Tuesday, June 09, 2015

Eleições na Turquia ou o Sultão ainda sem trono!

A Turquia foi a votos para decidir a composição de uma nova legislatura. 550 mandatos ficaram à disposição dos partidos que ultrapassassem a barreira dos 10% de votos. Um estranho limite, em teoria democrático, imposto pelo AKP e que acabaria por "morder" o próprio AKP no seu calcanhar... Mas já lá vamos!

As eleições parlamentares na Turquia tiveram aquele "cheirinho" a plebiscito presidencial. Mas vamos a números: a maioria simples é alcançada na Turquia com 276 mandatos. O AKP tinha, antes das eleições, 311 mandatos. O AKP tinha como meta alcançar os 330 mandatos para poder submeter a aprovar uma série de reformas na Constituição da Turquia.

Durante a campanha as posições extremeram-se desde cedo. O AKP a querer governar sozinho, como tem feito nos últimos 10 anos, passou ao ataque em todas as frentes. O CHP centrou-se menos na campanha contra o rival directo (Ahmet Davutoğlu), focando-se no ataque ao Presidente Erdoğan. O MHP seguiu um pouco a reboque do CHP. E o HDP focou-se nas "minorias" e nas "franjas" sociai.

Vários temas ocuparam a fase de campanha nas eleições parlamentares na Turquia. Da economia, à guerra contra Daesh; da questão curda, aos casos de corrupção; do "estado paralelo" (como são conhecidos os apoiantes de Gülen) às tensas relações com Bruxelas. Mas nenhum destes temas teve tanto impacto como a reforma proposta pelo Presidente Erdoğan.

Erdoğan queria que o AKP passasse a fasquia dos 330 mandatos para impor uma agenda que levaria a Turquia a transformar o seu sistema Parlamentar, num sistema Presidencial. O homem que vive no polémico Ak Saray (Palácio Branco) com mais de 1500 quartos, quer ver confirmado o seu poder como verdadeiro timoneiro do país considerando que o Presidencialismo protege a Turquia.

Este é o mesmo Presidente que passou a usar guardas com trajes Otomanos em várias cerimónias oficiais; é o mesmo Presidente que tem delapidado a herança secular do fundador da República (Atatürk); é o mesmo Presidente que tem olhado cada vez mais para a Moscovo de Putin e menos para Bruxelas.

O mais extraordinário nem são os desejos do Presidente Erdoğan, mas o modo como o mesmo parece não entender que o Presidente está acima do jogo partidário. Se, como o Fidalgo acha, ao Presidente Cavaco Silva tem faltado imparcialidade, para Erdoğan a palavra imparcialidade é algo estranho, de difícil compreensão.

Durante toda a campanha o Presidente Erdoğan participou em comícios do partido, em actividades do partido, em deslocações do partido. A oposição queixou-se. A comunidade internacional falou, mas baixinho (não vá ele zangar-se e aproximar-se mais de Moscovo!) e o baile seguiu em frente. Chegou o dia. Os turcos votaram e... puf! A ilusão de Erdoğan desfez-se!

Na noite em que se almejava conquistar 330 mandatos, mais 19 do que os que tinham, o AKP perdeu 53 mandatos (258 deputados) e com eles foi-se a sua maioria simples. O CHP ganhou 7 mandatos (132 deputados); o MHP ganhou 28 mandatos (80 deputados) e o HDP ganhou 51 deputados (80 deputados).

O mapa político adensa apenas o que já se sabia. Os republicanos do CHP têm forte penetração nas zonas do Mar de Marmara e do Mar Egeu; os nacionalistas do MHP mais fortes na zona do Mar Mediterrâneo; o HDP  com domínio no Este e Sudeste da Anatólia e o AKP praticamente incontestado na Anatólia Central e no Mar Negro. Uma Turquia feita de blocos e menos unida do que Erdoğan gostaria...

As eleições foram também um NÃO claro aos planos presidencialistas, do homem que (não assumindo, claro) se vê como um Sultão dos tempos modernos, ao estilo de el-Sisi que se acha um neo-Faraó do Egipto. A derrota do AKP mostrou também que desprezar as minorias pode custar caro aos partidos do "arco da governação". O HDP deve muito do seu sucesso às minorias curdas, cristãs, arménias e LGBTQIA.

A noite eleitoral foi marcada por uma série de discursos triunfalistas, que apontavam o dedo ao Presidente Erdoğan e à derrota da sua "tomada de poder". Os líderes do AKP, sempre tão vocais, não falaram antes da segunda-feira de manhã. As mensagens poderosas foram substituídas por um fraco "o povo falou e nós saberemos ouvir". O que se segue então?

O que se segue é a incerteza! Não é certo que os quatro partidos com assento parlamentar consigam dialogar entre si para formar uma coligação. Sabe-se que o CHP gostaria de tentar uma tripla coligação CHP-MHP-HDP para expulsar o AKP do poder. O problema é que o MHP recusa governar com o HDP, muito por causa da questão curda e por divergências profundas no plano dos valores.

O HDP poderia dar ao AKP a super-maioria (258+80=338) que precisam para as reformas, mas os dois partidos encontram-se em posições tão extremadas que qualquer coligação estaria condenada ao fracasso no primeiro momento de tensão. E então? Dois caminhos são mais prováveis. 1.) O CHP aceita coligar-se com o AKP, correndo risco de ser penalizado em 2019. 2.) Eleições antecipadas.

O Presidente Erdoğan já veio dizer que compete aos partidos terem responsabilidade e sentido de Estado para negociarem uma coligação. Palavras fortes do homem que não percebe que um Presidente não pode fazer campanha pelo partido; palavras fortes do homem que durante anos governou "a solo"; palavras fortes do homem que as contradiz com actos. Aguardemos os próximos capítulos...

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