Tuesday, January 21, 2014

Parasita me confesso!

O Concurso Individual de Bolsas de Doutoramento e Pós-Doutoramento 2013 tem gerado uma onda de reacções muito curiosas. Das dúvidas sobre a legalidade de todos os procedimentos, das questões sobre a idoneidade de todos os júris, das interrogações sobre a justiça de todas as avalições efectuadas há um argumento que tem chamado a atenção do Fidalgo: o parasitismo.

Um grupo de gente tem tentado passar a ideia do investigador, que depende da bolsa para a sua sobrevivência, como sendo um parasita que suga o "sangue" do todo social (dinheiro, entenda-se!). O investigador é visto como uma espécie de carraça, de utilidade diminuta cuja única função é sugar, sugar, sugar e por isso reduzir investimento de investigação em mais de 65% é não só normal, como muito desejável para purgar o sistema.

Eu, perante tal argumento, parasita me confesso! E, como parasita, acho curioso que aqueles que me antropomorfizam sejam os mesmos que, no começo do ciclo da Hiper-Austeridade-Técnocrática, viam os portugueses como uns serzinhos meio-estúpidos, que só sabiam gastar e que mereciam as punições dos sete círculos do Inferno para civilizarem. Estas são as mesmas pessoas, têm em crer este parasita confesso, que diziam que "não podemos comer bife todos os dias"...

Obviamente que nos quatro anos que recebi bolsa de investigação, que deveria ser chamado de contrato de investigação já que exige plano de actividades e exclusividade, não fiz nada sem ser parasitar. As mais de quarenta comunicações em conferências, fóruns, cimeiras, palestras e aulas abertas em Portugal e no estrangeiro foram um exercício de parasitismo. Recebi dinheiro para divulgar Ciência e Conhecimento... Pede este parasita desculpas pelo ultraje.

Os artigos publicados em revistas científicas nacionais e internacionais e os capítulos de livros em duas publicações de países do Espaço Pós-Soviético (área de especialidade deste parasita), que contribuiram para mostrar que em certos domínios do conhecimento Portugal dá cartas foram, uma vez mais, um abjecto exercício de parasitismo. Receber dinheiro para elevar o nome do meu centro de investigação e, claro, do meu país é aquilo que um parasita competente tende a fazer... Desculpem-me!

Fui ainda mais parasita quando, com o trabalho financiado pela dita bolsa, consegui ser nomeado como Embaixador Honorário de um Fórum na Rússia, Responsável pelo Programa Científico de uma Conferência em França e Director Académico de uma Cimeira na Índia. Os parasitas que vivem da constante sucção tendem, curioso, a produzir e não apenas a vegetar enquanto a bolsa pinga. A mesma bolsa que, repito, exige exclusividade e é apenas bolsa por falta de legislação que defenda a carreira de investigador.

A bolsa de investigação, o precioso sangue que o parasita (como eu) precisa funciona como uma espécie de ordenado... Aquilo que os trabalhadores recebem pelo seu trabalho. A bolsa funciona do mesmo modo, com menos regalias, sem qualquer protecção e com muito mais incertezas quanto ao ano seguinte. O parasita vive sempre no limiar da rejeição, mas como só tem que parasitar (pensam certas cegonhas!), o parasita aguenta-se.

A visão do investigador das Ciências Sociais como parasita parte do pressuposto de que as Ciências Sociais nem sequer são ciências... Pelo menos se comparadas com as Ciências Exactas! E porquê: porque os parasitas dos investigadores sociais não quantificam tudo; não conseguem fazer fórmulas elegantes para entender o devir social; não conseguem estancar a originalidade complexa da vida humana. Como as Ciências Sociais não robotizam tudo, não são Ciência...

Até posso concordar que não são Ciência, mas continuam a ser Conhecimento e se o Conhecimento não é suficiente lastro para que algo seja Ciência, não sei o que será... Porque os números são importantes, mas existe vida para além dos mesmos. Porque as Ciências Sociais, apesar de parasitárias e inúteis, se bem entendidas têm um potencial extraordinário de facilitação e melhoramento da vida social.

Não conseguimos quantificar, mas conseguimos qualificar, explicar, entender. Não conseguimos fórmulas elegantes, mas os esquemas e paradigmas analíticos (se entendidos sem dogmatismos e com o natural distanciamento epistémico) conseguem prever, antever e compreender muitos dos fenómenos sociais. Mas para isso é preciso entender os mesmos modelos; aperfeiçoar as suas falhas e alguém terá ainda que os explicar ao todo social... Ou seja, não se podem matar todos os parasitas! Que maçada!

