Monday, February 16, 2015

O Dia em que a Morte 113 Amou (5/5)

[...continuação]

O passeio com Samsara seguiu rua abaixo. Eu absorvia todas as palavras que ouvia, tentando acompanhar o ritmo alucinante da minha parceira. Mesmo movendo-se no mundo dos sons e dos cheiros, e não no das imagens, Samsara conseguia ser bastante rápida. Em alguns momentos era mesmo difícil acompanhá-la. Mais fácil foi deixar a rua apertada e respirar o ar livre da grande metrópole indiana.

Seguimos em direcção ao lago Vembanad. As águas do lago mantinham o brilho dourado matinal. Passeámos lentamente, sem preocupações com o tempo. Não tinha missão para cumprir. Os namorados que seguiam em torno do lago olhavam para a minha pequena indiana complacentes. Quem ama, sabe ver o amor nos olhos dos outros. Pelo menos, sempre ouvi isso entre os humanos.

O lago protegeu-nos. No meio das águas depositámos juras de amor e, pela primeira vez, beijámo-nos. Não sei se olharam para a estranha figura de Samsara, mas a minha alma entregou-se aos seus lábios carnudos. As nossas almas uniram-se um pouco mais. A meiose das nossas almas deu mais um passo. Em breve seríamos um só. A morte de Samsara deixaria de existir. Quando ela morresse, ela seria já uma parte de mim. Percebia agora a Senhora Morte!

Almoçámos juntos. A sopa rasam desceu pela minha garganta. Tentei identificar os ingredientes, contudo cedo percebi que não sabia os seus nomes. Samsara ajudou-me. O tamarindo[1] mistura o seu sumo com a picante pimenta e com as lentilhas. Podíamos bebê-lo simplesmente, mas preferimos comer acompanhado com arroz de iogurte, outra das maravilhas gastronómicas indianas.

A refeição, encomendada num restaurante, degustada num jardim da cidade não tinha terminado. Provei ainda o paladar do chutney de tomate. O agridoce do condimento chutney lembrou-me a relação com Samsara. Éramos opostos, ela viva e eu não-vivo, que nos completávamos; tal e qual o doce e o amargo daqueles condimentos que se tornavam uma alma única. O paladar apurado da comida indiana deixou-nos bem dispostos.

Samsara deitou-se na relva e eu acompanhei-a. As nuvens brancas pareciam desenhos curiosos, que tentávamos adivinhar. Eu juro que vi um coelho, onde Samsara viu um homem com uma foice. Beijei as suas mãos. Evitava a pressão de saber as horas, contudo os meus olhos caíram sobre os ponteiros vermelhos de um relógio. Eram duas e vinte oito da tarde. Tinha pouco mais de três horas e meia até ao ocaso solar.

Passeámos mais. Senti que caminhámos por uma vida; que demos três voltas ao planeta e que ainda bebemos um café em Marte. As cores, as sensações, os cheiros, os tactos, experimentava tudo pela primeira vez. A minha mente explodia com tantas sensações novas, acompanhando o meu coração, completamente alucinado pela simples presença de Samsara. Estaria a sofrer de dependência amorosa? Teria que ser internado numa clínica de desintoxicação para Mortes apaixonados?

Agarradinhos subimos duas ruas e descemos outras três. Por duas vezes Samsara foi assobiada, por estar a falar sozinha, mas a minha indiana não ligou. Sentia-a cada vez mais como minha. Até poderia ser egoísmo, todavia Samsara deixara de ser do mundo. Agora era minha. Até de quem olhava para a sua sombra tinha ciúmes. Se eu pudesse sair do invisível teria andado à briga com cinco ou seis homens, e com uma mulher de olhar suspeito.

