Saturday, September 19, 2015

Que haja medo, mas não falhe a memória...

As vagas de refugiados e de migrantes transformaram as redes sociais num "circo" meio-pateta, meio-parolo, de argumentos exacerbados. Uns porque iam expulsar os "racistas" e "xenófobos" das suas listas de contactos; outros por sabiam o perigo que aí vinha, quais videntes recém-desabrochadas. E o Fidalgo meio perdido...

Comecemos então por clarificar as coisas. Apesar de os media nacionais e internacionais (com honrosa excepção da Al-Jazeera e da Reuters) optaram pelo simplismo de ver em duas correntes migratórias distintas o mesmo fenómeno. Os refugiados que vêm da Síria e do Iraque e os migrantes económicos que vêm do Nepal, Bangladesh, Afeganistão e Paquistão não podem, nem devem, ser vistos da mesma forma.

Os refugiados, como o próprio nome diz, procuram refúgio porque a sua segurança reduziu-se a um grau 0. Em segurança humana diz-se que uma pessoa, ou estado, é mais seguro quanto mais livre for do Medo e das Necessidades Básicas. Ora um refugiado é prisioneiro de ambas... Do medo e das necessidades básicas.

O migrante económico encontra-se numa situação bem diferente, não tendo liberdade nas suas Necessidades Básicas mas sendo um pouco mais livre quanto ao Medo... Até pode existir falta de esperança, e alguma ansiedade que gera insegurança, mas não existe o medo como centro gravitacional das suas decisões. O migrante económico, in extremis, tem sempre outra solução. O refugiado, se quiser viver, não!

Entendidas as duas vagas que assolam a Europa, o que apraz mais, ao Fidalgo, dizer? Dizer que esse discurso do "eles vêm para nos invadir" já é velhote. Primeiro eram os emigrantes de Leste que eram todos traficantes, e "ai Santíssimo que lá vem a droga toda e lá se vai o meu rim, num ruela menos iluminada". Depois eram os Chineses que "comiam gatinhos ao pequeno-almoço" e "roubavam pâncreas nas mercearias".

Mais, se o medo é de que eles (os tais Muçulmanos) nos invadam tenho a dizer que o medo vem tarde. Primeiro porque os Muçulmanos já vivem entre nós (serão mais de 50.000, o equivalente aproximado à população de Viseu), e até ao momento com extraordinário grau de sucesso na sua integração no tecido social português. Segundo porque esses mesmo Muçulmanos vivem, simbolicamente claro, na nossa boca... todos os dias...

É para expulsar os Muçulmanos todos e as suas influências? Boa! Comecemos por dizer adeus a todos os vocábulos com "al". Vai ser interessante saber se "(al)guém quer (al)guma coisa do (al)guidar". E ir às compras passa a ser complicadote; porque do açúcar, ao limão, do xarope ao açafrão tudo são vocábulos árabes que latinizamos. E diga adeus a tocar tambor e a jogar xadrez. E expressões como Salamaleque Oxalá reprima-as com veemência.

Os tais Muçulmanos perigosos que D. Afonso Henriques combateu tão valoroso, eram tão nefastos que o Primeiro Rei de Portugal teve uma filha de uma muçulmana. As coisas que nos esquecemos... Mais ainda, D. Afonso Henriques (século XII) permite aos muçulmanos dos territórios conquistados que fiquem a viver em bairros próprios: as Mourarias. Quando for à Mouraria em Lisboa cuidado... que é território deles...

D. Afonso III, que terminou a conquista e usou pela primeira vez o título régio de Rei de Portugal e dos Algarves, também ele teve um filho de uma relação com uma muçulmana. Aliás, os muçulmanos são apenas expulsos de Portugal bem no final do século XV (1496), quando D. Manuel I (sob pressão da vizinha Espanha e do Papado Romano) promulga o Decreto de Expulsão dos Judeus, que logo se estende aos muçulmanos. Tão perigosos que eles são...

Os perigosos muçulmanos são amplamente responsáveis pelo apogeu do Estado Português. Não só muitos dos intrumentos de navegação, utilizados pelos navegadores Lusitanos, eram de origem árabe, como muitos navegadores Portugueses recrutaram árabes (sem medo, nem nada!) nas suas viagens. E, já agora, a numeração que usamos hoje em dia é um legado... árabe! Lá teremos que voltar aos números romanos. Imagino já as contas no próximo Orçamento de Estado.

Mas eles querem invadir-nos? Querem? E para isso enviam homens cheios de fome, crianças em situação de orfandade e mulheres dispostas a dar a alma pelos seus filhos? Daesh quer muita coisa, entre as quais dominar a Síria, o Iraque e a Líbia, mas se Daesh quiser invadir a Europa será com a força das armas e não com um "exército" de almas famintas por um pouco de segurança; por uma noite som o trovão das bombas.

E os Lobos Solitários? Claro que no meio das centenas de milhar de refugiados existirão elementos radicais, prontos a tudo; mas a primeira linha de defesa contra esses, serão os restantes refugiados que vêm apenas em busca de um sítio onde possam viver. Não vêm em busca do Sonho, mas sim em busca de Vida. Pior do que a xenofobia, só mesmo a crueldade gratuita, que o medo faz algumas pessoas exibirem.

Esqueçamos que os acordos internacionais nos obrigam a acolher estas pessoas. Está esquecido? Boa! Mas não esqueçamos que um país que participou na aliança de invasão ao Iraque, como nós, tem uma dívida moral para como estas pessoas. Um país que se fez ao mar para ter futuro, não pode impedir os outros de se fazerem às suas estradas, em busca também eles de um futuro. Que haja racismo, mas não falhe a memória.

Entristece-me ver uma Europa de Leste que parece ter esquecido o que aconteceu com o colapso da União Soviética. De como "expeliu" uma imensão de pessoas por essa Europa fora e agora se arreiga nas suas novas torres de marfim, com os portões cerrados e uma cara feia. Entristece-me quem ainda ontem recebeu e hoje já não parece querer (ou saber?!) dar.

Entristece-me, e envergonha-me, o florescimento em Portugal de várias "boas samaritanas" que não querendo ajudar os refugiados, se lembraram de súbito que existiam pedintes. Os mesmos pedintes que ainda no dia anterior ignoraram com um sorriso no rosto e quiçá com um comentário venenoso. Mas hoje: "ai os nossos pedintes coitadinhos, que ninguém os ajuda". A questão nunca pode ser ajudar A ou B; terá que ser sempre ajudar A e B. Simples, não é?

Que mal farão os refugiados e os migrantes económicos, no interior de um país despovoado? Que mal farão famílias novas, num país com fracas taxas de natalidade? Que mal farão pessoas com esta fibra, num país, por vezes, demasiado amolecido? Que mal farão aos que já aí estão, aqueles que lutam apenas pelo direito a existir? É mais simples deixar morrer, para sossegar os medos? Espanto-me com tudo isto...

No final a questão é apenas essa. O que triunfa? O medo preconceituoso e cheio de estereótipos? O racismo que nos cataloga em "Nós" contra "Eles"? A xenofobia que excluí com violência, o que simplesmente não entende? Ou a solidariedade? A capacidade de superar o susto inicial e de ver para além do que parece óbvio?

Onde há fumo há fogo, diz o povo. E o povo até está certo; mas não confudamos o fumo de um barbecue familiar, com o de um incêndio dantesco...


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