Tuesday, December 27, 2011

E contemplo-a!

Contemplo-a!

Não tem a beleza plástica, irreal, comercial que alimenta escaparates e faz disparar flashes em cada esquina do mundo; mas tem um requinte natural, uma vida que se propaga pelo seu rosto que encandeia a aurora solar. E por isso, com uma naturalidade pouco natural, contemplo-a, como um fiel perante o altar do seu Deus.

Em cada ruga do seu rosto, acumula já 49, contam-se estórias que não fizeram História, mas que nela se alimentam e que a alimentam a ela, à História dos livros da escola. Em cada riso existem mais lágrimas, do que risos. Mais dor, do que amor. Mais sofrer do que sorrir. Em cada ruga esconde-se a chave do puzzle da sua beleza natural. E contemplo-a!

Os olhos, duas pequenas pradarias verdinhas, percorrem-nos a alma. Enquanto um sorriso, esbatido pelo tempo e pelo ardor de sacrifícios espiralados, nos conforta a alma mas inquieta o espírito. Um sorriso simples, quase desvanecido, que nos sussurra "não se preocupe", quando devia gritar "dói! dói muito! quero ajuda!" E a sua beleza duplica. E contemplo-a.

Dorme. E ao invés dos aforismos e clichés literários não tem o rosto sereno e os cabelos iluminados por raios de prata. Dorme inquieta; num sobressalto seu, que quer conter sem partilhar. Num sobressalto do qual se apossou, pois prefere o egoísmo da dor, à partilha do difícil. E no rosto intranquilo desenham-se contornos de uma beleza que as palavras só diminuem. E contemplo-a!

E nas palavras que saem trémulas... Menos firmes do que a dureza das provações que venceu. As palavras carregam dor, envoltas numa capeline de doçura e candura que nos conforto e nos distrai. Sentimos a sua doçura. Provamos o quente e o mel, ouvindo os fonemas que expele, e não nos preocupamos com o amargo de quem cozinhou as palavras. E contemplo-a!

As lágrimas não secaram, pois a fonte da sua beleza natural ainda brota. Essa fonte que se manifesta em todas as suas células e comuta o vulgar, o banal, o imperceptível, num festival de lustros etéreos e galas frugais onde é Rainha pela simplicidade e genuinidade de cada pequeno gesto. É Imperatriz deste mundo, e quando pensa que o Palácio Solar ruiu, levanta-se um Castelo Lunar. E contemplo-a.

Falo dela mas agradeço-lhe a si! Obrigado por um tudo que não me cabe em palavras!


Sunday, December 25, 2011

Jantar para dois, numa mesa para doze

Foi com um sol vermelho, a mergulhar sobre a serra, que fechei as cortinas da antiga casa senhorial, onde por séculos vivêramos. Aquele era o nicho de uma família de orgulhosas águias, depenadas pela modernidade e pelo canibalismo económico. Restavam as memórias, espalhadas em faustosas molduras cobertas de pó e baças pelo passar lânguido do tempo.

Deixei que o som dos meus passos enchesse o corredor, imaginando o que teria sido o esplendor da casa senhorial, da minha casa senhorial, no seu apogeu. Chegámos a receber Reis de toda a Europa, alguns dos quais governaram reinos que desapareceram nos labirintos da História. E o som dos meus passos vai ecoando, mesmo que caminhe descalço, com a planta dos pés a beijar o macio gélido do mármore, porque evito o calor fofinho das passadeiras azuis.

Desci pela escadaria, onde em tempos as mulheres da casa senhorial, da minha casa senhorial, desciam esplendorosas; verdadeiras Imperatrizes em brilho, bom gosto e elegância. Enquanto desciam pela escadaria ostentavam jóias, lustravam ódios, poliam murmúrios e burburinhos, alimentavam memórias e deixavam que se construíssem estórias que a História não preservaria. E vou descendo.

A lua nova clama pelo domínio dos céus, acompanhada por pequenas pérolas reluzentes. O vento agitará ramos de árvores e dançará no meio das folhas que o jardineiro recolhera durante a tarde. Não sei se é isso que acontece, estou em casa, descendo a escadaria, posso apenas imaginar. Deixar que a imaginação viva o que a mortalidade, a humanidade e ausência de omnipresença me furtam de experimentar. Talvez fosse bom pensar em jantar.

Abro o armário de mogno envelhecido que, para minha desilusão, não chia. Acho chique, literário por certo, ouvir as portas dos armários a chiar, como descrevem nos grandes romances; naqueles que realmente importam. Mas o meu armário não chiou. Sou persona, mas não sou personagem. Rio-me das minhas divagações na hora de pôr a mesa.

Retiro o melhor serviço do armário; debruado a ouro e com motivos florais estilizados pintados à mão por artífices de Hamburgo. Ainda não percebi porque associamos elegância e importado, mas é o que fazemos e não me apetece pensar mais nisso. Retiro os copos de cristal, o serviço de prata, com um fio de ouro de lei (o que será ouro fora-de-lei?), e o jarro mais bonito que tenho. Conto os lugares na mesa: doze. Penso nos comensais: dois.

Não quero comer sozinho, ou entregue apenas a mais uma companhia corpórea. Convido as memórias, as alegrias, as angústias, as agruras, as ternuras, as experiências a sentarem-se à mesa. A viveram num segundo as eras do mundo. Convido-as a ensinarem-me a viver e não a adiar os meus dias. A criar pretextos e contextos especiais, quando o especial é o aqui, o agora, o que importa, o que é real.

Doze lugares, doze cadeiras, doze guardanapos, quarenta e oito pratos, trinta e seis copos, um batalhão de talheres, dois jarros (que o mais bonito apenas não chega) e três jarras com as rosas que ainda restam no jardim. Dois comensais numa mesa para doze, mas apenas eu estou no salão da casa senhorial, da minha casa senhorial. Apenas eu. Eu.


Friday, December 23, 2011

Rasguei-me para ficar inteiro!

E de repente despi-me. Voltei a ser Eu. Caíram as máscaras sociais, os enfeites, os títulos, os nomes, os adjectivos, os feitos e os por fazer. Caíram projectos e objectos. E fiquei Eu! Uno. Humano e, por isso, talvez por isso, pequeno, indefeso. Fiquei despido, sem as roupas que nunca antes vestira, mas que achara que envergara. Vejo-me fora das armadilhas da Convenção.

Via-me numa prateleira dourada, qual Buda sorridente. Via-me a refulgir quando os quentes raios de sol batiam no meu rosto. E percebi que dormia; dormia há muito tempo. E vi-me despido. Não sou Buda no alto da Montanha, mas uma pequena lagarta, no seu pequeno casulo, no fundo de um Abismo, embalada pelos frios raios prateados da lua.

E vi-me inteiro. Senti, com os sentidos todos, e não apenas com a vista e com o som de aplausos e elogios. Deixei de entender discursos, para dominar as palavras que se engasgam na garganta e brotam pelas mãos. Vi-me despido perante um reflexo do que sou e, com franqueza e pequeneza, não me reconheci. Era assim que eu caminhava vestido sem roupas? Vi-me...

Senti-me infinitesimal. Pequeno. Reduzido à minha significância, que um dia terá significado, mas esse dia não será hoje. Senti-me uno, sem as maquilhagens do quotidiano, do mundano, do hábito. Senti-me ser aquilo que sou, ser esse ser desnudo que não se veste, mas se julga coberto por uma manta de ilusões. Vi-me inteiro e completo numa ucronia utópica. Senti-me por segundos.

O murro de ser humano acordou-me; mostrou-me o que interessa a essa larva que dança no seu casulo, na beira de um abismo que desconheço mas onde me conheço. E enquanto metamorfoseio o meu Eu, vou-me vendo, vou-me sentindo, ouvindo, cheirando, tacteando, explorando, desenvolvendo. E a explosão da transformação, do nível seguinte chegará. O momento de rasgar a prata da lua e a trocar pelo ouro do sol virá, mas não sei quando... Nem quero saber...

Rasguei-me em pedacinhos, para me perceber inteiro, unitário, humano. E no meio dos milhões de reflexos, de vidros que estilhacei com as mãos que não tinha, soube que era eu. E percebi que me unificava, solidificava, voltava a ser Eu. Percebi que não andara para trás, mas que finalmente deixara de caminhar com as costas voltadas para a frente da estrada. E aguardo pelo fim da metamorfose, da noite, da prata, do abismo, do Eu que já é Ele...

E se não tiver risos e gargalhadas no Natal? Terei o conforto húmido das lágrimas salgadas e isso mesmo que não baste terá que bastar!


Thursday, December 22, 2011

Somos animais com memória... Mas animais...

Começo o post de hoje por aplaudir o facto do Parlamento ter aprovado uma petição pública que clamava o direito ao Sobreiro ser uma árvore nacional. O modo como o processo decorreu demonstra que o Parlamento funciona, é democrático, sabe ouvir os cidadãos e os eleitores... É pena, todavia, que não seja sempre assim... Mas fica o sublinhado de esperança.

E de Portugal vou para a França, onde hoje, para meu gáudio o parlamento francês aprovou uma lei que reconhece o genocídio dos arménios, nas mãos da Turquia de Ataturk, e que condena quem nega esse mesmo genocídio. A aprovação desta lei é um sinal extraordinariamente positivo, que se soma a uma pequena onda de "reparos" e "emendas" históricas a que temos assistido nas últimas semanas.

A 9 de Novembro o reino dos Países Baixos (vulgo Holanda) pediu desculpas pelo massacre de 1947, na Indonésia (então colónia neerlandesa), que vitimou mais de 150 pessoas. A 11 de Dezembro foi a vez do governo de El Salvador reconhecer os erros do passado, num pedido de desculpas sobre o massacre cometido em 1981, que colheu mais de mil almas, no decurso da guerra civil. E a 15 de Dezembro foi o governo da Guatemala a pedir perdão pelos erros sangrentos, da guerra civil de 1982.

Os pedidos de perdão dos governos e os reconhecimentos da Comunidade Internacional não eliminam o passado tortuoso da História da Humanidade, mas assinalam a existência desses mesmos erros e servem de sinalizadores para que não voltemos a incorrer em erros similares. A Humanidade, a condição Humana, é mais do que uma sopa genética altamente complexa. A Humanidade completa-se por processos mnésicos partilhados e vividos em comunidade.

O reconhecimento de um genocídio, com tantos outros por reconhecer, é um sinal positivo; de que queremos uma memória colectiva vigilante, atenta, capaz de contornar tentações similares em momentos de grande oportunidade. Os genocídios acontecem porque se considera o "Outro" como inferior, dispensável, ou mesmo como infeccioso e nefasto. Os genocídios desmarcaram a civilidade que Mozart, Kandinsky, Brâncusi, Corbusier e Pessoa nos legaram e revelam-nos o nossa essência animal.