Parasita me confesso! Mas não aceito que olhem para mim, investigador, como inoperante e improdutivo só porque não se consegue por um preço no conhecimento; só porque não se pode taxar o mundo das ideias e dos conceitos. Não aceito que diminuam o que eu faço, por não entenderem o que eu faço, ou apenas por não poderem vender o que eu faço. Parasita me confesso... Mas aquilo que fui parasitando gerou frutos... Enquanto outras peças de fruta, livres do parasitismo, vão apodrecendo...


Thursday, January 16, 2014

E aos quatro meses... egoísmos...

Faz hoje quatro meses que me mudei de Abrantes para Kırıkkale. E apesar de ambas as cidades estarem sensivelmente a 1h30 da capital (curiosa coincidência), as semelhanças praticamente terminam aqui. Mas, quando a 16 de Setembro acordei por estas paragens, eu não contava encontrar uma réplica de Abrantes no solo que já foi de Bizâncio, dos Seljuks e dos Otomanos.

Curioso, tenho reparado que sempre que celebro a efemeridade do tempo (mais um mês no meu novo mundo) o dia tende a revestir-se de núvens e o sol fica tímido. Esconde-se! Como se o sol não quisesse participar no constante exercício de mnése que ora me alegra, ora me entristece. Como se o sol não quisesse que eu o culpasse por ter deixado para trás família e amigos de longa data. Mas o sol que descanse, que não o culpo!

Ao celebrar os quatro meses de estadia em Kırıkkale (curioso, uma vez mais!) estou pertinho de regressar a Abrantes para um interregno de três semanas. Amanhã darei dois exames pela manhã e depois partirei rumo a Ankara e no sábado, pela tarde, pisarei solo luso, se ainda não se tiver vendido o solo... Por estes dias, ao que vejo, Portugal parece mais uma venda de garagem, do que o país com as fronteiras estáveis mais antigas do mundo. Mas divago...

Aos quatro meses notei que tenho poucas fotos de Kırıkkale no computador. De Konya, de Çanakkale e de Ankara tenho albuns recheados de imagens, mas da cidade onde resido não chegam a ser dez as fotos que tenho... Penso em Abrantes e em Oeiras, onde já residi, e concluo o mesmo. Estranho hábito este de não fotografar os locais onde resido. Como se os tomasse por garantidos e achasse fútil registar o que não se perderá...

Mas se há coisa que tenho aprendido, é a não confiar na eternidade; porque a mesma não é mais do que o simples adiamento da perenidade. Mas no final tudo perecerá. É inevitável. E enquanto pensava em tudo isto decidi-me a tirar fotografias da cidade que agora chamo de minha. Há dois meses atrás a ideia ter-me-ia parecido absurda, correndo o risco de me perder nalguma ruela. Mas já não estou no há dois meses atrás! Agora se me perder pouco importa... Logo me encontrarei!

Vesti-me sem pressas, desci as escadas do prédio, subi a mini-colina que tenho perto do meu prédio e depois (como tudo o que sobe!) desci-a em passo estugado. Num instante dei por mim a ver ruas, a ver com os olhos de quem lê e não de quem as mira. Dei por mim a procurar detalhes, coisas bonitas para se fotografar. Dei por mim a procurar o belo, como se o mesmo fosse raro.

Fui até ao coração da cidade. Uma cidade cheia de vida, frenética, com gente a aparecer e desaparecer no emaranhado confuso das ruas de Kırıkkale. Em Kırıkkale respira-se confiança no futuro e sonha-se. Bem diferente do país de onde fui empurrado. Onde sonhar é uma quimera e a confiança torna-se, de dia para dia, num conjunto de grafemas sem real sentido.

E enquanto pensava em tudo isto o som vibrante do adhan (o chamamento para a oração) encheu as ruas. As palavras do imã ecoaram pelas ruas apinhadas de gente. O imã chamava para rezar, mas a minha mente chamava a si imagens e sons distantes... Os sinos de S. Vicente. O som puro e majestático dos gigantes de metal que, aos domingos, se fazem ouvir pela cidade. Não usam palavras, eu sei, mas não perdem o magnetismo e a capacidade de chamar os crentes.

