Thursday, October 15, 2015

Eleições Legislativas II: Já olhou para a Europa democrática hoje?

O Fidalgo confessa que tem tentado ser paciente com uma série de comentários que tem lido, de opiniões que vomitam demagogia e tentam construir narrativas que apenas servem certos intentos. O que parece ao Fidalgo é que muito boa gente, afinal, entende pouco (se alguma coisa) sobre democracia.

Ora como já antes tentei explicar que imensa coisa pode acontecer, porque a Constituição o permite, porque as regras do jogo o permitem, porque é assim que a política em sistemas democráticos acontece, mas mesmo assim muita gente insiste em tentar deturpar palavras e "dobrar" a realidade então recorro a algo diferente...

Sabendo o Fidalgo do fascínio de Portugal por imitar, copiar, aludir e citar o que se passa "lá fora", então olhemos para o que em 2015 tem acontecido "lá fora". Como sou daqueles que acha que as comparações têm que ter limites decentes, de modo a não acabarmos a comparar "maçãs" e "orangotangos", fiquei-me apenas pelos exemplos da Europa, em 2015. Ora vamos lá...

As eleições parlamentares na Estónia realizaram-se a 1 de Março. Após as eleições o partido vencedor convidou outros partidos para rondas negociais, com vista a estabelecer uma coligação pós-eleitoral que garantisse estabilidade governativa. O documento final foi apenas assinado a 8 de Abril. O governo tomou posse a 9 de Abril

As eleições parlamentares na Finlândia realizaram-se a 19 de Abril. O partido mais votado começou diligências para formar uma coligação pós-eleitoral. Nas rondas negociais (e no governo) foram incluídos partidos eurocépticos e nacionalistas. As negociações entre as quatro forças políticas (de centro-direita, direita e extrema-direita) só ficaram concluídas a 29 de Maio.

As eleições parlamentares na Dinamarca aconteceram a 18 de Junho. Nessa mesma noite o partido mais votado anunciou que não faria governo, tendo em conta o cômputo geral dos votos. Coube ao terceiro partido mais votado a iniciativa de formar governo. Durante cinco dias o líder do Venstre tentou formar uma coligação pós-eleitoral, mas falhou o intento. Avançou para um governo minoritário com acordos de incidência parlamentar a 28 de Junho.

De onde vem este dramatismo desnecessário após apenas uma semana de negociações? Parece que está Portugal, como esteve a Bélgica, há meses sem governo. Dá para acalmar os ânimos, e perceber que as negociações para formação de governo naturalmente levam o seu tempo...  Antes uma negociação demorada, mas bem pensada, do que algo tosco feito para cair no primeiro tremelique...

Dá para parar com essa parvoíce de que "ninguém sancionou a coligação de Esquerda"? Para além de em 2011 não termos sancionado a coligação de Direita, o que a Europa nos mostra (e já agora fora da Europa também não faltam exemplos disso) é que uma larga maioria das coligações no poder são desenhadas após as eleições e não antes das mesmas.

Mas quem ganha é que vai sempre a governo: os dinamarqueses não diriam isso. E os anti-União Europeia não podem ir a governo: os finlandeses (e já agora os húngaros!) não diriam isso. Mas um dos líderes da Esquerda só quer é poder, poder, poder. Obviamente! Quem não quer conquistar poder, não vai a votos. Ou achamos que a manutenção da coligação de direita não almeja poder?

E já agora achar que os mercados financeiros têm em consideração as eleições em Portugal e o actual momento negocial é tão não verdade. Os mercados finaceiros, quando muito, olham para Bruxelas e mesmo que olhassem para o que se passa por Lisboa diria que "aos mercados o que é dos mercados e aos eleitores o que é dos eleitores".  A democracia ainda não está em bolsa. Nem pode estar...

Opiniões todos podemos ter, mas informação antes da demagogia parolinha também todos podemos ter. Podemos achar que a PaF fará melhor (ou pior); que a Esquerda afundará (ou levantará) o país; mas tudo isso são considerandos pessoais, que não devem toldar os argumentos racionais. Tenha lá a sua opinião, mas por favor evite o cliché, pelo cliché, ou o dizer, porque alguém disse. Tem um cérebro? Use-o...


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