Os genocídios são a prova da nossa imperfeição enquanto Ser humano. Somos o único animal que mata dentro da sua própria espécie, não por necessidade mas por convicções, ideias e ideologias. E por isso o reconhecimento francês é importante, para nos lembrar do animal que habita em cada um nós, e que deve ser depurado mas nunca esquecido.

A Turquia reagiu com espalhafato diplomático ao anúncio da votação, como aliás se fazia esperar. Mas a verdade é que sonegar factos, por causa de orgulhos e tricas de velhotas, não ajuda em nada a construção da História Humana. A iniciativa francesa devia estender-se, por exemplo, ao genocídio Circasse (ou Circassiano), cometido pelas mãos dos generais da Rússia Imperial e que negaram a um povo o direito a ter um país e o direito a serem aquilo que são hoje!

O genocídio Circasse (ou Circassiano) merecerá um post futuro para ser explicado, mas não preciso de mais do que umas linhas para dizer que Portugal pode, e deve, ter um papel primordial na luta dos direitos deste povo, espalhado pelo mundo e que apenas quer duas coisas: 1.) que reconheçam a barbárie cometida contra eles no século XIX; 2.) que a Rússia de Putin permita a construção de um estado Circasse, na terra que já foi deles. Afinal, porque têm os portugueses direito a Portugal? E os Circasses não têm direito à Circássia?

E o Fidalgo fica por aqui, por agora, para já...


Wednesday, December 21, 2011

Cultura Democrática, 2nd round!

Eu vou, provavelmente, soar a repetitivo mas não tenho como evitar... Ver os mesmos erros, repetidos vezes sem conta deixa-me aziado e nada melhor do que um blog para extravasar a azia; antes que ela se apodere do meu feitio. E ai sim poderão dizer: Houston We Have Problem!


Publicámos hoje no Observatório de Segurança Humana, pelo terceiro dia consecutivo, notícias sobre a crise política no Iraque. A mesma crise que se agravou com a saída dos norte-americanos de cena, como aponta a imprensa internacional. Duas notas sobre isto: 1.) a saída norte-americana apenas adensou uma crise que se vive, pelo menos desde 2007, e que levou a um complexo processo negocial sobre a Constituição Iraquiana. 2.) a saída norte-americana revela apenas que os iraquianos não estão prontos para o jogo democrático imposto, sem democraticidade, pelos amiguinhos ocidentais.

A verdadeira paranóia democratizante em que caímos no Ocidente, roça o patético. As inúmeras provas que já tivemos de que o sistema não se pode socorrer apenas da parada eleitoral, parecem não abrir os olhos aos dirigentes políticos da cena internacional. Os exemplos de distorção e de efeitos perniciosos são tantos, que confesso a minha estranheza na nossa incapacidade de aceitarmos o óbvio: é necessária cultura democrática, para que a democracia funcione.

Sem a cultura democrática de que falo exemplos como uma República Democrática do Congo com dois presidentes, ou uma Papua Nova Guiné com dois Primeiros-Ministros irão apenas replicar-se. Sem cultura democrática, entende-se que a parada eleitoral na Costa do Marfim (que durante sete meses também teve dois presidentes) tenha tido uma taxa de participação anormalmente baixa, no sufrágio legislativo que confirmou o partido do Alassane Outtara como grande vencedor.

Sem cultura democrática continuaremos a ver o Egipto a mergulhar em violência nos "intervalos" entre as várias rondas de votação que só terminarão a 11 de Janeiro. Sem cultura democrática fenómenos como os da última ronda eleitoral legislativa na Federação da Rússia, ou como a tensão ainda visível na sociedade tunisina, não serão aplacados.

Sem cultura democrática, a Bósnia-Herzgovina continuará a viver um impasse político que os líderes europeus, para meu espanto e desespero, continuam a ignorar. É importante preocupar-nos com o que se passa no mundo, mas seria determinante mostrar capacidade de "arrumar" a casa... E a Europa dos Balcãs, da Ucrânia, da Bielorrússia e do Cáucaso continua longe de estar arrumada!

E tudo isto se resolve com duas palavras: cultura democrática!!! O que garantiu a transição, mesmo assim pouco pacífica, da Monarquia para a I República foi a vida parlamentar e o sistema de sufrágio (limitado por certo, mas existente) que foi preparando a populaça para o que vinha por aí (embora eu continue a achar que a Monarquia Parlamentar e Constitucional é uma solução mais à altura do País).

E o Fidalgo fica-se hoje por aqui!


Monday, December 19, 2011

Coreia do Norte? E se for antes CP?

Com a morte de Kim Jong-il era expectável que o blog de um doutorando de Relações Internacionais se delongasse numa análise do reinado do Querido Líder e nas perspectivas da sucessão... Mas não é de todo o que vai acontecer... Primeiro porque não sou especialista em política da Coreia do Norte, quanto muito um curioso informado. Segundo porque não me apetece! E o blog é meu!

Como amanhã vou andar de comboio, antecipo-me e comento já o anúncio de mais uma greve da CP. Na verdade os anúncios de greve da CP deixaram de ser notícia, de causar impacto, de tão banalizados que estão. E, senhores sindicalistas, o pior que pode acontecer a uma greve é torná-la banal. Seria o mesmo que largar uma bomba atómica e, no final, a explosão limitar-se a rachar apenas duas pedritas e não a dizimar uma cidade inteira.

As greves da CP, este ano vão para cima de cinco, tornaram-se um habitué; do mesmo modo que o mau gosto é um habitué em Cristiano Ronaldo; ou do mesmo que as telenovelas são um habitué das televisões privadas em Portugal. As greves da CP paralisam cada vez menos Lisboa e o Porto (as cidades mais afectadas pelas greves), porque já todos nós temos planos alternativos. Todos nós sabemos o que fazer em dia de greve...

Pior! Com as greves da CP, constantes e irritantes, muita gente descobriu transportes alternativos e a CP arrisca-se a perder clientes, que é como quem diz receitas e assim o tal "corte" lá terá mesmo que acontecer. Mas claro que o senhor sindicalista já pensou nisso, certo? Com as greves da CP, mais regulares do que a chuva no Inverno, muita gente redescobriu o prazer de ter carro particular. E o trabalho que a CP teve a dizer "não use o carro, estamos aqui para si" foi pelo ralo...

As greves da CP revelam ainda um país de egoísmos gritantes, onde todos (ou a larga maioria) concordamos que é preciso cortar, mas achamos sempre que o corte no outro é que era... Ora na CP, ao que sei, os ordenados são bem acima de quem vive com rendimentos mínimos e portanto do que se queixam? Estão a trabalhar, não são mal pagos (e eu tive um avô na CP, sei o que digo!) e ainda refilam por ninharias??? E começar a assumir que no quadro actual até nem estão mal???

É por estas que não consigo gostar de sindicalistas. Sindicatos, enquanto ideia e conceito, é algo que me apraz muito; mas os profissionais dos Sindicatos, que nem são capazes de maquilhar o Vermelho que defendem, arruínam aquilo que é um conceito virtuoso. Os nossos Sindicatos mostram-se tão autistas e tão prepotentes quanto o Governo que tanto criticam.

Sei que é utópico, mas quem sabe o Pai Natal ajuda-me, adoraria ver a greve da CP desconvocada. Nem precisam de dar uma justificativa para o cancelamento da greve, podem mesmo inventar qualquer coisa... Sei lá, digam que é em homenagem à vitória do Fado como Património da Humanidade da UNESCO. Era interessante ver a Greve e o Sindicato imbuídos de uma nova dignidade, que os liberte da parolândia onde têm andado.

Fica o conselho/sugestão/desejo do Fidalgo!


Friday, December 16, 2011

Será uma questão de perspectiva? Ou simples cinismo?

A notícia que motiva o post de hoje, dá azo a que pense que chegámos ao momento da consumação das previsões de George Orwell, com o seu "1984". O autor falhou na data, mas a verdade é que o Big Brother que tudo vê (faz algum tempo) e, agora, tudo castiga nasceu ontem nos Estados Unidos da América. Ainda não me decidi se estou em choque, se estou em pânico.

Os EUA aprovaram uma proposta de lei que permite, por ordem presidencial, a detenção por tempo indefinido de pessoas sobre as quais recaiam fortes suspeitas de terrorismo. A lei, que carece agora da assinatura de Obama (o mesmo Presidente que fechou, para logo depois reabrir Guantanamo), dá ao presidente da Democracia timoneira do mundo Ocidental um poder imenso, ambíguo e perigoso.

Mais do que comentar a proposta de lei, que muito tem para ser dito, acho extraordinários os comentários de certos analistas políticos e de certos juristas, tanto em Portugal como lá fora. Dizem, alguns, que a medida se justifica pela "guerra ao terror". Dizem, alguns, que a medida consolida a estratégia Bush, mostrando que Obama não representou o corte que prometera na campanha, mas antes a sedimentação da estratégia que criticara pelo país fora.

E eis que penso... Uma medida igual aprovada por Alexander Lukashenko (Bielorrússia), por  Kim-Jong Il (Coreia do Norte), por Gurbanguly Berdimuhammedow (Turquemenistão), por Yoweri Museveni (Uganda), por Hugo Chavez (Venezuela) ou mesmo por Vladimir Putin (Federação da Rússia) seria considerada uma confirmação de uma tendência autocrática, autoritária ou totalitária. Seria uma grave ofensa aos países Ocidentais (e Ocidentalizados) de génese Democrática, que entendem ser este o único sistema viável no mundo...

Acho curioso como as perspectivas se alteram quando falamos dos Estados Unidos da América. De como encaramos como normal o parada infindável de check-ins e controlos feitos nos aeroportos do quintal de Obama. E de como reagimos mal, ao mesmo aparato no Irão ou na Federação da Rússia. Parece-me que a perspectiva encapota em si cinismo e na sua pior espécie: cinismo ignorante.

Urge tentar minimizar a lógica de um mundo com vários pesos, fazendo-se depender a análise da conjuntura nacional, regional e internacional mais do capital político e do crescimento económico do que da veracidade dos factos. Só um cinismo cobarde, disfarçado na capa da "perspectiva, justifica que a Angola tenha passado de mau exemplo para os transitólogos, para uma espécie de Meca de algumas correntes económicas e políticas.

Acho curioso, só a título de exemplo, que a Índia tenha assumido a desfuncionalidade do seu sistema político central (lembremos que a Índia é uma Federação, com governos regionais), mas que o Ocidente se tenha preocupado mais com a prisão do norte-americano que ofendeu o Rei da Tailândia, que de facto  merece respeito como figura de Estado que é (os bloggers devem entender que existem limites ao que se escreve e cada post publicado acarreta uma possível consequência).