Sorrio sozinho, enquanto as ruas de Kırıkkale perdem muitos transeuntes que desaparecem na direcção da mesquita. Sigo a demanda. Vejo tudo, mas a tal beleza parece escapar-me. O tal magnifíco que merece ser salvo nos fotogramas não aparece. E decido regressar. No regresso vejo os sítios que recentemente me fizeram feliz, com pequenas mas hercúleas conquistas. Contradição? Que o seja; é o que sinto...

E ao regressar percebo que o belo de Kırıkkale não está nos edifícios históricos, que poucos tem, ou em ruas sumptuosas, que não tem. Está no quotidiano; no regular; na normalidade. Kırıkkale não é bonita por ser magnifica, é bonita por ser normal. E para quem saiu de um país que anda meio-louco e meio-alucinado, a normalidade é o que mais se deseja.

Abro a porta do meu apartamento. Volto a sorrir. Só tirei três fotografias. E não teria tirado mais. Esta cidade é minha e é assim que a quero: Minha! Contarei as aventuras, a quem quiser ouvir. Relaterei peripécias, momentos de tensão e episódios animados, mas as cores e as formas da cidade serão do tamanho das minhas palavras. Desculpem-me todos, mas a cidade é minha! E é assim que a quero!

Vejo as fotos. Três! Uma no parque, uma na mesquita e uma na torre do relógio. A do parque está tão desfocada que só pode ser eliminada. Quem quiser conhecer o dragão e o cão do parque, terá que esperar pelos meus relatos. São meus! Sobram duas. A foto da mesquita arquivo-a. Não vejo problema em mostrar a mesquita. Será um ponto de referência. Uma excepção, nesta torrente de egoísmos dos quais não abdico. Tenham paciência...

A foto da torre do relógio. É esta que postarei neste post. Quando a tirei estava um casal nos seus 75/80 anos num banquinho, a beber chá. Tal como o relógio e a torre do mesmo, o casal não parecia preocupar-se com o tempo. Olhavam um para o outro e, sem palavras, bebiam o chá. O tempo que passasse; os miúdos que passassem; os jovens que passassem; o portekiz que passasse. O casal egoísticamente não se preocupava com o tempo. Invejei-os... Também quero os meus egoísmos! Não tiro mais fotos!

E dia 18 de Janeiro regresso a Portugal... Para poder regressar a Kırıkkale...

Wednesday, January 15, 2014

Nem desapontado, nem desiludido, mas farto!

Foram ontem conhecidos os resultados do Concurso Individual de Doutoramento e Pós-Doutoramento da FCT. O concurso aberto em Julho inicia o seu término em meados de Janeiro (ainda haverá lugar a audiência prévia e a um período formal de reclamação de nota), demonstrando a morosidade de um processo com contornos pouco claros.

O Fidalgo gosta de honestidade. Fui bolseiro de Doutoramento da FCT no período Outubro 2008 a Setembro 2012. Tenho em crer, de resto, não apenas pela minha experiência mas pelo que vou vendo e ouvindo, que tive imensa sorte nesse ano. Vejo, para minha tristeza, que o mérito teve pouco que ver com a aprovação do meu projecto.

Se o mérito ditasse as regras, nada explicaria porque razão em 2008 um aluno de Licenciatura em Comunicação Social conseguia uma bolsa em Ciência Política; e em 2012 e 2013 um Doutorando e consecutivamente Doutorado em Relações Internacionais não consegue a mesma proeza. Agradeço imenso a quem me aprovou o projecto em 2008, mas não entendo a lógica... Aposta-se num jovem investigador e quando ele pode dar algum retorno ao país tira-se-lhe o tapete? Acho estranho...

O jovem que ganhou a bolsa em 2008 tinha 0 publicações e 0 apresentações em conferências. O jovem (porque agora usa-se o título de jovem ad eternum) que não consegue a bolsa em 2013 tem quase uma dezana de publicações e mais de quatro dezenas de comunicações em conferências, cimeiras, fóruns e afins. Mas deixemo-nos de falar do Fidalgo, que o Fidalgo há muito se conformara com este desfecho...

Porque razão o país quereria investir num projecto de pós-Doutoramento com a pretensão de estudar a longínqua e (para certas iluminárias da Academia) exótica Ásia Central? Porque razão um país, abraço com uma situação financeira periclitante, quereria um estudo sobre uma das regiões do globo com maior potencial económico no médio-prazo? Estes jovens têm cada ideia...

