Monday, December 30, 2013

Porquê agora? Porquê em Volgogrado?

Ainda estou meio incrédulo com o que se passou nas últimas 36 horas. Num curto espaço de tempo a cidade de Volgogrado, localizada no Distrito Federal do Sul da Federação da Rússia, foi sacudida por dois atentados bombistas: no Domingo o ataque aconteceu na estação de comboios matando 17 pessoas; hoje foi na estação de autocarros vitimando, pelo menos, 14 pessoas.

O Comité Investigativo da Rússia diz que os dois atentados podem estar ligados e estou em crer que estarão mesmo. Duas questões têm que ser respondidas: porquê agora? Porquê Volgogrado? Vamos ao agora: os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi (cidade localizada no krai de Krasnodar, no mesmo Distrito Federal em que se encontra Volgogrado) estão a chegar e as forças leais a Dokka Umarov estão activas. Qualquer ligação deste atentado aos activistas Circasses é, tanto quanto consigo apurar, pura especulação.

É importante lembrar que em Julho deste ano, Dokka Umarov, auto-nomeado líder do II Emirato Caucasiano (projecto que visa unir as repúblicas do Cáucaso Norte num só estado, sujeito às leis da sharia), lançou um vídeo em que dizia que a ordem para não atacar fora do Cáucaso Norte estava suspensa. Umarov foi mais longe! No vídeo pedia a todos os mujahideen (guerrilheiros da jihad islâmica) que travassem a "dança satânica dos russos, sobre os ossos dos seus antepassados".

No final de Outubro, uma bombista-suicida (provavelmente uma Viúva Negra) deu a primeira resposta a Umarov ao explodir-se dentro de um autocarro na cidade de... Volgogrado! Seis pessoas morreram e quase 40 ficaram feridas. Na sexta-feira, 28 de Dezembro, uma bomba num carro em Pyatigorsk (a 270km de Sochi) matou três pessoas. O pedido de Umarov, que se considerava fragilizado por lutas internas contra alguns dos seus comandantes inguches, encontrava assim nova resposta.

Ontem e hoje, Volgogrado voltou a ser palco de dois atentados, muito possivelmente ambos com recurso a Viúvas Negras (nome dado à ala de viúvas de bombistas-suicidas, que se decidem sacrificar pela jihad). O timing não podia ser mais perfeito, seguindo o boicote (não assumido!) de altos dignatários da França, da Alemanha, do Reino Unido, dos Estados Unidos, da Lituânia e da Moldova. Umarov quer mostrar a Putin que perde aliados no plano externo e controlo no plano interno.

Mas se o timing está respondido, o alvo fica por explicar. Porquê Volgogrado? Duas razões: simbolismo e localização. Comecemos pela segunda: O oblast de Volgogrado fica entre as repúblicas islâmicas do Cáucaso Norte e as repúblicas islâmicas do Médio Volga o que facilita ataques coordenados. Não deixa de ser curioso que a distância, usando transportes terrestres, entre o Daguestão (Cáucaso Norte) e Volgogrado seja de menos de 960km; e a distância entre o Tataristão (Médio Volga) e o Volgogrado seja de menos de 1050km.

Simbolismo! Um ataque em Rostov-on-Don faria mais sentido. A cidade é não só a capital do Oblast de Rostov mas também é a capital do Distrito Federal do Sul, o mesmo que abarca Sochi; a tal cidade que receberá em 2014 os Jogos Olímpicos de Inverno. Mas Rostov-on-Don é um alvo tão óbvio que Umarov sabia ser mais fácil contornar e apontar armas a Volgogrado.

Mas os ataques em Volgogrado têm um segundo sentido! Em Fevereiro deste ano, o Presidente Putin decretou que a cidade de Volgogrado se chamaria durante seis dias, todos os anos a partir de 2013, de Estalinegrado. Sabendo que Putin é fã de Estaline; sabendo que o ataque em Rostov-on-Don era esperado; Umarov apontou armas a Volgogrado e, diria eu, com muito sucesso.

Dokka Umarov mostrou ser capaz de atacar fora do Cáucaso Norte. O ataque demonstra que a aparente "pacificação" do conflito na Chechénia resultou não apenas num alastrar da violência para as vizinhas repúblicas do Daguestão e da Inguchétia; mas também numa nova vaga de violência na República Pacífica de Kabardino-Balkaria (assim apelidada até 2009) e, ao que parece, num novo ciclo de violência e terror nas repúblicas islâmicas do Médio Volga.