Acho curioso que a violência na Síria e no Bahrain sejam condenadas pela Comunidade Internacional (e ainda bem que assim o é), mas que a violência promovida pelo estado de Israel (verdadeiro protectorado norte-americano) contra o projecto de estado Palestiniano (hoje reconhecido pela Islândia) seja perdoada. Acho intrigante as constantes (e legítimas) acusações de corrupção endémica aos estados da Sérvia e da Macedónia, mas a vista grossa feita ao Kosovo (outro protectorado norte-americano; aliás quase colónia).

Este tipo de fenómenos, que justificamos pelo uso da expressão "é uma questão de perspectiva", parecem-me estar mais próximos de um cinismo latente, do que de um posicionamento isento de estereótipos e de arquétipos mentais. E não digo com isto, que não caio no mesmo erro de quando em vez; caio, mas assumo o erro e tendo mudar. Fica o desafio do Fidalgo para que faça o mesmo.


Thursday, December 15, 2011

Hoje é dia de criticar para sugerir!

Começo o post de hoje puxando dos meus galões, para os invalidar logo em seguida... Tenho um Bacharelato (esse grau que Bolonha canibalizou, mas que tem provado fazer muita falta) e uma Licenciatura em Comunicação Social e mesmo assim tenho tido inúmeras dificuldades em compreender o comportamento da imprensa portuguesa nos últimos meses. E não gosto muito, do que pouco que vou lendo nas entrelinhas...

É "tendencial", em Portugal, que as redacções dos jornais se inclinem mais para apoio a partidos de Esquerda e, portanto, sejam um pouco mais vigilantes a governos de Direita (ainda não estou a criticar, mas a observar apenas!). Mas uma coisa é ser vigilante, outra, muito diferente, é inventar para pressionar; inventar com agendas próprias e muito dúbias! E não me digam que não acontece, que eu trabalhei numa redacção onde tal acontecia e descaradamente.

Faz-me confusão que, nas últimas semanas, quem esteve atento, viu mais vezes os Ministros e Secretários de Estado a desmentirem notícias, do que a inventarem discursos ardilosos, cheios de artifícios retóricos que nos "prendem" num labirinto de sentidos sem sentido. A última dessas "ondas" tem sido em relação às taxas moderadoras...

Primeiro fez-se publicar que os aumentos iam disparar para os 10€ e o Ministro da Saúde (que como já disse não me inspira grande confiança!) lá veio dizer que o aumento não estava sequer decidido. E hoje vejo num jornal que a troika terá dito (se é que disse mesmo!) que os aumentos das taxas moderadoras deviam ser ainda maiores... Ora usar a troika como desculpa para os erros jornalísticos parece-me não só infantil, como patético. Mas claro que posso estar a ser injusto, e as minhas desculpas se for o caso!

Vejo por isso com bons olhos a prática norte-americana de se "assumirem" as ideologias dos meios de comunicação social, evitando-se assim injustiças e suprimindo-se alguma falta de ética. Em Portugal, num momento específico, a Rádio Renascença fez o mesmo, assumindo a sua posição editorial num tema fracturante (Referendo para Descriminalização do Aborto). A prática, sugiro eu, deveria ser seguida e replicada o mais possível.

A assumpção de que os meios de comunicação são 100% imparciais, rigorosos, criteriosos, objectivos e tudo o mais é tão desejável quanto utópica. Os jornalistas são seres humanos e como seres humanos (mesmo que vestindo a máscara profissional) tendem a posicionar-se, a enquadrar-se, a "arrumar-se" em certos compartimentos, rejeitando, ou desvalorizando as outras prateleiras possíveis.

E, por isso, quer-me parecer que seria mais justo para o leitor, e também para o jornalista, trabalhar numa redacção que assumisse a sua genética editorial, o seu arrumo ideológico, ou invés de se maquilhar tudo com pó de arroz de má qualidade! Fica a sugestão do Fidalgo.


Wednesday, December 14, 2011

A um Parlamento (para meu lamento) Europeu...

Tive que me rir quando li hoje, em vários meios de comunicação social, que o Parlamento Europeu defende a repetição das eleições legislativas na Rússia. Não querendo, para já, comentar a natureza da decisão, acho o seu timing revelador de um cinismo político extraordinário e, pior ainda, revelador de um "andar a reboque" dos interesses de terceiros... Porque tenho poucas dúvidas do dedo norte-americano nesta tomada de posição.

O mesmo Parlamento Europeu demorou tempo, muito tempo, a intervir na guerra Russo-Georgiana de 2008, por saber da complexidade da questão e da culpabilidade georgiana (e não desculpo, com isto, a actuação russa). O mesmo Parlamento Europeu demorou ainda mais tempo a reagir, apenas a reagir, ao que acontecia na Costa do Marfim. O mesmo Parlamento Europeu que não soube reagir, no seu tempo certo, aos tumultos na Bielorrússia.

Poucos comentadores querem dizê-lo, mas a verdade é que a Guerra Fria, que se presumia acabada, está numa fase Morna. A Rússia apontou o dedo aos EUA como "instigadores" das manifestações que varreram as maiores cidades da Federação de Putin. Os EUA voltam a acusar a Rússia de falta de democracia... O mais incrível é que o ano passado, em Lisboa, em Novembro, estes dois países assinavam um "Acordo Histórico" de cooperação NATO - Rússia!

E agora?

Depois dos flashes, das manchetes, dos abraços, dos acepipes, resta muito pouco! O "Acordo Histórico" está congelado, registando progressos tímidos. A Rússia, no pós-acordo, acelerou a transformação das suas Forças Armadas, com uma redução do número de efectivos e uma profissionalização das suas tropas. Do lado dos EUA a política de defesa atravessa uma fase confusa... E isto para ser simpático...

Os EUA falharam no Iraque (onde falar de democracia está entre o idealismo e a fantasia, pendendo mais para a segunda), sabem que estão a falhar no Afeganistão (ainda recentemente Hamid Karzai acusou as forças estrangeiras, as norte-americanas em específico, de serem as responsáveis maiores pela corrupção que grassa no país), sabem que a intervenção na Líbia foi tardia e desastrosa (já que agora todas as facções e grupos tribais estão armados até aos dentes)...

E no meio de todo o marasmo em que mergulhou o Líder do Ocidente, que precisa arrumar a casa onde os Occupy se vão tornando mais interventivos e mais resilientes, vai-se entretendo o resto do mundo com uma pseudo-vigilância  à democracia na Rússia??? É essa mesmo a prioridade dos EUA e, por arrasto, do Parlamento Europeu? Não teremos uma Síria ou uma Somália com que nos preocupar? Não teremos um Congo ou umas Filipinas onde a acção, a condenação, a monitorização são mais relevantes?

O Parlamento Europeu, na minha singela opinião, devia preocupar-se mais em olhar para dentro; em reformar-se, tornar-se mais pro-activo, mais próximo dos cidadãos europeus e menos enclausurado na sua cidadela de vidro e metal. O Parlamento Europeu devia condenar, isso sim, a actuação das agências de rating! O Parlamento Europeu devia "parlamentar" a vida europeu e não emitir comunicados para-lamentar sobre a vida internacional...

Mas se calhar sou eu, o que é altamente provável, quem está a exigir demais, de um Parlamento obeso, quase paralítico e tendencialmente autista, que só pode fazer de menos...


Tuesday, December 13, 2011

Sim já sei, são todos incompetentes... E se não for assim?

Este é um daqueles posts perigosos, que irá dividir opiniões e que pode gerar mesmo algum desconforto em alguns dos leitores e, portanto, um dos que mais prazer me vai dar a escrever. Comecemos pelo posicionamento (tão importante a quem trabalha na e para a Academia): não votei nos deputados parlamentares que geraram capital político para a formação do actual governo (votei em branco, que na altura me pareceu a mais acertada das escolhas).

Dito isto, confesso que ando a ficar sem paciência para a conversa do "Se é político é incompetente"... Quer-me parecer que o nexo de causalidade (político logo incompetente) é perigoso, pernicioso, populista e, no fim de contas, desnecessário. É óbvio que há políticos incompetentes, mas não me digam que nas outras profissões não encontra os menos profícuos?

A converseta de café não leva a lado nenhum! Dizer que "eles são todos iguais", "fazem todos o mesmo", "são todos incompetentes" serve de catarse, para os espíritos menos exigentes, e pouco mais... Não digo que se faça vénia ao actual Executivo, não vamos a tanto, mas gostava que se fizessem comentários mais justos, menos pré-formatados e menos preconceituosos.

Acho escandaloso que se aumentem, por exemplo, as taxas moderadoras, mas isso é o que dá ter um Ministro que é apenas um Gestor e ao qual faltam competências para compreender a complexidade e as sensibilidades próprias dos profissionais da Saúde. Sabe quem me conhece que este foi o único Ministro que, desde a sua nomeação, me deixou reservas e, infelizmente, só confirma o que achava dele... Não devia estar na tutela do Ministério da Saúde; e a sua substituição seria mais do que apropriada.

Mas, por exemplo, acho interessante algum do trabalho de Nuno Crato, com a truculenta pasta da educação. Aumentar a carga lectiva de Língua Portuguesa, Matemática, Físico-Química, História, Ciências Naturais e Geografia e suprimir Área de Projecto (uma aberração!!!), Estudo Acompanhado (uma inutilidade!!!) e Formação Cívica (seja lá o que isto for!!!) são sinais de uma revitalização curricular interessante e que merece, para já, o meu voto de confiança.

Antecipar as Tecnologias da Informação e Comunicação para o 2º ciclo e repensar a Educação Visual e Tecnológica também me merecem um voto de confiança, que estou disposto a dar ao Sr. Ministro. A somar-se a isto uma concentração dos currículos no 12º ano para quatro cadeiras apenas, que permitirão uma melhor gestão do tempo e eliminarão desculpas para maus resultados. E portanto parece-me, mas posso ser eu, que há quem esteja a fazer bem o seu trabalho!

Gostava, claro, que se investisse mais no sector da Investigação, que eu não tivesse apenas "meia-ideia" sobre o meu futuro profissional; sobre o que me vai acontecer no final do Doutoramento. Mas tenho a honestidade intelectual para admitir que as reformas começam na base, tal como as casas não se começam a construir pelos telhados... Mas pode ser que venham boas novas por aí!

E para já fico-me por aqui...

Monday, December 12, 2011

Já vi este filme e não gostei...

