ocidental; Mali vs Mali do Norte; Geórgia vs Abkhazia; Moldova vs Transnístria) o Japão ofereceu uma solução para conseguir o controlo das ilhas de Kitakojima e de Minamikojima...

O Japão lançou uma verdadeira OPA sobre os ilhéus desabitados, surpreendendo todos os que vão acompanhando a política do Sudeste Asiático. Quase 21 milhões de euros para serenar um confronto diplomático que aqueceu nas últimas semanas. A China, apanhada de surpresa, ainda não respondeu. O mesmo Japão, pergunto-me, irá fazer também uma verdadeira OPA insular para conseguir o controlo das ilhas Kurill que disputa com a Rússia?

E o Fidalgo regressará amanhã!


Tuesday, September 04, 2012

Revolucionários de Café...

Quem acompanha futebol (não é propriamente o caso do futebol) conhece bem a expressão "Treinador de Bancada"! Quem acompanha futebol sabe o que é opinar, criticar, desdizer, maldizer, contradizer o trabalho feito por quem não mostra resultados, ou simplesmente sabe ser venenoso quando existem resultados que não escondem pequenas e pessoais inimizades...

O Treinador de Bancada tudo sabe. Tem todas as tácticas, técnicas e fórmulas. Tem tudo na sua mão menos uma coisa, o poder para fazer as mudanças que apregoa. E o Treinador de Bancada fica feliz por não ter esse poder! Ora o Revolucionário de Café, figurinha muito querida da lusa gente, é algo semelhante ao seu primo Treinador de Bancada.

O Revolucionário de Café é um crítico da elite governativa; das suas acções; das suas decisões; das suas caras. O Revolucionário de Café é um agente de mudança (passiva claro!) que sabe como trilhar o rumo certo e que estranha a incapacidade de Eles, os políticos (amalgamados numa única entidade, espécie de Hidra de mil cabeças), não conhecerem o caminho.

O Revolucionário de Café é uma espécie de farol do Amanhã Prometido. Tende a adorar o som das suas palavras; a falar alto, exaltado, com exuberância. Tende a exagerar no tom e no estilo da sua prosa, pois que seguindo a sageza dos seus conselhos o País pode andar para a frente, pois que existe um caminho que o Revolucionário de Café conhece e, não raras vezes, partilha com os seus convivas.

Mas esse mesmo Revolucionário de Café é um cobarde de primeira linha; que na Hora R (de Revolucionar entenda-se) se eclipsa com desculpas fraquinhas. O Revolucionário de Café adora apregoar acção e mudança, mas teme fazer essa acção e essa mudança porque isso implica deixar de apontar o dedo, para passar a ser apontado. Conforta-se com o "sim senhor, tem razão", mas teme o "vamos lá fazer qualquer coisa pelo país!"

O Revolucionário de Café é como um parasita que se alimenta das tentativas dos outros (dos tais Políticos fundidos magicamente num único ser), pois que sabe não ser capaz de tentar por ele mesmo. O Revolucionário de Café ilude, ilude, ilude e no final só desilude. É o primeiro a não se manifestar, a não levantar a voz, a não votar, a não lutar e, tristeza pateta, é o primeiro a não saber...

O Revolucionário de Café é o que diz "Vão sem mim que eu vou lá ter", como bem cantam os Deolinda na música Movimento Associativo Perpétuo. Mas não vai! Ele fica em casa, por não perceber na verdade o que Eles fazem, como fazem e porque fazem. Ele fica para trás por viver fechado na redoma de estereótipos e de preconceitos que o impedem de ver que o erro antes de ser Deles é o Dele.

Quando extinguirmos o Revolucionário de Café e deixar-mos o Revolucionário do Ladrilho sair às ruas talvez muita coisa mude... Até lá avizinham-se muitos "treinos de bancada" e poucos jogos para o Campeonato-Das-Coisas-Que-Importam...

O Fidalgo volta logo, logo... Vou só ao Café!