Friday, March 29, 2013

De como Cavaco Silva é a irmã de D. Maria II...

É sempre um bom exercício olharmos para o nosso passado colectivo, vulgo História, para perceber como chegámos até aqui. É sempre bom conhecer o que ficou para trás, para melhor nos prepararmos para o que vem pela frente. É sempre bom ter uma noção profunda de como construímos esta ideia de Nós; mais do que saber Quem Somos é importante saber Como somos este Quem Somos.

D. Maria II foi a trigésima Monarca de Portugal! Desde cedo marcada pela conturbada vida política de uma Corte "retirada" no Rio de Janeiro, por culpa das invasões de Napoleão Bonaparte, chegou ao trono de um país exaurido pelas guerras entre os anteriores Monarcas e irmãos D. Pedro e D. Miguel. Pequena nota de curiosidade, num Reino sem "Lei Sálica" como o nosso Maria é apenas a Segunda Monarca mulher enquanto na Patrimonialista Rússia chegaram ao trono cinco senhoras...

D. Maria II chegou ao trono num momento delicado da vida nacional, tal como Cavaco Silva. E após chegar ao trono D. Maria II definiu um estilo que desgastaria a imagem dos Monarcas pelo reino. Cavaco Silva tem feito o mesmo com a figura do Presidente. E quem sabe se em breve não teremos um novo 1910... Quem se ri e acha que o Tempo não volta atrás; devia voltar atrás no tempo para ver que "ai volta, volta!"

D. Maria II descobriu, no decurso do seu reinado, os méritos de Costa Cabral, a quem tornou Conde de Tomar. D. Maria II via no político qualidades extraordinárias, para lidar com um país complexo e cheio de inúmeros particularismos que a Rainha desconhecia... Cavaco Silva fez o mesmo. Desencantou Passos Coelho, feito líder do PSD, e deixou-se encantar pelos méritos do mesmo. Pelos méritos e não pelo curriculum, que este não tinha...

D. Maria II confessa, em correspondência pessoal e notas biográficas, a sua frustração com um país que parecia não conseguir ver os méritos extraordinários de Costa Cabral. Ele era o homem certo para lidar com um país à beira da bancarrota e da implosão social... E com Cavaco Silva é Passos Coelho o homem certo para que o país evite a bancarrota e colapse... Mas, tal como no primeiro caso, só quem os protege consegue ver o seu talento.

D. Maria II não tinha apenas um protégé; tinha também um pequeno ódio de estimação: Saldanha! O homem com quem teve de partilhar a cena política, mas a quem, sempre que pode, puxou o tapete. E nem sempre de modo honesto e leal... Cavaco Silva também tem o seu anti-Passos... José Sócrates... O mesmo que agora voltou para comentar o estado de um país, que sofre com a sua passagem pelo Estado...

E enquanto estas figurinhas se vão plagiando, numa extraordinária repetição da História, o Fidalgo inquieta-se. Estará a III República a chegar ao seu fim? Estaremos a ver um remake histórico, que nos avisa da chegada de um novo capítulo desta História? E por agora mais não digo...

 

Thursday, March 28, 2013

A armadilha do silêncio...

A noite de ontem ficou marcada pela entrevista de José Sócrates na RTP. A noite de ontem estava, de resto, marcada desde que se anunciara a entrevista e (o subsequente) espaço de opinião pessoal. A entrevista ameaçava, desde cedo, trazer pouco de novo... Sócrates, orador inteligente mas nem por isso brilhante, tentou construir a imagem de um democrata enredado pelas intrigas do poder e da alta finança.

Sócrates, orador tão sagaz quanto repetitivo, tentou dar a imagem de que agiram nos bastidores para o derrubar e talvez por isso tenha dito que não concorreria a mais cargos políticos... O que quer dizer pouco, pois em 2000 também se dizia, em entrevista ao Diário de Notícias, indisponível para ser Primeiro-Ministro por não ter as qualidades necessárias... E depois foi o que se viu...

Sócrates, antes da entrevista, abriu o dicionário e descobriu a beleza das palavras "narrativa" e "mistificação" e repetiu-as até à exaustão. E assim muitas perguntas viveram de uma narrativa mistificada e outras de uma mistificação narrativa. Circundou-se, circundou-se, circundou-se e ficou-se a saber o mesmo. Ou quase o mesmo.

A parte que mais importou, pelo menos ao Fidalgo, foi aquela em que José Sócrates disse, com todas as letrinhas, que Cavaco Silva era culpado da crise política de 2011 que antecedeu o Memorando de (des)Entendimento com a Troika. Sócrates, conhecedor da atitude zombiesca do Presidente da República, atirou com palavras que ecoaram (e muito!) nos próximos dias: Cavaco Silva tinha uma agenda pessoal para derrubar Sócrates.