Mas então, pergunta o Fidalgo, porque razão o país em estado de "excepcionalidade" se dá ao luxo de atribuir três bolsas (em Ciência Política) a investigadores estrangeiros, a residirem fora do país e duas bolsas a investigadores nacionais? O estado de excepcionalidade não seria justificativa suficiente para se atribuirem bolsas apenas aos investigadores nacionais?

Não pense o leitor que este é um ataque à internacionalização da Academia portuguesa; ou um argumento lançado por um proto-xenófobo. Bem longe disso... Sou a favor da internacionalização da Ciência que se produz em Portugal, mas também sou a favor de alguma equidade. E equidade, senhores, é tudo o que não consigo ver neste caso...

Eu explico! O ano passado concorri a uma bolsa num Instituto Público da Noruega. A meio do processo recebi um email a anunciar que "por culpa de restrições orçamentais", a vertente internacional do concurso ficaria suspensa. Apenas os investigadores noruegueses seriam tomados em conta. Achei muito bem! Ora se a Noruega, que não me consta esteja sob resgate, faz isto... Porque não faz a FCT, num país abraços com um programa de ajuda financeira, o mesmo?

Mas há mais! O Concurso Individual de Doutoramento e Pós-Doutoramento da FCT continua a pautar-se por um secretismo, quase místico, inexplicável. Todos os anos os resultados não são tornados públicos e o pouco que os candidatos conseguem saber é o nome de quem venceu. Porque não se disponibilizam os títulos e as sinopses de todos os projectos a concurso? O que tem a FCT a esconder? Se o dinheiro usado é público, porque não pode o público saber em quem está a investir?

A coisa parece-me ainda mais grave, quando o ano passado o bravo Samuel Paiva Pires conseguiu ir à Comissão Parlamentar de Educação Ciência e Cultura expor o pântano dos concursos da FCT e a mesma Comissão tentou "sensibilizar" a FCT para o caso com uma interpelação a várias entidades. Ora vendo que nada mudou, que tudo ficou exactamente na mesma, parece-me uma grave falta de respeito institucional da FCT para com o Parlamento. Ou a FCT está acima do Parlamento e não deve contas a ninguém?

A FCT caminha, para minha tristeza, para uma triste implosão sobre si mesma. Porque felizmente não detém o monopólio da investigação, a FCT acabará por ser ultrapassada por uma série de entidades nacionais e internacionais (estas últimas muito mais ávidas de captar talento) e tornar-se-á em algo risível. Isto se, no médio-prazo, ainda for visível de todo...

Curioso, como a mesma FCT que tinha a nobre missão de fazer despoletar a Ciência (e o gosto pela mesma) em Portugal, está a promover uma fuga de cérebros qualificados e a implosão (parcial, para já) da investigação feita em solo nacional. É este o sistema de investigação que o Sr. Ministro e seus comparsas querem para Portugal? Um sistema meio-podre, meio-pobre e meio conseguido?

Este post esteve para não ser escrito, mas estou a ficar farto de ver os meus colegas serem forçados a fazer o que fiz: migrar. Estou a ficar farto de ver investigadores fantásticos terem que fazer as malas, por culpa da tacanhez e da falta de escrúpulos de um ninho de ratos que comanda o sistema. Estou a ficar farto de ver sonhos e projectos esmagados pela crueldade desonesta de um sistema tecnocrático inoperante! Não estou desapontado, nem desiludido (ilusões tive-as o ano passado!), mas estou farto!

Tuesday, January 14, 2014

Os 'affairs' de Hollande serão res publica (coisa pública)?

A vida privada de François Hollande, Presidente da República Francesa, anda por estes dias nos escaparates dos jornais e das revistas. A grande questão, que começa a dividir leigos e analistas, é saber se a vida pessoal do mais alto representante da República é res publica (coisa pública) ou não. E a questão, como quase sempre nos factos sociais, é mais complexa do que parece.

A historieta tem, de resto, contornos de telenovela que agradará ao espectador. Um Presidente com filhos da ex-futura-grande-promessa da política francesa; com uma namorada no Palácio do Eliseu (a mesma senhora que deu entrada no Hospital, após saber a notícia) e com uma amante-comparsa que queria manter nas sombras... Mas deverá isto, a vida pessoal de um Presidente, ser notícia, ou não?