A ameaça feita em vídeo concretizou-se e temo que não se fique por aqui. Nas últimas semanas, Umarov mostrou ser capaz de atacar (simbolicamente!) o burgo de Estaline; o mesmo Estaline das purgas e deportações dos anos 30 e 40; o mesmo Estaline que Putin idolatra. Volgogrado deu a Umarov a hipótese única de "atacar" dois líderes de uma só vez; deu a Umarov a hipótese de atacar o Presente (Putin) e vingar o Passado (Estaline).

O que se segue? É difícil saber o que se segue, mas não devemos excluir mais ataques destes. Desta feita, contudo, com o FSB de olhos postos em Volgogrado é preciso ter atenção nas cidades de Rostov-on-Don, Pyatigorsk, Stavropol, Krasnodar (capital do krai de Krasnodar, no qual se encontra englobada a cidade de Sochi) e Maykop (república-enclave do mesmo krai). Uma coisa é certa, quem dizia que o II Emirato Caucasiano implodiria após o fracassado "golpe palaciano" de Agosto de 2010 estava enganado... E muito...


Thursday, December 26, 2013

Sr. Primeiro-Ministro a Verdade é poliédrica, mas nem tanto!

O Fidalgo preparava-se para escrever sobre o último dia de aulas do semestre. Sobre os desafios que vinham no caminho. Sobre o muito feito e o muito ainda por fazer. Sobre o 2014, mas as notícias vindas de Lisboa mudaram tudo. E de repente o que ia ser um post pessoal, passa a ser um post de (digamos!) esclarecimento e, quiçá, crítica. A ver vamos como corre a escrita...

Li, com espanto, que o Sr. Primeiro-Ministro se congratula de a economia portuguesa estar numa fase melhor. Vejo com espanto que, depois de fazer implodir quase tudo, qualquer pequeno sinal menos negativo parece dar azos a uma euforia disparatada lá para os lados de S. Bento. Como uma criança num cenário pós-ciclónico que após perder tudo se anima por encontrar, no meio dos escombros, um carrito a pilhas, sem telecomando e a faltar-lhe uma roda e tudo...

Diz ainda que estamos a crescer mais do que a Europa. Pausa, para uma ligeira gargalhada. Também nos podemos rir das tragédias... A ver se nos entendemos: se o meu vizinho passou de uma produção de 10 para 15 aumentou apenas 50%; enquanto que eu aumentei 300% só que a minha produção foi de 2 para 6. Será que isto é razão para festejo? Continuo a produzir menos em termos nominais... Continuo a estar atrás do vizinho, que fará 15 vendas enquanto eu me limitarei a 6. Festeja-se o quê mesmo?

Mas a "transformação" de um cenário negro, num cenário cinzento claro ou (com esforço!) prateado continua. Diz o Sr. Primeiro-Ministro que a Economia conseguiu criar 120.000 postos de trabalho; que o desemprego desacelerou porque se criaram os tais 120.000 postos de trabalho. É, contudo, curioso que 120.000 seja o número de portugueses que, sem opção, teve que migrar em 2013, tal como acontecera já em 2012.

Não acha uma falta de respeito, para com quem migrou e para com as famílias destes, tentar vangloriar-se de resultados que não são seus? A economia lusitana não criou 120.000 postos de trabalho Sr. Primeiro-Ministro. Foram 120.000 trabalhadores, muitos dos quais jovens qualificados, muitos dos quais sem perspectivas no presente e sem vontade de regressar no médio-prazo, que abandonaram a economia lusitana.

O único mérito que o Sr. Primeiro-Ministro tem nisto tudo, se é mérito que procura, foi o de "empurrar" uma geração para fora do seu país. E a sangria, ou fuga de cérebros, ou perda de talentos, chamem-lhe o que quiserem, está longe de ter terminado. Andou o país a investir, e bem, nos seus jovens; para esses jovens, agora, irem laborar fora de portas. Agradecem os países de acolhimento, que o sucesso português é como os cogumelos: multiplica-se!

Sempre defendi a ideia de que a Verdade, enquanto conceito, é poliédrica. A expressão não é minha, mas de um colega, mas ajusta-se que nem uma luva ao que penso sobre a Verdade. A Verdade não é dogmática, nem tem apenas uma versão, nem tem apenas um sentido. Mas entre as várias facetas da Verdade e a manipulação transfiguradora vai um fosso enorme que, meu caro Primeiro-Ministro, não deveria ultrapassar.

