Sunday, September 25, 2016

Carta de um irmão distante... ou os 13 aninhos da Maria!

Olá maninha,

Tudo bem por aí? Por aqui o sol ainda brilha. Estão 32º graus na rua e o vento vai fazendo bailar as verdes folhas das árvores que vejo da minha janela. No meu quarto estão 25º graus e harmoniosas composições de Dvorak vão enchendo o meu ouvido. 13 aninhos Maria! Uma idade bonita, para uma princesa ainda mais bonita.

Estás agora naquele momento em que tudo muda e em que parece que és apenas o somatório de muitas negações. Ainda não és adolescente, já não és criança e ainda não és adulta. Não falta muito para que tenhas mais perguntas do que respostas e para que comecem a pedir mais e mais e mais... Escolhe isto; decide aquilo; resolvo aqueloutro.

13 aninhos Maria! Estás naquele momento em que começas a querer experimentar autonomia. Em que queres deixar de ser apenas a irmã ou a filha, para passares a ser a Maria. 13 aninhos Maria! E um mundo de oportunidades por explorar, com esse teu sorriso simpático e com esse olhar muito teu de quem vê o mundo com outras cores.

13 aninhos Maria! O que mais aprecio em ti é a naturalidade da tua originalidade. Essa capacidade muito tua de descobrir beleza no ordinário; de transformar a rotina em extraordinário; de transformar em gargalhada o enfado. Podes até estar na fase das múltiplas negações, mas és em ti criadora de ternura e de universos fantásticos.

Seria de esperar que te escrevesse uma carta com conselhos. Que te falasse dos meus 13 anos e extraísse lições e ilações, mas não o faço. Os 13 anos que hoje celebramos são teus e não meus. O caminho que hoje começa é também teu, que o meu segue outro percurso. 13 aninhos Maria! E mesmo de longe acordei com um sorriso no rosto. O sorriso de quem tem a felicidade de te ter por irmã.

13 aninhos Maria! E quando soprares as velas e pedires um, dois, quatro, sete ou treze desejos, deseja apenas poderes ser Maria. Porque não precisas de mais nada para ser feliz. São 13 aninhos Maria! E amanhã, com os presentes já abertos e já sem mensagens no facebook por ler, irei continuar a celebrar-te aqui de longe. Porque a distância não diminui o amor e a saudade apenas aumenta o carinho!

Feliz aniversário Maria!

Tuesday, September 13, 2016

Um dia a solo ou de como o Kurban Bayramı se tornou Eid al-Adha...

É a quarta vez que estou num país de maioria islâmica aquando do Festival do Sacrifício, ou Eid al-Adha na versão árabe e Kurban Bayramı na versão turca. Durante vários dias os muçulmanos sacrificam cabras, ovelhas, vacas ou camelos (uma novidade que descobri em Carachi) como forma de limpar os pecados e de agradar o Divino.

O Festival do Sacríficio é também uma recriação simbólica do momento em que Abraão se preparava para sacrificar o filho Ismael (ou Isaac [cristão e muçulmanos têm leituras diferentes do filho que foi oferecido em sacrifício]) e o anjo Gabriel, que vira provada a fé de Abraão, interrompe o profeta e faz aparecer um cordeiro que Abraão sacrifíca no lugar do filho...

O Festival do Sacrifício tem ainda uma terceira valência: a caridade. Após o sacrifício do animal, a carne do mesmo deve ser dividida não apenas entre parentes e amigos, mas de modo a que a mesma chegue aos mais pobres que, no resto do ano, não têm acesso à mesma. Limpam-se os pecados, honra-se a memória do patriarca dos monoteísmos e pratica-se caridade...

O Eid al-Adha ou Kurban Bayramı é um dos festivais religiosos muçulmanos mais importantes e, naturalmente, um momento para as famílias se reunirem. O ano passado partilhei desse espírito em casa de uma colega. No ano anterior passara os dias do Festival em casa de amigos, na agora tão distante Kırıkkale. E no ano anterior também me quedara pela Anatólia turca.

São quatro Festivais do Sacrifício seguidos e nunca, como hoje, me senti tão deslocado. Acordei cedo, com a residência num silêncio denso apenas rasgado pelo canto de alguns pássaros empoleirados na minha janela. Desci para o pequeno-almoço. Cruzei-me com um dos rapazes que assegura o funcionamento da residência. Disse-lhe Eid Mubarak ("Que seja um festival santo") e dei-lhe uma nota verde, de 500 rupias paquistanesas. Sorriu-me.

Esperei enquanto preparava a mesa do pequeno-almoço. Na mão direita, no dedo anelar, um anel com pedra negra que comprei na Turquia. Na mão esquerda um livro que trouxe de Portugal, sobre o Portugal do Império; o Portugal de um tempo que já foi, em que o exótico inundava Lisboa. E agora sou eu quem se deixa submergir no exótico, mas Lisboa está tão longe...

Leio sem pressas, a vida de Maria da Esperança (também ela fora do seu mundo!) enquanto almejo pelo pequeno-almoço. A omelete simples e a paratha (pão achatado típico do Sul da Ásia) chegam à mesa. O meu chá de jasmim chega pouco depois. E as compotas de maçã, de framboesa e de morango chegam em último. Não uso nenhuma. Prefiro um pouco de manteiga, antes de comer a omelete. Sozinho.