Podemos argumentar taxativamente que não! Que a vida de Hollande apenas a Hollande pertence, e que o caso está nos media por pressão de figuras ligadas ao UMP de Sarkozy. O argumento seria válido, não fosse o facto de vida privada de Sarkozy ter sido usada, contra o próprio, pela esquerda caviar francesa como meio de descridibilizar o então Presidente da República Francesa.

Nestas coisas, se querermos pugnar por alguma equidade (que justiça é algo bem mais complicado de se alcançar!) não podemos achar que Sarkozy merecia ter a vida privada nos media e Hollande, coitadinho, tem que ser resguardado. As acção em política tendem a gerar reciprocidade. E hoje quem aponta o dedo, amanhã será apontado...

Podemos argumentar taxativamente que sim! Que a vida de Hollande tem que ser escrutinada, porque conhecer o seu lado bon-vivant diz-nos muito do seu carácter. Porque o lado juvenil desta paixoneta, de quem parece não perceber que é apenas o poder que o torna atractivo (que Hollande está longe de ser um Casanova ou um James Bond), demonstra a impreparação de quem não devia ser Presidente.

François Hollande, relembre-se, ia ser um paladino da luta anti-austeridade; um cavaleiro em demanda por maior justiça social e para devolver a tal sensibilidade social, de que Seguro tanto fala (sem saber bem o que é!). Hollande ia ser uma força de oposição ao domínio de Berlim. O que se viu? Que Hollande, após a eleição, amoleceu na presença de Merkel, como os adolescentes fazem quando estão perante os "crescidos".

O Hollande dos affairs fugidios numa casa habitada por gente da máfia da Córsega é o mesmo Hollande que tirando um dois sinais simbólicos, pugna a sua actuação por medidas demagógicas sem real aplicação prática... A última das quais a taxação abusiva dos "super-ricos" que levou ao êxodo dos mesmos para a Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo e até Rússia.

Esta é uma daquelas questões, tem em crer o Fidalgo, sem resposta certa. Feita de meias-verdades e meias-respostas, que dependerão do posicionamento de cada um. Parece ao Fidalgo que o eleitor merece conhecer a moral e o carácter do mais alto representante da República Francesa. Mas entre o conhecer a moral e o carácter e o circo mediático, de estilo abutre, vai um fosso de distância...


Friday, January 10, 2014

Conquistas celebram-se com conquistas!

Acordei com um nó no estômago. Talvez seja a ansiedade de que passem os dias, mas acordei demasiado cedo, demasiado rápido e com o estômago demasiado enrolado. Exactamente como há um ano atrás! Há um ano atrás acho que mal dormi, na noite de 9 para 10 de Janeiro. Terminava um ciclo: ia defender o Doutoramento e se tudo corresse bem concluiria o projecto que me ocupara durante quatro anos.

Lembro-me de como estava moderadamente calmo. Mentiria se dissesse que a pressão não me atacara, e o leitor não precisa de mentiras. Se não for para ser sincero, não faria sentido escrever. Mas fujo ao assunto. Lembro-me de como só almocei meio-prato, porque o estômago (lá está!) tinha um nó. E lembro-me que os nervos me assaltaram nos dois minutos que antecederam a defesa. Depois tudo correu pelo melhor e lá consegui chegar ao Olimpo.

Hoje, enquanto olhava para as 6h43 que marcava o relógio pensei: como posso celebrar a conquista, que me permitiu outras conquistas? Como posso marcar o dia em que subi ao Olimpo? Com uma caminhada até Asgard, pensei eu. Uma conquista celebra-se com outra conquista. É assim que faz sentido. Lembrei-me que na noite anterior terminara de escrever um artigo, portanto essa conquista ficara fora de mão. E depois relembrei-me da ida às compras...

E porque não? Tomei o pequeno-almoço; instalei uma aplicação no tablet que traduz inglês-turco e turco-inglês; arrumei no bolso do casaco um pequeno manual com frases básicas em turco. Tentei praticar a pronúncia, mas sozinho como estava tudo me soou meio estranho. Olhei-me ao espelho. Hesitei por duas vezes. E se corresse mal? E se a conquista fosse antes um fiasco? E se nenhum dos planos se cumprisse? O que faria se ficasse sem conquista? Se arruínasse a celebração da conquista passada?

