Saturday, April 25, 2015

No Dia da Liberdade olho para o Togo

Fazem hoje 41 anos desde que o País rompeu com a II República, o tal Estado Novo que se instalou pelo fracasso avassalador e turbulento da I República (facto histórico muitas vezes minimisado pela Historiografia oficial), para iniciar um novo ciclo republicano, que por estes dias parece tentado a recuperar alguns traços do regime que colapsou nesse dia de Abril de 1974.

Curioso como hoje, quando se celebram os 41 anos de III República, se realizam eleições no Togo que me dizem que valeu a pena essa manhã de Abril em que fomos inteiros. O que falhou não foi a revolução mas a sua consolidação. O que falhou não foi o sonho de Abril, mas a realidade do pós-Novembro de 75 que criou uma série de assimetrias que minaram o regime por dentro.

Mas olho então para o Togo! Portugal foi o primeiro país da Europa a ter relações comerciais com a terra que hoje se chama Togo, mas foi a Alemanha quem colonizou o Togo no pós-Conferência de Berlim. Com a derrota de Berlim na I Guerra Mundial, o Togo passou para administração conjunta de Paris e Londres ao abrigo do regime de protectorados estabelecido pela Liga das Nações,

Em 1956 a parte do Togo sobre administração Britânica votou a sua inclusão no novo país chamado Gana. O Togo sobre administração Francesa tornar-se-ia independente em 1961. E desde então a História política do país tem vivido uma série de peripécias, golpes de estado, eleições tensas e acordos políticos falhados que apenas sedimentaram o poder dos Gnassingbé.

O Togo, como muitos outros países em África, tornou-se uma República Eleitoralista Dinástica na qual a liberdade de expressão, de opinião e de escolha se encontra limitada pelo poder das leis e pela intimidação das armas. O actual Presidente, Faure Gnassingbé, que procura reeleger-se para um terceiro mandato, chegou ao poder em 2005. O seu antecessor? Gnassingbé Eyadéma (seu pai) que governou o Togo entre 1967 e 2005.

O Togo que hoje vai a votos, com uma oposição fragmentada e uma população exaurida pelas dificuldade económicas e pela contínua instabilidade política que apenas beneficia aos que controlam o poder em Lomé (capital do país), mas seria igual se não fosse. O resultado do escrutínio está decidido antes do mesmo ter acontecido. O Togo seguirá o caminho que começou a trilhar em 1961/1967...

É esse mesmo caminho que Portugal, em Abril de 1974, rejeitou. É esse mesmo caminho que, para horror do Fidalgo, alguns parecem devotados a querer fazer voltar. É esse mesmo caminho que não podemos voltar a trilhar e que por isso temos que lembrar. Aos saudosistas dos tempos do orgulhosamente sós o Fidalgo convida a que migrem para o Togo, ou para o Burundi. Aos demais o Fidalgo pede que não se esqueça o sonho de Abril.

Abril não terá fracassado enquanto acreditarmos que podemos transformar Portugal, evitando que sejamos "Togolizados". O 25 de Abril não pode terminar às 23h59! O 25 de Abril (bastião no crer democrático) tem que seguir em frente, com ou sem República por timoneira... Porque podemos fazer Abril sem República, mas isso fica para outro dia!


Wednesday, April 22, 2015

Mensagens frias na Finlândia pós-eleitoral

A Finlândia foi a votos antes dos súbditos de Isabel II lançarem o voto, numa eleição considerada crucial para o futuro não apenas do Reino Unido mas do projecto Europeu. Mas não mudemos de assunto: a Finlândia foi a votos e o resultado foi confuso: a direita perdeu o poder e a esquerda, coligada com a extrema-direita e a mesma direita derrotada, formou governo.

As eleições na Finlândia foram marcadas pelo medo de uma nova crise económica, com o PIB finlandês a cair desde 2012 (embora não de forma tão acentuada como ocorreu em 2008, 2009) e pelas questões da emigração e da integração social dos emigrantes (com especial relevo para os emigrantes da Estónia e da Somália).

A questão da tão falada "Agressão Russa" na Ucrânia foi relativamente marginal durante toda a campanha política. O mesmo não se pode dizer da "Questão Grega" que dominou o debate, com a maioria da opinião pública cada vez menos favorável a que se dispenda mais dinheiro com quem parece não querer pagar e não querer cumprir acordos. A falta de informação isenta, sem enviesamento ideológico, foi uma constante...

Vamos então a números! O Partido do Centro venceu as eleições com 21,1% dos votos conquistando 49 mandatos (num parlamento com 200 lugares) e ficando longe de conseguir qualquer espécie de maioria sem coligação. E coligação no plural porque dois partidos apenas não chegará para alcançar uma maioria governativa estável.

O "True Finns" (Partido dos Verdadeiros Finlandeses) consegue ser segundo no número de mandatos conquistados (38 mandatos), mas apenas terceiro na percentagem de votos com 17,7%. Já a Coligação Nacional (até então no poder) surge em segundo na percentagem de votos (18,2%) mas conquista um mandato a menos do que os "True Finns", ficando-se assim pelos 37 mandatos.

