Tuesday, February 11, 2014

O curioso caso da Gagauzia

A União Europeia ainda não recuperou do fracasso da Cimeira que firmou a "Parceria de Leste", em Novembro de 2013. Não recuperou, porque para sarar maleitas é preciso reconhecê-las e aos olhos dos tecnocratas da UE está tudo bem. É mais fácil fechar os olhos, mas o fácil não resolverá os problemas. É apenas isso mesmo: fácil!

Curiosamente, tendo em conta que tudo está bem, vemos Kiev ser disputada pela interferência de Bruxelas (dançando ao ritmo da batuta germânica), pelos "pacotinhos de promessas" de Washington e pela reacção musculada de Moscovo. E no meio de toda a poeira mediática, que em Portugal tende a não ser filtrada, tem escapado a atenção ao que vai acontecendo noutros lados... Digamos na Moldova!

A Moldova é um dos vários países renascidos com a implosão da União Soviética. Em jeito de resenha histórica, pode dizer-se que a Moldova surge como principado na segunda metada do século XIV (1359) e passado à condição de vassala-tributária do Império Otomano no século XVI, em 1538. No começo do século XIX, mais propriamente em 1812, o Tratado de Bucareste transfere a obrigação de vassalagem da Moldova do Império Otomano, para o Império Russo.

A Moldova renascida no final de Agosto de 1991 é apenas uma pálida imagem da Moldova antiga. Partes do anterior território Moldavo estão hoje inseridas na Roménia e na Ucrânia. A mesma Ucrânia das disputas... Esta Moldova "reduzida" conta ainda com duas regiões separatistas/autonomistas no seu território: a Transnítria e a Gagauzia.

A primeira tende a ser mais mediática, por isso falemos da segunda. A Gagauzia é um pequeno país com uma área geográfica maior do que as Ilhas Faroé mas menor do que as Ilhas Comoros. Para se ter uma ideia da dimensão, a Gagauzia equivale a cerca de 55% do concelho de Abrantes e é cerca de cinco vezes mais pequena do que o distrito de Santarém.

A população da Gagauzia é pouco maior do que os 155000 habitantes, a maioria dos quais (mais de 80%) de origem Gagauz, grupo étnico de origem turcófona e composto maioritariamente por Cristãos Ortodoxos. Na Gagauzia os Moldavos representam menos de 8% da população, os Búlgaros quase 5% e os Russos quase 2,5%. Mas porque interessa a pequenina Gagauzia, num post que começou por falar do fracasso de uma das mais ambiciosas iniciativas da União Europeia?

Porque a Gaugazia revela um novo fracasso da União Europeia! No momento em que as elites de Chisinau se preparam para aprofundar as relações bilaterais com Bruxelas, a população da Gagauzia organizou um referendo sobre a vontade ou não de uma maior integração com a União Europeia. Os resultados foram claros: 92,7% da população é contra uma maior aproximação da Gagauzia à União Europeia. E quase 98,4% defendem uma maior aproximação ao projecto russo de uma comunidade eurasiática...

A elite em Chisinau, nervosa com as reacções que poderiam vir de Bruxelas, apressou-se a qualificar o referendo de ilegal e disse que o mesmo era nulo e incapaz de produzir efeitos. Parece ao Fidalgo que o efeito está produzido, os Gaugazes não querem a instabilidade da desunida UE. Se é para se submeterem ao jugo de alguém, que seja ao de Moscovo onde, pelo menos, as regras do jogo são mais simples.

Os poucos especialistas e analistas do dito mundo Ocidental que tentaram ler o referendo, apressaram-se a culpar Moscovo de pressionar as populações. Mas ninguém conseguiu rebater o facto de mais de 70% dos mais de 155000 habitantes da Gagauzia terem ido a votos e desses, mais de 90% deram um chute na UE. Tentou-se minimizar o resultado, porque a região é pequena. Mas se a UE perde a Gagauzia, perderá também a Transnítria; a Moldova encolhe ainda mais e corre mesmo o risco de implodir.

A Gagauzia é geograficamente pequena, mas o efeito do seu referendo poderá ser maior, do que aquele que nos é servido pelos holofotes dos mainstream media. A Gagauzia é pequena, também o é a Suiça, mas o impacto do referendo poderá ser maior do que calculam alguns tecnocratas da UE. É que não olhar para o curioso caso da Gagauzia poderá custar a Ucrânia, a Bósnia-Herzegovina, ou mesmo a Sérvia, aos senhores de Bruxelas.


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