Termino o pequeno-almoço sem pressas. Sei que tenho colegas no quarto 2 e no quarto 5, mas ninguém quis sair do seu micro-cosmo. Opções... E quedo-me eu, e a Maria da Esperança, no salão da residência. Recusei dois convites para desfrutar da companhia de quem agora se fecha nos seus quartos, qual pérola dentro da ostra. Mas não lamento... O lamento fica para quando errar...

O dia passa sem pressas, sem acontecimentos, sem companhia. Fechado nas paredes do quarto 9 deixo que Borodin e Balakirev me embalem, enquanto leio sobre a Ásia; não a do Sul onde me encontro, mas a Central, que há algum tempo me fascina. O dia passa. Saio um pouco para ir correr. Esticar as pernas. Sentir o vento e o bafo quente de Carachi.

Ouço o azan expelido pelos microfones, colocados no alto dos minaretes, das três mesquitas, que se fazem ouvir na residência. O sol não tardará a pôr-se depois de mais um chamamento à oração. E recolho ao quarto 9. Nunca antes passara o primeiro dia do Festival do Sacrifício apenas comigo. Nunca antes tivera apenas os grafemas que compõem Maria da Esperança por companhia.

E num dia que poderia dar por perdido, sinto que ganhei. É certo que não sacrifiquei um qualquer animal comprado de antemão, mas sacrifiquei o contacto com gente; sacrifiquei convites de colegas (por essa gente que não se deixou contactar); sacrifiquei o meu tempo, por um tempo comum que não aconteceu... E amanhã, estou em crer, farei novo sacrifício...

Monday, September 05, 2016

Caminho e corro ou uma forma de dizer Parabéns

Ainda não são 18h30 quando chego ao quarto 9, da residência a que agora chamo "casa". Poiso a mochila no chão, tiro os sapatos paquistaneses, o relógio português, a pulseira tunisina e o anel turco. Sento-me na poltrona amarela. Amarela como o sol que hoje insistiu em não brilhar, escondendo-se atrás de uma horda de nuvens paquidérmicas. Mas não chove...

Olho para o relógio. Há poucos meses atrás começaria logo a preparar as aulas do dia seguinte, ou a responder a emails que estivessem pendentes, em qualquer uma das quatro contas de email que uso diariamente. Mas não tiro nada da mochila. E o meu computador, que dormita num gavetão, continua a sua sesta.

Troca a camisa azul, com finas listas brancas, por uma t-shirt verde marinha. Troco a calça de sarja, pela calça de fato de treino. Troco o sapato moccasin pelas sapatilhas. Coloco os auriculares, e enquanto desço as escadas deixo que a música comece. Rihanna toma a liderança na playlist. Abro a porta de vidro negro e saio para a rua.

Caminhar. Correr. Caminhar. Correr. Caminhar. Correr. Ainda não posso dizer que é um hábito, que está perto de um certo. Chamemos-lhe um quase-hábito ou uma meia-rotina. E enquanto corro lembro-me que fazes anos. Lembro-me das nossas caminhadas matinais. De como as pernas nos guiavam, mas eram as palavras e os sorrisos o que mais importava.

De como subíamos a encosta que leva a São Lourenço falando ora de política, ora de desporto, ora de desejo e por vezes, quase sempre por minha culpa, de lascívia. De como gostávamos que o vento, que sempre corre em São Lourenço, nos acompanhasse. De como eu sabia que no final do dia estaria a comer um Magnum de amêndoa, mas isso era o que menos importava.

Caminho e corro. E lembro-me como fizemos quilómetros e quilómetros a pé, enfrentando chuva e vento apenas para contrabandear amizade. Ou de como nos treinavas, para te treinares. Ou de como fizémos coreografias e actuações; de como andámos entre festinhas e competições. Lembro-me de como tudo era simples, tão simples, tão serenamente simples...

Caminho e corro. E lembro-me de como éramos três e agora és apenas tu por aí. Apenas tu podes ir dizer ao vento de São Lourenço, o que eu, e a Ana apenas podemos sussurrar de longe. Éramos três, chegámos a ser quatro, mas um país em metamorfose (não sei se para borboleta, ou se para novo estado larval!) achou por bem que nos separássemos.

Mas não é isso que hoje importa. Lembro-me de ti, enquanto corro e caminho. De como ficarás feliz por saber que tento manter o que te disse; que correria, pelo menos, dia sim, dia não; que tentaria mudar hábitos; que resistiria aos desejos do estômago, Lembro-me de ti e como gostarias de dizer que faltou fazer isto, ou fazer aquilo, ou fazer o outro...

E é isso que me faz sorrir. É essa Diana que quero celebrar hoje. A que se preocupa sempre com os que estão por perto. A que quer ver todos felizes e que, não raras vezes, se esqueça ela de ser feliz. A que prefere duas horas apenas de conversa, a meia-hora de selfies e outras tonteiras. É essa Diana que quero celebrar hoje. E amanhã, quando for correr, celebrar-te-ei outra vez. Parabéns Diana!