O quarto lugar foi para os Sociais Democratas (centro-esquerda) com 16,5% de votos e 34 mandatos. A Liga Verde (8,5%, 15 mandatos) e a Aliança de Esquerda (7,1%, 12 mandatos) conquistaram os restantes lugares. Um pouco como acontece em Portugal os votos à esquerda pulverizam-se entre várias forças, enquanto os votos à direita se tendem a concentrar.

Com estes resultados é óbvio o que se segue: Juha Sipilä será o Primeiro-Ministro da Finlândia se for capaz de coligar o seu Partido do Centro com o Partido dos Verdadeiros Finlandeses. Ficam assim coligados 87 mandatos ficando-se a 14 mandatos dos 101 deputados precisos para ter maioria no Parlamento da Finlândia. O que fazer?

A aliança com a Liga Verde daria a soma de 102 deputados, uma maioria, por certo, mas relativamente periclitante. A aliança com os Sociais Democratas poderia ser uma opção, mas o discurso de campanha de Antti  Rinne criou não várias vezes faísca com o discurso de Juha Sipilä. Coligações instáveis é tudo o que não se precisa.

Resta chamar ao poder, quem parece que não vai sair do poder. A Coligação Nacional, liderada pelo até então Primeiro-Ministro Alexander Stubb, será a melhor aposta para um tripla-coligação que deterá a lealdade (nem que seja institucional) de 124 dos 200 deputados agora eleitos. A tradição de coligações na Finlândia garantirá o funcionamento do governo mas a chegada ao poder, com força, de partidos como os Verdadeiros Finlandeses devia causar alarme em todos.

Última nota: o que o Fidalgo nota é que ficamos todos em pânico quando a extrema-direita avança na Grécia (como é o caso do fenómeno "Aurora Dourada"), na França (com os acólitos de Le Pen) ou até mesmo na Hungria. Mas quando a mesma extrema-direita avança a Norte (no tal Civilizado Norte) tende-se a aligeirar o discurso.

E a extrema-direita passa a nacionalismo-populista; o discurso retrógado passa a discurso ultraconservador; as políticas anti-emigração passam a proteccionismo e por aí em diante... A Finlândia dá sinais que deviam preocupar a Europa quando ainda faltam muitos outros (da vizinha Dinamarca à mais distante Espanha) irem a votos.


Friday, April 10, 2015

Tendo o Tempo por inimigo...

As notícias de incursões das forças da Daesh contra cidades antigas no Iraque sucedem-se. O património material da humanidade perdido na fúria do extremismo religioso e de quem parece temer algo. A euforia da testosterona não chega para justificar os actos a que temos assistido. Tem que existir uma razão mais profunda que justifique (se possível) os actos de barbárie.

E a razão profunda (sendo simplista!) é uma: luta-se contra o Tempo. Os extremistas que compõem as hostes do Daesh na verdade compreendem uma série de agendas que se auto-excluem e que, caso a Daesh vença os seus intentos primários (firmar-se como entidade soberana no território do Iraque e da Síria) levará a um fenómeno estilo Iémen ou Líbia de todos, contra todos.

Mas neste conglomerado de agendas em competição existe um elemento central que os une: o ódio ao Ocidente? Sim e não. O ódio ao Ocidente existe apenas por ter sido o tal Ocidente a transformar o curso da História. O Fidalgo explica! Apesar de o ensino da História no espaço Euro-ocidental ignorar esse facto, o mundo islâmico compreendeu um espaço de dinamismo civilizacional de excelência entre os séculos XII - XVII.

A Europa mergulhada nas trevas da Idade Média e que teve que esperar pelo Renascimento e pela Reforma e Contra-Reforma para se catapultar para uma nova Era de conhecimento era um espaço notoriamente inferior nos domínios da Filosofia, das Artes e até do Comércio quando comparado com o vibrante mundo islâmico onde Sócrates, Aristóteles e Platão eram debatidos na luz do Islão.

Nomes como Al-Kindi, Al-Ghazali, Al-Farabi, Avicenna e Averroes faziam avançar o pensamento no mundo islâmico com um pujança que a Europa não acompanhava. O espaço islâmico dominava muitas das rotas de comércio, entre as quais a lucrativa rota das especiarias e a rota do ouro Africano. E ao espaço islâmico afluíam centenas de músicos, arquitectos, pintores, escultores. O mundo islâmico vibrava com dinamismo comercial, intelectual e artístico.

A Europa, arreigada nos seus preconceitos e ainda a tremer com a implosão de Roma, lançou-se ao mar, com Portugal por timoneiro, para reconquistar a glória perdida. Cedo a Europa percebeu que precisava olhar de igual para o espaço islâmico, não sendo por acaso que a França estabelece no século XVI uma aliança com o Império Otomano e Portugal, Países Baixos e Espanha mantêm boas relações com vários Sultões.

