Monday, June 17, 2013

Troiki, troika e o fim do Paraíso...

Durante o Grande Terror, período que marca a governação de Estaline antes da II Guerra Mundial, os presos políticos eram julgados por trios (troiki) normalmente compostos pelo chefe local do NKVD (antecessor do KGB), pelo secretário local do Partido e pelo procurador. Os julgamentos conduzidos pelos troiki tendiam sempre a uma farsa em que o condenado tinha que confessar o que fizera e o que não fizera; uma farsa em que era lhe imposta uma pena, quase sempre capital...

Na Europa da União, onde se cantam aos sete ventos os Direitos Humanos, os julgamentos à la troiki seriam impensáveis... Ou talvez não. A troika, composta pelo FMI, pela Comissão Europeia e pelo BCE, tem também alguns vícios do seu antecessor: também obriga quem lhe pede ajuda a reconhecer o que fez e o que não fez e a assumir culpas de tudo: da doença, do medicamento, e da falta de ineficácia deste para curar a doença.

A troika, tal como o troiki, tende a assinar sentenças capitais, seguindo um modelo gasto, incapaz de produzir resultados, apenas mantido pelo verdadeiro autismo dos seus defensores. Mas agora que a troika começa a ver vozes de contestação erguerem-se, um pouco por todo o lado, começou a assistir-se a outro tipo de espectáculo deplorável: o apontar do dedo, ao colega do lado.

Primeiro foi Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, a apontar o dedo à Alemanha; culpando-a parcialmente pela ineficácia do plano. A ortodoxia rigorosa, quase Estalinista, em manter um plano punitivo de expiação dos pecados tem feito mais mal do que bem, se é que já fez algum bem, aos países do Sul. Durão Barroso, oriundo de um dos países do Sul e de olhos postos numa futura corrida presidencial, atacou a auto-nomeada Imperatriz da Europa que antes defendera, com afinco...

A Alemanha, que controla ideológica e politicamente o BCE, apontou o dedo à Comissão Europeia, sob a égide de Durão Barroso. Merkel, que vai a votos em Outubro, tem agora que se "desviar" da promoção da doutrina da Austeridade que não produziu nenhum dos efeitos esperados e acusa, sem apelo nem agravo, Durão Barroso e a Comissão que este lidera de manifesta incompetência e de imobilismo político.

A França, que se dizia contestatária mas que passou a vassala, alinhou com Berlim no ataque a Barroso. Mas tudo isto melhora. O FMI acusa a União Europeia pelos fracassos na imposição de um plano que, curiosamente, também fracassou na América Latina... O FMI que acusa a União é o mesmo FMI cuja líder (uma ex-ministra de França!) se encontra envolta num processo de tráfico de influências; mas é tudo gente idónea claro...

Com a troika a brincar ao "a culpa é dele", o Governo poderia tirar dividendos e transformar a sua política... Mas enquanto Vitor Gaspar for a coqueluche do Governo nada disso poderá acontecer. Enquanto o Ministro das Finanças mostrar uma fé inabalável nos méritos da Austeridade Cáustica, não se almejam mudanças realistas porque não precisamos de mais dogmatismo.

Mas nada mudará enquanto Passos Coelho não tiver coragem política para remodelar, a sério (como prometera antes!), o seu Governo. Nada se poderá transformar enquanto o Primeiro-Ministro não conseguir dispensar os préstimos de Gaspar, o tal que é muito credível lá fora e muito pouco amado cá dentro. Não aproveitar este momento é prova de soberba intelectual e de autismo suicidário. E assim não veremos uma saída deste carro que não vai apenas desgovernado...

O Fidalgo fica-se, por agora, por aqui...


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