Friday, June 13, 2014

Uma Bulgária que ziguezagueia

A Bulgária, pressionada por Bruxelas e por Washington, anunciou que iria parar (por agora) a construção do South Stream, projecto de gasoduto liderado por Moscovo. A notícia ecoou na maioria dos media internacionais ocidentais como uma vitória, frente à Rússia que em Janeiro anexou a Crimeia... A mesma Crimeia de que os media deixaram de falar... Aceitação pelo silêncio? Ou novo Chipre?

A decisão de Sofia é, na verdade, apenas mais um ziguezague facilmente entendível, para quem vai acompanhando a vida política búlgara. A Bulgária, o Estado-membro mais pobre da União Europeia, vive momentos de instabilidade política há mais de ano e meio; com protestos (nem sempre pacíficos) não apenas em Sofia, mas em várias cidades da Bulgária.

A elite política não pode, por isso, perder apoios externos, quando os apoios internos são escassos. Foi por isso com normalidade que o Fidalgo viu a decisão da Bulgária e com anormalidade que viu o festival mediático feito em torno da decisão em causa.

A mesma Bulgária foi um dos primeiros países a assinar pelo South Stream quando o Nabucco (projecto concorrente ao consórcio liderado por Moscovo, e actualmente em estado semi-comatoso semi-lazarento) ainda fazia sonhar os tecnocratas de Bruxelas.

A Bulgária foi, de resto, dos países que maior disponibilidade mostrou para implementar o projecto, até porque sabe a Bulgária que convém ser amiga de Bruxelas (já que faz parte do Euro-clube) mas não convém hostilizar muito a vizinha Rússia... Ou corria o risco de implodir mais rapidamente do que a Ucrânia, dadas as fracturas sociais profundas e a fragilidade institucional que grassa pela Bulgária.

A Bulgária tenta por isso jogar ao estilo de Baku... Ora aplaude o Euro-Ocidente, ora acarinha a Mãe-Rússia. O problema é que a Bulgária não tem os recursos energéticos que permitem a Baku jogar tal jogo e por isso a cada ziguezague a Bulgária em vez de piscar o olho a um "dos lados", vai se apenas afastando dos dois parceiros com quem quer dançar um tango... Mas um tango a três não é tango!

Os ziguezagues de Sofia são também prova de que nem os Comunistas, nem os Eurófilos são fortes o suficiente para determinar, de vez, a posição daquele que já foi um poderoso Império... Os ziguezagues búlgaros fazem parte de um jogo, que a Sérvia (mais cautelosa) também vai jogando e que a Macedónia vai dando sinais de também querer jogar.

Os ziguezagues da Búlgaria demonstram que a entrada na União Europeia, para muitos destes países, faz-se menos por uma partilha de valores similares e mais por um provar de que a transição do pós-sovietismo para a pós-modernidade está completa.

A entrada na União Europeia é um "atestado de qualidade", portanto um fim, e não um começo; um início de jornada. E se este zigue correu bem a Bruxelas, o próximo zague (lá para Setembro/Outubro) será diferente...

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