Monday, November 24, 2014

As interessantes eleições na Roménia

Este mês a República da Roménia foi a votos para eleger um novo Presidente. A eleição decorreu em dois turnos. A primeira volta (2 de Novembro) determinou que Victor Ponta (actual Primeiro-Ministro da Roménia) com 40,4% das intenções de voto e Klaus Iohannis (Presidente de Sibiu, que, mera curiosidade, foi capital do Principado da Transilvânia até 1865) com 30,3% iriam à segunda volta (16 de Novembro).

É interessante referir que o terceiro candidato mais votado, com menos de 5,5% dos votos, foi o independente Călin Popescu-Tăriceanu (ex-Primeiro-Ministro e ex-membro do PNL de Iohannis). Na segunda volta e contrariando a esmagadora maioria das sondagens foi Klaus Iohannis com 54,4% quem venceu a corrida presidencial.

É interessante notar que no espaço de duas semanas Iohannis consegue amealhar mais 14,1% de votos; enquanto Ponta apenas aumenta em 5,1%. Os números são ainda mais impressionantes se tivermos em conta que na primeira volta a taxa de participação foi de 53,2% (perto dos 9,725,000 de votos) e na segunda volta foi de 64,1% (perto dos 11,720,000).

É igualmente interessante notar que, durante a fase de campanha, Victor Ponta terá prometido um referendo sobre a manutenção da forma Republicana de regime, ou o retorno a uma Monarquia (numa altura em que a Família Real Romena goza de imensa popularidade). Alguns analistas dizem que os republicanos mais aguerridos e os comunistas terão, nesse momento, voltado costas a Ponta por culpa de tal promessa.

Interessante também o modo como o Presidente cessante, Traian Băsescu, condicionou o resultado da corrida presidencial quando a 14 de Outubro acusou Victor Ponta de ter sido espião entre 1997 e 2001. A acusação por si só bastou para agitar as águas, num país obcecado e ainda temeroso com actividades de espionagem, quase sempre (mas não só!) em prol de Moscovo.

O Presidente cessante, numas eleições marcadas por uma série de acusações, foi ainda mais longe e acusou Victor Ponta de subornar o eleitorado. O Presidente chegou mesmo a falar em números: 4,800,000,000€ seriam distribuídos mais tarde pelos "votantes lealistas", dinheiro esse que viria do erário público. Iohannis aproveitou sempre os trunfos dados pelo Presidente.

Mas o mais interessante é o facto do ponto de viragem nas eleições Presidenciais na Roménia não ter acontecido "em casa", mas "fora dela". Na primeira ronda as eleições ficaram manchadas por inúmeros problemas com o voto dos Romenos fora da Roménia. A não-preparação dos agentes diplomáticos romenos para o voto da sua população degenerou, cedo, numa onda inesperada de protestos.

Em Madrid, Nova Iorque, Estrasburgo, Munique, Roma, Estugarda vários eleitores frustrados gritavam "Fora Ponta!" e "Queremos votar". E em Paris, Londres, Viena e Turim os manifestantes chegaram mesmo a invadir as premissas das Embaixadas e Consulados, quando perceberam que não conseguiriam exercer o direito ao voto.

Na segunda ronda era suposto tudo correr melhor... Era suposto, mas não aconteceu assim. E assim filas gigantescas de romenos, em direcção às suas Embaixadas, surgiram em França, no Reino Unido, na Bélgica, na Noruega, na Alemanha, na Suíça, em Itália e em Espanha. Em Turim a polícia chegou a ter que intervir... E o voto da diáspora foi castigador para Victor Ponta.

É igualmente interessante como as eleições Presidenciais causaram "vítimas" inesperadas. A 10 de Novembro, após o fiasco das eleições presidenciais "fora de portas", Titus Corlățean, então Ministro dos Negócios Estrangeiros, pediu a sua demissão. A 18 de Novembro Teodor Meleșcanu, recém-indigitado Ministro dos Negócios Estrangeiros, também bateu com a porta. E hoje foi indigitado para o cargo Bogdan Aurescu...

As eleições na Roménia confirmam também como algumas instituições internacionais são muito vocais apenas e só quando interessa. Numas eleições manchadas por acusações graves de suborno, espionagem e manipulação de votos viu-se uma União Europeia ignorar tudo... até porque a Roménia já faz parte do clube.

Numas eleições que, em momentos, roçaram a paranóia colectiva, o fantasma de Moscovo pairou sobre Bucareste quando convinha e a quem convinha. Interessante, para terminar, é ver como os propalados "perigos do voto manipulado" foram logo esquecidos pelo vencedor, e em breve novo Presidente da Roménia, Klaus Iohannis que após vencer disse: "Tomámos o nosso país de volta". Tomaram-no de volta de quem?


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