Monday, January 25, 2016

Notas de um Monárquico (emigrado!) sobre as Presidenciais

Os Portugueses foram ontem a votos para escolher, pela quinta vez, um Chefe de Estado. Como Monárquico, a ver isto fica clarificado, não sou averso a eleições de per se. Sou averso à escolha do Chefe de Estado, mas eleições Parlamentares, Regionais e Locais venham elas. Sou averso à ideia da escolha do Chefe de Estado e mesmo assim voto nas Presidenciais. Em branco, mas voto!

O resultado, sejamos lá sinceros, surpreendou pouco. Marcelo Rebelo de Sousa era desde há muito o candidato super-favorito. Fica por provar, e esse trabalho de escrutínio rigoroso cabe na Academia e não no comentário fast food (a intragável McDonaldização da opinião!), se as eleições foram justas tendo em conta a hiper-exposição do vencedor, face a todos os outros candidatos.

Marcelo Rebelo de Sousa ganhou com 52%, um resultado que é bom sem ser impressionante, até porque algumas sondagens chegaram a dar-lhe bem mais. Marcelo Rebelo de Sousa ganhou há primeira volta é verdade; mas assim como assim só tivemos segunda volta em 1986 na qual se defrontaram Mário Soares (que vence a segunda volta, depois de ficar em segundo na primeira volta) e Freitas do Amaral (que vence a primeira volta, mas perde a segunda).

Uma interessante surpresa o resultado de Sampaio da Nóvoa. Importante ressalvar que o quase anonimato de Sampaio da Nóvoa, desconhecido para a larga maioria dos eleitores, não o impediu de chegar quase aos 23%. Mais, Sampaio da Nóvoa não ficou assim tão longe de forçar uma segunda volta e de obrigar os eleitores a terem que pensar um bocadinho mais em político e menos em mediatismo político...

Outro resultado a ter em conta, o da eurodeputada Marisa Matias que conseguiu levar o BE aos dois dígitos numa eleição presidencial. Não só mostra como o BE se soube reinventar logo que a estranha liderança bicéfala se desfez, como mostrou um enraizamento do BE que por certo fará soar campaínhas de alarme no PCP e, porque não?, no PS.

Resultado medíocre, o de Maria de Belém. Campanha fraca, sem qualquer élan, com uma imagem meio-snobe e meio-pedante que marca a esquerda caviar e com uma completa ausência de criatividade e arrojo. Soma-se a tudo isso uma sobre-confiança na capacidade de atrair o voto feminino e voto jovem e a incapacidade de perceber quando assumir erros e pedir desculpas. O eleitorado viu, não gostou e mostrou cartão (bem!) vermelho.

Resultado igualmente fraco o de Edgar da Silva. Sendo certo que o PCP dificilmente terá um candidato seu presidenciável, é igualmente certo que passar de 7,14% nas Presidenciais de 2011 para 3,95% nas de 2016 prova como o PCP errou no casting. Edgar da Silva é por isso, a par com Maria de Belém (olha que lindo, igualdade de género) um dos grandes derrotados da noite.

Igualmente derrotada saiu a República, incapaz de atrair 50% dos eleitores. Verdade que correram melhores estas eleições do que as Presidenciais de 2011, com um tímido acréscimo de 2.32% (de 46.52% para 48.84%); mas é igualmente verdade que na História da III República eleições com Presidentes em busca de renovação de mandato tendem a ser menos participadas. Logo o acréscimo é pálido, para não dizer quase nulo.

A quem quer ler nos candidatos menos votados um voto de protesto, quer-me parecer que é uma visão um tanto ou quanto rebuscada. E mesmo que seja os tais menos votados todos somados fazem menos de 7%. Fraco protesto, diria eu! Curioso que os candidatos Henrique Neto (0.84%), Jorge Sequeira (0.30%) e Cândido Ferreira (0.23%) têm todos, individualmente, menos votos do que o número de votos em branco (1.24%), ou de votos nulos (0.92%).

A quem achou engraçado fazer graçolas, sem graça, sobre se a Esquerda se iria coligar de novo, o Fidalgo apenas tem a dizer que falta de cultura democrática e de entendimento do funcionamento das diferentes instituições tem o seu limite. A Constituição da República existe para tirar todas as dúvidas. Nas Presidenciais importa quem ganha; nas Legislativas importa quem soma mais mandatos. Conceitos bem diferentes...

Como Monárquico, assumindo a minha parcialidade, vejo nestes mais de 51% de eleitores que não foram votar uma amálgama de fenómenos que vão da apatia política, à preguiça irresponsável, ao descontentamento com os políticos, ou ao desencanto com o regime. Vejo contudo a necessidade do regime se repensar, sobre risco de desaparecer sem perceber como. E não, nem todos precisamos de conspirações e tiros para operar mudanças...

VIVA O REI!