As notícias têm sido muito claras, a marcha eleitoralista falhou na República Democrática Congo (estado cujo o nome é aliás de uma ironia suprema). Realizaram-se eleições que não cumpriram os requisitos mínimos estabelecidos pela Comunidade Internacional para um sufrágio "transparente". E obviamente que os resultados, que beneficiam o Presidente Kabila, desagradam à oposição que veio para as ruas...

A violência não se fez esperar e o Congo, que no seu nome se assume Democrático mas na sua prática está longe de o ser, mergulhou num espiral de tensão que pode degenerar em confrontos violentos ou, e não será exagero dizê-lo, em guerra civil. Relembra-me tudo isto o que ocorreu na Costa do Marfim, o ano passado, quando o processo eleitoral presidencial degenerou numa guerra civil entre os dois candidatos (Ouattara e Alassane).

Com o fim da guerra, Alassane, que granjeou mais apoios na Comunidade Internacional, manteve-se na frente dos destinos do país e viu-se obrigado a criar uma Comissão de Reconciliação, como forma de evitar a implosão social de um país que é, em boa parte, uma ficção do colonialismo europeu. A violência dos actos foi tal que no acto eleitoral legislativo que hoje se desenrola a participação registada é baixa. Medo de um remake indesejado? Ou acalmia antes da nova intempérie?

O Congo, que se diz Democrático, acaba por parecer-me a imagem plasmada deste mesmo problema... E não são estes os únicos estados que provam, preto no branco, que entender democracia apenas como um sistema que se apoia em eleições sistemáticas não só deturpa o sistema, como o fragiliza. Democracia é um regime político que se deve alicerçar em valores multidimensionais abrangentes e inclusivos.

As eleições no Congo, e as suas consequências, provam, uma vez mais, que é tempo de se repensar África. É hora de se olhar para as fronteiras de África e ter a coragem política para redimensionar estados, eliminar estados, construir estados, fundir estados, cindir estados. Fazer o que for preciso para trazer sanidade, a uma situação mantida pela insanidade das elites políticas locais e pela "cegueira selectiva" da comunidade internacional.

É tempo de corrigir erros, ao invés do eterno jogo de "apontar o dedo"! SIM, a culpa do mapa político africano é europeia, é da Conferência de Berlim. Mas a verdade é que os líderes políticos africanos não foram capazes de chegar a consensos e de desfazer alguns desses erros, empurrando com as suas barrigas os problemas para a frente; para um próximo que há-de vir. E mais verdade ainda, que esta mania de culpar A, que culpa B, que se descarta em C, que aponta o dedo a D, não resolve problema nenhum.

A Academia tem aqui um papel crucial para revitalizar conceitos, construir novos modelos de análise e reflectir no desenho de novos mecanismos de actuação política adaptados às exigências do século XXI e aos ambiciosos compromissos internacionais que se vão assinando (Acordo de Durban, Declaração de Busan, Objectivos do Milénio). Ou queremos continuar a assinar, por assinar? A assinar por uma fotografia, uns aplausos e uma jantarada?

Fica o repto...


Sunday, December 11, 2011

Mais uma Aula Aberta no ISCSP!


Depois da aula da última terça-feira sobre "Etno-nacionalismo e Cáucaso Norte" segue-se amanhã mais uma Aula Aberta no âmbito da unidade curricular de Espaço Pós-Soviético, ministrada pelo Professor Doutor Marcos Farias Ferreira, no Mestrado em Relações Internacionais do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) em Lisboa.

O tema da aula de 12 de Dezembro será "A parada transitológica no Cáucaso Sul". O modo como se processaram as transições na Arménia, na Geórgia e no Azerbaijão, bem como um olhar para a Ossétia do Sul, Abkhazia, Adjaria e Nagorno-Karabakh (ainda não sei se irei mencionar o Nakichevan) serão os temas centrair abordados. A aula decorrerá das 20h às 22h na sala 9 do piso 2.

Friday, December 09, 2011

E agora? Somos 27? Ou somos 26 + 1?

E a Cimeira Europeia acabou e a grande manchete, que correu mundo, foi o facto do Reino Unido ter ficado de fora do pacto alcançado. Foi o facto de o Reino Unido ter bloqueado uma alteração do Tratado de Lisboa, que crie esse mecanismo de sanções automáticas a quem ultrapassar não conseguir respeitar as metas estabelecidas para o endividamento público.

Na verdade, ontem à noite, no final da Cimeira, eram dois os países a bloquear a revisão do Tratado de Lisboa (que basicamente lança as bases para um federalismo económico europeu). A Hungria (que está em negociações para um resgate com o FMI) só hoje de manhã alterou a sua posição, deixando as terras de Sua Majestade Isabel II num isolamento que, quer-me parecer, irá marcar a vida política europeia nos próximos tempos.

A posição do Reino Unido revela, em primeiro lugar, uma extraordinária incapacidade negocial de Cameron e uma prepotência intelectual, que não são novidade de há uns meses para cá. O Reino Unido, em boa verdade, nunca foi um país-membro da União Europeia, pelo menos não como os demais. O perverso mecanismo de switch-off, faz com que os súbditos da Isabelinha oram sejam da União, ora sejam apenas do Reino... E os políticos britânicos pulam assim desde sempre, dependendo dos interesses na sua agenda.

A posição do Reino Unido revela, contudo, uma vontade de defender a soberania nacional, que deve ser motivo de reflexão (Qual o mal de se querer preservar o poder de decisão de um país?). Demonstra uma necessidade de se aprofundarem debates sobre o projecto Federal Europeu e desvela algo interessante, que é tempo de se começarem a fazer escolhas: o continente optou por um caminho de reformas... A ilha optou por outro e isso, meus caros, terá as suas consequências.

No meio de tudo isto, pode não parecer, mas fico um bocadinho contente com a teimosia do Reino Unido. A verdade é que não concordo que se altere o Tratado de Lisboa, pelo menos não sem uma consulta popular. Normalmente tenho medo de referendos; seja pelo modo simplista e pobre como se desenham as campanhas, seja pela histórica não-participação dos cidadãos. Mas qualquer alteração ao Tratado de Lisboa deverá sempre ser sujeita ao escrutínio popular, pois nenhum governo foi mandatado para tal no seu programa eleitoral.

É notório o pânico europeu de cada vez que se diz o lexema Referendo, mas quer-me parecer que uma elite política (e burocrática) que teme os seus cidadãos tem pouco de democrática. Não que as maiorias tenham sempre razão, mas enquanto não criarmos um sistema melhor terão que ser essas maiorias a dar o seu parecer nos grandes assuntos da vida Comunitária Europeia.

Uma nota apenas naquilo que foi acordado: fico a pensar se o mecanismo de sanções automáticas irá mesmo funcionar para todos, de igual modo. Irá uma França, que inúmeras vezes desrespeitou o Pacto de Estabilidade, ser sancionada com a mesma celeridade com que se castigará uma Grécia ou uma Hungria? Ou iremos ter uma Europa a três velocidades? Os intocáveis, os castigáveis e o Reino Unido?

Confesso-me curioso pelos próximos capítulos da euronovela...

Thursday, December 08, 2011

Se a Decepção fosse um país seria europeia!

Estou surpreso com o que acabo de ler... Para não dizer nada pior... Uma pessoa passa o dia inteiro de volta da tese, tentando conceptualizar ontologicamente o espaço pós-soviético, e quando se liga à Internet para ler umas notícias o que vê? Mais um murro no estômago frágil do projecto europeu. Altura de fazer a pergunta: queremos ou não queremos esta Europa? (Só para alertar que não tenciono responder a esta pergunta... É mais um brain teaser do que uma introdução para uma resposta)

Fico espantado quando vejo o Banco Central Europeu a excluir-se de ter uma atitude mais interventiva no solucionamento da crise das dívidas soberanas na Europa. É extraordinária a falta de coerência dos Senhores do Euro, que tanta clamam aos líderes políticos por consensos alargados, por planos arrojados, por medidas austeras, por soluções criativas e quando chega a vez de se dar um passo em frente, mostrar-se que o caminho faz-se caminhando, qual a reacção? Decidir que não se dá passo nenhum!

E eu que até estava contente com o BCE, quando este se decidiu (finalmente) a levantar um inquérito ao comportamento das agências de rating. Não que seja suspeito um grupo de agências de rating, sediadas em Nova Iorque, estarem constantemente a baixar "as notas" de países do espaço euro (a moeda que desde que nasceu provou ser cambialmente mais forte do que o dólar), bem como a países que possam vir a entrar no espaço euro (se este sobreviver claro!).

Quem poderia duvidar da ética de quem comanda as agências de rating? Ninguém acredita que tenham uma agenda política... É tudo boa gente, certo? Adiante! O BCE marca pontos com a iniciativa do inquérito, para logo a seguir voltar à "zombie land" onde se passeia meio-morto, meio-vivo, marcando passo e decidindo como adiar decisões. O BCE parece-me não quer intervir mais, pois tem medo de irritar a autocrata Merkel, que neste dias dá por si a imaginar-se uma descendente de Bonaparte!

O BCE recua perante o eixo franco-germânico como Durão Barroso fez, quando deixou cair as eurobonds que tanto defendia. Não que eu tenha entendido o funcionamento das eurobonds (acho que ficámos todos praticamente só a saber o nome!), mas o facto de irritarem a D. Merkel fazia-me tão feliz. E puf! lá se vai a minha alegria. No meio de tanta insanidade e, para meu total espanto, tenho que admitir que Sarkozy tem razão quando adverte para os riscos da desintegração europeia.

E eu que adoro o projecto europeu, admiro tudo o que conseguimos com ele e as suas múltiplas virtudes (e não estou a ser irónico, para sermos claros) tenho duas coisas a dizer sobre isso: 1.) o discurso catastrofista é uma recorrente no linguajar do politiquês, mas não nos leva a lado nenhum... Se não tivéssemos a Constituição a UE morreria... Não tivemos. Não morreu! Se não ajudássemos os USA (que agora nos mordem na mão) com a sua crise do sub-prime a UE implodiria. Ajudámos. Muito está ainda por resolver. A Europa não implodiu. E a lista continua...

2.) Usar ameaças de desintegração para dissuadir a oposição (que se sabe ser, pelo menos, britânica, finlandesa e irlandesa) é de tão baixo nível, que se torna complicado comentar. Não devemos temer as ideias discordantes das nossas, meu caro pajem gaulês. Devemos sim ouvir essas ideias, tentar perceber o prisma funcional dessas ideias e no final chegar a consensos e a compromissos; é isso que se faz numa verdadeira comunidade... Ou a vulgarizada expressão Comunidade Europeia é mais um floreado literário, do que uma realidade palpável?

E por aqui me fico hoje... O Fidalgo continuará atento...