Samsara comprou algodão doce. Como quem come uma nuvem, desfez o açúcar, transformado em tufo rosa, com a ponta dos seus dedos. O vento abraçou-a. Quando voltasse ao Limiar, Chu[2] teria muito que explicar. Nela tudo era delicadeza e perfeição. O meu coração acalmou-se ao mergulhar nos seus olhos de ónix, pela enésima vez. Sabia que ela não me via através deles, e, mesmo assim, lia a sua alma mergulhando bem fundo neles.

- Conheces o Taj-Mahal meu amor?
- Não. – Já tinha ouvido falar do espectacular monumento, mas não podia dizer que o conhecia.

- É uma prova de amor intemporal. Como o nosso. – Samsara pegou na minha mão para acariciar o seu rosto. Senti uma espécie de corrente eléctrica percorrer o meu corpo em segundos – Mumtaz Mahal era a mulher do [3] Jahan. Os dois viviam uma estória de amor memorável, digna de perdurar nas crónicas. Em 1631 a linda esposa morreu no parto. O ficou destruído. Para não ser vencido pela loucura, canalizou o seu sofrimento para uma grande prova de amor.

- É por isso que existe o Taj-Mahal? – A indiana de 21 anos sabia mais do mundo do que eu, com décadas e décadas de ofício. Senti o meu rosto corar. Junto de Samsara sentia-me sempre tão pequeno e, ao mesmo tempo, tão protegido pelo seu encantador sorriso e pelos seus olhos deslumbrantes.

- Durante dezassete anos os súbditos do Jahan construíram o mausoléu mais famoso do mundo. Para o poeta indiano Rabindranath Tagore, o Taj-Mahal é “uma lágrima radiante na face do tempo”. – A minha paixão humana assaltou-me os lábios – É altura de fazermos o tempo chorar de novo.

A ideia da morte de Samsara, de concluir a minha missão, para alguém arquivá-la em seguida, atormentou-me. Não queria perdê-la. Durante séculos sentira um vazio, que conseguira preencher por fim. Não queria saber do Equilíbrio, nem da Senhora Morte, eu ia salvar o segundo par de sapatos.

Olhei para ela. Alegre, encarava a morte com uma assombrosa naturalidade. A cobardia cercava-me. Aquela humana que eu amava, que eu ainda amo, ensinara-me tanta coisa. Por que não me ensinava a ser corajoso? Queria aprender com ela, a encarar os desafios com um sorriso. A ver cada dia, como uma nova oportunidade de ser feliz. A deitar com a lua as tristezas e asfixiá-las durante o sono.

- Como podes tu…

- Morte 113, sabes o que quer dizer Samsara? – A pergunta brusca apanhou-me de surpresa. Eu dominava todas as línguas e dialectos do mundo e alguns extra-mundo; todavia não sabia qual o sentido das palavras, que a minha língua proferia com tanta facilidade. – Renascimento. – O sol começara já a deitar-se. Breve, muito breve, teria que terminar a missão. Nos arquivos do Limiar a agitação, de um qualquer funcionário, já devia ter começado – Eu vou renascer, tal como o nosso amor.

- Mesmo que renasças, tu não te lembrarás de mim. – O egoísmo voltou a sobrepor-se à racionalidade. Eu fazia uma birra, sabia isso, mas não me importava.

- Tens razão. Não me vou lembrar.
- Vês!

- Mas tu vais lembrar-te. E quando me vieres visitar de novo, estarei à tua espera. À espera para te amar. – Samsara não conseguiu conter as lágrimas de paixão. Chorava emocionada e não amedrontada. A sombra da Morte era-lhe tão indiferente, como os risos das crianças que gozavam por vê-la falar com o vazio.

- Isso não é amor. – Refilei estupidamente.
- É o nosso amor. Um amor que renascerá das cinzas, tal como a Fénix. – O seu olhar tornou-se brilhante. Os nossos corações tocavam uma melodia harmoniosa. A respiração de Samsara beijava os jasmins brancos, comprados pela manhã.

