Monday, February 22, 2016

Hyderabad, ou ida a uma Kalkhora sem esperança!

Uma nota ao leitor: Num país como o Paquistão é sempre arriscado ter expectativas, porque as mesmas raramente se confirmam sendo ora goradas, ora ultrapassadas pela realidade. É talvez melhor esperar pouco, para retirar tudo de cada experiência. Ora se nem sempre chove em Tóquio quando uma borboleta bate as asas em  Nova Iorque, também, por vezes, o que era melhor, desejável, ideal, deixa de o ser...

A frenética Carachi que nunca dorme, mas que precisava e muito de fazer uma ou outra sesta, ainda me surpreende pela sua diversidade. Uma cidade que traduz, em não tão pequena escala, o que se passa no subcontinente em termos de composição étnica, religiosa, social, cultural e política. Carachi é como que uma manta de retalhos, tecida por bordadeiras com distintas vontades.

Carachi, capital da província de Sindh e cidade mais populosa de todo o Paquistão com (estima-se) quase 24 milhões de habitantes, não terá dado pela ausência temporária de sete dos seus habitantes não-nativos. Seguimos então os sete, em dois carros brancos, pouco passava das 15 horas, com destino a Hyderabad.

Antes da partida, a curiosidade do turista e o interesse do investigador lá descobriram que partiria rumo à antiga capital de Kalkhora (dinastia Sindh semi-autónoma do século XVIII) e antiga capital da província de Sindh, antes de Carachi arrebatar o título. Hyderabad dizem os censos de 1998, é a sexta cidade mais populosa do país e a segunda maior cidade de Sindh, logo a seguir a Carachi. E sem querer, os censos e Kalkhora teceram em mim expectativas...

Levámos menos de duas horas e meia a percorrer uma estrada com quase mais buracos do que pavimento; um trajecto que poderia fazer parte do próximo Paris-Dacar, até porque a distinta prova já não parte de Paris e já não chega a Dacar... Menos de duas horas e meia rodeado por uma paisagem inóspita, quase lunar, e pelo silêncio gritante de casas abandonadas pelo Homem e pelo Tempo.

Chegámos a Hyderabad bem perto das 18 horas com um programa bem definido: chá em casa de um dos sete que partiram de Carachi. Um jovem de Hyderabad que não queria perder a oportunidade de mostrar ao Professor Português a sua hospitalidade. Veio o chá, e os chocolates e os biscoitos de manteiga e a água. Veio tudo, menos a mãe, relegada à sombra do não-reconhecimento no seu próprio lar. Senti alguma vergonha, mas ali pouco mais podia fazer.

Segundo item na agenda: ver um pouco de Hyderabad.  Preferia ter ido em busca daquela mãe que não vi, do que ter saído para ver o que vi. Enquanto me falavam de como era simpático o centro da cidade os olhos dos meus seis companheiros de viagem ignoravam o que os meus olhos não conseguiam esquecer. Crianças, tantas crianças, que brincavam no meio de gigantescas pilhas de lixo.

Crianças, tantas crianças, que se entretinham com sacos de plástico e com pneus já sem outro uso que não a imaginação. Crianças, tantas crianças, com o rosto com mais tristeza do que esperança. E nós preocupados em encontrarmos um lugar onde comer algo, ou beber um café. E nós, a quem a infância não fora roubada preocupados com o agora, enquanto passávamos por quem não tivera o ontem.

Não pense o leitor que vou apontar o dedo ao Ocidente, ao colonizador, à Religião, ao que quer que seja. De pouco adianta apontar dedos, quando os olhos veêm crianças, tantas crianças, brincar entre Gizés de lixo e Coliseus de pedra e poeira. De pouco servem as culpas, num sítio que não perdeu apenas o esplendor da História mas também a sua esperança...

E, depois de falhada a tentativa de um café decente e de comer um wrap, lá seguimos para o terceiro objectivo: assistir ao casamento para o qual foramos convidados. Para mim era algo mais, ia assistir, pela primeira vez, a um casamento xiita no Sul da Ásia. Não foi o primeiro casamento segregacionista a que assisti (participei em dois ou três na Turquia), mas foi talvez aquele em que mais senti o peso da segregação.

Homens e noivo num salão e mulheres e noiva noutro salão numa noite que celebra a união do casal pareceu-me estranho. Como se celebra a união de dois, que passam a ser um, quando os dois não se encontram num só espaço? Como se celebra um novo momento na vida, onde passamos a ser um com duas vozes, se as duas vozes não se encontram unas? Como?

E enquanto o meu cérebro processava dúvidas, algo interessante se revelou perante os meus olhos. Enquanto, na Lusitânia, festejamos a união com quem conhece os que se unem, ali, onde a união se celebra de modo dividido, festeja-se a união com quem quer festejar a união. Abrem-se as portas à comunidade que precisa apenas de conhecer o noivo, o irmão do noivo, o primo do noivo, o amigo do primo do tio do noivo...

E aos poucos deixei de lado as questões, as expectativas tecidas de uma Kalkhora que já não existe, e apenas fruí o que acontecia. E veio a comida (saborosa, diga-se!), e a bebida (escolhendo livremente entre água, ice-tea, coca-cola e 7up) e a música. Vieram conversas em urdu, sindhi, punjabi e pashto que não entendi mas que encheram o salão. E quando a fome se saciou a festa cessou e logo regressámos a Carachi...

E enquanto percorriamos a estrada, coberta pelo vulto denso da noite, mas sentindo a trepidação de cada buraco e de cada elevação num pavimento regulamente irregular, deixei que o sono viesse. Mas ele não veio, talvez perdido no mesmo sítio onde ficou a esperança de Kalkhora. A mesma que não vi no rosto das crianças, de tantas crianças...

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