Olhei outra vez ao espelho e serenei o medo com quatro borrifadelas de perfume... Fiz uma pausa... Melhor que sejam cinco borrifadelas, para dar sorte. Desci as escadas do prédio determinado: iria até ao Centro Comercial e compraria chá para oferecer e quiçá uma camisa. Seria complicado? Com certeza... Mas o Doutoramento também o fora e eu tinha conseguido. Porque não conseguiria chegar a Asgard, quando já tinha vislumbrado o Olimpo?

Em frente! Desci duas ruas. Virei à esquerda. Voltei para trás. Desci mais uma rua. Virei à esquerda. É bem verdade, só se encontra quem se deixa perder. Vi as portas automáticas de vidro abrirem-se de par em par e entrei. Uma, duas, quatro, seis, oito... Oito latas de chá encheram o meu cestinho de compras. Fui em passo lento até à caixa. Uma jovem nos seus 18-20 anos cumprimentou-me e eu respondi de volta. Pedi aos Deuses que ela não perguntasse mais nada, mas ela perguntou. Claro!

Os Deuses têm sentido de humor, o que posso fazer?... Como não entendi uma palavra do que ela me dissera, com um sorriso respondi "hayır" (Não). Ela disse o preço "yirmidört" (vinte e quatro); eu entreguei duas notas, uma verde e uma laranja. Na volta, ela deu-me uma moeda prateada no centro e dourada no rebordo. Eu agradeci e segui para a loja de roupa. Entrei na primeira que vi e saí num ápice. Ia fazer uma conquista e não ficar de castigo, preso num mundo infinito de cinzentos e castanhos.

Na segunda loja tive mais sorte. A colecção agradou-me. Vi umas peças que gostei. Andei pela loja, qual explorador. Voltei às primeiras peças que vira. Procurei o meu número, que encontrei sem dificuldade, e pensei para mim: "Tenho que experimentar estas três!" Chamei, com um aceno discreto, um jovem que trabalhava na loja. Ele olhou para mim, como quem vê mais um cliente. Eu olhei para ele, como quem vislumbra o Minotauro. E nem estava num labirinto.

Respirei fundo e de repente, os dois segundos que demorei a falar, pareceram duas gerações. Vi Invernos e Verões atravessarem-se perante os meus olhos, enquanto a língua se preparava para dizer a frase que eu vira no tablet: "Soyunma kabini nerede?" (Onde fica o provador?). Ele explicou com palavras, o que eu apenas entendi por via dos gestos. Espreitei o manual e soltei um "Çok naziksiniz" (É muito simpático da sua parte) antes de desaparecer dentro do cúbiculo do provador.

Todas as camisas ficaram perfeitas em tamanho, mas só gostei a sério de uma. Não foi amor à primeira vista, mas gostei de me ver com a segunda camisa. Saí do provador determinado a terminar a saga, com o meu tosão dourado já escolhido. Avancei para a caixa e com determinação na voz perguntei: "Bu ne kadar?" (Quanto custa isto?). O jovem respondeu. Paguei. Saí da loja. E sorri!

As conquistas celebram-se com conquistas. Há um ano atrás eu conquistava o meu Doutoramento, pode dizer-se que conquistava a minha independência académica. Agora conquisto-me a mim mesmo. Desafiando-me passo a passo e, por enquanto, vou superando os desafios. As conquistas celebram-se com conquistas e por isso sei que no próximo 10 de Janeiro terei nova demanda pela frente... Mas até lá há muito ainda para ser conquistado!

Tuesday, January 07, 2014

O "Marie Antoinettismo" ataca de novo...

Nas sociedade hodiernas os meios de comunicação social ocupam um extraordinário espaço de destaque, não apenas pela informação que veiculam/produzem mas também pelas opiniões que são transmitidas. Em Portugal o monopólio das opiniões leva a que sejam quase sempre os mesmos a falar de tudo e que, esses mesmos, incorram em vários lapsos linguae... Para não dizer disparates!

De entre os vários erros, disparates e alarvidades que vou lendo tenho que confessar que sinto uma simpatia por um sub-sector de gente que parece comentar directamente da estratosfera. Um grupinho de gente alheado da realidade quotidiana a que chamo de "Marie Antoinettismo".

A musa inspiradora destes senhores e senhoras é D. Maria Antoinette, esposa de Luís XVI (Rei de França), que ouvindo os clamores do povo que pedia por pão para matar a fome terá dito "não têm pão, que comam brioche". Ou seja, o "Marie Antoinettismo" está próximo do popular "estar com a cabeça na lua", sendo contudo mais dramático!