Wednesday, December 07, 2011

Sobre a falta de democraticidade da Democracia

Faz-me alguma confusão a arrogância do Ocidente Civilizado, do qual tenho noção fazer parte, em relação ao resto do mundo. Faz-me confusão, logo à partida, a ideia petulante de que o Ocidente é Civilizado, como se tudo o resto fosse composto por um mar de Aprendizes e de Bárbaros! Precisamos tanto de voltar a olhar para nós mesmos, garanto que muito boa gente irá corar de vergonha...

Uma das coisas que marca o Ocidente Civilizado é a generalização dos sistemas políticos de tipo democrático, em detrimento de outros tipos. Por evolução, revolução ou convulsão fomos homogeneizando regimes e "caindo" no saco das democracias. A Democracia do Ocidente segue as marcas da teoria de Schumpeter que (no core dos seus escritos) reduz a Democracia à parada eleitoralista. Votou? Boa, vive em democracia.

A incapacidade de entender a Democracia no seu sentido mais lato é, digo eu, a causa pela qual cada vez mais cidadãos, do dito Ocidente Civilizado, desconfiam do sistema político que se diz governado por eles, para eles e com eles. Democracia deverá ser um sistema político de base comportamental, no qual a parada eleitoral não é um pilar estruturante do sistema, sendo todavia condição fundamental para o seu funcionamento. (Um dia partilharei o que escrevi num artigo científico, apresentado na Finlândia, sobre a necessidade de remodelarmos o conceito, e a prática, de Democracia).

Esta Democracia minimalista, pouco virtuosa e facilmente maniqueísta e manipulável tem sido exportada mundo fora... E o resultado não podia ser pior... A Índia assumiu recentemente que as suas instituições políticas não funcionam, paralisadas pela complexidade do sistema e pela dimensão do estado. Na Costa do Marfim as eleições levaram a uma guerra civil que durou oito meses. Na República Democrática do Congo tudo indica para algo semelhante.

Chegámos ao Iraque e deixámos o "Faça você Mesmo: Democracia na Hora" e o sistema tem mostrado uma incapacidade de se adaptar ao mesmo. Dizia um report IRIN no começo da semana que a violência, no geral estabilizou, mas aumentou para com as minorias étnicas... Ora de que serve um sistema que só protege o todo? Isso não é uma democracia na verdade, mas sim uma oligarquia encapotada.

E continuamos a errar. O Afeganistão está a fazer "download" do seu "Democracia 2.3", mas quer-me parecer que a instalação do programa vai activar muitos anti-vírus. Mas posso sempre enganar-me! (Adoro enganar-me nestes casos, pena acontecer poucas vezes). Olhamos para a Rússia, para as eleições que comentei ontem no Strategic Outlook, e abanamos a cabeça... Falta de cultura democrática, pensamos enquanto sorrimos. Digo: será mesmo viável a Democracia em todos os estados?

E com esta provocação vou saindo... E volto amanhã...

Tuesday, December 06, 2011

Para quem não conhece o valor do silêncio!

A Europa prepara-se para mais uma Cimeira na qual, quer-em parecer, a auto-eleita Imperatriz Merkel e o seu pajem Sarkozy irão estar mais concentrados em sancionar, sancionar, sancionar do que em criar verdadeiras soluções pensadas com espírito de solidariedade e visão comunitária! A parelha franco-alemã entrou num caminho perigoso e, em vez de serem os heróis da Eurozona, arriscam-se a ser os carrascos da mesma. E não estou sequer a ser catastrófico....

De cada vez que Merkel e Sarkozy, qual duo romântico piroso, apresentam uma medida fico sem saber como reagir. Não sei se rio do grau de idiotice, se fico assustado com a frieza e a incapacidade de mostrar espírito solidário, num projecto supranacional que se desenhou numa perspectiva comunitária.Quer-me parecer que o valor comunitário, base do projecto europeu (pelo menos em teoria), está perdido e não dá sinais de vir a aparecer nos mapas ou GPS dos Senhores da Europa.

Pior do que as intervenções disparatadas, se não mesmo desnecessárias, de Merkel e Sarkozy têm sido os silêncios do Presidente da União Europeia, o belga Roumpy... Ou pelo menos assim o pensava... As declarações que fez hoje onde defende (entre outras barbaridades) mecanismos sancionatórios automáticos, prosseguindo o caminho de obsessão pelos números e de desumanização das políticas europeus, provam que eu estava errado...

Mais vale manter-se no Reino do Silêncio, já que quando fala só consegue dizer disparates e aumentar (sem necessidade) a entropia, num debate político já de si congestionado, bloqueado pela incapacidade de se querer admitir que é preciso um novo paradigma económico, um novo modus operandis que solucione problemas criado pelo actual "sistema". Como Presidente da União Europeia urgia que tivesse um papel de mediador e um papel activo na busca de solução, ao invés de andar a reboque da perigosa (não há outra forma de o dizer) auto-eleita Imperatriz germânica e do seu pajem gaulês.

Urgia a Herman Von Roumpy colocar o Reino Unido na rota do diálogo com os seus parceiros germano-francês; já que de terras de Sua Majestade chegam sinais de um novo impasse, de uma não-vontade de se "suicidar" a (restante) soberania Britânica para satisfazer a voracidade dos mercados, e as agendas políticas de certos líderes... Era a Roumpy que caberia o papel de coordenar os trabalhos na busca de soluções, ao invés de ser um espectador passivo que fala pouco e que nas poucas vezes em que fala não o devia fazer...

Aprendia na minha licenciatura em Comunicação Social, numa aula de Psicossociologia da Comunicação, que os silêncios também falam... E que por vezes é melhor não dizer, se aquilo que vamos dizer não tem relevância ou traz ruído em vez de mensagem! Talvez conviesse a Roumpy ler os apontamentos que fiz dessas aulas... Pode ser que ajudem o Presidente menos presidencial (e residualmente activo) do espaço Europeu?

Monday, December 05, 2011

Hoje! Aula Aberta no ISCSP

Depois da ida à UBI (Covilhã) e da participação numa conferência internacional e interdisciplinar em Cracóvia (Polónia), segue-se hoje uma Aula no âmbito da unidade curricular de Espaço Pós-Soviético, ministrada pelo Professor Doutor Marcos Farias Ferreira, no Mestrado em Relações Internacionais do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) em Lisboa.

O tema da aula de hoje serão as "Transições e Etno-Nacionalismo no Cáucaso Norte". A instabilidade que tem aumentado na república de Karachaevo-Cherkessia; o aumento da violência em Kabardino-Balkaria; a instabilidade flutuante da república da Ossétia do Norte-Alânia e a tensão do multiétnico Daguestão serão alguns dos temas abordados. A aula decorrerá das 20h às 22h na sala 9 do piso 2.

Da importância de humanizar a política!

Sabe quem me conhece a importância que dou aos símbolos e o modo, por vezes complexo, como gosto de descodificar as várias "camadas" de sentido que compõem os férteis e interdependentes campos do Simbólico. É por isso natural que eu tenha achado interessante, digna de leitura mais atenta, a reacção da Ministra do Trabalho italiana ao anúncio das medidas de austeridade, que serão postas em marcha em Itália no próximo ano.

Elsa Fornera, a referida Ministra, não aguentou a pressão dos últimos dias e uma plêiade de sentimentos poderosos, contraditórios (alguns deles verdadeiros oxímoros), e deixou que as lágrimas lhe assaltassem o rosto e roubassem a voz. O vídeo de uma Ministra do Trabalho fragilizada, humanizada, que tentava anunciar aos seus concidadãos a dureza das medidas, correu as redacções de todo o mundo, como fogo em palha seca.

A Ministra do Trabalho desceu do Olimpo em que, por vezes, se refugiam os políticos e tornou-se "gente", para os italianos passou a ser uma de "nós"; não tanto pelas lágrimas, mas pela sua sinceridade, pela sua honestidade emocional, pela sua capacidade de perceber que o animal político deve, por vezes, recuar e dar lugar ao rosto humano. Seria tão mais simples se todos percebessem isso.

E de Itália veio mais um sinal simbólico, mas altamente necessário. Mario Monti, o novo Primeiro-Ministro, renunciou ao seu vencimento pelas funções que agora desempenha. Não será essa medida a que salvará Itália, mas é mais fácil pedir que se faça luz no bairro, quando iluminámos a nossa rua primeiro. E de súbito me relembrei do mote da polícia norte-americana "Lead by example"!

Há que admitir que este novo Executivo italiano tem uma tarefa ingrata. Vejo-os como uma espécie de empregada doméstica que sozinha terá de limpar o grande salão, depois do festival Berlusconiano que foi governando a Itália nos últimos anos. Depois de um governo que comandava um estado, como quem comandava um recreio para crescidos.

E se Sílvio Berlusconi fez a porcaria, Mário Monti terá agora que a limpar (e polir o chão do salão com cera da boa!), para merecer a confiança dos mercados hipertensos e para não arriscar que a Itália seja "aportuguesada" ou pior... se transforme na segunda parte da tragédia grega! Monti parece-me pouco preocupado em agradar Merkel, que anda a cozinhar das suas com o seu pajem francês, e só por isso gosto ainda mais dele.

Por cá o Presidente da República anunciou que o Natal por Belém vai ser singelo. Sem prendas para os filhos dos funcionários do palácio presidencial (como se isso fosse necessário!) e usando cartões de Natal, que sobejaram dos anos anteriores. Espero que a medida seja extensível também aos Ministérios, onde sei gastarem-se fortunas por esta altura. Que impere o bom senso!

E apesar do espírito de poupadinho e arrumadinho que o Sr. Presidente da República quis passar, não sei o que me deu mais pena, se o provincianismo das medidas se o bacoco anúncio público das mesmas. Deixe-me que lhe diga que fica a saber a pouco Sr. Presidente...

E por aqui me fico! O Fidalgo regressa amanhã...

Friday, December 02, 2011

"Fides": A palavra esquecida por todos...

Quanto mais escrevo sobre Economia, apesar da minha (já) assumida vasta ignorância, mais contente fico por estudar o Cáucaso Norte. Antes do que interessa, eu escrevendo sobre um assunto do qual sou um leigo com curiosidade, uma pequena pausa: acho extraordinária a onda de "apoio" que a minha investigação de Doutoramento sobre o Cáucaso Norte tem gerado.

Depois de apresentar a minha comunicação no Congresso Internacional Interdisciplinar em Cracóvia, um investigador alemão sénior veio ter comigo e disse-me: "Keep up your work! It is of the highest importance to Europe to have someone like you, studying the North Caucasus". Soma-se a isso o facto do Cônsul de França na Polónia, que estava na audiência, ter me interpelado para me dar o cartão de contactos dele e para pedir que lhe enviasse a apresentação. E com isto termino o auto-elogio (nada como alimentar o "esfomeado" do meu ego) e volto ao assunto...

