Monday, February 02, 2015

O Dia em que a Morte 113 Amou (1/5)

Com dificuldade acordei para mais um dia de trabalho. Não que estivesse a dormir profundamente. Aliás, eu nem consigo dormir. Tinha fechado os olhos, enquanto flashes de imagens antigas passavam pela minha memória. Acho que posso chamar a isso de sonho. Se não puder, pois que me desculpem…

Não precisava olhar ao espelho, para saber que devia estar com um ar terrível. Consultei o relógio na parede. Ainda tinha tempo, antes de começar o expediente. Lá fora o ocaso solar devia pintar o céu com cores incrivelmente belas. A Natureza celebra com odes triunfantes a Beleza, enquanto os Homens vivem a sua vidinha enfadonha, sem pararem para ver o que realmente interessa.

Abanei a cabeça. Quem sou eu para decidir como vivem os Homens? Logo eu; ri sarcasticamente! Despi a túnica negra que envolvia o meu corpo, antes de me colocar debaixo do fio de água gelada que despertou os meus sentidos. Acho que se chamam champôs, as substâncias coloridas e perfumadas, que fazem espuma branca na cabeça dos Homens. Gostava de saber porque se sujam os Homens, em vez de deixarem a água fria descer pelo corpo, sem obstáculos.

Saí de debaixo do fio de água gelada para me secar. Tinha pouco mais de vinte minutos. Não convinha nada atrasar-me. A última vez que me atrasei quase que provoquei um golpe de Estado na Geórgia. Não me posso esquecer dessa mácula no curriculum. Só daqui a uns cinquenta anos, trinta se tiver sorte, é que será retirada essa mancha da minha folha de serviços. Enfim, coisas que não pudemos evitar.

O envelope negro estava na caixa de correio, como de costume. Olhei para o relógio pendurado na parede, tinha seis minutos para conhecer a missão do dia. Ou seria a missão da noite? Os raios de sol e as sombras lunares não existem no Limiar. Aqui o Tempo só interessa para não nos atrasarmos nas missões. No Limiar não existem calendários, embora todos os operativos saibam qual o dia, dos vários calendários humanos, em que estamos.

O nome do emissor vinha em branco, como sempre. Tinha esperanças que, por uma vez, viesse assinada por Ela. Algum dia seria a minha vez. A expressão “Pouca sorte” desfilou na minha cabeça! Tenho que aprender a ter mais paciência. Afinal tenho a eternidade pela frente.

No lugar do remetente, como sempre, vinha o meu nome e a indicação do meu espaço de descanso; para facilitar vamos chamar-lhe quarto. Acho que é assim que os humanos chamam, aos grandes cubos com uma pequena entrada, nos quais dormem em cima de uns paralelepípedos. Muito bem, no envelope negro vinha o meu nome, o número do meu quarto e o número de série da missão.

“J8 – 18.36.9”

Em segundos descodifiquei mentalmente o código. Dia 8 de Janeiro (“J8”), missão número 18.36.9. Já estive mais longe das 20 000 missões. Como o Tempo parece estar congelado quando a eternidade é a nossa meta. Perdi dois minutos com estes devaneios estúpidos e restavam-me somente mais quatro, antes de abandonar as descoloridas instalações do Limiar.

Vi a fotografia com muita dificuldade, mal conseguindo perceber os contornos do rosto. É a primeira vez, em décadas, que vejo um retrato tão desfocado. Alguma coisa deve ter falhado. Os nossos observadores, acho que em humanês se diz fotógrafo, são hábeis a tirar retratos. Não me compete a mim saber o que se passou. O Controlo Operacional Intermédio, através do Gabinete de Controlo de Retratos Humanos que resolva o problema.

A missão que me calhara em sorte, pelo que pude ler no ficheiro, era simples.

Nome: Samsara Butho 
Idade: 21 anos 
País: Índia

Tinha ainda dois minutos, antes de partir. Ao longo de mais de 18 000 missões raramente tinha saído da Europa. Contava na minha folha de serviços com seis idas à Geórgia, quatro à Arménia, duas ao Turquemenistão e ao Azerbeijão, uma à Arménia e outra ao Cazaquistão. A Rússia conhecia eu bem, especialmente durante as muitas viagens que fizera em 1917 e em 1943 – 1945, do calendário gregoriano.