Pequeno parêntisis para dizer que, em boa verdade, a frase foi injustamente atribuída à monarca. Segundo a historiadora Évelyne Lever, a oração em causa terá sido redigida por Jean-Jacques Rousseau, numa obra publicada em 1741. Ora sabendo que Marie Antoinette só nasceu perto do final do ano de 1755 facilmente se percebe que a Rainha, conhecida primeiro como Madame Escândalo e depois como Madame Déficit, ganhou fama sobre o que não disse...

Mas voltemos aos protagonistas lusos do "Marie Antoinettismo". Já tivemos um Ministro, que deixaria de o sair, que incitou à migração para quem não tinha emprego. Uma espécie de "vá para fora, que não há cá dentro", porque quem governa "cá dentro" não sabe como fazer para haver... Já tivemos um apelo para que se comam menos bifes, vindo de quem coordena uma instituição de solidariedade alimentar. No fundo, no fundo, o português precisa é de fazer dieta... nem que seja à força!

Já tivemos uma sugestão, de um ex-conselheiro do governo, para que que se baixassem os salários urgentemente que isso iria criar emprego. Porque, de facto, os portugueses têm salários elevados, se  comparados com o Burkina Faso, o Turquemenistão e o Sudão do Sul ou a Eritreia. Mas se nos compararmos com os "parceiros europeus" tenderemos a corar de vergonha. Os "Marie Antoinettistas" têm ideias próprias de quem vive no mundo dos gabinetes alcatifados, tal como Marie Antoinette vivia na corte de Versalhes...

A última que li, nas redes sociais, dava conta de que o economista João César das Neves terá dito que "o actual surto de saída de portugueses alivia a taxa de desemprego, promove a situação dos que partem e beneficia os países de destino com excelentes colaboradores. Por outro lado, na era do Skype, e-mail e Facebook, a distância significa muito menos afastamento".

Vamos lá por partes! 1.) Quem considera que a solução de um país passa pelo êxodo da população qualificada rumo ao exterior, ou não pensa no que diz, ou não percebe o que diz, ou está tão entranhado nas suas ideologias-numerológicas que não faz o esforço de pensar para perceber o que diz. É certo que a taxa de desemprego alivia, porque há menos gente a procurar o dito emprego. Mas desde quando é que isso promove a situação dos que ficam?

Se uma árvore tiver quatro maçãs e duas forem levadas pelo vento a hipótese de as outras duas serem escolhidas para, digamos, fazer uma saladinha de fruta é maior? Talvez! Mas e se o cozinheiro quisesse as maçãs que o vento levou, em detrimento das que ficaram? Então não só a árvore perdeu duas maçãs, como a salada de fruta não se faz. Percebe? A saída de uns não implica, necessariamente, a promoção de outros. E eu bem sei que pouco entendo de economia.

2.) Concordo! Se bem que a vaga migratória a que Portugal assiste, é bem diferente da que assistiu nos anos 1960; ou o meu caro acha que vivemos o mesmo fenómeno?. A austeridade e a crise, casal mortal para quem queria apenas sonhar, tem levado a uma verdadeira fuga de cérebros; grupo este no qual, permitam-me a falta de modéstia, me incluo.

O país assiste à debandada de um grupo de jovens altamente qualificados, nos quais o país investiu mais de vinte anos de recursos possibilitando uma boa educação, e no momento do retorno (de colher o que se plantou!) acha-se normal a migração porque os "países de destino ganham excelentes colaboradores"? Os países de destino aplaudem, por certo, mas em que é que isso beneficia o país de origem?

3.) O Skype, o Facebook e o e-mail fazem com a que distância signifique menos afastamento? É uma brincadeira, certo? Por muitos emails que eu escreva, nada substitui o poder olhar nos verdes olhos da minha mãe enquanto ela me dá um beijo de boa noite. Por muitos posts que coloque no facebook, nada substitui as idas ao café no convívio de amigos.

O Skype permite falar e ver aqueles que a incompetência de uma geração de governantes nos roubou, concordo. Mas o Skype não permite tocar; não permite o delicioso contacto da pele com a pele; não permite um sem número de coisas que não vou descrever, porque duvido que entendesse. São coisas sem valor económico; são coisas que não se podem calcular numa bonita tabela de excel, nem demonstrar num gráfico cheio de cores.

