Tuesday, March 10, 2015

O dilema cubista do assassinato de Boris Nemtsov

O notícia da morte de Boris Nemtsov surpreendeu o mundo. E mesmo que alguns analistas se tenham fingido pouco perplexos, a verdade é que nada fazia antever a morte de Nemtsov. A via fácil de apontar o dedo a Vladimir Putin inundou os meios de comunicação social, com poucos a fazerem a questão simples: qual a vantagem para Putin desta morte?

Vamos por partes! 2014 foi o ano da reafirmação geopolítica de Moscovo. Enquanto o Ocidente "brinca" às sanções, a Rússia de Putin vai mostrando uma extraordinária capacidade de resistência. É verdade que a Rússia se ressentiu economicamente, mas é também verdade que se adaptou. Perdeu os mercados do Ocidente, mas ganhou os mercados nas "novas economias".

E mesmo no tal Ocidente perdido, depende de que Ocidente falamos... Porque Moscovo tem amigos em Belgrado, em Budapeste, em Nicósia e em Atenas. Tem admiradores (a caminho do poder) por Paris e por Madrid. E tem a cautela de Helsínquia e de Oslo. E se Tbilisi parece "perdida", Ancara olha com renovado interesse para Norte...

A Rússia de Putin que, diziam, ia colapsar economicamente em Janeiro está a chegar a meados de Março, com dor é certo, mas está a chegar sem o tal colapso apocalíptico que vai alimentando muita imprensa. A mesma Rússia que operou ganhos diplomáticos no Médio Oriente onde os derrotados da tal "Estação Árabe" foram a democracia neoliberal e os EUA.

Em 2014, inúmeros artigos e análises concordaram que Putin tinha demonstrado ser um estratega inteligente. Muitas das suas acções como a absorção da Crimeia e o apoio à implosão da Ucrânia são condenáveis, mas não deixam de mostrar inteligência estratégica... Ora porque iria um estratega como Putin mandar matar Boris Nemtsov?

Resposta rápida: porque era contestário do regime e um dos líderes da oposição. Verdade! Mas isso não moveria Putin a agir contra ele. Nemtsov, como a maioria da oposição na Rússia, sempre foi um epifenómeno de popularidade urbana com impacto em Moscovo, São Petersburgo e pouco mais. Ao mesmo tempo, a popularidade de Putin continua em níveis altos por toda a Federação.

Ora um Presidente popular, com uma oposição que se tem mostrado pouco capaz de mobilizar a sociedade russa (fruto do fatalismo eslavo?), não teme líderes como Nemtsov. Contra-questão: Mas antes de morrer, Nemtsov escrevera nas redes sociais a criticar Putin e o seu envolvimento no conflito ucraniano. Verdade! Mas 3/4 dos posts de Nemtsov nas redes sociais eram a criticar Putin. E assim a força deste argumento logo se esvazia..

Não sendo inteligente apontar automaticamente o dedo a Putin, também me parece pouco sagaz descartar o líder do Kremlin da "pilha" de possíveis suspeitos. Também não devemos descartar a hipótese de interferência externa (pois muitos ganhariam em criar instabilidade no Kremlin), como Putin de resto aludiu desde o início.

O que o Fidalgo acha estranho são os actuais suspeitos do acto. Se o assassinato de Nemtsov fosse uma peça de teatro, diria que o argumentista tinha pouca imaginação se alguma. A presente tentativa de culpabilizar os Chechenos, usando o argumento islamita-extremista, é, na melhor das hipóteses, rebuscada.

Os Chechenos são o bode expiatório óbvio, numa sociedade que sempre olhou para os povos do Cáucaso como "os filhos selvagens". E com o Charlie Hebdo ainda fresco (no Ocidente!), e a sombra do Estado Islâmico a pairar no ar (no Ocidente!), é fácil inflamar paixões mediáticas (para desviar a atenção) contra os seguidores de Allah. Mas fácil raramente quer dizer verdadeiro!

Então quem matou Nemtsov? Essa é a pergunta para a qual o Fidalgo não tem resposta, mas inclino-me a pensar num "spillover" do envolvimento de Nemtsov com a questão ucraniana. Não devemos ignorar que no cerne do conflito entre Kiev e as províncias de leste estão questões identitárias que ficaram por resolver, achando-se que progresso económico traria democracia (assim por magia!) e que a identidade nacional se homogeneizaria, só por que sim...

Nemtsov terá sido, tem em crer o Fidalgo, vítima não da sua condição de líder da oposição russa, mas do seu papel activo num conflito que vai para lá da geopolítica dos blocos (União Europeia vs. União Económica Eurasiática). É sempre possível, claro, que Putin seja o responsável mor de tudo, mas antes de optarmos pela acusação fácil (que facilmente se vira contra nós) tentemos olhar para o problema como Picasso faria: de todos os ângulos.


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