O Presidente da República, que deveria ser o fiel da balança, agiu com a parcialidade de quem é eleito com o apoio de uma máquina partidária. Agiu como agem os Presidentes, sem ser capaz da parcialidade que apenas aos monarcas compete. Sócrates mostrou-se inteligente ao saber jogar com os silêncios, demasiado longos e demasiado presentes, de um Presidente que mal preside...

É que agora Cavaco Silva fica em cheque, faça o que fizer. Se falar, como de resto terá feito no seu facebook, então mostra de facto que é politicamente parcial... Em outros momentos da vida nacional recente, perante ditos e actos de pior monta manteve-se sereno e silencioso, para não alimentar fogos dizia... Então e já reagiu? E ainda para mais ao encoberto da tecnologia sem rosto; de palavras que podem nem ser suas?

Se Cavaco Silva optasse pelo silêncio também perdia. Pois, diz o povo que muito sabe, quem não fala consente. E assim os silêncios de Cavaco tornaram-se na armadilha do mesmo. E o Presidente, qual donzela protegida por cavaleirescos comentadores e jornalistas, vai degradando a sua credibilidade; vai mostrando porque razão não devia presidir. Vai dando razão a quem não quer República nesta respublica.

E assim os silêncios de Cavaco e a sua atitude de encenador, que se diz sempre por trás dos bastidores, são agora dois gumes apontados para si. O mesmo Cavaco Silva que se auto-elogiou (de modo tão ridículo quanto inimiginativo!) nas suas mais recentes memórias biográficas tem agora que explicar porque fala tanto quando Sócrates fala e porque se cala tanto quando Passos Coelho faz... E então?


Friday, March 15, 2013

Gaspar e a "Luz" que foge...

A manhã de hoje trouxe o resultado da Sétima Avaliação da troika. Vítor Gaspar, Ministro das Finanças, no seu mono-tom costumeiro foi dedilhando as notas de uma sinfonia nada harmoniosa. O dia confirmou o que muitos pressagiavam, uma confirmação de um novo afastamento da esperança na recuperação do país, no alcançar da tal Luz ao fundo do túnel.

A troika, na sua infinita sabedoria, terá reconhecido uma série de problemas com realce e sublinhado para o Desemprego. E na sua infinita sabedoria manteve o discurso que "mesmo assim o caminho a trilhar é este, sem desvios, atalhos ou mudanças de rota". A infinitamente sábia troika instruiu Gaspar de que a Austeridade-Tecnocrata-Dogmatizada é para ser seguida, como um crente segue a Bíblia. Com acção e não com interrogação! Pensar será para outros...

E Gaspar, crente fervoroso, lá veio dar as predicas e salmos a uma plateia que o ouvia esperando pelo anúncio da chegada da tal luz ao fundo do túnel... A mesma que chegaria no final de 2012, depois adiada para o final de 2013 e agora protelada para o final de 2014... A mesma plateia que querendo uma nova harmonia acaba por não encontrar o que quer... E assim entre a incerteza de mais erros e a manutenção dos mesmos se explicam sondagens recentes...

Gaspar, que se diga é apenas o rosto de uma Hidra mais vasta, continua a falhar previsões e fazer acertos e ajustes para justificar um caminho que já se provou inglório. Onde a dor e o sacrifício, levam a mais dor e mais sacrifício que desembocam em mais dor e mais sacrifício. E esta espiral perigosa que Gaspar podia romper, vai sendo defendida pelo mesmo Ministro das Finanças que reconhecendo a coragem e o mérito dos portugueses nos premeia com mais castigos.

E a luz da esperança vai fugindo... E Gaspar vai-se escudando em palavras como "Inevitável" e "Inescapável". Mas lá porque o Ministro das Finanças não consegue ver para além da sua Bíblia, do credo que escolheu, não quer dizer que as alternativas não existam. É que elas existem... Mas não as procurem nos partidos, diz-vos o Fidalgo que as soluções estão na rua, nos cidadãos, nos movimentos sociais... É parar para ouvir...

E quando a Bíblia da Austeridade-Tecnocrata-Dogmatizada for rasgada e deitada fora, substituída pela Austeridade Inteligente que disciplina os gastos mas permite a Vida, a luz ao fundo do túnel ficará muito mais perto. É só uma questão que querermos!


Thursday, March 07, 2013

Como tudo se transformou... Menos os políticos...

Nos últimos anos assistimos a uma transformação extraordinária operada não apenas nas sociedades do espaço Europeu, mas à escala internacional. Os eventos sucedem-se a uma velocidade vertiginosa que complicará o trabalho de análise dos futuros historiadores. Isto claro se os historiadores ainda existirem, visto existirem pessoas a achar a História uma Ciência de pouca rentabilidade...

Nos últimos anos assistimos a uma transformação ao nível lexical. Antes de 2008/2008 palavras como rating, share, emissão de dívida e mesmo austeridade estavam quase ausentes do discurso na praça pública... Agora tornaram-se num hábito, sendo mais incomum a sua ausência. E mesmo a palavra crise, da qual não nos desabituámos, ganhou uma nova (e negra!) dimensão.