Antes do avião, que me levaria de Cracóvia a Frankfurt, levantar voo ouvi a palavra confiança. E logo me lembrei do que aprendi no 11.º ano, em História. O sistema monetário foi criado na base da confiança e, vá-se lá saber como, encontra-se pervertido numa espiral de desconfiança cancerosa e infecciosa. Primeiro é importante lembrar, ou informar, que sistema monetário também se pode apelidar de sistema fiduciário, com origem na palavra latina fides: confiança!

Quando criado, o sistema de "confiança no valor de algo sem valor" (notas de dívida e notas de crédito) permitiu aos comerciantes europeus aumentarem os seus negócios e facilitarem as suas deslocações. Era tudo menos prático carregar com as sacas de ouro para todo o lado. Com a evolução social, o valor do dinheiro a circular em cada Estado foi sendo desvinculado (parcialmente) da quantidade de ouro em reserva. A confiança passava a ter um papel primordial no sistema monetário.

E de súbito ouvimos falar em "os mercados desconfiam da capacidade de os Estados pagarem dívidas". Onde perdemos a capacidade de confiar? Onde nasceu este surto pandémico, porque há pouco tempo atrás poucos de nós conheciam a palavra "rating" e menos ainda sabiam que existiam "mercados especulativos". Desde quando fazemos dinheiro apostando na capacidade ou não de outros pagarem dívidas?

Dinheiro ganho pela desconfiança que, obviamente, destrói um sistema, cujo alicerce central era a confiança de reembolso! Juro que não entendo... Mais estranho é o facto de acharmos "normal" cobrar mais, a quem não consegue pagar menos!! Dizem que "o sistema é assim"? Pois assuma-se a perversidade do sistema, pois soa a ilógico, a graçola sem graça, que se cobre 100 a quem se presume (porque certezas ninguém as tem) que não pagará 10...

E pensando em tudo isto (deprimido que fico) vou saindo de mansinho...


Wednesday, November 30, 2011

Hoje: apresentação em Cracóvia (Polónia)!

E hoje, enquanto em Portugal se celebra a Restauração da Independência (e, pela última vez, feriado nacional), lá vou eu apresentar a minha comunicação no Congresso Internacional e Interdisciplinar no 20º Aniversário da Dissolução da União Soviética, a decorrer em Cracóvia (Polónia). O painel onde estou inserido começa pelas 11h45 (19h45 em Portugal) e terminará pelas 14h.

Sobre o meu painel:

Tema geral: North and South Caucasus in the Next Scene of the Drama
Moderador: Renata Król-Mazor, Universidade Jagiellonian

Oradores:
Tiago Ferreira Lopes, Instituto do Oriente e Observatório de Segurança Humana (Portugal)
Agnieszka Konopelko, Universidade Tecnológica de Bialystok (Polónia)
Barbara Patlewicz, Universidade de Szczecin (Polónia)
Michal Rzepecki, Universidade Jagiellonian (Polónia
Zbigniew Rokita, Universidade Jagiellonian (Polónia)

Terei 20 minutos para apresentar o meu tema "From the promise of a post-soviet future to a new chaos: a synoptic vision of the North Caucasus inside the Russian Federation". É esperar que corra tudo bem!



Uma vez fora... Olhar para dentro!

Uma das coisas que mais gosto de fazer, confesso-o, quando estou em conferências internacionais é perceber qual o "sentimento" de quem recebe (no caso, os polacos) em relação a alguns assuntos. É óbvio, e tenho noção disso, que falo apenas com uma parcela da população. É, todavia, expectável que essa parcela da populações composta por cientistas políticos seja altamente informada, e portanto deixo-me "cair" na tentação de tomar o que me dizem como aceitável...

Depois de ter lido recentemente que a Moldova está a perder o interesse na União Europeia e olha cada vez mais para leste... para a grande Federação da Rússia. Ciente de que as três irmãs bálticas (Estónia, Letónia e Lituânia) olham para a Rússia ora com respeito, ora com receio, ora com pavor, achei interessante perguntar qual o sentimento por aqui... E em quatro pessoas "sondadas" fico perplexo com o 50-50.

A Federação da Rússia e a União Europeia dividem por aqui opiniões. Aos dois europeístas polacos assusta-os o "excessivo intervencionismo da Rússia"; aos dois russófilos polacos desagrada a lentidão da União Europeia na demanda para solucionar os seus problemas. É uma questão de copo meio cheio ou copo meio vazio.

Para uns é melhor passear na pradaria onde o euro-herbívoro rumina lentamente, apesar dos esforços de Merkel para pastorar a manada. Para outros é mais seguro o intrusivo urso russo, com o seu poder de decisão rápido, centralizado e por isso mais activo (o que não significa, de per si, que seja mais eficaz!). A discussão corria simpática, com a ajuda de um vinho polaco (cuja acentuada acidez resulta numa experiência interessante), quando se juntou ao grupo um checo e dois alemães.

Para o checo, que logo se assumiu como ocidentalista e europeísta, olhar para a Rússia é sinónimo de saudosismo e tentativa vã de encontrar soluções onde, diz o checo, só se poderão encontrar problemas. Mas, o mesmo checo, admite que na República Checa, nos últimos anos, cresceu o número de simpatizantes por uma aproximação à Federação da Rússia. E o euro? Isso ainda divide mais...

Porque se é um facto que a Grécia e Portugal, abraços com ajuda externa, fazem parte do euro... É também verdade que a Hungria, a Islândia e a Roménia, fora do euro, enfrentam graves crises económicas. É igualmente certo que a vizinha Eslováquia cresceu com o euro. E portanto fico com a ideia que o que nos divide em Portugal é, afinal, mais europeu do que poderá parecer. E os alemães? Bem, obviamente que defenderam a UE e o euro... Mas, para meu espanto e gáudio, acham legítimo a Alemanha "bancar" as crises dos países periféricos, pois que a Alemanha foi quem mais beneficiou com o mesmo euro.

E podia continuar a reflectir, mas vou guardar os meus pensamentos para amanhã... Ou para qualquer outro dia...

Cumprimentos para Portugal (e demais países falantes de Português),

Do Fidalgo (que por estes dias anda por Cracóvia, na Polónia)

(Legenda: Foto tirada num city tour que fiz pela manhã a Cracóvia)

Monday, November 28, 2011

Em trânsito: Lisboa - Cracóvia

O Fidalgo hoje não escreve porque está em trânsito, voando de Lisboa para Cracóvia onde, nos próximos dias, irá participar numa Conferência Internacional Interdisciplinar sobre os primeiros vinte anos do espaço pós-soviético. Na Conferência, onde participo como investigador da equipa de Transições Políticas e Económicas do Instituto do Oriente irei apresentar um paper intitulado: "From the promise of a post-soviet future to a new chaos: A synoptic vision of the North Caucasus inside the Russian Federation".

Fica a promessa de que Fidalgo reportará novidades sempre que possa!

Concordando com o Fado, e o (lamentável) fado do Acordo...

O Fado foi aprovado como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, reunida em Bali (Indonésia). O sucesso da candidatura adivinhava-se desde cedo, mas nestas coisas nada está garantido até ao momento da votação. E o Fado lá conseguiu seduzir os corações da Comissão, pois que, na verdade, nem todo o mundo vota.

Com o resultado da votação, cumpre-se a inesperada profecia das palavras cantadas por Mariza: "Nasceu de ser português / fez-se à vida pelo Mundo / foi pelo sonho vagabundo / foi pela Terra abraçado" (Fado Português de Nós, in: Transparente, 2005). Com o resultado da votação Amália Rodrigues, Alfredo Marceneiro, Carlos do Carmo e uma plêiade de fadistas conseguiram electrizar um povo com algo que não fosse futebol. Um feito notável!

A vitória da candidatura do Fado, na ascensão à lista do Património Imaterial da Humanidade (da UNESCO), é ainda mais saborosa se tivermos em atenção que nenhum país do espaço lusófono (aqueles países que mais facilmente podem entender a letra, que brota da sonoridade poderosa, intensa e vibrante dos Fadistas) teve direito de voto. É ainda mais necessária num momento em que nos esventram parte de Nós, com o menos acordado dos Acordos...

Oponho-me ao Acordo Ortográfico por imperativos irracionais, e não tenho problemas com isso. Oponho-me porque sinto a minha língua como minha e não abrirei mão, facilmente e sem luta, daquela que é a herança que me foi transmitida... Coisas de Monárquico talvez... Ou talvez não... O Acordo Ortográfico demonstra que quem o desenhou não é um "ensinador" da língua mas apenas um "estudioso" dos seus fenómenos, e isso faz toda a diferença.

E sim, eu sei que nos anos 1930 também se criaram forças de resistência ao acordo que mudou Cintra para Sintra e Pharmácia para Farmácia. Mas esse acordo apenas "afinou" a língua, apurou a correspondência entre a sonoridade e a escrita, mas não tentou plasmar na escrita, a oralidade. Em qualquer língua os registos oral e o escrito compõem-se de nuances, que dão vivacidade, originalidade e beleza a essa mesma língua... Porque razão na Língua Portuguesa terá que ser diferente?

A evolução na língua existe e lutar contra ela é uma inutilidade, mas a imposição da evolução transforma a língua em algo artificial. É isso que se quer? Desnaturalizar a língua? É que se a memória não me falha, para línguas artificiais, desprovidas do seu extraordinário e rico manto cultural, já temos o Esperanto e o código Morse. Já sei, sou um "velhinho do Restelo" que luto contra a evolução? Será que sou? Ou sou um defensor da evolução com legitimidade, com sentido, com nexo de causalidade...

Desde quando a evolução pela evolução provou ser frutuosa? Aposto que já se engasgaram alguns dos defensores do Acordo... E com esse engasganço me retiro, com um sorriso nos lábios...

Thursday, November 24, 2011

Amanhã. 14 horas. Aula Aberta na UBI!

Hoje escrevo apenas para falar do que vai acontecer amanhã... Amanhã, pelas 14 horas, irei dar uma aula aberta aos alunos de 1º e 2º Ciclos de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade da Beira Interior, a convite do núcleo de Ciência Política da UBI.

Circasses (ou Circassianos), Karachais, Balkares, Ossetas, Ingushes, Laks, Lezgins, Kumyks, Avars, Dargins, Cossacos, Khanato, Emirato... São apenas alguns dos nomes que irão desfilar pela apresentação que terminei de preparar há minutos! Vamos ver como corre a minha primeira experiência pela Academia na Covilhã (que é também a segunda experiência pelas Universidades do Norte, depois da ida à Universidade de Aveiro em Março de 2010).