Depois de um relatório parlamentar (e para lamentar!) ter branqueado a participação de uma Ministra (pálida sombra de um ex-Ministro!), no tal caso das SWAP; assistimos ao triste espectáculo de um Primeiro-Ministro a vangloriar-se pelo que não fez e a querer ver ouro, onde apenas existe latão, e do de má qualidade. A Verdade, repito, é poliédrica, mas os portugueses não são tontinhos. E brincar com a Verdade, por norma, dá mau resultado. Fica o aviso...


Tuesday, December 24, 2013

Natal com neve, com árvore, mas sem lista....

Sempre achei que devia ser espectacular o Natal ter neve. Ver neve cair lentamente, enquanto se abrem os presentes e se comem as filhoses. E o Pai Natal, atento, decidiu conceder-me o desejo. Curiosamente, o Pai Natal não percebeu, talvez culpa minha, que eu queria um Natal com neve, junto dos amigos e da família.

A neve seria apenas acessória... Um elemento decorativo. Mas não fui suficientemente claro naquilo que pedia. Hoje, aqui, tenho neve, tenho frio para manter a neve, mas não tenho família, nem amigos por perto. Mudanças, mudanças, mudanças...

Lembrei-me hoje da transição natalícia para a Adolescência, esse momento deliciosamente confuso em que somos crianças e adultos ao mesmo tempo. Esse momento em que somos "crescidos" demais para ser considerados crianças e "maduros" de menos para sermos vistos como adultos. Esse momento em que mais do que Ser nos construímos no Não-Ser. Não ser criança, nem adulto, sendo algo na mesma...

Lembro-me de como aos catorze anos, orgulho-me de ter sido criança por muito tempo (de que importa acelerar o Tempo? se o tempo, tem tempo para lá chegar!), o Natal foi confuso. Os habituais presentes compostos em 90% por livros e brinquedos transformaram-se num desfilar de roupa, perfumes, sapatos... E, sorte minha, dois livros. Brinquedos? ZERO! Mantive um sorriso no rosto, mas o desencanto em mim era notório.

Aguardei pelo re-começo das aulas, para perceber o que pensavam os meus amigos e colegas de escola. Estavam radiantes com os presentes, mas também eles não tinham recebido nada para brincar. Talvez a culpa fosse minha? Talvez... Mas roupa ia-se comprando ao longo do ano; Natal era para brincar, a regra tinha-me servido bem por treze Natais para quê mudar? Talvez fosse um precalço natalício! Mas aos quinze anos, o Natal não trouxe de novo brinquedos...

Aos poucos percebi que o Natal não tinha que perder a magia, só porque eu perdera os brinquedos. O Natal ia transformar-se e eu teria que me ir adaptando. O Natal, como eu, sofreria metamorfoses. Para controlar o Natal, aos dezassete anos, comecei a fazer listas de presentes. Se o Natal iria perder a doce estabilidade do passado, iria, ao menos, tentar controlar o caos do inesperado. Iria tentar...

Curiosamente roupa não constou das listas até aos vinte e um anos. Acessórios, livros, cd's, dvd's, jogos para PC (isto é, os brinquedos dos crescidos!) chegaram a cobrir 4 páginas escritas com o cuidado de quem não quer perder o controlo. A magia do Natal passava a estar não apenas no espírito da época, mas também na capacidade controlar o incontrolável. Ser surpreendido? Sim, desde que conste da lista.

E aos vinte e sete anos não fiz lista. Aos vinte e sete anos não preciso controlar a noite de 24 de Dezembro, porque será uma noite igual a muitas outras. Aos vinte e sete anos adoraria ser surpreendido pelo Natal, mas o Natal não andará por estas paragens. Sou possivelmente o único habitante de Kirikkale a quem o dia de hoje diz alguma coisa. Sou possivelmente o único que sente uma nostalgia por não estar numa pequena cidade a mais de 3547km deste sítio.

Tenho neve. Tenho uma pequena árvore de Natal. Tenho um anel de jade que comprei para mim mesmo, em Konya. Mas não tenho o resto. Nem a lista fiz. E aos vinte e sete anos o meu Natal resume-se a um sorrir por reviver memórias; a um vaguear pelas redes sociais; a um esperar que chegue o dia em que poderei comemorar (com lista e tudo!) o Natal...

Saturday, December 21, 2013

Zangam-se as comadres... à la turca!

É talvez a primeira vez que o Fidalgo vive um escândalo de dimensões enormes a acontecer fora de Portugal, com o Fidalgo fora de Portugal... Com o Fidalgo no país do escândalo. Pela primeira vez o Fidalgo pode avaliar a importância dos contextos e, neste caso, o contexto é de suma importância.