Os "Marie Antoinettistas" seriam engraçados, pelos disparates que dizem, não fosse a dimensão do momento que se vive. Num país mergulhado numa crise de expectativas, que se vê abraços com a fuga de uma geração com imenso potencial produtivo, este tipo de comentário-laracha não ajuda em nada. Todos temos direito a ter opinião, mas convinha que essas opiniões fossem menos esparvoadas quando temos perante nós os holofotes dos media... Fica o conselho!


Friday, January 03, 2014

Vitórias, mesmo pequenas, são vitórias...

Hoje decidi que era tempo de dar mais um passinho na minha autonomização em Kırıkkale. Decidi que, ao final de três meses e meio, era tempo de ir fazer compras sozinho. Até aqui aproveitava as idas de colegas, ou de conhecidos, ou de amigos para não ter que falar com quem está na caixa; com que está no balcão da fruta; na peixaria; na padaria... E por aí em diante!

Saí da Faculdade, entrei no dolmuş (mini-autocarro com um nome curioso, já que dolmuş quer dizer "preenchido/cheio") e aproveitei a viagem para fazer a minha mini-lista de compras. Achei que fazia sentido, uma mini-lista, num mini-autocarro, numa mini-viagem de 20 minutos. Tem pouco interesse a lista de compras de um solteiro que passará a noite sozinho, a corrigir exames, mas posso revelar que inclui laranjas e água e gomas...

Saí na paragem que me compete e subi a rua, que me pareceu mais íngrime do que o costume. E, ao vislumbrar o şok (supermercado, cujo nome quer dizer "choque") não segui em frente, como costumo fazer. Parei. Olhei o relógio. Olhei o telemóvel. Atei um sapato. E entrei por fim. Fui bastante eficiente, dirigindo-me às parteleiras com a agilidade de um ninja, que conhece o espaço até de olhos fechados. O difícil, eu sabia, seria o depois...

Vi o rapaz que estava na Caixa de longe. Um homem nos seus cinquenta pagava por dois maços de tabaco e uma embalagem de queijo fresco. As três raparigas que estavam à minha frente, com a imperiosa missão de comprar uma escova dos dentes, foram atendidas em menos de dez segundos. E chegou a minha vez. Simpático, dirigiu-me um hoşgeldin ("bem-vindo") que respondi prontamente com um hoşbulduk (que se pode traduzir como "é um prazer estar aqui").

E depois o rapaz tentou dizer mais qualquer coisa, mas percebi apenas a primeira palavra Abi (tratamento próximo do nosso "O senhor"). Respondi com um türkçe yok ("não falo turco"). O rapaz não acreditou muito. Não acreditou e decidiu, para me punir de fingir ser estrangeiro, não me ajudar a ensacar as coisas. E depois de ter pago, enquanto terminava de arrumar tudo, uma fila com seis pessoas olhava serenamente para mim. Duas senhoras sorriam, olhando para mim como quem olha para uma criança.

Saí do şok bastante encarnado, mais do que os tomates demasiado maduros que me recusei a comprar. No pequeno trajecto que liga o supermercado ao meu prédio, a alsa do saco das laranjas achou por bem, como quem se diverte, romper-se. Imaginei uma cena estilo "Num Bairro Moderno" de Cesário Verde, mas com metade da elegância e o dobro do embaraço. Um português com sacos de compras a perseguir laranjas, não me parece muito poético...

Consegui suster o saco, entrelançando os dedos com mais brio do que uma hera. As escadas foram subidas com calma, que sentia a alça de outro saco dar sinais de querer romper. Abri a porta nem sei bem como, por momento acho que ganhei uma terceira mão. Abri a porta, pousei tudo lentamente no chão, ou quase tudo. A alsa do segundo saco rompeu e as duas garrafas de água cairam com estrondo, mas sem prejuízo. Ainda bem que, no último instante, escolhi as de plástico!

E depois de arrumar tudo senti uma pontada de orgulho, como se tivesse trepado ao Evereste, no pico do Inverno e apenas com roupa interior. Senti uma pontada de orgulho maior do que o feito; mas o feito na sua pequenez é grande. Pelo menos é assim que o vejo. Disse-me uma amiga quando vim para aqui "sai de casa e conquista a cidade, que em breve será tua!" A conquista continua!