Índia portanto. Não me lembro de ter visitado a Índia, em nenhuma das viagens anteriores. Acho que nem a China conheço… Dentro de um minuto terei que abandonar o Limiar e defrontar-me com a palidez da lua, que iluminará o Taj-Mahal. Se tiver tempo trago uma réplica de lembrança. Gosto sempre de trazer uma lembrança dos locais que visito em missão.

Túnica preta vestida (é impressionante como o preto nunca sai de moda!), capuz colocado e luvas a cobrir as mãos. Tenho ainda tempo para guardar o ficheiro, antes que o Limiar me expulse. Sei que quando voltar da Índia, o ficheiro não será mais do que uma memória. Mais um número na minha folha de serviços. Mais uma missão concluída e arquivada. É só para isso que existo. Sirvo para concluir missões que outros arquivarão em seguida.

Uma fenda luminosa rasgou a parede do meu quarto. O vento indiano agitou a minha túnica. A cidade de Kochi, situada no Estado de Kerala, bem no sul da Índia, não adormecera com o cair da noite. Os seus 600 000 habitantes corriam como abelhas, alimentando uma grande colmeia a que chamam Economia Mundial. Há muito que os humanos se deixaram escravizar por ideias...

Quando estamos fora do Limiar, o Tempo passa a ter importância. Senti a fenda que me separava do Limiar desvanecer, sem que nenhum homem ou mulher tivesse sequer dado por isso. Ainda bem que a maioria dos humanos não nos vê… Mesmo assim somos temidos e odiados, em quase todo o mundo. Se nos vissem, de cada vez que chegamos, seríamos, no mínimo, apedrejados. É melhor assim!

Apurei os meus sentidos, como fazem os caçadores. Conseguia sentir várias fendas abrirem-se bem perto. Numa cidade com 600 000 vidas há sempre muito a fazer. No espaço de três segundos pelo menos oito operacionais do Limiar surgiram, e isto só num raio de seis quilómetros.

Caminhei sem pressas pela estrada pejada de carros. A Índia era tão diferente do que eu imaginara. As ruas pareciam ter alma, atraindo-nos para as visitarmos. Como se fossem amantes traídas expulsavam-nos dos seus corpos de pedra e alcatrão, quando não as admirávamos. Se me distraísse muito passaria a minha hora e, uma vez mais, mancharia a minha folha de serviços.

Desci uma rua em direcção ao porto de Kochi. As Cheena vala, gigantescas redes de pesca montadas, permanentemente, em estruturas de madeiras, apenas usadas no porto Fort Kochi e na China, pescavam raios lunares, enquanto pousavam para a fotografia de seis turistas alemães, que embriagados juravam estar a ver camas de rede brasileiras. Gargalhei bem alto, mas obviamente nenhum deles me ouviu.

Acelerei um pouco a passada, acompanhado pelas águas do lago Vembanad. Na Europa as cidades também não adormecem totalmente com a noite, mas em Kochi a noite parece injectar adrenalina nas pessoas. Os gritos alegres das crianças, os corações acelerados dos namorados, a pressa dos comerciantes, a felicidade dos turistas parece despertar com a chegada da lua aos céus da metrópole.

Uma pergunta estúpida voou pela minha cabeça. Tentei sacudi-la com um movimento brusco. Abrandei o passo, para perceber se a pergunta me tinha deixado. Não houve qualquer resposta... Estuguei a passada de novo. A pergunta, escorregadia, voltou a assaltar-me as ideias. Voltei a refrear a caminhada para a poder travar. Acho que mesmo nós temos momentos de dúvidas idiotas.

Respirei fundo e segui em frente.

Entrei numa pequena rua, provavelmente uma das mais antigas de Kochi. Sentia-se o cheiro a História. Por ali tinham passado muitos suores. Olhei em redor. As poucas pessoas que passeavam entre as sombras eram simples. Ao contrário da frenética metrópole, aquela rua dormitava quase completamente. Senti uma grande paz descer sobre mim. Os bairros simples sempre foram os meus favoritos.

Terceira porta, quarta porta, quinta, décima, décima segunda, décima quinta. Era esta. Entrei sem bater à porta. Aliás, entrei mesmo sem abrir a porta de madeira coberta de humidade.

[continua...]


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