O escândalo de corrupção que envolve o Halkbank e conta já com uma lista de suspeitos na casa das sete dezenas (e ainda a procissão nem chegou ao Adro!) é grave porque fere a credibilidade das Instituições governativas turcas, afinal até filhos de Ministros estão envolvidos.

O escândalo é grave porque revelou uma rede de corrupção numa escala anormal, porque sejamos honestos os turcos (como os portugueses) há muito que desconfiam da idoneidade de certas instituições. Mas nunca se pensou em algo com esta escala. E acreditem espanto é a palavra de ordem nas ruas. Seja em Ankara, Istambul, Çanakkale, Kırıkkale, Izmir ou Konya.

Mas o escândalo é apenas a cortina de fumo para um braço de ferro entre os dois senhores que dominam a vida politica nas terras que foram conquistadas por Mehmet II: Erdoğan (actual primeiro-ministro) e Gülen (líder de um poderoso movimento islâmico moderado). O escândalo é, antes de mais, um jogo de xadrez que ainda agora começou...

Os dois senhores, curiosamente, foram aliados até há uns dois/três anos. E não sendo possível afirmar que Gülen foi indespensável nas três vitórias de Erdoğan, a maioria dos analistas políticos turcos concordam que sem o apoio tácito de Gülen a vida do actual primeiro-ministro podia ter sido menos fácil.

A razão da cisão entre os dois ainda está por entender, mas o jogo está em curso. Nos tempos mais recentes conto duas jogadas. Erdoğan avançou com uma lei que penaliza as instituições superiores privadas, a maioria das quais controladas por Gülenistas. Gülen, que tem seguidores infiltrados na banca e na polícia, "destapou" este escândalo.

Um resultado imediato do escândalo financeiro, com claros contornos de jogo político, foi o adensar do descrédito dos chamados "partidos tradicionais", perante a juventude. Num fenómeno semelhante ao que vemos em Portugal, Espanha, Itália e Grécia também na Turquia a juventude se sente cada vez menos representada pelos partidos do poder.

Mas, curiosamente, vejo uma vontade maior dos jovens na Turquia (é perigoso o uso das expressão "dos jovens turcos"!) de reformularem o sistema, participando no mesmo. Vejo um desejo, muito curioso, de reformar o sistema por dentro; pela via participativa. E não apenas, como na Europa do Sul, de participar numa parada infinita de protestos e manifestações dos quais 4/5 são desprovidos de conteúdo, de agenda, de verdadeira vontade política.

Voltemos à Turquia! O resultado deste jogo de poder está longe de ser certo, mas para já está a causar um terramoto político, com os Ministros,  Secretários de Estado e Deputados sobre suspeita, e social, com o tema a dominar as conversas, de rua e de café, pela Turquia. Os próximos dias prometem mais novidades... O Fidalgo estará atento!


Monday, December 16, 2013

Assim se passam três meses...

16 de Dezembro! Três meses! Estou há três meses fora de Portugal. Nunca antes estivera tanto tempo fora e com tanto tempo ainda pela frente. Três meses, um terço apenas do tempo que leva a formar uma nova vida, e parece-me contudo que tenho toda uma nova existência. Como se tivesse renascido, sem precisar de morrer...

Há dias pus-me a pensar como tudo mudou. Lembro-me quando em 2005 e 2006 rumei ao Brasil. Na primeira aventura Manaus, na segunda Belo Horizonte. Um mês longe de tudo! Não senti sequer um décimo do que agora corre nas minhas veias. Porque não sou apenas feito de sangue e de lágrimas. Porque algo mais percorre este corpo, talvez seja saudade. Talvez...

Nas aventuras em terras de Vera Cruz eu sabia que, durasse o tempo que durasse, era tudo temporário e voltaria a Portugal. Eu sabia que aquilo era passageiro; momentâneo; fugaz. Agora é diferente! Agora, Portugal tornou-se o momentâneo; o passageiro; o fugaz. Quando chegar a Portugal (ainda faltam 32 dias) sei (lembrar-me-ei a cada segundo) que voltarei para a Turquia. Sei que é aqui que está o definitivo, se é que isso existe.

Definitivo! Nada é definitivo. Eu já quis ser definitivamente tanta coisa, todas tão longe daquilo que sou hoje. Sei, contudo, que estes três meses se multiplicarão; que com eles se multiplicarão as memórias; que com eles se multiplicarão as estórias. E as perdas. Que viverei muita coisa, é certo. Mas que não viverei tantas outras. Que conhecerei um novo mundo, porque deixei para trás o meu reino. E já se passaram três meses.