Um amor eterno. Esperarei que renasças, minha Samsara. Acompanharei os teus passos. Irei à escola contigo. Estarei ao teu lado, quando entregares o teu corpo a um qualquer. Acompanhar-te-ia a subires ao altar. Serás mãe, comigo a vigiar-te. Terás netos e bisnetos. E quando estiveres cansada, com a vida por um fio, entrarei, de novo, no teu quarto.

O cheiro a jasmim guiará os meus passos. Trocaremos juras de amor e voltaremos a unir as nossas almas. Seremos um só por instantes e depois… Depois o processo começará de novo. Samsara, Samsara, Samsara. Amaremos eternamente.

Um grito de uma jovem histérica, com o kohl[4] dos olhos esborratado, anunciou as dezoito horas. Já não teria tempo de levar Samsara para casa. Sussurrei-lhe ao ouvido os detalhes da minha missão. Ela gargalhou bem alto. Não queria morrer em casa. Queria sentir o sol a descer. O calor da esfera de fogo celeste aqueceria o seu corpo, quando a sua alma me acompanhasse.

Beijei-a uma última vez. Entrei em contacto com o seu coração. Ele não acreditou em mim, senti o sarcasmo nas suas expressões, mas concordou comigo. Quando eu estalasse os dedos ele pararia de bater. Samsara afundou os seus cabelos negros no meu peito invisível. Beijei a sua testa. Com as lágrimas a humedecerem o meu rosto estalei os dedos.

Samsara gelou. Aos poucos o fogo da sua pele de canela extinguiu-se. Os seus olhos de ónix fitavam o horizonte. Olhos que não viam as imagens, como os outros, mas sentiam o pulsar da natureza. Abandonei o seu corpo, quando um casal de holandeses se aproximou e, aos gritos, confirmou os meus actos. Limpei o rosto antes de voltar pela fenda.

Chegado ao Limiar olhei para cima da mesa. Samsara tinha sido arquivada. Restava-me esperar. Deitei-me no meu compartimento. Com o coração aos pulos, quase que a furar o meu peito, sonhei…

Com dificuldade acordei para mais um dia de trabalho. A água gela, desceu pelo meu corpo, para me despertar. Vesti a túnica e abri o envelope. Mais uma missão banal. Desta vez iria até Portugal. Já lá estive mais de 100 vezes, mas não me canso de lá ir. Algum dia trago um vinho do Porto para o Limiar. Aposto que a Senhora Morte gostaria de provar o néctar do Douro lusitano.

A minha missão vivia em Caminha. Na fronteira com Espanha. Tal como o Limiar vive na fronteira com o mundo. Tinha 87 anos. Chamava-se Ana Renascida e trabalhara na indústria cinematográfica, antes de descobrir a paixão pela poesia. Ia morrer antes da meia-noite, com seis filhos, quinze netos e dois bisnetos. Entrei sem bater à porta. Fiquei com os sentidos alerta. Cheirava a jasmim. Sorri.

FIM



[1] O tamarindo é uma fruta oriunda da África tropical, em especial de regiões do Madagáscar. Há muito que a árvore foi introduzida na Índia, tendo a sua fruta ganho um espaço especial na gastronomia local
[2] Chu é o Deus do Vento, do ar seco e da masculinidade para os Kemeticos, seguidores da religião do Antigo Egipto. Chu foi criado por Rá, nas águas sagradas de Nun. Foi Chu quem vomitou Tefnut (Deusa da Humidade e das Nuvens), que seria sua irmã e consorte. Da união de Chu e de Tefnut nasceriam Geb (Deus da Terra) e Nut (Deusa do Céu Eterno)
[3] Título cedido aos monarcas da Pérsia e do Afeganistão. Se compararmos com a titularia real europeia, o é uma espécie de Imperador pela dimensão dos seus territórios.
[4] Cosmético indiano feito da mistura de fuligem com outros ingredientes, usado especialmente pelas mulheres. Inicialmente o kohl era usado como protecção contra o mau-olhado


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