Aqui fica o cartaz... E até ao próximo post!


Wednesday, November 23, 2011

Vivendo e aprendendo... Ou talvez não!

É lugar comum afirmar-se que a idade traz sabedoria. As experiências que vivemos e que nos moldam deveriam sedimentar a nossa capacidade de raciocínio e o nosso juízo, mas ao que parece nem sempre assim é... Vejamos dois exemplos da nossa esfera político-mediática, que quanto mais idade têm mais erros vão fazendo e, portanto, vão contrariando a máxima do: Vivendo e aprendendo!

Manuela Ferreira Leite aproveitou um convite da Ordem dos Economistas para se juntar ao coro, cada vez maior, dos que criticam a política orçamental do governo. Não que eu concorde com as subidas de impostos, mas acho de uma distinta lata (não consigo encontrar expressão mais suave!) que a ex-Ministra da Economia que propôs a subida do IVA, no seu Consulado, venha agora criticar o actual Ministro por fazer o mesmo, numa conjuntura claramente mais complexa!

Quer-me parecer que Manuela Ferreira Leite ainda não conseguiu perdoar a "ausência" de solidariedade do PSD para consigo, quando, então Ministra da Economia, eram muitas as vozes (da oposição e da sua "casa") que pediam a sua demissão. Quer-me parecer que Manuela Ferreira Leite, desde então, saltita de azedume em azedume, queimando o seu partido e, acrescento eu, queimando a sua imagem por incoerência mental e tacanhez! É que eu ainda não me esqueci ainda de quando pregou os méritos da suspensão da Democracia... Envie a ideia à D. Merkel I, pode ser que a Imperatriz da zona Euro aprove!

Lembra-me uma parca personagem de Clive, personagem do livro "A Casa da Rússia" de John Le Carré (a quem peço desculpas por comparar o seu personagem fascinante com Manuela Ferreira Leite), que olha para o mundo sempre belicista, desconfiado, em permanente modo de ataque! E não, não acho que seja a Margaret Thatcher lusitana como gostaria que a vissem... Longe, muito longe...

Passemos ao segundo exemplo: Mário Soares! Há muito que Mário Soares vem degradando a credibilidade que amealhou nos anos 80 e 90. A última candidatura a Belém e os sucessivos "erros" de raciocínio que vai acumulando tornaram-se tão comuns, que quase não merecem comentário. Em Mário Soares existem dois estados: 1.) ou escreve sobre um assunto desgastado e sem interesse, com a intensidade de quem descobriu a pólvora; 2.) ou escreve num tom populista, demagógico e quase irreflectido.

Nisto das opiniões, todos temos direito a ter uma... Seja ela mais ou menos interessante, mais ou menos informada, mais ou menos exacta... Mas diria eu que já vai sendo tempo de guardar a pena e a tinta, reservando para si as suas opiniões. A última coisa que precisamos é de inflamar rebeliões, revoluções ou outras coisas similares. Não é esse o caminho, e digo-o sendo Monárquico e desejoso que estou de ver a República ser destronada e a Monarquia (re)entronizada. Mas tenho a noção perfeita que não é por aí que se solucionam os problemas!

A estes dois exemplos poderia somar outros... Não é Sr. Otelo? -.- Muitos outros... E com isso vai-se dando razão a Durão Barroso (quem diria!) quando diz que há vozes a mais a fazerem ruído e propostas a menos a encontrarem soluções... E, deste assunto, nada mais tenho a dizer... Por agora, claro está! Mas é óbvio que vou estar atento.

Saudações do vosso Fidalgo!


Tuesday, November 22, 2011

E eu tinha que voltar ao pseudo-Império...

O refúgio em ditados populares, para desculparmos acções repetitivas não é novo. Aliás nem novo, nem inovador, mas nem por isso deixa de ser eficaz... E portanto aqui vou eu: Diz o povo, e tem razão, que não há duas sem três e eis que me vejo na tentação de comentar um assunto sobre o qual não percebo: Economia, claro está!

Tomara eu que muitos pseudo-comentadores e opinadores assumissem o seu desconhecimento perante os assuntos onde partilham a sua sabedoria... Seria tudo tão mais simples... Mas já estou a fugir ao assunto sobre o qual escreverei hoje. Economia! União Europeia (suspiro)! Euro (duplo suspiro)! Crise (obviamente!)

Com os mercados em constante estado de nervos (aconselhava uma ida ao psicólogo, talvez?), a Espanha passou hoje a pagar juros de dívida mais altos do que a Grécia, sempre apontada como a "primeira" a cair... Como se isso importasse para as populações grega, portuguesa, irlandesa e agora também húngara! Pois, enquanto os mercados cerram fileiras à Europa, tão pouco unida nestes dias, fazendo subir os juros da dívida da Itália, da Bélgica, da Áustria e dos Países Baixos (vulgo Holanda), a Hungria avançou com um pedido de assistência financeira ao FMI!

Um pedido um tanto ou quanto curioso... Se percebi bem, e quando não percebemos dos assuntos podemos dar-nos ao luxo do erro, a Hungria quer o dinheirinho emprestado, mas não está com grande vontade que lhes ditem as regras! Uma espécie de pacto win-win em que só ganha a Hungria! Quer-me parecer que até ao lavar dos cestos, esta vindima ainda vai dar muito vinho e do mediático...

Espanha foi a votos, esmagou-se a esquerda (para a qual se voltaram todos os dedos), elegeu-se um novo primeiro-ministro, que se junta aos novos primeiros-ministros da Itália (Mário Monti) e da Grécia (Lucas Papademos), escolhidos interinamente sem consulta popular, mas a fúria dos lucros e o nervosismo dos mercados continuam por apaziguar!

E claro que a Imperatriz da Europa, pelo menos no seu psico-teatrinho, veio fazer mais declarações, ao estilo autoritário (quase que arrisco dizer hitleriano), que tanto lhe apraz, de que se devem punir culpados... Vamos punir as instituições bancárias? E as agências de rating? E os mercados bolsistas? Não? Então vamos punir quem? Os Estados... Obviamente...

Diz ainda D. Merkel I que os tratados têm que ser revistos para se poder dar o merecido "tau-tau" em quem não aprendeu a lição... E ao que parece são muitos os candidatos a ficarem de costas voltadas para a parede da euro-masmorra!

Mas diz-me a mnése, que por vezes me apoquenta, que a Alemanha está longe de ser um bom exemplo com 14 falências... Com perdões de dívidas... Com o ónus de um século XX desastroso que, desculpem-me senhores e senhoras, não pode ser esquecido. Mais ainda, a Alemanha (que plasmou no euro, aquilo que era o marco alemão) como super-beneficiária do sistema da moeda única, não está a fazer mais do que o esperado quando auxilia quem precisa...

E no meio disto tudo, a posição de Portugal não podia ser mais ambígua. Elogiado pela Comissão Europeia pelo esforço de consolidação orçamental e castigado com projecções para 2012 que são, pelo menos, calamitosas... Ora se o esforço não traz resultados, pergunto-me de que serve o esforço? Para quê correr, correr, correr, se sabemos que não cortaremos a meta?

O Fidalgo deixa as questões em aberto... Volto amanhã!


Monday, November 21, 2011

E é que há mesmo quem transporte ausência de coerência por aí...

Ando a saltitar de Comissão em Comissão e vou-me desiludindo de umas para as outras! Depois da Comissão que defende um serviço público de televisão numa óptica autoritarista, que impede o diálogo e a oposição às decisões ministeriais (sim, falo da Comissão presidida por João Duque), eis que mergulho na Comissão graças à qual se avizinha mais uma gazetice em Lisboa... Porque greves é coisa que não se faz pela Capital!

Sugere a douta comissão, entre outras trapalhadas, o encerramento do Metro às 21h30 e o encerramento de uma série de carreiras da Carris. Ora não podia estar mais em desacordo! Discordo por muitas razões, mas prometo que me vou conter e apenas enumerar as mais importantes... Ou pelo menos vou tentar conter-me, que nisto das promessas por vezes dá-se o dito pelo não dito...

Parece-me pouco coerente o discurso do Governo no que toca a transportes, ou como dizia há uns dias o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa parece-me que o mesmo discurso é inexistente. Quer-se o lisboeta a andar de transportes públicos, a abdicar do transporte privado em nome do trânsito e do meio ambiente e tudo isso me parece muito bem... Mas depois dá-se o dito pelo não dito (lá está a coisa das promessas!) e vem-se cortar essa mesma mobilidade pública e colectiva.

Parece-me pouco coerente que se gastem milhares, e não estou a ser apocalíptico nem faccioso, de euros em anúncios para motivar o uso da CP, Metro, Carris e demais congéneres e depois diz-se que afinal não há!!! Nesta fase, eu sei que vai parecer ilógico, impunha-se manter, se não mesmo aumentar a oferta de transportes públicos colectivos.

Manter, é o mínimo, numa capital que se quer europeia, móvel, dinâmica e activa! Ou então assumimos que a cidade só pode viver a meio-tempo e montamos cerco a Lisboa... Quem tem transporte privada ainda se vai safando, quem não tem... Paciência... Não tem, não se desloca... Dizia a IKEA, em tempos, para aproveitarmos mais a nossa casa? Acho que vai ser desta! -.-

Igualmente estranho parece-me o eterno discurso de que os transportes públicos não são rentáveis. Se assim o é deve ser por má gestão, porque quem anda de transportes públicos, pelo menos em Lisboa, encontra-os não raras vezes apinhados de gente. E não falo do Metro apenas... Algumas carreiras da Carris, como o 729, andam apinhadinhas de gente... Mas é logo esse 729 que aparece na lista de "para abater"? Meus senhores decisores e a coerência onde fica?

E mais uma perguntinha, para alimentar esta insana fogueira! Pergunto, humildemente (como é de supor), se os senhores da Comissão já andaram de transportes alguma vez? Se têm noção daquilo que foram transcrevendo para o papel? É que quer-me parecer, mas posso estar errado, que nunca andaram de transportes e que opinam sobre algo do qual nunca tiveram experiência e portanto dados para opinar... São opinantes meio-ocos meio-bacocos que vão dizendo umas coisas, em nome da "organização" dos números que, pasmem-se algumas almas, são pessoas... E vivem e tudo!

E acho que me fico por aqui... Que a semana ainda agora vai no adro...


Friday, November 18, 2011

A Comissão que mais parecia uma Banda Desenhada!