Há três meses atrás protestava em viva voz se estivessem menos de 10ºC. Agora fico feliz com 0ºC, já que passo dois-três dias sempre com temperaturas negativas. Há três meses atrás aproveitava cada momento para praticar as outras línguas, que não a nativa... Agora vibro só de ouvir palavras que se parecem com o português. Há três meses atrás um bom café era um facilidade. Agora um café, já não peço que seja bom, é um luxo!

Há três meses atrás tinha uma caixinha com amostras de perfumes. 18! Tenho a caixinha desde 2005. Viajou comigo para imenso lado. E, há dois dias atrás, a caixinha ficou vazia. Até a caixinha dos perfumes quer recomeçar; quer uma nova função, agora que não tem perfumes para guardar. São três meses no calendário, mas muito mais na minha vida. Porquê? Não sei, nem sei se quero saber, a resposta... São três meses que valem por três Eras e ponto!

Viverei mais de quatro meses em Kirikkale (os tais 32 dias que restam!) antes de embarcar em Ankara, rumo a Lisboa e depois até Abrantes. Quatro meses e dois dias e pausa! 21 dias de Portugal. De tudo o que é ilusório, mas que sendo ilusório sabe tão bem. Verei os rostos dos meus amigos, da minha família, dos meus conhecidos. E no entanto nada é meu, porque são rostos que não me pertencem. Mas não sendo meus, sabe bem pensar que são.

E assim se passam três meses...


Friday, December 13, 2013

Desculpas a mais, resultados a menos...

O Fidalgo ainda está meio que pasmado, surpreso, incrédulo com as últimas declarações de Christine Lagarde, Directora-Geral do FMI. Descobriu sua Excelência que os programas de ajustamento implementados em Portugal e na Grécia contiveram excesso de austeridade e falta de tempo. Ou seja, descobriu aquilo que venho escrevendo... Austeridade sim, mas de outra forma!

A mesma diz que "é uma questão de honra assumir os erros", o que até não parece mal ao Fidalgo, mas logo em seguida partiu em defesa no que toca à substância dos programas. Ou seja, errou-se mas se pudessemos voltar atrás errar-se-ia outra vez, mas desta feita com mais tempo. Menos mal, se é para errar que se cometam erros novos e não se ateimem nos mesmos.

O curioso "mea culpa" não é, de resto, o primeiro. O Fidalgo ainda se lembra que em Abril de 2012, o FMI avisava que demasiada austeridade podia ameaçar a retoma das economias intervencionadas: Portugal, Grécia e Irlanda. Na altura, e agora, o FMI aponta o dedo à Comissão Europeia por insistir no mesmo caminho de austeridade-a-todo-o-gás. Ou seja assumem-se as culpas pela destruição (desnecessário, lá está!) causada mas, qual criancinha embaraçada, aponta-se logo o dedo: "mas ele errou mais do que eu, mãezinha!"

O discurso revela uma completa hipocrisia institucional, da parte de quem tem demonstrado um total autismo no que toca a ouvir falar em alternativas. Porque existem alternativas! Um discurso meio-pateta, pela parte de quem representa uma instituição enredada numa interpretação errada da lógica dos consensos, definida por Habermas.

O discurso de Lagarde coloca ainda o Fidalgo numa posição nova, a de reconhecer o papel ingrato do Primeiro-Ministro. Podemos discordar de Pedro Passos Coelho em imensas coisas, faço-o quase todos os dias, mas a verdade é que tem defendido o programa, que sabia ser duro e impopular, com um vigor notável. Programas impopulares precisam ser defendidos com pujança, sob o risco de se esborarem na primeira dificuldade!

Ficava-lhe bem, ao mesmo tempo, por vezes, saber ceder aqui e ali; ficava-lhe bem mostrar menos seguidismo, ao que Berlim vai impondo (ou ainda achamos que o BCE e a CE, os outros troikeiros, são independentes?); ficava-lhe bem escolher outros caminhos, mas também aqui dou a mão à palmatória... Para ceder e adoptar novas ideias é preciso uma Oposição à altura, menos demagógica e muito menos eleitoralista, coisa que em Portugal escasseia por estes dias...

