Tuesday, September 15, 2015

Crónica do 15 de Setembro ou ter asas e querer voar

15 de Setembro, 2013. Lisboa, Portugal. Pouco passa das onze da manhã quando desligo o telefone. Pelo meu rosto correm lágrimas, num regato desordeiro que ameaça manchar os bilhetes que me levaram até Ankara. A voz da minha mãe foi a última que ouvi. E sei que ela, do outro lado da linha, sentada num sofá azul, também estará em lágrimas.

Os últimos dias por Portugal foram de despedida. Fui surpreendido por várias manifestações de carinho que me encheram o coração. Não serenam os medos e os anseios, mas ajudam a gerir os mesmos. Dias de "Adeus e Até Já" antes de me lançar ao desafio fora de portas. Sei que começará aqui uma nova etapa, mas apenas sei isso. E não saber mais inquieta-me.

O embarque começa. Olho Lisboa uma última vez e avanço pelo corredor. Seguirei primeiro para Istambul, onde farei escala antes de chegar a Ankara. E depois terei alguém esperando que chegue, para me levarem até Kirikkale. E será aí, em Kirikkale, que começará um novo ciclo. Sorrio perante os planos e sonhos que tenho, mas as lágrimas insistem em cair. E sem me aperceber, antes mesmo de entrar no espaço aéreo do país hermano adormeço...

15 de Setembro, 2014. Kirikkale, Turquia. Já cheguei a Kirikkale faz dois dias e curiosamente preparo-me para seguir para a ilha grega de Rhodes dentro de uma semana. Mais uma conferência. Cheguei para o meu terceiro trimestre em terras estrangeiras, mas desta vez chego com a ideia da partida na minha mente. E isso anima-me.

Não a partida temporária para Rhodes, que dias depois será revertida, mas uma partida diferente, no final do ano, quando as folhas do calendário deixarem de acabar em "14" e passarem a "15". Enquanto faço a mala, para essa curta viagem à Grécia insular, dou por mim a pensar como é que um português, se preparara para seguir para a Finlândia, depois de receber uma proposta no Qatar.

Ainda não é certo que siga para o Norte da Europa, depois de ter um pézinho no Médio Oriente. Mas as coisas parecem fluir nesse sentido. Estou feliz aqui, penso enquanto arrumo mais uma gravata na mala, onde me deram oportunidade de "abrir as asas"; mas agora que as estiquei quero voar. Vou olhando em redor e parece que já sinto saudades do que ainda nem sei se perdi, por talvez ir para onde nem sei se irei. Fecho a mala e vou jantar...

15 de Setembro, 2015. Karachi, Paquistão. Estou aqui há quase três semanas. Desta vez sem lágrimas. Sempre com um pequeno aperto no coração, com o que fica para trás, mas com um grande sorriso no rosto. Depois de peripécias inesperadas pelo Norte da Europa, vim para o Sul da Ásia. Voltei a pular e a colocar mais um "pin" no mapa.

São quase 20h. Na Turquia e na Finlândia serão 18h. Em Portugal apenas 16h. Preparo-me para mais um jantar e dou por mim a fitar a moldura electrónica onde rostos que me são familiares desfilam. Cheguei aqui com todos eles e muitos outros. Vim, pela primeira vez, sem planos; sem pretensões; sem projectos de monta. Vim.

E ao final de quase três semanas aqui e de dois anos a trabalhar fora do meu país sinto-me mais Eu. O caminho tem tido curvas perigosas, obstáculos inesperados, desafios complexos mas tem sido feito. Se fosse em linha recta já teria abandonado o percurso, porque seria menos Eu. Não nego saudades e tristezas, mas ainda não estou completo. Faltam peças neste puzzle de que sou feito.

E aqui encontrarei mais algumas. E, quem sabe, no próximo 15 de Setembro estarei noutro ponto. As asas estão esticadas e, em tendo boas correntes, estou sempre pronto a voar. E um dia, com o puzzle quase completo, voltarei ao ponto de origem, de onde saí a 15 de Setembro de 2013 e lá, e apenas lá, completar-me-ei. Até lá seguirei explorando...

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