Mas então como é que a Europa mudou o jogo de forças? Pela força das armas! A pólvora (usada pelos "Estados Beligerantes" no espaço da actual China) aliada ao desenvolvimento da ciência bélica deram aos Europeus a vantagem. No processo achou-se que era missão da Europa cristianizar o mundo e destruiu-se muito da cultura pagã, nativa e até islâmica. A Europa auto-impôs-se como medida para se avaliar o estado de desenvolvimento civilizacional dos outros espaços.

É contra este processo de inversão de forças, negando que a História anda em frente e não para trás (mesmo que seja circular, o círculo desenha-se para frente), que luta o Daesh. É na negação do que aconteceu que se encontra a luta do Daesh. É também na negação da grandeza do passado pré-Islâmico tentando obliterar o facto de a região sempre ter sido foco de dinamismo civilizacional mesmo antes da entrada do Islão.

Daesh não destrói estátuas de incalculável valor cultural mas sim o Tempo. O Tempo que antecedeu a chegada do Islão, e no qual vários Impérios atestam que a magnificência de um povo está menos ligada a factores religiosos do que o Daesh gostaria, e o Tempo que precede à Era da Pólvora e do domínio Euro-ocidental. Daesh quer voltar a um tempo de pureza que, na verdade, nunca existiu...

Quem luta contra o Tempo está condenado a lutar contra o Nada e quem luta contra nada, não perde, não ganha, não empata... Quem luta contra Nada, faz nada. Triste é que no entremeio várias vidas sejam resumidas a nada pelo calor das armas e pelo fulgor de mensagens que dizem defender uma mensagem que, no final de contas, não conhecem...


Sunday, April 05, 2015

Da importância das palavras; ou o Estado que Estado não é!

Tenho me debatido com o facto de se chamar "Estado" a um grupo de extremistas devotado a criar, pelo menos por agora, caos e insegurança. Já me é complicado considerar realidades como a hodierna Somália, Líbia, Síria ou República Centro-Africana como Estados. Torna-se ainda mais ardiloso chamar de "Estado"a uma entidade com noções destorcidas de justiça.

Se o tal grupo de guerrilheiros, com complexos hollywoodescos, se considera um Estado então a Transnístria, a Abkhazia e a Ossétia do Sul seriam o quê? Um Estado desenvolvido? Nesta coisas pode parecer questão de detalhe mas a nomenclatura é importante, afinal enquanto homens somos animais gregários e nominais. As coisas existem quando lhes damos nome...

As duas funções basilares do Estado, recordemos agora, são prover segurança e justiça. Ora o tal Estado Islâmico do Iraque e da Síria (EIIS) não parece devotado a prover qualquer uma destas. Não se erguem Estados para prover insegurança e injustiça, mesmo que o dito "Estado" tenho para si que o que faz é justo (aos olhos de uma estranha concepção de Divino).

Portanto passo de EIIS para Daesh. Participei nos últimos dias numa "Mesa Redonda OTAN & UE" na Estónia e todos plenários e grupos de trabalho paralelos rodaram em torno de três temas: Ciber-defesa e ciber-guerra; crise na Ucrânia e a ameaça do EIIS. Durante as discussões vários delegados mostraram-se relutantes em usar o nome EIIS (ISIS em inglês) e preferiram a expressão Daesh.

O Fidalgo, naturalmente intrigado, começou a pesquisar os porquês de tal recusa e a credibilidade de se mover de EIIS para Daesh. E não é que vários Estados, Estados "à séria", implementaram como política oficial o uso de Daesh e não de EIIS/ISIS! Ficam então novas questão no ar: o que é que significa Daesh e porquê o uso desta expressão e não de outra?

Daesh é usado, pela maioria dos proponentes, com um duplo sentido: 1.) desligitimização da pretensão do tal grupo ser considerado um Estado; 2.) sentido negativo da palavra Daesh que se confunde com outras palavras do Árabe Clássico como Daes "aquele que esmaga algo sobre os seus pés" e Dahes "aquele que semeia discórdia". Parece-me que o que temos visto é mais Daesh e mesmo, bem menos, EIIS.

O Fidalgo tem presente que a desligitimização semiológica, do grupo extremista, ao transitarmos de EIIS para Daesh, não irá fazer o mesmo recuar nos seus esforços, mas é um passo importante. A classificação de Daesh como não-Estado poderá contudo encorajar os Estados "à séria", e os grupos transnacionais em que os mesmos se encontram (como a OTAN), a agir de modo mais musculado e menos errático.

Para o Fidalgo a transição de EIIS para Daesh compreende um momento de clarificação, porque não se pode chamar a Estado quem parece não agir como tal. Afinal se somos tão rigorosos em apontar o dedo a uma Rússia pouco democrática, ou a uma Venezuela populista, ou a uma Coreia ditatorial também temos que o ser com relação a quem se arvora a ser o que não é. Esqueçamos o EIIS e passemos a olhar para Daesh com a emergência e preocupação que Daesh representa.