Ou seja, anda o Primeiro-Ministro a tentar explicar e defender medidas que lhe são apresentadas, que é deselegante dizer impostas, pelos troikeiros e depois os troikeiros dizem que o programa, que fundamenta as tais medidas, tem erros no desenho? Já todos perceberam que a austeridade-turbo-excel não funciona e todos querem salvar a face, num espectáculo deplorável de meas culpas e de dedos em riste.

Sempre defendi uma austeridade diferente, menos agressiva, a pensar menos em cortes, cortes, cortes, cortes e a fazer reformas com um fôlego diferente; com um envolvimento diferente. O ajustamento deveria ser para prugar os erros e apresentar soluções e não para abrir caminho a um neoliberalismo selvagem, que na sua voracidade destrói mais do que constrói.

E quanto ao FMI, e à sua Suserana, minha senhora só lhe posso dizer que as suas desculpas não devolvem os empregos destruídos, pela pressa e pelo erro de cálculo; as suas desculpas, não devolvem os filhos e as filhas que partiram para outras terras; as suas desculpas não devolvem esperança aos jovens; as suas desculpas não mudam nada, se no fundo assume que nada mudará. As suas desculpas não a desculpam! Ponto.


Tuesday, December 10, 2013

Ucrânia desculpa, mas não entendo...

Os protestos na Ucrânia entraram na sua terceira semana, para gáudio dos media Ocidentais. Confirma-se aquilo que venho dizendo, que o fim da Guerra Fria deu apenas lugar a uma Guerrilha Fresca, em que a Rússia passou de inimiga-letal a aliada-perigosa. Como quem troca o veneno da Viúva Negra, pelo abraço apertado da Piton...

A Rússia, ou melhor dizendo Moscovo, torna-se assim o centro do Mal, contra o qual o heróico povo ucraniano luta nas ruas de Kiev. Pausa! E aqui entra o Fidalgo. Para começar falar de revolução em toda a Ucrânia é um exagero mediático, que em nada ajuda a compreender o que de facto se passa no país.

Não sendo possível ignorar a convulsão que acontece ao longo da Ucrânia Ocidental, pró-Ocidente com uma agenda Europeísta e que promoveu a Revolução Laranja de 2004; afigura-se estranho que não se mencione a paz que reina na Ucrânia Oriental, pró-Rússia e com uma agenda mais Eslavófila, vencedora das eleições presidenciais de 2010.

A Ucrânia que está nas ruas e que canta pela União Europeia (quiçá por não saber bem o que pede!) é, quanto muito, meia-Ucrânia. E se é verdade que o povo é quem mais ordena; que a democracia se faz ouvindo o cidadão que não pode, não deve, ser menorizado ao simples papel de eleitor e pagador de impostos (algo que se assiste nas terras de Viriato); não é menos verdade que o voto tem que ser um acto de consciência.

O Presidente Yanukovych nunca escondeu a sua agenda de aproximação a Moscovo, que, não convém esquecer, fornece o precioso gás que aquece os lares ucranianos durante o rigoroso Inverno. A Ucrânia de Yanukovych queria aproximar-se de Moscovo porque é importante manter boas relações com os vizinhos poderosos.

A União Europeia foi sempre secundária na agenda do Presidente eleito em 2010 e que esmagou a Revolução Laranja; revolução essa que falhou nos seus intentos... Afinal, para quem tem memória curta, Timoshenko está presa (para além da perseguição política!) por crimes de peculato e nepotismo.

A União Europeia nunca foi prioridade e o cidadão-eleitor sabia isso. E mesmo assim Yanukovych ganhou as eleições. Ganhou e cumpriu a sua agenda de re-aproximação a Moscovo; tendo inclusive conseguido negociar melhores preços de fornecimento do gás e tudo. E o povo vem para a rua gritar "Demissão!" e afins? Desculpem meus caros, mas desta feita não entendo.

O Presidente curmpre a sua agenda, que não tem que ser do agrado de todos, mas que foi escrutinada e aprovada pelo cidadão-eleitor e o povo clama Injustiça? Desculpa lá Ucrânia, ou meia-Ucrânia, mas esta não entendo. O povo, com memória-curta por certa, vem para a rua destruir e esmagar? A ideia é mostrar força de vontade, o resultado é vandalismo gratuito e desnecessário...

A turba de Kiev, onde reina a irracionalidade e o ímpeto para o comportamento espalhafatoso-ó-animalesco, enquanto derruba estáturas, já esqueceu que no começo de 2015 irá de novo a votos? Não tenham medo, que a União Europeia não foge e mesmo que imploda (facto incerto, mas provável!), levará tempo a que isso aconteça.