Ando há dois dias para escrever sobre este assunto... Mas primeiro fui "atropelado" pela realidade, que me levou a ter que escrever primeiro sobre o Nervosismo Crónico dos Mercados e depois foi o meu PC que achou por bem fazer greve! Esteve toda a noite a actualizar programas, seja lá o que isso for! -.-'

Confesso o meu total assombro ao ler algumas das conclusões da Comissão encarregue de definir a operacionalização do conceito (assumindo-se, por defeito, que existe um conceito minimamente consensual) de Serviço Público. E ao contrário do que vai acontecendo nos posts sobre Economia, no que se refere a esta temática eu sei alguma coisinha!

Vamos por partes. Concordo, aliás creio ser consensual, que a missão dos canais RTP-Madeira e RTP-Açores esgotou-se e portanto não vejo nenhuma objecção ao encerramento dos mesmos. Não acho que se deva fazer esse encerramento para poupar algumas moedas, mas somente por imperativos lógicos. Tenho algumas reservas em que se queira fechar o canal RTP-Informação, tendo em conta a necessidade de um maior pluralismo mediático, no espectro dos canais da televisão por cabo.

Não podemos confiar aos privados essa missão, até porque como canais privados que são (SIC-Notícias e TVI-24) não deverão estar sujeitos a uma malha de controlo tão apertada, o que não implica que os mesmos não sejam regulados. São assuntos diferentes! A RTP-Informação poderá ser repensada, reorientada e redesenhada, mas a sua extinção advém de uma série de erros que, diria eu, normais quando a Comissão se faz chefiar por um economista!

Estou ciente que algumas personalidades da Comunicação Social, e da Comunicação enquanto área de estudo, integraram a Comissão, mas entregar a presidência da mesma a um economista só podia dar nisto: uma série de recomendações, que eu recomendaria que fossem lidas como se fossem uma banda desenhada. Estão no papel, dão para rir, mas não são para levar a sério!

Especialmente a parte em que sugere a Comissão, para meu espanto e horror, que o canal RTP-Internacional fique sobre tutela do Ministério dos Negócios Estrangeiros (não vejo mal, neste ponto), e que as decisões do Ministério em causa não deverão poder ser alvo de contestação... Quer-me parecer que o lápis azul anda nas carteiras de certas pessoas; ou pelo menos nas mentes iluminadas de certos presidentes de certas comissões que prestam serviços pouco-ou-mesmo-nada públicos.

A alienação da RTP2 é complicada de ajuizar, mas tenderei a dizer que sou semi-contra. Passo a explicar: ora se poupamos com o encerramento das RTP's das regiões autónomas e, portanto, passamos a dispor de mais recursos técnicos, humanos e financeiros, parece-me que redesenhar a missão da RTP2, importante divulgador de ciência e cultura, naquele que é um panorama audiovisual paupérrimo, quando contamos apenas com os canais em sinal aberto.

É certo que a RTP2 tem, historicamente, audiências que não chegam aos dois dígitos, aliás não são raras as vezes em que não chegam a captar a atenção de 5% da audiência. E portanto o seu encerramento poderia ser algo natural, numa lógica darwiniana (sobrevivência do mais visto)! Mas, e já o disse antes, o simples fechar por não ter audiências parece-me solução fácil e que pouco soluciona. A RTP2 precisa ser repensada, envolver-se mais com a sociedade civil, talvez dispensar a programação anglófona e ser 100% nacional; mas alienar o mesmo canal será apenas abrir a porta a termos mais uma privada, mais uma novena de novelas e de reality-shows...

E já só me falta comentar a proposta de encerramento da Entidade Reguladora da Comunicação. Vou ser breve: É RIDÍCULO! É extraordinária a turbulência da História da Regulação dos Meios de Comunicação Social em Portugal. Andamos a saltar de "experiência" em "experiência" e nunca deixamos que nada sedimente, que ganhe alicerces. A ERC precisa ser repensada? Talvez! A sua actuação precisa ser mais pró-activa e mais imediata? Sem dúvida! E se a extinguíssemos para evitar chatices? Não, obrigado!

E porque o Fidalgo não quer maçar mais o simpático leitor fico-me por aqui... Por hoje...


Wednesday, November 16, 2011

Mais um episódio da saga: Los Mercados Nerviosos


Antes de tudo relembro o que já antes escrevi: Não percebo nada de Economia!

E eis que os mercados, nervosos como sempre, voltam a assustar a União-que-se-diz-Europeia (mas que  mais parece um Cárcere-de-tipo-Germanófilo). Os PIIGS, acrónimo anglófono pouco diplomático (se não mesmo deselegante!) na qual se arrumam os desalinhados Portugal, Itália, Irlanda (o último I a entrar para o chiqueiro), Grécia e Espanha (a mais próxima de cruzar a porta de saída do chiqueiro e de entrar no galinheiro Merkeliano), não estão sozinhos no ataque voraz dos mercados!

A França, a Bélgica, a Holanda e a Áustria estão agora na mira dos mercados, que procuram saciar uma fome insaciável por lucros fáceis, à custa da qualidade e da dignidade de vida de sociedades inteiras. Os mercados, faço questão de sublinhar, são uma reificação do homem enquanto ser social e socializado. E como criação humana são passíveis de reformulação, de transformação e de controlo… Não percebo qual a dificuldade em se entender isto! Qual a razão da morosidade na tomada de decisões!?!

Os mercados andam, por estes dias, tão nervosos quanto vorazes, porque perceberam que a Europa ruma (e há muito) sem uma liderança. Por muito pró-activa que seja a actuação da Comissão Europeia, sobre a égide do timoneiro Durão Barroso, a verdade é que falta uma acção consertada inter-institucional, musculada e acima de tudo assertiva, inteligível e comunitária.

Com a presidência da União Europeia pós-Tratado de Lisboa entregue a um homem capaz de se auto-eclipsar, mais facilmente do que os personagens de qualidade duvidosa de Stephenie Mayer (lembra-se de Herman Von Rumpy?) e uma Alta Representante da União para as Relações Internacionais tão útil como água salgada no Mar Morto (a britânica Catherine Ashton) é difícil mostrar “serviço” e serenar os mercados.

E mesmo há escala estatal, o cenário não melhora. Sarkozy é um político periclitante, com pouca chama europeia, e com uma inteligência política que corresponde ex aequo a essa pouca chama. Monti e Papademos só chegaram agora, mas ainda não conseguiram firmar qualquer um dos seus méritos. Incrivelmente, Papademos já foi sujeito a um voto de confiança do Parlamento grego: acto tão banalizado nos últimos dias, que a sua força já há muito se esgotou.

Da Espanha pouco se pode escrever, em vésperas de uma eleição que promete mudanças no reino vizinho. A Bélgica, recordista mundial na “demanda” para formar um governo, procura estabilizar-se internamente, optando por um low profile a que já nos fomos acostumando. Da Áustria ouvem-se vozes que fazem eco dos apelos de Merkel. E eu que não tinha percebido que os Grandes Eleitores (os mercados, claro está) a tinham nomeado como Imperatriz do (ao que parece ressuscitado) Pós-Moderno Sacro Império Romano Germânico!

Se os Mercados andam nervosos que tomem um cházinho de camomila, que bebam um vinho do Porto, que comam um queijinho de Serpa, ou que vão fazer termas em Chaves, que para estes lados já se começa a perder a paciência!!!


Tuesday, November 15, 2011

"Panem et circenses" à la portuguesa...

Acaba de sair para a imprensa a notícia onde se esclarece, por fim, quais os dois feriados civis que serão suprimidos do calendário e confesso a minha estupefacção, para não dizer desilusão, ou mesmo fúria. Contava com imensos malabarismos, regidos por uma linha que separa o racional do ilógico, no corte dos feriados civis. Tenho perfeito noção que esta era, em qualquer cenário, uma escolha que se previa difícil; todavia, num período complicado como este, imperava que a escolha não fosse somente feita, mas que fosse feita com coragem. Optou-se, vá-se lá saber porquê, por uma escolha que roça o patético!!!

Pois então acabemos com o 1 de Dezembro e com o 5 de Outubro. O que importa celebrar a Restauração da Independência Portuguesa, num país cada vez mais amarrado a estranhas correntes euro-idiossincráticas e proto-mundistas? De que importa ter restaurado a independência, se agora temos pouco espaço para uma verdadeira autonomia política? Nesta perspectiva até que faz sentido... E cai o 1 de Dezembro!!!

E eu, monárquico confesso, até cederia o 1 de Dezembro, para salvar o 5 de Outubro! Contra-senso (pensarão, neste momento, alguns)? Nem por isso! O 5 de Outubro, antes de assinalar o começo da Era Republicana, já marcava o começo de Portugal como entidade política soberana, aquando da assinatura do Tratado de Zamora em 1143. Vai longínquo o tempo, mas nem por isso deverá ser esquecido...

Mais ainda... Qual o sentido de se terem gastos 10 milhões de euros com a celebração do Centenário da República (e nem falo da qualidade débil de algumas das iniciativas apoiadas pelo Estado), se no ano seguinte a mesma efeméride é varrida do calendário??? E, meus senhores, nem se atrevam a ensaiar a velhinha desculpa do: "mas não era o nosso governo..." Quando se conquista o poder, herdam-se responsabilidades! Ou esqueceram-se disso, para os lados de São Bento?

E enquanto estes marcos identitários, verdadeiros pesos pesados (permitam-me o trocadilho fácil), vão sair do calendário o efémero, na melhor das hipóteses, o Carnaval (pasmem-se as alminhas lusitanas) consegue sobreviver! Ora peço que me expliquem o que é mais importante?!? Um feriado que assinala apenas a folia (e que apesar de associado a festividades pagãs, não é comemorado por essas mesmas festividades), ou um feriado que nos relembra quem somos enquanto povo!

Bem sei que se ensina nas aulas de História que os políticos Romanos (note-se os da Roma Imperial Antiga, e não os da Itália Berlusconiana do presente) tinham como uma das suas máximas, na governação política do Império, o panem et circenses (pão e circo); mas parece-me que estamos a levar tudo muito à letra. Até porque, arrisco-me a dizer que a expressão, em Portugal, em 2012, corre sérios riscos de morrer coxa... Ou pelo menos entrar em coma! Porque circo vai haver (e muito!), a julgar pela proposta do governo, mas pão isso ninguém sabe...

Só espero que o bom senso impere e que o Carnaval tome o lugar do 5 de Outubro... Idealmente, o 1 de Dezembro seria resgatado, nesta troca de prisioneiros da guerrilha euro-financeira, entregando-se o 1 de Maio às feras. Se é dia do Trabalhador, pois que se trabalhe! Se o ideal não for possível, que os Sindicatos vão ficar de cabelinhos em pé, ao menos que o racional impere e deixemos-nos de Carnavais!


O Fidalgo aguarda novos desenvolvimentos... Com algum receio...