Thursday, January 21, 2016

Moldova em rota de implosão!

A Moldova anda por estes dias no meio de um verdadeiro turbilhão político que parece não ter modo de chegar ao fim. Sejamos claros os protestos populares na Moldova não são novos, mas a intensidade das últimas semanas tem sido factor de surpresa... até para o Fidalgo. Mas então porque está a Moldova a atravessar tão grave crise política?

A política na Moldova encontra-se, desde o começo do século XXI, profundamente dividida entre os partidos pró-Bruxelas e os partidos pró-Moscovo. A cisão política entre dois campos antagónicos não é uma novidade no espaço pós-soviético, grosso modo, ou mesmo na Europa de Leste. O grande problema aqui foram os resultados das últimas eleições parlamentares.

As eleições legislativas na Moldova aconteceram a 30 de Novembro de 2014 e resultaram num verdadeiro equilíbrio entre partidos pró-Moscovo (com o PSRM a conquistar 25 mandatos e o PCRM a conquistar 21 mandatos) e partidos pró-Bruxelas (com os Liberais Democratas a conquistarem 23 mandatos, o partido Democrático 19 mandatos e o Partido Liberal 13 mandatos).

Ora o segundo, quarto e quinto partidos mais votados, porque conseguiram somar mais mandatos (55 mandatos, contra os 46 dos partidos pró-Moscovo) aliaram-se numa coligação governamental pós-eleitoral. É o que o sistema parlamentar, ao contrário do que pensam algumas luminárias lusitanas, não se define por "quem fica em primeiro", mas antes por "quem tem mais mandatos"... Curiosidades, claro está!

Até aqui tudo normal... No momento da eleição Iurie Leancă (Liberal Democrata) era o Primeiro-Ministro, tendo ficado em exercício de funções até finais de Fevereiro de 2015. Sucedeu-lhe Chiril Gaburic (Democrata Liberal) que tomou posse a 18 de Fevereiro de 2015 e se demitiu a 22 de Junho de 2015 após a Procuradoria-Geral abrir uma investigação sobre a falsificação de diplomas escolares do então Primeiro-Ministro.

Durante um mês a Moldova teve uma Primeira-Ministra gestionária: Natalia Gherman. A 30 de Julho de 2015 Valeriu Streleț (Liberal Democrata) foi nomeado interinamente como Primeiro-Ministro, apenas para ser removido por uma moção de censura a 30 de Outubro de 2015. Sucedeu-lhe mais um Primeiro-Ministro gestionário, desta vez vindo do Partido Liberal: Gheorghe Brega.

E eis que a 20 de Janeiro de 2016 foi a vez do Partido Democrático ter o seu "momento ao sol" com a indigitação de mais um Primeiro-Ministro, desta feita Pavel Filip. O problema é que em Outubro o voto de censura a Streleț ocorreu na sequência de um mega-escândalo financeiro que abalou a sociedade do estado mais pobre da Europa. E os populares, especialmente, mas não só, os pró-Moscovo, querem que lhes seja devolvida a palavra. E clamam por eleições.

A Europa da União, sempre tão vocal nestas coisas da democracia, tem estado curiosamente silenciosa. É que isto de ter um governo pró-Bruxelas que poderá ser substituido por um governo pró-Moscovo é meio chato e meio inconveniente. A democracia que fique, só por uns mesinhos, suspensa até que exista uma solução que seja tão democrática como europeísta... Isto se ainda existirem europeístas na Moldova depois deste escândalo.

A Moldova foi forçada hoje a pedir assistência financeira à vizinha Roménia, com a qual partilha uma relação muito tensa, e ao FMI. A Moldova clama por eleições, porque entende que eleições tudo resolvem, mas não as pode ter porque o novo Primeiro-Ministro diz que não se demite e mesmo que as tenha não entende que isso nada resolve, porque não se envidaram esforços para o desenvolvimento de uma cultura democrática.

A Moldova prova que o simplismo eleitoralista e o pastiche Constitucional nada resolve e muito complica. Ora um país dividido pela identidade, com grupos pró-unificação com a Roménia, grupos pró-unificação com a Rússia, grupos separatistas na Transnístria e na Gagauzia e grupos nacionalistas, e afectado, de modo endémico, pela corrupção só poderia estar onde está a Moldova: no limiar da implosão política e do colapso social.

Esta Moldova, "cabeça de cartaz" (juntamente com a igualmente frágil Geórgia) da fracassada Parceria de Leste, mostra como Bruxelas tende a sobre-avaliar o seu élan. Os Moldovares não são pró-Bruxelas mas sim pró-fundos-económicos-estruturais-vindos-de-Bruxelas. Os Moldovares não são pró-Bruxelas mas sim pró-ideia-de-entrar-no-clube-do-primeiro-mundo. E não digo que sejam todos pró-Moscovo mas são mais pró-Rússia do que muitos gostariam de admitir...