Nos últimos anos assistimos a uma transformação da Europa! A Europa da União, dos ideais de um espaço de partilha de valores e de criação de uma Comunidade de pares, revelou-se desunida e desumana. Formatada por uma perigosa febre Tecnocrática que tudo destrói, em nome de números numa folha de Excel. E as pessoas que a União deveria proteger, por causa das quais a União se diz ter formado, passaram a ser terciárias...

Nos últimos anos assistimos a uma transformação dos Portugueses! A falsa imagem de docilidade lusitana foi quebrada e as pessoas passaram a contestar, a levantar a voz, a interrogar, a apontar o dedo e a vir para a rua. Em cada protesto vê-se sempre gente que nunca antes saíra para a rua. Os protestos, para tristeza das Sindicais, despolitizaram-se. Tornaram-se a-políticos e por isso mesmo intensos, genuínos e difíceis de ignorar, pelo menos por quem for sério...

E a lista de transformações continuaria se o Fidalgo assim quisesse... E com tanta mudança apenas uma coisa ficou igual! Exactamente igual! Os políticos. Não culpem a Política, que a Arte de Decidir e Governar está isenta de culpas! Os políticos é que não se souberam adaptar. Não perceberam, ou pior ignoraram, que vivemos num tempo novo que exige criatividade, arrojo e audácia e não repetições de rituais tão inoperantes quanto cheios de mofo.

Os políticos nacionais, e europeus diga-se, não querem ver a realidade que os circunda. Que a transformação deles é inevitável, pois o tempo da política-encenada já se esgotou. O tempo da retórica vazia, dos discursos cheios de metáforas rococós já lá vai. Quer-se política nova, fresca, vigorosa e apaixonada. Quer-se luta por ideais, confronto de ideias reais e projectos que humanizem a Política.

Quer-se políticos que olhem para lá do Institucionalismo bacoco; políticos que não se escudem em leis ambíguas para nada dizerem ou para dizerem aquilo que não serve para nada. Quer-se políticos com capacidade de intervenção, que não percam ligação "ao mundo real". Quer-se políticos que não tenham medo de ter talento nas suas equipas e que não confundam talento com compadrio... O talento não tem que estar confinado ao limites limitadores dos Partidos...

Num tempo de transformação multi-nível quer-se políticos transformados, renovados e prontos para estes desafios... Quer-se gente com garra! Talvez se venha mesmo a querer gente sem Partido, como o Fidalgo... E o Fidalgo até que gosta de um bom desafio... E por aqui me fico...


Tuesday, March 05, 2013

"Sede Vacante" em Lisboa... E agora em Roma...

O Fidalgo anda irregular, como se homenageasse o actual governo. De cada vez que se prevê um aumento na regularidade, eis que surgem 1001 coisas para fazer (todas elas sem receber um único cêntimo) que vão adiando os posts. A tudo isto juntou-se a tripla necessidade de algum distanciamento no pós-Manifestações de Sábado.

Primeira razão: porque o Fidalgo não ia entrar na parolice da Guerra dos Números... Mais importante do que saber se foi 1.000.000 ou 1.500.000 é sublinhar a dimensão do protesto que terá colocado mais de 1/10 da população nas ruas. Se um número desta grandeza não faz reflectir o Governo, não sei o que fará.

Segunda razão: porque o Fidalgo tentou evitar o comentário "a quente", desinformado, opinativo e demagógico. Era mais fácil, talvez até tivesse mais leitores, se dissesse umas quantas idiotices cheias de demagogia, com inúmeras flexões da palavra Justiça e Igualdade mas todas elas nulas de real sentido. Mas para isso já temos comentadores que cheguem na praça.

Terceira razão: porque esperei que Cavaco Silva, o dito Presidente da República, comentasse com substância o que acontecera... Esperei que o Chefe de Estado soubesse tirar ilações e chamasse à liça um Governo desgovernado, por uma cegueira tecnocrático-ideológica que vai destruindo tudo. E podemos ir parando de dizer que a culpa é da Merkel, que muitas das coisas que o Governo propõe são iniciativas "made in Portugal"!

Utopia esperar por Cavaco Silva? Por certo... Mas ainda me custa a engolir ter um Presidente que não Preside. Ter um Presidente que se passeia em silêncios demasiado longos e em discursos tão fracos que nos fazem desejar, outra vez, o regresso aos silêncios. Curioso como com Cavaco Silva a moeda tem duas faces e nenhuma das duas serve... Se não Fala falha no cumprimento da sua Presidência; se Fala faz-nos pensar que era melhor que não falasse...

Talvez tenha sido em Cavaco Silva que Bento XVI se inspirou para se transformar em Papa Emérito... Ou seja, Papa em título (de jure) mas não em funções (de facto). Mas se por Roma os tempos de sede vacante vão durar cerca de um mês/mês e meio, por Portugal corremos o sério risco de viver toda uma década de vazio Presidencial.

Se foi para isto que veio a República... Nem sei que mais escreva...